quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sobre a Bola de Ouro de 2016

DÁ UM TEMPO AÍ, FERA Coleção de Lionel Messi não
deve aumentar neste ano (Divulgação/Barcelona)
No início da semana, a France Football divulgou a lista dos 30 pré-indicados ao Bola de Ouro de 2016. Vele dizer que é a primeira vez, desde 2010, que o prêmio não será dado em conjunto pela revista e pela FIFA. A outra novidade é que apenas jornalistas votarão (capitães de seleções e técnicos não participarão, o que faz com que o "voto pela camaradagem" perca força). Como correção, a inclusão de Buffon, que ficara imperdoavelmente de fora em 2015, e que fez, para variar, uma Eurocopa soberba.

A Eurocopa, inclusive, tem muito peso na confecção do rol, visto que Pepe e Rui Patrício e até o francês Payet estão com seus nomes lá. Os principais campeonatos nacionais europeus também contribuíram para que alguns de seus destaques também aparecessem: o milagre que atende pelo nome de Leicester (Léster, para os mais chegados) coloca dois jogadores na parada: Mahrez e Vardy. Pelos gols que fez ainda pelo Napoli, Higuain também está na disputa e Dybala, destaque no título italiano pela Juventus, também corre - muito - por fora. Já Ibrahimovic, que fez o que quis na fraca Ligue 1, está indicado por mero cacoete.

ANO DE GRAÇA Contratação mais cara da História quando chegou a Madrid, Gareth Bale
finalmente teve uma temporada à altura do investimento (Rex Feature)

Se o campeão europeu Portugal conta com três (entre eles o favoritão Cristiano Ronaldo, obviamente), o Brasil olímpico e dourado aparece apenas pela isolada presença de Neymar, que não fez nada de notável no ano, exceto pelo título olímpico quase Sub-23 e pelo papel de coadjuvante de luxo no chamado trio MSN.

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Como a inclusão do colombiano Borja, grande nome da conquista da Libertadores pelo Atlético Nacional, sequer foi cogitada, vê-se que eles ainda olham para a América do Sul como mero fornecedor de matéria-prima para a Europa, o centro desenvolvido do Planeta Bola. A última vez em que algum "forasteiro" marcou presença foi em 2011, quando Neymar ainda atuava pelo Santos. 
HOMEM-GOL Gols por atacado podem colocar o
 uruguaioSuárez entre os finalistas (EFE)

Pela falta de conquistas internacionais e pelo fracasso na Copa América, Messi corre risco de não figurar entre os três finalistas, exceto pelo conjunto da obra, o que seria inédito desde 2007, quando ficou em terceiro lugar na sua primeira aparição no palco da premiação. Neymar, então, é capaz que fique abaixo dele, o que seria natural, apenas para citar quem compôs, com Lionel e Cristiano, o trio que disputou a honraria em 2015. Griezmann, que ficou no quase tanto na Eurocopa quanto na Liga dos Campeões, teve um ano individualmente mais interessante que o argentino.

Meus votos, caso eu participasse do sufrágio, seriam do chuteira de ouro Suárez, de Gareth Bale, que carregou País de Gales nas costas durante a Euro e que foi essencial para a conquista continental do Real Madrid, e, é claro, de Cristiano Ronaldo, que nem jogou o que já jogou em temporadas anteriores, mas que ganhou um título por Portugal e arrebentou com a boca do burro na Liga dos Campeões e que está com a faca, o queijo e os tremoços na mão para abiscoitar sua quarta redonda e seguir na sua “guerra” particular com Lionel Messi.

BARBADA Artilheiro, campeão, protagonista e líder. Temporada dos
 sonhos faz votação virar mero protocolo (Carl Recine/Reuters)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O Tricolor em tempos de cólera

por Leandro Marçal*

Fui chamado de pessimista quando, há quatro anos, dizia que o São Paulo corria a passos largos para um futuro rebaixamento. Há quase um ano e meio, previa um final infeliz que se aproxima neste mesmo blog, vendo o elenco similar a um funcionário de emprego estável que começa o expediente já pensando em bater o cartão ao fim do dia – nada contra a conduta, mas ela não cabe no futebol, sua paixão e competição. 

Eis que, pela segunda vez em quatro anos, o time do Morumbi luta, a duras penas, para não ser rebaixado no Brasileirão.

Se até há algumas semanas a torcida abusava do argumento “tem muito time pior, não cai não”, a situação fica desesperadora na reta final da competição.  A importantíssima vitória contra o tricolor carioca deixa o time com o nariz para fora da água, como um turista desengonçado que desconhece os perigos do mar quando não dá pé. 

Foram anos se apoiando na muleta de exemplo de gestão e profissionalismo, até o momento em que Juvenal Juvêncio se apropriou do clube como uma criança desligando o videogame e levando para casa após uma surra para os amigos no PES ou Fifa.

Quando JJ e Aidar romperam relações e o então presidente passou a tomar conta do clube de forma obtusa, estava escancarado o atraso de anos por quem tomou conta do clube diante de uma plateia de conselheiros amorfa, sem que houvesse oposição real a impedir erros grosseiros.

Os últimos anos no Morumbi têm lá sua semelhança com o país: anos de vacas gordas os fizeram acreditar que tudo podia e se aceitava, o bife macio demais para quem trabalhava em ambos cegou àqueles que deveriam pensar que a fase das vacas magras também chegaria junto com uma ruína de enormes proporções. A soberba precedeu a ruína. Até a troca de presidentes em meio ao mandato foi comum ao clube e à terra tupiniquim.

Junte-se a isso uma sucessão de elencos menos preocupados com resultados dentro de campo do que deveriam e a aposentadoria do único nome que representava alguma liderança em campo. Goste-se ou não de Rogério Ceni, é inegável que sua forte presença no time poderia dar um pouco de mais vontade a um time em que cada jogo mais parece uma sessão de tortura infinita para quem consegue manter-se acordado vendo os 90 minutos de tristeza tricolor.

Como cobertura e cereja desse bolo solado, o técnico não consegue resolver a insolúvel situação de um time em que a mera substituição do treinador pode ser mais um problema gigante de quem já teve essa condição.

Torcedor são paulino, lembre que um possível rebaixamento não foi construído de uma hora para outra e que os últimos anos da equipe que teve em participações medíocres na Libertadores e algumas boas classificações no Nacional a desculpa perfeita para jogar a sujeira por baixo do tapete.

O problema é que esse tapete está velho e sujo demais, a ruína precedida pela soberba de outrora pode ser ainda maior. E caso o time fuja de um fiasco humilhante nesse final, o ano começa como se nada tivesse acontecido e os mesmos erros reaparecem como em um looping eterno.

O fundo do poço é logo ali. E com medo da queda, o preço dos ingressos são cinicamente baixados para míseros 10 reais, pois agora lembram que o torcedor de massa é quem empurra o time e ele nem sempre - ou quase nunca - tem condições de pagar caro por isso.

Se esse já foi chamado de "O Time da Fé", só resta ao torcedor rezar muito pelo livramento da Série B de 2017.

*Leandro Marçal é um jornalista de 25 anos, torce pelo Tricolor paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor, embora esteja
um tanto zangado com o seu Tricolor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Time dos Sonhos

O tricampeão mundial Félix bateu o tiro de meta assim, curtinho, logo para a lateral da sua área. Tiro de meta curto pode, escanteio, essa invencionice do futebol moderno, não! Além do mais, um Time dos Sonhos que se preze sai jogando, não rifa a bola, ainda mais quando ao lado do guarda-redes está o maior de todos os tempos. Santos, o Djalma, evitou o contrário e acionou Brandãozinho, recuado para o miolo da zaga para que Capitão pudesse dominar, como em mais de 500 vezes, a cabeça-de-área. 

Cabeça de área, inclusive, tão ocupada por tantos cabeças-de-bagre. Não é o caso do Time dos Sonhos, em que Capitão orienta o passe do lendário filho do mítico Brandão, contratação mais cara até então no país, a jogar com Marinho Peres, sobrevivente da Noite do Galo Bravo, que sequer existiu. 

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Zé Roberto, jovem e ainda careca, recolhe e afunila o jogo porque a lateral não é suficiente para ele. Foge da marcação e toca para Capitão, e o eterno cinco já chama o maior oito do mundo, Enéas, mais acordado do que nunca. Não, ele não dorme. Os outros é que estão em transe. Enéas percebe a passagem do genial Dener e só olha o Reizinho do Canindé passar por um, dois, três, o mundo. No Time dos Sonhos, Dener não dormia e a própria morte aplaude o drible que leva.  

O estilista da bola, efêmero como o tempo, esse senhor injusto, mas imortal como o Time dos Sonhos, passa a bola depois de desmoralizar quem a tentou tomar-lhe. Do Reizinho para o Príncipe, e a corte do futebol rende-se ao majestoso Time dos Sonhos. Bola de Ivair na direita, onde Julinho cala 100 Maracanãs lotados e avança impávido e, no fundo, deixa Pinga na cara do gol, habitat natural do maior goleador do Time dos Sonhos.

Oto Glória, glória maior entre todos os treinadores, olha para o banco com a serenidade de quem encontra Orlando Gato Preto, Zé Maria, Noronha, Ditão, Servílio, Henrique Frade, Dicá, Cabinho, Edu, Toninho, Rodrigo, Leandro, Paulinho MacLaren, Simão... Oswaldo Teixeira Duarte sorri - o Time dos Sonhos está em campo.

O Time dos Sonhos desperta raiva, medo, respeito. Ninguém sente pena e não há tribunal ou administração ruim capaz de derrubá-lo.

O Time dos Sonhos é imbatível. 

Não quero acordar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O fim do mundo e o ufanismo barato

O Rio de Janeiro fez uma Olimpíada linda. Virou motivo de orgulho. Ora, o brasileiro é cordial e hospitaleiro por natureza. E gosta de festa, como foi durante a Copa de 2014. Seria notícia o contrário.

Achar que o brasileiro seria incapaz de fazer só pelo fato de ser brasileiro é mais que pobreza de espírito, é burrice mesmo. No entanto, achar que os jogos foram espetaculares só porque foram feitos por brasileiros também não passa de ufanismo barato.

Isto posto, não há lá muito mérito no que foi feito. Bastava ter dinheiro. E teve. E muito. O problema é que, muito dessa festa foi feito com dinheiro público, diferentemente da promessa inicial. O mesmo que falta para assentar famílias há décadas; para equipar hospitais públicos; para investir em programas de saúde preventiva, o que desafogaria o SUS; para garantir um ensino público minimamente decente.

O problema, como o que pode ser visto no relato do enorme jornalista Jamil Chade, correspondente internacional do Estadão e autor de livros sobre os bastidores das escolhas das cidades-sede para as maiores competições, é a farra, é o desrespeito pela legislação daqui.

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O prefeito do Rio, Eduardo Paes, bate no peito para falar que entregou todas as obras (nos complexos esportivos) a tempo e nenhum evento foi comprometido, além dos que seriam testes para os jogos, mas se esquiva para falar do estouro do orçamento inicial, que foi socorrido com isso mesmo que você está pensando: dinheiro público.

Podem acreditar, o Rio de Janeiro continua lindo, como seria sem a realização dos jogos. E com os mesmos problemas que foram praticamente escanteados pela imprensa que cobriu o evento: os Correios atrasaram a entrega de material de treino de alguns atletas; a Vila Olímpica era um desastre, com inúmeros apartamentos apresentando toda sorte de problemas; motoristas não sabiam o caminho para as arenas, estádios e/ou CTs; uma das seleções passou a noite da véspera da disputa da semifinal da sua modalidade lavrando um B.O. porque teve seus equipamentos furtados e a concentração foi para o beleléu. 

O próprio treino antes disso foi para o espaço porque a equipe só pode chegar ao local de treino às 18h30 (por culpa do Rio 2016), quando este estava marcado para as 16 horas, e não havia luz natural no local. Enfim, nada de surpreendente.

O que espantou mesmo foi a cegueira de quem estava lá do lado e não viu.

Da mesma forma que não é surpresa que não aconteceu o armagedom que alguns estrangeiros – e brasileiros mais céticos – previram: ninguém morreu em decorrência do zika vírus, nenhum aparelho de som apareceu boiando nas provas aquáticas, o ISIS não cometeu nenhum atentado, não passamos vergonha, mesmo com a Anitta cantando com Gil e Caetano na abertura, que foi lindíssima. 

Não foi o inferno que temiam, mas também não foi o paraíso que querem vender. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O ídolo de papel

Minha boa vontade com o Neymar durou dois dias, se muito. 

O verdadeiro Neymar não é o que jogou para o time, o que chorou após o pênalti convertido. É o que vomitou um monte de bobagens ainda no gramado, o que não admite ser cobrado, ser contrariado. É o que abriu mão da tarja de capitão no time principal, como se ela fosse sua propriedade e ele tivesse tal poder.

Não era pressão. Era raiva.

Neymar não dá um passo sequer sem que seja meticulosamente planejado. É um craque? Sim, mas não está nem entre os 100 maiores jogadores da história do futebol brasileiro, para não dizer do mundial. Suas conquistas são suas, individuais. Para o Brasil não dizem nada.


No contexto de um futebol que já havia ganho quase tudo antes mesmo de ele nascer, Neymar é um nada. Um nada milionário e cheio de fama, é verdade, mas é um traço. É um cara que não tem a dimensão da idolatria que infelizmente provoca, pois é um espelho para muitos jovens. É um ídolo de papel.

Vamos ter que engolir o quê? Por quê? Só porque ganhou um campeonato sub-23 jogando contra ninguém?



sábado, 20 de agosto de 2016

O ouro e a humanização de Neymar

O MUNDO NAS COSTAS DE NEYMAR Neymar se reinventou
durante a competição e foi o grande nome do Brasil na
conquista do inédito ouro olímpico (Reuters)
 
Finalmente o Brasil fechou a coleção de títulos possíveis do futebol mundial. Sob o comando de Neymar, sim senhor, o time amarelo não amarelou e colocou a medalha dourada no peito pela primeira vez.

Como toda a Seleção, o camisa 10 começou o certame apagado, quando mais apareceu ao se negar a dar o entrevista para a qual estava escalado após o pífio empate sem gols contra o Iraque, na segunda rodada. Mesmo sem falar, falou mais do que se tivesse falado.

No entanto, o que parecia caminhar para mais uma campanha fracassada pós 7 a 1 entrou nos eixos a partir do momento em que o craque barcelonista também o fez. Grande destaque do time da terceira rodada em diante, quando passou a jogar para os companheiros e, ao descer do pedestal de craque inquestionável que julgava ser, cresceu como nunca. 

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Coube a ele o pênalti decisivo, depois do chute defendido pelo goleiro Wéverton, que chegou em cima da hora com o corte do titular Fernando Prass e foi o herói do imponderável. Com frieza, seriedade e calma, Neymar mandou no ângulo esquerdo do gol e, humano, caiu no choro. Caiu também a ficha da sua importância na retomada do futebol brasileiro, que certamente não acontecerá a partir dos cartolas.

Então que comece de dentro pra fora, como foi quando Dunga caiu. Ele dirigiria um time que foi preparado por Rogério Micale, em mais um erro clamoroso que seria cometido pela CBF, e só caiu pela falta de resultados, não pela pobreza assustadora do futebol que não apresentava em campo. Tite chegou e abriu mão do time olímpico. Neste momento o sonho da medalha de ouro passou a ser tangível.

Que o título, e aqui não faço juízo de valor sobre sua importância, não seja uma camada de maquiagem sobre o verdadeiro rosto do futebol brasileiro, que carrega uma expressão feia, cansada, ultrapassada. Que seja entendida a dificuldade para bater uma Alemanha muito organizada, no primeiro jogo em que teve ante de si um adversário realmente decente que o Brasil enfrentou. Uma Alemanha que veio apenas com um jogador da equipe principal, que desde o começo sabia o que queria e como queria.

E que Neymar tenha entendido que, sendo apenas mais um, pode ser o principal.      

sexta-feira, 15 de julho de 2016

De Aljubarrota a Paris



O fado representa mais que a identidade portuguesa. É a própria alma lusitana. O drama. O destino. A luta. A batalha. A dor. O amor.

Desde sempre foi assim: Portugal se acostumou às grandes batalhas. No Campo de São Jorge, a 1385, quando tinha um décimo dos soldados que tinha o inimigo de Castella e que era apoiado pelo exército francês, os comandados por Nuno Álvaro Pereira saíram do jugo de Castella e Aragão e iniciaram a Dinastia de Avis e a época de ouro das grandes navegações.

Houve épocas em que teve que recuar, até fugir. Como quando as tropas de Napoleão, implacáveis, invadiram Portugal a partir da Espanha e ficaram a ver os navios com a família real atravessando o Atlântico para instalar a coroa aqui. Napoleão, no exílio, admitiu que D. João VI fora o único a enganá-lo.

Mas deixemos o mar.

Quando a Eurocopa começou, os lusos chegaram credenciados por um cartel respeitável: Portugal, a única seleção européia a estar ao menos nas quartas-de-final das últimas cinco edições, desde 1996. Não só isso: por muito pouco não eliminou a França, em 2000, e a Espanha, em 2012. Caiu nas semifinais para equipes que foram campeãs.

Mas isso pouco importava.

A imagem lusa para o mundo era o choro da inimaginável derrota de 2004. Em casa. Com Figo e Rui Costa em campo. Com Felipão, campeão do mundo. E Cristiano Ronaldo começando a escrever sua história.

Mais valia ter o fracasso como base e julgar pela campanha ruim da primeira fase, em um grupo dos mais acessíveis. Sim, foi ruim. Foi feio. Foi abaixo do que qualquer um poderia imaginar. Tivemos sorte de um regulamento questionável permitir que fosse possível avançar com três empates.

Mas não temos culpa.

Esta, porém, tem quem não quis ver que Portugal mudou, que se reinventou durante a prova. O time que mais chutava a gol, que buscava a ter a bola. Foi preciso reconhecer suas limitações e fortalecer a retaguarda para impelir avanços de tropas inimigas.

Para os críticos, do Novo e do Velho Mundo, Portugal é um país fadado ao insucesso. Fomos chamados de nojentos em França. Aqui no Brasil, era a Seleção de um jogador só, que cairia cedo ou tarde, que nunca foi nada.

A cada fase, o favorito era o adversário de Portugal, seja quem fosse. Croácia, Polônia, até País de Gales. E, enfim, a França.

E era loucura mesmo apostar em Portugal na final. Enfrentaria a dona da casa, com mais camisa, mais time (embora sem um protagonista de respeito), com a torcida toda a favor, com o Saint Denis lotado a cantar Allez Le Bleus. E com o retrospecto todo a favor, posto que não perdia para o oponente da decisão havia 41 anos.

Perto de Aljubarrota, isso era só mais um reino a ser vencido.

Quando Cristiano tombou, aos 8 minutos, houve um rearranjo no tempo e no espaço. Voltamos a 2004. Os medos todos. Os fracassos. A bola na trave. O gol de ouro. Poborski. A morte súbita. A França. Alcácer Qbir. A Grécia. A França.

A França, que ficou anestesiada. Inexplicavelmente, não cresceu. Não teve volúpia, como quem perde a referência, o ponto a ser mirado. Portugal viu seu capitão tombar e agigantou-se. O choro do herói caído foi o aditivo que faltava aos outros 22 heróis. Todos eles. Os navegadores todos no mar verde de Paris. Cabral. Vasco da Gama. Coluna. Eusébio. E uma nova página a ser escrita. Camões, Fernando e todas as suas Pessoas dentro de 11 camisas.

Quando acabou o tempo normal e Cristiano Ronaldo voltou ao relvado, foi mais que um adjunto de Fernando Santos. Ronaldo foi 11 milhões de portugueses. Cristiano Manuel. Cristiano Joaquim. Ou Antonio. Ou Aurora. Ou Jorge. Ou Maria. Ou Éder, o herói improvável. E o improvável para os outros aconteceu. Para os outros!

Portugal cresceu quando precisou e mostrou o seu tamanho ao mundo. 2004 finalmente acabou. Para desespero de quem se acostumou a nos olhar por cima dos ombros. Que nos respeitem como grandes que, enfim, somos.

*Texto originalmente publicado em psicodoidera.com.br

domingo, 10 de julho de 2016

Respeitem os campeões

A LENDA Cristiano Ronaldo ergue a taça de
campeão (Michael Regan/Getty Images)
Hoje Portugal fechou uma das suas feridas mais profundas. Finalmente exorcizamos o fantasma de 2004, daquela final em casa com a Grécia. Como em Aljubarrota, a superação. O principal soldado caído, ferido, morto para a batalha, mas não para a guerra.

Portugal fez uma primeira fase trôpega, ruim, arrastada. Foi se reconstruindo durante a competição para chegar a Paris com força, com ganas de ser campeão e, finalmente, ser respeitado pelo mundo. O melhor cenário, na casa dos entojados franceses. Não o time Bleu, que foi gigante também e um adversário que valorizou a nossa conquista; a mídia gaulesa, que menosprezou os portugueses, como fazem desde que Napoleão Bonaparte colocou a Família Real Portuguesa para correr, no início do século XIX.
ACIDENTE DE TRABALHO Cristiano Ronaldo sofre
entrada de Payet e sai machucado (AFP)
No lado de cá do Atlântico, uma horda de críticos ferrenhos do estilo lutador português. Somos assim mesmo. Feios, rudes às vezes, mas com coração. E não há no mundo um coração mais valente que o português.

Talvez por causa da colonização exploratória desde 1500 e também pelos lacaios e parasitas que chegaram com a corte de D. João VI, exista desde os bancos escolares um sentimento antilusitano. As piadas de português, que eu também conto com propriedade, são a prova do oprimido fazendo troça com o opressor. 

Não me importo. 

Como disse, eu mesmo as conto. Só não gosto de deslealdade, de desonestidade. Se nossa crônica especializada fosse honesta no propósito de informar, veria que existe um trabalho sério em Portugal para fazer o futebol dar certo. Que desde a chamada Geração de Ouro da década de 1990, Portugal não para de revelar valores de excelência mundial. Cristiano Ronaldo, Renato Sanches, Figo, João Pinto, Sérgio Conceição, Rui Costa. Não é de graça.


Admitam que não somos um time de um jogador só. Só dessa vez. Ou melhor, a partir de agora. Para desespero dos comentaristas pré-fabricados, fomos campeões sem Cristiano em campo durante quase 100 dos 120 minutos. Se os comentadores fossem realmente isentos, veriam que Portugal cresceu durante a competição, que mudou, que admitiu suas limitações e, dentro de suas qualidades, que foram muitas, chegou com mérito sim a Paris, e para pegar um time forte, com mais camisa, em casa, e moralizado por uma vitória incontestável sobre a poderosa Alemanha, mas com chances reais de fazer história.
GIGANTES Pepe e Renato Sanches brilharam
 na Euro-2016 (AFP/Getty Images)
Teriam notado que o jogo seria outro. A França, contra a Alemanha, deu a bola e marcou. Contra Portugal, teria que propor o jogo, ainda mais depois da infeliz (e leal) entrada do ótimo Payet, que alijou Cristiano da disputa.

Seria de bom tom levarem em consideração que, desde 2000, Portugal participa de todas as Copas e Eurocopas, seguidamente. Países como Inglaterra e Holanda falharam ao menos uma dessas competições. Portugal não. Talvez fosse pedir demais, e reconheço isso, levar a sério o fato de que Portugal é a única seleção europeia a garantir passagem a todas as quartas-de-finais, pelo menos, de todas as Eurocopas que disputou. Se o escrutínio for bem feito, verão que, em sete participações, nós estivemos em cinco semifinais, coisa que ninguém fez. 

Ao falar do caminho suave que Portugal teve até a final, poderiam ter percebido que os adversários dos franceses também não foram dos mais gabaritados. A França só enfrentou um time realmente forte nas semifinais.

O herói improvável saiu do banco para nos dar a maior vitória de todos os tempos. Rui Patrício, um goleiro contestado, foi gigante durante a prova toda. O "tosco" Pepe, irrepreensível. Nani e Quaresma, que nem nós levávamos a sério, foram monstruosos. Uma vitória que nos coloca, enfim, entre os grandes. 
O MAIOR GOL DO MUNDO Ederzito faz história e marca o gol mais
importante da história do futebol português (AFP/Getty Imagens)
Que nunca mais nos olhem por cima dos ombros. Não precisa nem passar a gostar de nós. Basta que nos respeitem. 

Impressões sobre a Euro-16

Por Humberto Pereira da Silva*


Uma das premissas do jornalismo é o exagero: fazer ver ao espectador desatento algo que ele não veria não fosse dado grande destaque. Assim, nenhuma novidade quando uma notícia ganha destaque e logo depois é esquecida, sem considerandos.

Nessa Euro-16 a noticia veio da Islândia. A surpresa do torneio, pois chegou às quartas de final. Ora, o futebol islandês jamais havia participado de competição tão importante e, para surpresa geral, na fase de grupos classificou-se na frente de Portugal de Cristiano Ronaldo e, nas oitavas de final, despachou a “poderosa” Inglaterra.
BOLA DA VEZ Islândia cumpriu bem o papel
de surpresa na Eurocopa (Reuters)
Ocorre que, numa rápida inspeção por torneios como Copa de Mundo e Euro, a constatação de que a Islândia agora foi a bola de vez. Uma seleção sem tradição futebolística que em razão de circunstâncias bem específicas avança e cai no meio do caminho.

Vejamos: depois de golear o Uruguai na Copa de 86, na partida seguinte a Dinamarca foi humilhada pela Espanha; depois de desbancar a forte Argentina em 94, a Romênia caiu diante da Suécia; depois de superar os ingleses, os islandeses foram atropelados pelos franceses...

Podia ainda pensar na Polônia em 74, na Croácia em 98, mesmo na Costa Rica em 2014...; nenhuma novidade, portanto, na esperada surpresa, senão que agora foi a vez da Islândia. Para mim será surpreendente, de fato, se a Islândia passar bem pelas eliminatórias e voltar a brilhar na Copa da Rússia.

Deixando a “surpresa” de lado, a surpresa é não se perceber, antes, as seleções candidatas à decepção. A da Bélgica, apontada pela imprensa como favorita ao título, também era candidata à decepção; e assim, como decepção, caiu diante do apenas entusiasmado País de Gales.
PELO CAMINHO Elogiada geração belga não foi
 além do seu tamanho (Getty Images)
A atual geração belga é forte e criou-se a expectativa de que a seleção seria campeã. Mas o futebol belga, convenhamos, nunca passou de força intermediária na Europa. E como força intermediária nunca foi além de forças intermediárias como Holanda, campeã da Euro em 88, e da Dinamarca, que arrebatou a Euro em 92.

Claro, a Bélgica podia repetir essas duas seleções; mas claro também que a expectativa em seleções intermediárias é para saber a partir de que momento elas serão consideradas decepção. Pela incrível previsibilidade, a “grande decepção” em torneios como Euro e Copa do Mundo é não haver decepção. Nesse sentido, a Bélgica fez bem seu papel: a favorita que provavelmente decepcionaria. Nenhuma novidade, portanto, no fiasco da Bélgica.

Assim como nenhuma novidade em “novo” fiasco inglês. Sobre a Inglaterra, aliás, a estranha insistência em colocá-la como força de primeira grandeza. A liga inglesa é forte, de primeira linha, sim, mas a seleção...
NOVO FIASCO DE SEMPRE A Inglaterra não decepcionou
 e caiu como sempre Paul Ellis/AFP/Getty Images)
 
A melhor colocação inglesa na Euro foi o terceiro lugar; obtido duas vezes: em 68 e em 96, quando jogou em casa. Pondo na mesa a Inglaterra na Copa do Mundo, apenas uma final, cinquenta anos atrás, quando se sagrou campeã e sediou o torneio. É pouco, muito pouco para se por o futebol inglês em primeiro plano, esperar título como se...

Países futebolisticamente periféricos – Portugal, República Tcheca... – ao longo da história são mais constantes que a Inglaterra: os tchecos chegaram a duas finais de Copa do Mundo e já levaram a Euro. Ainda que a desclassificação diante da Islândia exija mais que clichês de ocasião, certo é igualmente que a Inglaterra chegou onde tem chegado nessas últimas décadas: no meio do caminho em competições importantes.

E já que colocamos Portugal no circulo periférico, eis um país que não é uma potência futebolística mundial e para o qual as palavras “surpresa” e “decepção” não são gratuitas. Desacreditada, a seleção portuguesa chega onde não se imagina; envolta em otimismo, os lusos fraquejam inexplicavelmente.
A derrota para os gregos na final da Euro-04 é um trauma lusitano. Do futebol grego, que, sim, venceu surpreendentemente, se pode falar que o surpreendente pode acontecer. No futebol, os gregos não são mais que os suíços, para ficar na Europa, ou... os costa-riquenhos, para virmos à América.

Assim, quando Portugal perdeu em sua própria casa a Euro-04 para a Grécia, pode-se falar em decepção. Uma seleção, que na época tinha Luís Figo entre os melhores do mundo, perder a final em casa para um país que mal existe no mapa do futebol?

O otimismo luso gera a sensação de que sua seleção é mais do que se espera. Convém não exagerar, o futebol português, exceção talvez em 66, nunca foi deslumbrante. Sendo assim, quando mais se espera, vem frustração.

Mas se o futebol português muitas vezes é menos do que se espera, não é menos verdade que muitas vezes há um agigantamento que faz dos lusos mais do que se espera. Ora, não é gratuito que Portugal – na Euro e na Copa do Mundo – tenha invariavelmente se colocado entre as semifinalistas nesses últimos doze anos após o trauma com a Grécia.

De Portugal, convém não guardar expectativa exagerada; como igualmente convém supor que pode ir onde não se espera. Pois nesse sentido o futebol português é incrivelmente excêntrico. Sem ter jamais uma esquadra exatamente forte, exuberante, consegue por vezes ter um jogador que carrega o time, um jogador acima da normalidade: antanho foi Eusébio; não faz muito, Luís Figo; hoje é Cristiano Ronaldo.

Não seria injusto dizer que, na década de 1960, Eusébio foi para Pelé o que hoje Cristiano Ronaldo é para Messi...; ou seja, de um país que revela Eusébio, Figo e Cristino Ronaldo se pode esperar muito. Mas justamente por que avis rara, em jogadores desse porte um brilho que pode ser ofuscado pelas circunstâncias específicas de uma partida.

Por fim, falemos da França, país sede da Euro-16. Ao contrário da Inglaterra, entendo que a França é uma das potências do futebol mundial. E tem ratificado essa posição ao longo dessas últimas décadas com seguidas e constantes gerações de jogadores geniais.

Na década de 1980 floresceu na França a magnífica geração de Michel Platini; para não ficar atrás, uma nova geração de jogadores extraordinários, comandados por Zinedine Zidane, fez história no final do século passado e início deste.

Nesta Euro-16 a França desponta com uma nova geração. Com talentos do quilate de Paul Pogba e Antoine Griezmann, a França já havia deixado impressão positiva na Copa-14, mesmo caindo diante da Alemanha. É cedo ainda para asseverar, mas essa nova geração tem tudo para repetir conquistas das anteriores gerações francesas.


Em suma: com o declínio espanhol, que durante o último decênio pontificou no futebol europeu e mundial, se excluirmos que a Alemanha é a Alemanha, que a Itália é a Itália..., os franceses bem podem ocupar o lugar que coube à Espanha: com futebol vistoso e jogadores fora de série, protagonizar as próximas competições.

*Humberto Pereira da Silva, 52 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.

sábado, 9 de julho de 2016

Às armas e às glórias, Portugal!

O ARRANQUE Portugal comemora classificação
sobre a Dinamarca (Getty Images)

São dez derrotas seguidas. 41 anos sem vencer. Três eliminações em três confrontos oficiais. Sem contar que o adversário venceu duas das três grandes competições que organizou. É este o tamanho da encrenca que Portugal terá pela frente neste domingo na final da Euro 2016, quando enfrentará a dona da casa França no mesmo Saint-Denis em que os gauleses destroçaram o Brasil em 1998. 

O único texto com algum fragmento informativo que você, leitor, encontrará aqui está no parágrafo acima. Me assumo incapaz de escrever qualquer coisa com cores imparciais. Tem Portugal na final. Tem sofrimento garantido. E não vou me privar de torcer, ainda mais aqui neste espaço.
NO ALTO Com Cristiano Ronaldo, Portugal
quer fazer história (Getty Images)
A França é favorita e despachou a poderosa Alemanha no único jogo grande que teve pelo caminho. Portugal empatou seus cinco primeiros jogos.  O regulamento que permitiu a classificação sem vencer é questionável. O retrospecto é desfavorável. Sei de tudo isso.

Aí eu pergunto: e daí?

A Itália vivia eliminando a Alemanha, que sempre passava por cima da França, que sempre ganha de Portugal. Chegou nossa hora de ir à forra. De subir um patamar. Bem ou mal, sob o comando de Fernando Santos, Portugal está invicto em jogos oficiais. São 13, sendo oito vitórias (sete nas Eliminatórias). 

É nisso que acreditamos.
DIFERENCIAIS Em grande fase, Nani e Renato Sanches
 são destaques de Portugal (Getty Images)
Não fosse assim, nenhum bigodudo no século XV se aventuraria em caravelas pelo mundo afora. Não fosse assim, teríamos sucumbido à superioridade numérica dos castelhanos e franceses na Batalha de Aljubarrota, quando Portugal saiu do jugo espanhol.

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Nada disso entra em campo, é verdade. Mas a hora é de subverter a ordem. De devolver as eliminações nas meias-finais das Eurocopas de 1984 e 2000 e na Copa de 2006. 

É hora de mostrar à Europa inteira que Portugal não pereceu, como diz "A Portuguesa". Que teu braço (e pés) vencedor, que deu novos mundos ao mundo, agora dê um mundo novo a Portugal.

Às armas, Portugal! Sobre a terra. Sobre o mar. Sobre a relva É sobre amor. É amor de sobra. É Portugal.       

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Precisamos falar sobre o Denis

Por Leandro Marçal*
HERANÇA MALDITA? Denis é questionado após sucessivas
 falhas no gol tricolor (Juan Mabromata/Getty Images)
“O que foi dessa vez?”, era a frase que minha mãe sempre dizia quando chegava em casa com algum convocação de professora ou diretora para ir à escola. Eu, claro, abusava de argumentos absurdos para tentar convencê-la e a meu pai de que eu era um injustiçado. Nesse caso, as boas notas me salvaram.

Mas o que vai salvar Denis da próxima vez que o torcedor são paulino fizer a mesma pergunta acima após uma provocação dos rivais? O peso de substituir um dos maiores nomes da história do São Paulo já deixou de ser um argumento razoável há tempos e já não justifica mais nada.

Cada bola aérea é um semi-infarto. Cada chute a gol me traz mais medo do que o elevador do Hopi Hari. E as rebatidas? São como um cão pitbull desconhecido vindo em minha direção numa rua qualquer.


Desconfio de qual seria a reação de Jó se um último teste divino fosse ter o guarda-metas tricolor em algum amistoso em seu time no antigo testamento. A cada jogo, Denis fica tão indefensável quanto esse trocadilho com um goleiro.

Sua reação no gol é como a de quem acabou de tirar sua carteira de habilitação e se assusta quando um ônibus buzina. É o medo da morte. É a espera pela tragédia anunciada.

Com uma semifinal de Libertadores e todo um Campeonato Brasileiro pela frente, o medo aumenta exponencialmente.

Esperamos que o sermão dos pais e da diretoria sejam suficientes para que ele pare de aprontar e que toda a classe não seja reprovada na disciplina Tetracampeonato da libertadores da América.

*Leandro Marçal é um jornalista de 24 anos, torce pelo Tricolor Paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sobre bipolaridade e Cristiano Ronaldo

SE PERDER, QUE SE F... Cristiano Ronaldo "convence" João Moutinho (8)
 a bater um dos pênaltis contra a Polônia  (Catherine Ivill/AMA/Getty)
Cristiano Ronaldo é uma cara que desperta paixões na mesma proporção em que faz aflorar um ódio mortal em quem não suporta sua estampa moderninha. Ele é uma figura das mais difíceis de interpretar. E das mais fáceis também.

Quando pressionado, é capaz de falar as maiores bobagens do mundo, como reclamar da alegria de um adversário a quem fora incapaz de ajudar a derrotar (posto que futebol é esporte coletivo), maldizer o nível dos companheiros de equipe ou atirar num lago francês o microfone de um repórter pago para fazer o jogo cretino de um jornaleco de merda de Portugal.

Ele costuma dar milho para bode sempre que troca os pés pelas mãos. isso sem contar os motivos bestas que gente tão besta quanto usa para diminuir seu inegável talento: olhar para o telão a cada gol perdido, fazer a sobrancelha, usar xampu anti-caspa. "Ó, que pecado! Que marra!"

Aí faz três ou quatro gols e vira o mais amado de novo. E perde um clássico para o Barcelona, E vira pipoqueiro. Consegue a proeza (não para ele) de marcar 50 gols ou mais na temporada, como nas últimas seis. É craque! Afunda com Portugal (o que é normal). Ah, é marqueteiro. Bom é o Messi!

Ele não tem tido uma Eurocopa das mais felizes, muito por culpa dele mesmo, como já dissemos aqui. Ainda assim, foi essencial para classificar Portugal para o mata-mata ao acabar com o jogo contra a Hungria, que é o mínimo que se espera de um jogador de seu nível, embora fosse um jogo desfavorável por todo o contexto, inclusive sendo um dia depois de fazer o tal microfone submergir em Lyon.

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Paralelamente, Messi fazia chover na Copa América, vestindo a camisa da Argentina. Não é preciso citar como terminou o torneio de seleções americano. Apenas trago o assunto à baila para mostrar o tamanho da encrenca que colocava em lados opostos "lionetes" e "ronaldetes", como se fosse impossível gostar de ambos.

Não, meninos. Não é! Aceitem. Apenas aceitem.

Para completar, Cristiano Ronaldo havia perdido um pênalti no fim do jogo com a Áustria, o que ajudou para que Portugal não vencesse nenhuma partida na Eurocopa até o momento.

Eis que chegou o jogo das quartas de final, no qual ele, Cristiano, fez uma partida tecnicamente sofrível, furando na frente do goleiro dois gols certos ("pipoqueiro!"), que dispensariam a necessidade do drama das penalidades.

Mas Ronaldo precisava.

Um hiato aqui para servir de intróito ao que vem:

Você, leitor, poderia estar em coma desde junho de 2014 até ontem; ou ter sido sequestrado pelas FARC numa excursão com o pessoal do cursinho para a Colômbia; ou mesmo ter sido abduzido por alienígenas. Se não se encaixar em uma destas três possibilidades, certamente sabe que Thiago Silva, capitão da Seleção Brasileira, amarelou bonito na disputa de pênaltis na Copa de 2014 contra o Chile. Mesmo não ligando lhufas para o futebol, saberá também que a braçadeira não tem caído bem no braço do mimadinho Neymar, aquele que andou chamando de babacas toda a gente que não lhe lambe as chuteiras.

Voltemos à marca da cal do Velodrome.

Após a partida abaixo da crítica contra os poloneses, o camisa 7 abriu a disputa de pênaltis, converteu e ajudou Portugal a chegar às meias-finais. Até aí, nada que já não tivera feito antes. 

Até aí.

Até aí porque, desde ontem, circula na internet um vídeo que mostra a liderança do capitão português (a quem já critiquei aqui e aqui) antes dos pênaltis. O meia João Moutinho, que entrou durante a partida, não estava lá muito disposto a bater. 

Cabe salientar, pois, que ele, Moutinho, foi um dos que perdeu sua cobrança contra a Espanha, nas semifinais da Euro 2012, quando Portugal ficou pelo caminho. Destaca-se também que o jogador do Monaco não faz uma campanha das melhores na França, tendo perdido até o lugar no 11 de Fernando Santos.  

Cristiano não só convocou o camisola 8 a bater como o encheu de ânimo e tirou-lhe toda a responsabilidade no caso de novo erro. Moutinho bateu com perfeição, Portugal converteu os cinco chutes, se classificou para a quarta semifinal em cinco Eurocopas e o mundo voltou a amar Cristiano Ronaldo.

Ao menos até o próximo jogo.



Veja o vídeo de Cristiano convocando João Moutinho: