sábado, 4 de maio de 2019

Benfica 5 x 1 Portimonense - sorte de campeão



O Benfica fazia um jogo pavoroso na Luz contra um Portimonense que caprichou no direito de perder gols. Se o adversário dos encarnados tivesse um jogador meia boca no ataque, teria virado com pelo menos três de vantagem e o título cairia no colo do Porto. Com Pizzi e Grimaldo bem marcados e Rafa não tendo o apoio do espanhol para fazer do corredor central o seu quintal, os armadores ficaram distantes do apagado João Félix e do atrapalhado Seferovic, e o primeiro tempo foi de dar sono - e medo, muito em função do fato de os de Portimão adiantarem cinco ou até seis elementos ao campo de ataque. 

No segundo, o mesmo fado, mas com os portimonenses aproveitando uma pane geral da defesa encarnada para Tabata limpar Odysseas e fazer 1 a 0, o que quase virou uma tragédia quando os visitantes desperdiçaram o segundo com Paulinho, logo em seguida.

Aí saiu Samaris e entrou Jonas, com Pizzi recuando até o setor do grego e o brasileiro centralizado, e isso só seria possível se Florentino, de 19 anos e não fazendo uma prestação das melhores, segurasse o rojão. Um minuto depois, balão de Jardel pra frente e o zagueiro Lucas cochilou o suficiente para Rafa roubar-lhe o doce e empatar. Logo depois, Seferovic recebeu em condição legal, tirou o goleiro do gol e deu pra Grimaldo brigar para Rafa marcar o segundo, com o gol aberto.

O jogo voltou a ficar complicado quando Paulo Henrique entrou para pressionar Pizzi na saída de bola (e dois erros seguidos, com Grimaldo e Ferro, devidamente socorridos por Odysseas e Jardel), forçados pela marcação alta do Portimonense. Aí entra o mérito de Bruno Lage: João Félix saiu, Gedson entrou e Pizzi, o melhor em campo, voltou à posição de extremo. Assim, Seferovic desencantou, marcou dois e deixou o Benfica com quase todos os dedos na taça, a quinta em seis temporadas. Ainda teve tempo para Jonas, que entrou bem demais, escorar cruzamento perfeito do excelente André Almeida e marcar seu 300º gol na carreira - o de número 137 com a águia ao peito.

A ponderar: i) foram 30 minutos de futebol decente: ii) Seferovic é medonho, mas é taticamente importante; iii) Florentino é jogador para ser titular de qualquer time do mundo. Qualquer um; iii.a) e o mais importante: seremos campeões outra vez!

segunda-feira, 25 de março de 2019

Preocupante, mas com melhoras - Portugal 1 x 1 Sérvia

Imagem: Reuters
Portugal martelou, tentou, errou, mas apenas empatou com a Sérvia pelas Eliminatórias para a Euro 2020. Segundo empate em casa e o sinal amarelo já ligado. 



O time das Quinas começou bem o jogo, achando espaços para se aproximar do gol adversário, mas errando o último passe que, sabe lá Deus por que, normalmente é um cruzamento desproposital na área. William Carvalho quase abriu os trabalhos aos 4 minutos, mas a finalização, além de fraca, desviou na defesa, apesar de o árbitro ter marcado tiro de meta, na sua primeira decisão equivocada da noite.  

Falando em primeira, a Sérvia apareceu no ataque e já fez movimentar o jogo, com o pênalti marcado, de Rui Patrício, no atacante Gacinovic, após passe primoroso de Tadic, o mais perigoso dos jogadores da turma dos Balcãs. Mesmo com o gol marcado cedo por Tadic, o jogo seguiu no ritmo que seria mesmo no 0 a 0: Portugal buscando espaços e a Sérvia, que até dava campo, contando com os inúmeros erros portugueses no último terço do campo ou, quando precisou, o goleirão Dmitrovic esteve muito bem, e apostou em contragolpes perigosíssimos. E foi o goleiro que impediu que o empate saísse pelos pés de Cristiano Ronaldo, por duas vezes, e de Rafa Silva, o melhor dos lusos em campo.


Aí saiu Cristiano Ronaldo, que sentiu a coxa. Curiosamente – ou não – Portugal melhorou a partir do momento em que teve que se virar sem seu principal jogador, Entenda-se este "se virar" como "liberar Bernardo Silva da prisão da ponta e deixá-lo jogar também pelo meio". Ainda assim, o gol, ou melhor, golaço de empate, saiu em jogada individual e de rara felicidade de um improvável Danilo.


E assim foi também durante o segundo tempo: Portugal atacando, a Sérvia defendendo e o árbitro, que já marcara um pênalti discutível aos sérvios, deixou passar um claro para Portugal (que foi até marcado, mas impugnado por uma anotação equivocada do bandeira), e outro, mais discutível, no Pepe. Aí a Sérvia abdicou do jogo e Portugal teve posse, campo, vontade e um comboio de bolas a passar na frente do gol sérvio, sem nenhum pé lusitano para desviá-las para o gol, mas um azar desgraçado com as hipóteses desperdiçadas e com os erros do árbitro.


Como desgraça pouca é bobagem, o time de Fernando Santos folga nas próximas duas rodadas, em junho, por causa da Liga das Nações, e volta com a faca nos pescoço, embora com boas perspectivas, desde que, claro, Fernando Santos abandone o jogo de ligação direta de nada para ninguém e aposte em um meio criativo, onde os benfiquistas Pizzi e Rafa e o leonino Bruno Fernandes, além de Bernardo Silva, claro, possam aparecer.

Rui Patrício: uma bola no gol e um gol (de pênalti);
João Cancelo: se fosse uma raça de cachorro, já teria desaparecido por não saber 
cruzar;

Pepe: valentia que beirou a irresponsabilidade;
Rúben Dias: gosta de emoções fortes;
Raphael Guerreiro: precisa entender que a linha de fundo não morde;
Danilo Pereira: muito luta e um golaço. Pode ter ganho a posição de titular no lugar de Rúben Neves, o que não é necessariamente uma boa notícia;
William Carvalho: o dono do meio de campo;
Rafa Silva: foi responsável por fazer a ligação que faltou no primeiro jogo e foi bem (entrou Gonçalo Guedes, que mal sujou o uniforme);
Bernardo Silva: mais sumido que o Fabrício Queiroz até a lesão de Cristiano;
Dyego Sousa: seguiu à risca a tradição de centroavantes ruins na Seleção (entrou André Silva, tirou um gol de Raphael Guerreiro, como grande zagueiro que deveria ser se fosse zagueiro);
Cristiano Ronaldo: enquanto esteve em campo, foi perigoso como sempre (deu lugar a Pizzi, que ajudou a aumentar o índice de cruzamentos errados).

sexta-feira, 22 de março de 2019

Estreia para esquecer - Portugal 0 x 0 Ucrânia

Imagem: Reuters

Quer ver Portugal se enrolar? Dê a bola e feche-se na intermediária. Falta um pé que pense melhor o jogo, que encoste e faça Bernardo Silva ser efetivo. Fernando Santos imagina este ser o João Moutinho, como já pensou ser o João Mário e o André Gomes. Errou sempre. Talvez Pizzi pudesse ser, jogando na ala, um bom auxiliar para o meia do City.

O jogo de estreia nas Eliminatórias da Eurocopa, em que Portugal entra defendendo o título, lembrou demais o jogo com o Uruguai na Copa, mas como a Ucrânia não tem Cavani e Suarez (graças a Deus), o jogo ficou 0 a 0.

Cristiano Ronaldo entregou o que dele se esperava: movimentação, finalizações e foi o jogador mais perigoso da equipe de Fernando Santos, não tendo dado a vantagem a Portugal somente porque o goleiro Pyatov esteve em excelente plano. O mesmo não se pode afirmar de Bernardo Silva, mas, neste caso, a responsabilidade cabe ao treinador português, que teima em desperdiçar seu talento ao deixá-lo preso à ponta, em vez de aproveitar de sua visão de jogo e movimentação na zona de criação, como bem faz Guardiola no Manchester City.

No fim, o empate só não se transformou em desastre porque Pepe, como de costume, fez uma partida exemplar e salvou um gol certo do pé de Júnior Moraes quando este teve o gol aberto após sobressalto de Rui Patrício.  

Rui Patrício: um balde d'água teria o mesmo trabalho que ele.
Cancelo: bem na defesa, medonho no apoio;
Pepe: ganhou metade das jogadas na sua área (e salvou Portugal no fim do jogo);
Rúben Dias: ganhou a outra metade;
Raphael Guerreiro: assistiu ao jogo de dentro do campo;
William Carvalho: o único que se salvou do meio pra frente;
Rúben Neves: tentou de tudo e errou tudo (saiu para dar lugar a Rafa, que não tentou e não errou);
João Moutinho: praticamente um a menos em campo (entrou João Mário e manteve o nível do titular);
Bernardo Silva: deve ligar para o Guardiola à noite e dizer que sente saudade;
André Silva: um bom chute e só (em seu lugar, Dyego Sousa pelo menos se movimentou mais, o que não quer dizer muita coisa);
Cristiano Ronaldo: tentou, acertou, parou em Pyatov, tentou, errou, tentou, tentou e tentou, mas, sozinho, não consegue sempre fazer a diferença.


quinta-feira, 21 de março de 2019

Messi ou Ronaldo? Pelé!

(Fotos: Getty Images. Montagem: Placar)

Vira e mexe, aparecem polêmicas que tentam comparar jogadores diferentes, de épocas diferentes, e vaticinam que este é melhor que aquele e pronto. A mais nova é sobre o melhor jogador de todos os tempos – ou GOAT (Greatest Of All Times, de acordo com o estrangeirismo comum das redes sociais): Messi, Cristiano Ronaldo ou Pelé.

O estopim foi a fase de oitavas-de-final da Liga dos Campeões, quando Cristiano passou por cima do Atlético de Madri e fez os três gols que classificaram sua Juventus aos quartos da competição. Um luxo! A resposta de Messi foi uma atuação de gala (mais uma) no passeio sobre o Lyon, completada na soberba partida feita na goleada sobre o Bétis, pelo Campeonato Espanhol. 


Nada de novo, portanto, do que ambos já vêm fazendo há quase uma década e meia.

O duelo entre eles é o que há de mais bonito no futebol mundial e ninguém, atualmente, sequer está próximo do nível dos dois. O português é o maior artilheiro da Liga das Campeões da UEFA, torneio que conquistou em cinco oportunidades, o mesmo número de Bolas de Ouro que possui. Cinco também tem o argentino, que venceu a maior competição de clubes do mundo quatro vezes. Isso fora o que fazem semana após semana, o que não é pouco, ainda mais se considerarmos os seus feitos, com marcas superadas aos montes, hat-tricks empilhados e atuações monumentais nos principais palcos do mundo.

Aí vem a questão: já superaram o Rei? Bom, vamos a alguns fatos: Pelé, na maior competição do futebol, a Copa do Mundo, tem três títulos em quatro disputadas, o mesmo número de copas que tiveram Messi e Cristiano em campo. Messi, finalista em 2014, tem seis gols pelo torneio, todos na primeira fase; Cristiano, semifinalista em 2006, quando foi um jovem coadjuvante do time que tinha Figo e Rui Costa como principais expoentes, tem um a mais, e nenhum a partir das oitavas. Pelé, que fez 12, só na Copa de 58 anotou seis, três deles na semifinal com a França e dois na final, sobre a Suécia, que sediava aquela edição, a primeira vencida por um país de outro continente. Pelé, então coroado Rei, tinha 17 anos. É verdade que ele teve companheiros de seleção bem melhores ao longo da vida, mas ele era o melhor entre eles.

Há quem diga que Pelé enfrentou jogadores menos capazes do que a dupla de antagonistas do Século XXI, que “o Paulistinha nem se compara com com La Liga ou com a Champions”. Ora, entre os anos 1950 e 1960 – que concentram as três primeiras conquistas mundiais pela Seleção, fora o bicampeonato mundial de clubes do Santos, em 62/63 –, os melhores estavam aqui. Todos os campeões das Copas de 58 e 62 disputavam o Rio-S.Paulo, torneio em que Pelé deitava e rolava, como fazia em todos. Nem na Copa de 70 havia um forasteiro sequer (somente cinco dos 22 vestiam camisas de clubes de fora do chamado eixo Rio-São Paulo). Eis as listas:

1958:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Corinthians);
Laterais: De Sordi (São Paulo), Djalma Santos (Portuguesa), Nilton Santos (Botafogo) e Oreco (Corinthians);
Zagueiros: Bellini (Vasco), Mauro (São Paulo), Orlando (Vasco) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Dida (Flamengo), Didi (Botafogo), Dino Sani (São Paulo), Moacir (Flamengo) e Zito (Santos);
Atacantes: Garrincha (Botafogo), Joel (Flamengo), Mazzola (Palmeiras), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Vasco) e Zagallo (Botafogo).  


1962:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Santos);
Laterais: Altair (Fluminense), Djalma Santos (Palmeiras), Jair Marinho (Fluminense) e Nilton Santos (Botafogo);
Zagueiros: Bellini (São Paulo), Jurandir (São Paulo), Mauro (Santos) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Didi (Botafogo), Mengálvio (Santos), Zequinha (Palmeiras) e Zito (Santos);
Atacantes: Amarildo (Botafogo), Coutinho (Santos), Jair da Costa (Portuguesa), Garrincha (Botafogo), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Palmeiras) e Zagallo (Botafogo).


1970:
Goleiros: Ado (Corinthians), Felix (Fluminense) e Leão (Palmeiras);
Laterais: Carlos Alberto (Santos), Everaldo (Grêmio), Marco Antonio (Fluminense) e Zé Maria (Portuguesa);
Zagueiros: Baldocchi (Palmeiras), Brito (Flamengo), Fontana (Cruzeiro) e Joel Camargo (Santos);
Meio-campo: Clodoaldo (Santos), Gerson (São Paulo), Rivelino (Corinthians) e Piazza (Cruzeiro);
Atacantes: Edu (Santos), Dario (Atlético Mineiro), Jairzinho (Botafogo), Paulo Cesar Caju (Botafogo), Pelé (Santos), Roberto Miranda (Botafogo) e Tostão (Cruzeiro).


Ou seja, este argumento, que tenta colar que os campeonatos europeus eram mais fortes que o Paulista e o Carioca, não se sustenta.

Há os que dizem que o futebol era muito mais fácil, que os sistemas táticos não eram tão fechados e que o futebol não era tão físico e veloz como é hoje. Não deixa de ser verdade, mas a tal facilidade é discutível: o esporte, como tudo no mundo, evoluiu. Se há menos espaços, e não há folga em campo mesmo, as condições são bem melhores. Pelé pegou gramados ruins, equipamentos rústicos, bola pesada e uma época em que a medicina esportiva era incipiente, além do fato de o jogo ser mais violento, sem tantas câmeras pegando as pancadas que os jogadores trocavam. Messi e Cristiano, por sua vez, têm à disposição uma equipe de profissionais,  tratamentos e aparelhos que atenuam o desgaste físico e aceleram a recuperação entre as partidas, programas de computador que ajudam a analisar o desempenho, bolas que começam e terminam o jogo com o mesmo peso, gramados em perfeitas condições, uniformes que não retêm suor, não terminam o jogo empapados ou, como a pelota, com uma parcela da chuva que eventualmente tenha caído.

Alguns fatores favoreceram o Rei, é bom pontuar. O principal deles é que ele, assim como Messi, vestiu a mesma camisa durante toda a carreira (a passagem pelo Cosmos aconteceu após a despedida oficial pelo Santos), não precisando se adaptar a novas formas de jogo e à vida em outros sítios. Nos dias de hoje, e isso é um ponto a favor do argentino, é praticamente inimaginável que Pelé permanecesse no Santos.

Da mesma forma, não resta dúvida de que o Rei seria um jogador ainda mais completo, uma vez que o talento é nato. Pelé, que media 1,72m (achou que fosse mais alto, né?), provavelmente seria mais alto e mais forte, considerando o resultado da sua aplicação, combinada com a evolução humana e os avanços em todas as áreas, incluindo a esportiva.

Temporada após temporada, Messi e Cristiano se reinventam, tornam-se melhores porque Messi é e Cristiano faz de tudo para ser, e consegue. Um é arte pura. O outro, obstinação. E a pergunta inevitável é a seguinte: como seria um jogador com o talento de Messi e a determinação de Cristiano? 

A resposta é simples: este é Pelé.

terça-feira, 12 de março de 2019

Sobre Neymar, PSG e o desmazelo com a imagem

CRAQUE DA AVENIDA Neymar dá uma pausa na recuperação da lesão e
 curte o Carnaval no Brasil (Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Sempre que eu escrevo fazendo críticas ao Neymar, torço para que seja a última vez. Não por ele, nem me importo com isso e duvido que ele sequer suspeite da minha existência, mas faz mal à gente ficar às voltas com críticas, críticas e mais críticas, e fica a impressão de que quando o assunto é recorrente, é pessoal.

Não é.

O problema é que Neymar não se ajuda. Mal saiu – se é que saiu – da crise mais séria sobre a sua imagem por causa do desempenho patético na Copa do Mundo da Rússia, já se envolveu, deliberadamente, em uma nova leva de críticas porque resolveu largar a recuperação da nova lesão no dedinho para aproveitar o Carnaval no Brasil.


Aí o leitor poderá ponderar sobre a importância da ausência do mimadinho craque na nem tanto inacreditável eliminação de sua equipe na Liga dos Campeões, mesmo depois de vencer fora de casa por 2 a 0 e ser superada por um adversário desfalcado de 10 jogadores, entre eles Pogba, o principal nome do United.

Mas tem. E muita.

Neymar chegou a Paris para ser o líder, em campo e fora dele, do projeto de conquista da Europa pelo Paris Saint Germain, um time com alguma tradição doméstica, mas pequeno na Europa e com os cofres abarrotados a partir de uma negociata que envolveu políticos graúdos franceses, fundos de investimentos do Catar e compra de votos para a definição daquele país como sede para a Copa de 2022. E na semana mais importante da temporada, o craque-que-tem-tudo-e-não-é-cobrado-por-nada-em-Paris esteve ausente, o que faz com que o clube seja exatamente do tamanho que é tratado pela sua maior estrela.

Desde que chegou à França, Neymar desfalcou o PSG em 45 de 98 jogos do time (quase a metade das partidas, portanto). Em alguns destes compromissos, o camisa 10 não jogou porque teria sido poupado. É verdade que ficou de fora em boa parte graças às duas lesões mais sérias que sofreu, mas não há azar ou acaso nisso. A celebridade Neymar Jr não conversa com o atleta Neymar Jr e, sabe-se, tem uma vida social bastante agitada, o que não ajuda não só na recuperação física entre os jogos, como também atrapalha, e muito, o trabalho de prevenção de contusões.

Se quer ser levado a sério, o reizinho de Parc des Princes tem que se levar a sério. Precisa entender que sua vida extracampo atrapalha o rendimento dentro das quatro linhas. Precisa entender também que todas suas atitudes repercutem muito mais por causa de sua condição de ídolo, para o bem e para o mal. E precisa escolher entre ser responsável e assumir o ônus que seu status exige, se concentrando no que pode dar em troca dos milhões que recebe, ou aproveitar ainda na juventude tudo o que já amealhou, mas sem esperar por grandes resultados e, consequentemente, ver seu valor de mercado diminuir.

Os dois, não dá.

Mesmo considerando um absurdo imaginar a prima donna no mesmo patamar de Cristiano Ronaldo e Messi, cabem algumas comparações: Cristiano se machucou na final da Eurocopa e voltou ao gramado para apoiar seus companheiros, e Portugal bateu uma França, mais forte e jogando em casa. Neymar, que já havia ficado de fora do jogo de ida pelas oitavas da Champions, deixou seus colegas em Paris e pediu para seguir o tratamento da contusão no Brasil em um período que coincidiu com os festejos de Momo, sem se furtar a largar as muletas e pular, literalmente, o Carnaval.

Esta é somente uma das diferenças.

Messi é o melhor jogador do mundo, o mais dotado tecnicamente. Cristiano diminui a diferença entre eles ao trabalhar feito um louco para ser melhor a cada dia, e se adaptou a uma nova função em campo. O resultado é que, aos 34 anos, o português está longe do declínio físico e técnico esperado nesta faixa de idade. Neymar, que é mais talentoso que o astro lusitano e é sete anos mais jovem, ainda não chegou ao ponto em que a idade pesa e o rendimento cai. Só que a fatura chegará de acordo com o seu planejamento (ou falta de um). Aí restará o mercado brasileiro, que torra grana sem parcimônia alguma, ou algum campeonato endinheirado, como o árabe e o chinês.

Pouco para quem foi projetado para ser o melhor do mundo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Perguntas que devem ser feitas no caso do incêndio no CT do Flamengo

Como o Flamengo, até o momento, só se manifestou via pronunciamentos, algumas questões ainda precisam ser respondidas:

1. Por que não havia nenhuma indicação nos mapas entregues aos órgãos competentes de que havia alojamentos no local?

2. Por que não havia nenhum adulto responsável e treinado no local?

3. Por que produtos inflamáveis estavam presentes na constituição dos contêineres?

4. Por que não havia um plano de contingência para situações de emergência, como incêndios?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Carta de um amor ferido à Placar



Cara Placar, sou de uma geração que cresceu lendo suas páginas. Eram tempos em que o futebol não era a teta que é hoje para ver na TV e não havia internet, o que nos forçava a ser mais imaginativos e atentos às leituras. Você, Placar, assim, foi a principal referência para os amantes de futebol desde 1970, ano da primeira publicação – e do Tri da Seleção. Reconheço os acidentes de percurso, as fases menos legais, como a do revistão dos anos 1990 sob o mote Futebol, sexo e rock’n roll, mas que relação de tanto tempo está livre de intempéries? Quem deu o furo de reportagem que detonou a Máfia da Loteria Esportiva tem crédito para errar. Foi em 22 de outubro de 1982, amada Placar. Até das datas mais importantes da gente eu me lembro.

No entanto, querida Placar, algumas pisadas na bola e caneladas são mais difíceis de perdoar. Perdoei o revistão a partir de abril de 1995, os mascotes redesenhados, matérias como A Primeira Transa dos Craques e até o saudoso Alex Alves de cueca de crochê da CK, mas nada se compara à edição comemorativa de 10 anos da carreira de Neymar, na qual você o coloca como o maior jogador brasileiro desde Pelé.

Este disparate, Placar, tem a precisão do pênalti batido na Lua pelo craque – sim, craque – em 2012, contra a Colômbia, ainda mais no momento em que a imagem do jogador tem os arranhões causados ao longo destes 10 anos e que ficaram evidentes no patético desempenho de seu novo protegido durante a Copa da Rússia.


Além do mais, desde que o Rei (a quem você sempre se referiu como Ele, com inicial maiúscula, uma espécie de Deus da bola) parou, tivemos jogadores maiores que o rapaz que veste a camisa do PSG, essa aí que estampa a capa (podia ser a da Seleção, né?). E isso, me permito dizer, é indiscutível: Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Romário, todos campeões do mundo pelo Brasil e em seus clubes, sendo protagonistas, coisa que o Neymar, seu novo protegido, ainda não foi. Como você pode esquecer Romário e Ronaldo, Placar? Quando você mudou assim?

Neymar é um craque? Repito que sim. É o melhor jogador de sua geração no Brasil? É, e é disparadamente, mas colocá-lo acima de quem fez muito mais pela Seleção, ainda mais quando a imagem mais forte do Neymar é o papelão nos campos da Rússia, é quase uma traição a quem te ama há tanto tempo.

Desculpe-me, revista Placar. Não é assim que voltarei a te amar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Perdão, Boechat

Perdemos Ricardo Boechat. Mais uma vez, uma desgraça que poderia ser evitada, não fosse a cretina mania tupiniquim do “depois a gente vê”. Segundo reportagem de O Globo, o helicóptero em que estavam o jornalista e o piloto, Ronaldo Quattrucci, que também morreu, não tinha autorização para fazer o serviço de taxi aéreo. Se levantou voo, é porque alguém permitiu. Quattrucci era um piloto experiente e sócio da empresa dona da aeronave.

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Não pode

Falta fiscalização no Brasil. Falta tudo neste país que foi feito para dar errado desde o início. E é assim porque somos um bando de hipócritas, cuja indignação tem prazo de validade. Mariana, Boate Kiss, enchentes em Nova Friburgo e Niteroy,  ciclovia Tim Maia, Brumadinho, Voo 1907 da Gol (aquele que resvalou em um jatinho Legacy e caiu na floresta) , Voo 3054 da TAM, Morro do Bumba, voo da Chapecoense, Ninho do Urubu, sem contar outros casos que não causam repercussão. Em comum, a todos, o fato de alguém ter deixado, por omissão, incúria, desmazelo, ganância. Deem o nome que quiserem. Prefiro chamar de desprezo à vida alheia.

Por ironia, o último comentário de Ricardo Boechat, na Band News, foi sobre o quanto dura a comoção. A tragédia de Brumadinho já deixou, segundo ele, as capas dos jornais, ocupadas agora pela desgraça que matou dez meninos na base do Flamengo, clube de coração do jornalista, na última sexta-feira.

Ricardo Boechat era um âncora que não perdeu sua essência de repórter, que é, em suma, a parte mais importante, a matéria-prima do Jornalismo. Este jornalismo perdeu um dos seus melhores combatentes. Uma esposa perdeu seu marido, pai de seis filhos. O piloto deixou dois. E o Brasil chora, mais uma vez, um choro que tem hora para começar e terminar, que é a próxima tragédia anunciada. Anunciada e negligenciada, como tudo o que acontece neste país de merda.

Perdão, professor.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Não pode

Elenco do Flamengo reza antes do treino (Foto: Twitter.com/flamengo)
Não pode um clube como o Flamengo "alojar" pessoas nas condições em que se encontravam os meninos que morreram no incêndio do Ninho do Urubu.

Não pode a camisa do Flamengo ser usada como escudo para que nenhum dirigente seja responsabilizado.

Não pode um clube que gasta o que gasta em salários, tratar pessoas desta forma. Nenhum pode.

Não pode haver concessão quando vidas estão envolvidas.

Não pode haver mais Mariana, Boate Kiss, Brumadinho, Voo 3054 da TAM, Morro do Bumba, Tragédia do voo da Chapecoense, Ninho do Urubu.

Não pode haver tanto descaso, tanta irresponsabilidade, tanto cala-boca, tanta concessão.

Não pode haver tanto "deixa assim, depois a gente vê".

Não pode haver tanto "faz assim, que é mais barato".

Minuto de silêncio, aplausos antes do treino, todos de braços dados formando uma roda. Tudo é muito bonito, mas não se resolve nada sem ação. Foi no Flamengo, um gigante. Imaginem o que acontece em outros clubes.

Não pode haver tanta desfaçatez.

Não pode.

A dois passos do paraíso

Montagem: RBS

“Longe de casa
Há mais de uma semana
Milhas e milhas distante
Do meu amor

Será que ela está me esperando?
Eu fico aqui sonhando
Voando alto
Tão perto do céu”

Quem teve a oportunidade de trabalhar com futebol de base sabe o quanto é difícil a vida de um garoto que sonha em ser um Neymar, um Philippe Coutinho, um Gabriel Jesus, ou ser apenas ele mesmo. Tem a peneira, cuja malha é cada vez mais estreita; a adaptação à nova casa, à nova família. Porque é disso que se trata: é uma família que é formada, como novos “irmãos”, de sonho e estrada. De vida.

Longe de casa, dos irmãos, pais e amigos, sem o alicerce onde eles poderiam firmam os pés, pés estes que são os que os levarão para a glória – ou para o ostracismo -, vão os meninos bons de bola. Com eles, quase que de forma siamesa, vão o medo do fracasso, a proibição de errar e voltar para casa sem o contrato assinado e carregando no ventre do coração uma carreira natimorta. Afinal, é no talento do filho bom de bola que a família se fia por uma vida melhor.

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Rimos quando o Edu Gaspar falou que “era difícil ser Neymar”. Mas aos 14 anos deveria ser mesmo. E se Neymar, como tantos outros, não virasse o Neymar da Seleção, do Santos, do Barcelona, do PSG dos 222 milhões de euros, e tivesse sido só mais um dos meninos bons de bola cujo fama e futuro ficaram presos no funil? Sem a possibilidade de falhar, abrindo mão da infância e do simples jogo de bola por algo que, de divertido, só é para quem está do outro lado da cerca, o menino torna-se homem antes mesmo de a barba aparecer. Todo profissional está sujeito a passar por uma temporada ruim e talvez a vida seguirá. Na base, um ano abaixo significa uma carreira a menos.

Entrar nas categorias de base do clube não garante nada, a não ser a manutenção do sonho. Daí, subir ao time de cima, degrau por degrau, chegar à equipe principal, manter-se no elenco, virar titular, chegar a um grande e não sentir o peso da camisa, uma eventual convocação para a Seleção, para aí sim ter acesso às benesses que a vida de jogador de futebol de primeiro nível oferece, é um caminho longo demais a ser percorrido. Isso sem contar os percalços, como um empresário golpista que lhe roubou o sonho em troca de meia dúzia de moedas, uma lesão, ou justamente naquele dia a cabeça estava longe, a camisa pesou, um eventual pedófilo que troca o lugar no time por favores inconfessáveis, a estrutura precária do time.

O fogo que lambeu o CT do Flamengo não interrompeu apenas carreiras. Acabou com sonhos de uma existência mais digna, tirou mais que a promessa de um futuro melhor: por mais que pareça clichê, vidas acabaram no inferno do Ninho do Urubu. O clube fica, Flamengo ou não. Os meninos, porém, como uma falta por trás cometida de forma traiçoeira pela noite, por incúria ou fatalidade, não tiveram defesa ou a chance do drible para encarar o próximo lance. Não haverá próximo lance. Não haverá dor maior do que a provocada às famílias pela perda não do candidato a jogador, mas do filho, do irmão, do amigo.

Famílias. Família. Consanguínea ou de escolha, tanto faz. Tudo gira em torno disso. E são as famílias que ficam sem seus meninos, bons de bola ou não. No fim, a bola é o que menos importa. E o paraíso, que estava tão perto, tornou-se inalcançável.

“Estou a dois passos do paraíso. Não sei se vou voltar
Estou a dois passos do paraíso. Talvez eu fique, eu fique por lá”.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Números favoráveis não salvam ano pífio da Seleção Brasileira

NÚMEROS MENTEM Brasil venceu todos amistosos, mas fez uma Copa
 do Mundo bem abaixo do que poderia (Foto: Jewel Samad/AFP)
A Seleção Brasileira fechou o ano "positivamente". Foram 15 jogos, com 13 vitórias, um empate e uma derrota, com 28 gols marcados e apenas três sofridos e um aproveitamento de quase 90%. Números superlativos, que, em condições normais, mostrariam um trabalho com consistência, que atingiu o sucesso esperado por dez entre dez torcedores - nos quais não me incluo. Em condições normais, porém, os números mostram menos do que deveriam, apresentam meias verdades.

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Por que, Tite?

Trajando as vestes da modernidade, Tite abriu a temporada sob a confiança da torcida, que o via como o condutor ideal do hexa, o portador da boa nova após a trágica passagem de Dunga. E os números, sempre eles, fiavam a imagem de Midas do futebol nacional. Afinal, pegou a equipe em situação de extremo risco e a levou a uma incontestável classificação à Copa, com brilho, intensidade, competitividade. Enfim, "Titebilidade", como brincavam torcedores e mídia com o jeito de falar do treinador, idolatrado por grande parte da imprensa dita especializada.

E é aí que morou o problema. A unanimidade fez mal ao treinador, que chegou à Copa no pedestal da genialidade. As entrevistas do "Professor Adenor" mais pareciam o quadro do Profeta, do genial Ronald Golias, na Praça É Nossa. Nenhuma contestação, Neymar fazendo o que queria, jogadores rendendo abaixo do que era o necessário, sobretudo atuando em campeonatos de nível de competitividade quase nula. Outros, chegaram à Rússia na curva descendente do condicionamento físico e minguaram durante a competição, que era o único objeto do Brasil, que foi uma espécie de estudante que tirou nota máxima em todos os simulados, mas que bombou na prova porque chegou confiante demais e foi pra balada na noite anterior.

UÁLA! Entrevistas coletivas mas pareciam palestras. (Foto: Youtube)
15 jogos, 13 vitórias, um empate e uma derrota, sofrendo só três gols, mas justamente quando não podia, na Copa do Mundo em que jogou bem em apenas dois tempos, em partidas diferentes, durante toda a competição. Realmente, os números mostram quase tudo, mas escondem o essencial, como diria o Roberto Campos naquela analogia com o biquíni.

O lado bom é que agora o manto da inquestionabilidade não cobre mais o "Professor", nem sua primadona. Eis um passo necessário a ser dado para que o outrora país do futebol recupere, pelo menos, a decência de suas atuações em campo. Principalmente quando for valendo.

sábado, 7 de julho de 2018

Por que, Tite?

UAHLAH! O mestre Tite, tal e qual o Profeta de Ronald Golias


Um pecado a eliminação do Brasil. E o pecador atende pelo nome Adenor. Tite, o civilizador, montou o time parecido com o que não funcionou contra o México. William preso na ponta, Paulinho sem função alguma, e jogando com Fernandinho, que é lento, e precisava de ajuda para substituir Casemiro, que fez uma falta imensa. Fagner, um terror, não teve cobertura, que deveria ser feita por um dos volantes. Ninguém fez.


Roberto Martinez, por sua vez, desmanchou o sistema com cinco defensores que quase emperrou no Japão, reforçou o meio-de-campo e, favorecido não só pela ausência de Casemiro, mas também pela pavorosa atuação da dupla Fernandinho-Paulinho,encaminhou a vaga ainda no primeiro tempo, coisa que o México poderia ter feito caso tivesse um pé que pensasse o jogo.

Neymar, abaixo do mais baixo que já jogou pela Seleção, foi uma figura patética no primeiro tempo. Apático, errou tudo o que tentou e saiu do Mundial com a imagem de chorão, mimado e ídolo que ninguém deveria ter. Marcelo, depois de uma temporada estonteante, foi um fiasco maior do que já havia sido em 2014, e ainda teve problemas físicos. Nem Coutinho foi bem, e Gabriel Jesus, em noite para ser esquecida, não terá quem o defenda. No segundo tempo, sem a nulidade da camisa 19, com Douglas Costa querendo jogo e com Firmino mais à frente, o Brasil funcionou um pouco melhor.

Quando Renato Augusto entrou para igualar numericamente o jogo, já que Paulinho era, para variar, praticamente menos um em campo, o Brasil melhorou. Neymar entrou no jogo, embora sem brilho, mas minimamente efetivo. Coutinho, mesmo mal, achou um passe fantástico para Renato Augusto diminuir. E quase o mesmo Renato empatou, se aproveitando de um raro momento de desarranjo belga.

A Bélgica, que abriu a vantagem com De Bruyne jantando o apavorado e injustificável Fagner, Lukaku ganhando tudo sobre todos no primeiro tempo e Hazard como o dínamo do time, sentiu o gol e se fiou no imenso Courtois, que brilhou quando um desesperado Brasil mandava no jogo, à base do bumba-meu-canarinho. Pena para o Brasil Douglas Costa não ter tido mais chances em campo, assim como Renato Augusto.

Tite, como sempre calmo, sereno e irritantemente professoral na coletiva post-mortem, teria muito o que explicar, caso a imprensa presente não bebesse de sua inquestionável sabedoria. Por que Fred? Por que Taison? Por que Fagner? Por que Alisson titular? Por que insistir tanto com Fernandinho? Por que Gabriel Jesus? Por que Marcelo voltou? Por que Paulinho? Por que, Tite?

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Passou quem teve coração. E não foi Portugal


A VIDA PELA VAGA O que faltou a Portugal sobrou
 ao imenso Cavani (Facebook.com/FIFA)
 
Desde o início da Copa eu tenho reclamado da convocação, da postura e das escolhas de Fernando Santos. Hoje, Portugal caiu por causa da falta de opções para fazer a bola chegar à frente. Sem essa de cair em pé. Perdeu para um grande time, uma camisa gigante, mas perdeu, e poderia ter feito mais. Não com o grupo que foi convocado. Não com João Moutinho no banco quando era o único com passe qualificado. Não com Gonçalo Guedes em campo. Não com Guerreiro sendo engolido por Cavani, com João Mario errando o que podia e o que não podia. Não com Bernardo Silva jogando torto na direita e órfão do apoio do grotesco Ricardo Pereira.


O Uruguai, ciente de suas limitações, deu campo, bola, fechou a defesa e apostou nos imensos Cavani e Suárez. Não tem um elenco numeroso, mas Óscar Tabarez extraiu o melhor do que tinha em mãos e anulou Cristiano, que mal viu a bola e, quando a teve e só tiha o chute como opção, tinha à frente Torrera, Laxalt, Cavani e outros 3 milhões de uruguaios se matando a cada bola.

Uma pena a única partida monstruosa feita por Bernardo Silva, melhor jogador português em campo, ter sido a última. Guerreiro, Guedes e João Mário, por sua vez, foram pesos mortos em campo num jogo em que era preciso estar no máximo do desempenho, num jogo em que era inadimissível ter tantos escanteios que morreram antes mesmo de chegarem à área.

Fernando Santos, a quem devemos agradecimento eterno pelo título da Eurocopa, terá que renovar não só a Selecção das Quinas, como seus conceitos e modo de jogar. Portugal deve perder Pepe depois de três Eurocopas e outras tantas  Copas do Mundo, além de Fonte, João Moutinho e Quaresma, que podem ter cumprido seus derradeiros serviços com a Cruz da Ordem de Cristo ao peito, ao passo que Cristiano ainda deve ter um ciclo completo pela frente.

Voltando ao jogo, passou quem mereceu passar.

Pegou no breu

GIGANTE Neymar se estica para, se sola, cravar seu nome na
história (Alexandre Schneider/Inovafotos/Gazeta Press)


Soberba a atuação do Brasil. Com um Neymar gigante, como se espera dele, sem firula, jogando para o time e sem simular faltas, e tendo Paulinho, recuado, mais ou menos como fez na sua maior partida pelo Brasil, na final da Copa das Confederações de 2013, contra a Espanha, que finalmente fez um grande jogo em Copas.

O México surpreendeu pelo ímpeto do primeiro tempo e só não fez a vantagem pela falta de inteligência de seus homens de frente. Se tivesse um pé só que pensasse o jogo, o time de Juan Carlos Osorio poderia ter criado problemas sérios ao Brasil, que foi encurralado durante boa parte do primeiro período de jogo.


No segundo, com Paulinho preso e William com o diabo no corpo, aproveitando o espaço deixado por Coutinho, que esteve abaixo, mas se doou para completar a marcação,no espeço deixado pelo volante do Barcelona, o Brasil mandou no jogo. O pouco que passou ficou na excelente dupla Thiago Silva e Miranda, que tiveram um desempenho perfeito, sobretudo o primeiro, que está tendo sua redenção pela equipe canarinha.

Com a bola do segundo tempo, com Neymar centrado como foi e com a defesa bem posta, o Brasil tem bola para ser campeão. A saber, apenas, sem Casemiro, outro que faz uma Copa absurda, mas, punido por ter acumulado cartões amarelos, será rendido por Fernandinho, que tem cumprido uma boa temporada, mas não tem o peso do madridista.

Pai Marcola Copa da Rússia 2- Palpites para as quartas de final

Já que errei mais do que acertei nas oitavas, vamos às previsões do Pai Marcola para os quartos-de-final da Copa:
Brasil x Bélgica - jogo chato, complicado, que envolve quem ainda tem que provar seu valor contra a camisa mais pesada do futebol mundial. A Bélgica só será respeitada quando cumprir uma grande campanha, como chegar às semi-finais, por exemplo, ou eliminar um gigante (ou os dois juntos). Terá a chance amanhã, mas o Brasil se encontrou durante a Copa e, embora com o elenco enxuto pela teimosia do técnico/civilizador Tite, tem camisa, time e bola (também graças ao Adenor, diga-se) para passar. Ficará para a a próxima, Bélgica.
França x Uruguai - primeiro jogo realmente grande dos gauleses no Mundial (o Exército de Brancaleone albiceleste não conta), e não terão Matuidi contra o gigante Uruguai, que sentirá muito mais a lesão na panturrilha do Cavani que o próprio. Aos cisplatinos, resta colocar o coração charrua na ponta da chuteira outra vez, morrer a cada bola disputada e torcer para que Suárez seja ainda maior do que é. Na pior das hipóteses para os orientais, este jogo renderá outro texto brilhante do Nicolás Bianchi. Mesmo sem brilhar até aqui (e com Mbappé voando), a França deve passar.
Rússia x Croácia - ninguém, nem mesmo os russos, sabem como chegaram até aqui. A Croácia fez um jogo medonho contra a Dinamarca, no qual seu fabuloso meio-de-campo não funcionou. Pode ser este o caminho para que falte ainda mais vodka e a expectativa de vida do cidadão russo diminua consideravelmente. Em condições normais, os enxadrezados passariam o carro por cima dos donos-da-casa, mas esta não e uma Copa normal. Ainda assim, a Croácia deve aparecer novamente na semifinal.
Inglaterra x Suécia - depois de negar o carimbo nos passaportes italianos e holandeses e quase engasgar com o chucrute alemão, a Suécia tem outro "gigante" (mais ou menos, né? Baita futebolzinho supervalorizado o dos três leões) para tombar. Sem Ibra, o conjunto ganhou força e o sistema defensivo, posto à prova em jogos de grande envergadura, como diz o Rogério Centrone, é duro feito rocha. Do outro lado, a "ótima geração inglesa", que viu a vaca deitar contra a Colômbia, terá seu mais duro teste nesta Copa, que ainda não será deles (talvez as próximas 300 também não, mas é um time talentoso). Aposto um blodpudding (puta troço bom. Recomendo) na Suécia, mas sem muita convicção.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Pai Marcola Copa da Rússia 1- Palpites para as oitavas de final

Uruguai x Portugal - Os da Província Cisplatina não tomaram gol até agora, mesmo tendo Muslera como guarda-vala (e porque não enfrentaram Golçalo Guedes!), e tem Godin em altíssimo nível, além da dupla de ataque mais mortífera da Copa. Portugal tem Cristiano Ronaldo e Willam Carvalho. E só. Por isso (e porque eu quero), passa Portugal.
França x Argentina - O melhor elenco contra um catado, um Exército de Brancaleone. Ambos não têm técnico, mas o que sobrou da Argentina tem tem o que sobrou do Mascherano e Messi. Já a França, com excelentes jogadores em todos os setores, não tem protagonistas (nem venham falar do Pogba, por gentileza, ou do Mbappe). Passa Argentina (porque eu torço por isso e para termos CR7 vs Messi nas quartas (mas que serão numa sexta).
Brasil x México - Cresceu ao longo da competição, mas também, pelo que jogou antes, se diminuísse, desapareceria em campo, assim como o William tem feito. O México é um time muito bem treinado, mas que negou fogo quando não podia e só não foi se afogar na Tequila porque a Alemanha conseguiu perder para Coreia. Passa o Brasil, mas não será fácil.
Bélgica x Japão - A Rafaela Kinoshita que me desculpe, mas a ótima geração belga (como sempre diz Vinícius Carrilho) é a maior favorita nesta fase, contra o disciplinado até demais Japão, que só eliminou Senegal porque mostrou menos a língua para o juiz. Passa o Japão para que a Rafa fique feliz.
Espanha x Rússia - Com ou sem técnico, com ou sem tiki-taka, a Espanha passa o carro no medonho time russo, que goleou a inexistente Arábia (pra ferrar meu bolão) e ganhou do Salah. Um pecado! A coisa ficará russa para o Wladimir, que ficará Putin (não poderia desperdiçar a oportunidade) com a classificação da Fúria.
Croácia x Dinamarca - Os maiores herdeiros dos "Brasileiros da Europa" terão alguma dificuldade contra os escandinavos, mas devem confirmar o favoritismo sem sustos. Têm a melhor linha de meio de campo da Copa e, para mim, foi o melhor time da primeira fase (a Bélgica bateu em bêbados). Os ótimos Eriksen e Schmeichel, que deve ter um filho que cata muito também), ficam por aqui.
Suécia x Suíça - 0 a 0 no tempo normal, na prorrogação e nos pênaltis. Como tem que passar um, passa a Suécia.
Colômbia x Inglaterra - Se não fizer bobagens como perder jogador por expulsão no primeiro minuto, a Colômbia pode dar trabalho aos súditos da rainha. Tiveram uma primeira fase arrastada como quase todo mundo e agora tem o time-que-será-eliminado-nas-semi-finais-em-2022-e-2026 pela frente. Pelo potencial e pelo James meia-bomba (e porque o Andre Gandolph me falou que serão campeões), passa o English Team.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Classificação à lusitana

REI DA TRIVELA Quaresma decidiu com
 golaço em noite de pouco brilho
Ufa! Portugal está classificado às oitavas de final da Copa do Mundo. Como nas outras partidas que antecederam a esta contra o Irã, Portugal pecou pela escalação malfeita, efeito direto da convocação errada promovida por Fernando Santos, que privilegiou passadores, mas nenhum gancho, de fato.

Se o sistema de jogo era o correto, com três jogadores à frente e Ronaldo e André Silva trocando de posições, Quaresma sobrava, na pior interpretação possível do termo. Esquecido na ponta, passou a maior parte do jogo à parte, aparecendo somente no golaço que marcou, obra e graça apenas da sua capacidade técnica. O meio era um amontoado de marcadores e passadores de lado, como um caranguejo, quando precisava mesmo era de um jogador capaz de passes em profundidade.

Ao Irã, coube o papel de especulador, um cormorão vivendo dos restos deixados por Portugal, como no lance do pênalti, que nasceu num passe desastroso do desastrado André Silva, no momento de mais controle português da partida, que já se encaminhava para o fim.

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A vitória e o craque dispensável

E Cristiano? Diferentemente dos outros jogos, ele esteve abaixo em todos os sentidos: paciência, sorte, juízo. Poderia ser expulso quando deixou o braço no peito do adversário, que acusou uma agressão. Foi inconsequente, juvenil, parecendo acusar o golpe de ter desperdiçado a grande penalidade que deixaria a nau lusitana a navegar em águas calmas, em vez da tormenta de cinco minutos que foi o final do jogo.

De primeiro colocado quase garantido a por pouco não eliminado, o fato é que Portugal fez o que se esperava dele, que era se classificar. Com brilho? Nunca tivemos. Com luta? Muita, mas não precisava ser assim tão difícil.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A vitória e o craque dispensável

NÃO ME TOQUEM Até onde vai a necessidade de
 ter Neymar no time titular? (Reuters)
O Brasil que venceu a Costa Rica pode ser dividido em duas análises distintas, uma para cada tempo. Na primeira parte, foi um time apático, com poucas ideias, um lado direito nulo com o pouco inspirado William e o injustificável Fagner, que teve a sorte de não haver um Overmars em campo, como foi com Zé Carlos em 98. No meio, Paulinho (não) fez o de sempre, Casemiro não tinha a quem marcar e Coutinho era uma ilha de talento cercada por cabeças-de-bagre. Não rendeu. Gabriel Jesus se esforçou, roubou bolas, teve um gol anulado, mas não justifica ainda estar em campo enquanto Firmino esquenta o banco. 

Na etapa complementar, com Douglas Costa melhor na frente, a render o badalado atacante do Chelsea, e com o inútil Paulinho um pouco mais aberto para auxiliá-lo (e plantar Fagner atrás, onde não atrapalhava tanto), o Brasil melhorou, mas ainda assim era pouco. Finalmente, com Firmino e sem a nulidade da camisa 15, o time do Tite teve cara de time. Bem pouco, mas o suficiente para alcançar a vitória, ainda mais com o virtuose Coutinho resolvendo outra vez. Ele é o craque do time.

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Notem que não falei do Neymar. Ele fez uma de suas piores apresentações pelo Brasil e, intocável que é, não faz a menor questão de mudar isso. Prendeu bola, se jogou, poderia ter sido expulso por indisciplina e conseguiu que um pênalti (que não foi) fosse desmarcado. Apareceu nos acréscimos, fazendo graça com o jogo ganho e marcando um gol que só serviu para que eu acertasse o bolão. No fim, chorou, como se estivesse sentindo a injustiça da pressão de quem não reconhece seu talento, sua magnitude, sua importância. Quanta perseguição ao gênio que nasceu para brilhar.