*por Humberto Pereira da Silva
Anos atrás, o célebre intelectual italiano Umberto Eco afirmou que "as redes sociais deram visibilidade a legiões de imbecis".
Para ele, o que circula nas redes sociais coloca no mesmo patamar especialistas num assunto e oportunistas que mal sabem articular lé com cré. Por causa disso, a comunicação no espaço cibernético gera um excesso de ruído que dificulta separar verdade e falsidade.
Nesta Copa do Mundo, notadamente nas redes sociais, é impressionante ver como imagens mais casuais e aleatórias geram uma profusão maluca de insinuações. Os psicólogos sociais estadunidenses David Dunnig e Justin Kruger desenvolveram, nos anos 1990, uma tese segundo a qual algumas pessoas tendem a supervalorizar suas capacidades cognitivas, mesmo conhecendo pouco sobre determinado assunto, a ponto de tentar ombrear, por meio de mera opinião baseada em quase nada, seu conhecimento ao de especialistas na área.
Em concordância com teorias conspiratórias, a mais frequente é a insinuação de manipulação. Haveria, por exemplo, um complô entre a Fifa, órgãos da grande imprensa, patrocinadores e árbitros para favorecer Leonel Messi.
Pulando de Umberto Eco para Juarez Soares, lembro que este ficou marcado pela frase que virou motivo de chacota: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".
O problema de quem insinua manipulação no futebol é tentar enganar, ou se enganar, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é a mesma coisa, como se houvesse uma relação nexo causal indiscutível: eu creio, eu quero; logo é verdade.
Uma coisa é manipular; outra, o resultado da manipulação. O nexo é possível, mas só a prática realiza de fato a manipulação. Quer dizer, simples e óbvio, qualquer manipulação pode dar errado na prática.
Como diria Juarez Soares, nada de misturar as coisas. Então para mim a prática, o resultado, contraria o nexo necessário entre manipular e o resultado da manipulação.
Mas, o que na prática, de fato, põe em xeque qualquer "teoria de manipulação" de resultado numa Copa do Mundo?
Basta um exemplo suficientemente prático. Pra mostrar na prática que o resultado de uma partida não resulta de manipulação, mesmo que de fato ocorra manipulação.
A bola do holandês Rob Rensenbrick, aos 45 minutos do segundo tempo, na final da Copa de 78 entre Argentina e Holanda, acertou a trave argentina quando o placar estava 1x1.
Rensenbrick não teria sido avisado que não podia marcar o gol, pois a Copa havia sido manipulada para a Argentina ser campeã? Ou ele estava suficientemente avisado e por ser imensamente hábil quis matar do coração algum desavisado torcedor argentino ou holandês?
A bola de Rensenbrick na trave, capricho do destino, e a suspeita de manipulação do jogo Argentina e Peru, que tirou o Brasil da final, é tão só especulação.
Veja, veja, é praticamente certo para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso que no mínimo o 6x0 da Argentina sobre o Peru é estranho. Ao ver rever aquele jogo é impossível dizer que o Peru não facilitou.
Então, vamos admitir que houve manipulação no jogo Argentina e Peru. Necessariamente temos que admitir que algo estranho também ocorreu com a bola na trave de Rensenbrick.
É bom lembrar aqui que o craque Teófilo Cubillas acertou o poste quando o jogo ainda apresentava um nulo no placar. Logo, ele estaria na mesma condição de Rensenbrick.
Para admitir a manipulação de resultado, há de se admitir que Rensenbrick não podia não fazer parte do complô. Se de fato houve manipulação entre Argentina e Peru com a finalidade de dar à Argentina o primeiro título mundial, o insensato Rob Rensenbrick deve ter matado do coração algum General.
Só pra dar ar de fantasia: imaginemos ele ter errado e feito o gol.
Sim, sim, há situações bastante estranhas numa Copa do Mundo. Tanto quanto, sim, sim, não separar uma coisa de outra coisa e só resta aplaudir a imbecilidade.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
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