sexta-feira, 26 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 6 - Escolher ou não escolher, eis a questão

*por Humberto Pereira da Silva


A Copa do Mundo é realmente um momento de fortes paixões. Para o jornalismo, se eu pousasse de ombudsman, recomendaria sempre lembrar que não há nada como um dia após o outro. 

As atuações de Matheus Cunha contra Haiti e Escócia; os 15 minutos de um Neymar trôpego em seus (poucos) reflexos, e Endrick desapareceu. Uma má atuação de Matheus Cunha no jogo seguinte e tudo muda.

O que, de qualquer forma, em meio a tantas manifestações apressadas não se devia perder de vista é: a Alemanha impôs um portentoso 7 a 1 em Curaçao, na maior goleada desta Copa até o momento.

Curaçao, com heroísmo, arrancou empate de 0x0 com o Equador, que nas Eliminatórias sul-americanas ficou à frente do Brasil - mesmo nossos não-vizinhos de continente tendo sido punidos com a perda de três pontos.

Classificada, a Alemanha pegou  um desesperado Equador que, com "surpreendente" vitória sobre a poderosa tetracampeã - e sinônimo de eficiência -, se classificou para a novíssima fase de 16 avos-de-final.

A ainda precoce história desta Copa e a História deviam ensinar que falas apressadas são pulverizadas no dia seguinte. E daí que adversários, estágios e contextos são diferentes? Pouco importa.

Dezenas de mesas-redondas, redes sociais e em conversas banais na esquina e o assunto: antes da definição do adversário, seria melhor para o Brasil ter esta ou aquela seleção no caminho do Hexa?

Escolher adversários, tentar escapar de outros, é uma das falácias recorrentes da imprensa e da torcida. No caso,  a falácia da projeção apressada. 

Para o Brasil, na fase 16 avos-de-final, é melhor pegar os Países Baixos ou o Japão? Na sequência da Copa, é melhor nas quartas-de-final ter pela frente uma França ou uma Alemanha? A galinha sequer foi vista e já discute-se como preparar o ovo.

O que a História devia ensinar? Em 2006, a celebrada geração campeã do mundo quatro anos antes cumpria um ciclo de inquestionável dominação global, três Bolas de Ouro no elenco e quatro vitórias em outros tantos jogos até então na Copa, e teve pela frente uma França que, aos trancos e barracos, chegava à terceira fase. 

A História todos sabemos.

O que deveria ser óbvio, mas é enigmaticamente esquecido por causa das paixões? Temer enfrentar uma suposta seleção forte no meio do caminho é admitir temer essa mesma seleção numa hipotética final.

A coisa não para no temor. Eis a ironia do destino: eliminar uma seleção forte no meio do caminho e chegar à final com outra seleção forte e sabe-se bem a força da seleção. Agora, eis a ironia, sem ter tido um teste forte antes como supor a força da seleção justamente no jogo final?

O caminho para o título mundial é cheio de momentos inesperados, surpreendentes. Na Copa de 2022, a Argentina esteve por um fio em todos os jogos, a todo momento, até o último pênalti, literalmente. 

A história, todos sabemos.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 5 - a rabugice, a expectativa e a vitória

*por Humberto Pereira da Silva


Juca Kfouri, sobre o jogo contra o Haiti, fez um comentário que gostei, e que foi indireta para alguns ao lado dele na bancada UOL, que silenciaram e não vestiram a carapuça: é ranzinzice reclamar da vitória. 

Juca me fez lembrar as celebradas seleções de 58, 70 e 82. Essas seleções históricas enfrentaram País de Gales, Romênia e Nova Zelândia. 

O País de Gales, um nada no futebol, e o jogo mais difícil em 58. O jogo contra a Romênia em 70 praticamente é esquecido na campanha pro Tri. E a Nova Zelândia em 82, para uma comparação mais próxima, não era muito melhor que hoje o Haiti.

Não basta vencer, há de fazê-lo com sobra, com propriedade. Em 50, é bom lembrar, o silêncio que tomou conta do Maracanã a partir do gol de empate do Uruguai, cujo resultado ainda servia para que o Brasil fosse campeão do mundo pela primeira vez, deveu-se à expectativa de submeter os vizinhos cisplatinos às goleadas anteriores, contra Espanha (6 a 1) e Suécia (7 a 1). E deu no que deu. 

