segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pílulas amadoras - 35 - O 'affair' Neymar, Thiago Leifert e a ética**

*por Humberto Pereira da Silva

A tietagem é uma das fronteiras sagradas
 do jornalismo. Foto: ofuxico.com.br

Uma das coisas bem bacanas no futebol é o quanto ele desperta paixões. Uma das primeiras expressões que me lembro de minha infância é a de que fulano é “torcedor fanático”. Torcer por um time, pela seleção, ou só por um jogador e o futebol reserva momentos de fortes emoções. Alegria e tristeza se encontram e se desencontram numa fração de segundo. Êxtase, medo e frustração se entrelaçam sem qualquer aviso. Sem qualquer sentido de racionalidade.

Ponto. Viro a página. Passo do lado poético, romântico, filosófico, psicológico, psiquiátrico - o que quer que seja - e abro a página da ética em jornalismo.

Assunto do momento: Neymar, sempre Neymar, e sua convocação para o Copa. Obviamente, como esperado por qualquer pessoa sensata, convocado ou não, o seu caso (affair) dividiria opiniões.

Afinal, qual é o problema da opinião no jornalismo esportivo?

Não misturar paixões de torcedor que tem um jogador como ídolo e, vejamos o nó, a opinião jornalística. Sutileza: opinião jornalística não é opinião de torcedor. Ao misturar as esferas e falar como torcedor, o jornalista se expõe a um problema de ética. Na atual conjuntura, uma pessoa que saiba falar, domine e detenha a tecnologia necessária pode se arvorar a ser uma pretensa formadora de opinião - ou o famigerado influenciador. Um jornalista, porém, jamais poderá fazer o mesmo, dado que a ética é a fronteira a não ser cruzada.

A convocação de Neymar, sim, como totalmente previsto, dividiu opiniões. E igualmente expôs jornalistas na perigosa fronteira em que basta um passo e não se tem mais o jornalista e sim o detrator ou o fã de Neymar. 

Tudo bem se, com discernimento e lucidez, o jornalista lembrar que fala como torcedor, que tem o diretor de opinião como torcedor e que quem pensa o contrário dele também tem esse direito. Pode não ser fácil num clima de paixões assim se manifestar, mas sabendo se expressar por vezes uma palavra e o jornalista, enquanto jornalista, com um lenço branco acenando se protegeria.

Não foi esse o caso, no turbilhão jornalístico após a convocação de Neymar, com a manifestação de Thiago Leifert. Uma palavrinha, “merda”, e efetivamente Leifert não acenou com um lenço branco.

Já há um bom tempo defendendo (pressionando) a convocação, com esta se realizando, Leifert abandonou o que seria a posição de um jornalista e, para fazer uso de termo repetido diversas vezes por ele, falou “merda”. Não que outros não tenham feito o mesmo, mas ninguém partiu para o ataque como ele.

Falar “merda” aqui é falar como torcedor num boteco, ou seja, fortemente impulsionado pelas paixões, sem qualquer senso de bom senso.

Destaco um ponto em especial na fala dele: “Se fosse em um lugar sério e se o jornalismo esportivo tivesse vivendo uma melhor fase, era papo de demissão” (sic – não é o caso de corrigir o português).

Bem, não entro no mérito de se subentender que Leifert “defende demissão...”. A afirmação é suficientemente clara para se supor que sim.

E, vejamos, sim, em tese, não discordo dele: a um jornalista que se deixa levar pelas paixões e opina como torcedor, esse jornalista deixa de falar efetivamente como jornalista, mas faz uso do poder do púlpito de jornalista.

Então, em tese, concordo com Leifert: num lugar sério, um jornalista que se deixa levar por paixões e emite opinião de torcedor não exerce o que se espera de um jornalista e do jornalismo.

O caso é, e Leifert obviamente sob efeito de paixão não percebe o efeito de sua fala: ele defende a própria demissão. Suponho que ele leve a sério o que disse: se “tivesse” em um lugar sério e se o jornalismo esportivo vivesse uma fase melhor...

Aqui, lembra-me o editor deste blog, a atual fase do jornalismo esportivo deve muito ao próprio Leifert - e não há nada lisonjeiro nisso.

Quando um jornalista diz e repete que um colega fala “merda”, não posso entender que esse jornalista, não sendo demitido, como ele próprio solicita, esteja num lugar sério. Sem querer... creio... ele diz que onde trabalha não é um lugar sério... (santa ingenuidade, Batman!).

Num lugar sério, como defendido por ele, “seria papo de demissão”. Não imagino a reação dele, nomeando e não se escondendo no coletivo, se alguém dissesse que ELE falou “merda” e justamente por isso pedir que ELE seja demitido.

O impessoal é terrível como tática de proteção e um gesto próprio de covardes: “Eles falaram merda!”. Quem, Thiago Leifert, a não ser você, fez uso da palavra “merda”? Um jornalista sério e um lugar sério não se referiria a um colega com opinião jornalística discordante com o termo que você insistiu em repetir.

Obviamente não creio que Thiago Leifert receba bem ser chamado de covarde. Como entendo bem, com as paixões que envolvem o futebol, a fala dele num... boteco e não no ambiente de trabalho.

**As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião deste veículo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo