*por Humberto Pereira da Silva
Em época de Copa do Mundo, tantos e mais tantos escalam a seleção. E esses tantos e mais tantos têm por evidente que a escalação do técnico é absurda. Basta ser diferente, como recorrente é.
Quem escala a seleção tem por absolutamente certo que vê o que o técnico não vê por incompetência, ou interesses escusos - neste caso, Lacan certamente usaria este tipo de comportamento no desenvolvimento da sua Teoria do Espelho.
Uma coisa que acho legal no futebol, e que jamais devia ser esquecida: com perdão pela redundância, futebol é um jogo. Novamente, peço perdão pela redundância: a condição para que um jogo seja jogado é que quem joga faz uma aposta.
Tá chato? Preciso pedir perdão mais uma vez pela redundância: quem aposta, ao apostar, deseja ganhar com a aposta feita, e só se ganha numa aposta quando se pode perder.
Portanto, escalar a seleção é uma aposta. Escalar Endrick é apostar.
É importante não esquecer um dado nessa aposta: um torcedor ou um "expert" da crônica esportiva não tem o poder na decisão final da escalação. Esta cabe exclusivamente ao técnico, que é quem fica com o ônus das suas escolhas. Pior: dando certo, é pago - e bem pago - para isso; caso contrário, passa de bestial a besta, como diria Otto Glória, em questão de segundos.
Não consigo escapar das redundâncias.
Mais um dado que vale extrair: é impossível imaginar o Brasil numa Copa do Mundo sem uma única polêmica, real ou criada, que apimenta discussões, alimenta todo tipo de interesses, desperta paixões.
Endrick é um desses casos desta Copa. Apostar que sua escalação é inquestionável para um melhor desempenho da seleção é o que tantos e mais tantos torcedores e "experts" em futebol apostam.
Com tanta gente apostando, faço também minha aposta: escalado, se realmente o desempenho de Endrick for determinante para uma caminhada vitoriosa da seleção, nada menos que o título mundial, ele despertará a memória de que sob pressão a escalação de Pelé em 1958 foi uma aposta de Vicente Feola.
Essa é a minha aposta. Contudo, sou um jogador compulsivo e faço outra: escalado, se o resultado em campo com a presença de Endrick não for o esperado, tantos e mais tantos torcedores e "experts" em futebol SE ESQUECERÃO que apostaram nele.
Como tantos e mais tantos, estimulado a falar sobre um entre outros casos que geram discussões em época de Copa do Mundo, não sou diferente e também aposto.
Sendo como tantos e mais tantos, contudo, há um detalhe que jamais escondo quando aposto: não escondo que escondo uma carta embaixo da manga da camisa.
Regra de ouro a ser seguida por quem entra num jogo: nunca apostar todas as fichas e, com isso, ter certeza absoluta de que ganhará. As circunstâncias de um jogo, de qualquer jogo, podem exigir uma carta escondida sob a manga da camisa.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
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