segunda-feira, 20 de julho de 2026

O novo jeito de torcer e o velho jeito de distorcer

Assisti, dia desses, a um recorte no canal do Youtube do Trivela em que os jornalistas Allan Simon e Tim Vickery - é importante pontuar que são jornalistas profissionais e deles se espera uma prática condizente ao juramento que fizeram na Colação de Grau - discutiam sobre a prática, comum entre os torcedores mais jovens, de seguir seus ídolos e torcer por eles acima das camisas que vestem ou emblemas que defendem.

Simon, inclusive, usa a CazéTV como exemplo de quem surfou na onda do culto à persona. O (não mais) simpático canal do YouTube "abraçou a defesa do Neymar desde antes" da convocação para a Copa. Suspeitava-se, como foi possível verificar, que o jogador não tinha condições de jogar em alto nível por conta de seu estado físico deplorável - por obra e graça de seu comportamento desde sempre, é bom frisar.  No entanto, para agradar seus seguidores, jamais fez o que se espera de quem detém os direitos de transmissão: informar, com qualidade e isenção.

Comportamentos como chorar por ter feito duas perguntas simplórias ao ídolo não é o que se espera de quem se preparou - ou deveria - para fazer a cobertura jornalística. Sim, é jornalismo e isso requer distância. Não falo aqui de um desastre natural ou uma cobertura de temas delicados, portanto, capazes de causar este tipo de emoção. O ápice é estar no evento, não é fazer uma pergunta a quem quer que seja.

Pode ser duro, mas ser jornalista é isso. Mas como disse o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), o homem é produto do meio em que vive. Aí, não fulanizando a questão, mas entendendo o contexto, fica fácil perceber em que ponto essa distância entre meio e notícia se perdeu. É a formação social, não profissional, o ponto.

Voltando ao trecho do vídeo citado lá no primeiro parágrafo, o culto à persona faz com que a presença dos ídolos seja mais relevante que as camisas que eles vestem, e isso é transferido para as seleções nacionais. Não há outra explicação para o fato de a página da seleção portuguesa no Instagram ter o dobro de seguidores em relação à população do país que a presença de Cristiano Ronaldo na equipe. E essa presença é cobrada pelo séquito como se fosse condição para que se torça, mesmo que isso prejudique o desempenho em campo do time, como aconteceu. Não por acaso, passando para o lado de cá do Atlântico, o pior momento do Brasil no jogo que custou a eliminação da Seleção na Copa, contra a Noruega, foi justamente quando Neymar esteve em campo.

Convenhamos, nem deveria ter sido convocado.

O jornalista, como qualquer outra pessoa em qualquer atividade, não escolhe o que sente, mas tem controle sobre o que e como opina. Então, se molda sua opinião ao interesse de milhares de pessoas que têm um comportamento de seita e exigem que sua vontade seja saciada - e, diretamente, agrade seu empregador, que ganha muito com a atenção e o engajamento que uma polêmica pode causar, mesmo sendo um assunto banal -, passa a ser um problema para a própria atividade jornalística. 

Mais uma vez, a questão não é o choro, e sim o que leva um profissional a ter esta reação. Como é impossível separar a formação do mundo onde o sujeito está inserido, podemos crer que a imparcialidade já foi para o caralho antes mesmo que a experiência seja adquirida. Boa semente não floresce em solo ruim.  

Se puderem, peguem o jogo entre Croácia e Portugal, que terminou com a vitória deste, e reparem no comportamento de todos os que estavam na transmissão. Primeiro, o óbvio exagero após Cristiano ter feito um gol de pênalti. De pênalti! Depois, quando era claro que Portugal era dominado e era preciso reforçar o meio de campo, só faltaram botar um ovo quando Roberto Martinez substituiu o camisa 7. E por quê? Porque não é possível, sob a ótica do engajamento, aceitar que o objeto de adoração da seita seja tirado de campo, por mais óbvia que seja a necessidade de fazê-lo.

Ao cabo, o ruído que emana das redes sociais devidamente abastecidas por um tipo de conteúdo estrategicamente pensado para ativar e atiçar a seita é capaz não só de interferir na formação de um elenco para uma grande competição, como na escalação de equipe que vai ao campo.

Afinal, para o patrão, o cliente sempre tem razão.

domingo, 19 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 10 - A última pílula

 *Por Humberto Pereira da Silva

1. Essa Copa me espantou a interação por meio de redes sociais. Interação que aos meus olhos assusta quando vislumbro os anos à frente. Principalmente, tenho em vista as possibilidades advindas com a Inteligência Artificial. 

A manipulação, sim, de imagens e, num nível com risco de escapar ao controle, fomentar clima de desconfiança generalizada. A coisa pareceu ainda tímida e amadora. Amanhã pode ser profissional e articulada a interesses subterrâneos.

2. O uso do VAR atingiu um ponto em que sua finalidade é praticamente contrária ao seu propósito.

A finalidade última da VAR, qual é? Evitar erro ou, pelo menos, os erros claros. Ora, o olho humano, a reação a uma situação e tomada de decisão sem mediação nas circunstâncias de uma partida de futebol são impossíveis com erro zero para o ser humano melhor preparado. Mesmo assim, o que seria um erro claro, se a própria clareza ou obviedade parte do subjetivismo de que uma falta pode ter sido evidente para um e, para o outro, não?

Centenas, milhares de imagens, "veem" o que um árbitro não vê em tempo e velocidade real para poder decidir sem qualquer margem a erro. O caso é que, justamente, num lance de azar milhares de imagens multiplicam em escala exponencial a possibilidade de erro na decisão final. 

Há sempre, com boa vontade e não sendo IA, um ângulo na captação de uma imagem que poderia mudar uma decisão. Se por azar essa imagem, o ângulo em que a imagem seria obtida, escapar, jamais for vista ou percebida. E não há nada, ao menos por ora, que iniba o efeito da paralaxe.

Não é o caso de dizer que, com a multiplicidade de imagens, jamais se pode ter certeza de acerto numa decisão. E se um ângulo não visto mostrar o que ninguém viu? E quem decide quais imagens serão disponibilizadas? Lembrem-se do escândalo que foi o "erro" que proporcionou à Noruega vencer o Brasil em 1998. "Um roubo!", disseram. No dia seguinte, uma TV sueca mostrou um puxão de Junior Baiano na área e o erro tornar-se-ia um acerto horas depois. Até lá, Inês já era morta. 

3. Tendo em mente o assunto multiplicação, a multiplicação de opiniões divergentes de "especialistas" em arbitragem merece destaque a parte. Se especialistas divergem, cada qual tem por óbvio uma opinião. Se cada um tem opinião, entre opiniões e opiniões nada difere, além de frágil pomposidade tecnicista, a opinião de um "especialista" da de um tosco torcedor. Novamente, o erro claro e evidente não passa de utopia.

No bizarro show business propiciado pelo megaevento Copa do Mundo, "especialistas" em arbitragem despontam bem no espetáculo como meros fantoches numa encenação que flerta com o teatro do absurdo.

4. Tudo que se viu, vi, na Copa do Mundo, e tudo gerou algo como a situação jogo sim e outro também no Campeonato Brasileiro, o grotesco show de horrores: sempre a reclamação por ou pênalti marcado ou não marcado; sempre uma entrada com "força excessiva" ou não para uma expulsão... sempre... um tempo enorme de discussão estapafúrdia para delírio de anunciantes e especuladores que dominam as Big Techs, ávidas pela audiência, ou melhor, engajamento, que uma discussão gera. Nem precisa ser uma boa discussão, basta se barulhenta.

5. Tudo isso e ainda algo que em certo momento ficou até brega, meio assim o excesso de elogios fora de hora é de mau gosto. 

Mas o caso é sobre o excesso - com o perdão da redundância - excessivo,  desmedido de dados, números, estatísticas, tabelas... muitas vezes de gosto tão duvidoso que chega a ser constrangedor, um insulto à inteligência. Fulano supera Pelé, Beltrano fez mais goles com a parte interna do pé que..., Sicrano bateu o recorde de assistências com o lado direito do peito...

