quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Que horas são?

IMPLACÁVEL Pequeno torcedor lamenta a perda de seus heróis
 na triste arquibancada da Arena Condá (Nelson Almeida/AFP)
 
Acordei com o choro da minha filha, que está com o ouvido inflamado. Fui lavar o rosto antes de pegar o antibiótico. No celular, notificações de mensagens chegaram. Uma, duas, 10, 50. Cinquenta? Depois eu vejo. Tenho que dar o remédio da pequena. Voltei, já eram mais de 150. De várias pessoas e grupos. Todos os de futebol. O que aconteceu?

Abri. Não, deve ser brincadeira. No outro, a mesma coisa. E no outro, no outro, em todos. “Você conhecia os jornalistas?” “Viram o que aconteceu com o avião da Chapecoense?” “Que tragédia!” É um pesadelo. É um engano. Ligo o rádio, a TV, vou ao Twitter. Não, não é um engano. É a equipe da Fox. Deus do céu! O Mario Sérgio estava no voo. Puta que pariu! É verdade mesmo. Procuro por informações. O Danilo também morreu? Não, foi dado como morto, mas está sendo operado. A Teleantioquia deu que ele faleceu. Não, a mãe deu entrevista garantindo que ele está vivo. A Caracol também diz que morreu. Está ou não está? A imprensa, que deveria informar, está perdida. Desinforma. Prestação de serviço que não presta. Desserviço.

Olho no relógio, mas segundos depois não me lembro de que horas são. Preciso de um café. Está garoando, mas preciso respirar. Saio mesmo assim. O tempo passa lento, o dia passa arrastado, o ar é pesado, denso. Que horas são? Olho para o pulso, mas deixei o relógio em cima da mesa.

Na mente o jogo de domingo. Bruno Rangel, Gil, Ananias, Caio Júnior. Os nomes não param de girar em volta da minha cabeça. Olho o celular e as informações continuam confusas. Danilo. Sobreviveu? Não? E o Follmann? Ah, amputou uma perna. Ele morreu também. Espera! Não, não morreu. Cacete! Jornalismo de merda esse que não informa, que não checa. Que tem pressa. Precisa sair antes do outro. Mas tá errado, chefe! Tanto faz, depois arruma.

Busco outra vez pela tela do celular. Mais mensagens. Muitas. Viu que o Tiaguinho ficou sabendo esses dias que seria pai? Recebo o áudio do Mauro Beting. Mario Sérgio estava decidido a deixar a Fox pela voz embargada do ex-companheiro de tela e de luta. Porra, o Mário! Sinto cortar o coração.

Aparecem os caça-clicks. “Veja as fotos do acidente”. “Veja a galeria de pessoas que fizeram selfies segundos antes da morte”. Malditos! Procuro abstrair, mas não consigo. Olho em volta e tudo se move lentamente. A rua parece um grande cemitério em movimento. Sem cor. O cheiro é de dor. É de morte.

Recebo pelo celular a lista com os nomes dos passageiros. Vejo amigos de amigos. Gente que vi no domingo, pela TV. Que não via há tempos. Com quem não falava há mais de um ano. Resolvo ligar para confortar quem também perdeu amigos, esses mais próximos que eu. Quanta pretensão! É impossível, mas vou mesmo assim. Falo com um, dois, três. Produtores, repórteres, amigos. Não pergunto como estão. Seria estúpido e desnecessário.

Volto para casa e vejo as horas. De novo me esqueço, segundos depois. Viu que o seu Benfica quer emprestar jogadores? Que bacana! Solidariedade sem gesto concreto é como abraçar árvore. O PSG vai doar não sei quantos milhões. Sério? Não, é mentira. Quem será o vagabundo que fica plantando isso?

Homenagens. Totthenham, Real Madrid, De Gea, Messi, Figo, o mundo. Liverpool."You'll Never Walk Alone". O Torino e o Manchester United também. Eles também sabem o que é perder um time de uma vez, o que é ver heróis e sonhos se espatifando após um voo infeliz. Minuto de silêncio nos clubes. Coletivas canceladas. Treinos suspensos. O dia acontece não acontecendo. Não deveria acontecer. O Vasco anuncia o novo técnico. Idiotas!

O distintivo da Chape está em todo lugar. Em todos os clubes. Até o Corinthians veste verde hoje. A Portuguesa, quebrada e falida, oferece ajuda. É bonito. É triste. Vejo o menino sentado, sozinho, na arquibancada da Arena Condá. É triste. O Atlético Nacional abre mão da disputa da final e pede o reconhecimento do adversário campeão. Amigos choram. Busco o relógio outra vez. Mero costume, cacoete. Não sei que horas são, mas não importa. Parece que o mundo está subindo uma ladeira com todo seu peso nas costas. Pesado. Sofrido. Lento. Estúpido.

Percebo que não almocei. Que mal bebi água. Minha filha dorme. Olho pela janela e já está escuro.

Que horas são?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Amor, treinadores, mitos e outras drogas

por Leandro Marçal *

SEM ESCALA Do campo para o banco, o "m1to" assume a equipe em meio
à mais grave crise ética da história do clube (Igor Amorim/SPFCnet)
É difícil definir o acerto de Rogério Ceni como novo treinador do São Paulo. Não entendi nem absorvi direito esse anúncio, como ainda não compreendo esse 2016 maluco.

Nem é pelo fato de ser uma incerteza, por ser bizarra uma demissão a duas rodadas do fim de mais um campeonato medíocre do tricolor, ou por qualquer outra das intermináveis pataquadas que o clube têm se acostumado a se meter nos últimos (lamentáveis) anos de sua História.

Complicado é entender até que ponto a cartada é um tiro no escuro, tiro no pé, visão de futuro ou tentativa de blindar a diretoria.

Ok, ao menos a última alternativa é unanimidade entre os leitores de bom senso, acredito eu. Colocar o maior ídolo das últimas décadas no banco de reservas servirá para, em ano de eleições, ter um forte argumento caso haja mais um ano de fracassos deprimentes: “fizemos tudo o possível, até a camisa do treinador foi a 01, paciência”. Ponto para eles.

Entender o que leva um ícone com aura tão gigantesca como Rogério Ceni a aceitar seu ex-(único) clube para um desafio tão ingrato é o que me intriga. Será que ele pensa que não corre o risco de ser covarde e precocemente demitido como acontece por essas bandas em caso de má campanha? Não há receio de manchar tão longa história pelo tricolor em troca de uma massagem de ego dessas? Seria ele tão bom como técnico, a ponto de tirar o time dessa inércia, fato que mal conseguiu ajudar nos últimos anos em campo?

Sinceramente, ainda não sei.

Vejo essa aposta como semelhante àquela última atitude para salvar um casamento à beira do fim. Quando ele ou ela tenta uma cartada final, dessas que pode despertar um pouco daquele amor escondido no coração do cônjuge que mais parece um desconhecido.

A relação torcida-time não anda das melhores há algum tempo, hoje beira o descaso. Era nítido que cedo ou tarde Rogério ocuparia o lugar de treinador no São Paulo, mas por que tão cedo, por que logo de cara no clube em que fez história?

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Admiro sua coragem, confesso. Coragem por colocar em risco tudo o que fez, já que a última impressão é a que fica. Assim como suas defesas viraram DEFESAS e seus frangos eram FRANGOS com o passar dos anos, o agora TÉCNICO necessita estar preparado para DERROTAS, COBRANÇAS e um PESO do tamanho do mundo na nova função.

Como sempre deveria ser – e nunca o é –, precisa-se dar tempo, ter paciência e não pré-julgar o trabalho do ex-goleiro antes da hora.

Alguém acredita que cartolas farão isso, mesmo com o ídolo do clube? Eu não.

*Leandro Marçal é um jornalista de 25 anos, torce pelo Tricolor paulista e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor, embora esteja um tanto zangado com o seu Tricolor. E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco. Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Rogério Ceni e o populismo tricolor


Populismo. De acordo com o dicionário Michaelis, trata-se da "prática política que se baseia em angariar a simpatia das classes menos favorecidas e de menor poder aquisitivo pregando a defesa de seus interesses, geralmente através de ações paternalistas e assistencialistas." Trocando em miúdos, é uma prática usada para angariar apoio popular com medidas fáceis, mas não necessariamente eficazes.

Trazendo para o futebol, é jogar para a torcida.

A VOLTA DO QUE NÃO FOI O M1to chega para comandar o Tricolor
 sem experiência nenhuma na função. Será que basta? (Marcos Ribolli)

E jogar para a torcida é o que a diretoria do outrora clube-modelo São Paulo faz ao anunciar a contratação de Rogério Ceni para o cargo de treinador do time principal.

O ex-goleiro, que pendurou as luvas há pouco menos de um ano, pode até ser o grande ídolo da história recente sãopaulina, tendo conquistado tudo o que poderia com a camisa 1 (e depois 01) do clube, mas para ser treinador não basta ser o goleiro com mais gols, o jogador com mais jogos, vitórias e partidas usando a braçadeira de capitão. O buraco é mais embaixo.

Pode dar certo? 

Poder até pode, mas não será pelos méritos de uma diretoria que traçou um planejamento. Convenhamos, planejar não tem sido o forte dos cardeais do clube da Vila Sônia. 

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É impossível negar a identificação dele com o São Paulo, mas isso não basta. Pode conhecer o vestiário como ninguém, mas como é o Rogério Ceni treinador? 

A medida parece mais uma jogada para a torcida, ainda mais quando 2017 será ano eleitoral e o clube nunca esteve tão rachado. No ano passado, fizeram algo parecido ao repatriar El Dio5 Dirego Lugano, mais pelo que jogou no ano da graça de 2005 do que pelo restante da vitoriosa, mas decadente, carreira, como se, com a retirada do agora técnico dos campos, preencher a lacuna deixada pelo único líder incontestável fosse a melhor das soluções.

Não era. O problema era técnico. E não o técnico. Como agora também não é.  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O resgate brasileiro no 3 a 0 do Mineirão

ALÔ, MAMÃE Avisa que eu tô quase na Copa (F Bezerra/EFE)
Uma Argentina sem foco, sem nada; um Brasil coeso, firme, moralizado e dando espetáculo. Assim foi o retorno do Brasil ao Mineirão, palco do maior vexame esportivo do país. O 3 a 0 para a avassaladora equipe de Tite ficou de graça.

A Albiceleste até começou bem, com mais posse de bola, sem dar espaços, embora criasse pouco. Na verdade, foi apenas uma chance de gol, num chute de Biglia, já na metade da primeira etapa, que obrigou a Alisson a intervir brilhantemente. Aí tomou o golaço do Phillipe Coutinho, melhor homem em campo. E desmoronou.

O segundo gol brasileiro, após passe de mágica de Gabriel Jesus para a conclusão perfeita de Neymar, foi a pá de cal sobre nuestros hermanos, no último lance antes do recreio. Perdido, Patón Bauza voltou com Aguero no lugar do meia Enzo Perez. Perdeu na marcação, no desafogo, a qualidade na saída de bola, na criação e ganhou mais um peso morto no ataque.

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Se o Brasil, pelo tamanho do adversário, conseguiu sua vitória mais convincente, a Argentina foi ainda pior do que esteve nos dois jogos sem Messi, o sofrido e sofrível empate com a Venezuela e a derrota em casa para o Paraguai, quando foi plenamente dominada no Monumental de Nuñes. 

Messi, Di Maria e Higuain, principalmente no segundo tempo, estiveram irreconhecíveis. Paulinho, Renato Augusto e Marcelo voaram. Tite foi Tite e está resgatando o gosto de ver os jogos da Seleção, coisa que não acontecia há pelo menos 10 anos. Bauza, por sua vez, foi o nada que tem sido desde que assumiu o time. 

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