quinta-feira, 6 de junho de 2024

PORTUGAL - E não se pode dormir

DESPERTADOR Primeiro dos três amistosos da Seleção de Portugal antes da Euro é
prometedor, mas há com o que se preocupar (Foto: Agência Lusa)

Bom jogo, sinais positivos e alarmes ligados na seleção portuguesa no primeiro jogo da parte final da preparação para o Euro 2024. Os Tugas adiantaram a marcação para sufocar a Finlândia e jogaram ao seu bel prazer, ora com troca de passes curtos, ora esticando a bola. Se Markku Kanerva tinha a ideia de sair com a bola de pé e pé e manter três homens no campo de ataque, tudo isso foi por terra com a pressão lusitana, que fez com que os de branco mantivessem duas linhas com quatro para tentar proteger Hradecky. Independentemente da maciez do adversário, era preciso fortalecer conceitos e dar minutos a jogadores que perderam parte da temporada por lesão, como Pedro Neto, Nuno Mendes e Diogo Jota. 

O ponto mais positivo: a fartura que permite mudar taticamente sem trocar jogadores. Por outro lado, houve a desatenção que fez sofrer dois gols nos dois únicos ataques finlandeses, quando o único jogador de qualidade entre os da linha, Pukki - o outro é Hradecky, titular do Bayer Leverkusen -, esteve em campo. Foi o terceiro jogo seguindo em que Portugal concedeu dois gols a adversários menos apetrechados.

Os gols finlandeses nasceram de cinco minutos que podem ser fatais contra times melhores e em jogos valendo. No primeiro, não se pode deixar bater uma falta com a defesa toda arreganhada. Possivelmente, com Palhinha em campo, não haveria o espaço aproveitado por Pukki. O médio do Fulham é quem mais possibilita um sistema flexível quando baixa para jogar entre os centrais, justamente no espaço em que o único jogador digno de nota dos nórdicos recebeu para picar com classe por cima de José Sá.

O segundo foi uma perda numa saída de bola desleixada, que Pukki aproveitou o ensejo para marcar, sem maiores protestos. Fosse um dos nossos, teria pensado ao receber a bola: "Aié? Estás por aqui? Então vamos a isso". E foi.

O caráter luso manda dizer que isso pode acabar mau. Há quem diga que é bom ter acontecido agora. Quem dera ao Brasil que os espaços que a Itália encontrou em 1982 tivessem sido detectados antes daquele maldito jogo no Sarriá, em que o gosto do brasileiro pelo jogo bem jogado foi trocado pelo mero ganhar. Nada contra, também me apetece, mas prefiro a beleza à vitória arrancada a ferros.

Os dois passageiros que apanharam o comboio perto da estação de destino estiveram em grande plano: João Neves e Francisco Conceição, apesar de alguma falta de pontaria deste. Chico não será titular, mas será útil em contextos de jogo que precisam do drible, do mano a mano. João mostrou uma maturidade que assusta, com apenas seis jogos pela seleção. Ambos foram os que mais deram na vista na retomada rápida após a perda da bola. 

Não será este o time titular, tampouco o desenho que deverá ser visto na estreia. Espero, inclusive, que a ideia de três centrais seja abandonada de vez, pois perde-se força justamente onde há talento no atacado. Também não acredito em dois jogadores agudos iniciando juntos. Há Bernardo Silva, que obviamente começará a Euro como titular se nada extraordinário acontecer. Assim como Bruno Fernandes, o melhor jogador português da atualidade. 

No mais, me parece que falta decidir uma ou duas posições, a depender da saúde de Pepe e de quem herdará o posto de Otávio como quarto homem do meio. Vitinha (provável)? João Neves (corre por fora)? Matheus Nunes (furará a fila)? Pela característica, deveria ser este, mas ter chegado por último pode fazer com que parta um bocado atrás nesta corrida. Mesmo Rúben Neves pode ser o escolhido, embora isso demande mudanças pela sua característica mais técnica e menos impositiva. 

Se Pepe não puder iniciar o Euro, António Silva está em vantagem porque está habituado às rotinas de uma linha de 4, em relação a Gonçalo Inácio, habituado a compor um trio de centrais no Sporting. Aqui, há um pormenor importante: o benfiquista encerrou a temporada em baixa e demorou a reagir ao rasgo de Pukki. Além do mais, Gonçalo parece estar com limitações físicas, o que pode ajudar o ainda encarnado.

No mais, a careca até aqui literalmente brilhante de Roberto Martinez deve ter resolvido os demais nomes no onze inicial, privilegiando o equilíbrio com Bernardo Silva, que seria titular em qualquer seleção do mundo, mas que ainda está devendo uma grande participação em competições maiores. Por ora, a tendência é começar com Diogo Costa; Diogo Dalot, Rúben Dias, Pepe (ou António Silva) e Cancelo; João Palhinha, Vitinha, Bruno Fernandes e Bernardo Silva; Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.

Retomando a questão dos cinco minutos em que Portugal desligou, houve um consenso em torno do momento ideal para acontecer, a tempo de remendar. É o copo meio cheio. Em 14 de julho, ao cabo da final, espero que siga meio cheio, mas de bagaço.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

BRASIL - Vinícius Jr, Neymar e a tragédia grega, com a Bola de Ouro ao barulho

INTIMIDADE Vini Jr. beija a taça mais cobiçada do
futebol de clubes (Reuters/Carl Recine)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

Vinicius Jr. é a bola da vez. Favorito a devolver ao Brasil a Bola de Ouro, o jogador tem brilhado jogo sim, jogo também, pelo Real Madrid, com quem conquistou sua segunda Liga dos Campeões em três anos, e foi novamente decisivo, outra vez protagonista.

Mas não bastou exaltá-lo. Como se o futebol fosse o teatro grego de tragédia e a presença de um protagonista, representando o bem, automaticamente criasse a figura de um antagonista, a quem o mal lhe é atribuído, busca-se diminuir Neymar para enaltecer Vinicius Jr. É a mesma tolice que converte fãs de Messi e Cristiano Ronaldo em detratores do outro. Apesar do péssimo gerenciamento de carreira, Neymar é - ou foi, sei lá o que vai dar dele - um jogador brilhante. 

Fora de campo, Neymar é um cidadão dos mais questionáveis, para não usar outro adjetivo menos abonador, mas, em se tratando de futebol - e o tema aqui é este -, é um extraclasse, é completo. Podem escolher o fundamento do jogo, Neymar, no mínimo, é muito bom. O que pesa contra o maior talento brasileiro, para não falar mundial, em anos é o seu comportamento, e aqui nem entra em questão suas posições pessoais. 

É necessário conter a emoção, mesmo que seja somente para proteger o craque madridista das cobranças exageradas para que seja o número um. Presenciamos um craque em construção, longe do seu ápice físico, técnico e psicológico, e ainda sujeito a cometar algumas bobagens. Hoje, quando este texto é escrito - e afastado do calor da conquista continental -, Vini Jr. é o principal jogador da temporada, da mesma forma que Bellingham já foi apontado como o melhor do ano.

Imaginemos, porém, que a Inglaterra finalmente vença uma competição, a primeira desde 1966. Se Bellingham comer a bola, quem garante que o favorito não passe a ser ele? Ou Kane, que naufragou coletivamente no Bayern, mas individualmente fez provavelmente sua melhor temporada. Comparando as conquistas, a Champions do Real Madrid é só mais uma Champions do Real Madrid. Uma eventual Euro da Inglaterra são outros quinhentos.  

O prêmio pode ir para qualquer um deles, ou até mesmo para Kroos, um dos melhores da história, sem favor algum. Se mantiver o nível estupendo de atuações visto na temporada e, naturalmente, vencer a competição que jogará pela Die Mannschaft, em casa, estará à altura da distinção. Destes, Vini Jr, Bellingham e Kroos arrebentaram na temporada, pelo mesmo Real Madrid. Não me parece nenhum absurdo que os três estejam cotados.

Ainda assim, não será essa obrigação besta que parece ser determinante para decidirmos o tamanho de um jogador que nos dirá se Vinicius é maior ou melhor do que Neymar. Potencial, ele tem; mentalidade, idem; talento, demorará anos para aparecer alguém que se aproxime do ex-santista, isso se algum dia acontecer. Mas isso não basta. Além do mais, um fato poderá ser determinante para o futuro do brasileiro: a chegada de Mbappé ao Real Madrid.

Só para ilustrar, quando ainda não era um criminoso, Robinho era um talentosíssimo atacante, também do Real Madrid, com os olhos postos ao prêmio de melhor do mundo, e numa época pré Messi e Cristiano. Bastou a suspeita de que seria moeda de troca para a chegada do português para rifar a carreira. Bastou uma decisão errada, somente uma. Depois foi o que foi, mas isso não tem nada a ver com o campo.  

Como Vini reagirá à chegada do mimado francês? Ou melhor, como Mbappé chegará ao Real Madrid? Será mais um no vestiário, que não terá mais a liderança natural de Toni Kroos? Aceitará jogar centralizado para que Vini siga atuando onde comprovadamente rende mais? No PSG, essa questão causou ruído. Na seleção francesa, Mbappé já é o capitão.

Voltando à Bola de Ouro, o camisa 7 do Real Madrid sofre a resistência de parte considerável do mundo do futebol porque enfrenta o racismo que sofre até mesmo quando não está em campo, em vez de aceitar bovinamente as ofensas que recebe por causa da sua cor retinta. Não aceita ser atração, tampouco ser desumanizado por um sistema que sequer considera o racismo crime no país onde mora. 

Em todo caso, ainda lhe falta escrever uma história na seleção, onde Neymar, bem ou mal, é o maior artilheiro em jogos oficiais, mesmo tendo feito água nas grandes competições. Talvez a presença do próprio Neymar no grupo ofusque seu crescimento, ou faz com que os treinadores, desde Tite, não lhe deem o protagonismo que parece pronto para receber. Ou mesmo o sistema de jogo de Fernando Diniz tenha atenuado seu talento. Seja como for, Vini nunca foi o cara a ser procurado em campo quando a coisa apertou quando veste a cada vez mais esquisita camisa da seleção.

Pelas características de Dorival Jr, e por Neymar, temporária ou definitivamente, não estar à disposição, esta responsabilidade deve ser-lhe atribuída já na Copa América, na qual terá a chance de pavimentar ainda mais o caminho para chegar ao prêmio de melhor da temporada. Até lá, pelo menos, sugiro ir devagar com o andor porque o santo - e a admiração do torcedor - é de barro.   

sábado, 1 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 14

 *por Humberto Pereira da Silva

CERTO? O "jeitinho brasileiro", injustamente atribuído a
Gérson graças ao comercial do cigarro Vila Rica



Na partida entre Santos e América-MG, pela Série B do Campeonato Brasileiro, disputada há alguns dias, houve um lance que gerou muita discussão: o primeiro gol do Coelho, marcado pelo atacante Renato Marques. Na jogada, o goleiro santista, João Paulo sofreu uma lesão em disputa de bola com Marques, caiu aparentemente com muitas dores e o americano rolou a bola para o gol vazio.

Num primeiro momento, acusação de falta de fair-play da parte do jogador do América. En no calor da hora, jogadores, ex-jogadores, comentaristas  etc se manifestaram. As manifestações, como de costume, foram bem variadas, passionais, ao se levantar argumentos de ocasião. 

O lance em si, bem raro, mostra a surpresa tanto para o jogador quanto para os que se manifestaram. Condenar Renato Marques por falta de fair-play logo pareceu exagerado. 

Tomada isoladamente, a jogada em si dispensa o sentido usual e vago do fair-play.  Fair-play é uma tomada de decisão individual numa situação em que um jogador tem diante de si a possibilidade de pensar se para ele é ou não ético dar sequência a uma jogada. 

Ocorre que o futebol envolve várias situações de catimbas, simulações, blefes. A decisão de fair-play não é automática. Há uma variedade de condicionantes dentro do gramado para, em décimos de segundo, levar a uma decisão.
 
No caso específico de Renato Marques, pelo que vi, o gesto de chutar a bola foi automatico. Mas ele também imediatamente percebeu a situação. Ao não comemorar o gol, deu para ver que ele sentiu que poderia ter tido outra decisão.
 
Ora, se o lance para mim dispensa o sentido usual da palavra fair-play, isso implica que ele pode ser pensado em termos de protocolo. Sendo raro, esse gol de Renato Marques poderia ser tomado como exemplo para situação parecida. Caberia estabelecer um protocolo no qual o árbitro decidiria anular ou não o gol. Há no futebol atual precedentes. A confirmação de um gol numa situação de eventual impedimento é decidida após as linhas traçadas pelo VAR.

Uma vez constatada a contusão no lance, caso do João Paulo, é constrangedor para o América e para o Renato Marques ter o gol confirmado. Então, justamente porque entendo poderia ser decisão do árbitro, porque faz parte do futebol a catimba, a simulação, o blefe.

Infelizmente não foi o que ocorreu com o João Paulo. Por isso, acho o caso poderia ser discutido em termos de protocolo e não no vago e usual emprego do fair-play. O árbitro teria a decisão final de validação ou não de um gol em situação como a do gol que abriu o placar, que foi fechado em 2 a 1 para o América.

O contraponto**

Esse lance, como é a moda atual de falar, tem algumas camadas. A comemoração tímida, ou falta dela, demonstra que o avançado percebeu que havia algo de errado, como bem observado acima. Até aí, penso eu, cabe somente ao jogador a decisão de fazer algo grandioso ou "fazer pelas couves", como diria meu pai. Eu gosto de pensar no futebol além do resultado. Lances como o visto no Independência, campo americano, transcendem o jogo, mas aí sou eu, distante do seu contexto, como decidir coube a quem tinha a bola à disposição.  

O que me incomodou foi o que aconteceu depois: vi muita gente dizendo que poderia ser cena. O goleiro foi substituído e teve constatada uma das piores lesões do esporte, pelo caráter traiçoeiro e pelo tempo de recuperação:  o rompimento do tendão de Aquiles. O discurso envergonhado do capitão do América não me convence porque, sendo líder do grupo, poderia propor que o gol fosse retribuído, como já aconteceu em diversas partidas, até sob as ordens do próprio treinador. Marcelo Bielsa, atual técnico da seleçao uruguaia, deixou de conquistar um acesso à Premier League porque ordenou que seu time, o Leeds, retribuísse um gol que marcou e, sob sua ótica, foi antiético

Num ponto, discordamos: o árbitro poder anular o gol. E discordo porque sempre haveria uma forma de burlar. Imagine um lance no fim do jogo: hipótese clara de gol, o goleiro ou algum jogador qualquer simula uma lesão. Quem poderá verificar? Há lesões que são identificadas algumas horas depois.

Eu trabalhei com futebol de base e há um consenso em torno do papel do treinador: este e um educador. Não por acaso é chamado, até de maneira injustamente jocosa, de professor. Bielsa ensinou que a honra vale mais que a conquista a qualquer preço do objetivo da temporada, que ficou para o ano seguinte, e ele, para a história. Rogério Ceni, na primeira de suas passagens no comando do São Paulo, ralhou com Rodrigo Caio logo após um Majestoso por este ter confessado, logo após o lance, que fez uma carga no atacante Jô e isso causou o choque com o goleiro que resultaria no cartão amarelo, o terceiro da série, que tiraria o corintiano do jogo seguinte, não fosse a atitude louvável do defensor. É de cada um, pois. Prefiro Bielsa a Rogério.

Voltando, o autor

Também pensei no exemplo da retribuição. Nesse caso também há precedentes, mas, justamente porque sempre haverá formas de se burlar, o árbitro, neutro, poderia decidir, como decidiu sobre mudar um cartão de amarelo pra vermelho, como aconteceu com o atacante Bruno Henrique, no jogo do Flamengo.

A situação do gol do Renato Marques é bem rara e é muito complicado usar a palavra fair-play para a situação. Você falou inicialmente nas camadas e no final do que escreveu, realmente é um "nó" que transcende o futebol. A saída não é nada fácil, como uma fórmula pronta. Pois imagine que poderia ser cena. Só depois ficamos sabendo que não foi. No instante, o Renato Marques não tinha como saber se era ou não cena.

O que nos incomoda é a conversa rasteira sobre levar vantagem ou sobre a hipocrisia do fair-play. Li que o Renato Gaúcho falou algo sobre o mundo ser dos espertos. A Lei de Gérson é abominável. 


* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
** Marcos Teixeira é jornalista e editor deste blog, além de colunista do Netlusa, do Ludopédio e setorista do futebol português no PodPlaca.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Pílulas amadoras - 13

*Por Humberto Pereira da Silva

O Senhor Champions League (Getty Images)

Enquete é enquete e o ponto de partida de qualquer uma é gerar discordância.  O que não se deve esquecer em qualquer enquete: é soma de votos. Mas vamos lá: soma de votos da revista britânica FourFourTwo elegeu Cristiano Ronaldo como melhor jogador europeu de todos os tempos. Só para variar, eu discordo.

CR7 ficou na frente de Cruyff, Beckenbauer e Zidane. Esse seria, nessa sequência, meu Top 3. Destaco, de qualquer forma, duas coisas inevitáveis nesse tipo de enquete: a memória e o bombardeio de imagens de hoje. Puskas é 11º e Eusébio, 12º.  Eu não os vi jogar e as imagens deles são raríssimas. [N.E.: a revista Placar, referência brasileira no futebol, organizou a lista dos craques do Século XX a partir de votos de jornalistas das principais publicações esportivas do mundo e tanto Puskás quanto Eusébio - sétimo e nono, respectivamente, estavam no Top 10 mundial].

Em qualquer tipo de escolha faltam critérios e sobram subjetividade, impressão; não é possível ter critérios objetivos pra dizer que CR7 é superior a Eusébio, ou Puskás. Não sendo possível qualquer comparação, há algo nessa "escolha" que merece atenção. As opiniões sobre CR7 vão de A a Z. Há quem o veja apenas como um jogador comum e que se beneficia de enorme publicidade. Mas, vemos com a enquete FourFourTwo não ser pequeno o número dos que o veem como o melhor da Europa na história. 

Quando se pensa nos melhores da história, os sul-americanos de fato são mais lembrados que os europeus. Com ou sem memória ou volume de imagens circulando nos meios midiáticos. A arte de um Pelé, Garrincha, Maradona ou Messi é bem distinta da de Cruyff, Beckenbauer, Zidane ou CR7. Então fiquemos na Europa.  Se eu não colocaria CR7 no meu Top 3, igualmente não vejo absurdo nele ser para muitos o melhor jogador europeu da história. Ou, não vejo que na Europa houve jogadores que chegaram à dimensão de Pelé e Maradona. 

Qualquer lista europeia para mim será sempre fluida, maleável. Não vi George Best, mas, 14º, pela mitologia em torno dele, que tipo de jogador ele seria? Best talvez ilustre como memória afetiva e volume de imagens são determinantes nessas enquetes. E não devemos nos esquecer de que ele fez sua carreira vestindo a camisa do Manchester United, britânico como a FourFourTwo.

Considero, ainda, numa enquete assim. Ela comporta um sentido simbólico que só o futuro pode responder. A se percutir exaustivamente que CR7 é o melhor jogador europeu de todos os tempos, CR7 será mesmo o melhor jogador europeu de todos os tempos. Discordâncias sempre existirão. Pelé não escapa a quem ponha exageros em seus feitos. Mas a discussão é para quem acha exagero Pelé ter sido o melhor da história se ele foi ou não o melhor. 

Nesse sentido, é o que me parece uma escolha como a da FourFourTwo pode causar. A discussão se CR7 passará à história ou não como o melhor europeu.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pílulas amadoras -12

*por Humberto Pereira da Silva

 (Foto: Mateo Villalba / Getty Images)

Real Madrid e Bayern de Munique fizeram uma segunda partida da Champions no Santiago Bernabeu cercada de enorme expectativa. No jargão boleiro, duas das mais pesadas camisas do mundo definindo uma das vagas à final, tendo empatado na Alemanha por 2 a 2 o primeiro jogo. Duelo eletrizante, o Real, como só o Real faz, perdia em casa por 1 a 0, mas virou a partir dos 43 minutos do segundo tempo. Mas, no último lance de um embate em altíssima temperatura, teria havido o gol de empate do Bayern e a consequente prorrogação.

Teria, mas não! O bandeirinha ergueu a bandeira. E antes da conclusão da jogada, o árbitro apitou. A marcação: impedimento do jogador do Bayern. Em casos assim, seguindo o protocolo, o VAR não é, nem pode, ser solicitado. As imagens de TV, de qualquer forma, sem as tais linhas traçadas, deixam todas as dúvidas possíveis. O correto seria deixar a jogada seguir e o VAR depois diria se por "milímetros" houve ou não impedimento.

Alguns até serenos diriam: a arbitragem mais uma vez a favor do Real; outros mais coléricos esbravejariam: o Real sempre ganha roubando. É, mas na mesma partida o VAR anulou um gol do madridista Joselu: o lance seguiu até o fim e foi corrigido com o auxílio da tecnologia. Ora pois.

Mais. Com toda tensão do final, perdendo como perderam, ouvi de Hummels e Müller o lamento pelo "erro de arbitragem". Os dois, ao mesmo tempo, exaltaram o triunfo do Real. Descontentes, claro, que uma partida tão intensa tenha sido decidida num "erro".

A questão para mim é que os bávaros, sem dizer, sabem que tinham a partida nas mãos. Sabem que falharam nos momentos finais. Não transferiram a culpa pela derrota ao "erro de arbitragem". Essa mentalidade é a maneira de lidar com as infindas contingências em uma partida de futebol. Erros, falhas, são lamentados. Mas tão somente lamentados. 

No Brasil, contudo, não há a mais remotíssima possibilidade de um pênalti, marcado ou não, não gerar toda sorte de discussões, acusações, ofensas, agressões.  É como se a marcação, ou não, fosse decidida a bala. Com a imprensa esportiva pondo óleo quente na fervura, praticamente não há partida de futebol no Brasil sem confusão quanto a uma ou outra marcação. 

A coisa não só vai mudar como tende a piorar. Imprensa, torcedores, dirigentes, técnicos e, com menos intensidade, jogadores, atiçam o fogo que queima a lenha. Não vai mudar o resultado, mas gera um clima que faz valer o jargão boleiro: ganhar no grito. Um "investimento para decisões futuras", segundo o editor deste blog, meu aluno Marcos Teixeira.

Paulo Nobre, ex-presidente do Palmeiras, usou a expressão "mão grande" para se referir a favorecimento ao Flamengo. No fim, o Palmeiras acabou campeão brasileiro de 2016. Ano passado, o auxiliar de Abel Ferreira, João Martins, novamente mencionou complô para que o Palmeiras não conquistasse o bi brasileiro. Ao fim...

Ironias da vida e da lembrança. Em partida do segundo turno no ano passado, entre Flamengo e Palmeiras, que terminou empatada, o Flamengo reclamou de pênalti não marcado em Everton Ribeiro. Nesse "jogo de seis pontos" a marcação poderia, poderia, inverter o título. 

Ocorre que esse mesmo Flamengo que hoje nas primeiras rodadas do Brasileiro reclama de arbitragem faz o que o Palmeiras fez: insinuar favorecimento aqui e ali. Esse mesmo Flamengo que foi campeão brasileiro em 2020 "favorecido" pela arbitragem.

Onde quero chegar? O frequente e insensato clima de acusação às arbitragens começam a macular os títulos. O título do Palmeiras no ano passado depois da insinuação de complô para que não ganhasse mostra o quê? Que erros ao meu favor são do jogo e contra mim são premeditados? John Textor, dono do Botafogo, apelou para a inteligência artificial para insinuar que o Palmeiras foi beneficiado, mas não falou nada sobre a campanha de rebaixado que seu time cumpriu no segundo turno.

Para mim, que é preciso ter princípios morais. Dirigentes e técnicos ao se manifestarem como se manifestam são despidos de qualquer "sentimento moral". Não vejo problema algum em afirmar que não se diferenciam da malta. Dão enorme contribuição para que o futebol brasileiro, além da CBF e outras mumunhas, mais logo se iguale ao mundo da contravenção, do crime, do gangsterismo.

Ah, recentemente na volta para casa, jogadores do Fortaleza foram atacados em emboscada. Não houve mortos. É isso.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 26 de abril de 2024

PORTUGUESA - O Dia do Cárcere

ÓDIO GENUÍNO Javier Castrilli tirou a Portuguesa da final
 do Paulistão de 1998 (Alex Ribeiro/Folhapress)

Nutro por Javier Castrilli um ódio tão genuíno que quase torna-se respeitoso, íntimo. Não sei sua idade, tampouco seu nome completo ou sua profissão. Não sei se é ou foi um bom filho, se tem irmãos, se é um bom avô, sequer se tem netos. Será que seus netos, caso existam, o chamam de Abuelito Javi? Não sei. Deve ser um bom avô.

Não conheço suas preferências políticas, se apoiou as torturas em meio à escandalosa Copa de 1978. Não faço ideia sobre o que ele pensa sobre a Asociación Madres de la Plaza de Mayo. Vibrou com a Guerra das Malvinas? Apostaria que sim, mas não sei.

Só o que sei é que pelo menos uma vez por ano me vem à mente aquele 26 de abril de 1998. É um looping eterno, no qual me recordo que ele tirou da gente a última chance de disputar uma final de um campeonato de elite ao marcar um pênalti obsceno no último minuto do segundo jogo da semifinal entre Portuguesa e Corinthians. Ganharíamos? Ninguém sabe. O que ninguém discute é que aquele time, com Evair, Alexandre, César, Leandro e tanta gente boa, era ótimo. E daria jogo na decisão.

Se o dia 25 de abril é o Dia da Liberdade (em Portugal), o dia 26 de abril de 1998 é o meu Dia do Cárcere. Desde aquele dia, estou preso no ódio a Javier Castrilli, que deve ser um bom avô.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 11

por Humberto Pereira da Silva*

LO DE SIEMPRE? Flamengo perdeu com o Bolívar e
Tite foi criticado (Marcelo Cortes/Flamengo)

Nos anos recentes, a Libertadores tornou-se uma espécie de Copa do Brasil com os melhores do Campeonato Brasileiro. Mas trata-se de uma Copa do Brasil com peculiaridades, como fazer jogos-treino com equipas latino-americanas. 

Esses treinos oficiais, certo, às vezes em situações bem peculiares. Jogar em altitudes próximas dos 4 mil metros, por exemplo. É de fato uma competição bem peculiar. A cobertura que a imprensa dá às equipes sul-americanas não é diferente da que daria a uma equipa do planeta Marte. E, por isso, a cara de espanto quando um desses supostos sparrings se dá bem. No ano passado, se bem me lembro, algum incauto jornalista sugeriu que perder para o Aucas na estreia seria uma vergonha para o todo-poderoso rubro-negro. E perdeu. 

Ontem, o Palmeiras jogou no Equador contra o Independiente Del Valle. O Flamengo foi ter com o Bolívar, na Bolívia. Como estão Del Valle e Bolívar em seus respectivos nacionais? Aliás, como são disputados os campeonatos no Equador e na Bolívia? De onde é o Aucas, a propósito? Bem, bem, hoje, se eu fizer um esforcinho de memória, decorarei até a escalação do Al-Hilal e do Al-Nassr.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 10

por Humberto Pereira da Silva*

DESGASTE DO MURO De herói a bode expiatório, Cássio vive
tempos turbulentos no Corinthians (Reprodução)

Há quem diga que Cássio é o melhor goleiro da história do Corinthians. Eu vi, na seleção, Ado, vi Carlos, vi Leão, vi Waldir Peres, vi Dida. Não vi Gylmar. Aqui todos, inclusive Cássio, passaram pela equipe nacional em copas do mundo. Acho que Cássio está entre os melhores dos melhores. 

O Corinthians vive HOJE um dos momentos mais horrorosos dos últimos anos, que igualmente são pouco gloriosos. E Cássio, herói e campeão do mundo pelo Timão, desperta HOJE ira da torcida, é tomado como vilão.

Cássio, após derrota na Sul-americana para o desfalcado Argentinos Juniors, desabafou: "Se sou culpado, melhor sair". Dessa declaração, destaco:

1. Cássio está de saco cheio, a ponto de explodir. Conveniências contratuais e outros motivos e ele dificilmente vai explodir;

2. Cássio tem memória. Sabe que há quem diga que é o melhor goleiro que já jogou no Corinthians. Sabe que o Corinthians foi campeão do mundo com ele pegando até vento.

Se Cássio sucumbir, sairá definitivamente pela porta dos fundos, como vilão. E dificilmente ficaria numa prateleira entre os melhores. Esse cenário seria bom para o Corinthians. Teria um bom bode expiatório. 

Se Cássio não explodir. Bem... Cássio usa o condicional para não perder grana, para não ser enquadrado em abandono de emprego. 

Resumo: com a declaração, Cássio não é mais jogador do Corinthians. Cumpriria contrato. 

Na situação do Corinthians HOJE, ter Cássio é o pior cenário, num cenário já medonho. Quando tudo está ruim, sempre se pode pensar no pior. E HOJE parece haver uma aposta no Corinthians: ver onde está o fundo do poço. 

Adendo 1: no Rio, Vasco e Botafogo têm flertado com o fundo do poço. Em Minas, mais recentemente, o Cruzeiro. Em São Paulo, dos "grandes", mesmo o Santos na segunda divisão, o Corinthians para mim é o mais forte candidato a ex-grande. 

Adendo 2: e Cássio? Para mim um dos grandes goleiros na história. Defeito? Ser fiel ao Corinthians. Sua fidelidade e como presente um final de carreira melancoóico. Palmas para a Fiel. 

HOJE, para mim, o glorioso Corinthians se apequena diante do literalmente grande Cássio.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 9

por Humberto Pereira da Silva*

 QUEM SEGURA? Sem apoio de lado algum, o rolar da cabeça
de Thiago Carpini é uma questão de tempo (Foto: Getty)

A eventual queda de Thiago Carpini exibe o quanto há de esdrúxulo nas decisões de um grande time no futebol brasileiro. Não é cabível imaginar que pessoas com o mínimo de inteligência e que ocupam a direção de São Paulo não tivessem diagnóstico das dificuldades do treinador para conduzir a equipa no Brasileirão. Mas,  passada a primeira rodada, e um primeiro fiasco contra o Fortaleza, e Carpini incrivelmente não é técnico pra um time como o São Paulo. 

Nessa "não é técnico para time do tamanho do São Paulo, o esdrúxulo. Ao demitir o técnico que podia ser demitido na véspera do Brasileirão, e assim com o técnico novo PLANEJAR a temporada, a diretoria do São Paulo acena com técnico novo passada apenas a primeira rodada. Nesse aceno, HOJE, o tamanho do São Paulo. O tamanho do técnico que foi contratado. Ou seja, Hoje, sem qualquer planejamento, um time que começa o Brasileirão com todas as incertezas possíveis. Como qualquer outro time que pulou da Série B e que, após duas ou três rodadas, troca o técnico para desviar a atenção da torcida e imprensa para a inevitável volta à Segunda Divisão.

PS. Alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que há um ano a mesma diretoria demitiu Rogério Ceni logo depois da primeira rodada do Brasileirão. Vinha de uma eliminação precoce no Paulista, para o Água Santa, e o nível de atuações não subiu mesmo com os treinos entre a queda no Paulista e o debute no nacional. Nem a vitória na Sul-americana, contra o Puerto Cabello da Venezuela, manteve o treinador. 

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quarta-feira, 13 de março de 2024

PORTUGUESA - a estupidez e a hipocrisia

Foto: x/Lusa_Oficial


*Texto originalmente publicado no NetLusa

Desde 2014 o Campeonato Paulista é disputado com a atual fórmula de disputa, variando somente o número de participantes – consequentemente de jogos por equipe – e de rebaixados. Em 2014 e 2015, eram 20 clubes divididos em quatro grupos e caiam quatro para a Série A2, ao passo que outros tantos faziam a travessia contrária. Em 2016, para chegar ao número de 16 clubes e enxugar a competição, seis foram degolados e somente dois subiram. Desde então, são quatro grupos com quatro times. Em comum, a estupidez de não haver confrontos diretos, pois não há jogos dentro da própria chave, mas os chamados clássicos entre os quatro filhos preferidos estão mantidos.

A fórmula possibilita que clubes com grandes campanhas sejam eliminados já na primeira fase e outros, com quantidades risíveis de pontos ganhos, se apurem. Tudo depende do grupo em que estiverem. E é assim desde que a distribuição por grupos foi definida. Nas 11 edições dessa forma, em nenhuma os oito melhores no geral se classificaram. Entre 2015 e 2020, Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo avançaram juntos ao menos até as quartas de final. Já são, portanto, quatro anos seguidos sem que os quatro alcançam simultaneamente os jogos a eliminar.

No ano passado, o Ituano se classificou com 12 pontos e despachou o Corinthians na fase seguinte, e esta havia sido a menor pontuação de um classificado até a Portuguesa conquistar a vaga com incríveis dez pontos, ao passo que o São Bernardo, que fez 21, ficou de fora. Foi – e está sendo – um escândalo!

A fórmula é boa? Não, não é. E é assim porque existe uma limitação de datas e é preciso garantir os confrontos entre os quatro, mas daí a ser justa essa barulheira toda? Ora, bastava ler o regulamento para saber que poderia acontecer. Aliás, bastava ler os regulamentos há 11 anos.

É mais escandaloso que os quatro filhos mais bonitos aos olhos da FPF recebam 40 milhões de reais para participarem, cinco vezes mais que cada um dos outros 12, com exceção do Bragantino, que recebe uns caraminguás a mais. Ok, é preciso que os clubes prestigiem a competição, mas essa diferença é obscena, para dizer o mínimo.

Não há injustiça alguma na classificação com este número de pontos que, na temporada passada, quase foi insuficiente para evitar a queda. Como os dois rebaixados estavam no grupo da Portuguesa, ela perdeu uma boa chance de somar mais seis pontos. Tira-se os seis que o São Bernardo somou contra Ituano e Santo André e os repasse para Lusa, em um exercício tão simples quanto safado no qual o representante do ABC e a Lusa trocam de chave, e a pontuação rubro-verde será maior. 

É estúpido? Sim, mas mais parvoíce que isso é maldizer o regulamento somente agora, mesmo tendo dez anos para notar isso.

segunda-feira, 11 de março de 2024

Cuca, Bauermann, Robinho e a ética masculina do torcedor de futebol

*texto originalmente publicado no site Ludopédio (ligar)

Protestos abreviaram a passagem do treinador, então condenado
 por estupro, pelo Corinthians (foto: Meu Timão)

Cuca foi anunciado como novo treinador do Athletico paranaense e o caso da condenação por estupro quando ainda era um jogador no início da carreira e defendia o Grêmio voltou ao centro das discussões, como era esperado. Da mesma forma, também, discutimos uma porção de coisas: se ele poderia ou não voltar a trabalhar, se pode ocupar um lugar de liderança ou idolatria, mesmo se é culpado, já que o processo foi anulado e o crime prescreveu, portanto, sem haver a possibilidade de um novo julgamento. Até sobre a legislação suíça nós palpitamos a rodo nos últimos dias, como se estivéssemos falando de trivialidades como o preço da cerveja. Falamos de quase tudo, exceto o essencial. Não falamos sobre a vítima.

Precisamos discutir a ética masculina do torcedor de futebol e o que a constrói. Atenção! Não é a ética do torcedor masculino, é a ética masculina, pois há mulheres que reproduzem o discurso machista e duvidam da palavra da vítima, suposta ou não, como se o homem não fosse o agressor, apenas uma vítima da mulher ou das circunstâncias.

É uma construção social complicada de ser desfeita, mas é necessário. As escrituras, no nono mandamento da Lei de Deus, coisificaram a mulher. O que hoje é “não cobice a mulher do próximo”, era “Não cobice a mulher. Não cobice a casa do seu próximo, nem a sua propriedade, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. A mulher era reduzida a uma propriedade.

Segundo a ética masculina do torcedor de futebol, é mais grave quando um Bauermann combina um cartão amarelo ou troca um pênalti por alguns trocados do que agredir, violentar ou matar uma mulher. Robinho, condenado por estupro na Itália, está livre a ponto de frequentar churrascos no Santos e ser tietado por um jogador que até outro dia respondia por violência doméstica.

“Ah, a moça retirou a queixa”, mesmo com farto material probatório. A retirada da queixa não significa que a agressão não existiu; a prescrição do crime não faz o estupro desaparecer.  E discute-se se o jogador estragou a carreira. “Que pena, tinha tanto potencial”. “Quem poderia imaginar? O jogador com mais títulos na história do futebol jogou sua história no lixo”. Que se lixe a história, a carreira. O valor disso é ínfimo ao pé do que destruiu.

Milly Lacombe, no UOL, questionou brilhantemente a formação do indivíduo. A mulher é educada a saber se portar, a se vestir sem provocar, a não se colocar em situações que favoreçam que seja violentada, como se seu comportamento justificasse o crime. Ao homem é ensinado a caçar e interpretar qualquer sinal de simpatia feminina como uma possível abertura de pernas. Seu capital social, e aqui reproduzo exatamente o termo que Milly usou porque não há forma melhor para se referir a isso: o capital social do homem aumenta conforme ele pega mais mulheres. Ela é a vagabunda; ele, o fodão.  

Da mesma forma que o menino espanhol chamou Vini Jr. de macaco porque reproduz o que observa no seu entorno, é ensinado que a mulher está em uma categoria inferior e deve servir ao homem, querendo ou não. Mais importante que discutir a punição e a recolocação profissional é rever como estamos educando nossas crianças, principalmente os futuros homens, para que eles não vejam as mulheres como mero instrumento para uma noite de farras, a tal travessura irresponsável, como qualificou na ocasião o colunista do jornal Zero Hora, Paulo Santana. Para o homem pode ser somente uma noite. Para a mulher, a vítima, é uma vida. É a vida dela, da família dela.

Não cabe mais repetir a célebre e infeliz frase atribuída a João Saldanha, "eu o quero para jogar no meu time, não para se casar com a minha filha", tão comum nos anos 1990, os tais anos de ouro dessa bobagem que chamamos de futebol raiz, o “futebol que respira”. Porque a mensagem é mais importante que o gol. Não é sobre ganhar ou perder, é sobre ser decente.  

E só seremos decentes quando interrompermos este processo, entendermos o valor e lutarmos de verdade para que as mulheres sejam respeitadas e tratadas como iguais.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Pílulas amadoras - 8 - O Palmeiras tem Mundial

*por Humberto Pereira da Silva

A Copa Rio. Foto: Divulgação

O Palmeiras tem mundial! A FIFA reconheceu em 2014 e documento recente ratifica: Palmeiras campeão da Copa Rio 51.

Futebol envolve paixões, gozações e jardim d'infância. Corinthianos, são-paulinos, santistas gritam: Palmeiras não tem mundial!

O jardim d'infância escamoteia, pois coisa de criança, o patético, o constrangimento, a HUMILHAÇÃO: o reconhecimento oficial da FIFA de que o Palmeiras tem mundial. 

A FIFA reconheceu, sim, a Copa Rio 51 como primeira competição internacional entre clubes. Mas, atropelos do que é tão só reconhecimento formal, burocrático, pois: não equiparou a Copa Rio 51 aos mundiais da FIFA a partir de 2000; mais, pois reconhecimento formal, o Fluminense, vencedor da Copa Rio 52, a última Copa Rio, pois, não tem mundial. 

Há um dado simbólico que as paixões, manobras de dirigentes e mesmo a imprensa fazem de conta não ver: um clube do tamanho do Palmeiras se HUMILHAR para ter reconhecido um título que nos áureos anos das academias Ademir da Guia simplesmente não tomava conhecimento e exibia seu gênio. 

Nos anos 60/70, o PALMEIRAS de Ademir da Guia e o Santos de Pelé desdenhavam a Libertadores. Uma competição na qual teriam de enfrentar a brutalidade de argentinos e uruguaios - e a complacência das arbitragens. 

Desdenhavam, portanto, um mundial que ao fim e ao cabo não movia os interesses econômicos de hoje. Santos preferia exibir Pelé em excursões pelo mundo a enfrentar argentinos e uruguaios em batalhas campais. 

O mundo gira, a bola gira, os interesses giram, interesses subterrâneos de dirigentes giram.

Simbolicamente, para mim, o que o Palmeiras perde com esse título postiço? A VERGONHA. Não se constrange ao se HUMILHAR para dizer TENHO MUNDIAL. 

Uma camisa com o peso da do Palmeiras não precisa se rebaixar a alguns gramas numa balança viciada. Mas se assim palmeirenses, torcedores, desejam com um quê de masoquismo, então: há 73 anos o Palmeiras não tem mundial; de lá pra cá o São Paulo tem três, Santos e Corinthians,  dois; nessa perspectiva, o Olimpia do Paraguai tem um (1979); logo, o Olimpia é do tamanho do Palmeiras. 

Humilhantes tentativas recentes de PALMEIRAS, Grêmio, Flamengo, Fluminense nos tais mundiais não preveem sorte diferente de outras aventuras nos anos vindouros... a bola gira, no giro, hoje, ser campeão mundial para sul-americanos como Olímpia e PALMEIRAS é obra divina, que faz Davi vencer Golias.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


segunda-feira, 4 de março de 2024

BENFICA - carapaus, tubarões e a óbvia vergonha

Nem precisa de legenda. Imagem: x/fcporto 

Tubarão em águas nacionais, dentro do ecossistema do futebol, o Benfica é um carapau a nadar em águas repletas de predadores quando vai para longe da costa portuguesa. Ponto. É preciso entender isso para perceber que raio aconteceu a uma equipa que na temporada passada tanto fez e que, agora, mal se sustenta na briga pelo título nacional.

Se o Benfica, como o Porto e o Sporting, pesca os destaques dos outros clubes portugueses, quando está às vistas das grandes ligas, perde os seus. E só há um jeito de suavizar essas perdas: planejar, antever, perceber quem vai e ter à mão quem vem, de preferência já ambientado dentro do elenco.

O livro Soccernomics mostra como o Lyon se preparava para montar seu elenco. Mandava no futebol francês, antes do PSG ser adquirido pelo fundo de investimento do Catar, mas ainda assim não tinha como fazer frente a alemães, espanhóis, italianos ou ingleses, que sempre levavam seus destaques. Então identificava quem poderia sair e já tinha sob os olhos quem chegaria. E assim foi campeão sete vezes seguidas.

Grimaldo, Enzo Fernández e Gonçalo Ramos saíram. Era óbvio que sairiam. E como foi o processo para amainar isso?

Sequer houve. Para o lugar de Grimaldo, vieram Bernat (apoquentado por uma lesão crônica desde o PSG), Álvaro Carreras e Jurásek. E nenhum deles tem características semelhantes ao espanhol que hoje brilha sob as ordens de Xabi Alonso no Leverkusen, tanto que Morato e o faz-tudo Aursnes têm jogado por ali, onde poderia estar Ristic, melhor que os outros três, mas que foi dispensado para que Jurásek fosse contratado por 14 milhões. Após perder Ramos para o PSG, cerca de 40 milhões  foram gastos com os avançados Marcos Leonardo e Arthur Cabral, mas quem joga é Tengstedt, o mais tosco deles, mas que é capaz de pressionar a saída de bola mais que os outros. E ainda havia Musa. E, para ser Enzo, chegou Kökçü, melhor jogador do campeonato dos Países Baixos na temporada passada e aposta pessoal do treinador, que queria porque queria, mesmo com fartas opções no plantel para o setor. O problema é que ele não é Enzo. 

A chegada de Di María, um dos maiores jogadores da história, fatalmente faria o time perder um pouco do poder de pressionar após a perda da bola, que era uma das armas mais fortes no primeiro ano da gestão Schmidt, forçando o treinador a encontrar soluções para amenizar o impacto e aproveitar todos os benefícios ofensivos que Fideo poderia dar à equipa. Mas isso está longe de acontecer, pois o craque argentino, aos 36 anos, tem que correr atrás de lateral e ponta e quem mais cair por ali porque não há laterais e porque a entrada de Kökçü desequilibrou o time. Não por culpa dele, mas porque Roger Schmidt é teimoso e arrogante. E não há laterais porque Gilberto, reserva imediato de Bah, foi liberado para assinar com o Bahia antes que seu substituto fosse encontrado. A aposta em João Victor para o setor mostrou-se um equívoco fácil de prever pelas suas prestações a serviço dos franceses do Nantes.

O plantel foi mal montado, mas Schmidt, que em 2022-23 mal rodava o onze, razão que forçou Lucas Veríssimo a buscar minutos fora, agora raramente repete não só nomes, mas o sistema.

Florentino, o maior ladrão de bolas da última Champions, que dava sustentação defensiva e liberava o prodígio João Neves para ser o homem mais influente, mal sai do banco. Com ele a trinco, a linha com os três médios funcionava, qualquer que fosse a composição do trio. Quando Arthur Cabral começou a entender o jogo de pressão de Schmidt, voltou para o banco, tendo cinco ou dez minutos para jogar, dependendo do placar. Para caber Kökçü, recuou João Mario para a posição de 6 (ou segundo volante) porque não quer abrir mão da calma e do critério do jogador para o achar o melhor caminho. O problema é fazer isso na cabeça de área.

E fica tudo às costas de João Neves. Perde-se tudo assim: estraga o jogo de João Mario, obriga Di María a correr como um louco, anula Rafa Silva, que quando recebe a bola as defesas já estão postas e o espaço entre zagueiros e volantes, seu habitual parque de diversões, deixa de existir porque a bola é recuperada longe do gol adversário. Neves, coitado, é obrigado a viver como Sísifo e empurrar morro acima a pedra que fatalmente voltará ao pé da montanha, e perde seu melhor, que é a pressão no campo de defesa adversário, onde rouba a bola e avança com ela ou encontra, com passes medidos, gajos com camisolas iguais àquela que veste em espaços em meio a defesas desorganizadas. 

Vieram dois clássicos: Sporting, pela Taça; e Porto, pela Liga, com a possibilidade de abrir 12 pontos de vantagem aos azuis. Ora com avançado, ora sem, o Benfica apostou em formações com o meio-campo leve demais para enfrentar duplas como Hjulmand e Morita ou Alan Varela e Nico González, de bom trato à bola e fortes no combate. O futebol, desde sempre, é a luta por espaços, e não é somente com atletas pouco afeitos à imposição física que o Benfica terá a bola para servir seus tipos mais habilidosos. Fosse mais eficaz, a goleada teria sido aplicada pelos leões, que jogaram como quiseram e só não marcaram mais porque foram perdulários. Os sinais, porém, não foram notados e o Porto, sabedor das mazelas das gentes encarnadas, jogou para juntar sua melhor característica - a agressividade - às maiores deficiências benfiquistas.

Aí Schmidt tem a desfaçatez de falar que o time se preparou da melhor forma. Desculpas, não as deve porque perder é do jogo e é preciso entender isso para tirar a carga negativa que toda derrota traz e perder, ora, não só faz parte como é um dia três resultados possíveis, mesmo que a malta que consuma o jogo - atentem-se ao verbo consumir, não por acaso escrito aqui - só admita vencer. Obviamente, ninguém entra em campo para perder. Clara também é a dependência de uma série de fatores para que goleadas como esta aconteçam entre equipas niveladas. 

Ninguém se prepara para fazer 5 a 0 em um clássico, como respondeu o treinador Rogério Ceni, do Fortaleza, após uma pergunta imbecil feita durante uma entrevista. No entanto, dificuldades além das naturais para um jogo deste tamanho eram previsíveis quando insiste-se no que deu errado e o adversário é o Porto, que é forte nos duelos, tem atacantes móveis e é rápido a atacar pelas alas, sobretudo contra jogadores improvisados e mal protegidos pelos alas ou pelos centrais, que tinham que se preocupar com os gajos de azul.

No fundo, somente um dos lados se preparou para o jogo. Sérgio Conceição minou os pontos fortes, como o espaço para Rafa e a possibilidade de Di María fazer a diagonal para bater no gol ou servir algum tipo de vermelho.

Era de se esperar, afinal.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

BRASIL - de papelão em papelão é que se faz essa gestão

ESCADA ABAIXO Trabalho de Ramon é reflexo da desorganização
e do amadorismo da CBF (Foto: Joilson Marconne/CBF)

A eliminação do Brasil no pré-Olímpico, 20 anos depois de perder o bonde para os jogos de Atenas, o último em que a seleção brasileira de  futebol masculino não foi representada, é um vexame. Mesmo com a importância relativa do futebol nos Jogos Olímpicos, o Brasil gosta de jogar e é o atual bicampeão. Logo, tinha a responsabilidade de buscar uma das duas vagas. 

E como foi o projeto? Sequer havia um. Ramon Menezes, técnico de trabalhos questionáveis em Vasco, Joinville e Vitória, colecionou mais derrotas (17) do que vitórias (12), mas mesmo assim foi escolhido pelo ex-jogador Branco, o coordenador da base, e goza da simpatia do todo-poderoso e nada entendido Ednaldo Rodrigues, presidente por acidente da CBF. Na seleção principal, foi o tampão do tampão, e só existiu Fernando Diniz porque Ramon apresentou um trabalho ruim de resultados (derrotas para Marrocos, Senegal e vitória contra a Guiné, no jogo do uniforme preto) e, sobretudo, desempenho. De volta à base, foi eliminado na fase de quartas de final do Mundial por Israel. E a cereja do bolo foi a malograda campanha em busca por Paris.

Mais ou menos como foi em 92, com um time que tinha Cafu, Roberto Carlos, Marcio Santos, Marcelinho Carioca, Elivélton e Dener, mas tinha Ernesto Paulo no comando. O mesmo Ernesto Paulo, no ano anterior, foi tampão da seleção principal no pós-Copa 1990, na primeira derrota para País de Gales. Antes, tinha sido técnico do supertime do Flamengo que venceu a Copinha de 90. Da Lusa de 91, só levou Dener.  

O time, se é que pode ser chamado assim, piorou a cada jogo, como se cada treinamento potencializasse os defeitos. Mas Ramon, com o cartel às vistas de quem quisesse, inclusive para a cúpula da CBF, fez o que se esperava dele. Recorro a Esopo: não se deve culpar o escorpião por picar o sapo. Afinal, o escorpião fez o que sabia e podia, limitado à condição de escorpião que é.

A culpa é dele? Não só. A CBF é uma zona, e a campanha da seleção principal nas eliminatórias é um atestado dessa bagunça. O pré-olímpico é tiro curto e o resultado está aí.

"Mas não se produz jogadores como antes". Mais ou menos. Mesmo sem todos os melhores jogadores da faixa de idade, o Brasil tinha John Kennedy, Pirani, Alexsander, Gabriel PEC e Andrey. Mas tinha Ramon. E só tinha Ramon porque Ednaldo Rodrigues faz o que quer, como quer e quando quer, mesmo não tendo legitimidade e competência para ocupar o cargo que ocupa.

Quanto à Argentina, está à procura de um rival no continente.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

PORTUGUESA - Joaquim e Manuel

Joaquim apostou no que acredita e perdeu. Como acredita, manteve a fé, mas perdeu novamente. Joaquim é teimoso. Joaquim é uma besta.

Manuel, por sua vez, também apostou no que acredita e, como Joaquim, deu com os burros n'água. Da mesma forma, sustentou sua posição, mas diferentemente de Joaquim, venceu. Manuel é convicto. Palmas para Manuel.

A vida é dura, Joaquim. Dura e cruel. Em condições normais, o tempo e as condições de trabalho é que devem aproximar um projeto de seus objetivos. Para resultar, depende de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo. E o essencial para tudo isso: quem possa desempenhar as funções dentro do estabelecido. Sem isso, o projeto, se é que há, vira passageiro da própria sorte.

Aí, Quim, acreditas que o que pensas é o certo. Então insistes, mas não logra. Aí, tens lá um tempo para ajustar algo aqui e acolá, mudança de características, como três gajos que marcam mais e, em vez de uma referência entre os zagueiros, dois tipos capazes de correr. Ok, são mudanças.

Mas olhe que azar, pá! Pediram para que tirasses um gajo e justamente o substituto dele é quem entrega o golo, tão caricato que faz pensar em algo errado, embora a resposta deva estar na falta de atenção de quem deveria tomar sentido no jogo. É uma má sorte do caraças, pá!

Mas aí, o que fazes? Toca a rodar a bola de pé em pé, pelo meio, e volta o raio do esférico. E tentam pelo meio. E tentam. E tentam. E nada. Isso não lhe diz nada? Algo assim: esses rapazes não estão prontos para este tipo de jogo.
 
Sabe o que diferencia um turrão de um convicto, Joaquim? O resultado. É o mesmo que faz do gajo um sujeito bestial ou uma besta. Se estudastes a história do distintivo que comandas, pá, já terás lido isso.

Na verdade, o problema nem é a falta de resultados. Se o tipo que entregou o golo não tivesse feito isso, talvez o desenho da partida tenha sido outro. Se a pancada que foi na barra dia desses tivesse saído dez centímetros para baixo, poderíamos até ter vencido. Mas se minha avó tivesse uma roda, seria um monociclo, daqueles em que palhaços andam no circo. O problema é a teimosia que faz com que não acreditemos que vás mudar.

És muito teimoso, Joaquim. Tem dado nas vistas. 
 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

PORTUGUESA - Entre a teimosia e a convicção

Divulgação/Portuguesa

Sou daqueles que consideram a entidade "Semana Livre de Treinos" uma das formas mais maldosas usadas para pressionar profissionais de futebol. Da mesma forma, como não poderia deixar de ser, tende a ser uma das muletas mais frágeis para os treinadores que comemoram a ausência de jogos para azeitar a máquina.

Por quê? Porque seis ou sete dias de treinos são insuficientes. 

No entanto, como não existem verdades absolutas, a tal Semana Livre de Treinos pode servir para determinar o rumo da Portuguesa na disputa do Campeonato Paulista. Dado Cavalcanti comemorou o fato de o clássico com o Palmeiras ter sido adiado, pois assim teria mais alguns dias para recuperar o elenco fisicamente, além de fazer ajustes necessários à equipe.

Estas correções são urgentes, ainda mais tendo em conta o escasso número de jogos restantes para o fim da primeira fase do Estadual, que é quando saberemos se os objetivos para a temporada de 2024 - e para o futuro - foram alcançados. E o principal deles é a manutenção na Série A1, de preferência com uma vaga na Série D. Qualquer coisa além disso é lucro.    

Quando Dado diz que a semana terá sido essencial para acertar o time, o que a Lusa apresentar na partida contra o São Bernardo deverá ser visto como ponto de definição para a sequência do trabalho da Comissão Técnica. Se o estilo de jogo de aproximação e passes rápidos e curtos funcionar, este período para treinamentos terá dado frutos e este será o caminho até o fim do certame. Por outro lado, se houver insistência em algo que não tem saído a contento e a eventual repetição de erros resultar em um novo revés, talvez seja o momento de agradecer pelo trabalho e desejar sorte na sequência da carreira, ou alguma despedida elegante para informar a interrupção do projeto.

Tendo tempo para acertar a casa e jogadores capazes de interpretar em campo as ideias do treinador, valeria a pena apostar neste tipo de jogo, que é legal de ver. O problema é que a Lusa não dispõe deste luxo e precisa de resultados. E precisa para ontem.

Ou então dependerá de um novo milagre para não jogar no lixo um dos elencos mais bem montados desde o inferno de 2013.   

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

CORINTHIANS - Os Trapalhões


"Uma turma do barulho aprontando altas confusões!" Poderia ser a chamada para algum filme daqueles exibidos pela enésima vez na Sessão da Tarde, mas é a diretoria de futebol do Corinthians.

Não bastassem as bravatas e os erros dignos de amadores que não sabiam que só é possível anunciar as contratações depois que o contrato estiver assinado - uma bobagem, detalhinho besta -, a mais nova é a forma desastrada e desastrosa com a qual conduziu a demissão do técnico Mano Menezes. Não só a demissão, mas a sucessão.

Ainda durante a campanha eleitoral, o então candidato Augusto Melo teve a brilhante ideia de afirmar que o treinador não era o seu favorito para o cargo. Não duvido que ele não soubesse que Mano tinha um contrato longo e protegido por uma cláusula de rescisão milionária.

Melo venceu e teve que manter o comandante, mesmo a contragosto.     

Veio a sequência de derrotas e a manjada entrevista assegurando a permanência do treinador, o que não significa nada, pois não é raro que este tipo de declaração preceda o fim do vínculo e o surrado "desejamos sorte na sequência da carreira", o que, de fato, aconteceu. 

Só que, neste meio tempo, os geniais dirigentes [contém ironia] resolveram negociar com outro treinador, Marcio Zanardi, com quem Melo e Rubão, este o homem "forte" do futebol já haviam trabalhado em outras ocasiões e que era de antemão o favorito da dupla para assumir o time, o que não aconteceu de cara por causa da já citada cláusula de rescisão do contrato de Mano Menezes.

Mano, porém, ficou sabendo e resolveu que não abrirá mão de um só centavo e que quer receber à vista. Convenhamos, é um ponto contornável, mas não deixa de ser o resultado de mais uma trapalhada da dupla. 

Aí vêm o que causa estupor: Zanardi é técnico do São Bernardo, que também disputa a Série A1 do Paulistão. O parágrafo 3 do Artigo 26 do Regulamento proíbe que um técnico conduza duas equipes na mesma competição. Quer mais? Tem mais! O parágrafo anterior exige que a substituição de um treinador só poderá ser feita depois que o contrato de trabalho for rescindido. Lembra da multa milionária? Pois é, o Corinthians só poderá inscrever um novo técnico quando a situação de Mano Menezes estiver resolvida. 

Não é necessário ser um ás do raciocínio lógico para saber que uma condução respeitosa do desligamento do treinador evitaria esse problema. Se não por princípio, ao menos por inteligência, mas ler o regulamento deve dar muito trabalho.

Pense no episódio mais engraçado do Chaves ou do Chapolin. Nenhum deles terá tantas trapalhadas quanto essas. E a gestão está só começando.