Dados, números, estatísticas são provas cabais de feitos: negá-los é burrice; exaltá-los acriticamente é estupidez.

Pelé não é Pelé porque ganhou três Copas do Mundo. Pelé é Pelé mesmo participando integralmente só e tão só da conquista da Copa de 1970.

Números incautos enganam: é estupidez retirar a majestade do Rei no dia seguinte em que um plebeu qualquer ganhar três Copas e jogar todos os jogos nas três conquistas. Mas o público gosta. E o historiador que se vire com o anacronismo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 9 - Semifinais sem surpresas

*por Humberto Pereira da Silva


França, Espanha, Inglaterra e Argentina são as semifinalistas da Copa. Nenhuma surpresa. Nada diferente do esperado. 

Não houve assim, com as quatro confirmando expectativas, grandes zebras, decepções. Não houve, como nas duas Copas anteriores, sopa para o azar e Croácia ou Marrocos se intrometendo.

Sem grandes zebras, decepções, nenhuma surpresa, portanto, terem chegado onde chegaram Alemanha e Brasil. Se decepcionaram, no lugar de quem estariam? E, mais, se decepcionaram, as quatro seleções semifinalistas não seriam... justamente esperadas, ora pois. Para desgosto do meu aluno Marcos Teixeira, editor deste espaço, Portugal cumpriu sua sina de ser... Portugal.

Sobre as que chegaram, aliás, vale observar o que cada uma representa, ou tem representado, no futebol nos anos recentes. 

Comecemos com a Inglaterra e o pé frio inglês. Em Copa do Mundo, os ingleses travam, mas de 2018 pra eles têm batido na trave. Na Copa de 2018, ficaram em 4º lugar, e, na sequência, dois vices da Euro, em 2020 e 2024, fruto de um projeto iniciado em 2014, o "England DNA", que o The Athletic, braço esportivo do The New York Times, explica neste artigo. And "the football, finally, might be coming home".

A Espanha, por sua vez, despontou como grande força de fato entre seleções apenas nesse século. O futebol espanhol, contudo, oscila, não corresponde quando se espera muito, e surpreende quando menos se espera: campeã da Euro  2024, a geração atual gerou grande expectativa, mas chega à semifinal sob desconfiança. 

Bem, as outras duas semifinalistas, França e Argentina, dominam o cenário de 2014 pra cá. Uma ou outra,  ou as duas, estiveram em todas finais de Copa do Mundo.

Sem surpresas nesta fase - e aqui não estou falando de Cabo Verde ou RD Congo, de bonito trajeto - ou decepções, Alemanha e Brasil, obviamente, não decepcionaram. Ou, decepcionaram tanto quanto a Itália, ausência de peso pela terceira edição seguida.

A esse respeito, sobre essas poderosas seleções, com a chegada do primeiro centenário da Copa do Mundo, elas viram, estão vendo nos recentes 20, 20 e tantos anos, a ascensão da França e da Espanha, que durante muito tempo foram apenas surpreendentes. A surpreendente fúria espanhola em 50. A surpreendente França de Just Fontaine em 58.

Com ascensão de Espanha e França, sem surpresas, decepções, apenas a afirmação e constatação do esperado: a decadência das poderosas Alemanha e Brasil.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 10 de julho de 2026

PORTUGAL - Carta aberta a Roberto Martinez


SEM PROBLEMA - Este pode ter sido o gesto mais repetido por Roberto Martinez
 no comando da seleção portuguesa (Foto: Reuters/Hannah Mckay)

Caro Roberto Martinez, não posso começar esta carta sem destacar que foi fixe vê-lo cantar A Portuguesa já no início do trabalho à frente da Equipa de Todos Nós. Era um sinal de que estavas a incorporar o jeito de ser do lado menos apetrechado da Península Ibérica.

Ao menos era o que parecia. Infelizmente, pá, ficou por aí o jeito tuga de ser. Faltou-lhe o essencial: ser frontal.

Mas aí, creio eu, era além do expectável, já que em tua passagem pela Bélgica tu sempre foste alguém avesso a contrariar as vedetas que tinha à disposição. E olha que eram muitas. Não espanta o último mundial com eles ter sido à prestação mínima, ao pé do que fizeste nos outros anos, inclusive dando cabo de Portugal no Europeu de 20.

Por isso eu digo que a culpa, se é que há culpados à beira do relvado, não é tua, é de quem o trouxe sabendo de teu temperamento e, principalmente, de quem te manteve ao leme, mesmo não acreditando que resultaria. A tal da frontalidade não faltou somente a ti, Roberto.

Não posso dizer que não houve bons momentos. Jogar olhos nos olhos com a França no jogo em que nos deitaram fora da última Eurocopa foi, se calhar, o melhor jogo que fizemos nestes três anos e meio em que passamos juntos. Houve outros, como a vitória contra a Arménia, quando, apesar da maciez do oponente, vimos um time leve, arejado, flexível e... sem Ronaldo.

Mas não podias contraria o astro, não é? Não foi para isto que vieste. Dizias tanto ter um lote alargado de trinta e tantos jogadores para, no fim, usar os 15 ou 16 de sempre. Pote, Quenda, Horta, Mora, Trincão, Gonçalos (os dois, Ramos e Inácio, ou até o Guedes, se calhar, que levaste e não deste por ele no Mundial), outros tantos. Era um prémio pra eles ver os treinos? Mais ganhavam a descansar. 

Se fosse para fazer o fácil, o confortável, podia ser qualquer um e saía mais barato. Eu, por exemplo, ou algum dono de tasca, o Gajo de Alfama do Ricardo Araújo Pereira, tanto faz. Podias mais, Roberto. Tenho certeza de que podias para além deste futebol que roçou a indigência. Mas aí, se calhar, não serias tu.

Já ouviste falar em Pirro? Creio que sim, mas vamos a isto: Pirro foi um general do caraças que, ao ver que grande parte do seu exército foi para o caralho mesmo tendo vencido a batalha, teria dito algo como “Mais uma vitória como esta e estou perdido”. Ganhar a Liga das Nações, se calhar, não soube bem. 

Sabe, ao cabo, o que mais incomoda? É não ter acreditado nem por um segundo que era possível. É a certeza de que, a qualquer momento, cairíamos. Mesmo tendo a maior reserva de talento que nenhuma vez tivemos, nem há exatos 10 anos, em 2016, quando fizemo-nos grandes aos olhos de todos. Só não havia coragem. E olha que já acreditamos em equipas inferiores a esta que tu tiveste disponível.

Obrigado por nada.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 8 - Entre o complexo de vira-latas e a soberba

 *Por Humberto Pereira da Silva


Imothy A. Clary/AFP

Há um assunto bastante sensível com derrota do Brasil em Copa do Mundo e igualmente inevitável: apontar o dedo para culpados. 

Na história do futebol brasileiro, ganhou dimensão trágica com a derrota para o Uruguai em 1950 a culpabilidade atribuída aos personagens Barbosa e Bigode, os vilões da vez.

A questão da culpa. Uso a palavra com o sentido de causa e efeito. Tendo erro, o erro implica num resultado final. Esconder essa simples relação lógica de causa e efeito e põem-se as coisas embaixo do tapete. O futebol, por tudo que envolve, não admite complacência. 

A questão da culpa, no entanto, diz respeito a uma complexidade que convém dada à monumental exposição a que as vitrines, os jogadores, estão submetidos. Nas vitórias, suas imagens se servem aos interesses mais escusos, como as promessas e planos até de carreiras políticas malogrados com o Maracanazo. Porque envolvem tantos interesses, nas derrotas se servem bem como cordeiros para o sacrifício, para evocar ritos sacrificiais bíblicos. Abraão convenientemente leva o cabrito.

De 1950 para cá, 76 anos, há uma História do futebol brasileiro. Não uma história com o sentido vago da palavra, mas sim uma História com momentos que sinalizam auge, época de ouro, ou qualquer termo similar, e decadência. Tudo que mobiliza a escrita da História. 

A palavra "decadência", terrível, e usada não raro de modo vago, ou evitada, é contudo com ela que se escreve a História. A derrota em 1950, e seus culpados convenientes, levou Nelson Rodrigues a expressar o "complexo de vira-latas" para se referir ao futebol brasileiro. 

"Psicanaliticamente", esse complexo foi superado com a era de ouro da geração Pelé, Garrincha e Didi. Houve, sim, a frustração com a geração Zico, Sócrates e Falcão. Mas as gerações Romário e Bebeto; Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho pusera, os pingos nos is. 

Ocorre que, do complexo de vira-latas o futebol brasileiro passou à soberba. E esse sentimento de soberba, que implica não se dar conta da decadência, é o grande nó que, como na Copa de 50, teve para mim o ponto de inflexão na derrota para a Alemanha em 2014 por 7x1.

"Psicanaliticamente", o 7x1 foi denegado. Ao contrário do complexo de vira-latas de Nelson Rodrigues pós-50, o inimaginável 7x1 numa semifinal de Copa do Mundo não afetou a soberba: somos os melhores, não perdemos por que seleções A ou B ou C podem nos vencer, como têm vencido, mas por que os culpados são tais e tais jogadores. 

Impossível dizer se à frente se perceberá que erros cometidos por jogadores desta geração, portanto com atribuição de culpa, serão entendidos como sinais de decadência, fragilidades visíveis e que têm se repetindo previsivelmente. 

A História é caprichosa e móbil. A Argentina, que tanto orgulho tinha de seu estilo próprio de jogar futebol a ponto de chamá-lo La Nuestra (até o choque de realidade que recebeu em forma de um 6 a 1 aplicado pela Tchecoslováquia em 1958), ficou três décadas sem nenhum título, mesmo com Messi e cia. E agora? Bem, se o Brasil em 58 superou o complexo de vira-latas, quem sabe nos próximos anos, com novas derrotas, não superaremos a soberba.

Ah, para concluir: a soberba na eliminação recente para a Noruega, o modo no mínimo risível com que depois do pênalti convertido em gole Neymar provocou o goleiro norueguês. Quem é você, Nyland, que ninguém sabe quem é? Eu sou Neymar, camisa 10 da seleção brasileira.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 7 de julho de 2026

Copa do Mundo - Por quem choras, Cristiano?

Ryan Pierse - FIFA


Ó, Cristiano, quanto do teu sal são lágrimas por Portugal? 

Começo com esta pequena adaptação que tomei emprestada ao A Bola para perguntar, de fato, quanto Cristiano sofreu pelo povo que representa. Ou as lágrimas são por si, que passou mais um Mundial sendo a sombra do que foi? Quem tanto deu não entendeu que não era recebendo de volta que se manteria grande.

Cristiano subiu a fasquia do futebol português e isso é inegável. Seu legado, porém, manter-se-ia imaculado se aceitasse o papel do líder que espreita de momentos melhores e deixasse a ribalta para outros brilharem. Em vez de alguém que seria reconhecido pela grandeza do gesto, terminou mesquinho, soberbo.

A entrevista anterior ao jogo foi a prova inconteste de que o tempo, em vez de sabedoria, o encheu de arrogância. No pós jogo, então, deixou transparecer que seus objetivos pessoais sempre estiveram na frente quando comparou as conquistas da seleção das Quinas antes dele e depois que estreou, em 2003.

Com sua iminente retirada, certamente os números colossais que sua presença trouxe irão minguar. Os 25 milhões e coisa e tal de seguidores da seleção de um país com 11 milhões de habitantes devem diminuir, ficando só os que realmente vestem a camisola das Quinas, mesmo não sendo somente a 7.

Em nome de todos os portugueses, obrigado por tanto, Cristiano, mas o tempo chega para todos. Já não é sem tempo a necessidade de abrir espaços para os que vêm. Já fizeste por si e por nós. É a vez dos outros. Como era há três anos e meio.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Copa do Mundo em Pílulas - 7 - Redes sociais, manipulações e a imbecilização

 *por Humberto Pereira da Silva

Anos atrás, o célebre intelectual italiano Umberto Eco afirmou que "as redes sociais deram visibilidade a legiões de imbecis".

Para ele, o que circula nas redes sociais coloca no mesmo patamar especialistas num assunto e oportunistas que mal sabem articular lé com cré. Por causa disso, a comunicação no espaço cibernético gera um excesso de ruído que dificulta separar verdade e falsidade.

Nesta Copa do Mundo, notadamente nas redes sociais, é impressionante ver como imagens mais casuais e aleatórias geram uma profusão maluca de insinuações. Os psicólogos sociais estadunidenses David Dunnig e Justin Kruger desenvolveram, nos anos 1990, uma tese segundo a qual algumas pessoas tendem a supervalorizar suas capacidades cognitivas, mesmo conhecendo pouco sobre determinado assunto, a ponto de tentar ombrear, por meio de mera opinião baseada em quase nada, seu conhecimento ao de especialistas na área.

Em concordância com teorias conspiratórias, a mais frequente é a insinuação de manipulação. Haveria, por exemplo, um complô entre a Fifa, órgãos da grande imprensa, patrocinadores e árbitros para favorecer Leonel Messi. 

Pulando de Umberto Eco para Juarez Soares, lembro que este ficou marcado pela frase que virou motivo de chacota: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".

O problema de quem insinua manipulação no futebol é tentar enganar, ou se enganar,  que uma coisa é uma coisa e outra coisa é a mesma coisa, como se houvesse uma relação nexo causal indiscutível: eu creio, eu quero; logo é verdade.  

Uma coisa é manipular; outra, o resultado da manipulação. O nexo é possível, mas só a prática realiza de fato a manipulação. Quer dizer,  simples e óbvio, qualquer manipulação pode dar errado na prática. 

Como diria Juarez Soares, nada de misturar as coisas. Então para mim a prática, o resultado, contraria o nexo necessário entre manipular e o resultado da manipulação. 

Mas, o que na prática, de fato, põe em xeque qualquer "teoria de manipulação" de resultado numa Copa do Mundo?

Basta um exemplo suficientemente prático. Pra mostrar na prática que o resultado de uma partida não resulta de manipulação, mesmo que de fato ocorra manipulação. 

A bola do holandês Rob Rensenbrick, aos 45 minutos do segundo tempo, na final da Copa de 78 entre Argentina e Holanda, acertou a trave argentina quando o placar estava 1x1.

Rensenbrick não teria sido avisado que não podia marcar o gol, pois a Copa havia sido manipulada para a Argentina ser campeã? Ou ele estava suficientemente avisado e por ser imensamente hábil quis matar do coração algum desavisado torcedor argentino ou holandês?

A bola de Rensenbrick na trave, capricho do destino, e a suspeita de manipulação do jogo Argentina e Peru, que tirou o Brasil da final, é tão só especulação. 

Veja, veja, é praticamente certo para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso que no mínimo o 6x0 da Argentina sobre o Peru é estranho. Ao ver rever aquele jogo é impossível dizer que o Peru não facilitou.

Então, vamos admitir que houve manipulação no jogo Argentina e Peru. Necessariamente temos que admitir que algo estranho também ocorreu com a bola na trave de Rensenbrick. 

É bom lembrar aqui que o craque Teófilo Cubillas acertou o poste quando o jogo ainda apresentava um nulo no placar. Logo, ele estaria na mesma condição de Rensenbrick.

Para admitir a manipulação de resultado, há de se admitir que Rensenbrick não podia não fazer parte do complô. Se de fato houve manipulação entre Argentina e Peru com a finalidade de dar à Argentina o primeiro título mundial, o insensato Rob Rensenbrick deve ter matado do coração algum General. 

Só pra dar ar de fantasia: imaginemos ele ter errado e feito o gol.

Sim, sim, há situações bastante estranhas numa Copa do Mundo. Tanto quanto, sim, sim, não separar uma coisa de outra coisa e só resta aplaudir a imbecilidade.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo