*Por Humberto Pereira da Silva
1. Essa Copa me espantou a interação por meio de redes sociais. Interação que aos meus olhos assusta quando vislumbro os anos à frente. Principalmente, tenho em vista as possibilidades advindas com a Inteligência Artificial.
A manipulação, sim, de imagens e, num nível com risco de escapar ao controle, fomentar clima de desconfiança generalizada. A coisa pareceu ainda tímida e amadora. Amanhã pode ser profissional e articulada a interesses subterrâneos.
2. O uso do VAR atingiu um ponto em que sua finalidade é praticamente contrária ao seu propósito.
A finalidade última da VAR, qual é? Evitar erro ou, pelo menos, os erros claros. Ora, o olho humano, a reação a uma situação e tomada de decisão sem mediação nas circunstâncias de uma partida de futebol são impossíveis com erro zero para o ser humano melhor preparado. Mesmo assim, o que seria um erro claro, se a própria clareza ou obviedade parte do subjetivismo de que uma falta pode ter sido evidente para um e, para o outro, não?
Centenas, milhares de imagens, "veem" o que um árbitro não vê em tempo e velocidade real para poder decidir sem qualquer margem a erro. O caso é que, justamente, num lance de azar milhares de imagens multiplicam em escala exponencial a possibilidade de erro na decisão final.
Há sempre, com boa vontade e não sendo IA, um ângulo na captação de uma imagem que poderia mudar uma decisão. Se por azar essa imagem, o ângulo em que a imagem seria obtida, escapar, jamais for vista ou percebida. E não há nada, ao menos por ora, que iniba o efeito da paralaxe.
Não é o caso de dizer que, com a multiplicidade de imagens, jamais se pode ter certeza de acerto numa decisão. E se um ângulo não visto mostrar o que ninguém viu? E quem decide quais imagens serão disponibilizadas? Lembrem-se do escândalo que foi o "erro" que proporcionou à Noruega vencer o Brasil em 1998. "Um roubo!", disseram. No dia seguinte, uma TV sueca mostrou um puxão de Junior Baiano na área e o erro tornar-se-ia um acerto horas depois. Até lá, Inês já era morta.
3. Tendo em mente o assunto multiplicação, a multiplicação de opiniões divergentes de "especialistas" em arbitragem merece destaque a parte. Se especialistas divergem, cada qual tem por óbvio uma opinião. Se cada um tem opinião, entre opiniões e opiniões nada difere, além de frágil pomposidade tecnicista, a opinião de um "especialista" da de um tosco torcedor. Novamente, o erro claro e evidente não passa de utopia.
No bizarro show business propiciado pelo megaevento Copa do Mundo, "especialistas" em arbitragem despontam bem no espetáculo como meros fantoches numa encenação que flerta com o teatro do absurdo.
4. Tudo que se viu, vi, na Copa do Mundo, e tudo gerou algo como a situação jogo sim e outro também no Campeonato Brasileiro, o grotesco show de horrores: sempre a reclamação por ou pênalti marcado ou não marcado; sempre uma entrada com "força excessiva" ou não para uma expulsão... sempre... um tempo enorme de discussão estapafúrdia para delírio de anunciantes e especuladores que dominam as Big Techs, ávidas pela audiência, ou melhor, engajamento, que uma discussão gera. Nem precisa ser uma boa discussão, basta se barulhenta.
5. Tudo isso e ainda algo que em certo momento ficou até brega, meio assim o excesso de elogios fora de hora é de mau gosto.
Mas o caso é sobre o excesso - com o perdão da redundância - excessivo, desmedido de dados, números, estatísticas, tabelas... muitas vezes de gosto tão duvidoso que chega a ser constrangedor, um insulto à inteligência. Fulano supera Pelé, Beltrano fez mais goles com a parte interna do pé que..., Sicrano bateu o recorde de assistências com o lado direito do peito...
Dados, números, estatísticas são provas cabais de feitos: negá-los é burrice; exaltá-los acriticamente é estupidez.
Pelé não é Pelé porque ganhou três Copas do Mundo. Pelé é Pelé mesmo participando integralmente só e tão só da conquista da Copa de 1970.
Números incautos enganam: é estupidez retirar a majestade do Rei no dia seguinte em que um plebeu qualquer ganhar três Copas e jogar todos os jogos nas três conquistas. Mas o público gosta. E o historiador que se vire com o anacronismo.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

