sábado, 28 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 33

*Por Humberto Pereira da Silva

Foto: Icon Sports

Diz-se que o Flamengo perdeu o título da Recopa ao ser superado no Maracanã pelo argentino Lanús nesta semana. Conceitualmente, para que algo seja perdido, é necessário que esteja na posse de alguém. Não é um caso quando existe uma disputa.

Conceitos à parte, se o desfecho, como a coisa parece indicar, for a queda do treinador Filipe Luís, modéstia à parte, e como um bom filósofo, eu posso fazer um afirmação categórica: o Flamengo é menor que o Palmeiras - para comparar com o seu rival do momento. Ou não age como grande que pressupõe que seja. 

O dinheiro que gira em torno do Rubro-Negro é uma espécie de canto da sereia: ilude, mobiliza toda sorte de expectativa tanto quanto o tempo todo é fonte de engano. Administrar altos investimentos requer habilidade pra lidar com nível altíssimo de pressão, e isso implica lidar e contornar crises que pelos investimentos em jogo são sempre estratosféricas. 

Com investimento bem menor, mas expectativas também altas, notamos nesses últimos sete anos a soma de títulos do Palmeiras, mesmo há dois anos sem conquistas, e vemos como está forte e com Abel, cuja permanência sequer é discutida, apesar do ano em que o ataque as taças falhou. Mesmo as derrotas para o (esse sim rival) Corinthians não colocou em cheque a manutenção do trabalho da comissão técnica capitaneada pelo penafidelense. Isso dá o sentido da tal superioridade do "projeto" do Verdão sobre o do Fla - se é que há algum. 

A reação, para mim previsível, à derrota para o Lanús parece dar ponto final a algo que deveria ser habilmente contornado. Derrotas são ingredientes inextrincáveis no futebol. Lidar com elas é fator de engrandecimento e superação. Mas, no caso, agora, Filipe Luís está completamente à deriva. 

O que é notável aos meus olhos? Seria uma situação para que, com a superação, ele mostrar a maturidade de um grande técnico, cuja maturidade só virá com as vitórias (que já tem) e com as derrotas (que também já as tem). Essa situação no entanto parece ter sido implodida. Sem ser vidente, evidentemente, o prazo de validade dele é uma eventual derrota no Fla-Flu na final do Campeonato Carioca. 

Para a altura do sarrafo estabelecida por imprensa, clube e, por conseguinte, a torcida, o Campeonato Carioca e a Recopa são torneio de importância secundária. Mesmo assim, o clima criado, tenho quase certeza, é irreversível. Ao contrário do Palmeiras, que nunca devemos esquecer, foi seu adversário vencido na final da Libertadores (este sim de importância indiscutível), o Flamengo consegue pensar que apaga incêndio com querosene. 

Sobre Filipe Luís ser um bom técnico para além das bobagens de torcedor que escala assim e assado, e de comentaristas que são incapazes de ver que discussões sobre esquemas A ou B são dados de superfície, esse seria o momento ideal para ver qual seria a solução encontrada pelo treinador. Essa possibilidade de possível saída me parece foi solapada.  

Para ficar no clichê, o jovem treinador perdeu o comando, não tem mais domínio algum da situação. E bem entendido não porque é bom ou mau técnico, mas por que o Flamengo, ao contrário do Palmeiras, é algo como a mancha vermelha no planeta Júpiter: um turbilhão que se mantém ativo há séculos com ventos que na Terra transformariam em pó, em questão de segundos, o Monte Everest.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O engajamento e a permissão para odiar

O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da
partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista

Na semana que passou, casos de racismo e misoginia ocuparam lugar de destaque no noticiário esportivo, com os lamentáveis acontecimentos nos jogos Benfica x Real Madrid e Red Bull Bragantino x São Paulo. Como ocorre com tudo o que é relevante, os temas dominaram as discussões também nas redes sociais. 

Antes de retomar o tema, cabe uma contextualização: que a forma de comunicar mudou, todos aqui sabem. A inclusão digital, as redes sociais e o acesso à internet de alta velocidade possibilitaram que a opinião e a informação, chamados por aí de "produção de conteúdo", possam ser feitas por qualquer pessoa munida de um aparelho celular com acesso à rede mundial de computadores.

Mais gente gera conteúdo, mais gente engaja, mais gente lucra. O jogo é este e está tudo certo. O problema é ser desonesto em troca de engajamento.

Alguns perfis, ao menos entre os que tentam se passar como sérios, têm uma linha editorial progressista. Dos que eu conheço, a maioria se enquadra aqui. Muitos se posicionaram, o que fez com que uma horda de trolls barulhentos saísse do esgoto para vomitar ódio e preconceito. Coisa de gente covarde, que não mostra a cara e se esconde atrás da tela do celular. Pessoalmente, duvido que tenham coragem para bancar esse monte de merda que o ambiente online os deixa a vontade para ser.  

No entanto, o mesmo perfil que defende as vítimas permite toda sorte de imundícies nos comentários. Deixa todos lá, um por um. Pelo engajamento, dá palco, microfone e amplificador a quem deveria ser combatido. 

Ao menos, que sejam honestos e deixem claro que, por ganharem com isso, não apagam os insultos, tampouco bloqueiam e/ou denunciam seus seguidores que rezam para pneu e, nem é preciso explicar por quê, não deveriam ter esse espaço. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo

Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".

Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na suposta vítima.

Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse - não é com pescoço alheio que se exige justiça -, responsabilizou o brasileiro, apontando-lhe o dedo pela forma como comemorou seu gol, como se o próprio Mou não tivesse feito o mesmo reiteradamente em partidas escaldantes.  

Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior a trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão pela parte vermelha da Segunda Circular.

Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Valdo, Mantorras e tantos outros. 

O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo? 

É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.

Nada justifica o racismo.

Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é o ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas, cujos maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.

Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo