*por Humberto Pereira da Silva
Acompanho futebol há muito tempo. Em pouco anos fará seis décadas que vejo ininterruptamente partidas de futebol. Nessas seis décadas que se aproximam, vi de tudo e um pouco mais. Algumas coisas, com certeza, marcantes.
A eliminação do Corinthians na Libertadores para o Estudiantes é um dos acontecimentos mais impressionantes que vi nos anos recentes. Poderia acontecer de tudo na partida. Como em qualquer partida. E aconteceu de tudo e mais que tudo.
Minha expectativa era de que a vaga à semifinal se decidiria no tempo normal de um jogo de futebol. 40 minutos do segundo tempo e se teria a classificação ou eliminação do Corinthians.
Ocorre que exatamente aos 41 minutos do segundo tempo, depois de um jogo monótono, sem grandes emoções, já esperava pela disputa em pênaltis. Via o jogo então até desatento, quando numa jogada praticamente perdida na linha de fundo, o gol do Estudiantes.
Pronto. Corinthians eliminado? Mas senti que a reação do Corinthians ao gol antecipava grandes emoções. Vi já muita coisa assim em quase sessenta anos, ainda mais em se tratando de Corinthians.
E realmente aconteceu. Um pênalti para o Corinthians aos 51 minutos que, convertido, inverteria a enorme frustração gerada com o gol dos forasteiros.
O cobrador do pênalti, Memphis Depay, tinha no pé direito o poder dessa decisão. E perdeu.
Poucas vezes, na minha lembrança, vi anticlímax tão acachapante. E, inevitável, a imediata condenação a Depay feita por praticamente todos, incrédulos, com o que estavam vendo.
A reação, mesmo de jornalistas experientes, até certo ponto é previsível. Impossível acreditar que ele perdeu.
Aí o lado B. Para o torcedor, apaixonado, plenamente justificável. Com o que ganha, com as "mordomias" que desfruta, com o que exige e tem à disposição, Depay na hora em que precisaria justificar seus "privilégios" não poderia perder um pênalti nas circunstâncias em que perdeu.
Entendo que há aí um lado humano que revela menos do jogador do que como se pode ser cruel a quem condena, o jornalista experiente e não um simples e apaixonado torcedor, um erro com justificativa extra-campo. Mesmo que Memphis Depay seja um pulha, uma figura abominável, crucificar o rapaz é de uma crueldade tal que quem o faz, tendo o mínimo de caráter, pararia para pensar um pouco se a terrível situação era para tratá-lo como escória.
Memphis não é o um grande batedor de pênaltis. No Corinthians, seu aproveitamento é de 40%, tendo perdido três e convertido os outros. Rivellino, para ficar com as mesmas cores, detestava bater pênaltis, tanto que o próprio Reizinho do Parque diz que bateu só um - e perdeu. Mas é mais fácil e até óbvio que o cordeiro imolado seria o que mais custa aos cofres já combalidos do clube.
Nos intermináveis e injustificáveis quatro minutos entre o toque no antebraço do zagueiro e a confirmação da penalidade máxima, o neerlandês ficou com a bola, chamou a responsabilidade, mesmo sendo desconfortável. Isso, por si só, deveria ser o suficiente para que o maldito termo "pipocada" não tivesse lugar.
Contexto: na Copa de 1974, os brasileiros Jairzinho e Paulo Cezar Caju foram acusados de, já encaminhados com o Olympique de Marselha, tirarem o pé de divididas, como se fossem pipocas pulando, para evitar eventuais contusões.
Perder pênalti é situação absurdamente previsível sob forte pressão. Grandes jogadores perderam pênaltis que não poderiam perder. Vi Zico, Platini e Sócrates perderem pênalti numa mesma partida numa Copa do Mundo, na Copa de 86. Vi Maradona perder pênalti na Copa de 90. Vi Baggio, então melhor jogador do Mundo, dar título ao Brasil ao perder pênalti em 94. Vi Messi, Cristiano Ronaldo perdendo pênaltis em momentos decisivos.
Depay não é melhor que eles. E como eles, perdeu. E com a perda, esse o lado que talvez fique difícil admitir, com a enorme frustração pela eliminação, algo que escapa num momento assim. Com a vantagem de um difícil empate na Argentina, para a realidade atual do Corinthians um feito, aqui em Itaquera o time teve todo o tempo da partida para se classificar.
Mas o Corinthians não teve capacidade para isso. Quis a sorte que um absurdamente imprevisível pênalti aos 51 minutos do segundo tempo trouxesse como tempero um final que ficará na lembrança como numa partida de futebol tudo pode acontecer. E até mais que tudo. A dolorosa eliminação do Corinthians foi verdadeiramente marcante.
