Assisti, dia desses, a um recorte no canal do Youtube do Trivela em que os jornalistas Allan Simon e Tim Vickery - é importante pontuar que são jornalistas profissionais e deles se espera uma prática condizente ao juramento que fizeram na Colação de Grau - discutiam sobre a prática, comum entre os torcedores mais jovens, de seguir seus ídolos e torcer por eles acima das camisas que vestem ou emblemas que defendem.
Simon, inclusive, usa a CazéTV como exemplo de quem surfou na onda do culto à persona. O (não mais) simpático canal do YouTube "abraçou a defesa do Neymar desde antes" da convocação para a Copa. Suspeitava-se, como foi possível verificar, que o jogador não tinha condições de jogar em alto nível por conta de seu estado físico deplorável - por obra e graça de seu comportamento desde sempre, é bom frisar. No entanto, para agradar seus seguidores, jamais fez o que se espera de quem detém os direitos de transmissão: informar, com qualidade e isenção.
Comportamentos como chorar por ter feito duas perguntas simplórias ao ídolo não é o que se espera de quem se preparou - ou deveria - para fazer a cobertura jornalística. Sim, é jornalismo e isso requer distância. Não falo aqui de um desastre natural ou uma cobertura de temas delicados, portanto, capazes de causar este tipo de emoção. O ápice é estar no evento, não é fazer uma pergunta a quem quer que seja.
Pode ser duro, mas ser jornalista é isso. Mas como disse o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), o homem é produto do meio em que vive. Aí, não fulanizando a questão, mas entendendo o contexto, fica fácil perceber em que ponto essa distância entre meio e notícia se perdeu. É a formação social, não profissional, o ponto.
Voltando ao trecho do vídeo citado lá no primeiro parágrafo, o culto à persona faz com que a presença dos ídolos seja mais relevante que as camisas que eles vestem, e isso é transferido para as seleções nacionais. Não há outra explicação para o fato de a página da seleção portuguesa no Instagram ter o dobro de seguidores em relação à população do país que a presença de Cristiano Ronaldo na equipe. E essa presença é cobrada pelo séquito como se fosse condição para que se torça, mesmo que isso prejudique o desempenho em campo do time, como aconteceu. Não por acaso, passando para o lado de cá do Atlântico, o pior momento do Brasil no jogo que custou a eliminação da Seleção na Copa, contra a Noruega, foi justamente quando Neymar esteve em campo.
Convenhamos, nem deveria ter sido convocado.
O jornalista, como qualquer outra pessoa em qualquer atividade, não escolhe o que sente, mas tem controle sobre o que e como opina. Então, se molda sua opinião ao interesse de milhares de pessoas que têm um comportamento de seita e exigem que sua vontade seja saciada - e, diretamente, agrade seu empregador, que ganha muito com a atenção e o engajamento que uma polêmica pode causar, mesmo sendo um assunto banal -, passa a ser um problema para a própria atividade jornalística.
Mais uma vez, a questão não é o choro, e sim o que leva um profissional a ter esta reação. Como é impossível separar a formação do mundo onde o sujeito está inserido, podemos crer que a imparcialidade já foi para o caralho antes mesmo que a experiência seja adquirida. Boa semente não floresce em solo ruim.
Se puderem, peguem o jogo entre Croácia e Portugal, que terminou com a vitória deste, e reparem no comportamento de todos os que estavam na transmissão. Primeiro, o óbvio exagero após Cristiano ter feito um gol de pênalti. De pênalti! Depois, quando era claro que Portugal era dominado e era preciso reforçar o meio de campo, só faltaram botar um ovo quando Roberto Martinez substituiu o camisa 7. E por quê? Porque não é possível, sob a ótica do engajamento, aceitar que o objeto de adoração da seita seja tirado de campo, por mais óbvia que seja a necessidade de fazê-lo.
Ao cabo, o ruído que emana das redes sociais devidamente abastecidas por um tipo de conteúdo estrategicamente pensado para ativar e atiçar a seita é capaz não só de interferir na formação de um elenco para uma grande competição, como na escalação de equipe que vai ao campo.
Afinal, para o patrão, o cliente sempre tem razão.
