terça-feira, 31 de maio de 2016

Zizou e o reparo histórico

por Vinicius Carrilho*

SEGUNDA Zidane entra para o seleto grupo de campeões
 como jogador e treinador (Getty Images)
A vida é um eterno ciclo de erros e acertos. Por melhor que seja a intenção, todos nós, em algum momento, cometemos erros. Aliás, há quem acredite que durante toda a nossa existência, mais erramos do que acertamos e esta é uma regra vital que atinge a todos, dos gênios ou relés mortais.

Zinedine Zidane foi gênio em sua arte. Com uma elegância e simplicidade que só é possível ser executada com muita complexidade, o eterno camisa 5, digno da categoria de um 10, encantou o planeta com seu futebol durante mais de uma década. Merecedor de aplausos em grande parte do tempo, Zidane também errou e guardou o mais marcante deslize para aquele que seria, ao menos naquele instante, seu último grande ato no sagrado palco de grama verde.

TRISTE EPÍLOGO A despedida que ninguém queria (Peter Schols/AFP)
Em 09 de julho de 2006, um domingo, sua comum e encantadora genialidade deu lugar a um desconhecido e assustador gênio forte. Ao invés de mais um inacreditável lance de habilidade com os pés, aos 05 minutos do tempo extra da final da Copa do Mundo da Alemanha, diante da Itália, Zidane desferiu uma inimaginável cabeçada em Marco Materazzi. Houve justificativa para aquilo, assim como aconteceu um posterior pedido de perdão, mas naquele momento, em seu gran finale, Zidane saia de cena, no fechar das cortinas de sua carreira, sendo expulso do espetáculo. Logo ele, um gênio, que tanto acertou e que tantas vezes deve ter sido convidado para mostrar mais um pouco de sua arte, naquele momento era convidado a se retirar do seu habitat natural e por um erro exclusivamente seu.

É claro que aquele ato, completamente impensado pela mente que tantas vezes criou jogadas impensáveis, de forma alguma apagaria o que fez o francês ao longo de sua vitoriosa carreira. Porém, também é verdade que tudo o que foi feito não serviria de desculpa para excluir da história aquele erro. Além disso, o fato de ser aquele seu último grande ato, a última cena, o apagar das luzes, deixava a situação ainda mais triste e obscura.

Porém, o tempo, conhecido como o senhor da razão, haveria de agir e, com a calma que lhe é peculiar, cumpriu seu papel. Três mil seiscentos e sessenta e um dias depois, em território italiano, terra daquele que o levou ao maior erro de sua carreira, Zidane triunfava. Naquele sábado, 28 de maio de 2016, o francês não aparecia como a grande estrela da constelação, mas era o astro guia que comandava toda a órbita daquele Real Madrid, time que assumirá cinco meses antes, totalmente devastado pelo meteoro Rafa Benítez.

Na hora em que o pênalti batido por Cristiano Ronaldo ultrapassou a linha do gol defendido por Oblak, a história de Zidane se alterou, bem como a da França, nação pela qual ele errou, mas que também muito sorriu a suas custas. Ali, o país mais uma vez comemorava uma conquista ao ver seu primeiro técnico campeão da UEFA Champions League e ele era Zinedine Yazid Zidane, que também comemoraria no mesmo instante seu primeiro título como treinador.

Não, seu erro não foi apagado e, obviamente, jamais será. Mas, em sua biografia foi adicionada uma nova cena final, muito mais condizente com todo o restante da trama. O novo final, desta vez feliz, não foi uma alteração inescrupulosa de todo o enredo, mas sim um reparo histórico que Zidane merecia por tudo que fez. Ele, dono de uma elegância ímpar, não poderia, de forma alguma, ter em sua última cena um ato tão rude, típico dos brutos.


NO LUGAR CERTO Zidane recuperou um time recheado de craques, mas desacreditado
 e desmoralizado sob o comando de Rafa Benitez (AP)
Quando aquela bola passou a linha, o último ato de Zinedine Zidane deixou de ser uma agressão na final do maior campeonato do mundo e passou para uma conquista, desta vez como treinador, do maior campeonato de clubes do planeta. O futebol, meus caros, não é justo, mas seus deuses parecem ser. Ainda bem para nós, ainda bem para Zidane, ainda bem para a história.

* Vinicius Carrilho tem 24 anos, é jornalista, morador
de Osasco e gostaria de ganhar a vida fazendo
humor, mas escreve melhor do que conta piadas.

sábado, 28 de maio de 2016

A sede de Cristiano Ronaldo

Terceira vez campeão (Imagem: Instagram do jogador)
Cristiano Ronaldo é campeão pela terceira vez da Liga dos Campeões. De antemão, já aparece como favorito para faturar pela quarta vez o prêmio de melhor do mundo dado em conjunto pela FIFA com a France Football. Pela quarta vez consecutiva, ele foi o artilheiro da competição, atingindo o patamar pela quinta vez (já havia sido na temporada 2007-08), e igualando Messi no quesito. De quebra, com os 16 tentos que anotou nesta temporada, chegou a 93 no total, só pela Champions, onde reina absoluto na artilharia. Como se não bastasse, ele é o primeiro jogador da história do futebol europeu a superar a marca de 50 gols por seis temporadas consecutivas.

Os números não deixam dúvidas: Ronaldo é um obcecado por marcas e gols. Mas até que ponto isso é saudável?  

O português, dividindo as atenções entre a disputa do Espanhol, onde brigou até a última rodada com o Barcelona, e a competição europeia, atingiu o limite do esforço físico. Já havia sido assim em 2014, ano em que foi campeão europeu, artilheiro, recordista de gols na mesma edição e melhor do mundo. E chegou em frangalhos à Copa do Mundo.

Não é coincidência que seu desempenho tenha estado tão abaixo do seu nível habitual no gramado do San Siro nesta decisão. Cristiano, a despeito do estupendo preparo físico, não é de ferro e também já não é nenhum puto de 23 anos. Com mais de 30, precisa dosar melhor as energias, gastas em demasia para manter o ápice do golos anotados em quantas competições disputar. Em La Liga, era o goleador com folga até o uruguaio Suarez desembestar na reta final e, com 14 gols em cinco jogos, superá-lo por quatro.

Quem assistiu às partidas do Real Madrid nesta época pode ver o quanto ele lutou para manter o estatuto de goleador da prova, sobretudo em goleadas já desenhadas, e como ficava irritado quando desperdiçava chances claras ou mesmo quando a bola não lhe era passada. 

Desnecessário. 

Teria sido muito mais útil aos merengues se se poupasse nestes momentos, se deixasse de dar piques de 20 metros aos 47 minutos do segundo tempo quando o placar já anotava quatro, cinco ou seis gols a favor do Real Madrid só para poder ampliar seus gols.

Cristiano tem sua quarta e última Eurocopa no mês que vem, quando disputará, provavelmente, a última competição jogando em alto nível por Portugal. Na Copa de 2018, prova para a qual a Equipa das Quinas está em um grupo fácil nas Eliminatórias, deverá fazer sua despedida pela Selecção. Serão as derradeiras, e dificílimas, oportunidades de levantar um título pelo país e, enfim, figurar de forma indiscutível no panteão dos maiores jogadores de todos os tempos.

Essa é a sua última (e maior) ambição.

NO LIMITE Com status de melhor do mundo mas limitado
 fisicamente, Ronaldo parou na primeira fase na Copa (Reuters)

terça-feira, 17 de maio de 2016

Acreditar que o clube dos oligarcas aceita novas adesões, o grande erro do PT


Fabio Venturini*

Uma mulher foi estuprada. Ela errou em usar saia curta?

Pois é exatamente essa a questão que coloco antes de escrever a convite do editor do Bola de Bigode sobre os erros do Partido dos Trabalhadores que culminaram com o golpe de 2016. Pois assim como o estupro é culpa do estuprador, o golpe de estado é uma ação espúria do bloco golpista, formado por mídia, burguesia subordinada ao imperialismo, congresso e setores reacionários do judiciário, que afastou a presidente Dilma Rousseff[1]. Ponto. Nenhum erro petista pode justificar o injustificável.

A partir de agora, um breve balanço sobre os erros do PT após o período no governo federal que culminou com o crime praticado pelos capangas do inominável.

Quem é PT, afinal?
O debate médio é pautado pela imprensa burguesa, cujo discurso é construído para confundir, não para facilitar a compreensão das diferenças entre a aparência e a essência de um determinado objeto (no caso aqui, o Partido dos Trabalhadores). Logo, no noticiário o PT é mostrado como tudo aquilo ligado ao governo federal, enquanto petistas são seus apoiadores, beneficiários ou críticos que reconhecem alguns méritos. Falamos também de movimentos sociais e sindicatos, aqueles que são mostrados como pessoas que não trabalham e vivem às custas do erário para atrapalhar o trânsito. É falso e isso é intencional.

Imerso em informações jogadas em bateladas de forma proposital e aleatória no caldo ideológico chamado opinião pública, o leitor/expectador decodifica de forma confusa tudo que se fala sobre esse PT fictício. Entende como Partido dos Trabalhadores todo o campo da esquerda política, caracterizado pela corrupção.

Estamos falando de quase quatro décadas de propaganda antipetista no noticiário. Como o crime é algo ligado aos bairros pobres, o PT é também um conjunto de pobres que estão tomando conta da nação. Possuem um braço armado (o PCC) e vivem às custas do governo com bolsas. Por inferência, se tem pobre beneficiado só pode ser um bando de desonestos, a ponto de fazer filhos apenas para receber Bolsa Família. Cola até na periferia.

É tão estapafúrdio quanto dizer que a classe média faz filho apenas para deduzir dependente no imposto de renda e fica a vida inteira vagabundeando para viver do dinheiro da restituição. Mas não se acredita nesse absurdo porque não se repete à exaustão. Tal tipo de interpretação esquizofrênica, psicopata e sociopática é estimulado pela imprensa burguesa com notícias marotas sobre fraudes de beneficiários em programas sociais, bem como sobre pessoas que usam o dinheiro para comprar algo que não seja arroz e feijão. Atende as preferências da parcela violenta, autoritária, racista, machista e desonesta da população, concentrada na burguesia e em setores abastados da classe média.

Quando os movimentos de fascistas, oportunistas e alienados convocados pela Globo como massa de manobra vão se manifestar nas ruas com proteção da Polícia Militar não estão se posicionando contra o que o PT é, mas contra o que ele representa, ou seja, uma ameaça de pobres, negros, LGBTs e trabalhadores que não se subordinam pela própria natureza etc. Por falta de uma consciência própria se apegam ao ódio, esse subproduto do medo, e a símbolos nacionais sem qualquer senso crítico ou do ridículo, usando além da bandeira e do hino nacional as camisas da CBF. O antipetismo fundamentado no combate à corrupção é essencialmente uma ideologia fascistizante.

O Partido dos Trabalhadores, o PT real, é, grosso modo, uma frente formada na década de 1980 a partir de movimentos de trabalhadores rurais, sindicatos urbanos, comunidades eclesiais de base e intelectuais para organizar setores “progressistas”[2] sem as amarras da burocracia do Partido Comunista Brasileiro, a principal força partidária brasileira na maior parte do século XX, objeto de propaganda difamatória pela mesma imprensa durante mais de meio século.

Por conta da nova estrutura proposta na sua fundação, o PT possui quase 30 correntes independentes que deliberam nos congressos do partido. Desde 1995, a corrente majoritária, do ex-presidente Lula e do ex-ministro José Dirceu, dominou os processos eleitorais internos do PT, deixando as correntes mais à esquerda isoladas das instâncias decisórias[3]. Iniciou-se ali um programa de alianças estratégicas com setores fisiológicos para ganhar as eleições presidenciais, após perder para Collor (1989) e FHC (1994). Assim foi sabotada a prática de fazer política a partir dos trabalhadores rurais (continuado pelo MST) e das periferias, ainda presentes e resistências petistas.

E quem é o “governo do PT”?
Trata-se da articulação entre a corrente Construindo Novo Brasil (CNB, do Lula) com setores fora do PT para realizar uma conciliação de classes e permitir a distribuição de renda com ganhos para o empresariado local, a falácia neoliberal do “ganha-ganha”.  No plano institucional, manter os acordos com aliados estratégicos da direita com cargos públicos, o que não apenas deu afinidade quase carnal entre Lula e partidos como PMDB, PC do B, PDT, PTB, PP, PR e PSC, mas também tornou os sindicatos em mera burocracia paraestatal de apoio ao programa da CNB. Os trabalhadores foram desmobilizados e a luta de classes foi negada.

Para garantir apoio eleitoral da massa pobre que sempre votou na direita mais estapafúrdia, políticas sociais garantiram uma distribuição ínfima da riqueza nacional, transformando Lula no novo pai dos pobres e mãe dos ricos. Portanto, não se trata de um governo do PT, mas de uma corrente majoritária do PT aliada a setores que tentam criminalizar o restante do Partido dos Trabalhadores.

Se não entendeu, leia novamente. O Brasil não é para amadores.
No primeiro sinal de crise e a possibilidade de ter que aturar pobres comendo três vezes por dia durante mais 12 anos, desde 2014, quando o projeto reacionário defendido por Aécio Neves foi rejeitado pelas urnas,os próprios aliados estratégicos do PT, sejam partidários ou de setores da burguesia (a financeira essencialmente), tentam remover a Dilma à força da mesma forma com que um câncer corrói tudo que entende por corpo estranho.

O erro essencial do que André Singer chama de Lulismo[4] foi pensar que pode ser parte de um clube que não está aberto a novas adesões. Não soube ler o Brasil, as formas das classes primordiais (burguesia e proletariado), a tendência de rupturas e crises do regime democrático. Acertou sem querer em incluir a população mais pobre no que não havia possibilidades. O Bolsa Família fez com que crianças não precisassem trabalhar na lavoura aos cinco anos de idade, indo para a escola e produzindo cultura, reivindicando espaço num ministério específico. A expansão do ensino técnico aumentou o valor da força de trabalho. 

A expansão universitária, mesmo feita de forma equivocada, criou uma massa crítica de bacharéis, mestres e doutores vindos das periferias. Sem querer querendo, a política do lulismo criou tanto a massa que apoiou o golpe contra os próprios direitos como aquela que resiste hoje ao golpe pela esquerda e irá um dia derrotá-lo ou criar condições para tanto. Afinal, nenhuma ditadura é eterna.

Os erros do PT subjugado pela CNB
Durante o trajeto do PT como frente progressista a um amontoado de movimentos subjugados pela CNB, muitas fraturas ocorreram em nome de práticas políticas éticas e em nome de uma “verdadeira esquerda”. A primeira delas foi o PSTU de Zé Maria, ainda nos anos 1990. No entanto, de tão sectário costuma fazer avaliações políticas similares às dos setores fascistas. O Exército de Brancaleone que carrega a bandeira do partido não mobiliza trabalhadores e se apropria pelo alto de sindicatos, aliando-se, nos processos eleitorais, à direita contra a CUT e o PT. O antipetismo é sua razão de existir, por isso se confunde tanto com a direita. Não é incomum a central Conlutas se aliar à Força Sindical, do Paulinho Pereira da Silva, aquele mesmo da vanguarda do Eduardo Cunha. Essa fratura que retarda mobilização e organização do proletariado à esquerda serve apenas e nada mais como linha auxiliar da direita.

O segundo racha significativo foi a criação do Partido Socialismo e Liberdade, nascido da expulsão de parlamentares do PT durante a reforma da previdência imposta por Lula. A legenda catalisou setores de gabinete e acadêmicos descontentes com os rumos da corrente majoritária. Formou-se na prática para dar continuidade a mandatos que não teriam como se colocar nas eleições dentro do próprio PT. Alguns dos que foram expulsos do Partido dos Trabalhadores efetivamente não conseguem mais recuperar os cargos, como o ex-deputado federal Babá e ex-senadora Heloísa Helena, hoje na Rede sustentabilidade, a direita que carrega uma planta, liderada por Marina Silva. 

Com a crise do “lulismo”, o PSOL se mostrou incapaz de acolher os movimentos abandonados pela CNB. Em vez de organizar o trabalhador, como o PT fazia nos anos 1980, organizou mandatos. Cresceu menos do que o PSC, por exemplo, que é um partido fascista com base eleitoral nas igrejas protestantes. Reluta contra a realidade que é a falta de capilaridade no proletariado, o que torna qualquer partido em letra morta. Hoje disputa votos contra o PT, não contra a direita, tornando-se aliado natural do PSTU e do novo PCB, um partido majoritariamente acadêmico, também sem uma significativa ligação com o proletariado.

Para complicar, o PSOL do Rio de Janeiro foi procurado por setores do PT para compor chapa contra Eduardo Paes. Muitos de seus membros sequer quiseram discutir. Adicione-se a isso o procedimento isolacionista durante eleições parlamentares. Poderia estabelecer alianças que levassem mais deputados do que meia dúzia que ainda colhe frutos dos tempos de PT. Em SP, por exemplo, Ivan Valente teve 450 mil votos e foi sozinho para a câmara, não puxou votos para mais ninguém. É o preço de seu personalismo parlamentar. Quando Ivan Valente e Chico Alencar não puderem mais concorrer, pois fazem aniversário todos os anos e um dia todos morreremos, acaba a base eleitoral do partido. O PSOL é um irmão brigado do PT que age de forma moralista e, por vezes, birrenta.

Por sua vez, os grupos que permaneceram no PT, subjugados à CNB, não tiveram a capacidade de organizar um movimento anti-aliancista dentro do partido e também aderiram à prática de troca de cargos. Uma vaga na Fundação Perseu Abramo pode ser disputada com brigas de foice no escuro, a depender da conjuntura. Igualmente não tiveram a iniciativa de articular um racha ou uma composição com os setores que deixaram o PT. Levar movimentos com capilaridade junto ao proletariado para o PSOL significaria isolar Lula, mas deixar Lula significaria não ter uma massa de eleitores a seu dispor.

Também houve o movimento da esquerda para a direita, com a saída de figuras caricatas e decadentes que aderiram ao golpismo criminoso, como Fernando Gabeira, Eduardo Jorge, Cristóvão Buarque, Marta Vasconcelos (não usem o sobrenome Suplicy, ela ganha votos com isso para sair nas páginas amarelas da Veja) e a própria Marina Silva.

Por fim, vários grupos, muitos ainda filiados ao PT, reuniram-se em movimentos sociais e ONGs que militam sem organização, o que divide a luta contra a dominação burguesa. O maior exemplo foi o Movimento Passe Livre, que bateu tanto em Fernando Haddad e poupou Geraldo Alckmin. Foi expulso da própria manifestação e ensinou à direita como ocupar as ruas. Nesses movimentos fragmentários pós-modernistas se nega a luta de classes por entender que é uma forma de maquiar à esquerda o machismo, a LGBT-fobia e o racismo.

Todos erraram ao abrir mão da perspectiva revolucionária e aderir ao programa de garantia de direitos dentro do direito burguês. Por uma via mais longa, ou se acomodaram à troca de cargos ou também acharam que o clube dos oligarcas estava aberto a novas adesões.

Novos erros são necessários, jamais os mesmos
O PT foi formado para não repetir os erros do PCB, que era cristalizado na burocracia e no centralismo democrático que, na prática, acabava sendo autoritário, a pior herança do stalinismo. É efetivamente um mérito, mas a falta de critério analítico e a flexibilidade com relação à perspectiva de conquistas dentro das regras impostas pela burguesia levaram à desorganização e à negação da luta de classes. Lamento informar a essa esquerda que acabou de ser golpeada, mas Marx estava certo. Não apenas ele como Lênin, Gramsci, Lukács, Trotsky, Rosa Luxemburgo e muitos outros. Num país em que os golpes são mais corriqueiros do que cafezinho no final da tarde a única via é a revolução. Como fazê-la é o tema de debate, não se ela deve ser feita.

A direita construiu o anticomunismo e usou o mesmo processo exitoso contra o PCB para construir o antipetismo. Hoje é necessário criar um novo partido que surja do proletariado, mas rompendo a influência ideológica da direita que joga no lixo iniciativas populares anteriores. Como defendeu Marx na abertura do 18 Brumário de Luís Bonaparte, no momento das crises os homens buscam as gerações anteriores. Os golpistas fazem de modo que nós as criminalizemos. Todo antipetismo é favorável a golpes, aos anteriores, ao atual e aos futuros.

É preciso aproveitar a experiência histórica de PCB e PT, dos partidos de outros países como o MAS (Bolívia), o PSUV (Venezuela) e a Frente Ampla (Uruguai), apenas para citar alguns que não devem ser modelos, mas antes boas referências. É preciso identificar que a imprensa e o direito burgueses não são campos de luta e, portanto, devem ser combatidos. O estado democrático de direito é uma condição para organizar a classe trabalhadora numa perspectiva revolucionária. Contudo esse estado não pode ser o objetivo final porque seu aparato todo foi montado para que a burguesia aplique golpes se assim julgar necessário. Esse texto só existe porque vivemos o terceiro em 80 anos, isso sem contar as tentativas frustradas.

Igualmente não podemos cair na armadilha dos arroubos pós-modernistas que rechaçam organização da classe trabalhadora, do proletariado, tentando reinventar a roda e fragmentando os movimentos populares. Se o inominável usurpador colocar três mulheres e dois negros reacionários no ministério estará tudo resolvido, recriando a pasta da Cultura cheia de homossexuais da TV Globo lá dentro, estará tudo resolvido? Porque se além de conspirador ele tivesse um mínimo de bom senso já teria feito isso e os movimentos de raça e gênero estariam procurando uma bandeira como barata moribunda procura saída depois da borrifada de inseticida.

Não se pode cometer os mesmos erros, o que seria burrice. São necessários erros novos, aqueles efetivamente essenciais ao aprendizado político.

*Fabio Venturini é jornalista e historiador, professor-adjunto no Departamento Multidisciplinar da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (EPPEN/Unifesp)





[1] Não tratarei aqui sobre ser ou não um golpe de estado pelo simples fato de ser um golpe. Foi tosco, vulgar, montado por ladrões, usando recursos institucionais, mas não muda o fato de ser um golpe. Essa discussão é um artifício ideológico dos próprios golpistas para desviar o foco do motivo de toda a operação, que é o ataque aos trabalhadores para atenuar a crise de valor da força de trabalho que vive o capitalismo em nível global. Não entrarei em discussões com intelectuais vendidos ou com as pitonisas de internet, essa massa de manobra golpista que sempre alga “você tem que respeitar a opinião dos outros”. Com toda sinceridade do mundo, não pesquiso ditaduras e golpes de estado há pelo menos 12 anos para me nivelar com papagaios da TV Globo e da revista Veja. Nenhum sistema lógico neste mundo dos viventes transforma a opinião, que é contrário de conhecimento, em pressuposto válido simplesmente porque se reivindica respeito à pessoa que profere para validar o absurdo constante no que se diz. Por fim, quem acredita que o impeachment de Dilma Rousseff não é golpe sequer lerá essa nota: se é preguiçoso e desonesto para pensar, imagine para ler algo por completo.
[2] Conceito cunhado na 4ª internacional para designar o campo político que une setores com preocupações populares, identificadas tanto como campo da esquerda política quanto com a esquerda revolucionária, essa, essencialmente, marxista ou anarquista.
[3] Lincoln Secco descreve com bons detalhes em seu livro A História do PT (1978-2010).
[4] Tenho sérias objetivações a essa categoria “lulismo” elaborada por André Singer. No entanto, ele é o que mais detalhadamente se debruçou para elaborar um conceito nesse sentido e por isso aqui é usado dessa forma.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Voltando algumas casas

Por Leandro Marçal*

E ela caiu. No jogo de tabuleiro político, haverá ainda uma decisão definitiva, mas será apenas o golpe de misericórdia, o chute final no cachorro moribundo.
Evidentemente, seu partido cometeu uma porção de erros, burrices, incompetências, negligências, megalomanias e alianças espúrias que a levaram à ruína.
Hipocritamente, inúmeros dos que a julgaram respondem por processos dos mais absurdos contra a sociedade, nos quais sua inocência é ouro de tolo.
Vergonhosamente, muitos dos que comemoram sequer sabem o que são pedaladas, poderes constituídos, golpes ou História.
Gratuitamente, pessoas se agridem desde 2014 como se a divergência de opinião fosse crime.
Claramente, o processo não foi para acabar com a corrupção no país (desculpem por avisar que Papai Noel não existe e que não viemos da cegonha).
Espantosamente, temos que temer, ainda que, lá atrás, seu partido não temesse o temerário.
Descaradamente, alguns milhões de votos não valeram muita coisa.
Assustadoramente, há um fanatismo exacerbado de ambos os lados, a favor e contra, como se heróis e vilões fizessem parte da política. Deixem seus anjos e demônios restritos à sua fé, por favor.
Lamentavelmente, pouco se importa com o povo, muito se apega ao poder pelo poder, em função do poder, a favor do poder.
Não perdemos o jogo por completo, mas voltando algumas (muitas?) casas.


Publicado originalmente no Proseando.

*Leandro Marçal é um jornalista de 24 anos, torce pelo Tricolor Paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Pífio

Um jogo horrível. Horrendo. Medonho. Tenebroso. Patético. Pífio. Bisonho. O Brasil fez contra o Paraguai, seguramente, umas das suas piores partidas desde que Charles Miller achou que o football rolaria por aqui. Dunga escalou mal, mexeu mal e teve sorte, muita sorte.

Sem David Luiz (com a graça de Deus) e Neymar, Gil entrou na zaga e Ricardo Oliveira, um atacante fixo que quase ninguém mais usa, ao menos entre os principais times do mundo, rendeu o empoladinho craque do Barcelona, que, pelo que não vem jogando e pelo que representa, fez tanta falta quanto ar-condicionado em bicicleta.

O Brasil foi, setor por setor, um goleiro que fez três ou quatro defesas gigantes, dois zagueiros estabanados, dois laterais defensivamente nulos (o que não é novidade), dois volantes incrivelmente burros, dois meias tentando fazer algo, mas que não sabiam se afunilavam ou se abriam e eram incapazes de municiar um atacante isolado. 

Sim, os dois meias tinham que se virar sozinhos porque os volantes foram tímidos demais e os laterais mal se atreviam a descer. Os volantes não marcavam, não armavam, não cobriam, falhavam lance atrás de lance, o mesmo que os dois laterais, que, exceto pelo gol salvador nos estertores, não fizeram nada digno de nota, a não ser cada um falhar em um dos gols paraguaios.

O Paraguai engoliu o Brasil durante 75 dos pouco mais de 90 minutos de jogo. Só parou quando o fôlego acabou. Ainda assim, os dois gols brasileiros aconteceram em lances fortuitos. O bondoso Villar deu o primeiro gol após rebater um bom chute de Hulk, que entrou na posição errada, mas criou algum perigo após esta correção.

As alterações feitas por Dunga não surtiriam efeito prático algum, exceto pela possibilidade de bater de fora, caso Ramon Diaz não tivesse colocado até o General Solano López dentro da sua área e puxado todo o time de amarelo contra si. No último lance, quase Villar deu de presente uma vitória que não serviria sequer para mascarar a trágica exibição brasileira.  

segunda-feira, 28 de março de 2016

Procura-se um líder

No Bem, Amigos desta segunda-feira, Arnaldo Cezar Coelho, Galvão, Casão e PC Vasconcelos. Discutem, entre outros assuntos referentes à seleção da CBF, a falta de um líder no elenco. Alguém que possa chegar ao elenco e chamar de seu; capaz de colocar a bola sob o braço quando o caldo entornar; que não faça birrinha.
CAPITÃES EM CAMPO Duas personalidades diferentes,
 nenhum capitão de fato (Getty Images)
Neymar é o capitão desde que Dunga voltou ao cargo de "técnico" da "seleção". A braçadeira era de Thiago Silva, capitão por onde passou, seja naquele time lá do Rio, no Milan ou no PSG. A perdeu por destempero e, aí pode ter ido pro brejo até o seu lugar na equipe, por ter chorado à imprensa as pitangas de não ser mais capitão.
Dunga ostentou a tarja em pelo menos duas Copas do Mundo. Em 1994, o dono da braçadeira era Raí, um líder técnico, ao passo que Dunga era uma espécie de capitão informal. Era o cara que colocava a bola debaixo do braço, que chamava a atenção. Aí o meia do PSG saiu do time e o gaúcho de Erechim herdou um cargo que já era seu.
Na conversa no programa do SporTV, levantaram a hipótese de o Brasil não ter um líder em campo, de que Neymar seria um líder técnico, que não exerce a influência necessária a ponto de ser "O cara" da equipe.
Discordo em partes. O candidato a melhor do mundo não é líder de nada, técnica ou comportamentalmente, o que não é, necessariamente, algo para ser criticado. Quando o negócio aperta, não é para Neymar que olham, pois ele não tem este perfil. O problema é que ele quer encarnar o, como diz a boleragem (que também é como diz a boleragem), "chefe da resenha".
Falta alguém baixar seu estranho topete, mostrar que ele precisa se preocupar em jogar bola, que é o que ele sabe fazer muito bem, por sinal. Conhecedor (ao menos disso) da função, o comandante da equipe nacional deveria fazê-lo, mas não faz, como um refém do talento do intocável camisa 10. No Barcelona é assim, ele é só mais um. Messi, Busquets, Iniesta e Suarez, só para ficar em quatro nomes, têm mais peso sobre o elenco do que ele. 
DESTEMPERO Nos dez últimos jogos, quatro gols, cinco
cartões amarelos e um vermelho (EFE/Kiko Huesca)
Com a camisa amarela, a impressão que dá é que ele, Neymar, é o filho de pais divorciados que compartilham a sua guarda: com a mãe Barcelona, ele se comporta; vai passar o final de semana com o pai, o Brasil, e vira o príncipe da casa, o intocável, o que pode tudo. Ou ao menos o que podia, pois seu rendimento em campo já não permite que ele faça o que quer.

terça-feira, 15 de março de 2016

O campinho, a perua azul e a camisa amarela

por Fabio Venturini*

Lá na Cohab Teotônio Vilela as crianças tinham poucos brinquedos. Alguns carrinhos de plástico, mas no geral tínhamos que fazer nossas brincadeiras. A principal para os meninos era obviamente o futebol. O bairro era relativamente novo (estou falando de algo em torno de 1983 e 1984) e no meio dos prédios havia bastante espaço, vários terrenos disponíveis para montarmos dois times, dois gols de pedras ou chinelos e rolar a bola.

Ao final da tarde as mães nos chamavam para casa. A penumbra facilitava a violência adulta. O terror era aumentado pela possibilidade de sermos levados pela perua do Juizado de Menores. Era uma espécie de polícia para recolher meninos vadios que ficavam na rua sem ter o que fazer. Uma lição para os pais que tinham que resgatar suas crias. Quando dava 18h, a chegada da Kombi azul com um giroflex no teto era suficiente para ver dezenas de meninos correndo desesperadamente pelas escadas dos prédios. Desconfio que em algum momento pelos idos de 1985 a viatura surgia apenas para divertir os agentes com o desespero infantil, não mais para limpar as ruas da vadiagem.

Dentro das áreas cercadas dos prédios os adultos alertavam que se aquela perua nos levasse seriamos feitos de mulherzinha na Febem junto com os trombadinhas.

Uma vez um amigo meu questionou a sua mãe porque não podia brincar na rua à noite e ela respondeu:

- Não se meta com política moleque, você vai se dar mal!

Política e Kombi azul? Mas não é para pegar trombadinhas? No dia seguinte voltávamos ao futebol.

O jogo

Tínhamos de imediato dois problemas: 1) ter os campos e as bolas livres, pois os “meninos grandes” já adolescentes ganhavam o espaço na força e 2) ter pelo menos 12 garotos para jogar com cinco na linha e um no gol. Normalmente isso ocorria em época de pipa, quando muita gente preferia uma brincadeira que dependia de muito vento, algo que ainda era sazonal (não pensávamos em mudança climática). A falta não fazia com que desistíssemos, a partida rolava mesmo assim, mas usávamos de argumentos e persuasão para convencer colegas a jogarem bola para empinar pipa depois. Em geral oferecíamos ao desunido, desgraçado mas bom, de bola a garantia de que não precisaria jogar no gol.

Felizmente isso era raro. Infelizmente conseguíamos três times e alguém deveria esperar. Era necessário sortear qual time ficaria do lado de fora esperando a primeira partida acabar. O método geral era por par ou ímpar, palitinho, dedos iguais e outros jogos do gênero. Tinha uma forma interessante chamada 17-21: uma contagem se iniciava e rodava entre um representante de cada equipe, repetindo em todos até que se contassem as posições 17 e 21, sendo que o excluído esperava. Até hoje quando jogo na loteria uso essas dezenas (não tem dado resultado).

Talvez o momento mais tenso e negociado fosse a formação das equipes. Suponhamos que a partida teria apenas duas equipes. Os dois melhores ou os dois piores com a bola eram destacados pelo grupo, por indicação coletiva. Eles eram tão bons ou tão fracos que juntos desequilibrariam a partida. Depois de um tenso par ou ímpar, iniciavam a formação de seus times (isso que vocês nascidos depois de 1990 chamam de Fantasy, Manager ou Cartola, só que real, o jogo acontecia mesmo). Se na vitrine dos elegíveis houvesse alguém muito melhor do que a média geral, ganhar no par ou ímpar definia a equipe com uma brincadeira mais divertida e os que terminariam o dia meio frustrados por tanto perder.

A escolha ocorria, então, um a um, intercaladamente. Cada vez que um novo membro chegava à equipe, integrava o conclave com o capitão para opinar na formação do time. Às vezes escolher algum bom goleiro ajudava mais do que um habilidoso indolente. Quem não tinha tal sorte, precisaria também realizar um acordo coletivo para revezar quem ficaria naquela posição que nenhum brasileiro valorizou antes de goleiros começarem a bater falta. Era também o castigo: se você entregasse a bola para o adversário e tomasse um gol bobo, o time poderia aplicar a punição de você pegar na vez de outro, para deixar de ser besta e nunca mais brincar perto da própria meta.

Às vezes um time ficava muito mais forte. Nesse momento, os dois times paravam a partida e trocavam um muito bom por um muito ruim e, assim, equilibrar a brincadeira (ganhar fácil de adversário ridículo, como no Campeonato Espanhol, nunca foi algo legal, acredite). O mais impressionante de tudo é que não tínhamos arbitragem, técnico ou professor e a coisa andava naturalmente com base naqueles acordos.

Adorávamos nossos times, a Seleção Brasileira e sonhávamos em um dia vestir uma camisa de um grande clube nacional ou a amarelinha. Quando marcávamos, gritávamos “goooooool do Brasil! Ziiiicoooo!”. Ninguém se importava por ele ser do Flamengo. Todos meninos tinham camisetas amarelas para imaginar que estavam na seleção. No sorteio escolhíamos jogar com ou sem camisa, o lado do campo (ficar na descida para atacar no primeiro ou segundo tempo), combinávamos em quantos gols acabava cada partida. Ninguém interferia, somente quando alguém mais forte acabava com a brincadeira pela força.

Quase 18h, subindo as escadas com medo novamente do Juizado de Menores, em casa ouvíamos que gente do nosso lugar não podia fazer política durante o telejornal que passava entre uma novela e outra. Gostávamos das novelas.

Pode parecer nostalgia, mas o fim de uma ditadura pareceu doce aos meus olhos de criança.

Um dia crescemos. Caras se pintaram, os clarinhos fizeram faculdade e se mudaram, os escurinhos ficaram presos no bairro. Os terrenos foram invadidos pela especulação imobiliária e nossos primos mais novos não ficaram sem ter onde jogar. O lugar em que batíamos bola virou prédio, igreja, delegacia, qualquer coisa, menos terra batida com dois gols de pedras ou chinelos.

Crianças foram jogar em quadras de condomínios e escolinhas de grama sintética. Lá o professor escolhe os times e os pais querem opinar na escalação porque pagam mensalidade. Nos condomínios é que se decidiam as regras do jogo das crianças nas reuniões de condôminos, até para evitar que os adultos não se entendam mais.

Quando vejo as camisas amarelas da seleção brasileira no século XXI minha cabeça sofre, não entende, não aceita, resiste em acreditar. O manto que eu vestia era orgulho por não ter uma regulação como a do condomínio, um adulto organizando nosso mundo e tecidos especiais com numeração customizada. O futebol era nosso momento de liberdade na determinação imperativa do nosso lugar social espacialmente delimitado por uma perua azul. Sequer usávamos camisa dessa cor no futebol porque ela nos perseguia, seja com o juizado, a Itália de Paolo Rossi ou a França de Platini. Cor agourenta!


A camisa amarela era a melhor, a mais bonita, a mais orgulhosa. Tudo isso lá no campinho de terra batida.

*Fabio Venturini é jornalista

sábado, 5 de março de 2016

“Geraselfie” e a piscina rasa

Por Leandro Marçal*

A tela do computador mostrava Mick Jagger dizendo que o público de São Paulo parecia assistir ao seu show pela tela do celular. No Whatsapp, o debate começou em um grupo com homens e mulheres ao verem uma selfie de uma menina até então anônima, com cara de ter, quando muito, 16 anos, enquanto praticava sexo oral.

Aparentemente sem uma ligação mais clara, as duas situações me chamaram a atenção por escancararem a banalidade da vida real, engolida pela virtual. Fotos e vídeos, antes ocasiões especiais, viraram tarefas tão corriqueiras quanto escovar os dentes.

Não que eu ache essa mudança ruim ou que seja um nostálgico parado no tempo – é para frente que se anda, o que passou, passou, e mudamos nossos comportamentos o tempo todo. Só fico abismado ao ver que a “geraselfie” não vê limites ou restrições ao se preocupar apenas e tão somente a registrar a vida em imagens, aparências. 

É evidente que também tive (tenho, vai) momentos de virar o celular em direção a meu rosto e usar a câmera frontal, gerando postagens, curtidas, comentários, compartilhamentos, conversas e outras futilidades das redes sociais.

Mas quando a foto, a selfie, o vídeo e o snap parecem mais importantes do que o momento a ser vivido, me pergunto se não estamos deixando a vida passar enquanto mexemos no touch de nossos celulares. Tanta coisa acontecendo ao nosso redor que se não tirarmos uma foto ninguém acreditará que por ali estivemos. 

Criamos o momento com as fotos; antes eram os grandes momentos que tinham exclusividade nos retratos. Não está na foto porque existe; existe porque há o registro.

Talvez seja um sinal dos tempos. 

Tempos de muita velocidade, individualismo, narcisismo, hedonismo, pouca preocupação com o próximo. Se neste ano 1% da população mundial terá mais dinheiro acumulado do que todo o restante do mundo, talvez não seja à toa. Talvez a excessiva e quase exclusiva preocupação com o ego da geraselfie seja a única explicação para que as pessoas parabenizem a elas próprias no dia de seu aniversário.

Se esse bombardeio de fotos diárias e banais some com a mesma velocidade com que surge, não deve ser de graça. O que será de minhas fotos daqui a uma década?

Pés, mãos, unhas, roupas, comida, lanche, no banheiro, na obra, no lugar diferente... Ainda estranho um pouco ver as fotos com esses cenários e situações. E mais: sendo apagadas como quem joga um papel de bala no lixo, sem cerimônia.

Meu álbum da festinha de um ano choraria se pudesse notar esse comportamento.

Longe de ser um profeta do apocalipse, um crítico, um chato ou inimigo disso tudo. É apenas a constatação de que temos uma piscina enorme para nos banharmos, mas que é rasa. Se pularmos nela, bateremos a cabeça ou quebraremos algum osso. A superficialidade parece ser a marca da geraselfie, de mim, de você, de todos nós.

Acho estranho, curioso, a ser observado.


Ainda me vejo abrindo o portão da antiga casa na Leonardo Nunes, me encaminhando até a esquina e pedindo ao ex-policial, dono da mercearia na esquina com a Alves do Burgre, um filme da Kodak, e torcia para que nenhuma queimasse ou, felicidade extrema, revelar uma ou duas a poses a mais. O filme tinha só 12 poses. Era o mais barato.  

*Leandro Marçal é um jornalista de 24 anos, torce pelo Tricolor Paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O olho direito da lei*

Por Eduardo Luis Viveiros de Freitas**

Nenhum país sério para porque políticos são investigados. Espanha, Itália, Grécia, Alemanha da reunificação, Portugal mesmo com a crise econômica. Seja corrupção ou crise política, a vida continua. Nem o Brasil está parado.

Há filas de espera para comprar a nova caminhonete da Fiat, restaurantes cheios etc. O povão, sim, começa a sentir pesado a parada em negócios para os rentistas se refestelarem na taxa de juros assassina de empregos.

Mas o combate não é à corrupção. Isso já é feito no cotidiano: foram mais de 1.200 operações policiais da Polícia Federal e 15.000 prisões, investigados etc (entre funcionários públicos, corruptos e corruptores) nos anos Lula e Dilma, contra 58 nos anos FHC.

O problema não é a corrupção, que é estrutural no mundo em que vivemos; é político. Os que perderam as eleições (e que são sistematicamente poupados na Lava-Jato - é só ver a "origem" política de quem investiga e julga) sabem que se Lula não for derrubado ele vence as eleições de 2018.

Vão abater o político mais carismático da história contemporânea brasileira. Foi assim com Getúlio, Juscelino, Jango e agora com Lula. Não se iludam mais uma vez. Todos esses políticos foram acusados de envolvimento com a corrupção, mas a história mostrou que nenhum deles era corrupto, pelo contrário, foram e serão considerados líderes e defensores do interesse nacional.

Ah, a corrupção, essa "fada madrinha" do moralismo barato. Olhem para trás e vejam o que se está armando pela frente. O Brasil não vai ser "passado a limpo". Depois da demolição (física inclusive) de Lula e do impedimento de Dilma, todo esse circo de horrores político-midiático-jurídico sai de cena, investigações vão parar ou sumir da imprensa. O "sigilo" vai cobrir com seu manto o "sol" e a justiça continuará cega de um olho só, o direito.


**Eduardo Luis Viveiros de Freitas é graduado em Ciências Sociais pela USP, mestre e doutor pela PUC, cumpriu estágio de doutorado na Espanha, na Universidad Rei Juan Carlos, pesquisador no Núcleo de Estudos de Arte e Mídia da PUC e professor na Universidade Estácio Uniradial e, ufa, palestrino de quatro costados!

*Este texto foi escrito originalmente na página do Facebook do professor Viveiros.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Por que seu ovo de Páscoa é caro? E o que isso tem a ver com futebol?

Por Fábio Venturini*

Nessa época de consumo desenfreado por motivos religiosos, justamente em uma religião que condena a gula e o desperdício, surgem os irritantes especialistas de botequim em economia política, preços e tributação sentenciando que o ovo de chocolate é caro por causa dos impostos. A resposta, claro, é que no Brasil há muitos impostos. É o Estado quem nos faz pagar tudo mais caro.

Como aprendi desde cedo nas aulas de matemática que quando achamos a resposta muito facilmente, provavelmente está errada, vamos lá...

Tomemos como exemplo um chocolate qualquer. Procurando no site das Lojas Americanas, aleatoriamente encontrei a barra de chocolate ao leite Lacta de 150 g, que pode ser comprada por R$ 5,50 (aproximadamente 0,036 centavos por grama). Um ovo de 196 g, feito com o mesmo chocolate, sai no mesmo vendedor por R$ 25 (ao redor de 0,127 centavos por grama). A diferença de preços entre os produtos feitos com ingredientes idênticos é de 342,77%.
NÃO É CULPA DO GOVERNO Valor agregado encarece o produto (americanas.com)
Sobre a barra e o ovo de chocolate incide a mesma carga tributária, sendo que o item pascal necessita de alguns processos a mais na fabricação, embalagem e distribuição que justificam algum preço maior. A moldagem é mais complexa, a inserção de alguns bombons no centro, um suporte plástico para que fique bonito em pé, uma caixa específica para a casca fina não quebrar. Cada um desses processos inclui equipamento, insumos, energia e força de trabalho (pessoas envolvidas na produção).
Justifica a diferença de preços?

Ainda não. Os processos produtivos são suficientemente desenvolvidos para reduzir o custo na escala. A Lacta faz um número alto itens de chocolate, não precisa comprar novas máquinas, alugar novos prédios, somente por causa da Páscoa. Pelo contrário, as fábricas de chocolate reduzem a ociosidade, tornando o capital total adiantado mais lucrativo (olha que aqui estou desconsiderando o uso de trabalho escravo e/ou infantil, mas não podemos deixar de lembrar esse dado). Ademais, as lojas se preparam para vender os ovos, separam mais espaços em gôndolas, prateleiras, poleiros na entrada, promotores etc. Não justifica uma diferença de 342,77%. Ainda.


A carga tributária é a mesma e os custos se diluem no esforço cooperativo para as vendas efêmeras de Páscoa. De onde vem esse alto valor então?

Acrescentemos agora a razão estética. A efeméride da data, que torna o chocolate na forma oval mais interessante do que uma mera barra, é estimulada pelo desejo em conseguir a melhor configuração do produto, aquela mais adequada à pessoa a quem se quer presentear: a Frozen para a boa menina, o Ben 10 para o menino que combate o mal, o coração para o afeto (recuso-me a usar “crush”) etc. Cada mudança acrescenta um valor imaterial, aumenta o valor de troca. Você quer comer chocolate, trabalhe para mim o equivalente a R$ 5,50. Quer comer chocolate comemorando com alguém querido, trabalhe para mim o equivalente a R$ 25.

Mesmo sabor, impacto diferente, menor preço (americanas.com) 
Vejamos bem, nada tem a ver com impostos. Igualmente, não se trata de um alto preço por causa daquela lei fácil de citar, de demanda e oferta, afinal, há chocolate aos tubos no mercado, sendo o produzido sob a forma de ovo ofertado apenas nessa época para atender ao impulso artificial, aquela necessidade criada pela publicidade, sem que o dono da fábrica precise realizar investimento extra em capital fixo. Estamos diante de uma demanda regulada pela produção. A diferença de preço de ambos, com a mesma quantidade de valor de uso (igual número de gramas de chocolate gostoso, e digo gostoso se não for Pan, é claro) chega a 342,77% por conta do aproveitamento do valor de troca aumentado por razões estéticas. Se o chocolate em barra é menos procurado, embora tenha o mesmo valor de uso (comer um doce gostoso), quando são descontadas as motivações estéticas, é para saciar necessidades emotivas.

Você paga caro pelo que não precisa, apenas pelo que dizem que você deve consumir.

Mas daria para ser mais barato?

Claro. Mas quanto custa uma satisfação? O vendedor embute isso num preço. Ninguém paga 3x mais num carro de luxo no Brasil em relação a outros países com carga tributária semelhante porque o estado é intruso na economia, é porque quanto mais se consome para o ego, mais caro se paga. Em se tratando de gastos de classe média no Brasil, como diria minha avó, é uma gente que tem o olho maior do que a boca, ou a boca maior do que a barriga.

Fiz essa explicação bem sucinta e didática para mostrar que os preços altos por produtos inúteis não são culpa de carga tributária. Porque nessas horas sempre há algum discípulo de Hayek, Mises, Friedman e outras reencarnações vulgares de Adam Smith dizendo que o problema são os impostos, usando discursos ideológicos para induzir, de forma simplista à maldade do Estado (de quem eles mesmos se aproveitam) e descrever pseudocientificamente o valor de todos os produtos: pão, leite, carne, ovos, material escolar, passagem para Orlando, carros de luxo e aquele PS4 que adultos presos na fase anal esperneiam por não poder comprar por menos de quatro milhas.

E o que isso tem a ver com futebol?

Até aqui fiz uma breve digressão sobre ovos de chocolate e teoria do valor. Mas este blog é sobre futebol.

Uma copa do mundo foi realizada no Brasil. Em vez de mostrarmos nossa forma de desfrutar do esporte e da condição de torcedores pulando, fazendo coreografias em estádios lotados, agitando bandeiras, cantando cantos de gente apaixonada pela bola rolando redonda com jogadores habilidosos, realizamos um esforço nacional para construir arenas insossas que abrigam jogos chatos, retrancados, de audiência branca, racista e mimada.
A NOVA CARA DOS ESTÁDIOS Torcedoras despreocupadas com
 o jogo do Flamengo, o time mais popular do país (espn.uol.com.br)
O nosso torcedor, aquele do antigo Maracanã, Mineirão e Pacaembu, ainda sofre para conseguir ingresso pela oligarquização das cadeiras (acabaram as arquibancadas em posição central ao campo, né?) e o aumento de preços porque se compramos o que nunca precisamos antes para gostar do jogo e ganhar cinco copas.

Quando uma torcida organizada que percebe o que perdeu protesta, mesmo que com interesses mais egocêntricos do que altruístas, dois de diretores são espancados misteriosamente para não interferir na bela imagem que as arenas criam para transmissões pasteurizadas e artificiais na TV, momento em que ninguém reivindica economistas neoclássicos para reclamar da intervenção policial do estado.

Gastávamos R$ 20 para ver grandes times jogando. Dispendendo com o que não precisamos, pagamos R$ 100 para ver um telão bonito, uma cadeira numerada, manter distância de gente que grita o tempo todo. Nada disso fazia sentido. Agora é moderno.

No caso do ovo, pelo menos, o chocolate e a barra possuem o mesmo gosto. No futebol, o novo sabor é tipo um caviar: ruim, caro e só quem tem dinheiro degusta para mostrar que pode, não porque é bom.

GERALDINOS O Rei do Maracanã com seus súditos. A geral foi extinta
 quando o ex-Maior do Mundo passou a atender o "Padrão FIFA"

*Fábio Venturini é jornalista