Sobre o jogo contra o Haiti,  ainda, o segundo tempo foi alvo da ranzinzice. Nele, o futebol e seus caprichos, Endrick entrou aos 14 minutos do segundo tempo. Com os acréscimos, jogou exatos 36 minutos. 

E, impressionante, praticamente a única vez que tocou na bola e fez gol, que por milímetros foi anulado. Mas então por milímetros e a ranzinzice ficaria entre extremos. 

O gol de Endrick sendo validado, quem falaria mal da atuação contra o Haiti? O lado B, contudo. Como dizer que com Endrick em campo o Brasil não teve o desempenho do primeiro tempo?

Acho que até sem essa intenção Juca lembra o quanto uma partida de futebol não se resolve na mera circunstância em que goles são marcados. Ou até anulados por milímetros.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 4 - O 'Caso' Endrick e a aposta

 *por Humberto Pereira da Silva


Em época de Copa do Mundo, tantos e mais tantos escalam a seleção. E esses tantos e mais tantos têm por evidente que a escalação do técnico é absurda. Basta ser diferente, como recorrente é. 

Quem escala a seleção tem por absolutamente certo que vê o que o técnico não vê por incompetência, ou interesses escusos - neste caso, Lacan certamente usaria este tipo de comportamento no desenvolvimento da sua Teoria do Espelho. 

Uma coisa que acho legal no futebol, e que jamais devia ser esquecida: com perdão pela redundância, futebol é um jogo. Novamente, peço perdão pela redundância: a condição para que um jogo seja jogado é que quem joga faz uma aposta. 

Tá chato? Preciso pedir perdão mais uma vez pela redundância: quem aposta, ao apostar, deseja ganhar com a aposta feita, e só se ganha numa aposta quando se pode perder.

Portanto, escalar a seleção é uma aposta. Escalar Endrick é apostar.

É importante não esquecer um dado nessa aposta: um torcedor ou um "expert" da crônica esportiva não tem o poder na decisão final da escalação. Esta cabe exclusivamente ao técnico, que é quem fica com o ônus das suas escolhas. Pior: dando certo, é pago - e bem pago - para isso; caso contrário, passa de bestial a besta, como diria Otto Glória, em questão de segundos.  

Não consigo escapar das redundâncias.

Mais um dado que vale extrair: é impossível imaginar o Brasil numa Copa do Mundo sem uma única polêmica, real ou criada, que apimenta discussões, alimenta todo tipo de interesses, desperta paixões.

Endrick é um desses casos desta Copa. Apostar que sua escalação é inquestionável para um melhor desempenho da seleção é o que tantos e mais tantos torcedores e "experts" em futebol apostam.

Com tanta gente apostando, faço também minha aposta: escalado, se realmente o desempenho de Endrick for determinante para uma caminhada vitoriosa da seleção, nada menos que o título mundial, ele despertará a memória de que sob pressão a escalação de Pelé em 1958 foi uma aposta de Vicente Feola.

Essa é a minha aposta. Contudo, sou um jogador compulsivo e faço outra: escalado, se o resultado em campo com a presença de Endrick não for o esperado, tantos e mais tantos torcedores e "experts" em futebol SE ESQUECERÃO que apostaram nele.

Como tantos e mais tantos, estimulado a falar sobre um entre outros casos que geram discussões em época de Copa do Mundo, não sou diferente e também aposto.

Sendo como tantos e mais tantos, contudo, há um detalhe que jamais escondo quando aposto: não escondo que escondo uma carta embaixo da manga da camisa.

Regra de ouro a ser seguida por quem entra num jogo: nunca apostar todas as fichas e, com isso, ter certeza absoluta de que ganhará. As circunstâncias de um jogo, de qualquer jogo, podem exigir uma carta escondida sob a manga da camisa.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 16 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 3 - O dilema CR7 e a seleção de Portugal

*Por Humberto Pereira da Silva

(Foto: Alexandre de Sousa / ZUMA Press Wire / Imago)

A geração atual de Portugal, campeã da Liga das Nações da UEFA no ano passado, cintila como a mais brilhante da história do futebol português. Parte significativa desse escrete se impôs nos principais times das ligas mais disputadas da Europa, de modo que, mesmo não entrando na Copa com favoritismo incontestável, é inegável que o desempenho de Portugal gera grande expectativa. Mais: sabendo ser arriscado fazer uma afirmação assim, não tenho na memória outra seleção portuguesa que tenha entrado numa Copa do Mundo entre as quatro destacadas favoritas ao título mundial.   

Ao longo dos últimos 20 anos, de fato, o futebol português saiu da periferia mais longínqua da Europa para o centro das atenções. Por isso, considerado esse período de duas décadas, quando não se tinha propriamente expectativa de que Portugal fosse tão longe, para esta Copa, caso não vá, será realmente frustrante. 

Bem, vale então assinalar que o avanço do futebol português rumo ao centro das atenções, para além de todas as mudanças estruturais decorridas no futebol do país, foi protagonizado por um personagem central. Seu nome? Cristiano Ronaldo. Desnecessário dizer que se trata de um dos maiores atacantes da história do futebol. Desnecessário dizer que ele mobiliza atenções desmedidas desde que despontou para o mundo na Copa de 2006.   

Antes dele, Portugal havia se qualificado às fases finais dos principais campeonatos de seleções em 1966, 1986 e 2002 (Copa do Mundo), e em 1984, 1996 e 2000 (Eurocopa); depois, não falhou nenhum apuramento, marcando presença consecutivamente desde 2002.

Entretanto, ele é o nó. Paradoxalmente, o principal jogador português, um dos maiores da história, é o maior problema de Portugal. E, sobre o uso da palavra “problema”, faço questão de não pôr aspas, nem usá-la como recurso retórico. Cristiano Ronaldo é para mim um problema seríssimo. Faço uso dessa palavra, portanto, em sentido literal.   

Em 2022, obviamente quatro anos mais jovem, e ainda um atacante cujo poderio não se podia subestimar, Cristiano Ronaldo em campo e fora dele foi um personagem desestabilizador. Portugal naufragou naquela Copa em grande parte devido à presença dele, que sob enormes controvérsias, aliás, acabou aquela competição na reserva. Principalmente, assim entendo, sua postura exageradamente individualista gerou tensões que tiveram como desfecho a decepcionante participação portuguesa no Catar.   

Vejamos, então: 2022 foi esquecido? Denega-se seu comportamento naquela Copa? Convém lembrar o episódio no qual levou consigo para dentro do estágio na seleção portuguesa a sua crise com o Manchester United, a ponto de, em novembro daquele ano, ter veiculada uma entrevista - sem outro adjetivo melhor - desastrosa, na qual desanca seu clube e seu treinador na ocasião, o neerlandês Ten Hag, o que culminou na sua saída de um distintivo no qual já era uma lenda

Não se extraiu nenhuma lição? Agora, 2026, com a lembrança de 2022, considero ser impossível subestimar Cristiano Ronaldo como problema. Quatro anos mais velho, por óbvio, sem o mesmo condicionamento físico e técnico, para além dos 40 anos e atuando em uma liga periférica, como o vaidoso português se comportará?

Literalmente, se ele apagou o que aconteceu em 2022, não há como esconder que ele é um grande PROBLEMA para que essa brilhante geração portuguesa, mesmo não sendo campeã, repita campanhas como a de 66 e, ironia do destino, de 2006, quando justamente CR7 despontou para o mundo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 2 - a era das seleções globalizadas

 *por Humberto Pereira da Silva

El Ounahi - último à direita, dos que aparecem à frente, é o
único nascido em solo marroquino (Foto: Getty Images)

A globalização do futebol a partir da década de 1990 gerou um fenômeno: transformou grandes clubes em poderosas superpotências no mercado. Desde então, submetidos aos mais diversos interesses comerciais, elencos de grandes equipes são multinacionais, e assim sendo concentram os melhores jogadores do planeta. 

Mais ainda, a "cooptação" de um jogador ainda em formação retira qualquer possibilidade de identificação entre ele e seu país de origem. Talentos promissores  só se tornam conhecidos quando explodem nas ligas mais poderosas da Europa. Na seleção brasileira atual, Igor Thiago, titular na estreia do Brasil, praticamente inexistia para quem não acompanha a Premier League. Da mesma forma, Roberto Firmino era figura praticamente anônima entre os jogadores que vestiram a "Amarelinha" em 2022. 

A internacionalização das grandes equipes, claro, é um fato consumado há pelo menos três décadas, com o advento da Lei Bosman1. Nenhuma novidade, portanto, vermos jogadores que se projetaram no exterior sem qualquer passagem notável no país.

A novidade é sobre o sentido de nacionalidade numa competição que não envolve clubes e sim NAÇÕES. Essa Copa, assim me parece, sedimenta uma mudança que já vem ocorrendo,  mas que não é alvo de discussão: a pulverização do sentido de seleção nacional. 

De modo bem casual, colhi diversos jogadores que optaram por defender o país A tendo nascido no país B. Escolhas individuais, obviamente, cabem a uma decisão de consciência. O jogador joga onde quiser se sua vontade não confrontar as regras. Não cabe, com isso, fazer julgamento. 

No entanto, eis para mim um  caso emblemático, na partida entre Suécia e Tunísia,  o sueco Yasin Ayari, cujos pai é tunisiano - tendo a mãe marroquina, poderia optar por defender a seleção que empatou com o Brasil na estreia -, não comemorou os goles que marcou. Acho que, para além da midiatização da situação, o sentido de confronto entre nações numa Copa do Mundo, em razão dos mais amplos interesses comerciais que ela envolve, se dilui frente ao que vi.

Vejam o caso de Marrocos, citado acima. Dos 11 titulares na estreia, somente um nasceu no país, o meia Ounahi. Ainda assim, quando substituído, deu lugar a El Mourabet, nascido na França. Dos 26 convocados, 19 nasceram fora do país dos Leões do Atlas, resultado do monitoramento implantado há 15 anos pelo Rei Mohammad VI2. Neste caso, porém, todos têm ascendência marroquina. Fenômeno parecido ocorreu na Copa de 1934, quando a FIGC (a côngenere italiana da CBF) cooptou os chamados oriundi para a disputa da Copa que organizou, disputou e venceu lançando mão de artifícios pouco desportivos, por assim dizer3.

Ainda assim, cabe dizer, Marrocos é, a par da República Democrática do Congo, a segunda em número de "estrangeiros". Curaçao conta com 25 atletas nascidos nos Países Baixos entre os 26 listados para o torneio4

Como ocorreu com os grandes clubes décadas atrás, assim vejo, a disputa de uma Copa do Mundo entre seleções, as NAÇÕES, é só uma marca publicitária, um ingrediente necessário ao marketing. O sentido de  seleção nacional como concebido no passado para minha compreensão não passa de um notável contrassenso. Chega a ser fake, se o conceito de seleção nacional for devidamente aplicado.

Referências:
1. SANTOS, Maria Tereza. O que é a Lei Bosman e como ela ajuda a explicar o abismo entre o futebol europeu e o resto do mundo. Peleja, 03 jul. 2025. Disponível em 
https://peleja.com.br/politica/lei-bosman-o-que-e-futebol-europeu/ . Acesso em 15 jun. 2026.

2. Marrocos se tornou 1ª seleção em Copas do Mundo com 11 jogadores em campo nascidos fora do país. Ge.globo.com, 14 jun.2026. Disponível em https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/14/marrocos-se-tornou-1a-selecao-em-copas-do-mundo-com-11-jogadores-em-campo-nascidos-fora-do-pais.ghtml. Acesso em 15 jun. 2026.

3. ROSA, Thiago. Itália e a Copa de 34: uma vitória com toques de fascismo. Ludopédio, 24 mai. 2019. Disponível em https://ludopedio.org.br/arquibancada/italia-e-a-copa-de-34-uma-vitoria-com-toques-de-fascismo/?srsltid=AfmBOorr2nB3fd5FiM-zhCqjJ7Fbyn3tjWNo12l9XizTMu78hRCRql8a. Acesso em 15 jun. 2026.

4. Marrocos é a primeira seleção de Copa do Mundo a ter 11 ‘estrangeiros’ em campo. Placar, 14 jun. 2026. Disponível em https://placar.com.br/copa-do-mundo/marrocos-e-a-primeira-selecao-de-copa-do-mundo-a-ter-11-estrangeiros-em-campo/. Acesso em 15 jun. 2026.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 10 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 1

* por Humberto Pereira da Silva

Divulgação

Mistificações, verdades, exageros, licenças poéticas e até revelações surpreendentes fazem parte dos chavões de qualquer filme ou série com o aviso de “Baseado em fatos reais”.

Esse alerta é acompanhado, contudo, de uma sutileza que muitas vezes é subestimada: o que se exibe é uma reconstituição de eventos que pode se aproximar da verdade, mas que não é verdadeira no sentido de ter ocorrido exatamente como mostrada.

Vale com isso chamar a atenção para um alerta invertido: não confundir TUDO que se vê com fatos, de fato, reais. O uso da expressão “ter como base” anuncia explicitamente que não se deve tomar o que se vê como a realidade tal qual ocorrida.

A série exibida pela Netflix sobre a campanha do Brasil na conquista do tri mundial no México aproveita comercialmente bem o momento Copa do Mundo. E elege simbolicamente a seleção de 70, considerada a melhor da história, como aquela que realizou à perfeição o futebol-arte.

Três personagens na série se sobressaem: João Saldanha, Pelé e Zagallo. E sobre eles, diante de qualquer reconstituição, não há como escapar à perigosa fronteira que separa verdade de fato e licença poética.

Esses três personagens, a seleção canarinho e a campanha do Tri no México se ligam aos anos de chumbo da ditadura militar brasileira. Como cada um deles teria se portado pode cristalizar um sentido de verdade que não corresponde à verdade efetiva das situações vividas por eles.

Na série exibida pela Netflix vemos um Saldanha que peita a ditadura, um Zagallo alienado e um Pelé confuso politicamente e apavorado com a possibilidade de fracasso.

Nesses retratos, mesmo que não inteiramente falsos, há muita controvérsia, o que por sua vez pode alimentar um anedotário que corrói o sentido de verdade factual. Consideremos o caso específico de Pelé.

Num contexto em que política e expectativa de conquista dão as mãos, vale ter presente que nosso imaginário sobre como diferentes pessoas reagiram à ditadura foi “construído historicamente”. O peso que os anos de ditatura teve em nossa história pode gerar mistificações e toda sorte de distorções.

Não podemos desprezar a dificuldade que muitos têm de discernir o que é real do que é ficcional, então corre-se o risco de estabelecer uma pós-verdade, uma espécie de atualização, ou melhor, uma substituição, como fazia o Ministério de Verdade de George Orwell em 1984.

No caso específico não só de Pelé, mas de jogadores de futebol em geral, a adesão política ou neutralidade jamais escapam a julgamentos posteriores que o sentido da história em seguida pode ou não reavaliar.

Como nos ensina Walter Benjamim, um afamado pensador sobre o conceito de história, a história nos diz como o presente vê o passado e não como o passado realmente ocorreu.

Mas, pontualmente, sobre o medo de fracasso de Pelé? Aqui há algo que realmente é apenas tangenciado timidamente pela crônica esportiva ao tratar de um evento com a magnitude de uma Copa do Mundo.

Acho legal a série exibir para as gerações atuais, e com isso deixar uma pulga atrás da orelha, as desconfianças da imprensa e da torcida a respeito de Pelé. A conquista do Tri no México em 70 praticamente apagou o fiasco de 66 na Inglaterra, quando Pelé de fato foi visto como acabado para o futebol.

Essas desconfianças existiam. Pelé era reconhecidamente o Rei, mas pairava no ar que 70 repetisse 66. E ele próprio manifestou publicamente esse receio anos depois. Ocorre que as circunstâncias da vida são imprevisíveis ao vermos posteriormente o movimento da história.

Na partida de estreia do Brasil, contra a Tchecoslováquia, quando o placar estava 1x1 num jogo que se apresentava complicado, antes da linha do meio do campo Pelé tenta fazer um gol.

Hoje daríamos o nome de confiança a esse feito. O que significa exatamente o contrário de medo. A bola, sabemos, não entrou. E imagino o pânico dos tchecos e de todas as outras seleções diante do que se viu.

Em 1970, com 29 anos, Pelé, com desconfianças ou não, era reconhecidamente em todo mundo o Rei do futebol. Com a inesperada tentativa de gol num chute antes do meio de campo, Pelé exibiu o que poderia fazer, e só ele e nenhum outro jogador poderia.

Contra a mesma Tchecoslováquia, no segundo gol do Brasil, de Pelé, ao receber lançamento de Gerson e na grande área matar a bola no peito, a zaga simplesmente ficou paralisada.

Humano, como todo humano, e isso é demasiado humano, Pelé não era imune ao sentimento de medo. E justamente por falarmos de um sentimento humano, e com ele as diferentes circunstâncias da vida, a desproporção entre o medo de fracasso em Pelé e, frente a seus feitos aos 29 anos, o medo de quem o teve pela frente quando ele matou a bola no peito.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo