quinta-feira, 9 de março de 2017

Sobre retranca, postura, apito e linha burra

O DONO DA BOLA Neymar só não fez chover na
 histórica goleada sobre o PSG (Getty Images)
Passadas quase 24 horas da hecatombe blaugrana pelo jogo de volta das oitavas de final da Liga dos Campeões, creio que não caibam em uma discussão os aspectos táticos vistos no Camp Nou envolvendo Barcelona e PSG. De notável mesmo, só o fato de o Barça ter abdicado dos laterais e,com três zagueiros e dois meias abertos nos flancos, ter matado um adversário que resolveu jogar com 10 atrás da linha de bola.


Parece maluquice, mas a gigante vantagem de quatro gols fez mal ao Paris Saint Germain. Isso porque Unai Emery armou o time para se defender o tempo todo e achou que seria o suficiente para não tomar impensáveis cinco gols. Tomou seis. A tática funcionou bem até os 42 minutos do segundo tempo, quando a avalanche azul e grená caiu por cima do time de Paris e um encapetado Neymar resolveu que ainda dava.

No entanto, o placar de 6 a 1 esconde tudo o que aconteceu no jogo: um Barcelona pouco inspirado no primeiro tempo, com Suárez isolado e perdido entre os zagueiros, Messi com poucas ideias e Neymar mais preocupado em reclamar do que em jogar bola. O placar de 2 a 0, muito dilatado pelo que o Barça produziu, foi um castigo merecido para quem resolveu não atacar.

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O segundo tempo começou e a mão da arbitragem resolveu aparecer. O pênalti marcado em Neymar chega a ser indecente. Meunier caiu e foi o brasileiro que buscou o contato, causou o choque. Ele tropeçou, não foi atingido. Porém, o gol de Cavani, que em condições normais teria dado a classificação aos visitantes, diminui o impacto desse lance, pois o Barcelona poderia ter marcado em outros ataques, uma vez que o gol no fim da primeira etapa foi o combustível para um reinício aceso de jogo. Caso o placar do primeiro tempo fosse a vitória mínima, alcançado logo no segundo minuto de jogo, a ausência do segundo gol no intervalo poderia representar um entrave (mais um) à missão quase impossível de reverter a vantagem da representação parisiense.

A partir daí é que a epopeia se desenha e, qualquer que seja a gravura, terá que levar um apito nela. Di Maria, melhor em campo na ida e que ficou no banco por não estar inteiro fisicamente, entrou no lugar do quase sempre apagado Lucas e teve a chance de matar o jogo, mas foi ele que quase morreu ao ser derrubado por trás por Mascherano (depois do jogo, ele admitiu ter feito pênalti no compatriota), no lance que poderia e deveria definir a partida. Na pior das hipóteses para o PSG, o penal poderia ser desperdiçado, mas haveria um jogador a mais em campo com a evidente expulsão do volante/zagueiro barcelonista, um dos esteios da equipe.

Quando um até então irritadiço, mas efetivo, Neymar achou o golaço de falta, faltavam três minutos (e três gols) para o fim do jogo. Naquele momento, se fosse um time maior, mais esperto e mais equilibrado emocionalmente, o PSG teria amarrado a partida até os 300 minutos, se fosse necessário. Aí entrou em colapso quando o árbitro inventou outro pênalti, este de Marquinhos em Suárez. O relógio já marcava 46 minutos e ninguém teve a decência de cercar o nefasto árbitro ou segurar a bola no ataque, ou mesmo “cozinhar” o jogo até o fim.

Aí veio linha burra. A um minuto do fim, com todos os jogadores na área, é inadmissível Sergi Roberto ou outro jogador qualquer receber a bola sozinho, ainda mais com uma zaga que custou o que custou.

O Barcelona, que aceitou a eliminação que parecia clara até o quarto gol, passou porque teve ânimo, porque Neymar deixou de frescura e resolveu jogar (muita) bola, mas também porque o árbitro alemão fez uma das piores e mais tendenciosas arbitragens de que se tem notícia em jogos deste tamanho, mas não dá para eximir um time que, em oito minutos, jogou fora por covardia o que construiu durante mais de 170 minutos. E que fez a linha burra mais burra da história do futebol.

MILAGRE de Santo Apito e marcação frouxa possibilitam
 a festa final (Albert Gea / Reuters)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Causa e efeito

SHOW DE HORRORES A coletiva post-mortem da Comissão Técnica após o 7 a 1
foi mais vexatória que o próprio jogo (imagem: Eduardo Knapp/Folhapress)
No livro Gol da Alemanha (Editora Grande Área, 2014), o espanhol Axel Torres e o alemão André Schön fazem um levantamento completo para entender os caminhos percorridos na reestruturação do futebol alemão. A ideia dos autores é mostrar quando e porque começaram e como foram feiras as mudanças que fizeram os germânicos deixarem para trás o pragmatismo do futebol força para se tornarem referências na produção de jovens talentos para abastecerem os clubes da Bundesliga e, por conseguinte, o Nationalef.

O Brasil sempre foi tido como o país do futebol, mesmo antes da conquista da primeira das cinco copas. O nome Seleção Brasileira era sinônimo de alegria e beleza na prática do esporte. É o que o falecido escritor uruguaio Eduardo Galeano classificava como poesia no seu excelente e indispensável Futebol ao Sol e à Sombra. A cada ciclo, jogadores de excelência surgiam e não era raro um jogador de 30 anos ser tratado como veterano, pois a reposição era rica e constante. Também não era incomum um jogador acima da média ser descartado pelos conjuntos que disputaram mundiais, como Ivair, Enéas, Neto (em 1990), Evair, Djalminha e Alex. A ideia de que seria possível formar três times competitivos simultaneamente não era nenhum disparate. Vou escusar-me de tratar do livro em si, pois quero mesmo é traçar um comparativo com o futebol brasileiro do pós-7 a 1 e quem quiser fazê-lo pode ler o livro. Antes, porém, destaco que, desde 1954, quando foram campeões pela primeira vez, os alemães não chegaram ao menos às semifinais dos mundiais em 1962, 1978, 1994 e 1998. Quando somaram dois mundiais seguidos caindo nas quartas-de-finais, o sinal vermelho foi ligado e a necessidade de mudança ficou clara, mesmo que, no ínterim entre as copas de 94 e 98, a Alemanha tenha sido campeã europeia em 1996.

Comparando com o mesmo período apontado acima, o Brasil não esteve entre os quatro melhores em 1954, 1966, 1982, 1986, 1990, 2006 e 2010. Ao contrário da Alemanha, porém, o futebol bonito, sobretudo o dos anos 1980, com Telê Santana no comando e jogadores como Zico, Júnior, Falcão, Cerezo, Éder, Sócrates, Luizinho e Careca a desfilar seu talento nos campos de todo o mundo, além da já citada reposição, serviam como credencial para seguir com o trabalho que era feito.

Por muitos anos, vendeu-se a ideia de que o Campeonato Brasileiro era o mais forte do mundo por ter, de saída, pelo menos três times em condições de serem campeões. Ledo engano. O Brasileirão é equilibrado, mas isso não significa necessariamente que seja bom. Não é. É nivelado por baixo, bem por baixo, e dá para contar nos dedos os jogos memoráveis das últimas edições. De bate-pronto, só me lembro do histórico Santos 4 x 5 Flamengo de 2011 e do 2 a 2 entre Atlético Mineiro e Flamengo no ano passado, mas mais pelos cinco minutos finais do que por tudo o que foi construído durante os outros oitenta e poucos minutos.

Pouco para quem a fama que tem (ou tinha) o ludopédio tupiniquim.

Se os alemães resolveram, segundo Torres e Schön, tocar a própria ferida e mudar tudo, como fizeram, o Brasil segue andando para a frente enquanto olha o retrovisor. Eles chegaram à conclusão de que, para se ter uma seleção forte, era preciso que os clubes formassem jogadores de boa qualidade técnica. Então todos os clubes se comprometeram a implementar o mesmo sistema de jogo desde a base até o profissional, com método, trabalho e tempo para os frutos serem colhidos. Por aqui, os clubes menores arrendam as categorias de base a empresários e, no primeiro sinal de talento, perdem um jogador que na verdade nunca foi seu, embora exista a obrigação de haver um registro na federação, o que, na prática, não representa nada.

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Como os times pequenos, antigos fornecedores de talento para os grandes, agonizam, a saída encontrada foi, em vez de reestruturar o futebol daqui, buscar atletas em outros centros. Por pior que esteja, a economia brasileira ainda possibilita que os clubes contratem jogadores vindos de diversos países da América do Sul ou que repatrie nomes de peso que não encontrem lugares nos melhores mercados europeus. Nas décadas de 1970 e 1980, destaques de clubes dos países vizinhos eram trazidos para cá, ao passo que, hoje, é praticamente impossível haver um único emblema brasileiro sem jogadores estrangeiros, e são poucos os que agregam valor técnico aos campeonatos disputados.

Acha exagero meu? Apontem a última temporada europeia de destaque do meia Diego, hoje no Flamengo, antes de voltar para cá. Robinho, um dos melhores jogadores do último Brasileirão quando vestiu a camisa do Atlético Mineiro, estava apagado no pior Milan dos últimos anos. Elias, que chegou à Seleção Brasileira quando brilhou no Corinthians, não conseguiu se firmar no Atlético de Madrid e no Sporting, este disputando uma liga de segundo ou terceiro escalão no Velho Continente, a Portuguesa. E nenhum deles veio ganhando pouco.
O exemplo mais recente de que o 7 a 1 não serviu para absolutamente nada foi a demissão de Rogério Micale da Seleção Sub-20, que conseguiu não se classificar para o mundial da categoria ao terminar em quinto lugar o hexagonal final do Sul-Americano do Equador, que reservou quatro vagas, sendo que uma delas ficou com a Venezuela. Micale assumiu o comando no lugar de Alexandre Gallo, demitido após o fraco desempenho mostrado na competição continental de 2015, mas que se classificou com a última vaga. Faltavam 20 dias para a estreia no Mundial e, ainda assim o Brasil apresentou um futebol vistoso, embora tenha perdido a final para a Sérvia.

Era um respiro de bom futebol no pós-7 a 1.

Como Dunga caiu e Tite não quis ser o treinador na Olimpíada, como queria a perdida direção da CBF, foi com Rogério Micale que o Brasil, que começou claudicante, conquistou a medalha de ouro. Vale salientar que, na competição, o único dos candidatos ao pódio que não teve problemas com liberação de jogadores foi o Brasil. Tatá Martino demitiu-se da Argentina por não ter apoio da AFA para montar a equipe que viria ao Brasil; Rui Jorge, selecionador português, teve que convocar 52 jogadores para conseguir ter 17 nomes – seriam 18, mas um foi cortado 40 minutos antes da divulgação da lista pela não liberação do seu clube -, sendo somente 11 dos quais os que seriam convocados caso não houvessem problemas com as suas liberações. A Alemanha, que terminou com a prata e dominou boa parte da decisão, veio com uma equipe alternativa também.

E, convenhamos, o futebol olímpico não passa de um campeonato sub-23 banhado a ouro e que não conta, por razões políticas e de marketing, com a chancela da FIFA. É este o título que o Brasil conquistou.

Poderíamos alegar que o cenário não é o mais catastrófico e desalentador possível, pois mesmo com a goleada sofrida no malfadado Mineiraço do dia 8 de julho de 2014, a Seleção chegou às semifinais de uma Copa do Mundo, o que não aconteceu com o grupo recheado de craques de 2006 e com o bom time de 2010, mas o futebol apresentado nos gramados brasileiros foi o mais questionável possível: venceu a Croácia com a ajuda da arbitragem; empatou com o México tendo passado sustos na defesa; goleou Camarões por 4 a 1, é verdade, mas os africanos estavam desfalcados dos dois principais jogadores (Song e Eto’o) e já estavam eliminados, e ainda criaram problemas quando chegaram ao gol de empate.

Nas oitavas, foi bem demais até tomar o gol de empate do Chile e quase caiu no fim da prorrogação, quando Pinilla acertou o travessão de Julio César. A melhor apresentação brasileira foi nas quartas-de-final, quando jogou com o coração e venceu a excelente e superior Colômbia. A partir daí todo o desequilíbrio técnico, tático e emocional da equipe foi canalizado e flagrante na vexatória derrota para a Alemanha. O 3 a 0 para a Holanda, na disputa do terceiro lugar, foi apenas o impacto de um time completamente desmoralizado e que não priorizou os treinamentos durante a competição.

Micale caiu porque não classificou a Seleção ao Mundial da Coreia do Sul, mesmo não tendo à disposição um grupo de jogadores qualificado. E não o tinha porque simplesmente não há um método de trabalho nos clubes que possa garantir a geração de talentos em grande escala. Os times de base nos grandes clubes são montados com o intuito de: a) vencer campeonatos; b) vender jogadores; c) distribuir cargos de acordo com a conveniência política. Isso sem contar que, quando não são vendidos, os jovens mais talentoso queimam etapas e chegam crus ao time de cima. São mimados e tratados como joias quando não passam de jogadores de potencial, mas que precisam ser lapidados ainda.

Voltando ao cenário de 2014, a coletiva seguinte à humilhante e histórica derrota - quando Parreira e Felipão não admitiram em momento algum o trabalho mequetrefe e obsoleto, com um esquema de jogo manjado e um homem de área parado entre os zagueiros (coisa que nenhuma outra seleção de ponta mantinha), e que teve como ápice a leitura de uma tal Dona Lúcia, imediatamente inserida no folclore futebolístico nacional e lida pelo coordenador técnico Carlos Alberto Parreira, o mesmo que declarou que a CBF era “o Brasil que deu certo” e que a seleção brasileira “estava com uma mão na taça” antes do início da Copa - poderia ser vista à época como uma resposta de quem ainda estava, absorto, sob efeito de uma espécie de sedativo moral.

Não era.

Para a Alemanha, o 7 a 1 foi o resultado da transformação de quem percebeu que estava parado no tempo, admitiu suas limitações e explorou o melhor dos melhores nomes que tinha à disposição; para o Brasil, não foi nada mais que um apagão de oito minutos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Para que servem as federações?

IMPASSE Jogadores cumprimentam torcedores antes do jogo que não
houve. Equipes peitaram a Federação (Cléber Yamaguchi/AGIF)
 

Que o clássico Atletiba, pelo Campeonato Paranaense, não aconteceu é sabido por toda a malta. O motivo, também já levado a público, foi a decisão dos clubes de, sem acerto quanto à cessão dos direitos de transmissão de seus jogos com qualquer emissora de TV, transmitirem pelos seus canais oficiais no Youtube e nas respectivas fanpages no Facebook, o que levou a Federação Paranaense de Futebol a proibir o início a partida já com os times em campo e após a execução dos hinos Nacional e do estado do Paraná.

Seria uma revolução na forma de não só fazer, mas de vender, no melhor sentido da palavra, o futebol brasileiro, o que, evidentemente, mexe com o chamado status quo vigente no país.

Contextualizando:

A Lei Pelé, no artigo 42, versa que “o direito de transmissão e retransmissão por qualquer meio do espetáculo desportivo pertence à entidade de prática desportiva, ou seja, os clubes, que podem negociar com quem e da forma que quiserem.” Quem diz é o Professor Dr. João Chiminazzo, especialista em Direito Desportivo. “Uma vez que os clubes, no caso Atlético e Coritiba, não cederam para ninguém, poderiam ter tocado a empreitada de eles mesmos fazerem a transmissão”, segue.
A última posição da Federação, depois de tanto diz-que-diz, é que os repórteres que trabalhariam na partida não estariam credenciados. Conversa mole, pois eles tinham crachás de identificação e estavam já no gramado, lugar onde só tem acesso quem faz parte do espetáculo e, portanto, não se entra sem autorização, o que torna a tese estranha, para dizer o mínimo. Outra hipótese é a de que o quarto árbitro, Rafael Traci, teria dito que “equipe de Youtube não é a detentora do campeonato” e que a ordem de impedir o início do jogo partiu do presidente da Federação, Hélio Cury.

Tudo isso momentos antes do jogo, como já foi dito aqui.

Qualquer que tenha sido o motivo, a Federação Paranaense de Futebol agiu de forma arbitrária. Interferiu numa seara que não era sua e desrespeitou a lei para defender interesses que não eram os dos seus filiados. Inclusive, o ocorrido levanta uma questão que já deveria ser feita há muito tempo: para que serve as federações?

Ou, se preferir, a quem servem as federações?

Os clubes são reféns do que é decidido nas salas das entidades que organizam as competições. Em 2012, o Guarani teve que abrir mão de jogar no seu Brinco de Ouro na decisão contra o fortíssimo Santos de Neymar e Ganso. Em 2015, quando o Flamengo e Fluminense resolveram peitar a Ferj, arbitragens no mínimo estranhas e decisões discutíveis nos tribunais facilitaram o acesso de Vasco e Botafogo à decisão do estadual.

Quando os clubes tiveram a chance de tirar da CBF toda a escumalha que está lá desde Ricardo Teixeira, elegeram para vice-presidente da Região Sudeste o Coronel Nunes, presidente da Federação Paraense há mais de 25 anos e aliado de Marco Polo Del Nero, então afastado da presidência da CBF. Foi, como também é sabido, uma manobra para que, caso Del Nero renunciasse, o comando do futebol nacional seguisse nas mãos do grupelho, já que o estatuto da entidade previa que o vice-presidente mais velho assumiria na tal vacância do cargo.

Uma solução seria a criação de uma liga nacional, o que deixaria para os clubes a realização das competições e, para a CBF, ficaria o que fosse referente à Seleção Brasileira, o que acontece nos principais países europeus. Mas isso é inviável a partir do momento em que os próprios clubes olham apenas para o próprio umbigo e, do co-irmão, querem apenas as vísceras.

A Primeira Liga é um bom exemplo disso. Enfraquecida logo no berço pelo desentendimento dos clubes para definirem cotas de participação e pela falta de aval da CBF, que contrariou mais uma vez a Lei Pelé, e sem o dinheiro que esperava receber da TV pelos direitos da competição – que colocaria em campo os principais clubes do Rio de Janeiro (exceto Vasco e Botafogo, fiéis à Ferj), Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – a Primeira Liga acertou os ponteiros e divulgou tudo: clubes, tabela, forma de competição.

Eis que a semana da estreia chegou e, faltando três dias apenas para que começasse o torneio que representaria a modernidade do futebol nacional, a CBF do Coronel Nunes resolveu vetar sua realização, se baseando, entre outras justificativas, no Estatuto do Torcedor e no descumprimento do intervalo mínimo entre as partidas a serem disputadas pelos jogadores.

O mesmo Estatuto do Torcedor foi rasgado quando a Portuguesa foi rebaixada via tapetão para a Série B do Campeonato Brasileiro. Aqui, não faço juízo de valor, mas destaco que uma lei federal, o Estatuto do Torcedor, ficou subordinada a uma regulamentação específica, o Regulamento Geral de Competições da CBF. Quanto às tais 72 horas que devem haver entre uma parida e outra, não é difícil de encontrar casos (aos montes) em que os jogadores voltaram a campo antes do prazo mínimo estabelecido, e pelo qual os próprios sindicatos de jogadores, entidades igualmente questionáveis, não dão a mínima.

Mandando onde não deveriam, as federações fazem o lhes convêm e respeitam as leis somente quando estas lhes interessam. Em via de regra, falta coragem aos clubes, o que, a priori, não é o caso dos dirigentes de Atlético Paranaense e Coritiba.

A priori.

Os principais distintivos brasileiros, estes sim com poder de barganhar, precisam parar de olhar para seu próprio umbigo e se unirem pelo bem maior, que é o próprio futebol, e darem uma banana à CBF e às obsoletas e parasitárias federações estaduais, mas aí é pedir demais aos “modernos” cartolas brasileiros. Tudo normal para o “Padrão-Brasil”, o país projetado para dar errado.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O dia em que morri



Foi no dia 15 ou 16 de dezembro de 2013 – não estou certo quanto à data exata – que começou a morrer o torcedor de futebol que nasceu em junho de 1985, num Portuguesa 2; Marília 0, pelo Paulistão daquele ano. Os sintomas, porém, começaram a aparecer pouco mais de uma semana antes.

9 de dezembro, segunda-feira. Festa do troféu Mesa Redonda, da TV Gazeta. Eu era assessor de imprensa da Lusa e estava com uma taça de vinho branco na mão quando a bomba estourou: o meia Héverton, na véspera, teria sido escalado irregularmente na última rodada do Brasileirão. É desnecessário falar dos acontecimentos que se seguiram até o primeiro “julgamento” na sede do infame stjd (espero que o editor mantenha em caixa baixa), na Rua da Ajuda, Rio de Janeiro.

Naquele maldito dezembro, dormi mal em todas as noites. Trabalhei mais na sala do departamento jurídico da Lusa do que na minha própria mesa. Presenciei todas as trapalhadas cometidas pelos homens da Lusa. Uma por uma. E não forma poucas. Falei mais com o Júlio Gomes, colega de profissão e de infortúnio luso, do que com a minha própria mãe naquele período, tentando achar uma saída para o clube.

Não achamos.

Mesmo que tivéssemos encontrado uma luz que não fosse a do trem vindo no sentido contrário, o fado já estava escrito: a execução sumária travestida de julgamento teve de tudo: torcida do tricolor carioca (não escrevo o nome daquele time nas minhas tribunas) na porta do tribunaleco, com faixas, com bandeiras, mas sem dignidade; voto do relator escrito na véspera devidamente guardado na gaveta, à espera do momento certo para atingir o coração de um clube que foi morto porque cometeu o crime de querer lutar contra o Negócio futebol, o business. Morreu porque quis ser grande.

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Comecei a morrer como torcedor quando o massacre de 9 a 0 foi consumado no patético e hediondo “julgamento” da citação do Pequeno Príncipe; quando vi hienas de verde e grená rindo sobre o cadáver ainda quente, como se fosse parte do seu instinto animal. Não, não é. Aquilo era uma mostra do pior que pode haver naquela gente. É esse tipo de pessoa que brada feito louca quando um pênalti legítimo é marcado contra si, mas regozija-se a cada lance ou armação ou tapetão a favor do seu time.

Eles, como tantos outros, sob outras camisas, são os mesmos que, com este comportamento deplorável, fiam as maracutaias existentes em todos os níveis sociais. O “levar um por fora”, o “quanto é que eu levo nisso”, é inerente a esse tipo de gente.

Tornei-me, então, um ser completamente isento de qualquer cor ou sentimento positivo relativo ao futebol brasileiro. Tal qual o Homem de Pedra do Trio Parada Dura (ouçam), decidi que ninguém mais pisaria em mim. Torço sim! Mas só quando o Benfica joga, quando A Portuguesa é tocada antes de cada partida da Seleção de Portugal. E contra o time da CBF.

Já a Lusa segue definhando num espiral infinito, uma queda em parafuso que não para. Foi num 8 de dezembro que o sistema achou o motivo torpe para nos matar. 8 também era a camisa que o Rei Enéas, o gênio esquecido, usava quando acordava para destroçar adversário por adversário dentro de campo. No dia 27 de dezembro de 2013, a morte do craque da camisa 8 completou 25 anos. No mesmo dia, os doutos donos da lei da ópera bufa e farsante da Rua da Ajuda deram o tiro de misericórdia.

E eu morri.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Eduardo Baptista e o imediatismo tupiniquim

DOIS JOGOS são suficientes para que Eduardo Baptista
 seja questionado (Ale Cabral/Agif/Lancepress!/LANCE!)
O Palmeiras terminou a temporada de 2016 por cima da carne seca. Campeão brasileiro com sobras, elenco estrelado e aporte financeiro como poucas vezes foi visto no país. Aí o técnico Cuca cumpriu uma promessa feita à família e saiu para, como está na moda, um ano sabático.

