quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Para que servem as federações?

IMPASSE Jogadores cumprimentam torcedores antes do jogo que não
houve. Equipes peitaram a Federação (Cléber Yamaguchi/AGIF)
 

Que o clássico Atletiba, pelo Campeonato Paranaense, não aconteceu é sabido por toda a malta. O motivo, também já levado a público, foi a decisão dos clubes de, sem acerto quanto à cessão dos direitos de transmissão de seus jogos com qualquer emissora de TV, transmitirem pelos seus canais oficiais no Youtube e nas respectivas fanpages no Facebook, o que levou a Federação Paranaense de Futebol a proibir o início a partida já com os times em campo e após a execução dos hinos Nacional e do estado do Paraná.

Seria uma revolução na forma de não só fazer, mas de vender, no melhor sentido da palavra, o futebol brasileiro, o que, evidentemente, mexe com o chamado status quo vigente no país.

Contextualizando:

A Lei Pelé, no artigo 42, versa que “o direito de transmissão e retransmissão por qualquer meio do espetáculo desportivo pertence à entidade de prática desportiva, ou seja, os clubes, que podem negociar com quem e da forma que quiserem.” Quem diz é o Professor Dr. João Chiminazzo, especialista em Direito Desportivo. “Uma vez que os clubes, no caso Atlético e Coritiba, não cederam para ninguém, poderiam ter tocado a empreitada de eles mesmos fazerem a transmissão”, segue.
A última posição da Federação, depois de tanto diz-que-diz, é que os repórteres que trabalhariam na partida não estariam credenciados. Conversa mole, pois eles tinham crachás de identificação e estavam já no gramado, lugar onde só tem acesso quem faz parte do espetáculo e, portanto, não se entra sem autorização, o que torna a tese estranha, para dizer o mínimo. Outra hipótese é a de que o quarto árbitro, Rafael Traci, teria dito que “equipe de Youtube não é a detentora do campeonato” e que a ordem de impedir o início do jogo partiu do presidente da Federação, Hélio Cury.

Tudo isso momentos antes do jogo, como já foi dito aqui.

Qualquer que tenha sido o motivo, a Federação Paranaense de Futebol agiu de forma arbitrária. Interferiu numa seara que não era sua e desrespeitou a lei para defender interesses que não eram os dos seus filiados. Inclusive, o ocorrido levanta uma questão que já deveria ser feita há muito tempo: para que serve as federações?

Ou, se preferir, a quem servem as federações?

Os clubes são reféns do que é decidido nas salas das entidades que organizam as competições. Em 2012, o Guarani teve que abrir mão de jogar no seu Brinco de Ouro na decisão contra o fortíssimo Santos de Neymar e Ganso. Em 2015, quando o Flamengo e Fluminense resolveram peitar a Ferj, arbitragens no mínimo estranhas e decisões discutíveis nos tribunais facilitaram o acesso de Vasco e Botafogo à decisão do estadual.

Quando os clubes tiveram a chance de tirar da CBF toda a escumalha que está lá desde Ricardo Teixeira, elegeram para vice-presidente da Região Sudeste o Coronel Nunes, presidente da Federação Paraense há mais de 25 anos e aliado de Marco Polo Del Nero, então afastado da presidência da CBF. Foi, como também é sabido, uma manobra para que, caso Del Nero renunciasse, o comando do futebol nacional seguisse nas mãos do grupelho, já que o estatuto da entidade previa que o vice-presidente mais velho assumiria na tal vacância do cargo.

Uma solução seria a criação de uma liga nacional, o que deixaria para os clubes a realização das competições e, para a CBF, ficaria o que fosse referente à Seleção Brasileira, o que acontece nos principais países europeus. Mas isso é inviável a partir do momento em que os próprios clubes olham apenas para o próprio umbigo e, do co-irmão, querem apenas as vísceras.

A Primeira Liga é um bom exemplo disso. Enfraquecida logo no berço pelo desentendimento dos clubes para definirem cotas de participação e pela falta de aval da CBF, que contrariou mais uma vez a Lei Pelé, e sem o dinheiro que esperava receber da TV pelos direitos da competição – que colocaria em campo os principais clubes do Rio de Janeiro (exceto Vasco e Botafogo, fiéis à Ferj), Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – a Primeira Liga acertou os ponteiros e divulgou tudo: clubes, tabela, forma de competição.

Eis que a semana da estreia chegou e, faltando três dias apenas para que começasse o torneio que representaria a modernidade do futebol nacional, a CBF do Coronel Nunes resolveu vetar sua realização, se baseando, entre outras justificativas, no Estatuto do Torcedor e no descumprimento do intervalo mínimo entre as partidas a serem disputadas pelos jogadores.

O mesmo Estatuto do Torcedor foi rasgado quando a Portuguesa foi rebaixada via tapetão para a Série B do Campeonato Brasileiro. Aqui, não faço juízo de valor, mas destaco que uma lei federal, o Estatuto do Torcedor, ficou subordinada a uma regulamentação específica, o Regulamento Geral de Competições da CBF. Quanto às tais 72 horas que devem haver entre uma parida e outra, não é difícil de encontrar casos (aos montes) em que os jogadores voltaram a campo antes do prazo mínimo estabelecido, e pelo qual os próprios sindicatos de jogadores, entidades igualmente questionáveis, não dão a mínima.

Mandando onde não deveriam, as federações fazem o lhes convêm e respeitam as leis somente quando estas lhes interessam. Em via de regra, falta coragem aos clubes, o que, a priori, não é o caso dos dirigentes de Atlético Paranaense e Coritiba.

A priori.

Os principais distintivos brasileiros, estes sim com poder de barganhar, precisam parar de olhar para seu próprio umbigo e se unirem pelo bem maior, que é o próprio futebol, e darem uma banana à CBF e às obsoletas e parasitárias federações estaduais, mas aí é pedir demais aos “modernos” cartolas brasileiros. Tudo normal para o “Padrão-Brasil”, o país projetado para dar errado.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O dia em que morri



Foi no dia 15 ou 16 de dezembro de 2013 – não estou certo quanto à data exata – que começou a morrer o torcedor de futebol que nasceu em junho de 1985, num Portuguesa 2; Marília 0, pelo Paulistão daquele ano. Os sintomas, porém, começaram a aparecer pouco mais de uma semana antes.

9 de dezembro, segunda-feira. Festa do troféu Mesa Redonda, da TV Gazeta. Eu era assessor de imprensa da Lusa e estava com uma taça de vinho branco na mão quando a bomba estourou: o meia Héverton, na véspera, teria sido escalado irregularmente na última rodada do Brasileirão. É desnecessário falar dos acontecimentos que se seguiram até o primeiro “julgamento” na sede do infame stjd (espero que o editor mantenha em caixa baixa), na Rua da Ajuda, Rio de Janeiro.

Naquele maldito dezembro, dormi mal em todas as noites. Trabalhei mais na sala do departamento jurídico da Lusa do que na minha própria mesa. Presenciei todas as trapalhadas cometidas pelos homens da Lusa. Uma por uma. E não forma poucas. Falei mais com o Júlio Gomes, colega de profissão e de infortúnio luso, do que com a minha própria mãe naquele período, tentando achar uma saída para o clube.

Não achamos.

Mesmo que tivéssemos encontrado uma luz que não fosse a do trem vindo no sentido contrário, o fado já estava escrito: a execução sumária travestida de julgamento teve de tudo: torcida do tricolor carioca (não escrevo o nome daquele time nas minhas tribunas) na porta do tribunaleco, com faixas, com bandeiras, mas sem dignidade; voto do relator escrito na véspera devidamente guardado na gaveta, à espera do momento certo para atingir o coração de um clube que foi morto porque cometeu o crime de querer lutar contra o Negócio futebol, o business. Morreu porque quis ser grande.

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Comecei a morrer como torcedor quando o massacre de 9 a 0 foi consumado no patético e hediondo “julgamento” da citação do Pequeno Príncipe; quando vi hienas de verde e grená rindo sobre o cadáver ainda quente, como se fosse parte do seu instinto animal. Não, não é. Aquilo era uma mostra do pior que pode haver naquela gente. É esse tipo de pessoa que brada feito louca quando um pênalti legítimo é marcado contra si, mas regozija-se a cada lance ou armação ou tapetão a favor do seu time.

Eles, como tantos outros, sob outras camisas, são os mesmos que, com este comportamento deplorável, fiam as maracutaias existentes em todos os níveis sociais. O “levar um por fora”, o “quanto é que eu levo nisso”, é inerente a esse tipo de gente.

Tornei-me, então, um ser completamente isento de qualquer cor ou sentimento positivo relativo ao futebol brasileiro. Tal qual o Homem de Pedra do Trio Parada Dura (ouçam), decidi que ninguém mais pisaria em mim. Torço sim! Mas só quando o Benfica joga, quando A Portuguesa é tocada antes de cada partida da Seleção de Portugal. E contra o time da CBF.

Já a Lusa segue definhando num espiral infinito, uma queda em parafuso que não para. Foi num 8 de dezembro que o sistema achou o motivo torpe para nos matar. 8 também era a camisa que o Rei Enéas, o gênio esquecido, usava quando acordava para destroçar adversário por adversário dentro de campo. No dia 27 de dezembro de 2013, a morte do craque da camisa 8 completou 25 anos. No mesmo dia, os doutos donos da lei da ópera bufa e farsante da Rua da Ajuda deram o tiro de misericórdia.

E eu morri.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Eduardo Baptista e o imediatismo tupiniquim

DOIS JOGOS são suficientes para que Eduardo Baptista
 seja questionado (Ale Cabral/Agif/Lancepress!/LANCE!)
O Palmeiras terminou a temporada de 2016 por cima da carne seca. Campeão brasileiro com sobras, elenco estrelado e aporte financeiro como poucas vezes foi visto no país. Aí o técnico Cuca cumpriu uma promessa feita à família e saiu para, como está na moda, um ano sabático.

Com um mercado de treinadores com pouquíssimas opções, Eduardo Baptista foi o escolhido pela diretoria verde para tocar o barco, ou melhor, o transatlântico palmeirense. Filho do também treinador Nelsinho Baptista, Eduardo vem referenciado por bons trabalho por Sport e Ponte Preta, mas sem passagens notáveis por alguma das grandes equipes do Brasil.

Começo de trabalho é sempre complicado, sobretudo quando a pré-temporada é espremida e a preparação é feita durante os jogos. Sob a gestão de Baptista, que já tinha sua capacidade de lidar com elencos recheados questionada pela imprensa antes mesmo de se assinar com o clube, os resultados da época de Cuca não se repetiram e o futebol, que já não era vistoso, piorou. Foi o suficiente, claro, para que as cornetas soassem nos lados da Academia, pedindo a cabeça do treineiro.  
É preciso a gente verde ter mais parcimônia na análise. Pelo menos, mais lucidez do que a usada para somar quatro e um. Diferentemente do que acontece quando um técnico chega durante a temporada para render outro, é normal que ele já comece a implementar suas ideias de jogo em vez de promover pequenos ajustes no time que herdou. 
    
E ajustes a serem feitos não são poucos. Primeiro porque o elenco Palmeirense recebeu reforços de peso. Depois, e principalmente, Baptista não conta, de saída, com quatro titulares indiscutíveis e de importância inegável no time campeão do ano passado: Yerri Mina, Moisés, Tchê Tchê e Gabriel Jesus. 

Ora, que treinador já pegaria um time com baixas como esta e, de largada, atingiria o nível do ano anterior? Deixem que eu respondo: nenhum. Por dois motivos básicos: as mudanças no plantel em si e o início da temporada. Inexplicavelmente, a exemplar gestão alviverde conseguiu a proeza de preencher as 28 vagas para a primeira fase do Paulistão e deixou o principal reforço, o colombiano Borja, de fora. 

O futebol brasileiro, dirigido por diretores amadores e apoiado por considerável parcela da mídia, é imediatista. Vive exaltando os quase 30 anos de Sir Alex Ferguson à frente do Manchester United ao lembrar que nos primeiros anos ele não ganhou nada com os Red Devils, mas na primeira sequência ruim de qualquer treinador aqui, já falamos em demissão.

Voltando ao tema.

O Palmeiras, como os outros times que disputaram o campeonato nacional, começou a se preparar em campo no início do ano. Boa parte dos times do interior paulista que disputam o estadual já estava treinando há pelo menos 20 dias, o que, em curto prazo, faz uma diferença enorme. Depois que acontece um equilíbrio na parte física, quem for melhor tecnicamente normalmente se sobressai, mas isso demanda tempo e paciência para Eduardo Baptista, ou qualquer outro treinador, trabalhar.

Coisa que parte da imprensa e da torcida não tem tido, e nem costuma ter.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sobre embalagem, estatísticas e biquíni

COMEÇO RUIM Rogério demonstra desânimo na
lateral do campo (Marcello Zambrana/AGIF)
Após o jogo de estreia de Rogério Ceni como treinador do São Paulo, quando o Tricolor foi atropelado pelo Audax por 4 a 2, o ex-camisa 01 e agora técnico amenizou o resultado ao destacar o número de finalizações e a posse de bola da sua equipe. O São Paulo teve, segundo dados publicados pelo Footstats, 55% de posse de bola, além de finalizar 27 vezes, 10 delas no gol defendido pelo goleiro Felipe Alves.

O discurso é bonito e se encaixa perfeitamente no que tem acontecido com frequência para embasar sistemas de jogo e atuações: números, números e números. Mas dá para justificar apoiado somente nesses dados? Sim, todos fazem isso, mas Rogério representa, ou deveria representar, o novo. Tem dois auxiliares europeus, vendeu a ideia de ter realizado treinos diferentes em todos os dias na pré-temporada realizada nos Estado Unidos, passou o ano estudando na Europa absorvendo conceitos de técnicos como Carlos Ancelotti. Garantia de sucesso?

Nenhuma.   

Para começar, ele não levou em consideração se a posse de bola, que nem foi tão superior assim, foi objetiva ou vertical. Se, como gostam de falar os novos analistas, rompeu as linhas adversárias, se foi mais que uma simples e infrutífera troca de passes no campo de defesa, de lateral a lateral, passando antes pelos dois zagueiros ou então pelo volante, que retorna a bola para o centro da zaga antes de ela ser passada para o lateral. Ou quantas dessas finalizações foram realmente chances claras de gol?

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Vitor Guedes, jornalista com J em caixa alta, citou na sua ótima Caneladas do Vitão, no jornal Agora, a célebre frase do economista Roberto Campos  sobre estatísticas: "o que revelam é interessante, mas o que ocultam é essencial". E o que querem dizer os números trazidos por Ceni para a coletiva?

Um grande nada. 

Rogério quis inovar, colocando Rodrigo Caio, seu beque disparadamente mais técnico, à frente dos zagueiros Douglas e Maicon, desmontando o único setor do time que não comprometeu no medonha temporada de 2016. No fim, com o placar adverso, apelou para a velha tática da absoluta falta de tática (também conhecida como desespero) do centroavante enfiado no meio dos zagueiros e fosse o que Deus quisesse.

Pouco para quem chegou com a expectativa de ser o diferente.

Certamente, um dos livros lidos pelo agora treineiro tricolor é o Guardiola Confidencial, do espanhol Marti Perarnau. Nele, o autor fala o quanto Guardiola detestava quando o time do Bayern passava a bola de pé em pé, horizontalmente, no campo de defesa. E que a posse de bola somente pela posse de bola não serve para nada. "É uma merda", diz Pep em diversas passagens.

Não adianta acharem que bastam alguns dias para que Rogério apresente algo novo. Ou que a presença de europeus, coisa que nós da imprensa já vamos gorjeando como a única maneira de modernizar o que acontece nos gramados daqui, transforme do dia para a noite o futebol brasileiro. 

Não é.

A excelência (termo que Guardiola também abomina) do trabalho depende de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo. Sem isso, o projeto, se é que há, vira passageiro da própria sorte. Basta saber se ele será, como o genial catalão, um agente da contracultura futebolística brasileira e terá tempo para desenvolver seu trabalho. Sem contar que não quer dizer absolutamente nada o fato de ele ter sido um grande atleta, o dono do vestiário por anos, ter vestido a camisa tricolor por mais de 20 anos. Muda-se a função, as responsabilidades são outras, as decisões a serem tomadas também, e a história escrita é apenas isso: história.  

Entre tanta mediocridade e falta de projetos alicerçados nos fatores mencionados, algo que tanto atrasa o futebol tupiniquim, espera-se que Rogério Ceni seja mais do que uma embalagem diferente. Afinal, de "m1to" do gol para burro do banco de reservas, basta apenas um passo. Ou uma sucessão de resultados ruins.       

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sobre o Sporting, a CBF e o respeito à História

22 ou 18? Esta é a pergunta que a crônica portuguesa fez nos últimos dias sobre o número de títulos nacionais do Sporting. Isso acontece porque o presidente leonino, Bruno de Carvalho, uma espécie de Eurico Miranda de bigodes sem grife — e sem bigode também –, resolveu dar um chapéu na história do futebol de Portugal e aumentar o palmarés sportinguista na base da “auto-canetada”.

Explico:

O futebol português era dividido em torneios distritais. A partir de 1922, passou a existir o Campeonato de Portugal, que era disputado entre os melhores dos distritais do Porto e de Lisboa, em formato eliminatório, e foi abrangendo equipes de outras regiões com o passar dos anos (como aconteceu no Brasil com o Torneio-Rio S. Paulo). Foi disputado 17 vezes, entre 1922 e 1938.

Vamos ao contexto histórico e o que forçou a criação, na época, de um campeonato maior:

Nas Eliminatórias para a Copa de 1934, Portugal levou uma sapecada da Espanha. Não foi uma derrota qualquer: foi um sonoro 9 a 0 para os vizinhos de Península Ibéria, num momento em que havia o plano governamental de fazer do futebol o esporte nacional e o regime de António Oliveira Salazar queria ganhar politicamente com isso – como a Itália de Mussolini já fazia –, ainda mais depois do excelente papel na primeira competição internacional em que participou, os Jogos olímpicos de Paris, em 1928. Na ocasião, Portugal ficou nas quartas-de-final e viu duas seleções que enfrentou na preparação conquistarem medalhas: Argentina (empate) e Itália (vitória portuguesa por 4 a 0), ouro e bronze, respectivamente. [NE: Estado Novo e Esporte é um livro, do historiador Mauricio Drumond, que explica muito bem como o Estado Novo em Portugal e no Brasil usou o esporte como promoção política, entre 1930 e 1945, durante os governos de António Oliveira Salazar e Getúlio Vargas].

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Então, entre as temporadas 34/35 e 37/38, foram disputados quatro campeonatos de caráter experimental, pois havia a necessidade de saber se seria economicamente viável organizar um certame que durasse o ano todo e contemplasse equipes do país inteiro. Nesse ínterim, o Benfica venceu três vezes e o Porto foi campeão em uma ocasião. Nascia, a partir de 1938/39, o Campeonato Português.

Também, a partir de 1939, começou a ser disputada a Taça de Portugal, torneio que substituiria, nos mesmos moldes, o Campeonato de Portugal e que existe até os dias de hoje. Vale aqui destacar que o Sporting pleiteava que os quatro troféus que queria porque queria incluir na sua já boa lista de títulos foram conquistados nesta época, desconsiderando então os quatro torneios feitos como laboratório até a implementação definitiva do campeonato nacional com todos os times disputando partidas entre si, como acontece hoje.

Nas 17 edições em que foi disputado o Campeonato de Portugal (precursor da Taça de Portugal, não do Campeonato Português), o Sporting e o Porto venceram quatro, Belenenses e Benfica, três, e Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense, um cada, o que alteraria a galeria de campeões nacionais, com o Benfica mantendo suas 35 conquistas (perde os três ganhos entre 34/35 e 37/38, mas compensa com os três campeonatos), o Porto saltando de 27 para 30, o Sporting passando a ter os tais 22 e, de tabela, Os Belenenses subiriam de um para quatro e, ao lado do Boavista, campeão em 2000, surgiriam Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense, com um título cada.

Fica difícil encontrar um motivo que seja para justificar a desarrazoada tentativa do presidente Bruno de Carvalho de fazer saltar o número de glórias de seu clube. Historicamente, seria uma farsa não só considerar o Campeonato de Portugal como antecessor do Campeonato Português, como fazer sumir as quatro edições que serviram para pavimentar o que hoje é a Primeira Liga. Forma e conceito impedem que isso seja levado adiante, uma vez que a Taça de Portugal, esta sim a sucessora natural e legítima do primeiro torneio lusitano de dimensões nacionais, passou a ser disputada quando o Campeonato deixou de existir.

A prova inequívoca de que a tentativa nada mais é que um delírio isolado do presidente Carvalho é que, em 2015, o próprio Sporting Club de Portugal licenciou o seu Almanaque do Leão, escrito pelo jornalista e português Rui Miguel Tovar, e nele constam 18 títulos nacionais, não os tais 22. O próprio Tovar se recusou a revisar o número para cima e o Sporting, ao “corrigir” o Almanaque, não contou com a assinatura do jornalista.

Onde eu quero chegar com isso?

Ora, quero fazer o caminho que Cabral fez, mas aportar diretamente no Rio de Janeiro, mais precisamente em 2010, que é quando a CBF jogou Taça Brasil, Robertão e Brasileirão num saco só e saiu distribuindo troféus e estrelas como se não houvesse uma história a ser respeitada (vide infográfico ao pé deste artigo).

De acordo com a decisão da CBF, que foi baseada no trabalho dos historiadores Odir Cunha e José Carlos Peres (ligados ao Santos Futebol Clube), Taça Brasil, Roberto Gomes Pedrosa e Campeonato Brasileiro são uma coisa só.

Não são.

O embrião do Brasileirão foi o Torneio Rio-S. Paulo, que, como o próprio nome sugere, era disputado por equipes destes dois estados. A primeira edição aconteceu em 1933, mas não houve regularidade graças à transição para o futebol profissional (na mesma época, para se ter uma ideia, registros apontam dois campeões paulistas em alguns anos por haver dois campeonatos, o da Associação Paulista de Esporte Atléticos (APEA), onde jogavam as equipes ainda amadoras, e a Liga Paulista de Futebol (LPF), esta com os times que aderiram ao profissionalismo).

Voltando ao tema.

É só na década de 1950 que o Rio-S. Paulo é disputado com regularidade, apenas com equipes dos dois estados até 1966. De 1967 a 1970, é chamado definitivamente de Torneio Roberto Gomes Pedrosa (nome oficial do certame a partir de 1954) e admite a entrada gradativa de times de outros estados: primeiro Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, depois Bahia e Pernambuco. A partir de 1971, passa a ser o Campeonato Brasileiro que conhecemos hoje.

Em 1959, em sistema eliminatório e disputada pelos campeões estaduais, surgiu a Taça Brasil. Ela foi criada pelo nada saudoso João Havelange para substituir o Campeonato Brasileiro de Seleções e para indicar o representante nacional na Taça Libertadores da América, criada um ano antes.

A única diferença entre o que aconteceu em Portugal e no Brasil é o sentido de onde saiu o pedido. Lá, foi fruto do desvario do presidente de um clube que não ganha nada de relevante há quase 20 anos, ao passo que aqui, embora tenha surgido a partir do levantamento de um par de historiadores (mesmo sob encomenda de um dos clubes a serem beneficiados, o Santos), a medida é de cima para baixo. Ora, se a CBF resolve, do nada, distribuir dez títulos nacionais entre Santos (5), Palmeiras (2), Bahia, Botafogo e Cruzeiro (1), os clubes vão recusar?

É evidente que não.

Caso quisesse fazer justiça e respeitar seu próprio passado, a entidade deveria reconhecer apenas os campeonatos disputados entre 1967 e 1970, quando Palmeiras (2), Santos e o Tricolor do Rio venceram, em vez de tomar como verdade inconteste os apontamentos de Cunha e Peres.

São rotos e não se sustentariam caso o futebol brasileiro fosse sério.

Durante uma entrevista dada à equipe esportiva da Rádio Trianon, da qual faço parte, na tarde de 18 de dezembro do ano passado, o jornalista palmeirense (ou, como ele mesmo diz, palmeirense jornalista) Mauro Beting deixou claro que, por justiça e respeito à História, a Taça Brasil tem mais relação com a Copa do Brasil, não com o Campeonato Brasileiro. No entanto, ainda segundo ele, como a CBF, que ele comparou a um cartório, determinou, apenas cumpra-se. Friamente falando, é isso mesmo.

No fim das contas, a tal unificação serviu para que o Clube dos 13 fosse dinamitado no momento em que os clubes buscavam criar uma liga independente e era preciso, para o alto comando cebeefeano, rachar o núcleo da sua organização mais forte e sedimentada. Quando não pode fazê-lo com títulos para ganhar o apoio que precisava, tirou da cartola um estádio e desenterrou uma pendenga histórica, contrariando uma decisão já morta, enterrada e julgada pelo pleno do STF: a Copa União. Assim, puxou para debaixo de sua asa o Corinthians e o Flamengo, apenas os dois clubes mais populares do Brasil. De quebra, por causa do diabo de um troféu feio que dói, mas que representava a honraria fajuta de ser o “primeiro pentacampeão nacional”, disputada a socos, pontapés e liminares entre São Paulo e Flamengo, implodiu de vez o já citado Clube dos 13, nascido a partir da incompetência da própria CBF em organizar um campeonato, justamente o de 1987. Ironicamente, com a unificação, o primeiro pentacampeão brasileiro é o Santos, que venceu a Taça Brasil ininterruptamente entre 1961 e 1965. Ao menos por enquanto.

No país do cinco que virou nove, do dois que hoje é oito e do seis que é seis mesmo, mas que tem gente que enxerga sete porque o departamento comercial da emissora assim exige, os clubes não têm culpa (exceto no último caso). Em Portugal, a Federação Portuguesa de Futebol deixou claro que o Campeonato de Portugal é o pai da Taça de Portugal, não do Campeonato Português. Aqui, a CBF é pai, mãe e tutora da bagunça que, por interesse, ela mesma geriu, pariu e alimentou. Um monstrengo que mostra que, no Brasil, como dizia o saudoso Joelmir Beting, até o passado é imprevisível.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Pai, quanto é quatro mais um?


– Pai, quanto é quatro é mais um?
– É cinco, filho.
– E o que significa ênea?
– Ênea é o Palmeiras, filho! ENEAAAAA!
– Como assim, pai? O que significa?
– Sabe que eu não sei? Espera um pouco. Ênea? Hummm… Deixa-me ver – o pai abre o Google para pesquisar. Ah, tá aqui: ênea vem do grego e significa nove.
– É grego tipo o arroz à grega que a mãe faz?
– Não, não é.
– Então é tipo churrasco grego que vendem do outro lado da rua…
– Filho, não tem nada a ver com comida. É a origem da palavra. Ó, tá escrito aqui – aponta pra tela do celular. Mas por que você está perguntando isso?
– Pai, eu ouvi na TV que o último título brasileiro do Palmeiras foi em 94. O senhor falou que era… quando é oito, como fala?
– Espera aí, que vou ver e te falo – e desliza o dedo na tela do celular para voltar à página de busca. É octa, filho. Achei. Oito vezes é octacampeão.
– Então, tipo, o senhor comemorou dizendo que era octacampeão?
– Não, falei que era tetra porque o Palmeiras tinha sido campeão em 1972, 73 e 1993. E ganhamos em cima do Corinthians! O Rivaldo, que tinha jogado neles, arrebentou com o jogo. O Branco deve sonhar com ele até hoje.

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– Então o Brasil também é eneacampeão – insistiu o menino, pouco interessado nos detalhes da decisão de 1994.
– Não, é penta!
– Mas por quê?
– Porque ganhou cinco vezes.
– Mas aquele narrador lá que ficava falando “gol da Alemanha”…
– O Galvão Bueno, filho!
– Isso! ele mesmo. O Galvão Bueno, tipo, não tava abraçando um cara lá e gritando “é tetra”?
– Onde você viu isso, filho?
– Eu vi no Youtube, pai.
– Ah, tá. Estava porque aquela era a quarta Copa que o Brasil ganhou. O Brasil foi tetra em 94 e ganhou mais um depois, em 2002. E o “cara lá” que ele abraçava é o Pelé!
– Ué. O Palmeiras também era tetra e ganhou só mais um também. Como é ênea?
– …
– Pai?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Como passar vergonha em 11 passos

Quer queimar seu filme perante o país inteiro e causar uma vergonha eterna à sua torcida? É fácil. O Internacional ensina:

1) Contrate um treinador que irá tentar demitir por não gostar do seu estilo, mas que os resultados o manterão no cargo;

BODE NA SALA Diretoria colorada tentava se livrar de Argel
desde o Brasileiro de 2015. Excelente campanha e título no
Gaúcho seguraram o treinador (Feliz Zucco/Agência RBS)
2) Livre-se de seu capitão e maior ídolo da torcida, mesmo que nem ele ou a torcida queiram isso;

3) Monte um elenco com milhares de atacantes, meia dúzia de gringos de qualidade técnica duvidosa e um antigo ídolo do maior rival completamente fora de forma, mas com salário astronômico e contrato longo;

4) Demita o treinador e contrate outro que tenha identificação com o clube, mesmo que não tenha resultados que banquem a aposta;

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Que horas são?

5) Mande-o embora menos de dois meses depois;

6) Aposte na velha receita do técnico-ultrapassado-que-sempre-volta-para-apagar-incêndio;

VOU, MAS EU VOLTO Milésima apresentação de Celso Roth no
 Internacional (Tomás Hammer/Globo Esporte.com)
 
7) Mande-o embora a três rodadas do fim do campeonato e praticamente afundado na zona do rebaixamento;

8) Para evitar a queda, apele pro tapetão;

9) Reclame publicamente se seu jogo for adiado devido a um acidente que vitimou praticamente um time todo e causou comoção mundial;
9.1) Compare a morte de mais de 70 pessoas ligadas à mesma modalidade esportiva à sua briga, que você pode chamar de "nossa tragédia";

"TRAGÉDIA PARTICULAR" Fernando Carvalho pisa
 na dignidade colorada (Tomás Hammer)
10) Na maior cara de pau, use a tragédia para tentar melar a última rodada e o quase inevitável rebaixamento;

11) Use seu elenco para isso.    
CEREJA DO BOLO Jogadores do Inter manifestam desejo de não mais
atuarem pelo Brasileirão, mas não falam sobre a posição final na tabela

Nada será como antes

por Leandro Marçal*

Sinto o mundo e o meu país se desmanchando e escorrendo pelo ralo. É como se entrássemos em um buraco negro sem fim ou tentássemos erguer as mãos em busca de socorro, enquanto afundamos em uma areia movediça criada por nós mesmos em nossa vaidade e ganância sem fim. Ganância essa que, na tentativa de diminuir custos, levou vidas, sonhos, destinos. Destroçou famílias e deu uma voadora na alma de quem não mora em Marte.

Inaceitável, revoltante. Nada será como antes. Não seremos as mesmas pessoas depois disso tudo. Sinto-me jogado em um liquidificador e ainda não processei isso tudo. Quem já passou pela terrível experiência da morte de pessoas próximas sabe bem a transformação sofrida na alma nesses momentos de necessária reinvenção interna. Dali em diante não seremos os mesmos, é impossível.

Sinto isso quando passo em frente à casa do meu queridíssimo amigo, sr. Ayrton, ao ver aquela minha foto de quimono ao lado do tio Manoel, quando os olhos de minha mãe se enchem feito água borbulhando ao contar histórias de meu vô Edezio ou me recordo dos últimos dias da tia Nice em cima de uma cama. Não fomos os mesmos depois dessas partidas.

Foi no fatídico 11 de setembro de 2001 que passei a entender melhor o quanto a vida é banal, frágil como meus ralos ralos de cabelo, muitas vezes nas mãos de quem não conhecemos e pouco se importam com nossa existência. Naquele dia chuvoso em que, ao passar da esquina, minha mãe resolveu que voltaríamos para casa e não haveria aula, entendi o quanto a violência e a maldade são traços inacreditáveis do ser humano (escrevi sobre isso aqui). 

Mudei depois daquele trauma. Como sinto que não serei o mesmo depois desta semana pesada. Tão pesado e denso, nos fez lembrar o quanto a vida é triste, Sizenando (leia aqui).

A tão necessária e ignorada empatia não me deixa, ainda, passar batido por qualquer matéria, entrevista ou conteúdo referente aos atletas, comissão, dirigentes e jornalistas que nos deixaram, me sinto entorpecido. Já não faz sentido a última rodada ou a final pendente no calendário brasileiro. Só nos bastam as necessárias e lindas homenagens, bem como as demonstrações de mau-caratismo dos que se aproveitam de tão delicado momento para um país, para os humanos. Este 2016 precisa acabar logo, se é que deveria ter começado. Ano cruel, vilão, sádico. Em todos os campos e segmentos.

Nada mais será como antes: a cidade, o clube, o futebol, as viagens, as famílias, os torcedores, a cor verde, a Sul-americana, a Colômbia, o Brasil, o 29 de novembro, a mídia esportiva, o mundo esportivo, o riso, o choro, o Atlético (ah, o Atlético Nacional...). Eu. Nós.

Nada será como antes.

*Leandro Marçal é jornalista e tem 25 anos

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Que horas são?

IMPLACÁVEL Pequeno torcedor lamenta a perda de seus heróis
 na triste arquibancada da Arena Condá (Nelson Almeida/AFP)
 

Acordei com o choro da minha filha, que está com o ouvido inflamado. Fui lavar o rosto antes de pegar o antibiótico. No celular, notificações de mensagens chegaram. Uma, duas, 10, 50. Cinquenta? Depois eu vejo. Tenho que dar o remédio da pequena. Voltei, já eram mais de 150. De várias pessoas e grupos. Todos os de futebol. O que aconteceu?

Abri. Não, deve ser brincadeira. No outro, a mesma coisa. E no outro, no outro, em todos. “Você conhecia os jornalistas?” “Viram o que aconteceu com o avião da Chapecoense?” “Que tragédia!” É um pesadelo. É um engano. Ligo o rádio, a TV, vou ao Twitter. Não, não é um engano. É a equipe da Fox. Deus do céu! O Mario Sérgio estava no voo. Puta que pariu! É verdade mesmo. Procuro por informações. O Danilo também morreu? Não, foi dado como morto, mas está sendo operado. A Teleantioquia deu que ele faleceu. Não, a mãe deu entrevista garantindo que ele está vivo. A Caracol também diz que morreu. Está ou não está? A imprensa, que deveria informar, está perdida. Desinforma. Prestação de serviço que não presta. Desserviço.

Olho para o relógio, mas segundos depois não me lembro de que horas são. Preciso de um café. Está garoando, mas preciso respirar. Saio mesmo assim. O tempo passa lento, o dia passa arrastado, o ar é pesado, denso. Que horas são? Olho para o pulso, mas deixei o relógio em cima da mesa.

Na mente o jogo de domingo. Bruno Rangel, Gil, Ananias, Caio Júnior. Os nomes não param de girar em volta da minha cabeça. Olho o celular e as informações continuam confusas. Danilo. Sobreviveu? Não? E o Follmann? Ah, amputou uma perna. Ele morreu também. Espera! Não, não morreu. Cacete! Jornalismo de merda esse que não informa, que não checa. Que tem pressa. Precisa sair antes do outro. Mas tá errado, chefe! Tanto faz, depois arruma.

Busco outra vez pela tela do celular. Mais mensagens. Muitas. Viu que o Tiaguinho ficou sabendo esses dias que seria pai? Recebo o áudio do Mauro Beting. Mario Sérgio estava decidido a deixar a Fox pela voz embargada do ex-companheiro de tela e de luta. Porra, o Mário! Sinto cortar o coração.

Aparecem os caça-clicks. “Veja as fotos do acidente”. “Veja a galeria de pessoas que fizeram selfies segundos antes da morte”. Malditos! Procuro abstrair, mas não consigo. Olho em volta e tudo se move lentamente. A rua parece um grande cemitério em movimento. Sem cor. O cheiro é de dor. É de morte.

Recebo pelo celular a lista com os nomes dos passageiros. Vejo amigos de amigos. Gente que vi no domingo, pela TV. Que não via há tempos. Com quem não falava há mais de um ano. Resolvo ligar para confortar quem também perdeu amigos, esses mais próximos que eu. Quanta pretensão! É impossível, mas vou mesmo assim. Falo com um, dois, três. Produtores, repórteres, amigos. Não pergunto como estão. Seria estúpido e desnecessário.

Volto para casa e vejo as horas. De novo me esqueço, segundos depois. Viu que o seu Benfica quer emprestar jogadores? Que bacana! Solidariedade sem gesto concreto é como abraçar árvore. O PSG vai doar não sei quantos milhões. Sério? Não, é mentira. Quem será o vagabundo que fica plantando isso?

Homenagens. Tottenham, Real Madrid, De Gea, Messi, Figo, o mundo. Liverpool."You'll Never Walk Alone". O Torino e o Manchester United também. Eles também sabem o que é perder um time de uma vez, o que é ver heróis e sonhos se espatifando após um voo infeliz. Minuto de silêncio nos clubes. Coletivas canceladas. Treinos suspensos. O dia acontece não acontecendo. Não deveria acontecer. O Vasco anuncia o novo técnico. Idiotas!

O distintivo da Chape está em todo lugar. Em todos os clubes. Até o Corinthians veste verde hoje. A Portuguesa, quebrada e falida, oferece ajuda. É bonito. É triste. Vejo o menino sentado, sozinho, na arquibancada da Arena Condá. É triste. O Atlético Nacional abre mão da disputa da final e pede o reconhecimento do adversário campeão. Amigos choram. Busco o relógio outra vez. Mero costume, cacoete. Não sei que horas são, mas não importa. Parece que o mundo está subindo uma ladeira com todo seu peso nas costas. Pesado. Sofrido. Lento. Estúpido.

Percebo que não almocei. Que mal bebi água. Minha filha dorme. Olho pela janela e já está escuro.

Que horas são?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Amor, treinadores, mitos e outras drogas

por Leandro Marçal *

SEM ESCALA Do campo para o banco, o "m1to" assume a equipe em meio
à mais grave crise ética da história do clube (Igor Amorim/SPFCnet)
É difícil definir o acerto de Rogério Ceni como novo treinador do São Paulo. Não entendi nem absorvi direito esse anúncio, como ainda não compreendo esse 2016 maluco.

Nem é pelo fato de ser uma incerteza, por ser bizarra uma demissão a duas rodadas do fim de mais um campeonato medíocre do tricolor, ou por qualquer outra das intermináveis pataquadas que o clube têm se acostumado a se meter nos últimos (lamentáveis) anos de sua História.

Complicado é entender até que ponto a cartada é um tiro no escuro, tiro no pé, visão de futuro ou tentativa de blindar a diretoria.

Ok, ao menos a última alternativa é unanimidade entre os leitores de bom senso, acredito eu. Colocar o maior ídolo das últimas décadas no banco de reservas servirá para, em ano de eleições, ter um forte argumento caso haja mais um ano de fracassos deprimentes: “fizemos tudo o possível, até a camisa do treinador foi a 01, paciência”. Ponto para eles.

Entender o que leva um ícone com aura tão gigantesca como Rogério Ceni a aceitar seu ex-(único) clube para um desafio tão ingrato é o que me intriga. Será que ele pensa que não corre o risco de ser covarde e precocemente demitido como acontece por essas bandas em caso de má campanha? Não há receio de manchar tão longa história pelo tricolor em troca de uma massagem de ego dessas? Seria ele tão bom como técnico, a ponto de tirar o time dessa inércia, fato que mal conseguiu ajudar nos últimos anos em campo?

Sinceramente, ainda não sei.

Vejo essa aposta como semelhante àquela última atitude para salvar um casamento à beira do fim. Quando ele ou ela tenta uma cartada final, dessas que pode despertar um pouco daquele amor escondido no coração do cônjuge que mais parece um desconhecido.

A relação torcida-time não anda das melhores há algum tempo, hoje beira o descaso. Era nítido que cedo ou tarde Rogério ocuparia o lugar de treinador no São Paulo, mas por que tão cedo, por que logo de cara no clube em que fez história?

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Admiro sua coragem, confesso. Coragem por colocar em risco tudo o que fez, já que a última impressão é a que fica. Assim como suas defesas viraram DEFESAS e seus frangos eram FRANGOS com o passar dos anos, o agora TÉCNICO necessita estar preparado para DERROTAS, COBRANÇAS e um PESO do tamanho do mundo na nova função.

Como sempre deveria ser – e nunca o é –, precisa-se dar tempo, ter paciência e não pré-julgar o trabalho do ex-goleiro antes da hora.

Alguém acredita que cartolas farão isso, mesmo com o ídolo do clube? Eu não.

*Leandro Marçal é um jornalista de 25 anos, torce pelo Tricolor paulista e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor, embora esteja um tanto zangado com o seu Tricolor. E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco. Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Rogério Ceni e o populismo tricolor


Populismo. De acordo com o dicionário Michaelis, trata-se da "prática política que se baseia em angariar a simpatia das classes menos favorecidas e de menor poder aquisitivo pregando a defesa de seus interesses, geralmente através de ações paternalistas e assistencialistas." Trocando em miúdos, é uma prática usada para angariar apoio popular com medidas fáceis, mas não necessariamente eficazes.

Trazendo para o futebol, é jogar para a torcida.

A VOLTA DO QUE NÃO FOI O M1to chega para comandar o Tricolor
 sem experiência nenhuma na função. Será que basta? (Marcos Ribolli)

E jogar para a torcida é o que a diretoria do outrora clube-modelo São Paulo faz ao anunciar a contratação de Rogério Ceni para o cargo de treinador do time principal.

O ex-goleiro, que pendurou as luvas há pouco menos de um ano, pode até ser o grande ídolo da história recente sãopaulina, tendo conquistado tudo o que poderia com a camisa 1 (e depois 01) do clube, mas para ser treinador não basta ser o goleiro com mais gols, o jogador com mais jogos, vitórias e partidas usando a braçadeira de capitão. O buraco é mais embaixo.

Pode dar certo? 

Poder até pode, mas não será pelos méritos de uma diretoria que traçou um planejamento. Convenhamos, planejar não tem sido o forte dos cardeais do clube da Vila Sônia. 

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É impossível negar a identificação dele com o São Paulo, mas isso não basta. Pode conhecer o vestiário como ninguém, mas como é o Rogério Ceni treinador? 

A medida parece mais uma jogada para a torcida, ainda mais quando 2017 será ano eleitoral e o clube nunca esteve tão rachado. No ano passado, fizeram algo parecido ao repatriar El Dio5 Dirego Lugano, mais pelo que jogou no ano da graça de 2005 do que pelo restante da vitoriosa, mas decadente, carreira, como se, com a retirada do agora técnico dos campos, preencher a lacuna deixada pelo único líder incontestável fosse a melhor das soluções.

Não era. O problema era técnico. E não o técnico. Como agora também não é.  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O resgate brasileiro no 3 a 0 do Mineirão

ALÔ, MAMÃE Avisa que eu tô quase na Copa (F Bezerra/EFE)
Uma Argentina sem foco, sem nada; um Brasil coeso, firme, moralizado e dando espetáculo. Assim foi o retorno do Brasil ao Mineirão, palco do maior vexame esportivo do país. O 3 a 0 para a avassaladora equipe de Tite ficou de graça.

A Albiceleste até começou bem, com mais posse de bola, sem dar espaços, embora criasse pouco. Na verdade, foi apenas uma chance de gol, num chute de Biglia, já na metade da primeira etapa, que obrigou a Alisson a intervir brilhantemente. Aí tomou o golaço do Phillipe Coutinho, melhor homem em campo. E desmoronou.

O segundo gol brasileiro, após passe de mágica de Gabriel Jesus para a conclusão perfeita de Neymar, foi a pá de cal sobre nuestros hermanos, no último lance antes do recreio. Perdido, Patón Bauza voltou com Aguero no lugar do meia Enzo Perez. Perdeu na marcação, no desafogo, a qualidade na saída de bola, na criação e ganhou mais um peso morto no ataque.

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Se o Brasil, pelo tamanho do adversário, conseguiu sua vitória mais convincente, a Argentina foi ainda pior do que esteve nos dois jogos sem Messi, o sofrido e sofrível empate com a Venezuela e a derrota em casa para o Paraguai, quando foi plenamente dominada no Monumental de Nuñes. 

Messi, Di Maria e Higuain, principalmente no segundo tempo, estiveram irreconhecíveis. Paulinho, Renato Augusto e Marcelo voaram. Tite foi Tite e está resgatando o gosto de ver os jogos da Seleção, coisa que não acontecia há pelo menos 10 anos. Bauza, por sua vez, foi o nada que tem sido desde que assumiu o time. 

A ALEGRIA VOLTOU Com Tite no comando,
Seleção devolve ao brasileiro o tesão de torcer