| O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista |
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
O engajamento e a permissão para odiar
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo
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| Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP |
"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".
Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na suposta vítima.
Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse - não é com pescoço alheio que se exige justiça -, responsabilizou o brasileiro, apontando-lhe o dedo pela forma como comemorou seu gol, como se o próprio Mou não tivesse feito o mesmo reiteradamente em partidas escaldantes.
Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior a trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão pela parte vermelha da Segunda Circular.
Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Valdo, Mantorras e tantos outros.
O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo?
É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.
Nada justifica o racismo.
Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é o ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas, cujos maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.
Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Pílulas amadoras - 30
*Por Humberto Pereira da Silva
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| Foto: Alberto Gardin/NurPhoto via Getty Images |
O mundo do dinheiro e tudo que há de nojento em torno dele.
Esse mundo e certas imagens me deixam a sensação de espelho e a inversão no que se vê. Vejamos o caso de rebeldia de Vini Jr quando foi substituído pela enésima vez pelo técnico Xabi Alonso nesta temporada: isoladamente, o Vini Jr extrapolou, pisou na bola, chutou o balde, deu chilique... e isso é coisa de criança birrenta...
Contexto? Alguns milhões na jogada. Termos como valorização ou desvalorização de um produto que envolve milhões não é encenação de chegada de papai Noel no Natal.
O produto, no caso, na ordem do Capital, é tão só um produto que se insere no mundo dos negócios. Uma propriedade... uma commoditie..., algo que nos tempos de escravidão movimentou a economia europeia por trezentos... quatrocentos anos...
Em outros tempos, de Zumbi e Dandara aqui no Brasil, a inconveniência de um escravo e o pelourinho...; mas um escravo de grande valor, se açoitado com violência extrema, perde o valor, não uma PEÇA de reposição, um PRODUTO, que se deseje desvalorizar e com isso perder qualquer margem de negociação.
Em um óbvio exercício de adivinhação, imagino que o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) diria que Vini Jr só se sentiria completo se gozasse com Xabi Alonso do mesmo prestígio que tinha com seu treinador anterior, Carlo Ancelotti, que agora é quem o dirige esporadicamente quando coincidem na seleção brasileira. Vini escolhe, portanto, ser feliz jogando mais e mais, e, consequentemente, tendo seu valor de mercado valorizado.
Não é difícil imaginar que seja assim.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
Pílulas amadoras - 25
| Crédito: Flashline |
Endrick é, desde Neymar, o jogador brasileiro em início de carreira que mais chama a atenção da mídia. Portanto, que mais gera expectativa. Assim como Neymar, para o bem e para o mal, o que quer que faça tem repercussão extraordinária.
quinta-feira, 21 de novembro de 2024
Pílulas amadoras -24
*Por Humberto Pereira da Silva
Sobre Brasil versus Uruguai, o empate com a Celeste praticamente garantiu a vaga brasileira para a Copa de 2026. Os resultados dessa Data FIFA, aliás, praticamente definiram os representantes de forma direta da América do Sul: Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, Brasil e Paraguai.
Comemorar a quase classificação? Sim, óbvio, mesmo com o aumento de vagas, apurando diretamente seis dos 10 postulantes, e logo iremos a isso. Por diversos motivos, há um equilíbrio nessas Eliminatórias. Ao término da rodada dupla - à qual nos habituamos a chamar de Data FIFA -, a Argentina lidera. E tudo indica, manterá a cimeira na próxima.
Mas, vejamos, por momentos, ela sentiu a sombra da Colômbia. Ao término, fazendo as contas, perdeu do Paraguai e em Buenos Aires não goleou o frágil Peru, de quem ganhou, aos olhos mais atentos, com esperada dificuldade. A Colômbia, por sua vez, fecha a Data FIFA, em que poderia liderar, na quarta posição.
Então, o Brasil decepcionou nesses dois jogos? Ora, a decepção está obrigatoriamente ligada à expectativa e o Brasil jogou o que é a realidade atual do futebol brasileiro frente ao equilíbrio entre as seleções do continente.
É impressionante ver a quantidade de jogadores das seleções da América do Sul que atuam no Brasil, cujos times dominam as competições continentais. Salta aos olhos a quantidade de jogadores da América do Sul que atuam nas principais ligas da Europa.
TODOS os comentários que li sobre Brasil e Uruguai parecem ignorar essa realidade. Assim, simultaneamente, alguém lembra que Valverde é estrela no Real Madrid, e não menciona as ausências de Arrascaeta e De la Cruz, estrelas aqui no Flamengo. Isso sem contar as retiradas recentes de Cavani e Suárez, titulares dos cisplatinos nas últimas três Copas do Mundo.
No afã de torcedor, jogar contra o Uruguai, e ganhar, seria como 40, 50 anos atrás ter pela frente Venezuela ou Bolívia. E comentários de torcedor sem essa constatação funcionam como um bom tempero para que, sob pressão de emular escretes do passado, a seleção "novamente" decepcione.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
quinta-feira, 31 de outubro de 2024
Pílulas amadoras - 22
*Por Humberto Pereira da Silva
| ¡JUNTOS! Vinicius Jr publicou em sua conta no X uma foto de todo o elenco madridista. |
Sobre o boicote do Real Madrid à cerimônia de premiação da Bola de Ouro, ouvi comentários condenando a decisão do Real, que os merengues se apequenaram, fizeram birra, foram maus perdedores, desrespeitaram o Rodri, que ao cabo ficou com a honraria de melhor jogador do planeta.
No mundo de liberdade de expressão, é ótimo ver que todos expressem opinião. E a decisão do Real, é inevitável, se presta às mais diversas opiniões. Vai a minha, portanto: considerando a maneira como as coisas ocorreram - havia um avião pronto para levar a trupe para Paris e a viagem foi cancelada de última hora - há algo nos bastidores que jamais se revelará e que levou à decisão tão extrema. A decisão poderia ter uma discussão séria e inteligente, mas ficou, até onde vi, na superfície das condenações. "Um papelão, o Real se apequenou...'
Pensemos e extraiamos implicações. Até a divulgação oficial ninguém sabia que Rodri seria eleito o Bola de Ouro. Ninguém. Mas Vini Jr. era "favorito". As palavras traem. Como favorito numa escolha que envolve votos um a um? A palavra favorito para mim cabe quando no auge da forma se põe Usain Bolt numa disputa. Ninguém vota em quem vai ganhar. O favoristismo de Bolt não tem nada de subjetivo.
Quando a delegação do Real cancelou voo a Paris na manhã da entrega do prêmio da France Football, Vini Jr deixou de ser "favorito" e o favoritismo ficou com Rodri. Ninguém sabia, até então, quem seria o vencedor e o Real boicotou sem saber que nenhum de seus jogadores, três, além de Vini Jr, Belligham e Carnaval, seriam escolhidos.
Pois é. O Real não foi a Paris e o então "favorito" Rodri confirmou o favoritismo. Não há charme, birra, nem meros rumores plantados pela imprensa. Antes do anúncio, o Real sabia que Vini Jr não seria eleito. Mas como o Real, para tomar decisão radical, teve a certeza do que só se saberia no anúncio oficial?
Pois é, com uma certeza assim não é preciso ser vidente para se extrair outra certeza: até a noite anterior o Real sabia que Vini Jr seria escolhido. Tanto que teria reservado, segundo o que chegou da Espanha, voo e hotel para cerca de 50 pessoas. O que a decisão do Real revela é o teatro, o fingimento de que não se sabe o que se sabe. O Real não poderia saber que o Rodri seria eleito. Boicotou porque "vazou"... não! Boicotou porque "vazou" que o Vini Jr seria eleito.
Foi extrema a decisão. Mas ela trouxe elementos que poderiam ser pensados em eventos em que o público é tratado como idiota. Eis minha modesta opinião. Movimento nos bastidores e Rodri foi escolhido. E não mera soma com critérios amplamente divulgados e objetivos? Então como se daria o que se deu? Por que Vini Jr perdeu? Pois é. Nunca saberemos. Mas só sendo idiota para supor que o Real tomaria a decisão que tomou ignorando os bastidores da escolha.
Ou seja, para o público, o poderoso Real e o jogo das manipulações nos bastidores, no submundo das manipulações de bastidores, não teve força e foi traído.
Um bom roteiro para um filme de máfia, ou de espionagem. Coppola para mim é o emblema com seu O Poderoso Chefão. Noves fora, fica pros incautos fazer piadas, memes e emitir opiniões pueris tipo o Real se apequenou.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
segunda-feira, 9 de setembro de 2024
Pílulas amadoras - 21
* Por Humberto Pereira da Silva
| Cr7 e a inalcançável régua real (Fabrice Coffrini/Getty) |
Cristiano Ronaldo chegou, contra a Croácia, aos 900 goles. É o primeiro jogador de futebol a alcançar, oficialmente, essa marca. Claro, "todos" sabem que Pelé fez mais de 1200 goles. E não muitos, que o austríaco Josef Bican teria feito em torno de 1800 goles entre os anos 20 e 50 do século passado.
Aí, me faz questão de lembrar o editor deste blog, há o "problema" de ignorar goles marcados em partidas amistosas, mas contra grandes equipas do futebol mundial: nestas excursões para fazer um pé de meia que pudesse, além de preencher o calendário, pagar as contas - e manter o próprio Rei -, perdem-se tentos marcados contra Internazionale (8), Barcelona (4), Benfica (4), Juventus (2) e Real Madrid (1), esquadrões repletos de craques e donos de troféus internacionais. Pela América do Sul, 22 goles divididos entre River Plate (7), Boca Juniors (5), Racing (4), Independiente (2), Millonarios-COL (2) e Nacional-URU (2) viram fumaça.
Isso se não contarmos os grandes brasileiros: Atlético Mineiro (5), Cruzeiro (4), Bahia (2), Botafogo (2), Palmeiras (2), Corinthians (1), Flamengo (1), Grêmio (1) e Portuguesa (1). Eibares, Numancias, Al Qualquer Coisa e quetais, para ficar em termos do editor, não oferecem um átimo das dificuldades impostas pelos times citados neste parágrafo.
Ontem, Cristiano saiu do banco para desenroscar um jogo que exigiu a persistência lusitana até praticamente o último minuto para superar o ferrolho escocês. O gole da vitória do Tugas foi marcado aos 43 minutos do segundo tempo por ele, que já havia atirado duas vezes ao ferro, iniciando a contagem regressiva para o tal milésimo, que deve, se acontecer, sair quando a Terra de Cristiano estiver na 43ª volta em torno do Sol, justamente a idade em que Josef Bican deu seus últimos pontapés.
A título de comparação, o milésimo do Rei foi marcado aos 29 anos. Dito isso, o que resta? Números são... não mais que... números. Por isso, fico com Fernando Pessoa, para ter a dimensão do feito de CR7: "O mito é o nada que é tudo", primeiro verso do poema "Ulisses".
Números são números, pois não. Mas neles, além da frieza, não se deve ignorar o simbolismo. O mito do milésimo gole de Pelé simboliza um dos feitos do Rei. O que, justamente, oferece ponto de partida para qualquer feito posterior.
Ao milésimo gole agregam-se três Copas do mundo, 58 goles numa edição do Campeonato Paulista (aos 17 anos), parar uma guerra..., que fazem de Pelé o maior mito da história do futebol.
O feito de Cristiano Ronaldo, assim, ganha enorme poder simbólico porque tem como ponto de partida para que se ponha a régua à marca Pelé. Agora, entre a frieza dos números e o simbolismo, o futebol também é feito de circunstâncias e circunstâncias de momento.
Na conta dos quase 1300 goles do Rei, mais de 500 ajustados em jogos que causam constrangimento saber precisariam ser contados. Na frieza dos números, o mito Pelé, para ser Pelé, não precisa do registro de goles na Seleção do Exército (10 em 14 jogos), tampouco de goles contra equipas "amadoras" nas inúmeras excursões do Santos nos anos 60 para exibir a Majestade.
Certo. Nas circunstâncias e circunstâncias do futebol, o feito dos 900 goles de Cristiano Ronaldo se deve a um oportuno final de carreira no futebol árabe. Sua última passagem pelo Manchester United mostra que ele não atingiria essa marca no futebol europeu. Igualmente, Pelé não teria chegado a essa marca sem as convenientes contas para se ensaiar contra o Vasco da Gama o dia do mítico milésimo gole.
segunda-feira, 17 de junho de 2024
BRASIL - O desinteresse pela seleção brasileira: reflexões sobre Cultura, Política e Economia do futebol
Sugiro que tentemos aprofundar o debate e fugir de respostas fáceis: por que a seleção não desperta o mesmo interesse de há 20 e poucos anos? Por que muita gente prefere um rival, como a Argentina? Por que reclamam quando jogadores de seus clubes são convocados?
Eu, que tenho ascendência portuguesa e me identifico como torcedor da seleção de Portugal, não sou exemplo de nada, tampouco sirvo para explicar qualquer tendência neste sentido. Além da minha origem, existe o aspecto cultural, e pesa a safadeza feita em 2013 com a Portuguesa, clube do qual sou torcedor e era assessor de imprensa à ocasião. Isso fez com que eu enterrasse de vez qualquer simpatia por qualquer coisa que tenha a chancela da CBF (exceto o futebol feminino, que não tem a devida atenção de todos os setores que atuam no futebol).
A mesma CBF, desde que repassou o direito de negociar os jogos da seleção para empresas de marketing esportivo, que passaram a levar a maioria dos amistosos para o exterior, afastou o torcedor (entre 2000 e 2019, foram disputados 135 amistosos, dos quais, 112 no exterior). Ainda assim, quando joga em território nacional, o preço é proibitivo. Para se ter uma ideia, em outubro do ano passado, quem gastou menos para ver o Brasil levar um gol de bicicleta da Venezuela na Arena Pantanal pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 terá desembolsado R$200,00 caso tenha tido direito à meia-entrada. O preço cheio variou entre R$400,00 e R$600,00 – pouco menos da metade do salário-mínimo vigente em 2023 (R$1.320,00). Aqui mesmo, publiquei uma comparação dos custos para um torcedor ver o jogo de sua seleção no Brasil e em Portugal.
O recente incremento financeiro no futebol brasileiro fez com que alguns atletas selecionáveis possam permanecer no Brasil, mas isso não significa que os clubes tenham fôlego para segurar seus principais talentos. Por outro lado, trouxe o inchaço do calendário, que recebe cada vez mais jogos e impede que haja, por exemplo, uma pré-temporada minimamente decente. Diferentemente do que acontece na Europa, o futebol daqui não vai parar durante a competição de seleções. "Ah, quando há jogo da Seleção, os clubes não jogam”. Sim, jogam, mas no dia seguinte. Então, desfalques irão ocorrer do mesmo jeito. E a culpa de uma eventual derrota será da seleção, já que ninguém tem a dignidade de assumir os próprios erros. Convenhamos: é fácil tacar pedra na Geni.
Outro ponto que traz chateação é o chamado "vírus-FIFA" (lesões ocorridas em jogos das seleções), essa ideia rasa que tenta convencer que os jogos entre selecionados, e não esse monte de competições de clubes, são os excedentes. Reitero: é confortável para dirigentes e treinadores transferirem a responsabilidade. Além do mais, está assim, ó, de torcedores que adoram achar que seu time está sempre contra-tudo-e-contra-todos, numa cruzada antissistema que só existe na cabeça vazia dessa malta.
Repito, não tenho a intenção de responder todas as questões ou passar o que penso como verdade inquestionável. Outros pontos que me escapam podem e devem ser considerados para ajudar a explicar esse afastamento.
A obrigação doentia de vencer a qualquer custo e que se lasquem os métodos que podem aproximar projetos de conquistas também não ajuda. Assim, muitos treinadores daqui adotam posturas defensivas porque precisam satisfazer a sanha do torcedor barulhento, alimentada por um sem-número de debates mais barulhentos ainda, para manter seus empregos. Boa parte da mídia também tem culpa no nível do futebol praticado e dos programas apresentados, que às vezes resvalam na indigência. Sequer temos uma escola tática, um estilo próprio, e isso tem influência direta do que é praticado lá fora.
Neste sentido, o período sem títulos nas Copas do Mundo diminui o interesse do torcedor que aprendeu que só quem vence é digno de respeito e os outros são um bando de fracassados. Não basta ganhar outras competições, como as continentais ou a Olimpíada, tem que ser o dono do mundo. Desde a primeira conquista brasileira, em 1958, o maior jejum de títulos correspondia a cinco edições, entre 1974 e 1990, igualado em 2022.
A popularização das ligas estrangeiras também causa consequências no nível do nosso jogo, como se fosse simples emular o que é feito na Europa. Para isso, precisaríamos entender os conceitos, assimilar e dar tempo para que os trabalhos possam amadurecer. É como querer construir uma casa a partir do teto. Em vez disso, meia-dúzia de jogos bastam para definir se fulano ou cicrano servem – normalmente não servem. E essa histeria é alimentada pelos repetitivos programas de debates e suas "sensacionais e originais" enquetes para ouvir a "voz do torcedor". Como só vencer serve, criamos uma geração de consumidores, não de torcedores, que gritam "não pago meu sócio-torcedor pra isso!”
A facilidade para acompanhar campeonatos muito melhores também não ajuda, quando comparados com o que é praticado aqui. Então, a molecada que cresceu ouvindo que só a vitória interessa, vai gritar "meu City, meu PSG, halla Madrid!" Ou outro fortão da vez, pois isso também muda. Ou alguém vê mais camisas do Milan, febre da primeira década desse século, quando tinha brasileiros inquestionáveis na seleção, como Kaká, Cafu e Dida, do que de um desses endinheirados da vez?
Aí, criamos outro tipo de torcedor: o que torce pelo seu jogador preferido e leva uma leva de gente para onde for. Messi e Cristiano Ronaldo – e Neymar também bateu aí – são os expoentes dessa modalidade. Notem quantas camisas do Inter de Miami e do Al Nassr estão sendo expostas por aí, sobretudo nas crianças. E isso acaba refletindo também no futebol de seleções. Ao cabo, os candidatos a ídolos brasileiros não esquentam lugar, nem criam laços com clubes daqui, e muita gente não se sente representada, nem é brasileira-com-muito-orgulho-com-muito-amor.
Há outro ponto importante na comparação entre Copa América e Eurocopa: como o produto é trabalhado - e não adianta encampar o ódio-eterno-ao-futebol-moderno. É lidar, como diz-se em Portugal. A partir daí, entender como valorizar a competição como produto. Na sua coluna no Guia da Copa América e da Eurocopa da Placar - mesmo tratamento para ambas, mesmo espaço, bola dentro! -, o jornalista Vitor Sérgio Rodrigues fala, e bem, do desgaste causado pela exposição exagerada da Copa América, a ponto de ser banalizada. A Euro, uma mini-Copa do Mundo, é feita para ser exatamente isso. A competição da lamentável Conmebol - não que a UEFA seja muito melhor, mas sabe trabalhar - caminha para ser mais respeitada. Estabilizar o intervalo entre as edições é um dos passos pais importantes.
Portanto, cada um que acompanhe o que quiser, sem essa de rotular sem contextualizar porque é mais fácil. Esta Copa América, que a Conmebol entregou para os Estados Unidos colocarem em gramados cujas dimensões são diferentes do que veremos na próxima Copa do Mundo (enquanto a Eurocopa é organizada como a própria Copa do Mundo), tem como maior atrativo ser provavelmente a última competição de Messi pela Argentina.
E todos somos responsáveis por isso.
segunda-feira, 3 de junho de 2024
BRASIL - Vinícius Jr, Neymar e a tragédia grega, com a Bola de Ouro ao barulho
| INTIMIDADE Vini Jr. beija a taça mais cobiçada do futebol de clubes (Reuters/Carl Recine) |
*Texto originalmente publicado no Ludopédio
Vinicius Jr. é a bola da vez. Favorito a devolver ao Brasil a Bola de Ouro, o jogador tem brilhado jogo sim, jogo também, pelo Real Madrid, com quem conquistou sua segunda Liga dos Campeões em três anos, e foi novamente decisivo, outra vez protagonista.
Mas não bastou exaltá-lo. Como se o futebol fosse o teatro grego de tragédia e a presença de um protagonista, representando o bem, automaticamente criasse a figura de um antagonista, a quem o mal lhe é atribuído, busca-se diminuir Neymar para enaltecer Vinicius Jr. É a mesma tolice que converte fãs de Messi e Cristiano Ronaldo em detratores do outro. Apesar do péssimo gerenciamento de carreira, Neymar é - ou foi, sei lá o que vai dar dele - um jogador brilhante.
Fora de campo, Neymar é um cidadão dos mais questionáveis, para não usar outro adjetivo menos abonador, mas, em se tratando de futebol - e o tema aqui é este -, é um extraclasse, é completo. Podem escolher o fundamento do jogo, Neymar, no mínimo, é muito bom. O que pesa contra o maior talento brasileiro, para não falar mundial, em anos é o seu comportamento, e aqui nem entra em questão suas posições pessoais.
É necessário conter a emoção, mesmo que seja somente para proteger o craque madridista das cobranças exageradas para que seja o número um. Presenciamos um craque em construção, longe do seu ápice físico, técnico e psicológico, e ainda sujeito a cometar algumas bobagens. Hoje, quando este texto é escrito - e afastado do calor da conquista continental -, Vini Jr. é o principal jogador da temporada, da mesma forma que Bellingham já foi apontado como o melhor do ano.
Imaginemos, porém, que a Inglaterra finalmente vença uma competição, a primeira desde 1966. Se Bellingham comer a bola, quem garante que o favorito não passe a ser ele? Ou Kane, que naufragou coletivamente no Bayern, mas individualmente fez provavelmente sua melhor temporada. Comparando as conquistas, a Champions do Real Madrid é só mais uma Champions do Real Madrid. Uma eventual Euro da Inglaterra são outros quinhentos.
O prêmio pode ir para qualquer um deles, ou até mesmo para Kroos, um dos melhores da história, sem favor algum. Se mantiver o nível estupendo de atuações visto na temporada e, naturalmente, vencer a competição que jogará pela Die Mannschaft, em casa, estará à altura da distinção. Destes, Vini Jr, Bellingham e Kroos arrebentaram na temporada, pelo mesmo Real Madrid. Não me parece nenhum absurdo que os três estejam cotados.
Ainda assim, não será essa obrigação besta que parece ser determinante para decidirmos o tamanho de um jogador que nos dirá se Vinicius é maior ou melhor do que Neymar. Potencial, ele tem; mentalidade, idem; talento, demorará anos para aparecer alguém que se aproxime do ex-santista, isso se algum dia acontecer. Mas isso não basta. Além do mais, um fato poderá ser determinante para o futuro do brasileiro: a chegada de Mbappé ao Real Madrid.
Só para ilustrar, quando ainda não era um criminoso, Robinho era um talentosíssimo atacante, também do Real Madrid, com os olhos postos ao prêmio de melhor do mundo, e numa época pré Messi e Cristiano. Bastou a suspeita de que seria moeda de troca para a chegada do português para rifar a carreira. Bastou uma decisão errada, somente uma. Depois foi o que foi, mas isso não tem nada a ver com o campo.
Como Vini reagirá à chegada do mimado francês? Ou melhor, como Mbappé chegará ao Real Madrid? Será mais um no vestiário, que não terá mais a liderança natural de Toni Kroos? Aceitará jogar centralizado para que Vini siga atuando onde comprovadamente rende mais? No PSG, essa questão causou ruído. Na seleção francesa, Mbappé já é o capitão.
Voltando à Bola de Ouro, o camisa 7 do Real Madrid sofre a resistência de parte considerável do mundo do futebol porque enfrenta o racismo que sofre até mesmo quando não está em campo, em vez de aceitar bovinamente as ofensas que recebe por causa da sua cor retinta. Não aceita ser atração, tampouco ser desumanizado por um sistema que sequer considera o racismo crime no país onde mora.
Em todo caso, ainda lhe falta escrever uma história na seleção, onde Neymar, bem ou mal, é o maior artilheiro em jogos oficiais, mesmo tendo feito água nas grandes competições. Talvez a presença do próprio Neymar no grupo ofusque seu crescimento, ou faz com que os treinadores, desde Tite, não lhe deem o protagonismo que parece pronto para receber. Ou mesmo o sistema de jogo de Fernando Diniz tenha atenuado seu talento. Seja como for, Vini nunca foi o cara a ser procurado em campo quando a coisa apertou quando veste a cada vez mais esquisita camisa da seleção.
Pelas características de Dorival Jr, e por Neymar, temporária ou definitivamente, não estar à disposição, esta responsabilidade deve ser-lhe atribuída já na Copa América, na qual terá a chance de pavimentar ainda mais o caminho para chegar ao prêmio de melhor da temporada. Até lá, pelo menos, sugiro ir devagar com o andor porque o santo - e a admiração do torcedor - é de barro.
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
BENFICA - a noite das vergonhas europeias
Prostrado. Humilhado. Vergado. Não faltam adjetivos para descrever a terrível prestação benfiquista nesta edição da Liga dos Campeões, mas poucas vezes se viu em campo uma equipa tão vulgar, indigente. Ainda mais considerando que este espantalho em forma de time de futebol - ou seria o contrário? - carrega no peito três estrelas, cada qual para uma dezena de títulos nacionais, e a reputação histórica de ser bicampeã europeia, além de outras finais disputadas antanho.
Lá se vai muito tempo, sei, desde que a maldição de Béla Guttmann caiu sobre a cabeça dos avaros dirigentes encarnados, mas nada faria supor que depois da magnífica demonstração de como jogar futebol vista na temporada passada, um rascunho formado por 11 jogadores estaria a vestir a mesma camisola.
A noite no Anoeta foi de estarrecer, de petrificar, de fazer corar de vergonha o mais pessimista dos portugueses. E olhe que falo de uma característica praticamente inata ao povo português, ainda mais quando há do outro lado 11 gajos a representar o futebol espanhol e uma bola no meio.
A Bola, maior jornal da Terrinha dedicado ao chamado desporto rei, fez uma compilação do que os jornais da Espanha disseram. A ver:
sábado, 16 de dezembro de 2017
O que sobrou de nós
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| MAIS UM Cristiano Ronaldo iguala Pelé como maior artilheiro do Mundial de Clubes ((Mike Hewitt - FIFA/Getty Images) |
O pior Real Madrid possível pôs o Grêmio no bolso, dominou os gaúchos como quis. Jogou pro gasto. Ganhou como quis, mesmo parecendo, às vezes, que não queria. O Tricolor Gaúcho, pela terceira vez campeão sul-americano, se contentou em tentar uma bola, literalmente. Tivesse um balde d'água no lugar de Navas, o placar seria o mesmo.
É o que sobrou de nós.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
Por quem torcerá o brasileiro?
A tradição voltou e o Naça está na Série A2 depois de 10 anos
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| CORRIQUEIRO Camisas de times europeus disputam espaço com as das equipes nacionais (Daniel Bortoletto/Terra) |
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| CORRIQUEIRO A camisa de Cristiano Ronaldo disputa a preferência dos jovens torcedores brasileiros (Arquivo pessoal) |
terça-feira, 2 de maio de 2017
A ampulheta de Cristiano
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| OITO MINUTOS Neymar foi o melhor do mundo no fim do jogo com o PSG (Getty Images) |
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| IMPARÁVEL Três gols e atuação de gala na Liga dos Campeões (Getty Images) |
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Que horas são?
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| IMPLACÁVEL Pequeno torcedor lamenta a perda de seus heróis na triste arquibancada da Arena Condá (Nelson Almeida/AFP) |











