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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O engajamento e a permissão para odiar

O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da
partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista

Na semana que passou, casos de racismo e misoginia ocuparam lugar de destaque no noticiário esportivo, com os lamentáveis acontecimentos nos jogos Benfica x Real Madrid e Red Bull Bragantino x São Paulo. Como ocorre com tudo o que é relevante, os temas dominaram as discussões também nas redes sociais. 

Antes de retomar o tema, cabe uma contextualização: que a forma de comunicar mudou, todos aqui sabem. A inclusão digital, as redes sociais e o acesso à internet de alta velocidade possibilitaram que a opinião e a informação, chamados por aí de "produção de conteúdo", possam ser feitas por qualquer pessoa munida de um aparelho celular com acesso à rede mundial de computadores.

Mais gente gera conteúdo, mais gente engaja, mais gente lucra. O jogo é este e está tudo certo. O problema é ser desonesto em troca de engajamento.

Alguns perfis, ao menos entre os que tentam se passar como sérios, têm uma linha editorial progressista. Dos que eu conheço, a maioria se enquadra aqui. Muitos se posicionaram, o que fez com que uma horda de trolls barulhentos saísse do esgoto para vomitar ódio e preconceito. Coisa de gente covarde, que não mostra a cara e se esconde atrás da tela do celular. Pessoalmente, duvido que tenham coragem para bancar esse monte de merda que o ambiente online os deixa a vontade para ser.  

No entanto, o mesmo perfil que defende as vítimas permite toda sorte de imundícies nos comentários. Deixa todos lá, um por um. Pelo engajamento, dá palco, microfone e amplificador a quem deveria ser combatido. 

Ao menos, que sejam honestos e deixem claro que, por ganharem com isso, não apagam os insultos, tampouco bloqueiam e/ou denunciam seus seguidores que rezam para pneu e, nem é preciso explicar por quê, não deveriam ter esse espaço. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo

Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".

Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na suposta vítima.

Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse - não é com pescoço alheio que se exige justiça -, responsabilizou o brasileiro, apontando-lhe o dedo pela forma como comemorou seu gol, como se o próprio Mou não tivesse feito o mesmo reiteradamente em partidas escaldantes.  

Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior a trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão pela parte vermelha da Segunda Circular.

Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Valdo, Mantorras e tantos outros. 

O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo? 

É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.

Nada justifica o racismo.

Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é o ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas, cujos maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.

Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Pílulas amadoras - 30

 *Por Humberto Pereira da Silva

Foto: Alberto Gardin/NurPhoto via Getty Images

O mundo do dinheiro e tudo que há de nojento em torno dele.

Esse mundo e certas imagens me deixam a sensação de espelho e a inversão no que se vê. Vejamos o caso de rebeldia de Vini Jr quando foi substituído pela enésima vez pelo técnico Xabi Alonso nesta temporada: isoladamente, o Vini Jr extrapolou, pisou na bola, chutou o balde, deu chilique... e isso é coisa de criança birrenta...

Contexto? Alguns milhões na jogada. Termos como valorização ou desvalorização de um produto que envolve milhões não é encenação de chegada de papai Noel no Natal.

O produto, no caso, na ordem do Capital, é tão só um produto que se insere no mundo dos negócios. Uma propriedade... uma commoditie..., algo que nos tempos de escravidão movimentou a economia europeia por trezentos... quatrocentos anos...

Em outros tempos, de Zumbi e Dandara aqui no Brasil, a inconveniência de um escravo e o pelourinho...; mas um escravo de grande valor, se açoitado com violência extrema, perde o valor, não uma PEÇA de reposição, um PRODUTO,  que se deseje desvalorizar e com isso perder qualquer margem de negociação.

Em um óbvio exercício de adivinhação, imagino que o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) diria que Vini Jr só se sentiria completo se gozasse com Xabi Alonso do mesmo prestígio que tinha com seu treinador anterior, Carlo Ancelotti, que agora é quem o dirige esporadicamente quando coincidem na seleção brasileira. Vini escolhe, portanto, ser feliz jogando mais e mais, e, consequentemente, tendo seu valor de mercado valorizado.

Não é difícil imaginar que seja assim.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Pílulas amadoras - 25

 *Por Humberto Pereira da Silva

Crédito: Flashline

Endrick é, desde Neymar, o jogador brasileiro em início de carreira que mais chama a atenção da mídia. Portanto, que mais gera expectativa. Assim como Neymar, para o bem e para o mal, o que quer que faça tem repercussão extraordinária.

Por comparação, embora com início também precoce inclusive na chegada ao Real Madrid, Vini Jr. gerou comentários de que se havia comprado gato por lebre. Mas há para mim um detalhe que diferencia Endrick tanto de Neymar quanto de Vini Jr. Só com dezoito anos e sua carreira vai do Polo Norte ao Polo Sul em segundos.

A excessiva exposição midiática diante de um feito dele e são feitas comparações com ninguém menos que Pelé. Mas frente a um ou outro desacerto dele e é tratado como jogador sub-20, sem maturidade para jogar na mais poderosa e midiática instituição de futebol do mundo, o Real Madrid. 

Entendo que uma das belezas no futebol está em sua capacidade de surpreender. O futebol sempre prega peças inimagináveis. O mais absurdo improvável jamais deve ser subestimado.

Nesse bem precoce início de carreira, Endrick tem a grata sorte de ter a seu favor, nas comparações com feitos de jogadores do passado, a enorme exposição de dados estatísticos. E aqui o que faz dele um jogador exposto a superar pressões terríveis. 

Em jogo recente pela Copa do Rei, Endrick entrou no final da partida, marcou dois gols e foi decisivo para o Real seguir na competição. Foi, óbvio, amplamente elogiado e o destaque: um jogador que não precisa de mais de 70 minutos para marcar um gol, isso levando em consideração somente o tempo em campo. Quando posto que estes 70 minutos em média são amealhados em jogos diferentes, sem uma sequência de partida, o feito torna-se maior.

Antes desse jogo, contudo, qualquer nota que se pudesse ler sobre ele e o destaque: há treze jogos Endrick não marca; seu destino no Real é incerto, ele pode ser emprestado para...

Não é difícil perceber numa e na outra situação como dados estatísticos não mentem, mas sem contextualização geram distorções. Até agora Endrick não jogou uma partida inteira pelo Real.

Dizem que Endrick tem "boa cabeça". Imagino mesmo como deve ser para um jovem de dezoito anos suportar em um minuto o deslumbramento estratosférico e no minuto seguinte o fracasso abissal.

Diferentemente de Vini Jr., Endrick chegou a Madrid como jogador da seleção brasileira. Um período no time B seria impensável neste contexto, e o próprio atual melhor do mundo segundo a FIFA não passou incólume pelo crivo dos detratores. Comentários quase nunca isentos e afetados pela clubite desavergonhada praticamente selavam seu fado no Velho Continente, como um jogador incapaz de jogar no mais alto nível.

Todos estavam errados, mas não aprenderam. Como se isso surpreendesse...  

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Pílulas amadoras -24

*Por Humberto Pereira da Silva

Nelson Almeida / AFP

Sobre Brasil versus Uruguai, o empate com a Celeste praticamente garantiu a vaga brasileira para a Copa de 2026. Os resultados dessa Data FIFA, aliás, praticamente definiram os representantes de forma direta da América do Sul: Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, Brasil e Paraguai. 

Comemorar a quase classificação? Sim, óbvio, mesmo com o aumento de vagas, apurando diretamente seis dos 10 postulantes, e logo iremos a isso. Por diversos motivos, há um equilíbrio nessas Eliminatórias. Ao término da rodada dupla - à qual nos habituamos a chamar de Data FIFA -, a Argentina lidera. E tudo indica, manterá a cimeira na próxima. 

Mas, vejamos, por momentos, ela sentiu a sombra da Colômbia. Ao término, fazendo as contas, perdeu do Paraguai e em Buenos Aires não goleou o frágil Peru, de quem ganhou, aos olhos mais atentos, com esperada dificuldade. A Colômbia, por sua vez, fecha a Data FIFA, em que poderia liderar, na quarta posição. 

Então, o Brasil decepcionou nesses dois jogos? Ora, a decepção está obrigatoriamente ligada à expectativa e o Brasil jogou o que é a realidade atual do futebol brasileiro frente ao equilíbrio entre as seleções do continente. 

É impressionante ver a quantidade de jogadores das seleções da América do Sul que atuam no Brasil, cujos times dominam as competições continentais. Salta aos olhos a quantidade de jogadores da América do Sul que atuam nas principais ligas da Europa. 

TODOS os comentários que li sobre Brasil e Uruguai parecem ignorar essa realidade. Assim, simultaneamente, alguém lembra que Valverde é estrela no Real Madrid, e não menciona as ausências de Arrascaeta e De la Cruz, estrelas aqui no Flamengo. Isso sem contar as retiradas recentes de Cavani e Suárez, titulares dos cisplatinos nas últimas três Copas do Mundo. 

No afã de torcedor, jogar contra o Uruguai, e ganhar, seria como 40, 50 anos atrás ter pela frente Venezuela ou Bolívia. E comentários de torcedor sem essa constatação funcionam como um bom tempero para que, sob pressão de emular escretes do passado, a seleção "novamente" decepcione.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Pílulas amadoras - 22

*Por Humberto Pereira da Silva

¡JUNTOS! Vinicius Jr publicou em sua conta no X
uma foto de todo o elenco madridista.

Sobre o boicote do Real Madrid à cerimônia de premiação da Bola de Ouro, ouvi comentários condenando a decisão do Real, que os merengues se apequenaram, fizeram birra, foram maus perdedores, desrespeitaram o Rodri, que ao cabo ficou com a honraria de melhor jogador do planeta.

No mundo de liberdade de expressão, é ótimo ver que todos expressem opinião. E a decisão do Real, é inevitável, se presta às mais diversas opiniões. Vai a minha, portanto: considerando a maneira como as coisas ocorreram - havia um avião pronto para levar a trupe para Paris e a viagem foi cancelada de última hora - há algo nos bastidores que jamais se revelará e que levou à decisão tão extrema. A decisão poderia ter uma discussão séria e inteligente, mas ficou, até onde vi, na superfície das condenações. "Um papelão, o Real se apequenou...'

Pensemos e extraiamos implicações. Até a divulgação oficial ninguém sabia que Rodri seria eleito o Bola de Ouro. Ninguém. Mas Vini Jr.  era "favorito". As palavras traem. Como favorito numa escolha que envolve votos um a um? A palavra favorito para mim cabe quando no auge da forma se põe Usain Bolt numa disputa. Ninguém vota em quem vai ganhar. O favoristismo de Bolt não tem nada de subjetivo. 

Quando a delegação do Real cancelou voo a Paris na manhã da entrega do prêmio da France Football, Vini Jr deixou de ser "favorito" e o favoritismo ficou com Rodri. Ninguém sabia, até então, quem seria o vencedor e o Real boicotou sem saber que nenhum de seus jogadores, três, além de Vini Jr, Belligham e Carnaval, seriam escolhidos. 

Pois é. O Real não foi a Paris e o então "favorito" Rodri confirmou o favoritismo. Não há charme, birra, nem meros rumores plantados pela imprensa. Antes do anúncio, o Real sabia que Vini Jr não seria eleito.  Mas como o Real, para tomar decisão radical, teve a certeza do que só se saberia no anúncio oficial?

Pois é, com uma certeza assim não é preciso ser vidente para se extrair outra certeza: até a noite anterior o Real sabia que Vini Jr seria escolhido. Tanto que teria reservado, segundo o que chegou da Espanha, voo e hotel para cerca de 50 pessoas. O que a decisão do Real revela é o teatro, o fingimento de que não se sabe o que se sabe. O Real não poderia saber que o Rodri seria eleito. Boicotou porque "vazou"... não! Boicotou porque "vazou" que o Vini Jr seria eleito. 

Foi extrema a decisão. Mas ela trouxe elementos que poderiam ser pensados em eventos em que o público é tratado como idiota. Eis minha modesta opinião. Movimento nos bastidores e Rodri foi escolhido. E não mera soma com critérios amplamente divulgados e objetivos? Então como se daria o que se deu? Por que Vini Jr perdeu? Pois é.  Nunca saberemos. Mas só sendo idiota para supor que o Real tomaria a decisão que tomou ignorando os bastidores da escolha. 

Ou seja, para o público, o poderoso Real e o jogo das manipulações nos bastidores, no submundo das manipulações de bastidores, não teve força e foi traído.

Um bom roteiro para um filme de máfia, ou de espionagem. Coppola para mim é o emblema com seu O Poderoso Chefão. Noves fora, fica pros incautos fazer piadas, memes e emitir opiniões pueris tipo o Real se apequenou.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Pílulas amadoras - 21

 * Por Humberto Pereira da Silva

Cr7 e a inalcançável régua real (Fabrice Coffrini/Getty)

Cristiano Ronaldo chegou, contra a Croácia, aos 900 goles. É o primeiro jogador de futebol a alcançar, oficialmente, essa marca. Claro, "todos" sabem que Pelé fez mais de 1200 goles. E não muitos, que o austríaco Josef Bican teria feito em torno de 1800 goles entre os anos 20 e 50 do século passado. 

Aí, me faz questão de lembrar o editor deste blog, há o "problema" de ignorar goles marcados em partidas amistosas, mas contra grandes equipas do futebol mundial: nestas excursões para fazer um pé de meia que pudesse, além de preencher o calendário, pagar as contas - e manter o próprio Rei -, perdem-se tentos marcados contra Internazionale (8)Barcelona (4), Benfica (4), Juventus (2) e Real Madrid (1), esquadrões repletos de craques e donos de troféus internacionais. Pela América do Sul, 22 goles divididos entre River Plate (7), Boca Juniors (5), Racing (4), Independiente (2), Millonarios-COL (2) e Nacional-URU (2) viram fumaça. 

Isso se não contarmos os grandes brasileiros: Atlético Mineiro (5), Cruzeiro (4), Bahia (2), Botafogo (2), Palmeiras (2), Corinthians (1), Flamengo (1), Grêmio (1) e Portuguesa (1). Eibares, Numancias, Al Qualquer Coisa e quetais, para ficar em termos do editor, não oferecem um átimo das dificuldades impostas pelos times citados neste parágrafo.

Ontem, Cristiano saiu do banco para desenroscar um jogo que exigiu a persistência lusitana até praticamente o último minuto para superar o ferrolho escocês. O gole da vitória do Tugas foi marcado aos 43 minutos do segundo tempo por ele, que já havia atirado duas vezes ao ferro, iniciando a contagem regressiva para o tal milésimo, que deve, se acontecer, sair quando a Terra de Cristiano estiver na 43ª volta em torno do Sol, justamente a idade em que Josef Bican deu seus últimos pontapés. 

A título de comparação, o milésimo do Rei foi marcado aos 29 anos. Dito isso, o que resta? Números são... não mais que... números. Por isso, fico com Fernando Pessoa, para ter a dimensão do feito de CR7: "O mito é o nada que é tudo", primeiro verso do poema "Ulisses".

Números são números, pois não. Mas neles, além da frieza, não se deve ignorar o simbolismo. O mito do milésimo gole de Pelé simboliza um dos feitos do Rei. O que, justamente, oferece ponto de partida para qualquer feito posterior. 

Ao milésimo gole agregam-se três Copas do mundo, 58 goles numa edição do Campeonato Paulista (aos 17 anos), parar uma guerra..., que fazem de Pelé o maior mito da história do futebol. 

O feito de Cristiano Ronaldo, assim, ganha enorme poder simbólico porque tem como ponto de partida para que se ponha a régua à marca Pelé. Agora, entre a frieza dos números e o simbolismo, o futebol também é feito de circunstâncias e circunstâncias de momento. 

Na conta dos quase 1300 goles do Rei, mais de 500 ajustados em jogos que causam constrangimento saber precisariam ser contados. Na frieza dos números, o mito Pelé, para ser Pelé, não precisa do registro de goles na Seleção do Exército (10 em 14 jogos), tampouco de goles contra equipas "amadoras" nas inúmeras excursões do Santos nos anos 60 para exibir a Majestade. 

Certo. Nas circunstâncias e circunstâncias do futebol, o feito dos 900 goles de Cristiano Ronaldo se deve a um oportuno final de carreira no futebol árabe. Sua última passagem pelo Manchester United mostra que ele não atingiria essa marca no futebol europeu. Igualmente, Pelé não teria chegado a essa marca sem as convenientes contas para se ensaiar contra o Vasco da Gama o dia do mítico milésimo gole. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 17 de junho de 2024

BRASIL - O desinteresse pela seleção brasileira: reflexões sobre Cultura, Política e Economia do futebol

(Foto: Divulgação/Conmebol;UEFA)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

A Eurocopa começou e, com ela, emergiu a radicalização do discurso nas redes sociais contra os "colonizadinhos" que se interessam mais pelo futebol europeu do que pelo futebol-penta-campeão-do-mundo-aqui-é-brasil-com-muito-orgulho-com-muito-amor, uma releitura moderna da “síndrome de vira-lata”. É dever afirmar que “radicalização” e “redes sociais” são praticamente irmãos siameses, mas as disputas simultâneas de Eurocopa e Copa América devem potencializar essa polarização.

Sugiro que tentemos aprofundar o debate e fugir de respostas fáceis: por que a seleção não desperta o mesmo interesse de há 20 e poucos anos? Por que muita gente prefere um rival, como a Argentina? Por que reclamam quando jogadores de seus clubes são convocados?

Eu, que tenho ascendência portuguesa e me identifico como torcedor da seleção de Portugal, não sou exemplo de nada, tampouco sirvo para explicar qualquer tendência neste sentido. Além da minha origem, existe o aspecto cultural, e pesa a safadeza feita em 2013 com a Portuguesa, clube do qual sou torcedor e era assessor de imprensa à ocasião. Isso fez com que eu enterrasse de vez qualquer simpatia por qualquer coisa que tenha a chancela da CBF (exceto o futebol feminino, que não tem a devida atenção de todos os setores que atuam no futebol).

A mesma CBF, desde que repassou o direito de negociar os jogos da seleção para empresas de marketing esportivo, que passaram a levar a maioria dos amistosos para o exterior, afastou o torcedor (entre 2000 e 2019, foram disputados 135 amistosos, dos quais, 112 no exterior). Ainda assim, quando joga em território nacional, o preço é proibitivo. Para se ter uma ideia, em outubro do ano passado, quem gastou menos para ver o Brasil levar um gol de bicicleta da Venezuela na Arena Pantanal pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 terá desembolsado R$200,00 caso tenha tido direito à meia-entrada. O preço cheio variou entre R$400,00 e R$600,00 – pouco menos da metade do salário-mínimo vigente em 2023 (R$1.320,00). Aqui mesmo, publiquei uma comparação dos custos para um torcedor ver o jogo de sua seleção no Brasil e em Portugal.

O recente incremento financeiro no futebol brasileiro fez com que alguns atletas selecionáveis possam permanecer no Brasil, mas isso não significa que os clubes tenham fôlego para segurar seus principais talentos. Por outro lado, trouxe o inchaço do calendário, que recebe cada vez mais jogos e impede que haja, por exemplo, uma pré-temporada minimamente decente. Diferentemente do que acontece na Europa, o futebol daqui não vai parar durante a competição de seleções. "Ah, quando há jogo da Seleção, os clubes não jogam”. Sim, jogam, mas no dia seguinte. Então, desfalques irão ocorrer do mesmo jeito. E a culpa de uma eventual derrota será da seleção, já que ninguém tem a dignidade de assumir os próprios erros. Convenhamos: é fácil tacar pedra na Geni.

Outro ponto que traz chateação é o chamado "vírus-FIFA" (lesões ocorridas em jogos das seleções), essa ideia rasa que tenta convencer que os jogos entre selecionados, e não esse monte de competições de clubes, são os excedentes. Reitero: é confortável para dirigentes e treinadores transferirem a responsabilidade. Além do mais, está assim, ó, de torcedores que adoram achar que seu time está sempre contra-tudo-e-contra-todos, numa cruzada antissistema que só existe na cabeça vazia dessa malta.

Repito, não tenho a intenção de responder todas as questões ou passar o que penso como verdade inquestionável. Outros pontos que me escapam podem e devem ser considerados para ajudar a explicar esse afastamento.

A obrigação doentia de vencer a qualquer custo e que se lasquem os métodos que podem aproximar projetos de conquistas também não ajuda. Assim, muitos treinadores daqui adotam posturas defensivas porque precisam satisfazer a sanha do torcedor barulhento, alimentada por um sem-número de debates mais barulhentos ainda, para manter seus empregos. Boa parte da mídia também tem culpa no nível do futebol praticado e dos programas apresentados, que às vezes resvalam na indigência. Sequer temos uma escola tática, um estilo próprio, e isso tem influência direta do que é praticado lá fora.

Neste sentido, o período sem títulos nas Copas do Mundo diminui o interesse do torcedor que aprendeu que só quem vence é digno de respeito e os outros são um bando de fracassados. Não basta ganhar outras competições, como as continentais ou a Olimpíada, tem que ser o dono do mundo. Desde a primeira conquista brasileira, em 1958, o maior jejum de títulos correspondia a cinco edições, entre 1974 e 1990, igualado em 2022.   

A popularização das ligas estrangeiras também causa consequências no nível do nosso jogo, como se fosse simples emular o que é feito na Europa. Para isso, precisaríamos entender os conceitos, assimilar e dar tempo para que os trabalhos possam amadurecer. É como querer construir uma casa a partir do teto. Em vez disso, meia-dúzia de jogos bastam para definir se fulano ou cicrano servem – normalmente não servem. E essa histeria é alimentada pelos repetitivos programas de debates e suas "sensacionais e originais" enquetes para ouvir a "voz do torcedor". Como só vencer serve, criamos uma geração de consumidores, não de torcedores, que gritam "não pago meu sócio-torcedor pra isso!”

A facilidade para acompanhar campeonatos muito melhores também não ajuda, quando comparados com o que é praticado aqui. Então, a molecada que cresceu ouvindo que só a vitória interessa, vai gritar "meu City, meu PSG, halla Madrid!" Ou outro fortão da vez, pois isso também muda. Ou alguém vê mais camisas do Milan, febre da primeira década desse século, quando tinha brasileiros inquestionáveis na seleção, como Kaká, Cafu e Dida, do que de um desses endinheirados da vez?

Aí, criamos outro tipo de torcedor: o que torce pelo seu jogador preferido e leva uma leva de gente para onde for. Messi e Cristiano Ronaldo – e Neymar também bateu aí – são os expoentes dessa modalidade. Notem quantas camisas do Inter de Miami e do Al Nassr estão sendo expostas por aí, sobretudo nas crianças. E isso acaba refletindo também no futebol de seleções. Ao cabo, os candidatos a ídolos brasileiros não esquentam lugar, nem criam laços com clubes daqui, e muita gente não se sente representada, nem é brasileira-com-muito-orgulho-com-muito-amor.

Há outro ponto importante na comparação entre Copa América e Eurocopa: como o produto é trabalhado - e não adianta encampar o ódio-eterno-ao-futebol-moderno. É lidar, como diz-se em Portugal. A partir daí, entender como valorizar a competição como produto. Na sua coluna no Guia da Copa América e da Eurocopa da Placar - mesmo tratamento para ambas, mesmo espaço, bola dentro! -, o jornalista Vitor Sérgio Rodrigues fala, e bem, do desgaste causado pela exposição exagerada da Copa América, a ponto de ser banalizada. A Euro, uma mini-Copa do Mundo, é feita para ser exatamente isso. A competição da lamentável Conmebol - não que a UEFA seja muito melhor, mas sabe trabalhar - caminha para ser mais respeitada. Estabilizar o intervalo entre as edições é um dos passos pais importantes. 

Portanto, cada um que acompanhe o que quiser, sem essa de rotular sem contextualizar porque é mais fácil. Esta Copa América, que a Conmebol entregou para os Estados Unidos colocarem em gramados cujas dimensões são diferentes do que veremos na próxima Copa do Mundo (enquanto a Eurocopa é organizada como a própria Copa do Mundo), tem como maior atrativo ser provavelmente a última competição de Messi pela Argentina.

E todos somos responsáveis por isso.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

BRASIL - Vinícius Jr, Neymar e a tragédia grega, com a Bola de Ouro ao barulho

INTIMIDADE Vini Jr. beija a taça mais cobiçada do
futebol de clubes (Reuters/Carl Recine)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

Vinicius Jr. é a bola da vez. Favorito a devolver ao Brasil a Bola de Ouro, o jogador tem brilhado jogo sim, jogo também, pelo Real Madrid, com quem conquistou sua segunda Liga dos Campeões em três anos, e foi novamente decisivo, outra vez protagonista.

Mas não bastou exaltá-lo. Como se o futebol fosse o teatro grego de tragédia e a presença de um protagonista, representando o bem, automaticamente criasse a figura de um antagonista, a quem o mal lhe é atribuído, busca-se diminuir Neymar para enaltecer Vinicius Jr. É a mesma tolice que converte fãs de Messi e Cristiano Ronaldo em detratores do outro. Apesar do péssimo gerenciamento de carreira, Neymar é - ou foi, sei lá o que vai dar dele - um jogador brilhante. 

Fora de campo, Neymar é um cidadão dos mais questionáveis, para não usar outro adjetivo menos abonador, mas, em se tratando de futebol - e o tema aqui é este -, é um extraclasse, é completo. Podem escolher o fundamento do jogo, Neymar, no mínimo, é muito bom. O que pesa contra o maior talento brasileiro, para não falar mundial, em anos é o seu comportamento, e aqui nem entra em questão suas posições pessoais. 

É necessário conter a emoção, mesmo que seja somente para proteger o craque madridista das cobranças exageradas para que seja o número um. Presenciamos um craque em construção, longe do seu ápice físico, técnico e psicológico, e ainda sujeito a cometar algumas bobagens. Hoje, quando este texto é escrito - e afastado do calor da conquista continental -, Vini Jr. é o principal jogador da temporada, da mesma forma que Bellingham já foi apontado como o melhor do ano.

Imaginemos, porém, que a Inglaterra finalmente vença uma competição, a primeira desde 1966. Se Bellingham comer a bola, quem garante que o favorito não passe a ser ele? Ou Kane, que naufragou coletivamente no Bayern, mas individualmente fez provavelmente sua melhor temporada. Comparando as conquistas, a Champions do Real Madrid é só mais uma Champions do Real Madrid. Uma eventual Euro da Inglaterra são outros quinhentos.  

O prêmio pode ir para qualquer um deles, ou até mesmo para Kroos, um dos melhores da história, sem favor algum. Se mantiver o nível estupendo de atuações visto na temporada e, naturalmente, vencer a competição que jogará pela Die Mannschaft, em casa, estará à altura da distinção. Destes, Vini Jr, Bellingham e Kroos arrebentaram na temporada, pelo mesmo Real Madrid. Não me parece nenhum absurdo que os três estejam cotados.

Ainda assim, não será essa obrigação besta que parece ser determinante para decidirmos o tamanho de um jogador que nos dirá se Vinicius é maior ou melhor do que Neymar. Potencial, ele tem; mentalidade, idem; talento, demorará anos para aparecer alguém que se aproxime do ex-santista, isso se algum dia acontecer. Mas isso não basta. Além do mais, um fato poderá ser determinante para o futuro do brasileiro: a chegada de Mbappé ao Real Madrid.

Só para ilustrar, quando ainda não era um criminoso, Robinho era um talentosíssimo atacante, também do Real Madrid, com os olhos postos ao prêmio de melhor do mundo, e numa época pré Messi e Cristiano. Bastou a suspeita de que seria moeda de troca para a chegada do português para rifar a carreira. Bastou uma decisão errada, somente uma. Depois foi o que foi, mas isso não tem nada a ver com o campo.  

Como Vini reagirá à chegada do mimado francês? Ou melhor, como Mbappé chegará ao Real Madrid? Será mais um no vestiário, que não terá mais a liderança natural de Toni Kroos? Aceitará jogar centralizado para que Vini siga atuando onde comprovadamente rende mais? No PSG, essa questão causou ruído. Na seleção francesa, Mbappé já é o capitão.

Voltando à Bola de Ouro, o camisa 7 do Real Madrid sofre a resistência de parte considerável do mundo do futebol porque enfrenta o racismo que sofre até mesmo quando não está em campo, em vez de aceitar bovinamente as ofensas que recebe por causa da sua cor retinta. Não aceita ser atração, tampouco ser desumanizado por um sistema que sequer considera o racismo crime no país onde mora. 

Em todo caso, ainda lhe falta escrever uma história na seleção, onde Neymar, bem ou mal, é o maior artilheiro em jogos oficiais, mesmo tendo feito água nas grandes competições. Talvez a presença do próprio Neymar no grupo ofusque seu crescimento, ou faz com que os treinadores, desde Tite, não lhe deem o protagonismo que parece pronto para receber. Ou mesmo o sistema de jogo de Fernando Diniz tenha atenuado seu talento. Seja como for, Vini nunca foi o cara a ser procurado em campo quando a coisa apertou quando veste a cada vez mais esquisita camisa da seleção.

Pelas características de Dorival Jr, e por Neymar, temporária ou definitivamente, não estar à disposição, esta responsabilidade deve ser-lhe atribuída já na Copa América, na qual terá a chance de pavimentar ainda mais o caminho para chegar ao prêmio de melhor da temporada. Até lá, pelo menos, sugiro ir devagar com o andor porque o santo - e a admiração do torcedor - é de barro.   

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

BENFICA - a noite das vergonhas europeias



Prostrado. Humilhado. Vergado. Não faltam adjetivos para descrever a terrível prestação benfiquista nesta edição da Liga dos Campeões, mas poucas vezes se viu em campo uma equipa tão vulgar, indigente. Ainda mais considerando que este espantalho em forma de time de futebol - ou seria o contrário? - carrega no peito três estrelas, cada qual para uma dezena de títulos nacionais, e a reputação histórica de ser bicampeã europeia, além de outras finais disputadas antanho.

Lá se vai muito tempo, sei, desde que a maldição de Béla Guttmann caiu sobre a cabeça dos avaros dirigentes encarnados, mas nada faria supor que depois da magnífica demonstração de como jogar futebol vista na temporada passada, um rascunho formado por 11 jogadores estaria a vestir a mesma camisola.

A noite no Anoeta foi de estarrecer, de petrificar, de fazer corar de vergonha o mais pessimista dos portugueses. E olhe que falo de uma característica praticamente inata ao povo português, ainda mais quando há do outro lado 11 gajos a representar o futebol espanhol e uma bola no meio. 

A Bola, maior jornal da Terrinha dedicado ao chamado desporto rei, fez uma compilação do que os jornais da Espanha disseram. A ver:

As:
"O Benfica, um brilhante bicampeão europeu, ajoelhou-se diante de uma Real Sociedad avassaladora, o que lhe deu uma lição histórica. Um banho frente a um rival que nada disse (...) O volume do seu futebol foi tão grande que rompeu os tímpanos dos lisboetas. Do aquecimento até o último apagão, foi um turbilhão que marca a época"

"Defensivamente, a equipa vermelha nem sabia para onde se virar. O Benfica ficou mumificado, era um fóssil, a agonia levou-o para uma caverna do horror. Para isso contribuiu o seu treinador, que colocou Neves na lateral, algo para o qual não está preparado, e deu a Barrenetxea uma pista para brilhar. Um cervo a dormir a sesta era mais assustador do que essas águias comidas por traças. (…) Neves foi um espectador na primeira fila. O que fazia ali o pobre rapaz?"

Sport:
"Exibição, banho, 'masterclass' de futebol, inúmeras qualificativos que demoraríamos mais tempo a procurar do que o Real levou para vencer um campeão da Europa e de Portugal como o Benfica. Parecia um jogo de profissionais contra juniores numa meia hora mágica e histórica, daquelas raramente vistas no mundo do futebol."

De certo, o leitor há de perdoar a reprodução do que parte da imprensa espanhola viu e disse, mas peço que notem o respeito para com o distintivo humilhado: 'brilhante campeão europeu", que venceu Barcelona em 1961 e, já com Eusébio, o mítico Real Madrid em 1962. Dois distintivos já enormes. O Barça com Ramallets, Evaristo de Macedo, Luis Suárez e os magiares Czibor, Kocsis e Kubala; o Real Madrid, pentacampeão, com Puskás, Di Stéfano, Santamaria e Gento.

Aquele Benfica, de Germano, Cavém, Simões, Coluna, José Augusto, José Águas e Eusébio, que mantém a reputação encarnada imaculada, nada tem a ver com este apanhado vulgar de jogadores de vermelho que ao cabo de meia hora já perdiam por 0-3, fora os dois gols anulados e o pênalti desperdiçado. O placar foi condescendente demais para a pobreza e absoluta falta de argumentos levada pelos de Schmidt a San Sebastián.

Há muito trabalho pela frente e o primeiro passo é admitir o fracasso do projeto de equipa levado a campo para esta temporada, seja com três centrais e Florentino a ter que varrer tudo sozinho e João Neves como extremo e presa fácil e entregue a Barrenetxea, que fez com ele o que quis, como quis e quando quis; seja com a linha de três médios e um avançado solo que não pressionam e deixam tudo a estoirar nos de trás, ora Florentino, ora Kokçü. Gastou-se quase 60 milhões de euros em reforços até aqui desnecessários e não há um lateral direito de raiz para colmatar as ausências de Bah pelas agruras físicas, tampouco um do outro lado que minimamente mimetize o que fazia Grimaldo, perda já cantada com um ano de antecedência. Seu substituto é Jurásek, o defesa mais caro da história do clube, que perdeu a bola 28 vezes em pouco mais de 60 minutos em campo, segundo dados do Goal Point.

Roger Schmidt, brilhante na sua temporada de estreia, parece não querer ver o naufrágio à sua frente e agarra-se a frases fáceis como "não é que o planejamento foi errado, os lesionados fazem falta" ou "realmente, não merecemos a classificação", como se houvesse viv'alma a pensar o contrário. O capitão do barco se mantém fiel às suas ideias e só não está a tocar o violino enquanto a embarcação afunda porque o que tem, quando muito, é uma tocata com instrumentos desafinados.

Ao lado, mas nem por isso menos importante, registre-se a vergonha causada por imbecis que atiraram tochas nos adeptos locais, o que poderia ter causado uma tragédia como a que aconteceu em 1996, na final da Taça de Portugal, entre Sporting e... Benfica!  O fracasso do projeto desportivo quando se tem tudo à mão é de se lamentar, mas a falência cultural espelhada em indivíduos que viajam, não pelo seu clube, mas por uma realização pessoal tendo os pés fincados na violência, este sim é de se envergonhar.

Que vergonha, Benfica! 

sábado, 16 de dezembro de 2017

O que sobrou de nós

MAIS UM Cristiano Ronaldo iguala Pelé como maior artilheiro
 do Mundial de Clubes ((Mike Hewitt - FIFA/Getty Images)

O pior Real Madrid possível pôs o Grêmio no bolso, dominou os gaúchos como quis. Jogou pro gasto. Ganhou como quis, mesmo parecendo, às vezes, que não queria. O Tricolor Gaúcho, pela terceira vez campeão sul-americano, se contentou em tentar uma bola, literalmente. Tivesse um balde d'água no lugar de Navas, o placar seria o mesmo.

É isso o que sobrou para os times da América do Sul no confronto com os europeus: tentar não passar vergonha, isso quando chegam à decisão. A disparidade é imensa, e não só em se tratando de talentos em campo. É na filosofia de jogo, na estrutura, na organização.

O Real Madrid, quando avançava, o fazia como faca na manteiga e só parava na monstruosa atuação de Geromel ou em Marcelo Grohe. Já o Grêmio parecia uma faca de rocambole cortanto um pão italiano a cada vez que tentava trocar três passes nos campo de defesa madridista.

Para definir de forma grosseira a diferença entre tricolores e merengues, basta imaginar que os de Madrid poderiam errar por atacado e, ainda assim, teriam enormes chances de ficarem com a sexta taça mundial. Aos comandados de Renato Portaluppi, porém, um erro poderia ser fatal.

E foi.

Falar que o problema não é perder, mas perder sem chutar uma bola ao gol, é ser simplista demais. Chegar à decisão com essa perspectiva é de doer. E está ficando normal enaltecer a raça, a entregar, o cair de pé, quando isso é o mínimo, não é mais que obrigação. Nos contentamos em jogar pela tal única bola e ganhar - ou perder - na raça, único parâmetro independente e qualidade técnica ou filosofia de trabalho.

Ano após ano, assistimos a um campeonato nacional de baixíssima qualidade e, por conseguinte, os parâmetros caem. Aí entram oito porcarias na farra de vagas da Libertadores e vestimos, brasileiramente, a capa de favoritos. Aí apanhamos e ficamos com cara de idiotas, tentando achar explicações onde elas não estão. É fácil: somos muito fracos.

Mas sabe o que incomoda? De verdade? É o otimismo de que, no fim, tudo vai dar certo. O Cássio vai pegar tudo; o Aloísio vai deixar o Mineiro na cara do gol; o Gabirú vai derrubar o Barcelona. Como se isso fosse regra, não exceção. Vivemos do herói cada vez mais improvável, quando o improvável mesmo é, cada vez mais, deixar de ser zebra. Inclusive jogando contra a pior versão do atual campeão do mundo, com seu melhor jogador em uma jornada apagada.

É o que sobrou de nós.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Por quem torcerá o brasileiro?


Uma das marcas mais fortes na cultura brasileira é a escolha do time para torcer. É razão de orgulho do pai passar o amor pelo time do coração para o filho. É quase um evento quando a previsão feita no nascimento se confirma e o pai passa a ter no herdeiro seu companheiro de arquibancada.

Existem diversas maneiras de se cativar o novo torcedor, sendo duas as principais: influência da família e sucesso da equipe no período em que o futuro torcedor está decidindo que emblema cobrirá seu peito, além de outras, que são subjetivas, como um determinado jogador no time, a beleza ou as cores da camisa, uma partida histórica ou uma virada épica.

No entanto, um fenômeno recente pode ser observado. Agora existe a concorrência com o futebol da Europa. Colaboram para aumentar a torcida deles aqui a chegada de craques “puxadores de torcida”, além de títulos, muitos títulos, e a exposição da marca.

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Por pura incompetência e falta de visão da CBF, que mal e porcamente dá atenção à Seleção, o Campeonato Brasileiro não é consumido fora do país, também pela falta de qualidade da competição. Quando um campeonato é transmitido e tem uma boa resposta, equipes menores, menos midiáticas ou que poucas vezes levantam taças acabam angariando torcedores longe de suas fronteiras, como acontece com o Tottenham ou o Borussia Dortmund. Assim, e também pelo calendário sufocante que impede que grandes equipes excursionem no exterior, mercados deixam de ser explorados pelos clubes brasileiros, que nunca jogam em pontos estratégicos e com potencial absurdo de serem desbravados, como China e Japão, países onde a Seleção Brasileira ainda é idolatrada. Mauro Cezar Pereira tem um relato interessante sobre isso, que foi publicado em meados de 2013 no seu blog no site da ESPN.


O marketing esportivo brasileiro está na idade da pedra lascada e, quando muito, limita suas ações a lançamentos de camisas e tours pelos estádios, programas de sócios-torcedores ou alguma ação de cunho social bem esporádica. Nem se compara com o que é feito no Velho Continente, inclusive com excursões para expor a marca, que é ativada constantemente.

Em 2012, o Sportingintelligence.com divulgou uma pesquisa com os 10 maiores vendedores da camisas do planeta. Nenhum, obviamente, era brasileiro, apesar de nenhum dos quatro países apontados no levantamento ter mais habitantes que este país-tropical-abençoado-por-Deus. 

No começo de 2017, o Datafolha fez uma pesquisa e quase 1/4 dos entrevistados se declarou sem time. Daniel Bortoletto, colunista do Terra, escreveu em sua coluna sobre o assunto: "Tenho dois filhos em casa, com 10 e 8 anos. Semanalmente, eles se encontram com os amigos e as amigas do condomínio para o "Futesunday". E maioria esmagadora veste camisas de clubes europeus e não apenas dos gigantes midiáticos. Há espaço para PSG (FRA), Borussia Dortmund (ALE), Roma (ITA), Atlético de Madrid (ESP). Nem sequer a Alemanha, aquela do 7 a 1 sobre o Brasil, passa em branco". 

CORRIQUEIRO Camisas de times europeus disputam espaço
 com as das equipes nacionais (Daniel Bortoletto/Terra)
Os ídolos dos brasileiros na faixa de 15 a 20 anos estão lá fora. O jogador permanece uma ou duas temporadas no clube e sai, não cria uma identificação. Nos anos 1980, os principais jogadores do país saíam após os 25 anos, isso quando saíam. Zico deixou o Flamengo após 13 temporadas; Enéas jogou quase 10 anos na Portuguesa; Careca foi para o Napoli depois de nove temporadas no Brasil; Sócrates já tinha 30 anos quando foi para a Fiorentina. Além do mais, muitos garotos nascidos aqui têm como ídolos os craques de fora porque no Brasil não há este apelo, porque Neymar é o único craque de uma geração inteira que jogou mais de três anos no Brasil, sem contar que, dos maiores jogadores do mundo, apenas um é brasileiro. Isso faz com que vejamos meninos que têm, como ídolos, Cristiano Ronaldo e Messi.

Há quem torcia para o Santos quando Neymar estava lá e depois parou de torcer quando ele saiu porque não houve tempo de maturação, outro fator importante para formar a torcida, principalmente no caso dos times que não conquistam grandes títulos frequentemente. Até clubes estrangeiros que tinham muitos admiradores em terras tupiniquins podem observar a diminuição de suas camisas circulando pelas ruas. O Milan é o maior exemplo deles. Potência mundial quando os euros de Berlusconi recheavam seus elencos de craques, os rossoneri perderam espaço a partir do momento que a torneira secou e a equipe ficar quase uma década longe das grandes conquistas.


CORRIQUEIRO A camisa de Cristiano Ronaldo disputa a preferência
 dos jovens torcedores brasileiros (Arquivo pessoal)
Tenho quase 40 anos. Minha geração decorava as escalações, que eram mantidas por uma ou duas temporadas, e criava-se o vínculo com o ídolo. O baixo nível do futebol praticado por aqui também não favorece a formação de uma nova torcida nos mesmos moldes de como era, ainda mais com facilidade para acompanhar o futebol do exterior, que aumentou demais nos últimos anos com a velocidade da internet e a alta exposição nos canais de TV fechados. Quando garoto, acompanhava o futebol do Velho Mundo pela Revista Placar ou quando algum campeonato era transmitido na TV Bandeirantes, como era o fantástico Campeonato Italiano nos anos 1980, ou a Bundesliga na Cultura, isso já nos anos 1990, mas eram ações isoladas. Campeonatos como o inglês, que engatinhava como liga e era terrivelmente ruim, e o espanhol nem sonhavam em ser transmitidos no Brasil.

Hoje é tão fácil assistir a um jogo do Barcelona quanto a um do Corinthians. A única diferença é que fisicamente o novo torcedor não está no estádio, mas qual é o problema nisso? Ele aprendeu a torcer de um jeito diferente, com internet, pelas redes sociais, em que o gramado concorre pela sua atenção com a tela do celular.

Proporcionalmente, ainda é pequeno o número de adeptos que preferem levar um emblema estrangeiro no peito, mas é uma tendência a ser vista com cuidado, pois daqui a 20 anos pode ser que o menino que escolha torcer pelo time do pai, que é o mais bonito dos mundos, será filho de um torcedor de um Manchester City.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A ampulheta de Cristiano

Há uma espécie de ampulheta imaginária que é virada todos os anos. Ela marca o início do declínio de um dos jogadores mais absurdos, possivelmente o maior atleta do futebol, de todos os tempos. 

Sim, falo de Cristiano Ronaldo.

Após a temporada praticamente perfeita de 2016, quando venceu os dois troféus mais importantes do ano (a Liga dos Campeões pelo Real Madrid e a Eurocopa por Portugal), houve um declínio natural que, normalmente, sucede o ápice.

Este fato, combinado com a virada sobrenatural do Barcelona sobre o pouco respeitável time do PSG, na qual Neymar só não fez chover nos últimos oito minutos, fez os donos da ampulheta, mais uma vez, vaticinarem: é o começo do fim! Mais que isso, finalmente, chegou a vez de Neymar!

Mesmo que tenha sido por um jogo. Ok, um grande jogo, mas ainda assim um jogo, e contra um adversário de grandeza questionável. Estávamos apenas em fevereiro, mas já tínhamos o melhor do ano. Deve ser outra a ampulheta neste caso. 




E daí que Cristiano, com o passar do tempo, começa a mudar o posicionamento em campo? "Mas ele fez pouco mais de 30 gols na temporada".

Realmente, para os padrões de Ronaldo, 30 gols em uma temporada é pouco. Ele é o primeiro - e único, por ora - a romper os 50 gols em seis temporadas consecutivas. 

O prêmio de melhor do mundo tem suas peculiaridades, e desde que surgiram Cristiano e Messi pode ser resumido a Melhor da Dupla, e por mais que a pachecada de plantão esperneie, não haverá espaço para Neymar tão cedo, mesmo porque a Liga dos Campeões tem um peso absurdo (principalmente o mata-mata) e quem chega mais longe entre os dois coloca uma mão e meia na honraria. Para azar do craque brasileiro, se pensarmos na possibilidade de ser eleito, Messi está no seu time e Neymar precisará fazer chover para superar o argentino, o que, honestamente, não vejo ser possível simplesmente porque ele é muito melhor.

Nem deveríamos discutir isso.

Mas discutimos. E a ampulheta que contém a areia lusitana já estava mais cheia da metade para baixo. Neymar despachou o PSG e Cristiano se limitou a dar passes para gol contra o Napoli. Messi, por sua vez, que tinha feito 11 gols na fase de grupos da Liga dos Campeões, passou em branco nas oitavas e nas quartas, mas acabou com El Clasico e voltou a ser o melhor de todos os 
tempos. 

OITO MINUTOS Neymar foi o melhor do mundo
no fim do jogo com o PSG (Getty Images)
Há uma ampulheta relativamente mais apertada para o gênio argentino. De quebra, chegou a 500 gols só com a camisa blaugrana em uma partida que Neymar não jogou por estar suspenso de forma estúpida. Mesmo assim, os oito minutos de fantasia pura ainda lhe mantinham no topo de melhor-do-mundo-de-2017-ainda-estando-em-abril. 

Nos jogos contra a Juventus, Neymar e Messi não jogaram absolutamente nada, mas mantiveram-se intactos. O mesmo tratamento não teve o português pelo desempenho pífio no jogo com o Barcelona, mesmo que este valha menos, embora seja um dos maiores clássicos do mundo. A areia do portuga quase não era vista na parte de cima.

Mas da mesma forma que os 500 gols de Messi pesaram, Cristiano passar de 100 em competições europeias, depois chegar - e passar - a 100 só pela Liga dos Campeões e desandar a fazer gols decisivos (cinco dos seis contra o Bayern nas quartas de final e os três do primeiro jogo das semifinais contra o Atleti) também devolveram ao português o status de semideus (como se isso tivesse sido construído em apenas um jogo ou em uma temporada).

IMPARÁVEL Três gols e atuação de gala na
Liga dos Campeões (Getty Images)
Frases prontas como "o pior momento desde que chegou ao topo", "declínio físico aos 30 e poucos anos chegou" ou "só faz gol de pênalti" (mesmo sendo só 11, dos 103 na Champions, dessa forma) voltam para a gaveta, ou ao menos até a final da competição, quando sua ampulheta poderá ser zerada outra vez e estará acabado ou no topo do mundo.

Como em todos os anos. 
      

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Que horas são?

IMPLACÁVEL Pequeno torcedor lamenta a perda de seus heróis
 na triste arquibancada da Arena Condá (Nelson Almeida/AFP)
 

Acordei com o choro da minha filha, que está com o ouvido inflamado. Fui lavar o rosto antes de pegar o antibiótico. No celular, notificações de mensagens chegaram. Uma, duas, 10, 50. Cinquenta? Depois eu vejo. Tenho que dar o remédio da pequena. Voltei, já eram mais de 150. De várias pessoas e grupos. Todos os de futebol. O que aconteceu?

Abri. Não, deve ser brincadeira. No outro, a mesma coisa. E no outro, no outro, em todos. “Você conhecia os jornalistas?” “Viram o que aconteceu com o avião da Chapecoense?” “Que tragédia!” É um pesadelo. É um engano. Ligo o rádio, a TV, vou ao Twitter. Não, não é um engano. É a equipe da Fox. Deus do céu! O Mario Sérgio estava no voo. Puta que pariu! É verdade mesmo. Procuro por informações. O Danilo também morreu? Não, foi dado como morto, mas está sendo operado. A Teleantioquia deu que ele faleceu. Não, a mãe deu entrevista garantindo que ele está vivo. A Caracol também diz que morreu. Está ou não está? A imprensa, que deveria informar, está perdida. Desinforma. Prestação de serviço que não presta. Desserviço.

Olho para o relógio, mas segundos depois não me lembro de que horas são. Preciso de um café. Está garoando, mas preciso respirar. Saio mesmo assim. O tempo passa lento, o dia passa arrastado, o ar é pesado, denso. Que horas são? Olho para o pulso, mas deixei o relógio em cima da mesa.

Na mente o jogo de domingo. Bruno Rangel, Gil, Ananias, Caio Júnior. Os nomes não param de girar em volta da minha cabeça. Olho o celular e as informações continuam confusas. Danilo. Sobreviveu? Não? E o Follmann? Ah, amputou uma perna. Ele morreu também. Espera! Não, não morreu. Cacete! Jornalismo de merda esse que não informa, que não checa. Que tem pressa. Precisa sair antes do outro. Mas tá errado, chefe! Tanto faz, depois arruma.

Busco outra vez pela tela do celular. Mais mensagens. Muitas. Viu que o Tiaguinho ficou sabendo esses dias que seria pai? Recebo o áudio do Mauro Beting. Mario Sérgio estava decidido a deixar a Fox pela voz embargada do ex-companheiro de tela e de luta. Porra, o Mário! Sinto cortar o coração.

Aparecem os caça-clicks. “Veja as fotos do acidente”. “Veja a galeria de pessoas que fizeram selfies segundos antes da morte”. Malditos! Procuro abstrair, mas não consigo. Olho em volta e tudo se move lentamente. A rua parece um grande cemitério em movimento. Sem cor. O cheiro é de dor. É de morte.

Recebo pelo celular a lista com os nomes dos passageiros. Vejo amigos de amigos. Gente que vi no domingo, pela TV. Que não via há tempos. Com quem não falava há mais de um ano. Resolvo ligar para confortar quem também perdeu amigos, esses mais próximos que eu. Quanta pretensão! É impossível, mas vou mesmo assim. Falo com um, dois, três. Produtores, repórteres, amigos. Não pergunto como estão. Seria estúpido e desnecessário.

Volto para casa e vejo as horas. De novo me esqueço, segundos depois. Viu que o seu Benfica quer emprestar jogadores? Que bacana! Solidariedade sem gesto concreto é como abraçar árvore. O PSG vai doar não sei quantos milhões. Sério? Não, é mentira. Quem será o vagabundo que fica plantando isso?

Homenagens. Tottenham, Real Madrid, De Gea, Messi, Figo, o mundo. Liverpool."You'll Never Walk Alone". O Torino e o Manchester United também. Eles também sabem o que é perder um time de uma vez, o que é ver heróis e sonhos se espatifando após um voo infeliz. Minuto de silêncio nos clubes. Coletivas canceladas. Treinos suspensos. O dia acontece não acontecendo. Não deveria acontecer. O Vasco anuncia o novo técnico. Idiotas!

O distintivo da Chape está em todo lugar. Em todos os clubes. Até o Corinthians veste verde hoje. A Portuguesa, quebrada e falida, oferece ajuda. É bonito. É triste. Vejo o menino sentado, sozinho, na arquibancada da Arena Condá. É triste. O Atlético Nacional abre mão da disputa da final e pede o reconhecimento do adversário campeão. Amigos choram. Busco o relógio outra vez. Mero costume, cacoete. Não sei que horas são, mas não importa. Parece que o mundo está subindo uma ladeira com todo seu peso nas costas. Pesado. Sofrido. Lento. Estúpido.

Percebo que não almocei. Que mal bebi água. Minha filha dorme. Olho pela janela e já está escuro.

Que horas são?