*por Humberto Pereira da Silva
A Copa do Mundo é realmente um momento de fortes paixões. Para o jornalismo, se eu pousasse de ombudsman, recomendaria sempre lembrar que não há nada como um dia após o outro.
As atuações de Matheus Cunha contra Haiti e Escócia; os 15 minutos de um Neymar trôpego em seus (poucos) reflexos, e Endrick desapareceu. Uma má atuação de Matheus Cunha no jogo seguinte e tudo muda.
O que, de qualquer forma, em meio a tantas manifestações apressadas não se devia perder de vista é: a Alemanha impôs um portentoso 7 a 1 em Curaçao, na maior goleada desta Copa até o momento.
Curaçao, com heroísmo, arrancou empate de 0x0 com o Equador, que nas Eliminatórias sul-americanas ficou à frente do Brasil - mesmo nossos não-vizinhos de continente tendo sido punidos com a perda de três pontos.
Classificada, a Alemanha pegou um desesperado Equador que, com "surpreendente" vitória sobre a poderosa tetracampeã - e sinônimo de eficiência -, se classificou para a novíssima fase de 16 avos-de-final.
A ainda precoce história desta Copa e a História deviam ensinar que falas apressadas são pulverizadas no dia seguinte. E daí que adversários, estágios e contextos são diferentes? Pouco importa.
Dezenas de mesas-redondas, redes sociais e em conversas banais na esquina e o assunto: antes da definição do adversário, seria melhor para o Brasil ter esta ou aquela seleção no caminho do Hexa?
Escolher adversários, tentar escapar de outros, é uma das falácias recorrentes da imprensa e da torcida. No caso, a falácia da projeção apressada.
Para o Brasil, na fase 16 avos-de-final, é melhor pegar os Países Baixos ou o Japão? Na sequência da Copa, é melhor nas quartas-de-final ter pela frente uma França ou uma Alemanha? A galinha sequer foi vista e já discute-se como preparar o ovo.
O que a História devia ensinar? Em 2006, a celebrada geração campeã do mundo quatro anos antes cumpria um ciclo de inquestionável dominação global, três Bolas de Ouro no elenco e quatro vitórias em outros tantos jogos até então na Copa, e teve pela frente uma França que, aos trancos e barracos, chegava à terceira fase.
A História todos sabemos.
O que deveria ser óbvio, mas é enigmaticamente esquecido por causa das paixões? Temer enfrentar uma suposta seleção forte no meio do caminho é admitir temer essa mesma seleção numa hipotética final.
A coisa não para no temor. Eis a ironia do destino: eliminar uma seleção forte no meio do caminho e chegar à final com outra seleção forte e sabe-se bem a força da seleção. Agora, eis a ironia, sem ter tido um teste forte antes como supor a força da seleção justamente no jogo final?
O caminho para o título mundial é cheio de momentos inesperados, surpreendentes. Na Copa de 2022, a Argentina esteve por um fio em todos os jogos, a todo momento, até o último pênalti, literalmente.
A história, todos sabemos.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
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