quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Alea jacta est!

As Eliminatórias para a Copa de 2010 chegam, finalmente, no momento de decidir as últimas vagas. Quem pegará a raspa do tacho, como diria o grande mestre Silvio Luiz, é o que será decidido nas repescagens. São seis vagas: quatro na Europa, uma nas Américas e uma entre Ásia e Oceania.

Façamos, pois, um exercício de análise e adivinhação (é mais divertido). Começando pelo confronto já em andamento, Nova Zelândia e Bahrein decidirão, no dia 14 próximo, quem terá o direito de ser sparring na Copa. O primeiro jogo já foi uma "bela" mostra do que nos aguarda na África: um 0 a 0 horroroso, perfeito para tratamento de insônia. Não aposto em ninguém, mas como Bahrein é um nome mais bacaninha de ser dito...

Nas Américas, Costa Rica e Uruguai farão um duelo interessante. A equipe caribenha, dirigida pelo bigodudo Renê Simões, tinha o passaporte aberto, quase carimbado. Vencia os estadunidenses por 2 a 0, mas permitiu o empate, no último lance, cedendo a vaga para Honduras. Seu adversário, o Uruguai, conseguiu a vaga graças ao Chile, que bateu o Equador e evitou a precoce eliminação dos nossos vizinhos do sul. Como camisa ainda pesa em jogos deste tipo, cravo "seco" na Celeste, de Lugano e Forlan.

Na Europa, quatro embates que prometem esquentar o outono do Velho Mundo: França e Irlanda, Rússia e Eslovênia, Grécia versus Ucrânia e Portugal contra Bósnia.

A França terá, de longe, a parada mais indigesta dentre os chamados favoritos. A pragmática Irlanda chegou invicta à repescagem, empatando seis dos seus dez jogos. É um time chato demais e chega sem pressão ou, pelo menos, sua pressão é bem menor. A favor dos galícios pesa apenas a camisa, pois os Bleus ainda não pegaram no breu, ressentindo-se, ainda, da falta do maestro Zizou. Aqui, creio que a zebra vista-se de verde e a Irlanda passe.

Rússia e Eslovênia tem tudo pra ser um duelo legal. São duas escolas parecidas - a soviética e a iugoslava -, mas, ainda assim, o time dirigido pelo ótimo Guus Hiddink deverá passar sem sustos, e veremos Arshavin e cia. na Copa.

Grécia e Ucrânia deve ser outro teste de paciência. Fora dos mundiais desde 1994, quando não anotaram um tento sequer, os helênicos há muito não chegam tão perto da vaga. O problema é que seu time não é nenhum Apolo, e ainda terão pela frente o time do Schevchenko que, apesar de já ter dobrado o Cabo da Boa Esperança, ainda impõe respeito. Isso posto, minha aposta é na Ucrânia.

Finalmente, a contenda mais esperada de todas, pelo menos por este que vos escreve. Portugal e Bósnia. É evidente como dois e dois são quatro que a Selecção das Cinco Quinas é favorita, mas não deve ter um adversário tão fácil à frente. A Bósnia conta com o atacante Dzeco, destaque do campeão alemão Wolfsburg. Além do mais, a Bósnia também vem da escola iugoslava, que privilegia o toque de bola. Pelos lados ibéricos a nau lusitana finalmente navega em águas calmas. Carlos Queiróz parece ter dado feições de equipe para uma esquadra outrora soberba, que agora age e joga com humildade, como deveria desde o início. A despeito do possível desfalque de Cristiano Ronaldo, minha aposta é em Portugal, com alguns sobressaltos, mas a vaga será nossa!

Enfim, a sorte está lançada. Agora é esperar pra ver quem carimbará o passaporte.

Maradona, imprensa e palavrões

* por Humberto Pereira da Silva

A Argentina, de forma dramática, se classificou para a Sulafricana Copa-2010. Venceu o Uruguay em Montevideo. De Maradona se pode fazer uma pergunta: é um bom técnico? A resposta quase certa: não! Mas não custa lembrar: a Argentina não estava bem nas Eliminatórias com o antigo técnico e por isso "El Pibe" foi chamado. Com ele, os argies estarão na Sulafricana Copa-2010.

Não custa lembrar, também, que desde 90 os argies não vão além da segunda fase de uma Copa. Se passarem da primeira, Maradona não terá feito menos que outros nessas duas décadas. Ou seja, por capricho, não sendo exemplo de estrategista ou algo parecido, Maradona pode fazer mais do que dele se imaginava capaz. Sem ele, não se imaginava a Argentina na Copa ou, nonsense, não haveria razão para troca de técnico?

Mas e a imprensa? Na entrevista depois da já mítica batalha no Centenário, Maradona esbravejou e ouviu do repórter a pergunta: "você não pode ser criticado?" A reposta dele foi de teor moralizante: "crítica, sim, mas não desrespeito". Certo, mas a pergunta do repórter, que vale para muitas situações no futebol, tem outros atalhos. Crítica supõe subserviência do criticado à crítica? Se sim, trata-se de um jogo de aparências e calhordice do crítico. A tentativa de defesa é entendida como intransigência: Eu, crítico, estaria certo nas críticas se perdesse, como não foi o que ocorreu, estou igualmente certo. Se o jogo é assim, apenas por se entender como cordeiro o criticado aceitaria as críticas. 

Outros técnicos são cordeiros, Maradona, antes de ser técnico, é um personagem que não aceita a condição de subserviência a regras que lhe são impostas. Por aqui, um vice como o de 98 é visto como fiasco, numa derrota como a de 2006 bodes vão para o sacrifício e nenhuma voz de Zagallos e Parreiras. Maradona faz bem, nos tira da pasmaceira. Não há porque bater leve em quem entra para quebrar a perna. Esse tem sido o papel da imprensa lá, como aqui. Mas aqui nossa lhaneza, como diria Sergio Buarque de Holanda, nos leva a aceitar numa boa. Falta-nos alguém com espírito Maradona.

Pode-se, no entanto, criticá-lo pelos palavrões: chupem! chupem! Sim, mas também aqui deve-se matizar a coisa. É incivilizado esbravejar no trânsito, no trânsito caótico que leve os mortais ao extremo do estresse...; mas, como diria Fernando Pessoa, "isso acontece com tanta gente que nem vale a pena ter pena da gente". Como reles mortais, não vamos querer que Maradona se comporte como nós. Ou, num mundo que se preza por apagar as diferenças, nós, os críticos, nos achamos deuses? Alguns, como Maradona, são diferentes das estrelas... E os palavrões no trânsito, para o padrão burguês, é apenas uma forma de nos percebermos como efetivamento somos: preconceituosos de merda!

*Humberto Pereira da Silva, 46 anos, é professor
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Alguém tem que ser

Que o Campeonato Brasileiro está equilibrado, ninguém duvida. Que o campeão só será conhecido bem no finalzinho, também. Agora, achar que isso garante o bom nível da competição, não dá.

Desde o ano passado, quando o Grêmio não quis ser campeão e o título caiu no colo do São Paulo que, por acaso, passava por ali, não temos um time indiscutivelmente superior. O Palmeiras faz o possível para não ser campeão; o São Paulo parece que não quer a taça; Inter, Atlético Mineiro e Goiás engasgam na hora "h". O Flamengo tem mística e time pra ser campeão, porém a distância para o ponteiro é grande.

Se compararmos com o futebol praticado no outro lado do Atlântico, veremos uma diferença brutal. É raro, na Europa, um time que briga pela ponta de cima da tabela se enroscar em outro time que ocupa a outra ponta. Ser goleado, então, é algo quase surreal. Já por aqui o Palestra caiu de três ante o moribundo Náutico. Pode ser até um "acidente de percurso", mas acontece com uma frequência enorme. Isso, graças ao fato de que não há muita diferença técnica entre os ponteiros para os lanternas, exceto pelo Tricolor carioca e Sport, que já fizeram o check-in do embarque para o rebaixamento.

Faltam menos de dez rodadas e a distância do líder Palmeiras para o vice líder Atlético é de quatro pontinhos. Muito ainda está por vir e ainda não dá pra "cravar seco" um campeão. O que dá pra afirmar, sem erro, é que só haverá quem levante a taça porque alguém tem que ser.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pra depois da festa

O Brasil está em festa. O Rio de Janeiro foi escolhido pra sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Pela primeira vez a América Latina receberá os jogos idealizados pelo Barão Pierre de Coubertin. Para tanto, a Cidade Maravilhosa desbancou a americana Chicago, a japonesa Tóquio e, enfim, Madri, a capital espanhola.

Motivos para comemorar são muitos: visibilidade, orgulho, prosperidade, a festa no nosso quintal. No entanto, razões para, desde já, botar as barbas de molho também existem. E não são poucas.

Assim, de partida, podemos citar os problemas estruturais da capital do Rio: trânsito caótico, transporte público ineficiente, poluição da Baía de Guanabara. Sem contar o maior dos abacaxis a serem descascados, que é a questão da segurança pública.

É evidente que serão feitos investimentos monstruosos nessas áreas. Ganha um bolinho de bacalhau quem adivinhar de onde sairá boa parte dos recursos. Quem, por acaso, disser "cofres publicos" tem, digamos, 171% de chances de acerto. E é aí onde mora o perigo.   

Os jogos estão orçados, inicialmente, em R$ 29 bilhões. Digo "inicialmente" porque, sem medo de errar, a conta ficará mais cara. Resta saber quanto. O Pan de 2007 foi orçado em cerca de quinhentos milhões de reais, mas saiu por quase R$ 5 bilhões. Quer dizer, fizeram festa com o chapéu alheio. O nosso, pra variar.
     
Não bastasse isso, outra questão que me deixa com um circo de pulgas atrás da orelha é o que será feito com o legado da Olimpíada. Durante a competição tudo funcionará que é uma beleza, pois o Brasil não passará recibo de incompetência. E depois? O que garante que os investimentos necessários para manter a cidade funcionando serão feitos?

Minha desconfiança não é gratuita. Quando a mesma Rio de Janeiro pleiteou a realização dos Jogos de 2004, prometeram despoluir a Baía de Guanabara. Como Atenas levou, não fizeram. Num português bem claro, a preocupação era com a Olimpíada, não com a cidade. É por atitudes assim que não consigo ver com olhos otimistas a feitura de eventos deste porte em países como o nosso. Deve-se primeiro arrumar a casa. Depois que estiver tudo em ordem é que se convida os visitantes. Ora, a casa deve estar arrumada, independentemente de termos visita. Se arrumarmos só por causa dos convidados, quando estes se forem a bagunça voltará a imperar.

De antemão, o que podemos ter de certeza é que haverá um salto de qualidade "nunca-visto-antes-na-história-do-esporte-deste-país". No mais, agora que a festa inicial já passou, olho vivo! Afinal, como já alertou o grande Mauro Beting, "será uma festa para muitos, mas uma farra para poucos."

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Isso não é Corinthians

Jean-Paul Sartre foi um filósofo francês do século XX que, entre outras coisas, escreveu sobre a aparência e a essência das pessoas. Estudei sobre Sartre quando fiz o terceiro colegial, em 96. Confesso lembrar-me pouco sobre o assunto, mas o suficiente para fazer algumas considerações sobre o Corínthians.

O Corínthians nasceu, cresceu e agigantou-se sob a pecha de "time do povo", desde a sua fundação, no Bairro do Bom Retiro, quando era o time dos operários da capital paulista. Isso fez com que, entre outras façanhas, mantivesse uma torcida gigantesca, mesmo durante o jejum de mais de 20 anos sem títulos, entre 1954 e 1977.

O Corínthians é mais que um time. É um fenômeno social, quase uma religião.Tem adeptos em todas as classes sociais, espalhados por todas as partes do mundo. Onde houver brasileiros, haverá corinthianos. E só é o que é graças à sua fiel torcida. Ela é a força do alvinegro do Parque São Jorge. Como seu santo padroeiro, é guerreira, é valente, e nunca abandona uma batalha. E justamente agora, quando o Timão está prestes a completar um século, a torcida é posta à margem na festa?

Espantam o torcedor do estádio, majorando o preço dos ingressos; lançam camisas comemorativas, a R$ 800, cada; até cruzeiro, para comemorar o centenário, estão promovendo. E o torcedor, o de verdade, onde entra? Este não se vê mais no espelho do time. Está perdendo o vínculo. Chegaram ao cúmulo de chamá-lo de ignorante, por causa dos protestos contra o desmanche do time, neste ano.

Com essas atitudes, a direção do Timão acabará com a identificação do torcedor com o clube. Seus dirigentes o estão tornando em algo que nunca foi: um time comum que, se analisado por Sartre, este certamente concluiria que trata-se de um time que parece ser do povo, mas que não tem a essência necessária para tal.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Uma casa de favores

Antes de mais nada, estimado leitor, perdoe-me por insistir no assunto, mas fazem-se necessárias algumas considerações sobre o STJD.

A Portuguesa, sabe-se, perdeu o mando de campo, por três jogos, em virtude do quiproquó ocorrido nos balneários lusos após a derrota contra o Vila Nova. Não é preciso re-escrever aqui os fatos. Pois bem. O (péssimo) árbitro paulista Rodrigo Martins Cintra, que prejudicou o Botafogo no jogo contra o Grêmio, foi cercado pela gente botafoguense na saída do gramado. Até aí, normal. Porém tentaram invadir seu vestiário, o que valeu denúncia por parte da procuradoria do tribunal.


O caso foi julgado e o clube da estrela-cadente solitária foi prontamente absolvido, sem maiores problemas ou repercussões. Mais uma vez o tribunal fez o preço de acordo com a cara do freguês. Ainda mais sendo o réu um time do Rio, o resultado era perfeitamente previsível. A alegação dada para absolver o time carioca é um escárnio só: o Botafogo, de acordo com o tribunal, vem sendo constantemente prejudicado pela arbitragem, portanto seria uma insensibilidade puní-lo ainda mais.

O que salta aos olhos, ouvidos e qualquer coisa que o valha é que o caso do Fogão foi muito mais grave que o da Lusa, pois envolveu gente de fora do clube, ao contrário do que houve no Canindé, que foi um assunto interno que, dada a comoção causada pela imprensa, deu no que deu. É como se, guardadas as proporções, condenassem um réu por tentativa de suicídio e absolvessem outro tentou matar alguém.

É por causa desse tipo de favorecimento que o STJD perde o pouco que resta da sua credibilidade, deixando de ser um tribunal para virar uma casa de favores.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

É muita frescura!


Essa semana, o técnico do Goiás, Hélio dos Anjos, causou uma grande polêmica ao afirmar, em entrevista coletiva, que não trabalha com homossexuais.

Antes de cair de pau nele, vejamos o contexto dessa declaração: o Goiás, que vem fazendo uma ótima campanha no Brasileiro, curiosamente, caiu de rendimento após a chegada do atacante Fernandão. Foram duas derrotas e um empate, incluindo um sonoro 4 a 0 para o Inter, em Porto Alegre, na estreia do atacante, que foi expulso logo no início.

Aí, após a classificação do alviverde goiano, nos pênaltis, pela Sulamericana contra o Galo mineiro, alguém perguntou, na coletiva, se a queda de produção do time tinha alguma relação com um possível “ciuminho” por conta da chegada do atacante, que passou a ser o jogador mais assediado do elenco esmeraldino.

Visivelmente irritado, o treineiro respondeu que “primeiro ficam pedindo jogador experiente. Aí quando vem, começam a criticar. O Fernando sei lá o quê, que o grupo está com ciúme. Homem com ciúme de homem para mim é viadagem. Não trabalho com homossexual, não tem viado aqui no meu grupo”.

Tudo bem. ele foi um tanto infeliz, concordo. Mas só isso. Como polêmica vende jornal, já armaram um enorme furdúncio sobre o assunto. Mas vamos devagar, por favor. O que ele disse é que esse tipo de frecura não cabe nos lugares onde trabalha. Não falou que os mais efeminados servem ou não.

Portanto, senhores, calma lá. Até porque, com essas polêmicas fora de propósito, o futebol, que já está cheio de não-me-toques, fica ainda mais chato.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dunga, Muricy... tacticas, tecnicas e voz da galera

* por Humberto Pereira da Silva

Anno passado, por essa dacta, depois de emppates seguidos com Peru, em Lima, e Bolívia, no Maracanão, Dunga era uma das personnas a que mais a ira brazuca se lançava: o defenestramento era questão de TEMPVS. Só não quedou porque, nobre ironia, uma combinação de resultados colocou o SCRETCH em segundo nas Eliminatórias.

Enquantto isso, no Brasileirão, time de Muricy, numa arrancada sem precedente, saiu de posição intermediaria e arrebatou o primeiro TRI em qualquer competição na história sãopaulina. No final do anno, como recomenda o SKRIPT, loas e manifestos pela substituição de Dunga pelo mannanger Tri. Tudo bastante conveniente e convencional; bem ao gosto e deleite da voz da galera.

"TEMPVS FUGIT...", diz bordão de reclame de Banco antigamente; "e a poupança... vai ficando numa boa". E, pois é... Segredos do tempo. Anno depois, seleção canarinho impõe humilhante derrota aos argies, com Messi e cia., nas phronteiras internas do curral portenho, se classifica para a Sulafricana Copa-2010, com 3 rodadas antes - feito inedicto - e o ranzinza e irônico Dunga quase vira unanimidade: é engolido, por ora (segredos do tempo...), pelos carrascos d´outrora.

Muricy, sim? Sorte igual não teve. Os deuses d´ontem o abandonaram no Paulistão e na Libertadores e o antes ovacionado foi escorraçado do TRI-brasileiro. Daí, numa transação de dictos e desdictos, foi parar no rival Palestra, que também escorraçou o perphormatico Luxemburgo (um interregno com o minimum Jorge...). Hoje, no Palestra, que desponta entre prováveis ao título brasileiro 09 - quarto seguido do ex-sãopaulo - muitas desconfianças, por ora, no arrazoado palmeirense.

PONTO PRIMEIRO. Phutebol tem caprichos insondáveis, para além de esquemmas, tacticas, tecnicas, estatisticas e memmoria. Feitas as contas, uma bola alçada na área e um Rossi, um Henry, quebra encantos e números... "É preciso estar atento e phorte..." diz a canção. A graça no esporte bretão está no singular, no ato isolado, no imprevisto, no blephe do jogador.

O técnico e sua técnica? Apazigúa, consola, grita, vocifera, teatraliza, "fecha grupos e corpos", organiza o movimento, orienta o carnaval e, sim, é responsável pelos 11 que entram e chutam a pelota no campo de batalha. Se conhece bem, digamos, segredos d´alma, se entusiasma e conhece um tanto de alquimia sem que disso se dê conta, isso se vê no time em campo. Mas a trajetória da bola é o imponderável. Na hora H são os deuses no Olimpo ou em qualquer lugar que decidem; fica pra patuleia papos sobre estrategias, estatísticas, tacticas...

SEGUNDO PONTO. Bom técnico é o que saca o universo boleiro num momento preciso. Passou do ponto e a coisa desanda. Não há regra para isso; isso não se repete como uma ciência. Cada momento é um acontecimento e só. Nesse sentido, o iracundo Dunga sacou: "Phutebol não tem passado nem phuturo, só presente". É ótimo que se fale de tacticas e técnicas: ocupam bem nossa imaginação e revelam nossa sagacidade. Mas, é no campo de batalha que se cria a mitologia. Depois, falamos de Alexandre, Cesar, Anibal, Napoleão, Di Stefano, Puskas, Pelé, Cruyff, Maradona, Zidane, Ronaldo...

TERCEIRO PONTO. Por trás das previsões, apostas, vaticínios, torcidas, gritos, sussurros, táticas, técnicas e estatísticas, a irracionalidade e iracibilidade da galera. Tem seu quê: na idade media, louco homem era graça de Deus; mulher, ia pra fogueira.

*Humberto Pereira da Silva, 46 anos, é professor
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pitacos de um mal-humorado

Estou mal-humorado. Às vezes fico assim. Motivos eu tenho, querido leitor, e irei mostrá-los a seguir:

Começou com o embróglio envolvendo os acontecimentos pós jogo da Lusa, contra Vasco e Vila Nova. Fomos julgados e condenados em ambos os jogos, com duas e três perdas de mando, respectivamente. Não que eu ache que o tribunal deveria ser complacente conosco. O que me irritou, primeiro, foi o Canindé ser interditado preventivamente por causa de uma versão de alguém que admitiu que poderia ter tido uma impressão equivocada, que foi o caso do Renê Simões. Acontece que criou-se uma comoção exagerada. Fomos condenados já de antemão. Ocorre coisa semelhante com o Botafogo, e não fizeram nada. Nos jogos do Náutico, no Estádio dos (não por acaso) Aflitos, fazem o diabo, com direito a intimidação policial, corredor polonês na entrada do campo e tudo o mais. Faz tempo que o Timbu se vale disso pra não cair. E não acontece nada.

Continuando meu rosário de insatisfações, o Domingos, que não é nenhum monge beneditino, quebrou a perna do goleiro reserva do Santos, Rafael, durante um treinamento. Isso lhe valeu afastamento do grupo de jogadores. Isso é assédio moral. O Domingão não faria isso deliberadamente. Parece-me que foi o motivo que o treineiro-blogueiro Luxemburgo procurava. O Edu Dracena, de quem o Luxa é fã, está chegando. Veio a calhar, então, o afastamento. Tudo muito nebuloso, como foi também o afastamento do volante Roberto Brum. E como ninguém vem a público com explicações no mínimo plausíveis, dão margem a qualquer tipo de interpretação.

Por fim, o Santo André, que está se despedindo da primeira divisão, vendeu seus jogos "grandes" pra Ribeirão Preto. E o seu torcedor, que não poderá ver os principais jogos em casa? Eles não irão para Ribeirão, a não ser os torcedores ditos organizados. Ora essa, quer jogar num estádio maior, que jogasse no Pacaembu. Agora, vender o mando por qualquer 50 mirréis, é só aumentar um pouco a proposta e combina também o resultado do jogo. O Ramalhão não disputava a primeira divisão desde 1984. Sinceramente, pra fazer o que vem fazendo, sob a batuta do presidente-proprietário (ao menos pensa ser) Ronan Maria Pinto, é melhor nem disputar.

Só não estou mais de saco cheio porque Portugal vai à Copa, Rubinho ganhou e será campeão e a Lusa voltou a ser a Lusa, assim com o glorioso Benfica voltou a ser o que sempre foi: o maior time de Portugal.

E os tremoços estão deliciosos, só para constar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ainda estamos vivos!

SOBREVIDA Golo de Pepe (à esquerda) mantém Portugal no
 páreo por uma vaga na Copa de 2010 (Estela Silva)

Foi um jogo feio. De doer. De longe, uma das piores partidas que eu já assisti, e olha que eu já vi muito joguinho duro. Mas vencemos. Isso importa. Portugal ainda vive.

Não podemos nos dar o luxo de querer jogar bonito, apesar de termos gente qualificada para isso. Aliás, esse é um dos motivos para esse sufoco todo: querer jogar bonitinho. Portugal era o espelho fiel da soberba.

Historicamente, sempre que entrou no relvado com ares de superioridade, a selecção portuguesa quebrou as fuças. Foi assim nas Copas de 1986 e 2002, quando empacou na primeira fase. Também na Euro'96, Portugal tinha um senhor time, com Figo, Rui Costa, Paulo Sousa e João Pinto em grande fase. Bastou chegar aos quartos-de-final, com direito a uma goleada sobre a Alemanha, para assoberbar-se. Resultado: eliminação frente à República Tcheca, com direito a um golo antológico de Karel Poborsky.

Quando nos vimos humildes, fomos longe. Euro 2004, Copas de 1966 e 2006. São exemplos válidos. Já no sábado, contra a Dinamarca, jogou-se um futebol duro, sério, de inúmeras oportunidades mas nenhuma sorte. Ontem, ao contrário, a sorte foi ibérica. O golo de Pepe saiu cedo, o que deu tranquilidade, mas não o suficiente para soltar o time. Ao todo, foram quatro remates, apenas.

A decisão será em outubro. Temos a Hungria, mais uma vez, na Luz e Malta, em Guimarães. Além de vencer, e bem, vale secar a Suécia contra a Dinamarca. Aí serão mais dois jogos de sofrimento, na repescagem. No entanto, com o passaporte pronto para ser carimbado.

Portanto, às armas, Portugal! Até porque não está morto quem peleja.

domingo, 6 de setembro de 2009

O drama da seleção portuguesa


Portugal segue em seu calvário, na busca de uma vaga para a Copa da África. Faltando apenas três rodadas, ocupamos a quarta colocação, com 10 pontos somados, apenas. À frente, Dinamarca, com 17, Hungria, com 13 e Suécia, com 12.

Como o campeão tem vaga assegurada e o segundo disputará a repescagem, até dá. Temos a Hungria, duas vezes seguidas, e Malta, na última rodada. O problema é que a Suécia tem as babas Malta e Albânia, além da Dinamarca. Se vencermos nossos três confrontos, teremos que torcer para a Suécia perder um dos seus. Se empatar, o saldo de golos decidirá.

O que ocorre? Jogadores bons, Portugal tem. Todos eles atuam pelas principais equipes do mundo. Até o atual detentor do prêmio da FIFA, Cristiano Ronaldo, está no time. Talvez aí esteja o x da questão.



O Puto Maravilha, como é chamado, em Portugal, é o capitão do time de Carlos Queiroz. Mas não tem o perfil de líder. Nem nos times por onde passou ele o foi. Desde que a dupla Rui Costa/Figo pendurou os tamancos, a Selecção das Quinas carece dessa liderança, dentro de campo.

Pra completar, Simão não se firma, Nani é um enganador de marca maior e Hugo Almeida é uma espécie de Souza luso. Ainda assim, esperemos pela intervenção divina. Que Nossa Senhora de Fátima olhe por nós.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

E o mar segue revolto

Que Renê Simões não é mais o técnico da Portuguesa, todo mundo sabe. Que a sua saída, após apenas três jogos, deu-se por causa da entrada de pessoas armadas no balneário rubro-verde após o revés frente ao Vila Nova, também não é novidade alguma. Agora, o que realmente aconteceu é algo que dificilmente será elucidado.




Renê saiu atirando para tudo que é lado, embora não fosse ele o detentor das armas. A mídia, de um modo geral, deu um espaço poucas vezes vistos na história deste país a algo referente às coisas da Lusa - a última vez em que ocupamos tanto espaço foi por obra e (des)graça do argentino Javier Castrilli. O meia Edno garantiu não jogar mais pela Portuguesa, embora tenha feito ainda mais um jogo, contra o Fortaleza, fora de casa.

Como consequência, o STJD interditou, preventivamente, o Canindé, até o julgamento do caso. Ora essa! Como podem tomar uma decisão dessas baseados apenas nas entrevistas do ex-treinador? E a versão da Portuguesa, não deveria ter sido levada em consideração até o julgamento? Parece-me que a decisão foi tomada graças à repercussão.

Parece-me. Apenas isso, pois na Lusa tudo é muito nebuloso. A saída do treinador Estevam Soares, após a estreia no Paulista, até hoje não foi explicada. A ida do meia Athirson para o Cruzeiro também foi estranha. Dias antes, a cúpula lusitana havia acertado a renovação do vínculo do atleta, mas na hora de assinar o que se viu foi um diz-que-diz. Os dirigentes disseram que ele havia pedido mais. Athirson, por outro lado, afirmou que mudaram as condições. Resultado: foi embora e a torcida ficou a ver caravelas.

Voltando ao quiproquó da saída do bigodudo Renê, os jogadores, comandados pelo capitão Cesar Prates, "por livre e espontânea vontade" (da diretiva lusa, presumo) deram sua versão sobre o ocorrido. Ouvido no mesmo dia, Renê desconfiou da atitude. Agora, passados alguns dias, o ex-comandante da nau lusitana admite rever suas palavras e até ajudar o ex-clube no julgamento, ainda sem data marcada.

Tudo muito nebuloso, é claro. Enquanto isso, a incumbência de enxergar o melhor caminho no revolto mar da Série-B fica por conta do Capitão-mór Vagner Benazzi, aquele que não deveria sequer ter saído no ano passado. Que a bonança chegue à nossa nau.

Mais uma casa

Amigos leitores, vocês que me aturam neste espaço, podem fazê-lo também no futnet, no blog sitedalusa e, agora, num lugar bastante especial: no blog Copeiros.
Se já fiquei grato apenas pela citação, imaginem agora, com essa oportunidade?
Este sofrido coração luso está cada vez mais feliz.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Parabéns. Ele merece.

O time está de parabéns.

Tem uma camisa lindíssima.

Esteve na segunda divisão recentemente e subiu jogando bola. E bem.

É o mais popular da cidade.

Nunca ganhou a Libertadores, mas isso não diminui a paixão de sua torcida.

E começa a contagem regressiva do centenário, pois completa 99 anos.

Merece todos os aplausos por ser o que é.

Parabéns, NOROESTE!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

E não é que colou?

O tenista francês Richard Gasquet disputará o US Open. Ele foi suspenso, a princípio, por dois anos, por ter sido flagrado no exame antidoping com traços de cocaína no organismo, após ter abandonado o Masters de Miami, em março.


Como os exames toxicológicos capilares não comprovaram o consumo da droga, a Federação Internacional de Tênis (ITF, em inglês) resolveu diminuir o "gancho" para dois meses e meio.

Até aí, nada de anormal e extraordinário. O curioso foi o argumento usado na defesa do tenista: ele teria beijado, numa boate, uma mulher que acabara de consumir a droga. Eis a razão pela qual o entorpecente teria ido parar no organismo do atleta.




Ainda assim, ele não terá vida fácil, pois estreia contra o espanhol Rafael Nadal, atual número 3 do mundo.

Que os advogados dos clubes brasileiros não leiam isso...

A última do Da Lupa

O presidente da Portuguesa, Manuel da Lupa, insinuou durante entrevista coletiva, em São Paulo, que um auxiliar de um grande clube de São Paulo teria feito a cabeça do meia-atacante Edno, para que este fizesse "corpo mole" durante os jogos.

Não que eu duvide que isso tenha acontecido, mas mais uma vez o mandatário maior da Lusa vem a público para fazer acusações graves, mas sem provas contundentes, assim como foi no chamado "caso Jean", que acabou não prosseguindo devido à falta de provas.

Ora, se é para acusar, que o faça dando nomes, não levantando a lebre para ver o que acontece depois. O correto seria, neste caso, ficar quieto, pois o nome que vai ficando cada vez mais atolado é o da Portuguesa. Normalmente eu sou defensor do presidente, como já é notório por aqui, mas neste caso, suas atitudes têm sido deploráveis.

Assim, a imagem da Lusa, que já não está lá muito boa, fica ainda mais maculada. Todos passarão: os dirigentes e nós, torcedores. Quem fica é a Portuguesa. Agora, como fica, aí já é outra história.

Vergonha

Vergonha. É a melhor definição para explicar o que sinto após os deploráveis acontecimentos, no vestiário, após a derrota para o Vila Nova.

Nem quando perdemos em casa para o Paysandu, por 6 a 2, em 2006, eu senti isso. Nem quando fomos rebaixados, seja no Paulista ou no Brasileiro. Nessas ocasiões, senti tristeza ou raiva, o que é natural. E isso passa. Agora, a vergonha, essa custa passar.

Nada justifica os acontecimentos. Nem a fase ruim, nem o futebol pífio, tampouco a longa espera por títulos. Para isso, servem os apupos, os protestos. Mas tudo dentro do limite.



Não importa quem foram os (ir)responsáveis. Se é "torcedor" ou conselheiro. Vestiário é lugar para os jogadores e para a comissão técnica. E só.

As versões não batem. Uns dizem que as armas estiveram na cintura. Outros juram que elas - as armas - foram sacadas. A verdade é que, independentemente de terem ficados com as armas em punho, a situação foi gravíssima. Além do mais, o Renê Simões não teria pedido demissão apenas pela pressão. Menos ainda o Edno afirmaria que não joga mais pela Lusa se não acontecesse nada de mais grave.



Cabe à diretoria não atrapalhar as investigações, identificando os imbecis, que não terão seus respectivos nomes citados por mim, pois, pelo menos aqui, estes não encontrarão espaço. Cabe à polícia apurar os fatos e indiciar esses bandidos. E cabe à torcida apoiar a Portuguesa, seja quem for o treinador.

Aliás, o cargo já foi devidamente preenchido por quem de direito, Vagner Benazzi, que volta após 14 meses da equivocada demissão, que foi aprovada por aqueles que se julgam donos da Portuguesa, a "torcida" (des)organizada.

A vergonha passará, mais cedo ou mais tarde. Não por torcer pela Lusa. Muito pelo contrário, sempre tive orgulho de ser lusitano. O que eu tenho é vergonha de torcer pelo mesmo time dessa marginália.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Agradecimentos:

Quero agradecer, do fundo desse lusitano coração tão sofrido, aos amigos do blog "Copeiros", sobretudo Flaco Marques e Caio di Pacce, e ao grande Luiz Filho, do Blog do Torcedor da Portuguesa, do globoesporte.com, pelas palavras de apoio, carinho e pelas respectivas indicações.

De coração sofrido, porém feliz.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A turma do tremoço

Luís Felipe Scolari, quando treinou o Palmeiras, cunhou uma expressão que entrou para o folclore do futebol do Brasil: a "turma do amendoim". Ele chamava assim o pessoal que ficava nas sociais do Palestra Itália enchendo o saco a cada jogada infeliz dos comandados de Felipão. Até hoje, passados quase 10 anos desde a saída do treinador gaúcho, a imprensa usa sua expressão quando cita os alviverdes descontentes.

Ora muito bem! No Canindé também temos o "privilégio" de contar com nossa versão corneteira: a "turma do tremoço". Até porque amendoim é vendido em qualquer estádio por aí. Já os tremoços, não. Estes são nossos!


Assim como também é só nossa a lógica de mandar embora treinadores que façam bons trabalhos. Foi assim com o Benazzi, que estava em 14º lugar no Brasileirão do ano passado, mas vinha de dois acessos consecutivos e um Paulista que, apesar dos inúmeros contratempos, manteve-se sempre ao largo do descenso. Mário Sérgio também caiu, a despeito dos números favoráveis.

Agora foi a vez de Paulo Bonamigo pegar o boné, mesmo com números elogiosos à frente da Lusa: Ele dirigiu a Portuguesa em 23 jogos, conquistando 14 vitórias e quatro empates. Um aproveitamento que beira a casa de 65% dos pontos disputados. Bonamigo deixa o comando luso após ter perdido a vaga nas meias finais do Paulistão graças ao saldo de golos e na quarta colocação da disputadíssima série-B.

Em comum, as saídas dos treinadores têm o fato de terem ocorrido sob as bênçãos da turma do tremoço. De diferente, apenas as condições. Se o treinador olhar feio pras bancadas, terá assinado sua sentença de morte. Benazzi chamou, várias vezes, os corneteiros lusitanos pra resolverem as diferenças, ali, no braço. Mário Sérgio foi mais ponderado do que quando atirou, para o alto, para afugentar uma meia-dúzia de valentes torcedores, há muitos anos. Este episódio rendeu-lhe o apelido de "Rei do Gatilho". Não sei por que não o fez novamente. Não seria exagero, pois a turma do tremoço, que o chamava de Cisco Kid, nunca o engoliu no camando da equipe.

Já com Bonamigo foi diferente. Não se indispôs, uma vezinha só que fosse, com a "torcida". Ainda assim foi praticamente enxotado do Canindé pra fora. O motivo? Cometeu o sacrilégio de não sobrar na Segundona. E isso, segundo eles, é um pecado mortal. Acontece que ninguém está sobrando. Nem mesmo o grande Vasco, apontado como o maior bicho papão da competição, mas que permaneceu fora da zona de acesso durante boa parte dele, e nem por isso teve o trabalho posto à prova em São Januário.

Mas a "torcida" da Portuguesa é diferente das demais: não comparece, cobra demais sem dar nada em troca, julga ser suficiente ficarem duas, talvez três centenas de moleques mimados aporrinhando atrás da baliza. Acham ter o melhor time, disparado, quando não têm. Por isso, exigem o fino do futebol de um time que não tem qualidade para tal, num campeonato que não tem essa característica.



Agora a questão é saber quem será o próximo treinador. Já surgiram nomes como Geninho, Jorginho, Vagner Mancini e até Parreira. mas poderia ser qualquer um. Guus Hiddink, José Mourinho ou Roberval Davino. Quem quer que seja, na primeira derrota, pedirão sua cabeça. E os tremoços continuarão a ser uma especialidade nossa.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Todos dizem amém

O desmanche do ótimo time do Corínthians nada mais é que um sintoma do que se transformou o futebol brasileiro com o advento do que convencionou-se chamar de "Lei Pelé". O clube virou um mero trampolim, uma simples vitrine para os compradores. E estes nem precisam ser um grande clube de um grande centro. Um "Fenerbahçe da vida" leva. É só ter dinheiro.


E o pior é que tem. Todo mundo tem. O leque de opções é cada vez mais aberto para quem quiser ir embora. Desde as ligas milionárias da Europa, as mais tradicionais, até os campeonatos turbinados pelos petrodólares do Leste europeu ou do Oriente Médio.

Jogar no Al Gharafa, Al Ittihad, Al Qualquer Coisa é mais interessante do que num Palmeiras ou Flamengo, outrora sonhos doirados dos juvenis de qualquer canto do país.

Mas o quê acontece, afinal de contas? Se vemos o sintoma, as consequências são quase palpáveis. O elencos do clube está cada vez menos identificado com o seu próprio torcedor. E a Seleção, que é um patrimônio nacional, fica relegada a segundo plano. Em primeiro lugar a independência financeira, não importa onde. Depois, só depois, a seleção. E nem precisa ser a "Canarinho". Pode ser a Polonesa, a Croata, a Portuguesa...

Mas de quem é a culpa, ó raios? Difícil responder? Não, não é. Muito pelo contrário, é simples. Basta comparar: o Real Madrid receberá, limpinho e desossado, 142 milhões de euros por temporada, pelos direitos de transmissão dos seus jogos. Isso dá pouco mais que 1,15 bilhão de reais injetados nos cofres merengues nos próximos três anos. Fora o que entrará através da venda de produtos licenciados relacionados ao clube e aos seus jogadores, além da receita gerada nos amistosos de pré temporada. Já por aqui a Rede Globo, que detém os direitos de nove entre 10 torneios esportivos, paga uma miséria, se comparado ao que recebe pelas cotas vendidas aos anunciantes.

Outro obstáculo - e dos grandes - é a própria CBF, que insiste em não adequar essa coisa que chamamos de calendário ao do Velho Continente. Como resultado, nossos clubes, que viraram meros pedintes, dependentes da "bondade" de quem (mal e porcamente) lhes der algum, não podem sequer sonhar em disputar os lucrativos torneios da pré-época europeia ou partidas na Ásia, que renderiam generosos montantes para seus combalidos cofres. Vejam a Copa da Paz, por exemplo: o Boca Jrs e a LDU estiveram lá. O sulafricano Kaizer Chiefs enfrentou - e venceu - o Manchester City, outro dia. Exceto o Boca, que é gigantesco, devemos ter por aqui uns 30 times mais tradicionais que a LDU e o Chiefs.

Assim, a única forma de montar os elencos é locando o alma dos clubes aos empresários, que cedem seus jogadores, pescados ainda na base dos próprios clubes, em troca de visibilidade para vendê-los, em qualquer tempo e a qualquer custo, restando ao clube, como fez o Corínthians, apenas abaixar a cabeça e dizer amém.