*Por Humberto Pereira da Silva
Há um assunto bastante sensível com derrota do Brasil em Copa do Mundo e igualmente inevitável: apontar o dedo para culpados.
Na história do futebol brasileiro, ganhou dimensão trágica com a derrota para o Uruguai em 1950 a culpabilidade atribuída aos personagens Barbosa e Bigode, os vilões da vez.
A questão da culpa. Uso a palavra com o sentido de causa e efeito. Tendo erro, o erro implica num resultado final. Esconder essa simples relação lógica de causa e efeito e põem-se as coisas embaixo do tapete. O futebol, por tudo que envolve, não admite complacência.
A questão da culpa, no entanto, diz respeito a uma complexidade que convém dada à monumental exposição a que as vitrines, os jogadores, estão submetidos. Nas vitórias, suas imagens se servem aos interesses mais escusos, como as promessas e planos até de carreiras políticas malogrados com o Maracanazo. Porque envolvem tantos interesses, nas derrotas se servem bem como cordeiros para o sacrifício, para evocar ritos sacrificiais bíblicos. Abraão convenientemente leva o cabrito.
De 1950 para cá, 76 anos, há uma História do futebol brasileiro. Não uma história com o sentido vago da palavra, mas sim uma História com momentos que sinalizam auge, época de ouro, ou qualquer termo similar, e decadência. Tudo que mobiliza a escrita da História.
A palavra "decadência", terrível, e usada não raro de modo vago, ou evitada, é contudo com ela que se escreve a História. A derrota em 1950, e seus culpados convenientes, levou Nelson Rodrigues a expressar o "complexo de vira-latas" para se referir ao futebol brasileiro.
"Psicanaliticamente", esse complexo foi superado com a era de ouro da geração Pelé, Garrincha e Didi. Houve, sim, a frustração com a geração Zico, Sócrates e Falcão. Mas as gerações Romário e Bebeto; Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho pusera, os pingos nos is.
Ocorre que, do complexo de vira-latas o futebol brasileiro passou à soberba. E esse sentimento de soberba, que implica não se dar conta da decadência, é o grande nó que, como na Copa de 50, teve para mim o ponto de inflexão na derrota para a Alemanha em 2014 por 7x1.
"Psicanaliticamente", o 7x1 foi denegado. Ao contrário do complexo de vira-latas de Nelson Rodrigues pós-50, o inimaginável 7x1 numa semifinal de Copa do Mundo não afetou a soberba: somos os melhores, não perdemos por que seleções A ou B ou C podem nos vencer, como têm vencido, mas por que os culpados são tais e tais jogadores.
Impossível dizer se à frente se perceberá que erros cometidos por jogadores desta geração, portanto com atribuição de culpa, serão entendidos como sinais de decadência, fragilidades visíveis e que têm se repetindo previsivelmente.
A História é caprichosa e móbil. A Argentina, que tanto orgulho tinha de seu estilo próprio de jogar futebol a ponto de chamá-lo La Nuestra (até o choque de realidade que recebeu em forma de um 6 a 1 aplicado pela Tchecoslováquia em 1858), ficou três décadas sem nenhum título, mesmo com Messi e cia. E agora? Bem, se o Brasil em 58 superou o complexo de vira-latas, quem sabe nos próximos anos, com novas derrotas, não superaremos a soberba.
Ah, para concluir: a soberba na eliminação recente para a Noruega, o modo no mínimo risível com que depois do pênalti convertido em gole Neymar provocou o goleiro norueguês. Quem é você, Nyland, que ninguém sabe quem é? Eu sou Neymar, camisa 10 da seleção brasileira.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
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