sexta-feira, 10 de julho de 2026

PORTUGAL - Carta aberta a Roberto Martinez


SEM PROBLEMA - Este pode ter sido o gesto mais repetido por Roberto Martinez
 no comando da seleção portuguesa (Foto: Reuters/Hannah Mckay)

Caro Roberto Martinez, não posso começar esta carta sem destacar que foi fixe vê-lo cantar A Portuguesa já no início do trabalho à frente da Equipa de Todos Nós. Era um sinal de que estavas a incorporar o jeito de ser do lado menos apetrechado da Península Ibérica.

Ao menos era o que parecia. Infelizmente, pá, ficou por aí o jeito tuga de ser. Faltou-lhe o essencial: ser frontal.

Mas aí, creio eu, era além do expectável, já que em tua passagem pela Bélgica tu sempre foste alguém avesso a contrariar as vedetas que tinha à disposição. E olha que eram muitas. Não espanta o último mundial com eles ter sido à prestação mínima, ao pé do que fizeste nos outros anos, inclusive dando cabo de Portugal no Europeu de 20.

Por isso eu digo que a culpa, se é que há culpados à beira do relvado, não é tua, é de quem o trouxe sabendo de teu temperamento e, principalmente, de quem te manteve ao leme, mesmo não acreditando que resultaria. A tal da frontalidade não faltou somente a ti, Roberto.

Não posso dizer que não houve bons momentos. Jogar olhos nos olhos com a França no jogo em que nos deitaram fora da última Eurocopa foi, se calhar, o melhor jogo que fizemos nestes três anos e meio em que passamos juntos. Houve outros, como a vitória contra a Arménia, quando, apesar da maciez do oponente, vimos um time leve, arejado, flexível e... sem Ronaldo.

Mas não podias contraria o astro, não é? Não foi para isto que vieste. Dizias tanto ter um lote alargado de trinta e tantos jogadores para, no fim, usar os 15 ou 16 de sempre. Pote, Quenda, Horta, Mora, Trincão, Gonçalos (os dois, Ramos e Inácio, ou até o Guedes, se calhar, que levaste e não deste por ele no Mundial), outros tantos. Era um prémio pra eles ver os treinos? Mais ganhavam a descansar. 

Se fosse para fazer o fácil, o confortável, podia ser qualquer um e saía mais barato. Eu, por exemplo, ou algum dono de tasca, o Gajo de Alfama do Ricardo Araújo Pereira, tanto faz. Podias mais, Roberto. Tenho certeza de que podias para além deste futebol que roçou a indigência. Mas aí, se calhar, não serias tu.

Já ouviste falar em Pirro? Creio que sim, mas vamos a isto: Pirro foi um general do caraças que, ao ver que grande parte do seu exército foi para o caralho mesmo tendo vencido a batalha, teria dito algo como “Mais uma vitória como esta e estou perdido”. Ganhar a Liga das Nações, se calhar, não soube bem. 

Sabe, ao cabo, o que mais incomoda? É não ter acreditado nem por um segundo que era possível. É a certeza de que, a qualquer momento, cairíamos. Mesmo tendo a maior reserva de talento que nenhuma vez tivemos, nem há exatos 10 anos, em 2016, quando fizemo-nos grandes aos olhos de todos. Só não havia coragem. E olha que já acreditamos em equipas inferiores a esta que tu tiveste disponível.

Obrigado por nada.

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