quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo

Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".

Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na vítima.

Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse, responsabilizou o brasileiro, a quem condenou a forma como comemorou seu gol, como se o próprio não tivesse feito o mesmo em partidas escaldantes.  

Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão.

Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Mantorras e tantos outros. 

O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo? 

É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.

Nada justifica o racismo.

Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas e cujo seus maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.

Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo