sábado, 19 de julho de 2014

Sobre Dunga, CBF e o mesmo cheiro

Com a saída do técnico Felipão após a desastrosa Copa do Mundo do Brasil, as atenções estão voltadas para quem será o responsável por encabeçar o projeto de devolver ao país o título de melhor futebol do mundo, embora os ufanistas de plantão ainda considerem este o país do futebol. O nome da vez, pasmem, segundo apurou a ESPN, é o de Dunga, aquele que treinou o escrete nacional na africana Copa de 2010.
CBF estaria conversando com Dunga (Nelson Coelho/Diário de S. Paulo)
A simples possibilidade de recontratar não o capitão do tetra, mas o técnico da Copa de 2010, escancara o que todo mundo sabe, mas ninguém dos que têm o poder (plim-plim!), admite publicamente: não existe um projeto minimamente sério pelos lados da Barra da Tijuca. 

Seja quem for o escolhido, e pelos primeiros movimentos da cúpula da CBF (Marin-Del Nero), a tentativa de retomada do posto de número 1 dará com os burros n'água. O primeiro passo foi contratar Gilmar Rinaldi para ser o coordenador de seleções da entidade. Sabe-se que ele era, até poucos dias, agente de jogadores. Ora, não basta à mulher de César que seja honesta, tem que parecer sê-lo também. 

Del Nero e Marin, com o futebol brasileiro na cabeça
Ainda assim, não será a escolha do coordenador ou do treinador, simplesmente, que mudará este status quo que teve como ápice as duas lavadas levadas pelo time do Scolari. O problema é outro, bem pior. Os time pequenos, fornecedores de craques para os grandes, estão falidos; o dinheiro, que é pouco ante o que se arrecada, é mal distribuído; os times grandes estão com a base entregue a empresários e agentes preocupados apenas em ganhar dinheiro. 

Enquanto o 7 a 1 for tratado resultado de sete minutos de apagão, como tentaram apregoar Pareira e Scolari na cretina entrevista coletiva post mortemduvido que alguém faça alguma coisa porque quem manda, e isso a gente vê por aqui, não vai parar de tratar o futebol como mero produto de grade de TV. Como o torcedor-telespectador é pouco exigente e, portanto, suscetível a opiniões dos Galvões Buenos e Tiagos Leiferts de plantão, ou de outros jornalistas catequizados sob o Evangelho Segundo os Marinho, acreditarão que o futebol daqui é bom e que ver o Olodum na Copa é divertido.
Frieza dos números: Felipão, na coletiva após a
Copa de 2014 (Heuler Andrey/Mowa Press)
 
Voltando a Carlos Caetano, o Dunga, ele chegou à Seleção para ser um contraponto à esbórnia que foi vista na Alemanha, quatro anos antes, quando era Parreira o treinador. No entanto, o trabalho não foi bom, mesmo com os títulos das Copas América e das Confederações. Sob sua gestão, o Brasil jogava fechado e saía no contra-ataque, com a bola saindo diretamente dos pés acéfalos dos volantes para os laterais ou para a disparada do então serelepe Robinho. A Holanda acertou a marcação em apenas meio tempo e deu no que deu. Ou seja, a "renovação" não renovará nada. Vão apenas mudar a cobertura do bolo. O recheio será o mesmo. E não é bom.  

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Já está escrito

Por Vinicius Carrilho*

A “Copa das Copas” se encaminha para seu último ato. A grande final será apenas no domingo, mas já é possível cravar que a história está feita e será justa, premiando uma das melhores, se não a melhor, Copa do Mundo de todos os tempos.

De um lado, a vitória pode ser do trabalho, da organização, de quem se deve ter como espelho. O futebol alemão há 12 anos está entre os melhores nas Copas. Porém, em 2002 o acaso contribuiu. Sábios e serenos, os germânicos compreenderam que a sorte não bate à porta duas vezes e apostaram em algo maior, mais trabalhoso, porém de frutos certos: o trabalho.

Desde então, toda uma geração foi preparada. O serviço, porém, não se resumiu apenas a isso. O futebol por lá sofreu drásticas mudanças. Passados dois mundiais (nos quais ficou na semifinal), a Alemanha conta hoje com uma das ligas mais fortes e ricas do planeta e ela é toda administrada pelos clubes. A federação, preocupada exclusivamente com a seleção, deu tranquilidade a Joachim Löw, no cargo desde 2007. Com um time ótimo, os alemães, favoritos, podem ver todo este trabalho coroado com a taça dourada.

Do outro lado, a Argentina. Com um futebol interno tão desorganizado e pobre quanto o destas terras, o time albiceleste vem para provar que este esporte é cíclico e que pode demorar, mas uma boa geração sempre aparece. Se a defesa – que vai bem no Brasil, faça-se justiça – é o ponto fraco, os argentinos contam com muitos talentos em seu meio-campo e ataque e não se encabulam em utilizar o que há de melhor buscando o gol.

Porém, a história estará toda com Messi. De contestado por duas Copas medíocres a um provável candidato a ídolo eterno, igualando ou até passando Diego Maradona, La Pulga, como El Pibe, é um monstro, jogador raro, daqueles que aparecem no mundo a cada 30 anos.

Caso vença, ambos empatarão em mundiais. Também vão se igualar no protagonismo, é verdade, porém Leo conta a seu favor vencer sem qualquer contestação e com uma carreira muito mais limpa e vitoriosa do que a de Diego (o que não mancha e muito menos diminui seu brilhantismo). Indo para o campo divino, como gostam os vizinhos sul-americanos, seria a oportunidade perfeita de trocar uma vitória com a ajuda de “la mano de Dios” por uma com o auxilio de “la bendición del Papa”. Em resumo, vencer uma copa 28 anos depois e ainda no Brasil seria para Messi e para os argentinos um roteiro que nem Ricardo Darín, no alto de sua inspiração, conseguiria imaginar.

Aconteça o que for, seja como o destino quiser, a história já está escrita e ela virá com páginas douradas, independentemente do resultado. Um capítulo final justo, feliz e merecedor para o verdadeiro drama que foi toda a trama da Copa do Mundo no Brasil, desde que começou a ser escrita, em outubro de 2007.


Aos que ainda velam o jogo entre Brasil e Alemanha – acreditem, ainda tem quem sinta muito aquela derrota – o conselho é de que, ao menos por um domingo, se permita gostar de futebol, sem se importar com as cores que estiverem no campo. Será uma oportunidade única de ver e sentir a história passar sob suas retinas.  

* Vinicius Carrilho tem 23 anos, é jornalista, morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida 
fazendo humor, mas escreve melhor do que conta piadas.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O fundo do poço pode ser cavado

*Por Fabio Venturini

A Copa do Mundo apenas mostrou o que tem de pior no futebol brasileiro. Desde 2010 tinha muito medo de que se repetisse uma catástrofe na Copa do Mundo do Brasil. Com o Uruguai bem na África do Sul pensei em um novo Maracanazo ou uma derrota para a Argentina. A vergonha foi diferente e pior, pois se uma derrota para um rival vizinho é dolorida, tomar sete de qualquer adversário que seja é humilhante, desonroso. Porém, brasileiro nenhum pode reclamar de ser surpreendido ou achar que não estava anunciado. Não foi um pesadelo. Pelo contrário, foi um choque de realidade em quem tinha um sonho absurdo de ser feliz em cima de estruturas tão frágeis para o esporte.

Crônica esportiva – Quando era estudante de jornalismo ouvia que jornalismo esportivo era o reduto dos que não teriam condições de trabalhar em outras editorias. Achava absurdo, desrespeitoso. Hoje penso que é incorreto e generalizante, pois uma maioria absolutamente limitada intelectualmente e que sequer sabe fazer uma mínima análise da realidade de forma honesta mancha um setor inteiro do jornalismo. Aqueles "Pachecos" que adoram jargões e agora liderarão a caça às bruxas são os mesmos que em 2010 pressionaram a CBF para mudar tudo na seleção e excomungaram Dunga e Felipe Melo. Os mesmos que fizeram matérias e editoriais em 2011 para criticar a revista inglesa FourFourTwo por ter apontado todos os problemas do futebol brasileiro, como se fosse uma perseguição, não uma análise precisa. Pois bem, atendendo ao apelo do pachequismo liderado pelas Organizações Globo, em vez de ter um time pronto a partir da África do Sul para aperfeiçoar com novos talentos foi tudo recomeçado do zero. Em vez de melhorar a seleção e o esporte internamente, a CBF continuou seu caminho de transformar tudo num zaralho com jogos às 22h. A injustiça com a crônica esportiva, salvo algumas exceções, como a ESPN, se dá no sentido de que asneiras do mesmo nível saem das crônicas política, econômica, policial.

Organizações Globo – Se há o corrupto, devemos encontrar o corruptor. Quem faz de tudo para transformar futebol em um elemento da grade de programação com mera finalidade de garantia de audiência e alienação do telespectador é o grupo da famiglia Marinho. Antecipam cotas a clubes totalmente zoneados, prendem os clubes dirigidos por pessoas de conduta questionável, age como agiota para manter a propriedade sobre o futebol brasileiro. É dona da CBF, lidera as campanhas para troca de treinador, escolha do novo, elege os candidatos a ídolo nacional e seus capos se orgulham de dizer nos bastidores do futebol que podem escolher datas e horários de jogos porque é a TV quem paga por isso. Pois é, ao lado da sua subordinada CBF, as grandes responsáveis não por um 7x1, mas pelo estado de petição de miséria que se encontra o futebol brasileiro. E se um dia os clubes e campeonatos daqui acabarem porque estas duas entidades filhotes da ditadura assim conduziram a situação, a Globo não terá o menor pudor em comprar direitos de outros esportes que se encaixem na sua grade de programação. Nós gostamos de futebol, a Globo de poder. O que faz no esporte fará, a partir de 14/7, com as eleições.

Confederação Brasileira de Futebol – A mesma trupe está na CBF desde 1989, sendo que naquela época já não houve muita renovação do que vinha antes. Ricardo Teixeira liderou a Confederação em episódios como a mudança de fórmula durante campeonato para classificar o Flamengo para a segunda fase, salvação de fluminense (três vezes), Corinthians e Botafogo de rebaixamentos no campo, sucateamento desportivo e embelezamento estrutural às custas de compromissos governamentais com eventos esportivos de grande porte. Sabedor desde 2003 de que a Copa seria no Brasil, Teixeira e seus asseclas não se dignaram a preparar uma seleção decente acreditando no mito de que no Brasil nascem craques por bênção da natureza, não por condições sociais. Dedicaram-se à construção civil, ao turismo, à operação de entretenimento e deixaram o futebol nas mãos de dirigentes de clubes, federações e treinadores, enquanto a especulação imobiliária acabou com campos de várzea, empresários empurraram pernetas de escolinhas de futebol goela abaixo dos clubes grandes e os melhores talentos saíram do País aos borbotões antes de sequer jogarem uma única partida de primeira divisão do lado de cá do Atlântico.

Treinadores péssimos – Por falar na pior derrota, devemos nos lembrar da pior vitória do futebol brasileiro, em 1994. Naquela época havia no Brasil dois times que bateriam hoje em Barcelona e Bayern com desenvoltura. O São Paulo de Telê Santana era um dos melhores times do futebol mundial do século XX. O Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo tinha condições de sozinho ganhar a Copa realizada nos Estados Unidos. E fomos com Parreira retrancando até contra Rússia e Camarões, montando um time de brucutus que davam bicão para o Romário decidir lá na frente, assim como Felipão e Parreira tentaram fazer com Neymar este ano. Desde aquela vitória nos pênaltis contra uma Itália que tinha seus dois melhores jogadores (Baresi e Baggio) com os joelhos machucados, o “ganhar feio” virou regra e inspirou uma geração inteirinha de treinadores obsoletos, retranqueiros, desatualizados, marrentos e que foram campeões colocando camisas gigantes atuando como se fossem o Novorizontino. Felipão e Parreira têm culpa, mas deve ser dividida com outros. Enquanto a Argentina produziu Marcelo Bielsa, Tata Martino e José Perckerman, aqui no Brasil a crônica esportiva alienada elevou ao nível de grandes treinadores de futebol senhores como Muricy Ramalho, Celso Roth, Tite, Mano Menezes, Abel Braga e outros retranqueiros incorrigíveis.

No jogo, Felipão dormiu e acordou em 2002 – A extrema arrogância do técnico brasileiro ao achar que basta formar uma “famiglia” e usar autoajuda para ganhar Copa chegou ao nível do ridículo. Obsoleto, desatualizado, sequer teve a capacidade de entender que não poderia ir para cima do melhor time do mundo. Sacou uma escalação de Bernard como técnicos da década de 1960 que escolhiam os jogadores pelo estádio, para conseguir apoio da torcida local. Nem se a partida fosse na Ucrânia poderia colocar o jogador do Dínamo de Kiev para ser engolido miseravelmente pelo poderoso meio-campo alemão. Teve seu método emotivo-metafísico atropelado de tal forma pela racionalidade germânica que os jogadores alemães tiraram o pé em respeito ao país que tão bem os acolheram. Se não fora 10 ou 15x1 devemos agradecer ao povo da Bahia, onde está concentrada a Alemanha, e às belezas de Santa Cruz de Cabrália, não à obsoleta comissão técnica brasileira.

Sem torcida – Nos jogos do Brasil não havia torcedores brasileiros. Os estádios estavam cheios de VIPs que adoram fazer selfie na arquibancada e falar mal da Dilma. Quando a Alemanha fez o segundo gol uma porção de oportunistas que adora dizer que estava lá onde havia o mundo olhando abandonou o barco. Contra o México parecia que o jogo era em Guadalajara, não em Fortaleza. Graças às prioridades de Globo e CBF tivemos uma Copa do Mundo no Brasil em que a seleção local não atuou no Maracanã e o torcedor não pode ver os jogos para dar lugar a um bando de coxinhas que adquiriram ingressos em meio a uma máfia de vendas selecionadas que está sendo desmascarada pela Polícia Federal, como já havia sido denunciado na imprensa inglesa.

Torcedor não cidadão – Foram 12 “arenas” construídas ou reformadas. Em breve teremos de volta um campeonato horroroso, com jogadores ruins ou decadentes e que a qualquer momento é decidido pelo Tribunal Protetor de Cariocas Rebaixáveis. Criciúma é candidato a salvar o Flamengo da Série B enquanto o rebaixado salvo fluminense disputará o título. A justiça do campo fará com que os tricolores do Rio retirem título e vaga em torneio importante de paulistas que calaram pelo descalabro feito com a Portuguesa. E o torcedor doutrinado pelo pachequismo global bate palmas a tudo isso. Acha bonito ganhar estádio com dinheiro público e calote inserido no planejamento, não se escandaliza com torcida organizada servindo de milícia antimanifestação, não se opõe à construção de quarto estádio em cidades com três clubes, como Recife e Natal, cala quando pessoas morrem na Fonte Nova, apoia a retirada dos pobres das arquibancadas para encher de coxinhas nas cadeiras das “arenas”. Há muitos responsáveis que hoje querem atitudes do governo ou de dirigentes.
  

O futebol brasileiro está no fundo do poço. Não é de hoje, deveriam ter percebido quando as principais lideranças eram Juvenal Juvêncio, Andrés Sanches e Marco Polo Del Nero, sucessores de Mustafá Contursi, Alberto Dualib, Ricardo Teixeira e Eurico Miranda. Sinceramente, 7x1 é hoje o menor dos problemas do futebol no Brasil, pois quantifica até modestamente a diferença entre a estruturação do futebol no Brasil, paraíso dos canalhas, e na Alemanha. E no sentido que está tomado é sim possível cavar o fundo do poço. Plim-plim.

* Fabio Venturini é jornalista

terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobre trabalho e soberba

Quando o Brasil venceu com sobras a Copa das Confederações, vendeu a ideia de que o time estava pronto para a Copa. Afinal, venceu jogando bem e desbancou, com um indiscutível 3 a 0, a toda poderosa Espanha, àquela altura a mítica campeã mundial e bicampeã da Eurocopa.

Mas não estava. Não só do ponto de vista técnico, mas comportamental. Além de não ter apresentado nenhuma evolução técnica de tática desde então, o Brasil cometeu o maior dos pecados para quem tem uma competição como a Copa do Mundo pela frente, ainda mais em casa: acreditou que estava.

Felipão convocou um time absolutamente cru para o Mundial. Acreditou que Neymar e o Hino Nacional garantiriam a conquista do sexto título mundial. Desde que o time se apresentou com 18 dias apenas para se preparar para a Copa, uma esbórnia se instaurou na Granja Comary. Em vez de treinar, o Brasil ficou fazendo sala para a Rede Globo, que fez o que quis em Teresópolis. Poucas foram as vezes que o time treinou de verdade.

Com o passar dos jogos, a evolução, que seria natural, caso treinasse de verdade, não aconteceu. A Seleção não se encontrou como time em momento algum. Só que a comissão técnica e a dona da alma nacional venderam uma ideia diferente, de que o time já tinha decolado.

No jogo contra o Chile, o que se viu foi um time apavorado, desequilibrado psicologicamente, que já ficou no lucro por ter passado nos pênaltis. O jogo seguinte aconteceu seis dias depois. SEIS DIAS! E quantas vezes o time titular treinou? UMA só. O resto foi folga ou conversa.

Até funcionou, pois o Brasil entrou com sangue nos olhos, embora o futebol em si tenha sido pobre. O time do Felipão apresentou muita luta, marcando alucinantemente a saída de bola colombiana e não deixando o ótimo time dirigido pelo argentino José Peckerman respirar. Quando o gás acabou, levou sufoco, mas passou. E todo mundo achou que, contra a Alemanha, era só repetir a fórmula, que a vaga na final estaria garantida. 

É bobagem achar que a Seleção perdeu a segunda Copa em casa porque deu tudo errado na semifinal do Mineirão. Perdeu porque não trabalhou, porque não se preparou como deveria. Porque o experiente Felipão não deu suporte para que Neymar não fosse a única esperança da torcida. E perdeu porque acreditou que a camisa e a torcida que é brasileira-com-muito-orgulho-e-com-muito-amor seriam suficientes para ser campeão.       

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Os vilões, a vítima e a testemunha

Por Vinicius Carrilho*

Não há nada como uma Copa do Mundo. Isso é um fato e o mundial que vivemos neste ano prova a cada dia tal afirmação. Diria Nelson Rodrigues que “sem paixão não dá nem pra chupar um picolé”. Portanto, começo dizendo que esse papo de imprensa imparcial não existe. Quem escreve as letras dos textos, a voz que ecoa pelo rádio ou aquela pessoa que surge na sua TV é um humano e, como tal, carrega consigo emoções, lembranças, preferências, ideologias.

Porém, tal situação não isenta os profissionais de comunicação de um dever básico: a responsabilidade. Em uma dessas passagens da vida, ouvi algo que sintetiza bem o que nós, jornalistas e comunicadores– principalmente os de grandes veículos – deveríamos sempre ter em mente: cuidado para não usar uma bala de canhão tentando acertar pardais.

O caso da contusão de Neymar é emblemático, assustador e triste. Em pouco mais de 24 horas ouvi coisas como: “covarde”, “ele deveria sair algemado” e “lance brutal” sendo atribuídas à fatídica falta cometida por Zúñiga, que acabou tirando o brasileiro do restante do torneio.

No ápice do circo montado em torno da lesão, Luciano Huck, em seu programa de entretenimento, resolveu tratar de futebol. Na verdade, mais especificamente lamentava a lesão de Neymar. Ao vivo, o comunicador, falando para todo o território nacional, abriu seu programa chamando Camilo Zúñiga, profissional do futebol, a quem provavelmente o apresentador sequer conhecia até horas antes, de: “colombiano imbecil”.

Mais tarde, no mesmo “show”, Lais Sousa, atleta brasileira, vitima de um brutal acidente no início do ano, foi entrevistada e perguntada sobre o acontecido no dia anterior. Assim como Neymar, ela teve uma lesão na coluna. Porém, com uma “”“pequena””” (com infinitas aspas) diferença: a jovem de 25 anos, como dito antes, vítima de um ACIDENTE, ficou tetraplégica e provavelmente nunca mais poderá praticar ginástica artística ou um esporte de inverno.

Como uma intervenção divina, vindo como um sopro de racionalidade em meio aquela loucura toda, José Luiz Runco, médico da Seleção Brasileira, entrou no ar e disse que a lesão de Neymar era leve, de recuperação fácil e que não traria qualquer sequela ao jogador e ao cidadão Neymar Júnior. Ele apenas não jogaria mais o mundial por não haver tempo hábil para uma recuperação. Um verdadeiro tapa em tudo que se vinha pregando desde então.

A histeria e balburdia criada por jornalistas, comunicadores e formadores de opinião causou uma reação em alguns cidadãos que não possuem a menor condição de viver em sociedade. Por todo o canto, adjetivos pejorativos, preconceituosos e criminosos à Zúñiga poderiam ser ouvidos ou lidos. Tudo, alimentados por quem tem o acesso à palavra.

No mais triste dos episódios, uma rede social do lateral foi invadida por “brasileiros”. Lá, escolheram uma foto onde a filha dele, de apenas quatro anos, mandava um recado ao pai. Ali, mensagens como “Ela eh outra bosta igual o pai" (sic) e “menina vai ser estuprada” podiam ser lidas a quem quisesse e tivesse estômago para tamanha nojeira.

Sempre fui - e sou- contra atribuir atitudes de terceiros à mídia. Não me parece normal que uma pessoa se permita ser manipulada e ainda assim não seja a única culpada por isso. Porém, neste caso, a imprensa causou a criminalização de um cidadão com cavalares doses de preconceito e exagero.

Se houve ou não a intenção de machucar Neymar (e eu, particularmente, vejo com bastante clareza de que não houve), apenas Zúñiga e sua consciência podem responder com certeza. Ninguém sabe o que se passou ali e muito menos o que pensava o colombiano naquele momento. No fim, a verdade é que o vilão criado para a história virou vítima. Neymar, a vítima – e que nada tem a ver com o que houve – uma testemunha de um show de horrores criado ao seu redor. E os “torcedores”, testemunhas de todo o fato, no fim das contas, são os bandidos de toda essa trama. E a coautoria de tudo é da imprensa.

Ao torcedor, claro que com todas as limitações do bom senso, é concedida a licença (nada) poética do exagero. Ao profissional da mídia, não. E não é por um simples motivo: a palavra pode ser a pior e mais cruel arma da humanidade. Ela mata aos poucos e sem deixar ferimentos aparentes. E nós, pagos para reportar, contar histórias, somos pessoas que temos acesso a tal armamento e por isso deveríamos ser capacitados para manuseá-la.

Daqui pra frente, fica apenas a esperança de que sejamos mais responsáveis e conscientes do poder de uma palavra.

* Vinicius Carrilho tem 23 anos, é jornalista, morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida 
fazendo humor, mas escreve melhor do que conta piadas.