sábado, 5 de março de 2016

“Geraselfie” e a piscina rasa

Por Leandro Marçal*

A tela do computador mostrava Mick Jagger dizendo que o público de São Paulo parecia assistir ao seu show pela tela do celular. No Whatsapp, o debate começou em um grupo com homens e mulheres ao verem uma selfie de uma menina até então anônima, com cara de ter, quando muito, 16 anos, enquanto praticava sexo oral.

Aparentemente sem uma ligação mais clara, as duas situações me chamaram a atenção por escancararem a banalidade da vida real, engolida pela virtual. Fotos e vídeos, antes ocasiões especiais, viraram tarefas tão corriqueiras quanto escovar os dentes.

Não que eu ache essa mudança ruim ou que seja um nostálgico parado no tempo – é para frente que se anda, o que passou, passou, e mudamos nossos comportamentos o tempo todo. Só fico abismado ao ver que a “geraselfie” não vê limites ou restrições ao se preocupar apenas e tão somente a registrar a vida em imagens, aparências. 

É evidente que também tive (tenho, vai) momentos de virar o celular em direção a meu rosto e usar a câmera frontal, gerando postagens, curtidas, comentários, compartilhamentos, conversas e outras futilidades das redes sociais.

Mas quando a foto, a selfie, o vídeo e o snap parecem mais importantes do que o momento a ser vivido, me pergunto se não estamos deixando a vida passar enquanto mexemos no touch de nossos celulares. Tanta coisa acontecendo ao nosso redor que se não tirarmos uma foto ninguém acreditará que por ali estivemos. 

Criamos o momento com as fotos; antes eram os grandes momentos que tinham exclusividade nos retratos. Não está na foto porque existe; existe porque há o registro.

Talvez seja um sinal dos tempos. 

Tempos de muita velocidade, individualismo, narcisismo, hedonismo, pouca preocupação com o próximo. Se neste ano 1% da população mundial terá mais dinheiro acumulado do que todo o restante do mundo, talvez não seja à toa. Talvez a excessiva e quase exclusiva preocupação com o ego da geraselfie seja a única explicação para que as pessoas parabenizem a elas próprias no dia de seu aniversário.

Se esse bombardeio de fotos diárias e banais some com a mesma velocidade com que surge, não deve ser de graça. O que será de minhas fotos daqui a uma década?

Pés, mãos, unhas, roupas, comida, lanche, no banheiro, na obra, no lugar diferente... Ainda estranho um pouco ver as fotos com esses cenários e situações. E mais: sendo apagadas como quem joga um papel de bala no lixo, sem cerimônia.

Meu álbum da festinha de um ano choraria se pudesse notar esse comportamento.

Longe de ser um profeta do apocalipse, um crítico, um chato ou inimigo disso tudo. É apenas a constatação de que temos uma piscina enorme para nos banharmos, mas que é rasa. Se pularmos nela, bateremos a cabeça ou quebraremos algum osso. A superficialidade parece ser a marca da geraselfie, de mim, de você, de todos nós.

Acho estranho, curioso, a ser observado.


Ainda me vejo abrindo o portão da antiga casa na Leonardo Nunes, me encaminhando até a esquina e pedindo ao ex-policial, dono da mercearia na esquina com a Alves do Burgre, um filme da Kodak, e torcia para que nenhuma queimasse ou, felicidade extrema, revelar uma ou duas a poses a mais. O filme tinha só 12 poses. Era o mais barato.  

*Leandro Marçal é um jornalista de 24 anos, torce pelo Tricolor Paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O olho direito da lei*

Por Eduardo Luis Viveiros de Freitas**

Nenhum país sério para porque políticos são investigados. Espanha, Itália, Grécia, Alemanha da reunificação, Portugal mesmo com a crise econômica. Seja corrupção ou crise política, a vida continua. Nem o Brasil está parado.

Há filas de espera para comprar a nova caminhonete da Fiat, restaurantes cheios etc. O povão, sim, começa a sentir pesado a parada em negócios para os rentistas se refestelarem na taxa de juros assassina de empregos.

Mas o combate não é à corrupção. Isso já é feito no cotidiano: foram mais de 1.200 operações policiais da Polícia Federal e 15.000 prisões, investigados etc (entre funcionários públicos, corruptos e corruptores) nos anos Lula e Dilma, contra 58 nos anos FHC.

O problema não é a corrupção, que é estrutural no mundo em que vivemos; é político. Os que perderam as eleições (e que são sistematicamente poupados na Lava-Jato - é só ver a "origem" política de quem investiga e julga) sabem que se Lula não for derrubado ele vence as eleições de 2018.

Vão abater o político mais carismático da história contemporânea brasileira. Foi assim com Getúlio, Juscelino, Jango e agora com Lula. Não se iludam mais uma vez. Todos esses políticos foram acusados de envolvimento com a corrupção, mas a história mostrou que nenhum deles era corrupto, pelo contrário, foram e serão considerados líderes e defensores do interesse nacional.

Ah, a corrupção, essa "fada madrinha" do moralismo barato. Olhem para trás e vejam o que se está armando pela frente. O Brasil não vai ser "passado a limpo". Depois da demolição (física inclusive) de Lula e do impedimento de Dilma, todo esse circo de horrores político-midiático-jurídico sai de cena, investigações vão parar ou sumir da imprensa. O "sigilo" vai cobrir com seu manto o "sol" e a justiça continuará cega de um olho só, o direito.


**Eduardo Luis Viveiros de Freitas é graduado em Ciências Sociais pela USP, mestre e doutor pela PUC, cumpriu estágio de doutorado na Espanha, na Universidad Rei Juan Carlos, pesquisador no Núcleo de Estudos de Arte e Mídia da PUC e professor na Universidade Estácio Uniradial e, ufa, palestrino de quatro costados!

*Este texto foi escrito originalmente na página do Facebook do professor Viveiros.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Por que seu ovo de Páscoa é caro? E o que isso tem a ver com futebol?

Por Fábio Venturini*

Nessa época de consumo desenfreado por motivos religiosos, justamente em uma religião que condena a gula e o desperdício, surgem os irritantes especialistas de botequim em economia política, preços e tributação sentenciando que o ovo de chocolate é caro por causa dos impostos. A resposta, claro, é que no Brasil há muitos impostos. É o Estado quem nos faz pagar tudo mais caro.

Como aprendi desde cedo nas aulas de matemática que quando achamos a resposta muito facilmente, provavelmente está errada, vamos lá...

Tomemos como exemplo um chocolate qualquer. Procurando no site das Lojas Americanas, aleatoriamente encontrei a barra de chocolate ao leite Lacta de 150 g, que pode ser comprada por R$ 5,50 (aproximadamente 0,036 centavos por grama). Um ovo de 196 g, feito com o mesmo chocolate, sai no mesmo vendedor por R$ 25 (ao redor de 0,127 centavos por grama). A diferença de preços entre os produtos feitos com ingredientes idênticos é de 342,77%.
NÃO É CULPA DO GOVERNO Valor agregado encarece o produto (americanas.com)
Sobre a barra e o ovo de chocolate incide a mesma carga tributária, sendo que o item pascal necessita de alguns processos a mais na fabricação, embalagem e distribuição que justificam algum preço maior. A moldagem é mais complexa, a inserção de alguns bombons no centro, um suporte plástico para que fique bonito em pé, uma caixa específica para a casca fina não quebrar. Cada um desses processos inclui equipamento, insumos, energia e força de trabalho (pessoas envolvidas na produção).
Justifica a diferença de preços?

Ainda não. Os processos produtivos são suficientemente desenvolvidos para reduzir o custo na escala. A Lacta faz um número alto itens de chocolate, não precisa comprar novas máquinas, alugar novos prédios, somente por causa da Páscoa. Pelo contrário, as fábricas de chocolate reduzem a ociosidade, tornando o capital total adiantado mais lucrativo (olha que aqui estou desconsiderando o uso de trabalho escravo e/ou infantil, mas não podemos deixar de lembrar esse dado). Ademais, as lojas se preparam para vender os ovos, separam mais espaços em gôndolas, prateleiras, poleiros na entrada, promotores etc. Não justifica uma diferença de 342,77%. Ainda.


A carga tributária é a mesma e os custos se diluem no esforço cooperativo para as vendas efêmeras de Páscoa. De onde vem esse alto valor então?

Acrescentemos agora a razão estética. A efeméride da data, que torna o chocolate na forma oval mais interessante do que uma mera barra, é estimulada pelo desejo em conseguir a melhor configuração do produto, aquela mais adequada à pessoa a quem se quer presentear: a Frozen para a boa menina, o Ben 10 para o menino que combate o mal, o coração para o afeto (recuso-me a usar “crush”) etc. Cada mudança acrescenta um valor imaterial, aumenta o valor de troca. Você quer comer chocolate, trabalhe para mim o equivalente a R$ 5,50. Quer comer chocolate comemorando com alguém querido, trabalhe para mim o equivalente a R$ 25.

Mesmo sabor, impacto diferente, menor preço (americanas.com) 
Vejamos bem, nada tem a ver com impostos. Igualmente, não se trata de um alto preço por causa daquela lei fácil de citar, de demanda e oferta, afinal, há chocolate aos tubos no mercado, sendo o produzido sob a forma de ovo ofertado apenas nessa época para atender ao impulso artificial, aquela necessidade criada pela publicidade, sem que o dono da fábrica precise realizar investimento extra em capital fixo. Estamos diante de uma demanda regulada pela produção. A diferença de preço de ambos, com a mesma quantidade de valor de uso (igual número de gramas de chocolate gostoso, e digo gostoso se não for Pan, é claro) chega a 342,77% por conta do aproveitamento do valor de troca aumentado por razões estéticas. Se o chocolate em barra é menos procurado, embora tenha o mesmo valor de uso (comer um doce gostoso), quando são descontadas as motivações estéticas, é para saciar necessidades emotivas.

Você paga caro pelo que não precisa, apenas pelo que dizem que você deve consumir.

Mas daria para ser mais barato?

Claro. Mas quanto custa uma satisfação? O vendedor embute isso num preço. Ninguém paga 3x mais num carro de luxo no Brasil em relação a outros países com carga tributária semelhante porque o estado é intruso na economia, é porque quanto mais se consome para o ego, mais caro se paga. Em se tratando de gastos de classe média no Brasil, como diria minha avó, é uma gente que tem o olho maior do que a boca, ou a boca maior do que a barriga.

Fiz essa explicação bem sucinta e didática para mostrar que os preços altos por produtos inúteis não são culpa de carga tributária. Porque nessas horas sempre há algum discípulo de Hayek, Mises, Friedman e outras reencarnações vulgares de Adam Smith dizendo que o problema são os impostos, usando discursos ideológicos para induzir, de forma simplista à maldade do Estado (de quem eles mesmos se aproveitam) e descrever pseudocientificamente o valor de todos os produtos: pão, leite, carne, ovos, material escolar, passagem para Orlando, carros de luxo e aquele PS4 que adultos presos na fase anal esperneiam por não poder comprar por menos de quatro milhas.

E o que isso tem a ver com futebol?

Até aqui fiz uma breve digressão sobre ovos de chocolate e teoria do valor. Mas este blog é sobre futebol.

Uma copa do mundo foi realizada no Brasil. Em vez de mostrarmos nossa forma de desfrutar do esporte e da condição de torcedores pulando, fazendo coreografias em estádios lotados, agitando bandeiras, cantando cantos de gente apaixonada pela bola rolando redonda com jogadores habilidosos, realizamos um esforço nacional para construir arenas insossas que abrigam jogos chatos, retrancados, de audiência branca, racista e mimada.
A NOVA CARA DOS ESTÁDIOS Torcedoras despreocupadas com
 o jogo do Flamengo, o time mais popular do país (espn.uol.com.br)
O nosso torcedor, aquele do antigo Maracanã, Mineirão e Pacaembu, ainda sofre para conseguir ingresso pela oligarquização das cadeiras (acabaram as arquibancadas em posição central ao campo, né?) e o aumento de preços porque se compramos o que nunca precisamos antes para gostar do jogo e ganhar cinco copas.

Quando uma torcida organizada que percebe o que perdeu protesta, mesmo que com interesses mais egocêntricos do que altruístas, dois de diretores são espancados misteriosamente para não interferir na bela imagem que as arenas criam para transmissões pasteurizadas e artificiais na TV, momento em que ninguém reivindica economistas neoclássicos para reclamar da intervenção policial do estado.

Gastávamos R$ 20 para ver grandes times jogando. Dispendendo com o que não precisamos, pagamos R$ 100 para ver um telão bonito, uma cadeira numerada, manter distância de gente que grita o tempo todo. Nada disso fazia sentido. Agora é moderno.

No caso do ovo, pelo menos, o chocolate e a barra possuem o mesmo gosto. No futebol, o novo sabor é tipo um caviar: ruim, caro e só quem tem dinheiro degusta para mostrar que pode, não porque é bom.

GERALDINOS O Rei do Maracanã com seus súditos. A geral foi extinta
 quando o ex-Maior do Mundo passou a atender o "Padrão FIFA"

*Fábio Venturini é jornalista

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O protesto da Gaviões e a nobreza das demandas

SOMENTE CAUSAS NOBRES? Corintianos protestam
 em Itaquera (André Lucas Almeida/Futura Press)


Uma cena chamou a atenção durante o Majestoso do último domingo, na Arena Corinthians. No início do segundo tempo, o capitão corintiano, Felipe, atravessou o campo todo e começou a gesticular para a torcida. Ele pedia, por solicitação do árbitro Luis Flávio de Oliveira, para que membros da Gaviões da Fiel enrolassem algumas faixas de protesto.

Os alvos eram claros: Rede Globo, CBF, FPF, a diretoria do próprio Corinthians e o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado estadual Fernando Capez (PSDB). Tudo muito bonito, ainda mais se pensarmos na gênesis da própria Gaviões, que nasceu no fim dos anos 1960, em meio aos Atos Institucionais que cassavam os direitos individuais dos brasileiros, para protestar contra o então presidente corintiano Wadih Helu.

Mas não é bem assim.

O protesto contra a diretoria do clube é justo: o ingresso é muito caro e está restringindo o acesso do povo às arquibancadas. O Corinthians é o que é (e só é o que é) porque veio do povo, emana povo, e o esbranquiçamento do estádio o afasta de suas raízes. Logo, se este processo não for revertido, se tornará um time comum; quem quiser ver o jogo, que adira ao programa de ST do clube, que é mais seletivo ainda com seu sistema de pontuação que determina que, quanto mais ingressos forem adquiridos, mais próximo da prioridade na venda dos ingressos para os chamados jogos grandes o torcedor estará, o que cria categorias de corintiano: o que tem grana pra torrar nos jogos sem importância e os que não vão conseguir ir aos jogos.

A Globo foi alvo também por causa dos horários das partidas. Esta é uma demanda que já deveria ter sido discutida há tempos. A detentora paga uma miséria se comparado a outros campeonatos nacionais e faz o que quer com estas competições, seja no horário ou interferindo nas escalações.

Agora acaba o romantismo: a torcida resolveu bater na FPF porque esta a suspendeu por 60 dias por causa dos sinalizadores na semifinal da Copinha. Só por isso. Sobre o deputado Capez, a faixa só apareceu porque o deputado, que é acusado de participar do esquema de desvio da verba da merenda, trabalhou (e usou como trampolim eleitoral) pela extinção das organizadas, entre elas a própria Gaviões. Ou seja, o problema, no caso, nem é o suposto crime, mas sim o suposto criminoso. Acreditem, ninguém ali está interessado no dinheiro da merenda. Ou será que somente este escândalo é digno de protesto?

Em todo caso, devemos lamentar a tentativa de coibição do protesto. Sendo pacífico, deve ser respeitado. O pedido feito pelo árbitro, que certamente partiu de cima, mostra na mão de quem o futebol está. São os mesmos que comandavam o país quando a Gaviões da Fiel foi criada. Só não vejo a “pureza na resposta das crianças” da organizada ou a politização do ato em si.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Para Rafaela


Amo esse seu jeito de me olhar,
De respirar, de suspirar,
De reclamar quando está só.
Quando está só querendo paz,
Quando quer mais, quando se faz
De frágil, fácil, incapaz
De viver sem o meu amor.
Seu jeito de fazer amor,
Mesmo que só em pensamento,
Que seja só por um momento,
Por um momento ser real.

Amo esse seu jeito competente,
De ser forte, mas dependente,
De não ser auto-suficiente,
De depender da gente
Ou de gente, de repente,
Por mais que seja apenas tipo.
Ou seja um tipo que é só seu,
Como também é o meu amor,
Que é só seu, é mais que meu.
É mais que eu, bem mais que eu.

Amo o fato de te amar,
Só pelo fato de te amar.
Só pelo fato de viver
Só pelo fato de sentir,
De existir, de insistir
Em insistir, em existir.
Em existir sem se explicar.
Não há razão, não há senão.
Senão apenas existir.
Não há razão, não há porquê.
Só há você, só há você.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O mea culpa e a Primeira Liga


Há alguns dias escrevi aqui mesmo, neste blog, sobre a negativa da CBF à Primeira Liga. Critiquei a falta de atitude dos dirigentes por não enfrentarem a entidade, mesmo tendo ao seu lado a lei e a opinião pública.

Felizmente, eu estava errado. Os organizadores não só não arredaram o pé como colocaram seus times em campo, mesmo a contragosto dos homens da Barra da Tijuca, que, ao contrário do que eu imaginei, meteram o rabinho entre as pernas e recuaram. 

A Primeira Liga tem tudo para dar certo, mesmo no país em que quase tudo dá errado. Equipes tradicionais, grandes torcidas e o interesse de boa parte do público para que a competição emplaque. No entanto, ainda é prudente aguardar o próximo passo da entidade.

O único senão aqui é se vão respeitar os critérios técnicos para comporem os integrantes da Liga. Em 1987, quando foi criada a Copa União - e o finado e nada saudoso Clube dos 13, deram uma banana para o que fora auferido em campo no ano anterior e promoveram a primeira virada de mesa do país.

Outra notícia alvissareira é o iminente acerto entre o Santos e a americana Turner, para que os jogos do alvinegro da Vila Belmiro sejam transmitidos pelo Esporte Interativo, o que quebra, ou pelo menos enfraquece, o poder da Rede Globo sobre o futebol nacional, tema anteriormente abordado aqui também.

São dois passos para tirar o futebol do obscurantismo, do atraso. Dois passos para que o 7 a 1 não se repita, mesmo no país feito para dar errado.  

  

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Projetado para dar errado


Quando a ideia da Liga Rio-Sul-Minas saiu do papel, foi uma festa! Era a carta de alforria dos clubes, que, finalmente, escapariam do jugo da CBF e poderiam andar com as próprias pernas. À CBF, resignada, restou acatar e arrumar uma vaga no calendário oficial do futebol brasileiro. Afinal de contas, havia um surto de honestidade no ar, a parti de Zurique e as das ações do FBI sobre os mais altos dirigentes da FIFA. "Novos tempos no futebol!", bradavam por aí vozes das mais entusiasmadas.

Funcionou até a página dois. Se no princípio a CBF aceitou, mansamente, depois o discurso mudou. Disse, por intermédio do ex-presidente Del Nero, aquele que não pode sair do país, que iria aguardar. Algumas federações, acostumadas a mamar nas tetas dos filiados, se colocaram contra. A carioca, a gaúcha. Os clubes iam bem. Até que resolveram discutir as cotas. Aí a fraternidade acabou.

Enfraquecida e sem o dinheiro que esperava receber da TV pelos direitos da competição, que colocaria em campo os principais clubes do Rio de Janeiro (exceto Vasco e Botafogo, fiéis à Ferj e, não por acaso, finalistas do último Campeonato Carioca), Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a Primeira Liga (nome oficial da entidade formada) acertou os ponteiros e divulgou tudo; clubes, tabela, forma de competição.

Neste meio-tempo, Marco Polo Del Nero, chafurdando nas denúncias de corrupção (as mesmas que "derrubaram" Havelange, Teixeira e Marin), se afastava do cargo, não antes de colocar, com o apoio de alguns dos principais clubes do país, um obscuro Coronel Nunes em seu lugar. Ele era presidente da Federação Paraense há mais de duas dúzias de anos, e sabemos como estão os clubes do Pará. 

Quando podiam dizer "não" à manobra, os clubes paulistas abaixaram a cabeça e, como cordeirinhos, aceitaram a "recomendação" da FPF, de apoiar a candidatura do tal coronel à vice-presidência da região Sudeste e, consequentemente, da CBF quando Del Nero largasse o osso. E entrou o indicado do presidente afastado.

Antonio Carlos Nunes de Lima, o tal coroné, era homem da Ditadura Militar, como é possível ver na excelente reportagem do excelente jornalista Lúcio de Castro, para o apublica.org. É da mesma laia de gente como José Maria Marin, que tentou cassar a nacionalidade do atacante Diego Costa porque este resolveu jogar a Copa de 2014 pela Espanha. Para eles, a lei serve somente quando os favorece.

Eis que a semana da estreia da Primeira Liga chegou e, faltando três dias apenas para que começasse o torneio que representaria a modernidade do futebol nacional, a CBF do Coronel Nunes resolveu vetar sua realização, se baseando, entre outras justificativas, no Estatuto do Torcedor e no descumprimento do intervalo mínimo entre as partidas a serem disputadas pelos jogadores.

Até aí, tudo bem. O problema é que a entidade não tem a menor moral para alegar o descumprimento destas regras, pois ela deu de ombros ao mesmo Estatuto do Torcedor quando rebaixou a Portuguesa no Brasileirão de 2013 e, quanto às tais 72 horas que devem haver entre uma parida e outra, não é difícil de encontrar casos (aos montes) em que os jogadores voltaram a campo antes do prazo mínimo estabelecido, e pelo qual os próprios sindicatos de jogadores não dá a minima.

Mandando onde não deveria, a CBF chamou os clubes da tal Liga para conversarem, mas para a sua inclusão no calendário a partir de 2017, mas "sem nenhuma infringência às leis, regulamentos e estatutos", os mesmos que ela passa por cima quando lhe convém. Faltou coragem aos clubes. Faltou vontade aos dirigentes, que tinham a possibilidade de, enfim, dar um passo gigante na direção da modernização do futebol brasileiro.

Para tanto, bastava os principais distintivos brasileiros pararem de olhar para seu próprio umbigo, se unirem pelo bem maior - o futebol - e dar uma banana à CBF, mas aí é pedir demais aos modernos cartolas brasileiros. Tudo normal para o "Padrão-Brasil", o país projetado para dar errado.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Já é melhor mesmo?

NO PÓDIO Neymar comemora com Suárez golaço marcado no
Camp Nou contra o Villareal. Craque brasuca aparece pela primeira vez
 entre os três postulantes à Bola de Ouro (Josep Lago/AFP)
“O Neymar é melhor que o Cristiano Ronaldo!” Esta frase já pode ser lida por aí, dita por diversas vozes, especializadas ou não. Não importa se, pela primeira vez, o português teve uma temporada pior que a do brasileiro, mesmo que os números individuais apontem o contrário. Não importa também que muito do desempenho de ambos esteja diretamente ligado ao que fizeram suas equipes no ano, como, aliás, seria em qualquer caso.  

Não precisam ter pressa, senhores! Neymar, que tem 23 anos e está em ascensão, mais cedo ou mais tarde será melhor que Cristiano, já com 30 completados e, portanto, mais perto do declínio físico, embora todas as temporadas anteriores tenham mostrado que não.


GRITEM MAIS! Três vezes Bola de Ouro, português cumpre rotina. Ninguém fez
mais golos que ele em 2015 (57), apesar da temporada ruim do Real Madrid.
São cinco anos seguidos a superar a casa dos 50 tentos (Getty Images)
É natural. Neymar será melhor que Cristiano e também, se tudo correr bem, que Messi, cinco anos mais senhor que ele. Da mesma forma que aparecerá algum jovem jogador que irá superá-lo, mais dia, menos dia, pelo simples fato de que o tempo é o melhor marcador de todos os tempos. Mas aí alguém aumentará os decibéis para falar do auge caso este seja um argumento válido.


EXTRATERRESTRE Messi é o favorito para levar a quinta
Bola de Ouro para casa (Alberto Estevez/EPA)
Com o português, porém, não é assim. Mesmo ele tendo sido escolhido o melhor do mundo em três temporadas distintas (por enquanto), como Zidane e Ronaldo, outros astros indiscutíveis. E daí que ele se mantém jogando no mais alto nível desde que despontou para o futebol, na Eurocopa de 2004?

Pode ser, e existem grandes chances disso, que Neymar jamais atinja o patamar que nos últimos anos só Messi e Cristiano Ronaldo atingiram. Para isso. terá que jogar o seu melhor e prolongar o ápice, coisa que, além dos dois extrassérie, talvez só Ronaldo e Zidane (por um período de tempo mais curto) fizeram nos últimos 20 anos. Craques como Van Basten, Romário e
 Ronaldinho Gaúcho não foram capazes de permanecer por tanto tempo no topo durante a carreira toda.

Mas e daí? Neymar já é melhor. E ponto.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Verdades inconvenientes

Por Vinicius Carrilho*



Desde o meio de dezembro as trombetas do apocalipse vêm soando no Parque São Jorge. Até o momento, assim como na bíblia, já foram quatro toques. No primeiro, levou-se Jadson. Depois, foi a vez de Renato Augusto e, nos dois seguintes, partiram do alvinegro Ralf e Vagner Love. Por todo o país, milhões de alvinegros já conseguem ouvir a águia dizer, em meio ao seu voo: “Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar!”. Eles temem, e muito, o cada vez mais próximo soar de uma nova trombeta.

O Apocalipse preto e branco vem, quase em sua totalidade, do outro lado do mundo. Em vez de saraivadas de fogo e sangue, traz consigo cifras inimagináveis e olhos cada vez mais atentos aos jogadores do atual campeão brasileiro. Vendo seu time se enfraquecer diariamente, muitos fiéis temem ser esse o ponto final para uma equipe que tinha tudo para ser feliz em 2016. Mas, seria de fato este o triste epílogo de uma grande história construída nos últimos meses? Não, não é. Aliás, sequer é o começo de um fim.

Antes de todos os argumentos seguintes, é necessário compreender completamente uma máxima: a verdade dói, mas liberta. O que será exposto nos próximos parágrafos são verdades inconvenientes, principalmente para aqueles que ainda possuem uma visão romântica deste grande negócio chamado futebol.

De princípio, é necessário afirmar que não há a menor possibilidade de um clube brasileiro concorrer com qualquer outro mercado que tenha um mínimo de estabilidade financeira. Com o real a cada dia valendo menos que o inseto que ronda o excremento do equino, as equipes do exterior, em especial as chinesas, sequer se dão ao trabalho de negociar. Elas chegam, fazem uma proposta ao jogador e, após este aceitá-la, depositam a multa rescisória na conta de seu antigo clube. É simples assim e não há o que se fazer.

ÁGUA MORRO ABAIXO Renato Augusto se despede do Corinthians:
 "Proposta irrecusável" (Marcelo D. Sants/Estadão Conteúdo)
Enquanto tivermos uma economia quebrada (mesmo com muitos insistindo que não há crise) e uma moeda valendo menos que muitos de nós, que por anos ouvimos que não valíamos nada, os clubes daqui continuarão sendo a residência da progenitora Joana, onde quem tiver dinheiro vem, leva e sai sem nem agradecer.

Em um segundo momento é primordial uma compreensão daquilo que pode ser a pior das verdades: o que para o torcedor é uma paixão, para o jogador não passa de um simples ofício. Os atletas são profissionais de uma carreira curta e incerta, onde uma simples lesão no joelho, por exemplo, pode fazer ruir todo um trabalho de anos de dedicação e privações. Agora, por um segundo inverta os papéis: imagine que você é um trabalhador, provavelmente já na última volta de sua carreira, com uma escolaridade máxima de ensino médio completo e, de repente, recebe uma proposta de trabalho que lhe renderá 2 milhões de reais ao mês. Você recusaria? Se sim, parabéns, é um dos maiores heróis de todos os tempos, pois 99,9% da população não pensariam duas vezes.

Neste mesmo tópico, alguns podem argumentar que na vida nem tudo é dinheiro.  Questionariam sobre como encarar a mudança para uma nação de cultura e idioma tão diferentes, como é a China. Isso sem levar em conta a distância de nosso país para o deles. Pois bem, com o enorme desenvolvimento econômico dos últimos anos, muitas cidades chinesas tornaram-se maiores e mais estruturadas que as grandes capitais brasileiras. Além disso, auxiliará na adaptação desses atletas a invasão de jogadores, treinadores e preparadores tupiniquins que ocorre por lá. Por fim, a tecnologia hoje em dia acabou com qualquer empecilho que a distância possa causar. Convenhamos, por mais que você queira negar: é praticamente impossível existir novamente um Viola, que voltou de Valência porque estava com saudade de comer feijão – e que só comia bolachas. Hoje, se encontra tudo em qualquer lugar e, se não encontrar, em questão de horas é possível solicitar uma entrega. Também vale lembrar que, em pleno 2016, ninguém depende de carta para nada. Em menos de cinco toques em uma tela de celular você pode se conectar, em vídeo, com qualquer pessoa do planeta.

DE VOLTA AO EXTERIOR Após sucesso no Brasileirão, Jadson (à esquerda) e
Vagner Love também definiram saída do Alvinegro. Atacante vai para o futebol
francês e meia segue para a China (Anderson Rodrigues/AE)
 
Ainda haverá aquele que, em um último suspiro de sua argumentação, lembrará que estes jogadores irão se esconder em centros menores, inclusive não participando mais das convocações da Seleção Brasileira. É verdade, mas não é. Durante boa parte do ano, de fato, eles ficarão completamente longe das luzes do estrelato. Mas, basta um estalar de dedos e uma mínima intenção de retornar para que o interesse de clubes brasileiros cresça sobre os jogadores. Deixar a Seleção Brasileira também é um grande risco que se corre, mas, convenhamos: estar no time nacional atualmente não significa absolutamente nada. Trazendo para cá a tese de Marcos Teixeira, genial dono deste espaço, a camisa amarela do Brasil deixou de ser um objetivo para tornar-se um instrumento. Estar no grupo comandado por Dunga neste momento não é nada mais que uma forma de buscar um bom contrato, coisa que todos já conseguiram.

Mas e a renúncia de suas carreiras?, perguntaria ainda o incauto leitor, num último argumento para provar e ir para a China não é lá um negócio da China. Ora, vocês acham que algum destes vão atuar algum dia em um Barcelona ou um Bayern de Munique?! Claro que não.

Levando agora o foco para o Corinthians, não há motivo para tanta agonia. Excluindo todos os que possuem alguma sondagem e também aqueles que ainda não foram contratados, Tite pode começar o ano com a seguinte formação: Walter; Fagner, Felipe, Gil e Uendel; Cristian, Bruno Henrique, Marlone e Rodriguinho (Danilo); Alexandre Pato (Malcom) e Luciano. Não é nenhum time galáctico, mas para os padrões do futebol brasileiro está bem na média. É evidente que todos os que estão partindo farão falta, mas ainda há quem possa substituí-los.

QUEM FICA Mesmo com debandada, treinador terá time de
qualidade à disposição (Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians)

Perante tudo isso, fica claro que não estamos diante de mercenários e muito menos em meio a um processo apocalíptico. As três trombetas finais podem tocar algum dia para os grandes clubes, mas não será agora e nem motivadas pelas cifras milionárias do exterior. Neste momento, precisamos passar por um processo de conscientização. É necessário aceitar que somos um país pobre, de economia fraca, com um futebol sem apelo e sem dinheiro. Também, que os jogadores não são nada mais do que meros trabalhadores, sem qualquer vínculo passional com seus empregadores. Nessa história toda, não há ninguém sofrendo por partir e muito menos fazendo algo ilegal ou imoral. Essa é a grande verdade e, em um tempo de engano universal, dizê-la e aceitá-la é um ato revolucionário. 

* Vinicius Carrilho tem 24 anos, é jornalista, morador
de Osasco e gostaria de ganhar a vida fazendo
humor, mas escreve melhor do que conta piadas.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Futebol, amor e idolatria - Obrigado, Rogério Ceni

*por Guto Monte Ablas

O ÚLTIMO ATO O amor do camisa 10 do gol, simbolizado no beijo do distintivo
 tricolor (Imagem publicada no Instagram oficial do São Paulo, 
@saopaulofc)  
Rogério Ceni pode não ter sido o maior goleiro da história, sequer o maior do São Paulo, que teve Zetti, Gilmar, Valdir, Poy, King... mas, sem dúvida, foi o goleiro que mais amou um clube de futebol.

Juntar 60 mil pessoas numa noite de sexta-feira não é pra qualquer um! Rogério Ceni se aposentando é a última pá de terra no pior ano da história do São Paulo. Como será o ano que vem? Sem craques, sem técnico, sem dinheiro, diretoria batendo cabeça, SEM ÍDOLO!

Depois de 19 anos o Tricolor terá um novo dono da camisa 1 (camisa 1, pois a 01 ninguém nunca mais usará) e depois de 19 anos terá de aprender a idolatrar outros nomes. Não terá mais aquele que ontem, emocionado, pedia para suas cinzas serem depositadas no campo do Morumbi, de sua casa, de seu amor.

Caras como Rogério Ceni estão extintos do futebol brasileiro. Símbolos de amor a um clube e a uma carreira. Não me envergonho de dizer que chorei durante a festa e lamentei a falta que um ídolo fará em nossa história.

Obrigado, Rogério Ceni, por me ensinar sobre futebol, amor e idolatria; obrigado por, dos seus 26 anos de carreira, 25 você tenha dedicado a nós!

Todos tiveram goleiros; só nós tivemos Rogério Ceni: goleiro, artilheiro, atacante, guitarrista, são paulino e m1to. Você nos deu o mundo, nós te demos nosso coração.

Que apesar da imensa tristeza de sua aposentadoria, possamos lembrar com alegria de sua história da qual, apesar de fechadas as contas, você ocupa para sempre a página 01.


*Guto Monte Ablas, 28, é jurisfilósofo, jornalista e radieiro.
Trabalha com esporte desde 2008, é sãopaulino desde 1986
e Rogério Ceni desde 1997, além de Fábio Jr desde sempre.
Atualmente no iG Esportes

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Obrigado, M1TO!

Por Douglas Sato*
PARA A HISTÓRIA Titular e capitão na conquista da Libertadores
 da América de 2005 (Alexandre Batibugli/Abril)
Craque, líder, mito, capitão, artilheiro, goleiro e provavelmente o maior jogador da história do São Paulo. Esse é o tamanho de Rogério Mücke Ceni, mais conhecido como Rogério Ceni, no mundo da bola. É o jogador que mais representa o que é jogar no Morumbi, um dos templos do futebol, o que mais representou uma torcida que canta, apoia e emociona. Por volta das 19 horas do domingo (06), o árbitro Ricardo Marques Ribeiro encerrou o duelo entre Goiás e São Paulo, com vitória da equipe paulista por 1 a 0, no estádio Serra Dourada, em Goiânia, e decretou o começo de uma nova fase para o time do Morumbi. 

Aos 42 anos e mais de 1,2 mil jogos pelo São Paulo, o arqueiro se aposentou do futebol. “Se você pensar, 25 anos em uma mesma empresa em que você se expõe publicamente para ser julgado quarta e domingo, é bastante tempo. É uma carreira toda e chegar aos 42 anos jogando é difícil”, disse Rogério Ceni em diversas mídias.

O adeus do capitão faz o clube romper (pelo menos dentro de campo) com o último remanescente de duas eras vitoriosas. O goleiro estava no Tricolor durante o título mundial de 1993 e ajudou a reconduzir a equipe ao topo, com as conquistas do Mundial de Clubes da FIFA e a Libertadores de 2005, seguido pelo tricampeonato brasileiro nos anos seguintes e a Copa Sul-Americana de 2012.

Os quase 20 títulos em sua carreira, incluindo a Copa do Mundo de 2002, ganharam ainda mais destaque pela habilidade paralela como batedor de faltas e pênaltis. Foram 131 gols, recorde no futebol mundial para um arqueiro, feito acompanhado pela liderança fora de campo.

CEM VEZES CENI Rogério comemora o centésimo gol
da carreira (Wagner Carmo/Inovafoto/Vipcomm)
  
Agora, caro leitor, sei parece estranho. Afinal, após todos esses dados, aonde quero chegar? Nem eu realmente sei. Como posso falar ou opinar sobre um cara que por 90 minutos foi maior do que o Liverpool? Um cara que pode ter superado a mística de Telê Santana no São Paulo? Que desbancou ídolos como Serginho Chulapa, Luis Fabiano, Raí, Zetti, Poy, Valdir Peres, Fórlan e é considerado o maior atleta de um clube profissional de futebol? É uma tarefa difícil para mim e ainda maior para o São Paulo.

O MUNDO ÀS SUAS MÃOS Após atuação antológica, Rogério
 ergue a taça de campeão do mundo (Getty Images)
Fora Pelé, ninguém é insubstituível. Mas, como preencher a lacuna deixada por um goleiro que suspirou? Suou. Superou. Mitou. Volto a dizer: não sei. E o São Paulo? Só o tempo dirá. Mas, enquanto não tivermos resposta, só posso dizer que Rogério Ceni fez muito dentro e fora de campo para o São Paulo. Merece todas as festas e honrarias, e vindo deste singelo texto uma palavra de carinho. “Até breve, capitão. Para sempre campeão!”

Principais títulos pelo São Paulo (ordem cronológica):
1992: Campeonato Paulista; 
1993: Copa Libertadores da América, Recopa Sul-Americana, Supercopa da Taça Libertadores da América, Mundial de Clubes; 
1994: Copa Conmebol, Recopa Sul-Americana; 
1996: Copa Master Conmebol; 
1998: Campeonato Paulista; 
2000: Campeonato Paulista; 
2001: Torneio Rio-S. Paulo; 
2005: Campeonato Paulista, Copa Libertadores da América, Mundial de Clubes; 
2006: Campeonato Brasileiro; 
2007: Campeonato Brasileiro; 
2008: Campeonato Brasileiro; 
2012: Copa Sul-Americana.



Pela Seleção Brasileira:
1997: Copa das Confederações; 
2002: Copa do Mundo 2002. 

* Douglas Sato tem 26 anos, é músico e jornalista (nesta ordem)
e, nas horas vagas, é imitado pela dupla Cesar Menotti e Fabiano.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

As tuas glórias vêm só do passado?

Por Douglas Sato*

A temporada de 2015 já está quase no fim, graças a Deus para a torcida tricolor, e as previsões feitas para o São Paulo se confirmaram. Após fiascos no Estadual e na Libertadores, o caso Maidana, contrata CEO, demite CEO,  o soco de Ataíde Gil Guerreiro no “presidente” Aidar, Cinira, Juan Carlos Osorio, Doriva. Alguns falam em uma crise mais duradoura, que deve alcançar o próximo ano, outros falam que o time do Morumbi subirá um pouco de produção (tem como descer?), e uma meia dúzia afirma que apenas uma reestruturação total dará jeito na situação.

Em meio a este cenário, demissões, saídas de atletas e dirigentes, ir além de uma reorganização interna é comum. Afinal, ninguém quer ficar no vermelho e correr riscos no próximo ano. Porém, em tempos de crise, a primeira coisa a ser feita é não perder a cabeça, manter a calma e ter uma atitude positiva, e não conformista. Por enquanto, existem previsões e nenhuma certeza, e, por isso, esta é uma boa hora para identificar as oportunidades e tentar se reerguer.

Primeiro ato
Aproveitar o dinheiro extra: O fato é que a folha salarial do São Paulo aumentou exorbitantemente. Entretanto, com as saídas de Rogério Ceni, que se aposentará, de Luis Fabiano, que irá para a China, e Alexandre Pato, que voltará ao Corinthians, o clube poderá economizar cerca de R$ 1,65 milhão por mês, que é aproximadamente o que o trio, somado, recebe, o que não é pouco. E essa dinheirama poderá ser utilizado em contratações e outras despesas importantes do futebol do clube.

Segundo ato
A base: O São Paulo é um bom vendedor: Lucas para o PSG por R$ 86,5 milhões, Lucas Piazon para o Chelsea por 16,9 milhões, Oscar para o Internacional e Chelsea por 15 milhões, Casemiro para o Real Madrid por 13,4 milhões e Boschilia para o Monaco por 34,7 milhões. Porém, quando necessita da assistência da base, vide este último Brasileirão, o clube vendeu seus jogadores mais promissores e dependeu de jovens apostas, inexperientes, afobados e sem responsabilidade. Uma das soluções para 2016 é cuidar de Cotia, manter os bons atletas, trabalhá-los com calma e, na medida do possível, dar espaço na equipe profissional.

Terceiro ato
Jogadores que voltarão de empréstimo: Ao todo são seis laterais, dois zagueiros, um volante, dois meias e dois atacantes os jogadores que voltam para defender (ou não) as cores do São Paulo na próxima temporada. Entre eles estão Luis Ricardo e Carleto (Botafogo), Cortêz** (Albirex Niigata-JAP), João Felipe (Tricolor carioca), Luiz Eduardo (Juventude), Wellington (Internacional-RS), Maicon (Grêmio), Ademilson (Yokohama Marinos-JAP) e Ewandro (Atlético Paranaense). Já que o dinheiro é sempre pauta, o clube bem que poderia aproveitar grande parte desses nomes na equipe de 2016 (para evitar gastar montantes em taxas de transferência de atletas) ou até vender alguns nomes excedentes para fazer caixa e investir em um plantel qualificado.

Quarto ato
O Presidente do Clube: Juvenal Juvêncio é o dirigente que mais venceu na história do São Paulo se for levada em conta também a época em que comandava o departamento de futebol na gestão do saudoso Marcelo Portugal Gouvêa. O time época de Juvenal resistiu à ruptura do Clube dos 13, em 2011, e contribuiu para a queda de Ricardo Teixeira como presidente da CBF. 

No entanto, Juvenal mudou o estatuto social do clube e acabou passando por cima de tudo e de todos, centralizou o poder e, ainda assim (ou talvez por causa disso), perdeu a abertura da Copa do Mundo de 2014 para o co-irmão Corinthians. No novo estatuto, o tempo de mandato passou de dois para três anos. Além disso, adotou uma interpretação do estatuto que lhe permitiu a reeleição.  

Assim ele praticamente virou um posseiro no Morumbi e conseguiu cumprir, na mão-de-ferro, oito anos no comando. Mas, apesar de tudo isso, Juvenal Juvêncio, ou JJ, como é conhecido, era respeitado pelos jogadores, diretoria e a torcida. Já seu sucessor Carlos Miguel Aidar, com quem rompeu logo depois de ajudar a eleger, fez do clube um salão de festas, onde pessoas entram e saem a todo momento. As declarações do ex-presidente, incluindo brigas com equipes rivais, fizeram do São Paulo um exemplo de desorganização e fragilidade.

Agora nos resta saber qual será a posição que o atual presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, adotará em 2016, primeiro, em 25 anos, sem o capitão Rogério Ceni. Será bom o suficiente para reorganizar o outrora exemplar São Paulo? Terá respeito e respaldo? Ou será apenas mais um a conduzir o barco para outro iceberg?

* Douglas Sato tem 26 anos, é músico e jornalista (nesta ordem) 
e, nas horas vagas, é imitado pela dupla Cesar Menotti e Fabiano.


**NE Que ele, responsável pela derrota do Benfica na última Eusébio Cup com o Pantera Negra ainda vivo, encerre a carreira na obscuridade de uma quarta divisão de algum campeonato qualquer.