Com um mercado de treinadores com pouquíssimas opções, Eduardo Baptista foi o escolhido pela diretoria verde para tocar o barco, ou melhor, o transatlântico palmeirense. Filho do também treinador Nelsinho Baptista, Eduardo vem referenciado por bons trabalho por Sport e Ponte Preta, mas sem passagens notáveis por alguma das grandes equipes do Brasil.

Começo de trabalho é sempre complicado, sobretudo quando a pré-temporada é espremida e a preparação é feita durante os jogos. Sob a gestão de Baptista, que já tinha sua capacidade de lidar com elencos recheados questionada pela imprensa antes mesmo de se assinar com o clube, os resultados da época de Cuca não se repetiram e o futebol, que já não era vistoso, piorou. Foi o suficiente, claro, para que as cornetas soassem nos lados da Academia, pedindo a cabeça do treineiro.  
É preciso a gente verde ter mais parcimônia na análise. Pelo menos, mais lucidez do que a usada para somar quatro e um. Diferentemente do que acontece quando um técnico chega durante a temporada para render outro, é normal que ele já comece a implementar suas ideias de jogo em vez de promover pequenos ajustes no time que herdou. 
    
E ajustes a serem feitos não são poucos. Primeiro porque o elenco Palmeirense recebeu reforços de peso. Depois, e principalmente, Baptista não conta, de saída, com quatro titulares indiscutíveis e de importância inegável no time campeão do ano passado: Yerri Mina, Moisés, Tchê Tchê e Gabriel Jesus. 

Ora, que treinador já pegaria um time com baixas como esta e, de largada, atingiria o nível do ano anterior? Deixem que eu respondo: nenhum. Por dois motivos básicos: as mudanças no plantel em si e o início da temporada. Inexplicavelmente, a exemplar gestão alviverde conseguiu a proeza de preencher as 28 vagas para a primeira fase do Paulistão e deixou o principal reforço, o colombiano Borja, de fora. 

O futebol brasileiro, dirigido por diretores amadores e apoiado por considerável parcela da mídia, é imediatista. Vive exaltando os quase 30 anos de Sir Alex Ferguson à frente do Manchester United ao lembrar que nos primeiros anos ele não ganhou nada com os Red Devils, mas na primeira sequência ruim de qualquer treinador aqui, já falamos em demissão.

Voltando ao tema.

O Palmeiras, como os outros times que disputaram o campeonato nacional, começou a se preparar em campo no início do ano. Boa parte dos times do interior paulista que disputam o estadual já estava treinando há pelo menos 20 dias, o que, em curto prazo, faz uma diferença enorme. Depois que acontece um equilíbrio na parte física, quem for melhor tecnicamente normalmente se sobressai, mas isso demanda tempo e paciência para Eduardo Baptista, ou qualquer outro treinador, trabalhar.

Coisa que parte da imprensa e da torcida não tem tido, e nem costuma ter.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sobre embalagem, estatísticas e biquíni

COMEÇO RUIM Rogério demonstra desânimo na
lateral do campo (Marcello Zambrana/AGIF)
Após o jogo de estreia de Rogério Ceni como treinador do São Paulo, quando o Tricolor foi atropelado pelo Audax por 4 a 2, o ex-camisa 01 e agora técnico amenizou o resultado ao destacar o número de finalizações e a posse de bola da sua equipe. O São Paulo teve, segundo dados publicados pelo Footstats, 55% de posse de bola, além de finalizar 27 vezes, 10 delas no gol defendido pelo goleiro Felipe Alves.

O discurso é bonito e se encaixa perfeitamente no que tem acontecido com frequência para embasar sistemas de jogo e atuações: números, números e números. Mas dá para justificar apoiado somente nesses dados? Sim, todos fazem isso, mas Rogério representa, ou deveria representar, o novo. Tem dois auxiliares europeus, vendeu a ideia de ter realizado treinos diferentes em todos os dias na pré-temporada realizada nos Estado Unidos, passou o ano estudando na Europa absorvendo conceitos de técnicos como Carlos Ancelotti. Garantia de sucesso?

Nenhuma.   

Para começar, ele não levou em consideração se a posse de bola, que nem foi tão superior assim, foi objetiva ou vertical. Se, como gostam de falar os novos analistas, rompeu as linhas adversárias, se foi mais que uma simples e infrutífera troca de passes no campo de defesa, de lateral a lateral, passando antes pelos dois zagueiros ou então pelo volante, que retorna a bola para o centro da zaga antes de ela ser passada para o lateral. Ou quantas dessas finalizações foram realmente chances claras de gol?

Leia também:
Sobre o Sporting, a CBF e o respeito à História

Vitor Guedes, jornalista com J em caixa alta, citou na sua ótima Caneladas do Vitão, no jornal Agora, a célebre frase do economista Roberto Campos  sobre estatísticas: "o que revelam é interessante, mas o que ocultam é essencial". E o que querem dizer os números trazidos por Ceni para a coletiva?

Um grande nada. 

Rogério quis inovar, colocando Rodrigo Caio, seu beque disparadamente mais técnico, à frente dos zagueiros Douglas e Maicon, desmontando o único setor do time que não comprometeu no medonha temporada de 2016. No fim, com o placar adverso, apelou para a velha tática da absoluta falta de tática (também conhecida como desespero) do centroavante enfiado no meio dos zagueiros e fosse o que Deus quisesse.

Pouco para quem chegou com a expectativa de ser o diferente.

Certamente, um dos livros lidos pelo agora treineiro tricolor é o Guardiola Confidencial, do espanhol Marti Perarnau. Nele, o autor fala o quanto Guardiola detestava quando o time do Bayern passava a bola de pé em pé, horizontalmente, no campo de defesa. E que a posse de bola somente pela posse de bola não serve para nada. "É uma merda", diz Pep em diversas passagens.

Não adianta acharem que bastam alguns dias para que Rogério apresente algo novo. Ou que a presença de europeus, coisa que nós da imprensa já vamos gorjeando como a única maneira de modernizar o que acontece nos gramados daqui, transforme do dia para a noite o futebol brasileiro. 

Não é.

A excelência (termo que Guardiola também abomina) do trabalho depende de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo. Sem isso, o projeto, se é que há, vira passageiro da própria sorte. Basta saber se ele será, como o genial catalão, um agente da contracultura futebolística brasileira e terá tempo para desenvolver seu trabalho. Sem contar que não quer dizer absolutamente nada o fato de ele ter sido um grande atleta, o dono do vestiário por anos, ter vestido a camisa tricolor por mais de 20 anos. Muda-se a função, as responsabilidades são outras, as decisões a serem tomadas também, e a história escrita é apenas isso: história.  

Entre tanta mediocridade e falta de projetos alicerçados nos fatores mencionados, algo que tanto atrasa o futebol tupiniquim, espera-se que Rogério Ceni seja mais do que uma embalagem diferente. Afinal, de "m1to" do gol para burro do banco de reservas, basta apenas um passo. Ou uma sucessão de resultados ruins.       

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sobre o Sporting, a CBF e o respeito à História

22 ou 18? Esta é a pergunta que a crônica portuguesa fez nos últimos dias sobre o número de títulos nacionais do Sporting. Isso acontece porque o presidente leonino, Bruno de Carvalho, uma espécie de Eurico Miranda de bigodes sem grife — e sem bigode também –, resolveu dar um chapéu na história do futebol de Portugal e aumentar o palmarés sportinguista na base da “auto-canetada”.

Explico:

O futebol português era dividido em torneios distritais. A partir de 1922, passou a existir o Campeonato de Portugal, que era disputado entre os melhores dos distritais do Porto e de Lisboa, em formato eliminatório, e foi abrangendo equipes de outras regiões com o passar dos anos (como aconteceu no Brasil com o Torneio-Rio S. Paulo). Foi disputado 17 vezes, entre 1922 e 1938.

Vamos ao contexto histórico e o que forçou a criação, na época, de um campeonato maior:

Nas Eliminatórias para a Copa de 1934, Portugal levou uma sapecada da Espanha. Não foi uma derrota qualquer: foi um sonoro 9 a 0 para os vizinhos de Península Ibéria, num momento em que havia o plano governamental de fazer do futebol o esporte nacional e o regime de António Oliveira Salazar queria ganhar politicamente com isso – como a Itália de Mussolini já fazia –, ainda mais depois do excelente papel na primeira competição internacional em que participou, os Jogos olímpicos de Paris, em 1928. Na ocasião, Portugal ficou nas quartas-de-final e viu duas seleções que enfrentou na preparação conquistarem medalhas: Argentina (empate) e Itália (vitória portuguesa por 4 a 0), ouro e bronze, respectivamente. [NE: Estado Novo e Esporte é um livro, do historiador Mauricio Drumond, que explica muito bem como o Estado Novo em Portugal e no Brasil usou o esporte como promoção política, entre 1930 e 1945, durante os governos de António Oliveira Salazar e Getúlio Vargas].

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Então, entre as temporadas 34/35 e 37/38, foram disputados quatro campeonatos de caráter experimental, pois havia a necessidade de saber se seria economicamente viável organizar um certame que durasse o ano todo e contemplasse equipes do país inteiro. Nesse ínterim, o Benfica venceu três vezes e o Porto foi campeão em uma ocasião. Nascia, a partir de 1938/39, o Campeonato Português.

Também, a partir de 1939, começou a ser disputada a Taça de Portugal, torneio que substituiria, nos mesmos moldes, o Campeonato de Portugal e que existe até os dias de hoje. Vale aqui destacar que o Sporting pleiteava que os quatro troféus que queria porque queria incluir na sua já boa lista de títulos foram conquistados nesta época, desconsiderando então os quatro torneios feitos como laboratório até a implementação definitiva do campeonato nacional com todos os times disputando partidas entre si, como acontece hoje.

Nas 17 edições em que foi disputado o Campeonato de Portugal (precursor da Taça de Portugal, não do Campeonato Português), o Sporting e o Porto venceram quatro, Belenenses e Benfica, três, e Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense, um cada, o que alteraria a galeria de campeões nacionais, com o Benfica mantendo suas 35 conquistas (perde os três ganhos entre 34/35 e 37/38, mas compensa com os três campeonatos), o Porto saltando de 27 para 30, o Sporting passando a ter os tais 22 e, de tabela, Os Belenenses subiriam de um para quatro e, ao lado do Boavista, campeão em 2000, surgiriam Carcavelinhos, Marítimo e Olhanense, com um título cada.

Fica difícil encontrar um motivo que seja para justificar a desarrazoada tentativa do presidente Bruno de Carvalho de fazer saltar o número de glórias de seu clube. Historicamente, seria uma farsa não só considerar o Campeonato de Portugal como antecessor do Campeonato Português, como fazer sumir as quatro edições que serviram para pavimentar o que hoje é a Primeira Liga. Forma e conceito impedem que isso seja levado adiante, uma vez que a Taça de Portugal, esta sim a sucessora natural e legítima do primeiro torneio lusitano de dimensões nacionais, passou a ser disputada quando o Campeonato deixou de existir.

A prova inequívoca de que a tentativa nada mais é que um delírio isolado do presidente Carvalho é que, em 2015, o próprio Sporting Club de Portugal licenciou o seu Almanaque do Leão, escrito pelo jornalista e português Rui Miguel Tovar, e nele constam 18 títulos nacionais, não os tais 22. O próprio Tovar se recusou a revisar o número para cima e o Sporting, ao “corrigir” o Almanaque, não contou com a assinatura do jornalista.

Onde eu quero chegar com isso?

Ora, quero fazer o caminho que Cabral fez, mas aportar diretamente no Rio de Janeiro, mais precisamente em 2010, que é quando a CBF jogou Taça Brasil, Robertão e Brasileirão num saco só e saiu distribuindo troféus e estrelas como se não houvesse uma história a ser respeitada (vide infográfico ao pé deste artigo).

De acordo com a decisão da CBF, que foi baseada no trabalho dos historiadores Odir Cunha e José Carlos Peres (ligados ao Santos Futebol Clube), Taça Brasil, Roberto Gomes Pedrosa e Campeonato Brasileiro são uma coisa só.

Não são.

O embrião do Brasileirão foi o Torneio Rio-S. Paulo, que, como o próprio nome sugere, era disputado por equipes destes dois estados. A primeira edição aconteceu em 1933, mas não houve regularidade graças à transição para o futebol profissional (na mesma época, para se ter uma ideia, registros apontam dois campeões paulistas em alguns anos por haver dois campeonatos, o da Associação Paulista de Esporte Atléticos (APEA), onde jogavam as equipes ainda amadoras, e a Liga Paulista de Futebol (LPF), esta com os times que aderiram ao profissionalismo).

Voltando ao tema.

É só na década de 1950 que o Rio-S. Paulo é disputado com regularidade, apenas com equipes dos dois estados até 1966. De 1967 a 1970, é chamado definitivamente de Torneio Roberto Gomes Pedrosa (nome oficial do certame a partir de 1954) e admite a entrada gradativa de times de outros estados: primeiro Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, depois Bahia e Pernambuco. A partir de 1971, passa a ser o Campeonato Brasileiro que conhecemos hoje.

Em 1959, em sistema eliminatório e disputada pelos campeões estaduais, surgiu a Taça Brasil. Ela foi criada pelo nada saudoso João Havelange para substituir o Campeonato Brasileiro de Seleções e para indicar o representante nacional na Taça Libertadores da América, criada um ano antes.

A única diferença entre o que aconteceu em Portugal e no Brasil é o sentido de onde saiu o pedido. Lá, foi fruto do desvario do presidente de um clube que não ganha nada de relevante há quase 20 anos, ao passo que aqui, embora tenha surgido a partir do levantamento de um par de historiadores (mesmo sob encomenda de um dos clubes a serem beneficiados, o Santos), a medida é de cima para baixo. Ora, se a CBF resolve, do nada, distribuir dez títulos nacionais entre Santos (5), Palmeiras (2), Bahia, Botafogo e Cruzeiro (1), os clubes vão recusar?

É evidente que não.

Caso quisesse fazer justiça e respeitar seu próprio passado, a entidade deveria reconhecer apenas os campeonatos disputados entre 1967 e 1970, quando Palmeiras (2), Santos e o Tricolor do Rio venceram, em vez de tomar como verdade inconteste os apontamentos de Cunha e Peres.

São rotos e não se sustentariam caso o futebol brasileiro fosse sério.

Durante uma entrevista dada à equipe esportiva da Rádio Trianon, da qual faço parte, na tarde de 18 de dezembro do ano passado, o jornalista palmeirense (ou, como ele mesmo diz, palmeirense jornalista) Mauro Beting deixou claro que, por justiça e respeito à História, a Taça Brasil tem mais relação com a Copa do Brasil, não com o Campeonato Brasileiro. No entanto, ainda segundo ele, como a CBF, que ele comparou a um cartório, determinou, apenas cumpra-se. Friamente falando, é isso mesmo.

No fim das contas, a tal unificação serviu para que o Clube dos 13 fosse dinamitado no momento em que os clubes buscavam criar uma liga independente e era preciso, para o alto comando cebeefeano, rachar o núcleo da sua organização mais forte e sedimentada. Quando não pode fazê-lo com títulos para ganhar o apoio que precisava, tirou da cartola um estádio e desenterrou uma pendenga histórica, contrariando uma decisão já morta, enterrada e julgada pelo pleno do STF: a Copa União. Assim, puxou para debaixo de sua asa o Corinthians e o Flamengo, apenas os dois clubes mais populares do Brasil. De quebra, por causa do diabo de um troféu feio que dói, mas que representava a honraria fajuta de ser o “primeiro pentacampeão nacional”, disputada a socos, pontapés e liminares entre São Paulo e Flamengo, implodiu de vez o já citado Clube dos 13, nascido a partir da incompetência da própria CBF em organizar um campeonato, justamente o de 1987. Ironicamente, com a unificação, o primeiro pentacampeão brasileiro é o Santos, que venceu a Taça Brasil ininterruptamente entre 1961 e 1965. Ao menos por enquanto.

No país do cinco que virou nove, do dois que hoje é oito e do seis que é seis mesmo, mas que tem gente que enxerga sete porque o departamento comercial da emissora assim exige, os clubes não têm culpa (exceto no último caso). Em Portugal, a Federação Portuguesa de Futebol deixou claro que o Campeonato de Portugal é o pai da Taça de Portugal, não do Campeonato Português. Aqui, a CBF é pai, mãe e tutora da bagunça que, por interesse, ela mesma geriu, pariu e alimentou. Um monstrengo que mostra que, no Brasil, como dizia o saudoso Joelmir Beting, até o passado é imprevisível.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Pai, quanto é quatro mais um?


– Pai, quanto é quatro é mais um?
– É cinco, filho.
– E o que significa ênea?
– Ênea é o Palmeiras, filho! ENEAAAAA!
– Como assim, pai? O que significa?
– Sabe que eu não sei? Espera um pouco. Ênea? Hummm… Deixa-me ver – o pai abre o Google para pesquisar. Ah, tá aqui: ênea vem do grego e significa nove.
– É grego tipo o arroz à grega que a mãe faz?
– Não, não é.
– Então é tipo churrasco grego que vendem do outro lado da rua…
– Filho, não tem nada a ver com comida. É a origem da palavra. Ó, tá escrito aqui – aponta pra tela do celular. Mas por que você está perguntando isso?
– Pai, eu ouvi na TV que o último título brasileiro do Palmeiras foi em 94. O senhor falou que era… quando é oito, como fala?
– Espera aí, que vou ver e te falo – e desliza o dedo na tela do celular para voltar à página de busca. É octa, filho. Achei. Oito vezes é octacampeão.
– Então, tipo, o senhor comemorou dizendo que era octacampeão?
– Não, falei que era tetra porque o Palmeiras tinha sido campeão em 1972, 73 e 1993. E ganhamos em cima do Corinthians! O Rivaldo, que tinha jogado neles, arrebentou com o jogo. O Branco deve sonhar com ele até hoje.

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– Então o Brasil também é eneacampeão – insistiu o menino, pouco interessado nos detalhes da decisão de 1994.
– Não, é penta!
– Mas por quê?
– Porque ganhou cinco vezes.
– Mas aquele narrador lá que ficava falando “gol da Alemanha”…
– O Galvão Bueno, filho!
– Isso! ele mesmo. O Galvão Bueno, tipo, não tava abraçando um cara lá e gritando “é tetra”?
– Onde você viu isso, filho?
– Eu vi no Youtube, pai.
– Ah, tá. Estava porque aquela era a quarta Copa que o Brasil ganhou. O Brasil foi tetra em 94 e ganhou mais um depois, em 2002. E o “cara lá” que ele abraçava é o Pelé!
– Ué. O Palmeiras também era tetra e ganhou só mais um também. Como é ênea?
– …
– Pai?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Como passar vergonha em 11 passos

Quer queimar seu filme perante o país inteiro e causar uma vergonha eterna à sua torcida? É fácil. O Internacional ensina:

1) Contrate um treinador que irá tentar demitir por não gostar do seu estilo, mas que os resultados o manterão no cargo;

BODE NA SALA Diretoria colorada tentava se livrar de Argel
desde o Brasileiro de 2015. Excelente campanha e título no
Gaúcho seguraram o treinador (Feliz Zucco/Agência RBS)
2) Livre-se de seu capitão e maior ídolo da torcida, mesmo que nem ele ou a torcida queiram isso;

3) Monte um elenco com milhares de atacantes, meia dúzia de gringos de qualidade técnica duvidosa e um antigo ídolo do maior rival completamente fora de forma, mas com salário astronômico e contrato longo;

4) Demita o treinador e contrate outro que tenha identificação com o clube, mesmo que não tenha resultados que banquem a aposta;

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5) Mande-o embora menos de dois meses depois;

6) Aposte na velha receita do técnico-ultrapassado-que-sempre-volta-para-apagar-incêndio;

VOU, MAS EU VOLTO Milésima apresentação de Celso Roth no
 Internacional (Tomás Hammer/Globo Esporte.com)
 
7) Mande-o embora a três rodadas do fim do campeonato e praticamente afundado na zona do rebaixamento;

8) Para evitar a queda, apele pro tapetão;

9) Reclame publicamente se seu jogo for adiado devido a um acidente que vitimou praticamente um time todo e causou comoção mundial;
9.1) Compare a morte de mais de 70 pessoas ligadas à mesma modalidade esportiva à sua briga, que você pode chamar de "nossa tragédia";

"TRAGÉDIA PARTICULAR" Fernando Carvalho pisa
 na dignidade colorada (Tomás Hammer)
10) Na maior cara de pau, use a tragédia para tentar melar a última rodada e o quase inevitável rebaixamento;

11) Use seu elenco para isso.    
CEREJA DO BOLO Jogadores do Inter manifestam desejo de não mais
atuarem pelo Brasileirão, mas não falam sobre a posição final na tabela

Nada será como antes

por Leandro Marçal*

Sinto o mundo e o meu país se desmanchando e escorrendo pelo ralo. É como se entrássemos em um buraco negro sem fim ou tentássemos erguer as mãos em busca de socorro, enquanto afundamos em uma areia movediça criada por nós mesmos em nossa vaidade e ganância sem fim. Ganância essa que, na tentativa de diminuir custos, levou vidas, sonhos, destinos. Destroçou famílias e deu uma voadora na alma de quem não mora em Marte.

Inaceitável, revoltante. Nada será como antes. Não seremos as mesmas pessoas depois disso tudo. Sinto-me jogado em um liquidificador e ainda não processei isso tudo. Quem já passou pela terrível experiência da morte de pessoas próximas sabe bem a transformação sofrida na alma nesses momentos de necessária reinvenção interna. Dali em diante não seremos os mesmos, é impossível.

Sinto isso quando passo em frente à casa do meu queridíssimo amigo, sr. Ayrton, ao ver aquela minha foto de quimono ao lado do tio Manoel, quando os olhos de minha mãe se enchem feito água borbulhando ao contar histórias de meu vô Edezio ou me recordo dos últimos dias da tia Nice em cima de uma cama. Não fomos os mesmos depois dessas partidas.

Foi no fatídico 11 de setembro de 2001 que passei a entender melhor o quanto a vida é banal, frágil como meus ralos ralos de cabelo, muitas vezes nas mãos de quem não conhecemos e pouco se importam com nossa existência. Naquele dia chuvoso em que, ao passar da esquina, minha mãe resolveu que voltaríamos para casa e não haveria aula, entendi o quanto a violência e a maldade são traços inacreditáveis do ser humano (escrevi sobre isso aqui). 

Mudei depois daquele trauma. Como sinto que não serei o mesmo depois desta semana pesada. Tão pesado e denso, nos fez lembrar o quanto a vida é triste, Sizenando (leia aqui).

A tão necessária e ignorada empatia não me deixa, ainda, passar batido por qualquer matéria, entrevista ou conteúdo referente aos atletas, comissão, dirigentes e jornalistas que nos deixaram, me sinto entorpecido. Já não faz sentido a última rodada ou a final pendente no calendário brasileiro. Só nos bastam as necessárias e lindas homenagens, bem como as demonstrações de mau-caratismo dos que se aproveitam de tão delicado momento para um país, para os humanos. Este 2016 precisa acabar logo, se é que deveria ter começado. Ano cruel, vilão, sádico. Em todos os campos e segmentos.

Nada mais será como antes: a cidade, o clube, o futebol, as viagens, as famílias, os torcedores, a cor verde, a Sul-americana, a Colômbia, o Brasil, o 29 de novembro, a mídia esportiva, o mundo esportivo, o riso, o choro, o Atlético (ah, o Atlético Nacional...). Eu. Nós.

Nada será como antes.

*Leandro Marçal é jornalista e tem 25 anos