terça-feira, 25 de junho de 2024

BRASIL - Empate na conta do Dorival

Por Waldir Manoel do Nascimento*

Rodrygo lamenta chance desperdiçada (Kevork Djansezian/Getty Images)


Invicto em seu breve início à frente da Seleção Brasileira - 5 jogos com 3 empates e 2 vitórias -, Dorival Júnior parece ter sentido o peso de sua primeira partida por uma competição oficial, o empate sem gols com a Costa Rica na estreia da Copa América. Não pelo semblante à beira do campo. O comandante estava muito bem trajado com o uniforme branco que remetia a Mario Jorge Lobo Zagallo em sua última passagem como técnico do Brasil.

A impressão de que Dorival sentiu o peso da luta por três pontos vem da sua escalação e, especialmente, da demora em mudar o seu time diante de uma equipe jovem - o que traz a imprevisibilidade para campo - mas extremamente sem forças para atacar e assustar o gol de Alisson.

É justo que Dorival tenha o seu time e esquema preferido com dois (bons) volantes, como são Bruno Guimarães e João Gomes, e é justo que tente dar conjunto a este time e inicie uma competição com o que julga ser o melhor à sua disposição. Assim como é justo que ele entenda que Raphinha é hoje melhor para o time que Endrick ou Savinho. Mas também é justo discordar dele.

A forma como a partida diante dos costa-riquenhos se desenhou pedia um time um pouco mais solto, menos travado e abrindo mão da atenção defensiva de dois volantes. Não era nenhum absurdo ter um meio de campo com Bruno Guimarães, Andreas Pereira e Lucas Paquetá. Tanto Andreas, quanto Paquetá, reúnem condições de marcar sem a bola e dar qualidade quando a têm. São meias que já atuaram como segundos volantes, por exemplo, e que gostam de ter o jogo de frente. Podem jogar juntos, podem contribuir sem a bola com um único volante e podem, com a bola, ser muito úteis ao trio de atacantes.

Ao mesmo tempo, qual é o melhor tridente ofensivo? Vini Jr. e Rodrygo são titulares incontestáveis, e surge a dúvida sobre o terceiro nome. O imediatismo pede a entrada de Endrick, o que deslocaria Rodrygo - um falso 9 na formação inicial - para a ponta direita, onde atualmente está Raphinha, com a forte sombra de Savinho.

Para além das escolhas individuais e pensando muito mais nas características de cada jogador e no momento da seleção, meu titular hoje seria o Endrick. Por ser um centroavante, simplificaria o esquema, apesar de obrigar Rodrygo a seguir atuando pela direita, enquanto Vini Jr ocupa a ponta esquerda. Ao mesmo tempo, porém, Paquetá pode inverter essa posição com o camisa 10, jogando o atacante para perto de Endrick, por dentro e com Andreas armando o jogo, resguardado por Bruno Guimarães.

No melhor estilo nostálgico, Bruno Guimarães seria o 5; Andreas, o 8; Paquetá, o 10; Rodrygo, o 7; Endrick, o 9; e Vini Jr, o 11. Esta seria a minha formação para o confronto com o Paraguai, outra equipe que deve se fechar com os 11 atrás da linha da bola, na expectativa de encontrar, em um lance, a chance de marcar e se segurar ainda mais.

Pensando em classificação - e consequentemente na continuidade do trabalho do treinador -, a vitória é fundamental!

*Cosplay do maior trio de jogadores brasileiros de toda a história.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

PORTUGAL - O altruísmo, a sorte e o domínio absoluto

 Texto originalmente publicado no Netlusa

CASA PORTUGUESA A alegria está na riqueza de dar e
ficar contente (Federação Portuguesa de Futebol)
 

Já está! O primeiro dos objetivos de Portugal no Euro foi atingido já na segunda jornada do Grupo F, com a vitória por um insuspeito 3 a 0 contra uma tão perigosa quanto inocente Turquia.

Se a passividade vista na estreia ligava as luzes de alerta, a concentração para não cair na esparrela das respostas fáceis notou-se quando o onze de Portugal foi anunciado. Por muito menos, revoluções já foram promovidas depois de uma partida mal conseguida, mas a atuação cinzenta em Leipzig esteve mais ligada à abordagem ao jogo do que problemas técnicos ou exibicionais. Roberto Martinez trocou somente Diogo Dalot por João Palhinha, que era o que o jogo com os turcos, ricos de talento no setor de criação, exigia.

Assim, o trio de centrais que se esfumaçou às condições com o tchecos não retornou sequer em eventuais descidas de Palhinha ou encaixes de Nuno Mendes. Pelo contrário, uma clara e sólida linha de quatro defensores foi formada com João Cancelo e Nuno Mendes nas laterais e os habituais Pepe e Rubén Dias ao centro.

À frente, eram protegidos pelo médio-centro-limpa-trilhos que deve deixar o Fulham e pelo multifuncional Vitinha, novamente soberbo em campo. Livre das amarras da cabeça-de-área; o ataque, também municiado por Bruno Fernandes, se manteve com o trio da estreia: Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.

Diversos comentadores pediam Palhinha, mas queriam que Bernardo e Leão dessem lugar a Chico Conceição e Diogo Jota, como se as condições da primeira partida se repetissem. Não existem jogos iguais e as características do jogo da Turquia indicava dificuldades – e oportunidades – diferentes. Se os tchecos eram praticamente herméticos e mal se aventuravam no ataque, os turcos podiam até ter jogadores de qualidade inquestionável, mas nunca foi um time confiável defensivamente – já o mostrara na estreia.

Do lado turco, o italiano Vincenzo Montella poupou o ótimo Arda Guler, apoquentado por problemas físicos, mas ainda assim havia quem espalhasse perfume no Signal Iduna Park, casa do Borussia Dortmund e da temida Muralha Amarela, tingida de vermelho e branco numa proporção 4x1 em que as vozes portuguesas mal eram ouvidas.

Com Kökçü, Çalhanoglu e Aktürkoglu capazes de causar problemas, a presença de Palhinha foi essencial para impedir que a bola chegasse aos pés de Yilmaz, bem vigiado pelos centrais. Pepe, a cada lance, dava uma aula de vitalidade, posicionamento e liderança em campo. O lance, já no segundo tempo, em que desarma um abusado Arda Guler, como a dizer “tens muito o que aprender, miúdo, fez levantar o estádio em reverência à lenda brasileira que chegou a Portugal e teve que optar entre comprar uma sandes ou ligar para a mãe.

Na frente, Rafael Leão se aproveitava da companhia de Nuno Mendes para causar dores de cabeça a Çelik. O primeiro gol português nasce de uma jogada deles, em que o lateral do PSG foi ao fundo e procurou Cristiano Ronaldo, mas o desvio no pé de Kökçü levou a bola a Bernardo Silva, que bateu com gosto, com curva, com a alegria de quem marcou seu primeiro gol em fases finais de competições.

Lembram-se da sorte da estreia? João Cancelo roubou a bola no meio e deu um passe completamente disparatado para Cristiano, que desatou a ralhar. A câmera fechou no lateral e só abriu depois de que o sorriso repentino do português denunciou a trapalhada de Akaydin, que desrespeitou um dos princípios básicos do jogo: não se deve atrasar a bola ao goleiro na direção do gol. Mais que isso, recuou no contrapé, e um eventual mal-estar acabou na comemoração do insólito gol que basicamente definiu o jogo ainda antes dos 30 minutos.

A partir daí, Portugal empilhou chances de ampliar, mas viu Rafael Leão simular uma falta e receber o segundo cartão amarelo na prova, e pelo mesmo motivo. Palhinha, um dos responsáveis pela exibição em grande de toda a equipe, também foi advertido e, para não correr o risco de recolocar a Turquia no jogo, Roberto Martinez deixou ambos no balneário e voltou para a segunda parte com Pedro Neto e Rúben Neves. Havia quem esperasse Diogo Jota ou mesmo Francisco Conceição, mas o treinador quis manter o sistema com um jogador que abrisse o jogo e desse espaço para o jogo interior de Nuno Mendes, que pode ter feito sua melhor partida pela equipa nacional.

Com os turcos entregues, exceto por um ou outro fogachinho no ataque, Portugal usou o segundo tempo para gerir a partida. Logo no décimo minuto, um lance que pode marcar uma nova era: antes, a paciente troca de passes de um lado para outro do campo com o objetivo de criar espaços e desorganizações defensivas, com Nuno Mendes a buscar Bernardo Silva e este a acionar Rúben Neves, o homem dos passes teleguiados, que encontrou Cristiano Ronaldo livre, somente com o goleiro Bayindir para tentar evitar que escrevesse seu nome pela sexta vez na lista de goleadores em que já é o líder com folga, mas Bruno Fernandes estava livre ao seu lado para receber o passe do solidário CR7.

A partir daí, a missão portuguesa passou a ser fazer de Cristiano um dos goleadores do dia, ao passo que aos turcos coube tentar evitar. Assim, o jogo perdeu algum fulgor, mas serviu para demonstrar que Pepe, aos 41 anos, é um dos melhores zagueiros do mundo e que o Porto cometerá um erro terrível se não prolongar por mais um ano o vínculo com este monumento de jogador.

Com seis pontos e a liderança do Grupo F garantida, Roberto Martinez deverá usar o jogo com a Geórgia para dar minutos a quem não teve e descansar algumas pernas. É mister, porém, notar que entre o jogo de ontem e as oitavas, vão nove dias, tempo suficiente para perder ritmo de jogo. Uma revolução no onze é perigosa, pois.

O adversário dos oitavos-de-finais será um dos terceiros colocados dos grupos A, B ou C, e só o saberemos ao final da primeira fase.

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As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Foi tão bem com os pés que usou um deles para defender a única investida no alvo dos turcos;
João Cancelo: Mais uma atuação dessas e é capaz de o Guardiola pedir desculpas e chamar de volta. Façamos votos para que estejas assim até 15 de julho (Nelson Semedo: façamos assim: o Cancelo joga 60 e tu, os outros 30. E todos ficam felizes pra caraças);
Rúben Dias: “Eu é que não vou perder a vaga para este miúdo do Sporting”, terá pensado o Rúben. Segue assim, ao mais alto nível, e é capaz de seres o capitão quando o Cristiano se retirar, depois de ser o primeiro acima de 50 anos a jogar a fase final de uma grande competição;
Pepe: Foi visto no vestiário adversário devolvendo os 16 turcos que estavam no bolso ao fim do jogo porque eles ainda jogam com os tchecos (António Silva: Poderá dizer aos netos que substituiu o maior zagueiro da história do futebol português);
Nuno Mendes: O Nuno Alexandre Tavares Mendes é o único Nuno Tavares do mundo que sabe jogar como lateral. E dos bons. E se precisar, ainda é um extremo bem porreiro;
Bruno Fernandes: Não sendo brilhante, esteve ligado ao segundo gol e marcou o terceiro porque estava disponível para receber a prenda do Cristiano;
João Palhinha: Tivesse jogado além do primeiro tempo, teria sido o melhor em campo. Um polvo a esticar os tentáculos por todo o campo – ou algures havia algum turco mal-intencionado com a bola e chance de causar estragos. Quanto não esteve para cobrir, fez a falta tática perfeita que resultou no cartão amarelo (Rúben Neves: Desculpa lá pelas vezes em que disse que a falta de competitividade do Arabão deveria contar para não ser chamado. A capacidade do passe teleguiado não se perde);
Vitinha: Procure um jogador melhor que o Vitinha na Eurocopa e falhe miseravelmente (João Neves: Cinco minutos hoje, seis no próximo jogo, até a final, com alguma sorte, jogas uns 10 minutinhos;
Bernardo Silva: Já prometa ao João Cancelo que, se continuarem assim juntos, voltarás com ele para Manchester. Duvido que o mister Guardiola se oponha;
Cristiano Ronaldo: Este camisola 7 não lembra vagamente aquele outro camisola 7 que só encheu o saco no Qatar? Gostamos mais deste, que fique claro;
Rafael Leão: Já que não vais acertar o passe depois do drible mesmo, que bom que o mister meteu ao seu pé o Nuno Mendes para fazer a parte mais difícil. Mudando de assunto, tens andado a tomar dicas com o Taremi? Que mania do caraças essa de se jogar, pá (Pedro Neto: entrou para manter o desenho tático e a capacidade de errar os passes. Cumpriu à risca);
Roberto Martinez: Se ele se aprofundar na cultura portuguesa, já terá aprendido alguns clássicos, como Casa Portuguesa, que poderá ter cantado que "essa franqueza fica bem e o povo nunca desmente que a alegria da pobreza está na riqueza de dar e ficar contente", quando Cristiano ofertou o golo quase certo a Bruno Fernandes. Espero que ele saiba a Caninha Verde e não caia numa esparrela, caso pense em trocar toda a malta para o próximo jogo. Seja como for, temos um técnico.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 17

 *Por Humberto Pereira da Silva

Imagem: Getty Images/iStockphoto

Dudu é um bom jogador. Ou seja, é mediano, como tantos na história do futebol brasileiro. É de conhecimento geral o que ele simboliza no Palmeiras desde sua chegada ao Verdão, em 2015. É um dos expoentes de uma das equipes mais vitoriosas do Brasil nos dez anos recentes. 

Mas, mediano, será esquecido em alguns anos, como tantos foram. Hoje, tenho certeza, poucos se lembram de Ailton Lira (do Santos), Pita (do São Paulo), Tupãzinho (do Corinthians), Edu Manga (do Palmeiras). Tendo a crer que, como esses aqui citados, que foram ídolos nos quatro grandes de São Paulo, Dudu, mediano como eles, será pouco lembrado.

Ao contrário deles, contudo, Dudu incluiu um dado em sua biografia. Ele se envolveu num mal explicado episódio de transferência do Palmeiras para o Cruzeiro. Se seus feitos no Palmeiras são insuficientes para fazer dele um ídolo eterno, caso seja lembrado no futuro, carregará uma marca: a trapalhada absurdamente constrangedora nessa negociação.

É muita ingenuidade supor um jogador de futebol profissional jogar por amor à camisa. É praticamente um contrassenso pensar isso em um mercado periférico economicamente, como o Brasil. Um jogador de futebol profissional projeta a carreira com o horizonte em contratos irrecusáveis. São profissionais, o que significa negociar pensando no quanto podem ganhar. O clube, e eventualmente a seleção, são vitrines para receber propostas com altos valores contratuais.

Dudu, a esse respeito, não se diferencia da cultura de negociação contratual de um jogador de futebol. Mas ele se atrapalhou muito nesse episódio de transferência mal sucedida e exibiu o que se deve esconder: a ganância. Mesmo antes, quando chegou ao Palmeiras, o jogador foi alvo de uma disputa que envolveu o Trio de Ferro (além de Palmeiras, Corinthians e São Paulo), chegando a estar apalavrado justamente com o Timão, maior rival histórico dos palestrinos.

(Montagem: ge.globo)


O caso é que, bem entendido, apesar de simbolizar um momento glorioso do Palmeira nos dez anos recentes, não é a primeira vez que Dudu se enrola em negociação. Esse atual episódio com o Cruzeiro tem antecedente. Sua ida ao futebol do Catar, em 2020, com "proposta irrecusável". Não deu certo por lá e voltou para o Palmeiras.

Novamente seduzido por "proposta irrecusável", Dudu se enrosca outra vez, agora com um agravante. Ele, por livre e espontânea vontade, procurou o Cruzeiro. É o que ficou patente nas declarações dos presidentes dos clubes. 

Não é o caso, óbvio, de julgar decisão profissional de ninguém. Mas é o caso considerar os efeitos de uma má decisão. E nessa atabalhoada decisão, a ganância. Se for esquecido no futuro, sua ganância será igualmente esquecida. O contrário, não sendo esquecido, é esse mal explicado episódio será lembrado. 

A constrangedora atrapalhada de Dudu, infelizmente para ele, o exibiu nu quando todos fingem não ver a nudez. Refiro-me ao conto "A roupa nova do rei", de Hans Christian Andersen. Na cadeia alimentar regulada pelo mercado internacional de transferências, a camisa que um jogador de futebol profissional no Brasil veste é só fantasia, pois contratos com "proposta irrecusáveis" exibem os interesses que todos sabem e fingem não ver.

A ganância é defeito de caráter. Malícia para driblá-la é virtude. Vivemos num mundo de aparências.  Dudu, e o antecedente só reafirma, infelizmente não teve habilidade para driblar a própria ganância.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

Pílulas amadoras - 16

Por Humberto Pereira da Silva*

DRAMA E REDENÇÃO Contusão foi o ponto de viragem
na decisão de 2016 (Fotos: AFP/Getty)

O editor deste blogue, meu aluno Marcos Teixeira, sofreu o bom sofrer da estreia de Portugal na Eurocopa. A República Tcheca é previsível jogar atrás. Acho que a Turquia , que oferece outro tipo de dificuldade, vai propor jogo.  A natureza do jogo será outra. 

As facilidades e dificuldades de um jogo para o outro, de qualquer forma, estão sujeitas ao casuísmo que o futebol tem no nível que praticamente não existe em outros esportes coletivos: um gol em começo da partida, uma expulsão. Na final contra a França, em 2016, CR7 se machucou... 

O que pode, pode bem entendido, se tirar de positivo no jogo contra a Tcheca? O poder de reação.  A falha do zagueiro no final pra mim diz muito desse poder. Contra Marrocos, na Copa do Mundo de 2022, um gol e o jogo acabou pra Portugal. Na Euro do ano anterior, contra a Bélgica, algo parecido após o tento marcado por Thorgan Hazard.

A mim me parece que Portugal, como nenhuma outra seleção de ponta, sente o peso na hora H.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quinta-feira, 20 de junho de 2024

PORTUGAL - O vira à espanhola da tocata de Martinez

Texto originalmente publicado no Netlusa

No encontro entre dois times que não jogaram como sabem,
venceu quem tentou vencer e, ao cabo, teve mais
sorte (Foto: 
Lisi Niesner/UEFA/Getty Images)

Johann Sebastian Bach é um dos grandes gênios da música universal. Nasceu em Leipzig e uma de suas obras mais consagradas é a Tocata e Fuga em Ré Maior. Roberto Martinez, por sua vez, é espanhol. Não sei se é um fã do maestro alemão, mas já deve ter ouvido alguma tocata portuguesa com suas concertinas, bumbo, reco-recos e cavaquinhos – a castanhola é opcional.

A concertina é o principal instrumento das tocatas dos ranchos folclóricos portugueses. Quanto aos demais, é prudente que o gajo que toca o cavaquinho saiba tocar o cavaquinho, como ao senhor responsável pelo bumbo pede-se a perícia necessária para não atravessar o ritmo.

Mas que raio tem a ver isso aí com o jogo de Portugal? Ora, tudo! Basta ver como a equipe entrou em campo e perceber que, se se tratasse do conjunto que acompanha os dançarinos, os instrumentos estariam trocados. 

Prevendo uma linha de marcação capaz de pressionar a saída de bola lusa com Schick, Kuchta, Souček e Provod, Martinez escalou Portugal com três zagueiros e quatro (ou cinco) no meio e três (ou dois) no ataque. A surpresa era a presença de Nuno Mendes jogando terceiro central, pela esquerda. Assim, João Cancelo faria a ala de mesmo lado, com Diogo Dalot na direita, o que não é novidade. Quem dançou foi João Palhinha, de grande imposição física, para que Vitinha fizesse a saída de bola atrás dos marcadores.

“Jogadores mais técnicos para romper essa primeira barreira”, deve ter pensado o espanhol. 

Com a bola, Nuno Mendes avançava como lateral e Cancelo tinha liberdade para vadiar pelo meio e Portugal passava a jogar num 4-3-3 para explorar os espaços que surgiriam depois que fosse superada a primeira linha de marcação. O problema é que a República Tcheca surpreendeu, chegando a ter até seis jogadores alinhados à frente da sua área, com os outros quatro mal cruzando a linha de meio-campo, e os atacantes Kuchta e Schick só sendo assim chamados na ficha do jogo.

Vocês já devem ter visto o episódio do Pica-pau envelhecido e amassando o bico quando tentava passar uma árvore. Foi a representação perfeita de Portugal no primeiro tempo: tentava o passe em profundidade e a bola batia e voltava, muito em função de o jogo pedir o passe a rasgar para um dos da frente receber em diagonal, mas o que havia era um excesso de carregadores de bola e avançados com pouca movimentação. Vitinha desfilava, Cristiano saia da área e buscava associações e o acerto do último quase não acontecia. O melhor passador, Bruno Fernandes, estava encaixotado pela marcação e a falta de movimentação dos gajos frente não ajudava em nada.

Para piorar, a segunda bola na defesa nos poucos momentos em que os tchecos afastaram o rabo da sua linha de fundo era deles. E foi assim que saiu o gol tcheco, no início do segundo tempo: dois cruzamentos seguidos, sete dos de vermelho na área e ninguém para impedir que Provod pegasse sozinho para inaugurar o placar.

Imediatamente, Rafael Leão – que ganhava todas as jogadas e as desperdiçava, uma a uma – e Diogo Dalot foram trocados por Diogo Jota e Gonçalo Inácio, respectivamente. Portugal assumia de vez o 3-5-2, mas sem improvisações e com laterais capazes de chegar ao fundo. E o empate veio com uma boa dose de: Bernardo Silva recuou as soberbo Vitinha, que cruzou no segundo pau, onde fechava Nuno Mendes. Stanek espalmou para a frente e encontrou a perna de um infeliz Hranác - que voltaria a estar ligado ao infortúnio dos seus. E foi justamente a tempo de impedir que uma pressão maior pesasse sobre Portugal, que seguiu criando pouco e, com o tempo, com o cansaço acusando.

Não sei se Roberto Martinez confia muito nos titulares e pouco nos suplentes que ele mesmo escolheu, mas a demora a voltar a trocar jogadores por mais frescura nas pernas teria feito inveja a Fernando Santos em seus dias mais, digamos, sonolentos. Só no minuto 90 é que atirou os seus à frente. Um pouquinho antes, em nova jogada pela direita, o penúltimo dos 29 cruzamento encontrou a cabeça de Cristiano Ronaldo, que atirou ao poste e sorriu ao ver Diogo Jota carregar a recarga também de cabeça para o gol, anulado por meio peito de CR7 à frente.

Quando tudo parecia definido e nos preparávamos a voltar ao velho hábito de sacar a calculadora à algibeira – ou a caneta à orelha -, a sorte decidiu soprar a careca de Martinez novamente: Pedro Neto e Francisco Conceição, o “espalha brasas”, mal haviam entrado e decidiram o jogo na única intervenção de ambos. O extremo do Wolverhampton ganhou a dividida pela esquerda, tal como Leão teria feito, mas passou tenso para área, onde haveria um desvio, como Leão não teria conseguido fazer. Hranác se enrolou todo com a bola e ela ficou às ordens do portista, que encheu o pé e carregou Sérgio Conceição para o grupo em que somente os italianos Enrico (o pai) e Federico Chiesa (o filho) estavam: o de marcadores na Eurocopa sendo pai e filho.

No próximo sábado, dificilmente a Turquia dará tanto campo a Portugal. Também não é razoável pensar que Vitinha será suficiente para segurar Çalhanoğlu, Kökçü e Arda Guler, ainda mais com tantos turcos a viverem na Alemanha, suficientes para transformar o Signal Iduna Park em uma sucursal do inferno para alguém que se demonstrou incapaz de reagir às adversidades tão logo apareceram.

Que a tocata de Martinez esteja ensaiada e com cada gajo com o instrumento de costume.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: apanhou uma chuva do caraças à toa. Espero que tenha tomado um bagaço após o jogo. Ajuda? Claro que não, mas nunca se deve dispensar um bagaço;
Rúben Dias: de tanto esperar algo acontecer ao pé de si, foi ter do outro lado para poder justificar os minutos em campo. Calma, pá! Contra a Turquia terás trabalho;
Pepe: é sério que o Villas-Boas dispensou o Pepe e mandou voltar o David Carmo? Olha, se quiser jogar na Lusa até os 50 anos, faço questão de buscar o gajo em Cumbica;
Nuno Mendes: convém lembrar ao mister que cinco centrais foram convocados e tu não és um deles, SFF (Pedro Neto: podes mostrar ao Rafael Leão como dar continuidade sem estragar a jogada?);
Diogo Dalot: quando fores dormir, ó, José Diogo, poderias pegar uns auriculares para fixar o mantra "posso tabelar e chegar ao fundo"? (Gonçalo Inácio: onde estavas durante a semana, que o mister escolheu outro? Faça assim, sente-se ao lado dele, ande ao pé do careca e ele não se esquecerá que tu és o gajo para jogar pela esquerda);
Vitinha: o gajo de Santo Tirso não sabe jogar mal (Francisco Conceição: primeiro toque na bola na sua primeira Euro para espalhar brasas e salvar a pele do professor Martinez em seu momento Roger Schmidt);
Bruno Fernandes: "Como é, pá? Algum puto vai se movimentar ou querem a pelota ao colo, car***? F***"", terá dito o senhor Bruno Miguel quando tentou, sem sucesso, achar alguém para um passe dos seus";
João Cancelo: dizem que o mister ficou admirado quando descobriu que o João Cancelo também pode jogar, e bem, pela ala direita (Nélson Semedo: entrou para poder participar da comemoração do gol da vitória como reconhecimento por não ter reclamado que deveria ter entrado mais cedo);
Bernardo Silva: é importante explicar ao mister que o fato de teres "e Silva" em seu nome não significa que és mais que um, então jogar sozinho na ponta não deve resultar, como nunca resulta;
Cristiano Ronaldo: interessante essa tática de bater um recorde por vez: primeiro, jogar em seis edições; depois, marcar em seis edições. Era bom já ser com os turcos, pá; 
Rafael Leão: que seja providenciada uma lousa na concentração para que o Rafael Alexandre escreva cinquenta vezes "Devo olhar antes de passar a bola e buscar algum gajo com uma camisola igual à minha" (Diogo Jota: o tipo de atuação em que bastava acertar o nome de um companheiro para faze mais que o que saiu);
Roberto Martinez: experimente perguntar à malta em que posição eles jogam antes do treino, SFF. 

segunda-feira, 17 de junho de 2024

BRASIL - O desinteresse pela seleção brasileira: reflexões sobre Cultura, Política e Economia do futebol

(Foto: Divulgação/Conmebol;UEFA)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

A Eurocopa começou e, com ela, emergiu a radicalização do discurso nas redes sociais contra os "colonizadinhos" que se interessam mais pelo futebol europeu do que pelo futebol-penta-campeão-do-mundo-aqui-é-brasil-com-muito-orgulho-com-muito-amor, uma releitura moderna da “síndrome de vira-lata”. É dever afirmar que “radicalização” e “redes sociais” são praticamente irmãos siameses, mas as disputas simultâneas de Eurocopa e Copa América devem potencializar essa polarização.

Sugiro que tentemos aprofundar o debate e fugir de respostas fáceis: por que a seleção não desperta o mesmo interesse de há 20 e poucos anos? Por que muita gente prefere um rival, como a Argentina? Por que reclamam quando jogadores de seus clubes são convocados?

Eu, que tenho ascendência portuguesa e me identifico como torcedor da seleção de Portugal, não sou exemplo de nada, tampouco sirvo para explicar qualquer tendência neste sentido. Além da minha origem, existe o aspecto cultural, e pesa a safadeza feita em 2013 com a Portuguesa, clube do qual sou torcedor e era assessor de imprensa à ocasião. Isso fez com que eu enterrasse de vez qualquer simpatia por qualquer coisa que tenha a chancela da CBF (exceto o futebol feminino, que não tem a devida atenção de todos os setores que atuam no futebol).

A mesma CBF, desde que repassou o direito de negociar os jogos da seleção para empresas de marketing esportivo, que passaram a levar a maioria dos amistosos para o exterior, afastou o torcedor (entre 2000 e 2019, foram disputados 135 amistosos, dos quais, 112 no exterior). Ainda assim, quando joga em território nacional, o preço é proibitivo. Para se ter uma ideia, em outubro do ano passado, quem gastou menos para ver o Brasil levar um gol de bicicleta da Venezuela na Arena Pantanal pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 terá desembolsado R$200,00 caso tenha tido direito à meia-entrada. O preço cheio variou entre R$400,00 e R$600,00 – pouco menos da metade do salário-mínimo vigente em 2023 (R$1.320,00). Aqui mesmo, publiquei uma comparação dos custos para um torcedor ver o jogo de sua seleção no Brasil e em Portugal.

O recente incremento financeiro no futebol brasileiro fez com que alguns atletas selecionáveis possam permanecer no Brasil, mas isso não significa que os clubes tenham fôlego para segurar seus principais talentos. Por outro lado, trouxe o inchaço do calendário, que recebe cada vez mais jogos e impede que haja, por exemplo, uma pré-temporada minimamente decente. Diferentemente do que acontece na Europa, o futebol daqui não vai parar durante a competição de seleções. "Ah, quando há jogo da Seleção, os clubes não jogam”. Sim, jogam, mas no dia seguinte. Então, desfalques irão ocorrer do mesmo jeito. E a culpa de uma eventual derrota será da seleção, já que ninguém tem a dignidade de assumir os próprios erros. Convenhamos: é fácil tacar pedra na Geni.

Outro ponto que traz chateação é o chamado "vírus-FIFA" (lesões ocorridas em jogos das seleções), essa ideia rasa que tenta convencer que os jogos entre selecionados, e não esse monte de competições de clubes, são os excedentes. Reitero: é confortável para dirigentes e treinadores transferirem a responsabilidade. Além do mais, está assim, ó, de torcedores que adoram achar que seu time está sempre contra-tudo-e-contra-todos, numa cruzada antissistema que só existe na cabeça vazia dessa malta.

Repito, não tenho a intenção de responder todas as questões ou passar o que penso como verdade inquestionável. Outros pontos que me escapam podem e devem ser considerados para ajudar a explicar esse afastamento.

A obrigação doentia de vencer a qualquer custo e que se lasquem os métodos que podem aproximar projetos de conquistas também não ajuda. Assim, muitos treinadores daqui adotam posturas defensivas porque precisam satisfazer a sanha do torcedor barulhento, alimentada por um sem-número de debates mais barulhentos ainda, para manter seus empregos. Boa parte da mídia também tem culpa no nível do futebol praticado e dos programas apresentados, que às vezes resvalam na indigência. Sequer temos uma escola tática, um estilo próprio, e isso tem influência direta do que é praticado lá fora.

Neste sentido, o período sem títulos nas Copas do Mundo diminui o interesse do torcedor que aprendeu que só quem vence é digno de respeito e os outros são um bando de fracassados. Não basta ganhar outras competições, como as continentais ou a Olimpíada, tem que ser o dono do mundo. Desde a primeira conquista brasileira, em 1958, o maior jejum de títulos correspondia a cinco edições, entre 1974 e 1990, igualado em 2022.   

A popularização das ligas estrangeiras também causa consequências no nível do nosso jogo, como se fosse simples emular o que é feito na Europa. Para isso, precisaríamos entender os conceitos, assimilar e dar tempo para que os trabalhos possam amadurecer. É como querer construir uma casa a partir do teto. Em vez disso, meia-dúzia de jogos bastam para definir se fulano ou cicrano servem – normalmente não servem. E essa histeria é alimentada pelos repetitivos programas de debates e suas "sensacionais e originais" enquetes para ouvir a "voz do torcedor". Como só vencer serve, criamos uma geração de consumidores, não de torcedores, que gritam "não pago meu sócio-torcedor pra isso!”

A facilidade para acompanhar campeonatos muito melhores também não ajuda, quando comparados com o que é praticado aqui. Então, a molecada que cresceu ouvindo que só a vitória interessa, vai gritar "meu City, meu PSG, halla Madrid!" Ou outro fortão da vez, pois isso também muda. Ou alguém vê mais camisas do Milan, febre da primeira década desse século, quando tinha brasileiros inquestionáveis na seleção, como Kaká, Cafu e Dida, do que de um desses endinheirados da vez?

Aí, criamos outro tipo de torcedor: o que torce pelo seu jogador preferido e leva uma leva de gente para onde for. Messi e Cristiano Ronaldo – e Neymar também bateu aí – são os expoentes dessa modalidade. Notem quantas camisas do Inter de Miami e do Al Nassr estão sendo expostas por aí, sobretudo nas crianças. E isso acaba refletindo também no futebol de seleções. Ao cabo, os candidatos a ídolos brasileiros não esquentam lugar, nem criam laços com clubes daqui, e muita gente não se sente representada, nem é brasileira-com-muito-orgulho-com-muito-amor.

Há outro ponto importante na comparação entre Copa América e Eurocopa: como o produto é trabalhado - e não adianta encampar o ódio-eterno-ao-futebol-moderno. É lidar, como diz-se em Portugal. A partir daí, entender como valorizar a competição como produto. Na sua coluna no Guia da Copa América e da Eurocopa da Placar - mesmo tratamento para ambas, mesmo espaço, bola dentro! -, o jornalista Vitor Sérgio Rodrigues fala, e bem, do desgaste causado pela exposição exagerada da Copa América, a ponto de ser banalizada. A Euro, uma mini-Copa do Mundo, é feita para ser exatamente isso. A competição da lamentável Conmebol - não que a UEFA seja muito melhor, mas sabe trabalhar - caminha para ser mais respeitada. Estabilizar o intervalo entre as edições é um dos passos pais importantes. 

Portanto, cada um que acompanhe o que quiser, sem essa de rotular sem contextualizar porque é mais fácil. Esta Copa América, que a Conmebol entregou para os Estados Unidos colocarem em gramados cujas dimensões são diferentes do que veremos na próxima Copa do Mundo (enquanto a Eurocopa é organizada como a própria Copa do Mundo), tem como maior atrativo ser provavelmente a última competição de Messi pela Argentina.

E todos somos responsáveis por isso.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 15

Por Humberto Pereira da Silva*

O CUME DA DESGRAÇA Vasco foi o time mais citado por torcedores
que apontaram os favoritos ao rebaixamento em pesquisa
 Quaest/CNN/Itatiaia (Foto: Leandro Amorim)


O Brasileirão, entre chuvas, trovoadas e enchentes, aproxima-se de seu primeiro quarto e duas coisas se podem extrair do que se viu: 

Primeira: Internacional, Bahia, Botafogo, Flamengo e Athlético visitaram a liderança em sete rodadas incompletas. Só mesmo o PVC pra ter dados assim na ponta da língua. Não tenho lembrança de outra temporada com tantas equipas liderando e oscilando de uma rodada pra outra da primeira à quinta ou sexta posição.  

Segunda: alardea-se os "perigos" que correm Fluminense, Vasco e Corinthians na zona de rebaixamento. Novamente teria de consultar PVC. Não tenho lembrança de primeiro quarto de Brasileiro com favoritos para o rebaixamento: Cuiabá, Vitória, Atlético-GO e Criciúma. 

Além desses favoritos, o Juventude corre por fora. Fluminense, Vasco ou Corinthians precisam de boa dose de sorte - não será por falta de merecimento - para que um deles caia.

Claro, água e mais água passa embaixo da ponte. A Copa América vem aí.

N.E: no amontoado de jogos que convencionou-se chamar de Calendário do Futebol Brasileiro, a competição nacional não para para a disputa da Copa América. Poderia usar o velho bordão "durma-se com um barulho desses", mas a malta nem sabe o que seria cochilar em silêncio, quanto mais dormir. Já é costume, pois.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

PORTUGAL - A melhor versão é a de sempre: a que tem Ronaldo


UM DIA COMO OUTROS QUALQUER Em Aveiro, aquele que tem Aveiro
no nome fez história outra vez e sepultou as dúvidas
sobre seu papel no Euro (Foto: Gualter Fatia)

"Cristiano Ronaldo atingiu uma marca histórica…” Esta crônica começa como tantas outras desde que o maior artilheiro do futebol de seleções de todos os tempos colocou na cabeça que não anda atrás dos recordes, são estes que o perseguem. Contra a República da Irlanda, contra quem já havia eternizado seu nome como o maior artilheiro de equipes nacionais nas eliminatórias para a Copa de 2022, o capitão chegou a incríveis e inimagináveis 130 gols com a camisa das Quinas, além de ser o primeiro da história, segundo informou o ótimo Leonardo Bertozzi durante a transmissão, pela ESPN, a marcar em 21 temporadas seguidas em jogos de selecionados nacionais.

Não é pouca coisa. Como também não será pequeno aquilo que ele deverá alcançar, de hoje a oito, quando Portugal estrear na competição, contra a Chéquia, caso nada fora do normal ocorrer até lá: estar em campo em seis edições. Não só não é para qualquer um, como ele será o único até então.

Se havia alguma dúvida sobre ele estar no onze inicial, esta dissipou-se no belíssimo e praticamente inútil Estádio Municipal de Aveiro, cujo costumeiro mandante anda a rastejar-se no quarto escalão do futebol nacional. E não foi o CR7 de costume, também porque o jogo pedia que não o fosse.

Roberto Martinez trouxe preocupações por causa da permeabilidade que a defesa apresentou nos últimos quatro jogos, contra Suécia, Eslovênia, Finlândia e Croácia. Por isso, e porque tinha Pepe de volta ao menos por meio tempo, armou o time com um trio defensivo de raíz, com o monumental zagueiro ladeado à direita por António Silva e à esquerda por Gonçalo Inácio, numa inusitada mistura de Benfica, Porto e Sporting, pelo menos enquanto por lá estiverem.

Em vez de Palhinha, João Neves na vértice mais recuado do losango, tendo à frente Bruno Fernandes e, nas alas, Diogo Dalot e João Cancelo, com papéis diferentes em cada lado do campo: o primeiro a abrir e a buscar combinações com Bruno Fernandes e o outro, centralizando para Rafael Leão atacar os adversários como se estivesse a correr numa savana. João Félix e Cristiano, sem posicionamento fixo, tinham liberdade para tentar combinações, com a diferença do (bem) mais jovem ser imbuído de obrigações defensivas para atrasar um bocado a saída de bola irlandesa.

É o ônus de ter Cristiano na equipe: não haverá pressão para tentar retomar a bola o mais perto possível do gol adversário. Por outro lado, Portugal com Cristiano tem o que mais ninguém tem ou teve: o próprio Cristiano. E o melhor: numa versão mais solidária, jogando para o time, não tentando resolver sozinho. E nem poderia ser assim, com tantos pés pensantes juntos.

Félix, que havia roçado a inutilidade contra os croatas, fez um grande primeiro tempo e foi premiado com um belíssimo gol segundos depois de ter visto um, também muito bonito, negado pelo goleiraço do Liverpool, Kelleher, depois de boa trama que envolveu Dalot e Ronaldo, que parou na trave em cobrança de falta que desviou na barreira, além de reclamar um pênalti não marcado.

A segunda etapa chegou com mudanças (Dalot e Cancelo por Semedo e Nuno Mendes, Pepe por Danilo, João Félix por Rúben Neves e Rafael Leão por Diogo Jota). A presença de Rúben Neves fez com que o outro Neves tivesse companhia no papel de marcador no meio e acabou com o fogo que vez ou outra aparecia pelo lado dos bebedores de cerveja e liberou Bruno Fernandes, o que faria com que qualquer time do mundo ficasse mais forte.

As férias fizeram bem a Rúben Neves, que deu um passe teleguiado de 30 metros (com margem de erro de cinco metros, para mais ou menos, que seja) para Ronaldo tirar um defensor cujo nome eu não sei duvido que ele saiba depois do que se passou e atirar com efeito, no ângulo e de esquerda, numa obra de arte que faz por merecer estar entre os cinco mais bonitos dos 129 até então. Este número durou por 10 minutos, quando Diogo Jota tirou a bola de um contrário com uma facilidade constrangedora e deu de trivela para o 130, também de esquerda.

Mesmo com muitos reparos a serem feitos na defesa, sobretudo na saída de bola, cujos erros podem ser fatais contra equipes não tão mansinhas no ataque como a Irlanda, é provável que Roberto Martinez tenha encontrado a melhor formação na volta do balneário. Aí, não se trata dos nomes, e sim do papel que cada um desempenhará, principalmente um certo senhor que, mesmo praticando um futebol altruísta muito raro para os seus padrões, não deixou o faro de gol na Arábia.

***
As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: podia ter aproveitado a noite para assar umas castanhas ou defumar um chouriço. Ou então gritar para alguns cabrões pararem de errar passes no campo de defesa;
António Silva: está até mais fortinho, o gajo. Ouvi dizer que ganhou oito quilos de músculos. Só falta jogar sem essa cara de criança para poder assustar os contrários. Podia pedir umas dicas ao Pepe;
Pepe: quando não anda às cacetadas, é um monumento de jogador, mesmo jogando com medo de se machucar. Nessa idade é difícil, eu sei (Danilo Pereira: espero que essas atuações bisonhas sejam para que o mister ocupe a cabeça com problemas mais difíceis de resolver, como o Rafael Leão aprender a passar a bola ou o Gonçalo Inácio não atravessar a bola na frente da própria área quando por lá estiverem alguns gajos com camisolas diferentes das dele);
Gonçalo Inácio: uma ou outra rateada na primeira parte. Impecável na segunda, quando os irlandeses pararam de atacar;
Diogo Dalot: nota-se a alegria de quem não precisará voltar para Manchester nos próximos dias. Que isso ajude a esticar a estada na Alemanha até o dia 14 do mês que vem (Nelson Semedo: até lembra aquele gajo que apareceu no Benfica e depois não jogou em sótio nenhum. Qual era o nome mesmo? Nelson? Isso, esse mesmo);
João Neves: querido João, faça o favor de não mostrar este futebol soberbo na Eurocopa, ou acontecerá a ti o que ocorreu ao Renato Sanches. Não, não falo da carreira deitada fora pelas lesões, e sim de uma transferência que faria o Benfica gastar todo o dinheiro com jogadores que não precisa (Matheus Nunes: entrou para desenferrujar um bocadinho a mais, já que o Guardiola usa pouco);
Bruno Fernandes: o gajo não joga mal nem se tentar; 
João Félix: ora veja! Um grande jogo do Joãozinho! Como todos em que não era preciso ajudar na marcação. Pena que na Euro não haverá partidas assim a partir dos oitavos (Rúben Neves: disseram que não deveria ser convocado por jogar contra camelos mancos. Ele, com o orgulho de quem foi o capitão mais jovem da história do Porto, resolveu mostrar que também pode jogar contra irlandeses, o que é praticamente a mesma coisa);
João Cancelo: quando estiveres à esquerda, cochiche ao Rafael Leão que é aconselhável olhar para onde quer meter a bola antes de tentar fazê-lo (Nuno Mendes: mais um jogo em grande, mais um jogo sem sair lesionado. Como faz bem ficar longe dos preparadores físicos do PSG);
Cristiano Ronaldo: associativo e solidário. Nem parecia aquele gajo que deitou tudo a perder em 2022 porque Fernando Santos estragou seus planos de mostrar a língua ao Ten Hag. Viu como é possível jogar pela equipa e marcar golos?
Rafael Leão: é o Sandoval Quaresma português: faz tudo certinho até chegar ao momento do 10. Depois é o que se viu. Resolveria olhar antes de passar a bola (Diogo Jota: se vais convencer o mister que deves ser o titular, que sigas a fazer isso durante a competição).
Roberto Martinez: já que a versão avassaladora voltou das eliminatórias voltou, fica a pergunta: e nos jogos contra os que não são fraquinhos? Na Euro, para a primeira fase - e contra os ingleses -, o que temos visto, dá. 
 

domingo, 9 de junho de 2024

PORTUGAL - o rei está nu – e é preciso se vestir logo

ALERTA LIGADO Primeiro teste a valer desnuda deficiências defensivas e mostra que ainda há muito a se fazer se a ideia não for voltar da Alemanha ao cabo de três ou
quatro jogos 
(Foto: Rodrigo Antunes/ Lusa) 

“Um jogo muito positivo para a nossa preparação”. Eis a definição de Roberto Martinez na coletiva de pós-jogo do Portugal 1 a 2 Croácia. O mister está a ver o copo meio cheio. Eu vejo o copo rachado. Principalmente se o este for usado como foi e contra quem foi.

A Croácia, desde que o mundo é mundo, tem um time talhado a ter a bola no pé e fazer o tempo correr mais devagar quando a tem para si. Modric, Kovacevic, Brozovic. Todos com talento para fazer o jogo andar em ritmo lento, e quem quiser que corra. Já Portugal se apresentou, creio eu, com um time mais próximo do que Martinez espreita para a estreia, com Palhinha à frente dos centrais, Vitinha e Bruno Fernandes a serem quem deve fazer a bola chegar à frente, onde o tridente ofensivo era composto por Bernardo Silva, Gonçalo Ramos e João Félix.

Como os Made in Seixal buscam o jogo interior, a ideia era abrir espaço para as descidas de Diogo Dalot e Nuno Mendes. O problema é que estes nunca conseguiram pisar estes lados do campo e a disputa ficou toda no meio, onde justamente a Croácia faz o que quer, como quer e quando quer, e contra quem quer que seja. Basta que existam condições para seus mais graúdos talentos possam desfilar.

A passarela atendeu pelo nome “relvado do Jamor”.

Tudo bem que o pênalti, que de tão estúpido não deveria ter sido marcado, justamente porque Vitinha não o cometeu, condicionou o jogo, mas o fato é que a primeira parte da turma lusitana foi algo que roçou a indigência dos piores momentos vistos daquele período infeliz entre o pós-Copa de 1986 e a afirmação da geração bicampeä mundial júnior, quando, com muita boa vontade, Portugal era daquelas seleções que hoje estariam entre os grupos C e D da Liga das Nações.

Não fosse por Diogo Costa, e aqui está um dos motivos que fazem o mister tirar algumas notas positivas, e o primeiro tempo terminaria com a vaca lusitana já deitada. A segunda parte pedia mudanças para além do planejado para dar minutos à toda a gente – exceto o Rui Patrício, que deve ser um bom contador de anedotas no balneário.

Depois do recreio, o time das Quinas voltou com alterações: os dois laterais, que nem pareciam ter entrado, sairam, rendidos por Semedo e Cancelo; o desastroso, indolente e desatento João Félix também ficou no balneário, fazendo companhia a Gonçalo Ramos, que destes pode ser o único a se considerar uma vítima das circunstâncias ou do sistema que aglutina jogadores com características de posseiros da bola, mas nenhum com rasgos para fazer as funções diferentes que cada quinhão do relvado exige. Diogo Jota e Rafael Leão foram lançados e nos pés deles residiu boa parte da melhora do jogo de Portugal, não pelo sistema apresentado, mas pelas características dos executantes.

Três foram os minutos necessários para que os lusos igualassem as coisas. Semedo fez o que Dalot não conseguiu e mostrou-se uma opção fiável para Martinez, o que talvez não seja necessariamente uma boa noticia. Mas foi ele quem se apresentou para receber passe açucaradinho de Bernardo Silva e deixou Diogo Jota livre para somente encostar a bota na bola, a poucos passos da linha do gol.

E isso deveria fazer com que o sentido do jogo mudasse. Mas essa igualdade durou menos que a do primeiro tempo. Meia dúzia de minutos depois, o recém entrado Pašalić soltou o sapato da entrada da área, na recarga de um cruzamento que João Cancelo achou por bem meter a cabeça numa bola em que o pé, qualquer um, estava mais à mão. Diogo Costa quase acrescentou mais uma defesa daquelas que o Vitor Baía não faria (a maioria delas, pois), mas a bola foi com estrondo à barra e Budimir recolocou os enxadrezados à frente.

O melhor período de Portugal veio a seguir. Insinuante, incisivo, pressionador, empurrando os adversários contra as cordas. Em pouco menos de 10 minutos, criou-se mais que na primeira parte – e naquele período entre a segunda metade de 1986 e 1992. Mas foi sol de pouca dura e a partida voltou a ser simpática aos croatas, que estiveram mais próximos do terceiro do que de sofrerem o empate, que ainda esteve por vir nos remates de Pedro Neto e Rúben Dias.

Para terça-feira, no Aveiro, há a Irlanda do Norte no derradeiro teste antes da Euro. Roberto Martinez, se não houver alguma questão física a apoquentar alguém, deverá levar a campo o onze que imagina para a estreia, contra a Chéquia, no próximo dia 18.

A primeira derrota de Portugal para a Croácia, seja como for, deixa alertas que chegam a tempo: i) de nada serve ter uma riqueza tática se não for escolhida a estratégia mais adequada (como tentar tirar a bola do meio-campo quando um gajo chamado Modric está com uma camisola diferente daquelas que seus comandados vestem); ii) se o Pepe não puder jogar, e oxalá jogue, Gonçalo Inácio não é o central mais adequado para fazer companhia a Rúben Dias porque não está habituado a jogar somente com um central ao seu lado, e os espaços que deixa entre si e o lateral esquerdo, seja ele quem for, mostram isso, além da dificuldade de fazer a recomposição defensiva nestas condições, ainda mais quando a bola for perdida em zonas mais altas do campo; e iii) agradeçam aos croatas por fazerem as vezes do miúdo do conto do Hans Christian Andersengritarem que o rei (que venceu 10 em 10 nas eliminatórias, contra ninguém, e sofreu apenas dois golos – e já lá vão oito em quatro jogos após a fase de apuramento, dois em cada) anda com o rabo de fora.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: ser o melhor da equipa indica que as coisas correram bem, mas só para ele;
Diogo Dalot: só não achou que estava no United por causa da cor da camisola (Nelson Semedo: ganha cada vez mais confiança pela seleção nacional, mas essa não é uma boa notícia);
Rúben Dias: ó, Gato, tens 10 dias para mostrar ao Gonçalo Inácio como é que se joga sem ser a três centrais;
Gonçalo Inácio: é sério que o Ruben Amorim nunca te ensinou a jogar numa linha de quatro?
Nuno Mendes: saudade do Clermont, né, meu filho? (João Cancelo: já gostei mais de ti, Joãozinho. Se calhar, mostre ao mister como jogavas antes de ter a brilhante ideia de ser refilão com o Guardiola);
João Palhinha: ó, João, digas ao mister, SFF, que não é porque tu tens oito nomes que deves bastar para marcar toda a gente que estiver a vestir uma camisola diferente da tua. Duvidam que são oito? O gajo se chama João Maria Lobo Alves Palhares Costa Palhinha Gonçalves. Estou a mentir ou o quê?;
Vitinha: não é porque o João Palhinha tem oito nomes que deve bastar para marcar toda a gente que estiver a vestir uma camisola diferente da vossa. Mas jogaste bem a segunda parte (Matheus Nunes: chegaste a tempo de fazer mais que o João Félix. Só ter calçado as botas corretamente já bastava);
Bruno Fernandes: podias imaginar que estás no United e arriscar um pontapé de fora de vez em quando. Pela primeira parte miserável, dava até pra achar que o careca no banco era o Ten Hag (deu lugar a Pedro Neto, que promete fazer barulho na Euro. Só não pode ser quando todos estiverem a dormir. Não, a dormir mesmo, não como na primeira parte);
Bernardo Silva: quando o mister mandar que fiques aberto do lado direito, faças o favor de dizer que o português dele é incompreensível. Não é, sabemos, mas também não dá para entender que raio tu fazes por lá;
Gonçalo Ramos: vamos fazer um acordo? Voltas ao Benfica, pegas ritmo de jogo e aí serás o substituto do Cristiano quando ele se retirar, depois da Copa de 2030 (Diogo Jota: a sério e com ritmo, é o avançado mais completo do plantel. Quem sabe na próxima Euro?);
João Felix: definitivamente, não era jogo para o João Félix. A propósito, faz tempo que os jogos não são para ele (Rafael Leão: era bom aproveitares esses dias em Portugal e ter com o Quaresma para perguntar como ele acertava os passes dentro da área. Tenho certeza que ele lho dirá);
Roberto Martinez: ó, Fernando Santos, és tu?