segunda-feira, 28 de abril de 2014

Saudosa Maloca

Por Vinicius Carrilho*

Homenagem em forma de bandeirão: Maloca Querida (foto: Alan Morici/Terra)
Na hora de fechar a porta e passar a chave no trinco é inevitável que lembranças surjam daquela que foi nossa casa por 74 anos. Será doído, difícil de acostumar que o caminho para o sagrado teto - que em alguns setores nem existe - não passará mais pela Avenida Pacaembu. Sempre faltará algo quando a concentração antes dos grandes momentos for feitas em outro lugar se não naquele enorme jardim em frente de casa (que alguém deu o nome de Praça Charles Muller)

Ali, em casa, form vividos momentos de plena alegria, de inconsolável tristeza, de fidelidade sobrehumana, de revolta irracional. Na boa e velha maloca nós passamos uma vida. De geração em geração, ali foi o abrigo de milhões. Ou melhor: de um bando de loucos.

Foi lá, naquele chão coberto por um tapete daquela cor que dá a mistura de amarelo com azul, que chegamos ao fundo do poço. Aquele carpete foi palco de momentos de tristeza. Do lado, nos sofás de cimento (e em partes mais nobres, de plástico), tantos outros milhares de donos da casa não deixavam sua fé ser abalada. Gritavam para quem quisesse ouvir: eram maloqueiros e sofredores, graças a Deus.

O mesmo palco da derrota também foi o da glória. Aliás, quantas glórias. Daquelas premiadas com troféus no fim - que alguns acham ser a coisa mais importante do mundo -, foram oito. Já as que só quem faz parte desse hospício pode entender foram incontáveis. Muito mais do que as 3.305 vezes que aquela esfera ultrapassou os três postes colocados nas pontas da nossa sala de visitas, ou do que as 965 que, quando aquele incômodo convidado apitava pela última vez, nós sorrimos.

O histórico mosaico da final da Libertadores, em 2012: coração corintiano
Durante algum tempo, como é normal na vida de qualquer um, a velha casinha foi deixada em momentos importantes, pois mais familiares cabiam naquele outro espaço que alugávamos de um conhecido aí. Porém, ao fechar a porta é inevitável pensar: quantos momentos marcantes mais poderíamos ter vivido em casa?! Não se pode lamentar o que passou, até porque foram grandes momentos que vivemos lá no outro espaço. Mas, naquelas horas de celebração, faltava sempre alguma coisa. Ali, naquele salão de festas da alta sociedade (que dizem estar em um momento difícil depois que deixamos de ser clientes), faltava aquele ambiente que só nossa favela tinha.

Exatos 74 anos depois de construída, nós vamos fechar a porta de casa pela última vez. Aquele que viveu uma vida aí e que, na verdade, é um locatário, graças a essa casa subiu na vida. Vai trocar o velho e humilde teto na zona oeste por uma mansão construída na zona leste. Mas, apesar de agora rico, ele tem os pés no chão. Nunca vai negar e muito menos esquecer que foi ali, na velha casa, que viveu os melhores momentos da sua vida.

O portão será fechado, o cadeado passado, mas a chave não será devolvida. Ainda somos 30 milhões de donos e, provavelmente ainda esse ano, voltaremos enquanto acabam de construir o novo abrigo.

Ao próximo locatário, que seja feliz e cuide bem do nosso lar, pois mesmo longe, lá na ponta da linha vermelha do metrô, estaremos de olho na região da Estação Clínicas. Ao dono, deixamos um último pedido: não deixe a nossa casa abandonada. Como garantia, prometemos que voltaremos sempre que possível. Mais do que isso, fica nossa palavra que jamais esqueceremos o Pacaembu, a nossa Saudosa Maloca.

** Vinicius Carrilho tem 23 anos, é jornalista, 
morador de Osasco e é o cara mais indicado 
para escrever sobre a despedida do Pacaembu.


domingo, 20 de abril de 2014

No relvado

Em um final de semana triste em meio a um ano para se lamentar, em que se foram os grandes Eusébio, Coluna e Luciano do Valle, e a minha fé no futebol, por conta da sacanagem feita com a Lusa, o título do Benfica chega para amenizar esta tristeza e deixar o futebol menos sujo.

Não há o que comemorar, mesmo com os números absurdos da campanha encarnada, senão o prazer de ser campeão no relvado, único lugar a se discutir resultados, títulos e rebaixamentos. Qualquer coisa fora disso perde o sentido, não tem essência.

Obrigado, Luciano do Valle. Vá em paz. Sua missão foi cumprida e o céu te recebe com festa. Lá estarão, à sua espera, João Saldanha, Pedro Luiz e Fiori Gigliotti, que, assim como você, partiram durante ou às portas do mundial. Eli Coimbra e GB também estão por lá. Será uma cobertura e tanto.

E obrigado, Benfica, por ser campeão de verdade.

Os campeões! Em pé: Oblak, Garay, André Almeida, André Gomes e Luisão; 
agachados: Gaitán, Enzo Perez, Lima, Salvio, Maxi Pereira e Rodrigo.



A história ficou mais calada

NE: seria injusto ter  apenas um texto neste blog para a grandeza de Luciano do Valle.

por Vinicius Carrilho

O esporte brasileiro perdeu grande parte de sua voz. Mais que isso, partiu bom pedaço da emoção. Neste sábado, Luciano do Valle se foi. Faleceu enquanto se encaminhava para Uberlândia, onde escreveria, através de suas cordas vocais, mais um capítulo da história do esporte ao narrar Atlético Mineiro e Corinthians, na abertura do cada vez mais repugnante Campeonato Brasileiro.

Ele não era mais o mesmo, é verdade. Não era incomum aos domingos trocar jogadores de times ou até inventar um nome para o atleta. Seus 66 anos já pesavam, porém, mesmo assim, a emoção em sua voz era a mesma.

Voz. Seu instrumento de trabalho e que causava emoção em tantos outros milhões de brasileiros. Brasil. Principal fonte alimentadora de toda essa emoção passada pelo Luciano através do esporte. Esporte. Meio pelo qual aquele visionário encontrou para trazer um pouco mais de cidadania e entretenimento para este povo que via ali uma forma de extravasar o que sentia.

Seria imbecilidade reduzir a contribuição de Luciano do Valle ao país unicamente por sua voz. Após Eder Jofre, se nos anos 80 e 90 o Brasil vibrou com o boxe pelas luvas de Adílson Maguila Rodrigues, foi graças a ele. Segundo esporte do país atualmente, o vôlei é outra modalidade que deve muito ao narrador. Quem gosta de esporte em algum momento certamente se encantou com os genais lances de Marta. Pois bem, muito antes dela, na época de Formiga,, Kátia Cilene, Maravilha, Michael Jackson, Pretinha e Sissi, quem apoiou o futebol feminino foi ele.

Igual a todos, Luciano tinha seus defeitos. Em alguns momentos passou dos limites, se exaltou, não foi feliz no que disse. Mas, não se pode medir uma vida inteira dedicada as palavras por meia dúzia que não foram bem colocadas.

Assim como outro mestre do relato, o inesquecível Fiori Giliotti, Luciano do Valle se foi às vésperas de uma Copa do Mundo. Talvez a mais marcante para ele. A temerária Copa no Brasil se empobreceu, estará menos emocionante.

A partir deste 19 de abril de 2014, a história do esporte brasileiro estará significativamente mais silenciosa. Sem dúvidas, os relatos daqueles que viverão os fatos chegarão com um pouco menos de emoção. Hoje não é dia de falar. Pelo contrário, hoje é dia do esporte brasileiro ficar em silêncio – muito mais de um minuto – em homenagem a quem tanto fez por ele. A história está mais quieta, mas na mente, boa parte das recordações terão a narração do monstro Luciano do Valle.

* Vinicius Carrilho tem 23 anos, é jornalista, morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida 
fazendo humor, mas escreve melhor do que conta piadas.

O esporte perdeu a alma

Morreu Luciano do Valle. Não um narrador. Quem partiu foi um precursor. Deixamos de ser o país só do futebol graças a ele, que não só idealizou o Show do Esporte, na Bandeirantes, como o transformou em sucesso absoluto. Para quem não sabe, o Show do Esporte era uma programação de oito, dez horas, inteirinha só de esportes na TV aberta: futebol italiano, vôlei, basquete, Formula Indy, sinuca (sim, senhor: sinuca), boxe. Luciano do Valle plantou a sementinha que transformou o voleibol em esporte de massa. Ele trouxe e despertou o gosto do brasileiro pela NBA, mesmo havendo um brasileiro, se muito, jogando por lá, e era o pivô Rolando. 

Descobrimos e passamos a gostar do futebol europeu a partir do calccio. O Napoli de Careca e Maradona, o Milan de Gullit, Rikjaard e Marco Van Basten e a alegria de ver que era possível jogar futebol em lugares que não fossem as pocilgas dos estádios do Brasil, como o Giuseppe Meazza (ou San Siro, como queiram), o San Paolo e o Delle Alpi. 

E quando ele formou a seleção de Masters? Que ideia foi aquela! Cafuringa, Rivelino, Edu Bala, Ademar Pantera, Edu, Mario Sérgio, Pelé! Craques que o tempo nos sonegou a possibilidade de ver, como numa máquina do tempo que nos trouxe de volta o brilho de tempos dos quais sentíamos saudade, mesmo sem nunca tê-los vivido. 

A voz que se calou na tarde do estúpido dia 19 de abril (o mesmo em que, 20 anos antes, desaparecia dos campos a arte de Dener) não escapou da arrogância dos censores das redes sociais, que dá voz a bobos cada vez mais bobos. Cada erro cometido numa transmissão virava piada, virava pilhéria, feita por gente sem a menor competência para tentar ter um pouquinho só da importância que teve Luciano do Valle.

Em 1982, ano da mágica Seleção de Telê, Luciano do Valle era o maior locutor esportivo da TV brasileira, uma espécie de Galvão Bueno, mas sem a idiota rejeição que o número um da Globo tem nos dias que correm. Era completo. Era absurdamente completo. 

O esporte, cada vez mais comercial e sem sentido, agora perdeu a alma. Morreu Luciano do Valle. 

sábado, 19 de abril de 2014

O supercraque da camisa 10



Naquela noite fria de quarta-feira do outono paulistano, o placar apontava um empate insosso sem gols entre Portuguesa e Internacional de Limeira, pela segunda rodada da segunda fase do Campeonato Paulista de 1991, quando, já perto do final do jogo o time do interior teve um escanteio pela direita do campo de ataque, para o lado do gol dos vestiários do Canindé. O tiro de canto, mal batido, foi interceptado por Wladimir. Nilson, o centroavante do time, ajeitou a bola para Dener, que vinha em velocidade na altura do grande círculo do meio-de-campo.


Como um bólido, partiu com a bola dominada e foi superando os adversários, um por um: primeiro Ivan, driblado em velocidade, na passada; depois, um drible da vaca em cima do zagueiro Lica. Denis, lateral-esquerdo, veio babando para aplicar uma tesoura, mas o arisco camisa 10 luso nem tomou conhecimento, para, da marca do pênalti, apenas tirar, com um toque sutil do lado direito, o goleiro, que tentava em vão fechar o ângulo. Na mesma noite, todos os telejornais (em 1991 a internet não era acessível como hoje) davam destaque ao gol de placa marcado no Canindé pelo menino que, menos de um ano antes, encantara (vestindo a mesma camisa oito que foi imortalizada por Enéas) o país na histórica conquista da Taça São Paulo de Futebol Júnior.


Dener era assim: criava oportunidades de gol do nada, em jogos em que parecia que não aconteceria mais nada. Ele foi um dos últimos gênios do futebol brasileiro. “Meia à moda antiga, criava chances de gol a partir do nada”, constatou o guia do Campeonato Brasileiro de 1993, da revista Placar. “O melhor do mundo. Morreu antes do reconhecimento”, disse certa vez Edinho, ex-goleiro do Santos e um dos grandes amigos do genial jogador, com a autoridade de quem é filho do Rei Pelé. Dos inúmeros sucessores do Rei, foi o que mais mereceu tal alcunha. Como se não bastasse, Pepe, que jogou com Pelé na Seleção e no Santos e foi técnico do craque luso, decreta em entrevista ao site Globoesporte.com: "Foi um dos cinco melhores atacantes que eu vi, e olha que eu vi Pelé, Eusébio, Puskas... Dener está neste rol".

Vestindo a camisa dez da Portuguesa, Dener brilhou intensamente. Como craque que foi, esteve acima de qualquer rivalidade, pois até os adversários renderam-se diante do seu imensurável talento. Quando ele se foi, seu nome ecoou por todos os estádios do país do futebol, não importando quais times estivessem em campo. Acima do bem e do mal, no coração e na saudade de todos, naquele momento, estava o nome de Dener.



Quando morreu, naquela estúpida madrugada de 19 de abril de 1994, Dener estava no banco do carona do seu Pássaro Branco, que era como ele chamava o seu Mitsubishi Eclipse branco, de placa DNR-1010. No momento em que Oto Gomes de Miranda, que conduzia o carro, colidiu numa árvore na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, Dener dormia. Se estivesse acordado, certamente teria dado um drible na morte.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre a saudade

A saudade me deixa triste, mesmo sendo um sentimento bom, pois indica que vivi, que estou vivo. Mas viver com a saudade entristece. Entristece, pois mostra o quanto tenho dificuldade de me desfazer do que, por algum tempo, me fez bem.

Triste ignorância a minha, de achar que tal apego far-me-á bem por mais tempo. Talvez para sempre, pobre pretensioso. A saudade tem o tempo dela e deve perecer depois disso. Ao menos a intensidade com a qual grita na memória.  

Nada é para sempre e eu já deveria ter aprendido isso. Nunca o sempre perdura, mesmo a saudade, que me acompanha por eu não ter aprendido a me despedir, mesmo que a partida seja de mim mesmo. 

Eu já deveria saber disso, repito, uma vez que a perenidade não cabe a mim, nem a ninguém, pois mudamos com o tempo e, por conseguinte, mudam também nossas necessidades. Só o que não muda é a missão de ser feliz. E só o que não muda, pelo menos em mim, é essa saudade que me deixa triste.

Não sei me despedir dela. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cheiro de merda

Ontem, foram enterrados, no ABC Paulista, os corpos de três pessoas de uma mesma família, mortos quando o carro onde estavam foi colhido por um ônibus desgovernado. Segundo apurou a polícia, o motorista do coletivo teria perdido o controle quando os passageiros resolveram dar uns tapas em um assaltante que, armado com uma faca, ameaçava o condutor.

No Rio de Janeiro, alguns dias antes, populares amarraram em um poste um menor infrator (não é bandido, segundo o ECA) contumaz em cometer pequenos delitos. 

O que os dois casos têm em comum? Simples: mostram que as pessoas estão saturadas de esperar pela atitude do Estado, que é omisso. Dentre outras coisas, essa inércia abre uma lacuna, que é preenchida pelo crime organizado, por milícias, por justiceiros.

É óbvio que esse justiçamento não poderia caber em pleno século XXI, mas não é gratuitamente que acabamos por criar novos Cabos Brunos ou reeditamos a Lei de Talião. Isso acontece pelo simples motivo de que quem deveria fazer, não faz. E as mangas são arregaçadas, só que, em vez de justiça, fazem bobagem com as próprias mãos. 

Daí para a culpa ser da polícia é um passo, mas ela prende (isso quando consegue elucidar o crime ou delito), mas vem a Justiça e solta. Só que a Justiça também não tem culpa, uma vez que tem de agir dentro dos limites da lei, assim como a autoridade policial, no estado democrático de direito.

Em vez de colocar o dedo na própria ferida, é preferível maldizer e tentar cercear quem escancara a hipocrisia de uma sociedade medíocre, como uma petulante jornalista que resolve levantar o tapete e mostrar a sujeira, para não dizer que o que ela levantou foi a tampa da privada.

domingo, 13 de abril de 2014

Sobre avareza e permissividade

E é isso. Série B. A Justiça decidiu, mesmo sem decidir, que a Portuguesa estreia na próxima Sexta-Feira Santa contra o Joinville, em Santa Catarina, pelo segundo escalão do futebol nacional.

Jogar no feriado santo, algo impensável há alguns anos, nem é o maior dos problemas. Sendo o Brasil um país laico (embora a minoria barulhenta queira transformá-lo em agnóstico ou ateu, já que professar a fé virou, no advento das urrantes redes sociais, ignorância e pecado), não há nada de errado no fato de o jogo acontecer em um dia de guarda. O pecado, neste caso, é capital.

Em nome do poder econômico, alijaram-nos de disputar uma competição na qual nosso lugar foi garantido dentro de campo. Encontraram brechas, interpretaram-nas de acordo com a conveniência e venderam o bacalhau de acordo com a cara do freguês. Tem mais torcida? Opa, pode vir que a gente dá um jeito.

Mas dependendo do pecado, ao sul do Equador, como diria Chico Buarque, ele nem existe. Ou melhor, depende de quem é o beneficiado pela avareza de quem tem a caneta  na mão e o controle sobre o controle remoto do permissivo e corruptível torcedor/telespectador/consumidor.

Todos viraram as costas. Mas por quê? Porque não fomos tenazes? Porque não fomos até o fim? É claro que fomos! Sabe o que nos faltou? Apoio. Não esse de Facebook, que é como abraçar a árvore centenária que será derrubada: é bonito, mas não resolve picas!

Foi um tal de urrar por justiça, de cobrar uma postura dura de um distintivo exaurido de ser solapado, roubado, sufocado. Entre um post raivoso e outro com um chiste qualquer, foram renovar o pacote do pay-per-view ou postar uma foto da figurinha do álbum de capa dura da Copa do Mundo.  

domingo, 6 de abril de 2014

Companheiro é companheiro

Durante esta semana a Portuguesa, enfim, entrou na Justiça Comum para tentar (por ora, com sucesso) restabelecer o resultado aferido dentro de campo no Campeonato Brasileiro de 2013/14/... e restaurar os quatro pontos descaradamente extraídos pelo tribunal da Rua da Ajuda, lá no Rio.

Todos que me conhecem sabem a minha opinião acerca do tema, e desde o começo da contenda, que é ir para a porrada mesmo. No entanto, existem inúmeras complicações, qualquer que fosse a postura tomada pela diretoria rubro-verde. 

Exceto o apoio irrestrito e incondicional e óbvio da torcida e de parte da imprensa, não houve um movimento sequer em termos desportivos, seja dos clubes (co-irmãos é o cacete) ou do Bom Senso FC, que desde o início manteve-se inerte, insosso, dando uma de João-sem-braço, como se não tivesse nada com isso. Dos clubes, o único apoio veio de fora, de Barcelos, a cidade portuguesa onde o galo já morto cantou para salvar a vida de um peregrino inocente, sede do Gil Vicente, clube igualmente rebaixado pelos tapetões e que ainda luta para recuperar seu lugar na elite do futebol português.

Aqui, por estas plagas, os clubes não só viraram as costas para a Lusa, como fecharam com a CBF e a rede que detém os direitos do futebol tupiniquim, no ilegal, vergonhoso e despudorado (e quantos adjetivos desabonadores mais houverem para classificar a treta) acordo que reza que os times não recorrerão ou aceitarão que seus torcedores recorram à esfera cível quando seus direitos forem usurpados, sob pena de perder a cota da TV, estrategicamente, a mais significativa fonte de renda dos emblemas nacionais.

Por outro lado, caso aceitasse bovinamente disputar o segundo escalão do futebol nacional, como "aconselhou" a dupla biônica Marin-Del Nero, mesmo em troca de uma cota mais polpuda, seria a morte moral da Portuguesa. Acatar a decisão tomada no "julgamento" da Rua da Ajuda deporia contra a própria história rubro-verde. Mais que isso: decretaria definitivamente o início do fim de um clube que sempre lutou contra as inúmeras sacanagens cometidas contra si ao longo dos anos, desde que decidiu estar entre os grandes.

Hoje somos vistos como os paladinos da justiça, mas, se, no frigir dos ovos, dermos com os burros n'água, ninguém virá nos dar as mãos. Não se engane, torcedor, luso ou não. Estamos sozinhos nessa. Se vencermos, no fim, será somente por nós mesmos. Se perdermos, teremos somente a nós também. 

E não haverá galo a cantar para nos livrar da forca.