* por Humberto Pereira da Silva
Divulgação
Mistificações,
verdades, exageros, licenças poéticas e até revelações surpreendentes fazem
parte dos chavões de qualquer filme ou série com o aviso de “Baseado em
fatos reais”.
Esse alerta é
acompanhado, contudo, de uma sutileza que muitas vezes é subestimada: o que se
exibe é uma reconstituição de eventos que pode se aproximar da verdade, mas que
não é verdadeira no sentido de ter ocorrido exatamente como mostrada.
Vale com isso chamar a
atenção para um alerta invertido: não confundir TUDO que se vê com fatos, de
fato, reais. O uso da expressão “ter como base” anuncia explicitamente que não
se deve tomar o que se vê como a realidade tal qual ocorrida.
A série exibida pela
Netflix sobre a campanha do Brasil na conquista do tri mundial no México
aproveita comercialmente bem o momento Copa do Mundo. E elege simbolicamente a
seleção de 70, considerada a melhor da história, como aquela que realizou à
perfeição o futebol-arte.
Três personagens na
série se sobressaem: João Saldanha, Pelé e Zagallo. E sobre eles, diante de
qualquer reconstituição, não há como escapar à perigosa fronteira que separa
verdade de fato e licença poética.
Esses três personagens,
a seleção canarinho e a campanha do Tri no México se ligam aos anos de chumbo
da ditadura militar brasileira. Como cada um deles teria se portado pode
cristalizar um sentido de verdade que não corresponde à verdade efetiva das
situações vividas por eles.
Na série exibida pela
Netflix vemos um Saldanha que peita a ditadura, um Zagallo alienado e um Pelé
confuso politicamente e apavorado com a possibilidade de fracasso.
Nesses retratos, mesmo
que não inteiramente falsos, há muita controvérsia, o que por sua vez pode
alimentar um anedotário que corrói o sentido de verdade factual. Consideremos o
caso específico de Pelé.
Num contexto em que
política e expectativa de conquista dão as mãos, vale ter presente que nosso
imaginário sobre como diferentes pessoas reagiram à ditadura foi “construído
historicamente”. O peso que os anos de ditatura teve em nossa história pode
gerar mistificações e toda sorte de distorções.
Não podemos desprezar a dificuldade que muitos têm de discernir o que é real do que é ficcional, então corre-se o risco de estabelecer uma pós-verdade, uma espécie de atualização, ou melhor, uma substituição, como fazia o Ministério de Verdade de George Orwell em 1984.
No caso específico não
só de Pelé, mas de jogadores de futebol em geral, a adesão política ou
neutralidade jamais escapam a julgamentos posteriores que o sentido da história
em seguida pode ou não reavaliar.
Como nos ensina Walter
Benjamim, um afamado pensador sobre o conceito de história, a história nos diz
como o presente vê o passado e não como o passado realmente ocorreu.
Mas, pontualmente,
sobre o medo de fracasso de Pelé? Aqui há algo que realmente é apenas
tangenciado timidamente pela crônica esportiva ao tratar de um evento com a
magnitude de uma Copa do Mundo.
Acho legal a série
exibir para as gerações atuais, e com isso deixar uma pulga atrás da orelha, as
desconfianças da imprensa e da torcida a respeito de Pelé. A conquista do Tri
no México em 70 praticamente apagou o fiasco de 66 na Inglaterra, quando Pelé
de fato foi visto como acabado para o futebol.
Essas desconfianças
existiam. Pelé era reconhecidamente o Rei, mas pairava no ar que 70 repetisse
66. E ele próprio manifestou publicamente esse receio anos depois. Ocorre que
as circunstâncias da vida são imprevisíveis ao vermos posteriormente o
movimento da história.
Na partida de estreia
do Brasil, contra a Tchecoslováquia, quando o placar estava 1x1 num jogo que se
apresentava complicado, antes da linha do meio do campo Pelé tenta fazer um
gol.
Hoje daríamos o nome de
confiança a esse feito. O que significa exatamente o contrário de medo. A bola,
sabemos, não entrou. E imagino o pânico dos tchecos e de todas as outras
seleções diante do que se viu.
Em 1970, com 29 anos,
Pelé, com desconfianças ou não, era reconhecidamente em todo mundo o Rei do
futebol. Com a inesperada tentativa de gol num chute antes do meio de campo,
Pelé exibiu o que poderia fazer, e só ele e nenhum outro jogador poderia.
Contra a mesma
Tchecoslováquia, no segundo gol do Brasil, de Pelé, ao receber lançamento de
Gerson e na grande área matar a bola no peito, a zaga simplesmente ficou
paralisada.
Humano, como todo humano, e isso é demasiado humano, Pelé não era imune ao sentimento de medo. E justamente por falarmos de um sentimento humano, e com ele as diferentes circunstâncias da vida, a desproporção entre o medo de fracasso em Pelé e, frente a seus feitos aos 29 anos, o medo de quem o teve pela frente quando ele matou a bola no peito.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
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