*por Humberto Pereira da Silva
| El Ounahi - último à direita, dos que aparecem à frente, é o único nascido em solo marroquino (Foto: Getty Images) |
A globalização do futebol a partir da década de 1990 gerou um fenômeno: transformou grandes clubes em poderosas superpotências no mercado. Desde então, submetidos aos mais diversos interesses comerciais, elencos de grandes equipes são multinacionais, e assim sendo concentram os melhores jogadores do planeta.
Mais ainda, a "cooptação" de um jogador ainda em formação retira qualquer possibilidade de identificação entre ele e seu país de origem. Talentos promissores só se tornam conhecidos quando explodem nas ligas mais poderosas da Europa. Na seleção brasileira atual, Igor Thiago, titular na estreia do Brasil, praticamente inexistia para quem não acompanha a Premier League. Da mesma forma, Roberto Firmino era figura praticamente anônima entre os jogadores que vestiram a "Amarelinha" em 2022.
A internacionalização das grandes equipes, claro, é um fato consumado há pelo menos três décadas, com o advento da Lei Bosman1. Nenhuma novidade, portanto, vermos jogadores que se projetaram no exterior sem qualquer passagem notável no país.
A novidade é sobre o sentido de nacionalidade numa competição que não envolve clubes e sim NAÇÕES. Essa Copa, assim me parece, sedimenta uma mudança que já vem ocorrendo, mas que não é alvo de discussão: a pulverização do sentido de seleção nacional.
De modo bem casual, colhi diversos jogadores que optaram por defender o país A tendo nascido no país B. Escolhas individuais, obviamente, cabem a uma decisão de consciência. O jogador joga onde quiser se sua vontade não confrontar as regras. Não cabe, com isso, fazer julgamento.
No entanto, eis para mim um caso emblemático, na partida entre Suécia e Tunísia, o sueco Yasin Ayari, cujos pai é tunisiano - tendo a mãe marroquina, poderia optar por defender a seleção que empatou com o Brasil na estreia -, não comemorou os goles que marcou. Acho que, para além da midiatização da situação, o sentido de confronto entre nações numa Copa do Mundo, em razão dos mais amplos interesses comerciais que ela envolve, se dilui frente ao que vi.
Vejam o caso de Marrocos, citado acima. Dos 11 titulares na estreia, somente um nasceu no país, o meia Ounahi. Ainda assim, quando substituído, deu lugar a El Mourabet, nascido na França. Dos 26 convocados, 19 nasceram fora do país dos Leões do Atlas, resultado do monitoramento implantado há 15 anos pelo Rei Mohammad VI2. Neste caso, porém, todos têm ascendência marroquina. Fenômeno parecido ocorreu na Copa de 1934, quando a FIGC (a côngenere italiana da CBF) cooptou os chamados oriundi para a disputa da Copa que organizou, disputou e venceu lançando mão de artifícios pouco desportivos, por assim dizer3.
Ainda assim, cabe dizer, Marrocos é, a par da República Democrática do Congo, a segunda em número de "estrangeiros". Curaçao conta com 25 atletas nascidos nos Países Baixos entre os 26 listados para o torneio4.
Como ocorreu com os grandes clubes décadas atrás, assim vejo, a disputa de uma Copa do Mundo entre seleções, as NAÇÕES, é só uma marca publicitária, um ingrediente necessário ao marketing. O sentido de seleção nacional como concebido no passado para minha compreensão não passa de um notável contrassenso. Chega a ser fake, se o conceito de seleção nacional for devidamente aplicado.
Referências:
1. SANTOS, Maria Tereza. O que é a Lei Bosman e como ela ajuda a explicar o abismo entre o futebol europeu e o resto do mundo. Peleja, 03 jul. 2025. Disponível em https://peleja.com.br/politica/lei-bosman-o-que-e-futebol-europeu/ . Acesso em 15 jun. 2026.
2. Marrocos se tornou 1ª seleção em Copas do Mundo com 11 jogadores em campo nascidos fora do país. Ge.globo.com, 14 jun.2026. Disponível em https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/14/marrocos-se-tornou-1a-selecao-em-copas-do-mundo-com-11-jogadores-em-campo-nascidos-fora-do-pais.ghtml. Acesso em 15 jun. 2026.
3. ROSA, Thiago. Itália e a Copa de 34: uma vitória com toques de fascismo. Ludopédio, 24 mai. 2019. Disponível em https://ludopedio.org.br/arquibancada/italia-e-a-copa-de-34-uma-vitoria-com-toques-de-fascismo/?srsltid=AfmBOorr2nB3fd5FiM-zhCqjJ7Fbyn3tjWNo12l9XizTMu78hRCRql8a. Acesso em 15 jun. 2026.
4. Marrocos é a primeira seleção de Copa do Mundo a ter 11 ‘estrangeiros’ em campo. Placar, 14 jun. 2026. Disponível em https://placar.com.br/copa-do-mundo/marrocos-e-a-primeira-selecao-de-copa-do-mundo-a-ter-11-estrangeiros-em-campo/. Acesso em 15 jun. 2026.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo





