quarta-feira, 25 de novembro de 2020

MARADONA - ¡Hasta siempre, Diego!


O deus do povo se foi. O anti-herói, o humano que subiu ao olimpo e desceu ao inferno sem perder a condição de semideus. O periférico que peitou poderosos e se colocou ao lado do povo. O ídolo que fez o Sul da Itália, tão desprezado, vítima de preconceito do Norte, mais rico, torcer contra a própria Squadra Azzurra na casa do Napoli, a quem fez gigante. 

¿De que planeta viniste?, perguntou o uruguaio Victor Hugo Morales na histórica  narração do maior gol de todos os gols, de todos os tempos, aquele contra a Inglaterra na Copa de 1986. Não o de mão, mas o que enfileirou tantos ingleses que não caberiam em uma mão, nos 11 ou 12 toques dados com o pé esquerdo. Sempre o esquerdo. Sempre à esquerda.


Não importa mais saber de onde Diego veio. A nós, que amamos o futebol, basta saber que o planeta onde ele foi parar é um lugar mais bonito. O homem se foi, mas a obra do gênio que pintou com os pés alguns dos quadros mais lindos da história permanecerá. Maradona transcendeu o campo e não precisou morrer para que virasse lenda, virar deus, antes mesmo de virar história.  


Com todos os seus pecados - e talvez por isso - e fantasmas pessoais, Maradona está em um lugar onde ninguém jamais chegará. Nem Pelé, o maior jogador de todos os tempos, foi tão genial e necessário fora de campo. Maradona é o deus futebolístico que o povo precisa e sua imperfeição fez dele o maior de todos para os seus. 


¡Hasta siempre, Diego! 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Croácia 2 x 3 Portugal - o jogo inútil mais útil do mundo


O trabalho do treinador de seleções se difere do técnico de clubes. Enquanto este tem a pressão do dia-a-dia, de mais jogos a disputar do que tempo para treinar e analisar a equipa e os adversários, o outro tem, vá lá, uma semana por mês para trabalhar o elenco que puder escolher e dar sua cara aos que representarão o país nos jogos e competições.

Depois desta maluquice/irresponsabilidade de três jogos em uma semana a contar para a Liga das Nações e aquele amigável desqualificado contra os coitadinhos de Andorra, Fernando Santos terá três meses para entender o que correu mal contra a França na Luz, depois de partidas de alto nível com a Croácia (em Alvalade), as duas com a Suécia, com os próprios campeões do mundo em Saint-Denis e - por que não? - no particular com a Espanha, cujo nível de exigência nunca é baixo.

A começar, o jogo com a Croácia, último da Liga das Nações e que ganhou o aspecto de um amistoso de luxo contra um time que era o único com interesses em jogo, que poderia ser despromovido mesmo se ganhasse, sempre com os olhos no que poderia acontecer no França x Suécia, que acabou determinando a queda dos nórdicos ao Grupo B.

Mesmo levando em conta que o jogo tenha sido disputado num relvado que nunca fez jus ao nome - mais correto seria chamar de campo de batatas -, os de Fernando Santos não conseguiram se impor aos vice-campeões do mundo, sempre comandados pela classe de Modric e pelo caráter de Kovacic, um tanque que, pela disposição, fez parecer que os enxadrezados é que pareciam ter um jogador a mais, mesmo quando foram reduzidos a 10 homens quando Rog fez uma falta desqualificável e em Cristiano Ronaldo e viu o segundo amarelo.

Antes disto, com quatro alterações frente ao onze que iniciou o jogo com a França (Nelson Semedo, Rúben Semedo, João Moutinho e Diogo Jota nos lugares de João Cancelo, José Fonte, William Carvalho e Bernardo Silva, na mesma ordem), Portugal começou bem. Rápido na recuperação e na recomposição dos espaços, a movimentar-se à frente, com o trio Cristiano-Félix-Diogo Jota sob a batuta de um João Moutinho a ocupar todos os espaços em campo. 

Isto fez com que os visitantes mandasse no jogo e criasse chances de golo quando pressionaram a saída de bola com Moutinho e Bruno Fernandes, que cruzou no primeiro pau para a cabeçada de Diogo Jota, e quando os dois laterais lusos subiram juntos, com Nélson Semedo buscando Cristiano Ronaldo e Mário Rui, na sobra, mas que acabou num raspanete do capitão com a cabeça após excelente cruzamento do lateral do Napoli.

Do outro lado, os de Zlato Dalic seguiram saindo curto e atraindo os portugueses para encontrarem espaço algures que podessem aproveitar. E isto resultou ao pé de meia hora de jogo, na bola longa para Vlasic, que cruzou errado e contou com o corte defeituoso de um estranhamente acanhado Rúben Semedo; Pasalic insistiu e deu para Kovacic, que finalizou no meio de três lusos para a defesa parcial de Rui Patrício, tendo ele mesmo rematado a sobra para fazer o primeiro do jogo.

Foi o que bastou para que tudo o que usasse o estranho uniforme verde-água e listrado desabasse e aceitasse a pressão croata. Daí até o fim do primeiro tempo, parecia uma viagem ao período pré-Scolari, quando um golo bastava para vulgarizar a Selecção Portuguesa. A Croácia aumentou o ritmo, venceu todos as disputas pelas segundas bolas e ela mesma imprimiu o ritmo que quis, forçando erros na saída de bola de um apavorado Portugal, quase aumentando o placar no contragolpe em que um passivo Danilo apenas acompanhou de longe a troca de passes entre Vlasic e Perisic, que acabou no cruzamento deste para Juranovic, sozinho, cabecear no contrapé de Rui Patrício, mas ao lado.

Com Francisco Trincão no lugar de Bruno Fernandes, e com um 4-4-2 em vez do estéril 4-3-3, Portugal voltou para o segundo tempo bem mais disposto e o jogo virou, literalmente, a partir da falta que resultou na expulsão de Rog, ainda com meia dúzia de minutos. No mesmo lance, Cristiano bateu uma daquelas faltas cheias de curvas, Livakovic espalmou como deu, Rúben Semedo se redimiu do erro no golo e assistiu Rúben Dias para o ex-benfiquista marcar seu primeiro pela seleção.

A virada poderia sair cinco minutos depois, aos 11 minutos, se o árbitro tivesse marcado o pênalti de Skoric em Cristiano Ronaldo, quando o estabanado zagueiro acertou uma cotovelada no 7 luso. Sobrou uma dor de cabeça e um cartão amarelo por reclamação. Quem reclamou depois, também com razão, foram os da casa. Trincão deu passe de classe para Diogo Jota, Lovren falhou de forma caricata e o 21 cruzou para João Félix virar chutando mascado, mais lama do que bola, só que a bola bateu na mão do avançado do Liverpool antes de ele servir o miúdo do Atlético.

Pasalic saiu, Brekalo entrou, Modric e Kovacic viraram o demônio ante a sonolência de Danilo e o empate veio quando o jogador do Chelsea abriu para Juranovic, que acionou Vlasic. Danilo tentou acelerar para alcançar o camisola 13, mas deixou o 8 livre para receber o passe e bater no canto de Rui Patrício. 

Com o empate a servir, a Croácia fechou-se e Portugal agora tinha Cancelo no lugar de Mário Rui e Bernardo Silva herdando o lugar de João Félix e podendo descer ao meio para organizar o jogo desde trás, mas ainda sem a companhia com os dois da frente, que se aproximaram demais da parte do campo onde amontoaram-se os croatas, desejosos de segurar o empate. Então,  partiu para tentar a vitória, que poderia sair dos pés do 10, que praticamente desfez o gol pegando o rebote de um belo chute de Trincão na pequena área, mas a bola quicou embaixo do goleiro e passou por cima do travessão. Praticamente no último lance do jogo, Moutinho bateu um escanteio curtinho, Bernardo cruzou para Rúben Dias, o artilheiro da noite, que não alcançou, mas contou com a falha grosseira do arqueiro, que deixou a bola escapar ao bater nas costas de um terrível e azarado Lovren, para empurrar para o golo vazio.

Ao fim e ao cabo, Portugal somou 13 dos 18 pontos possíveis e só não defenderá o título de campeão da prova porque a França teve a frieza e a inteligência que faltam a Portugal no jogo que definiu a liderança da chave. E com três meses para que Fernando Santos corrija os erros táticos e anímicos de uma seleção que aprendeu que pode ser campeã do que disputar. 

Rui Patrício: deve ter sido castigado pelo golo do Kanté que levou no outro jogo;
Nélson Semedo: nunca vou entender por que caraças não jogaste com a França;
Rúben Semedo: tomara que quem contrata no Benfica tenha visto o jogo;
Rúben Dias: é o próximo nome do futebol português a ganhar milhões a fazer propaganda de produtos para o cabelo. Penteado impecável, como a atuação do futuro melhor zagueiro do mundo;
Mário Rui: não fosse pelos cruzamentos bem medidos, perderia a vaga na esquerda para qualquer lateral direito improvisado por ali (João Cancelo: tendo sido cria do Benfica, fiquei decepcionado por não ter feito o seu golito no jogo);
Danilo: lento, sonolento, mas respeitador do distanciamento social. Um exemplo para o país nesta segunda onda da Covid-19; 
(Sérgio Oliveira: desfalcou os treinos do FC Porto. O Sérgio Conceição não deve ter ficado muito contente);
João Moutinho: daquelas partidas em que convence toda a gente que deve ser titular, até ser escalado no onze e convencer toda a gente que não pode ser titular;
Bruno Fernandes: será abraçado pelo Solskajer por ter se poupado nestes dois jogos pela Liga das Nações (Francisco Trincão: mais um miúdo a ganhar espaço a ponto de, no futuro, ter exigida sua escalação a titular, juntamente com os outro 15 ou 16 na mesma condição);
Diogo Jota: jogou sem parecer ter jogado (Paulinho: a mesma coisa, mas pelo meio da área);
Cristiano Ronaldo: pelo visto, precisava ter sido do Benfica para ter marcado golos. Agora vês como erraste o time da formação? 
João Félix: já imaginaram que timaço do caraças quando o João Félix estrear em jogos a doer? (Bernardo Silva: perdeste a titularidade do City e caíste de rendimento na Selecção. Venhas para o Benfica para voltares a ser feliz, Bernardo).

sábado, 14 de novembro de 2020

Portugal 0 x 1 França - poderia ser melhor


Quando França e Portugal empataram no 0 a 0 que encheu os portugueses de orgulho porque, finalmente, os gigantes do futebol nos olhavam com respeito, a presença de João Moutinho no time titular foi um dos motivos da primeira fase menos conseguida da Equipa das Quinas pela falta de agressividade na marcação, o que foi resolvido quando William Carvalho pisou no campo.

Nada mais natural que a formação que deu certo no meio tempo melhor no Stade de France começar na Luz. As duas alterações, uma forçada, outra nem tanto, foram José Fonte no lugar do lesionado Pepe e João Cancelo na vaga do mais defensivo Nelson Semedo, talvez pelo desfalque de Mbappé. 

Fernando Santos só não contava com uma França diferente daquela visitada. Sem o prodígio do PSG, que havia sido engolido pelo Pepe, Didier Deschamps escalou Griezmann como um meia, colocando-o à frente dos centrais e nas costas dos excelentes trincos lusos, e apoiado pelo excelente jogo de Rabiot e, sobretudo, Pogba e Kante.

Desta forma, os campeões do mundo sempre tiveram superioridade no setor onde Portugal é mais forte quando marca n'altura do meio de campo e tem a bola próximo de seus jogadores mais criativos, nomeadamente Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo e João Félix, isto quando o 10 tem liberdade para andar pelo campo todo. O problema, para os campeões europeus e da Liga das Nações, é que a bola raramente chegou com qualidade justamente onde estavam seus jogadores mais perigosos. 

Cancelo, estranhamente, mal passava do meio, onde Bruno Fernandes estava sozinho para disputar com o fortíssimo meio-de-campo francês. Bernardo Silva, em péssima jornada, andou sempre preso na ponta direita. Para piorar, a dupla de volantes que equilibrou o primeiro jogo foi completamente dominada pelos visitantes, sempre mais rápidos a atacar os espaços quando não tinha a posse de bola. E o primeiro tempo só não terminou com uma grande vantagem gaulesa porque Rui Patrício sempre foi melhor que Martial, que desperdiçou três chances na pequena área. 

Na segunda parte, Portugal voltou melhor, mais rápido nos duelos e também para atacar e defender. No entanto, quando Rui Patrício não foi suficiente, a França chegou ao golo que tudo decidiu: Rabiot tabelou com Griezmann, se aproveitou da indefinição de Cancelo entre fechar o espaço no meio e acompanhar o volante da Juventus, que recebeu e bateu cruzado, apertado. Patrício espalmou para a zona proibida, onde Kanté foi mais rápido que toda a gente e abriu a contagem.

Depois disso, o único ponto positivo da infeliz noite da Luz: a França abdicou do jogo e passou a defender como podia, ao passo que Portugal foi metendo médios ofensivos e avançados a ponto de terminar o jogo sem nenhum trinco: William saiu para entrar Diogo Jota; Bernardo foi substituído por Trincão; Bruno Fernandes deixou o campo para João Moutinho; e ainda, a cinco minutos do fim, João Félix por Paulinho e Danilo por Sérgio Oliveira.

Com a França toda atrás, Portugal tentou de tudo o que era jeito, mas tentar de todo jeito é o mesmo que não ter jeito nenhum. Cristiano Ronaldo, vendo que a bola não chegaria, passou a rodar o campo todo, quando deveria estar onde é mais perigoso, que é perto da área, tanto que só teve uma chance clara de golo, desarmado no momento do cabeceio, na pequena área, por Kimpembe. Fora isso, uma bola na trave na cabeçada de Fonte com Lloris já sem hipótese de intervir e um chute de longe de João Moutinho, obrigando o guarda-redes a fazer uma daquelas defesas de fotografia, com a mão trocada.

No fim das contas, é preciso não andar nos polos da análise. Não foi um regresso aos anos em que Portugal era massacrado pelos grandes, mas esteve sempre abaixo do que essa geração pode fazer. E Fernando Santos, que tem todos os méritos pelo que já conquistou ao leme da nau lusitana, precisa ter em conta que só poderá jogar em grande dando liberdade para seus principais jogadores.

Rui Patrício: podias fazer melhor no gol? Sim, mas se não fosses tu... 
João Cancelo: conhecem a deep fake? É uma tecnologia capaz de trocar o rosto em fotos e vídeos e fazer com que pareça real a participação de quem teve o rosto usado. É como pegar o Gilberto e meter-lhe a fuça do Cancelo. Assustador, pois...
José Fonte
conhecem a deep fake? É uma tecnologia capaz de trocar o rosto em fotos e vídeos e fazer com que pareça real a participação de quem teve o rosto usado. É como pegar o Bruno Alves e meter-lhe a fuça do José Fonte. Assustador, pois...
Rúben Dias: podia ser pior, meu caro Gato (é o nome do gajo, caraças! Não pensem mal, embora seja mesmo): e se , em vez do Fonte, fosse o Jardel? Bom, já sabes disto;
Raphaël Guerreiro: espero que tenham ido buscá-lo na algibeira do Coman após o jogo. Bom, se não buscaram, o Raphaël Adelino José nasceu em França. E é caminho para Dortmund;
William Carvalho
conhecem a deep fake? É uma tecnologia capaz de trocar o rosto em fotos e vídeos e fazer com que pareça real a participação de quem teve o rosto usado. É como pegar o Weigl e meter-lhe a fuça do William Carvalho. Assustador, pois... (Diogo Jota: camisola vermelha, jogo decisivo, no Estádio da Luz. Isso não costuma dar certo);
Danilo: deu lá suas cacetadas nos gajos do país onde está a jogar. Olha, Comendador, os franceses não são lá muito cordiais, mas fdx todos (Sérgio Oliveira: se eu fosse maldoso, diria que o mister deve ter alguma aposta sobre ele completar dez jogos pela Selecção);
Bruno Fernandes: usar um calção verde no Estádio da Luz deve ter desencadeado lembranças pouco felizes do gajo que, normalmente, manda mais em Manchester do que em Lisboa (João Moutinho: aquele chute que o Lloris pegou fará com que eu imagine o raio da bola a entra pelo resto da minha vida);
Bernardo Silva: a distância entre Manchester e Lisboa é de 1.726 km. De voo, são 2h45. Quando o mister mandar que fiques ao pé da linha lateral, Bernardo, mostre estes números a ele e pergunte se vale a pena (Trincão: ó, miúdo, és novo nisto ainda, então entendas uma coisa, SFF: se fores derrubado na área, é pênalti, ó, caraças! Não jogas mais no Braga para achar que nada será marcado quando acontecer consigo);
Cristiano Ronaldo: passarás o gajo iraniano, pá. Mas, para isto, tens que deixar que os outros armem, cruzem e cobrem os arremessos laterais. Já estás velhinho para não saber disto;
João Félix
conhecem a deep fake? É uma tecnologia capaz de trocar o rosto em fotos e vídeos e fazer com que pareça real a participação de quem teve o rosto usado. É como pegar o Nélson Oliveira e meter-lhe a fuça do João Félix. Assustador, pois... (Paulinho: cadê o Ederzito?).

Brasil 1 x 0 Venezuela - zzzzzzzzzz


Um sono só. Assim pode ser definida a partida que colocou o Brasil na liderança isolada das protocolares Eliminatórias para a Copa de 2022. O resultado, magrinho, magrinho, condiz perfeitamente com o que foi o jogo.

E não se trata daquela papagaiada de que a Venezuela é fraca - embora seja - e que há pouco tempo a questão era saber o tamanho da tunda que a Viño Tinto levaria. O mundo do futebol evoluiu e com a Venezuela não é diferente, embora, reitero, a distância técnica entre os onze que alinharam no Morumbi é maior que o estádio do São Paulo.

José Peseiro, português que comanda a Venezuela, armou o time com duas linhas compactas, ora com quatro, ora com cinco no meio, com Soteldo e Macris voltando para compor com Casseres, Rincón e Moreno, e impôs as dificuldades que a Seleção Brasileira sob a gestão de Tite encontra quando enfrenta times assim, fechados e organizados. 

Com um 4-3-3 tendo três centroavantes, dois volantes e um meia, o Brasil não encontrava forma de fazer a bola chegar com qualidade na frente, onde Richarlison era o mais perto de um jogador de referência e Gabriel Jesus, em noite infeliz, trocava de posição com Firmino, que pouco ou nada fazia de bom. Em muito, se deve ao fato de Douglas Luiz deixar a criação a cargo de Everton Ribeiro. Certo, não se pode mais jogar com a Venezuela achando que será um vareio, mas dava para perceber em 20 minutos que a coisa não ia funcionar com um time tão pragmático, quadrado, engessado.

E era um tal de "roda, roda, roda" de Tite à beira do campo, quando precisava fazer com que as linhas venezuelanas se desarrumassem, fosse com passes ou partindo para cima, na base do drible, o que não é pedir muito em se tratando do Brasil. Em vez disso, ficava tocando bola da direita para o meio, e de lá para a esquerda, e voltava para o meio.

Mesmo quando abriu mão de um dos volantes para a entrada de Lucas Paquetá, a coisa não funcionou bem, pois o problema da falta de profundidade não foi resolvido. Justiça seja feita, foi em um passe do meia do Lyon que Everton Ribeiro, melhor brasileiro em campo, foi ao fundo e assim nasceu o gol de Firmino. Verdade seja dita, porém, o gol só saiu porque a zaga rebateu mal e praticamente deu um passe para o atacante de Liverpool fazer o gol que manteve o registro intacto dos de Tite.

Não para fazer justiça, porém. Mesmo com os inúmeros desfalques por lesão ou pela Covid-19. Com o que tinha, Tite poderia fazer muito melhor do que engessar o time e esperar que o gol saísse por que sim.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Portugal 7 x 0 Andorra - um desperdício de isotônico



Em um calendário que enfia trinta e poucas jornadas nos campeonatos nacionais, fora as copas e os compromissos internacionais dos clubes, por que não inflá-lo ainda mais com amistosos entre seleções que pouco ou nada contribuem para a preparação das equipes? Grande ideia, não?

Bom, isto já foi falado aqui mesmo. Então, vamos ao jogo, ou melhor, o desperdício de isotônico que foi o Portugal x Andorra. Não é apenas um modo de falar: sem querer menosprezar a boa vontade dos gajos - que deixaram por um ou dois dias as compras sem impostos, as boutiques e joalherias, as estações de esqui e os vinhos de sua terra, encrustada na fronteira entre Espanha e França, para servirem de sparrings para os gajos de Portugal -, seria mais útil um treino com cones estáticos.

Com 11 reservas em campo, Fernando Santos usou a obrigatoriedade do jogo para gerir esforços e para dar chances aos novos. Então havia Paulinho e Pedro Neto. E havia os que buscam convencer o mister que podem estar no autocarro da Selecção, como Domingos Duarte, Renato Sanches, Trincão, Rúben Semedo e Sérgio Oliveira. E, dependendo da mansidão dos de Andorra, diminuir a distância do Cristiano ao iraniano Ali Daei na cimeira dos artilheiros de seleções.

Aí, nem vale a pena se debruçar no comportamento tático de quem enfrentou um adversário com oito jogadores em um campeonato que terminou há quase quatro meses, dois em divisões menores da Espanha e um de uma liga secundária dos Estados Unidos, organizados em tese num 5-3-2 contra o 4-3-3 português, mas que estava sempre com pelo menos sete atrás, e Portugal que se virasse pra achar os espaços.

Ora, não era uma das missões mais difíceis, tanto que Pedro Neto já meteu gosto ao pé ao sétimo minuto, em um gol que mais parecia aquela brincadeira em que três enfrentam um goleiro e o golo só vale se a bola não tocar no chão. Semedo cruzou, Paulinho escorou no segundo pau, Sérgio Oliveira amorteceu e Neto soltou o sapato, sem nenhum protesto dos visitantes.

Com a passadeira livre para Semedo correr o quanto quisesse por ali, ele foi à frente e atirou para outro estreante ser feliz: Paulinho se antecipou e bateu no canto de um Josep Gomes cuja única dúvida era saber quantas vezes teria que buscar a bola nas redes. E o primeiro tempo serviu só para isto mesmo.

Como estava fácil e não havia sequer as botinadas de quem mal conseguia tocar à bola, e nisso Andorra poderia ser condecorada pelo excessivo fair play, Cristiano Ronaldo foi a campo para aumentar sua coleção de 101 golos por Portugal no jogo em que já era certa a sua 100ª vitória. Mas era um Cristiano perdulário à frente do gol, desperdiçando ao menos três chances antes de receber o cruzamento perfeito de Mário Rui para marcar de cabeça naqueles lances em que parece parar no ar. Este foi o sexto golo da seleção no jogo, que já havia marcado novamente com Paulinho, Renato Sanches e Emili Garcia contra a própria baliza, a interromper o passe teleguiado de Bernardo Silva para o CR7.

No fim, ainda houve tempo para João Félix matar a saudade de balançar as redes do Estádio da Luz, em um jogo que terminou com quase todos os titulares do meio para a frente em campo (somente Bruno Fernandes não jogou). Fora isso, um pênalti não marcado em Cristiano, um golo mal anulado de William Carvalho e algumas garrafas de isotônico que poderiam ter ficado na geladeira, mas foram usadas na maior goleada de sempre frente ao praticamente inexistente oponente.

Ao menos ninguém se machucou para sábado, que é quando vale.

Antony Lopes: podia ter colocado as séries no Netflix em dia, mesmo no relvado;
Nelson Semedo: não nos faz bem ver um gajo que sabe jogar à bola a usar uma camisola vermelha no Estádio da Luz e lembrar que, na semana que vem, estará lá o Gilberto;
Rúben Semedo: podia tentar marcar um golito pra me ajudar a ter o que escrever; 
Domingos Duarte: só não foram 90 minutos inúteis na vida dele porque fez a estreia na Selecção. E também porque pode mostrar ao mundo a barba e o penteado que ainda não consegui decifrar do que se tratam; 
Mário Rui: escuta lá, pá. Dois dos golos saíram de cruzamentos teus, daqueles perfeitos. Teria como ensinar o Nuno Tavares?
Renato Sanches: ok, era um jogo contra ninguém, mas como é bom ver o Renato a desesperar os idiotas que deram-no como acabado (William Carvalho: era preciso mesmo um dos melhores trincos do mundo entrar?);
João Moutinho: tenho para mim que ele jogará até os 70 anos e parecerá que tem 25. É um mistério (Danilo: a fleuma do Comendador, que enfrenta adversários portugueses, franceses e andorrenhos com a mesma disposição. Nem era preciso tanto. Bom, não era preciso nada, nem este jogo); 
Trincão: parece que temos aí talento para quando o Moutinho parar, mas parece que o Moutinho não vai parar nunca (Diogo Jota: como me fazes três pelo Liverpool na Liga dos Campeões e passas em branco num jogo destes, pá? Se estiveres a guardar para sábado, tudo bem);
Sérgio Oliveira: o Lorenzo Lamas de Portugal vive os melhores dias da carreira. A se lamentar, somente saber que na semana que vem estará a dar passes ao Marega (Bernardo Silva: jogos como este são bons para que vistas vermelho na Luz e te prepares para voltar à casa);
Pedro Neto: o primeiro jogador que nasceu no ano 2000 a jogar pela Selecção. Não é uma informação muito útil, mas o jogo também não era (Cristiano Ronaldo: podias ter metido lá uns três ou quatro golos, mas não ficava bem somar tantos na luta pelo recorde. Iam falar. Sempre falam. Ah, parabéns pela centésima vitória. Ou melhor, 100ª, que escrito assim soa melhor);
Paulinho: contrariou a tradição portuguesa de centroavantes ruins. Era bom ver se não erraram a nacionalidade dele (João Félix: não sei se estava pronto para vê-lo fazer um daqueles golaços na Luz, ainda mais a usar uma camisola encarnada. Não demore a voltar, Joãozinho).

Portugal x Andorra - o absurdo jogo na Luz


As autoridades que mandam no futebol, seja onde for, dão toda mostra de que vivem num mundo paralelo. No meio de uma pandemia, que já matou mais de 1 milhão de pessoas, e que se encontra numa curva ascendente na segunda onda - e sem vacina aprovada -, não só mantiveram as fórmulas de disputa dos campeonatos nacionais, como não aliviaram o calendário suspendendo competições menos importantes. Em nível nacional, por exemplo, as Copas da Liga que muitos países têm. 

Falando em seleções, se já era discutível a disputa da Liga das Nações, os amistosos para completar as Datas FIFA não encontram uma única explicação convincente para serem mantidos, ainda mais antecedendo as rodadas que decidirão classificados e rebaixados.

A Portugal, por exemplo, coube o selecionado - ou qualquer coisa parecida - de Andorra, cuja maioria dos jogadores não tem atuado porque o campeonato local está parado (volta no próximo dia 22, se não houver mudanças), e mandará a campo um time inteiramente reserva. Fernando Santos, que disse que preferia reservar os dias de preparação para descansar seus pupilos, escolheu para começar o jogo um onze com Anthony Lopes; Nélson Semedo, Domingos Duarte, Rúben Semedo e Mário Rui; João Moutinho, Renato Sanches, Sérgio Oliveira e Francisco Trincão; Pedro Neto e Paulinho. O único a espreitar a titularidade com os gauleses é Nélson Semedo, o que diz que não servirá para nada, além de atrapalhar a preparação para o jogo com a França, no sábado, no mesmo Estádio da Luz, e que só não define a sorte de ambos se terminar empatado sem golos.

Jogadores são submetidos a viagens desnecessárias; jogos igualmente sem motivo, a não ser render uns trocados para os organizadores, são mantidos e, se os gajos se machucarem, paciência. Vozes sonantes, como as dos alemães Neuer e Kroos, se insurgiram. Mas ainda é pouco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Benfica 2 x 3 Braga - o Dia de Ação de Graças


Os Estados Unidos, o Canadá e, pela influência cultural norte-americana, grande parte do mundo reservam um dia em novembro, nomeadamente a última quinta-feira do mês, para agradecer a Deus pelas bênçãos alcançadas durante o ano que está a acabar. É o Dia de Ação de Graças, ou Thanksgiving Day. Até minha patroa sugeriu que a gente faça uma janta com alguns amigos. 

Em Portugal, caso o Braga queira agradecer a alguém por alguma graça alcançada, já terá o que por à mesa para demonstrar gratidão ao Benfica pela vitória do último domingo, na Luz. Para ser justo, ou menos injusto, os arsenalistas poderão dar graças aos três golos ofertados pela gente encarnada.

E é preciso ser justo para reconhecer que Carvalhal, mesmo sem contar com jogadores como Ricardo Horta, Fransérgio e Gaitán, soube fechar as portas a um Benfica que tinha a bola, mas não soube fazer com que este domínio se traduzisse em chances de golo. 

Pelo contrário, foi com a bola que os de Jorge Jesus permitiram que os bracarenses abrissem o placar. Com todas as opções próximas para sair jogando marcadas pela pressão bracarense, Otamendi contrariou a saída construída em passes curtos e tentou ligar para o meio diretamente, mas o passe, completamente errado, parou em Castro e ficou com Iuri Medeiros. Este não foi incomodado por Samaris e bateu de fora, no canto direito de Vlachodimos para tirar o nulo do marcador.

Antes disso, somente num canto batido por Pizzi que encontrou a cabeça de Otamendi antes do remate acrobático de Vertonghen, defendido por Matheus. Uma única hipótese criada em bola parada e com a participação dos centrais. E só.

Em desvantagem, os da casa voltaram com Gabriel na vaga de um infeliz Samaris e Everton, inexistente, deu lugar a Seferovic. Cinco minutos foi o que demorou para que o Braga explorasse o espaço à frente da zaga, um verdadeiro presente ofertado a Carlos Carvalhal. Al Musrati avançou como se toda a gente de vermelho respeitasse o isolamento social e esperou até a linha defensiva contrária ser desfeita quando Otamendi saiu à caça dele e deixou o espaço onde Francisco Moura recebeu, dominou e aumentou a vantagem dos nortistas. Toda a gente encarnada que por lá estava tentou deixá-lo fora de jogo, exceto Gilberto.

Com Taarabt no lugar de Pizzi, outra figura perdida em campo, o Benfica passou a ter mais volúpia no meio, muito embora isso também tenha sido fruto do recuo de quem tinha dois gols à frente e muita disposição para contragolpear. Como quem trabalha conta mais com a sorte, Al Musrati deu um estouro para evitar Taarabt em zona proibida de perder a bola e esta ficou entre Vlachodimos, que saiu sabe-se por que da área, e Otamendi, com Gilberto a torcer para que nada desse errado. Mas deu. Francisco Moura aproveitou o momento "espera que eu espero" entre guarda-redes e central, roubou-lhes a bola e só empurrou para o gol vazio.

Aí o Benfica entrou no jogo, e este é o único motivo para Carlos Carvalhal ralhar com os seus. Em 30 minutos, os donos da casa, com Gabriel, Rafa Silva e principalmente Grimaldo (que havia substituído o trágico Nuno Tavares pouco antes do 3-0), Taarabt e Seferovic em grande, criou hipóteses para encostar e, com um poucochinho de sorte, empatar e até dar a volta no marcador. Primeiro Rafa recebeu de Gilberto a jogada bem distribuída por Gabriel, escapou de Sequeira e cruzou no pé de Seferovic, que desviou de primeira para tentar rediscutir o resultado.

Tudo passando por Taarabt, um minuto depois, quase Seferovic bisou no cruzamento de Grimaldo, que ele cabeceou à queima-roupa, mas Matheus fez a defesa do jogo. Pouco depois, o marroquino tramou com Gabriel, avançou e acionou o espanhol em profundidade; Grimaldo colocou no pé de Waldschmidt, mas ele errou a finalização com o gol aberto.

A mão que deu, também tira. Na única chance do Braga quando o Benfica estava por cima, Paulinho recebeu de Galeno e foi travado por Vertonghen. Na sobra, o brasileiro tentou encobrir o grego com classe, mas este desviou com a ponta dos dedos para manter o jogo em aberto.

A cinco minutos do 90, Gabriel buscou Taarabt, recebeu de volta e chamou Grimaldo. Este contou com o apoio de Darwin Núñez para atrair os marcadores e tabelou com Taarabt para receber pelo alto e assistir de cabeça para Seferovic diminuir a um a vantagem do Braga. A calma deste gol contrastou com o fim do jogo, quando o tempo era escasso e a tática já havia ido embora. 

E quase resultou no último lance. Gabriel mandou o balão, a zaga rebateu, Grimaldo tentou pelo alto para Seferovic, que cabeceou para o meio, onde Otamendi tentou uma bicicleta  e a bola que sobrou para Seferovic, em fora de jogo, empurrar para o gol, em lance bem anulado pela arbitragem, mas que daria ao jogo um resultado injusto demais que os times apresentaram (ou não). 

Que Carlos Carvalhal agradeça por isso também.

Vlachodimos: meu caro Ody, não vás me fazer outra vez o mesmo que seus colegas de zaga;
Gilberto: aproveite a parada para os jogos de seleções para aprender a não deixar os gajos do outro time em condições (Diogo Gonçalves: que Nossa Senhora da Lateral o cubra de bênçãos e te torne um jogador da posição até que o André Almeida volte); 
Otamendi: prefiro não dizer o que penso por respeito aos que leem; 
Vertonghen: aproveites que tu e o Otamendi falam Inglês e pergunte "What the fuck, man?" É isto ou aprendas a rezar enquanto jogas;
Nuno Tavares: o mister estava a brincar quando falou que tu eras o futuro da Selecção na posição. Bom, não dá para fiar-se nas previsões dele para a lateral esquerda, já que quis meter por lá o Bernardo Silva (Grimaldo: da próxima vez, digas que estás pronto para jogar desde o início, mesmo que seja mentira);
Samaris: não entendi a escolha dele, que mal voltou dos cuidados médicos. Acho que nem ele entendeu (Gabriel: nunca mais deixe o mister nervoso quando fores substituído. Saias a sorrir, mesmo que estejas a falar em pensamento todo o baixo calão português);
Pizzi: podias falar ao mister para dar uns jogos de descanso para o Everton. Assim, o Rafa iria ter lá e tu voltarias à posição que o Bruno Lage achou pra ti e nos ensinou a gostar tanto de um certo 21, de olhos estrábicos e chutes certeiros (Taarabt: que diabos que não fazes jogos destes desde que chegou, pá?);
Everton: era bom tirares uns jogos de folga para descansar e poder mostrar novamente porque a Seleção Brasileira é melhor quando tu jogas (Seferovic: ainda há quem não goste de ti?);
Waldschmidt: nem todos os dias correm bem, Gian-Luca, mas aquele falhanço estava fácil de marcar. Que a defesa permita que possas falhar outras vezes, como todo avançado falha, e toda a gente não pense em por a culpa em ti;
Darwin Núñez: notei que jogou quando ajudou o Grimaldo a despistar os gajos no segundo golo. 

sábado, 7 de novembro de 2020

Benfica 3 x 3 Rangers - decisões, escolhas e o uruguaio certo

Tudo, absolutamente tudo, na vida é uma questão de escolhas, racionais ou instintivas. Acordar e levantar de vez ou esticar um poucochinho o último sono da manhã? Colocar o pé no chão ou evitar o frio do soalho e procurar um tamanco ou seja lá o que for para calçar? Um sumo? Um café? Escovar os dentes antes ou depois de comer? Mas que raio, se eu escovo, interfiro no sabor do café e tenho que escovar outra vez após o pequeno almoço. Ora, tantas escolhas a serem feitas e nem decidimos ainda se tiramos a barba antes de sair de casa ou deixa lá como está.

Até um Nobel de Economia, o de 2017, foi outorgado a um gajo britânico chamado Richard Thaler porque ele explicou por que diabos tomamos decisões erradas sobre os gastos, em vez de agirmos de maneira racional, mesmo sabendo o certo a ser feito. "Olha, uma calça em promoção, mas não preciso dela. Dane-se, está em promoção!". Escolhas, enfim.

E é com estas palavras que escolho iniciar esta crônica sobre a noite chuvosa - de chuva mesmo e de golos - no Estádio da Luz para a terceira jornada da Liga Europa, torneio onde foi militar o Benfica de Jorge Jesus também porque alguém escolheu rescindir o contrato do Zivkovic justamente antes do jogo em que o time para onde ele foi seria enfrentado e deu no que deu.

E lá se foram as escolhas de JJ depois da surra de realidade que o Benfica e eu tomamos do Boavista, no inapelável 3 a 0 do Bessa no Dia dos Fiéis Defuntos. Na ocasião, o mister lamentou não ter rodado mais a equipa, razão pela qual levou um 11 mais ou menos alternativo para o duelo com os escoceses. Frente a um time não lá muito competente a tramar com a bola, mas bem montado por outro gajo inglês bem conhecido, o Steven Gerrard, o Benfica foi a campo preparado para algumas poupanças: Gilberto, Gabriel, Grimaldo, Waldschmidt e Darwin Núñez ficaram no banco, certamente porque JJ sabe que precisará deles - ou de alguns deles - em grande para o Braga no domingo e porque, com seis pontos em seis disputados, ainda há espaço para isto na Liga Europa.

O lendário Gerrard, que por certo viu o que os enxadrezados fizeram, armou seu time para ter a bola atrás e atrair os da casa para sair em velocidade nos espaços que seriam encontrados entre numa equipe pouco talhada para marcar, do jeito que se apresentou. Mas Helander recebeu uma bola apertada e acertou Rafa, que pressionava. Aí o 27 levou toda a gente escocesa ao fundo e cruzou para a entrada da pequena área, onde Seferovic estava pronto para abrir os trabalhos, não fosse pela infeliz intromissão de Goldson, ele mesmo a trair o goleiro McGregor, logo no primeiro minuto de jogo. 

Até o décimo, o Benfica teve outra grande chance, com Pizzi a finalizar na área jogada que começou no avanço de Nuno Tavares, passou por Everton e terminou no chute cruzado do capitão, rasante no poste esquerdo. Isso fez com que os visitantes se encolhessem, tramando o espaço que por certo apareceria. E apareceu no lançamento do meia Davis, recuado à área dos centrais, para explorar a velocidade do atacante Kent. A escolha de Otamendi foi deslocar o inglês quando este tinha somente Vlachodimos à frente, mas em condições de chegar à bola antes. Aí o árbitro não teve escolha, a não ser mostrar o bilhete de saída para o argentino, expulso aos 19 minutos.

Pizzi foi o escolhido para que Jardel recompusesse a defesa, mas em cinco minutos os visitantes deram a volta, deixando a nu toda a incapacidade do 11 benfiquista para fechar as lacunas entre os setores. Davis e Tavernier tabelaram no espaço "ocupado" por Taarabt, Everton e Nuno Tavares e o lateral cruzou rasteiro onde não havia ninguém, exceto Diogo Gonçalves, que fez a escolha de tentar tirar quando não havia nenhum dos de Gerrard a chegar,  mas mandou a bola com violência contra o próprio gol.   

Logo no lance seguinte, outro lançamento para a direita do ataque do Rangers e a bola foi atravessada na frente da área lisboeta, de Morelos para Kamara. Entre ele e Vlachodimos havia uma bagunça encarnada, com Diogo Gonçalves a central, Weigl fazendo a cobertura, ou tentando, e Rafa fechando pelo meio, ou tentando. O médio alemão titubeou entre fazer a barreira para o chute ou sair à caça do lateral esquerdo Barisic, que passava. Pelo meio, Kent atraiu a atenção de Rafa e de Vertonghen. Vlachodimos se posicionou para o chute no meio do golo, só que este veio seco, apertado, entre seu lado  direito e o poste. O terror estava instalado na catedral, como que se fosse transportado do Bessa.

Até o fim da primeira etapa, a chuva aumentava proporcionalmente ao declínio físico e moral de um Benfica extenuado, mesmo com reservas em campo. E isto só não se traduziu em gols porque os comandados de Steven Gerrard, embora bem treinados, não souberam aproveitar a superioridade numérica e anímica. E o intervalo chegou, para a sorte de Jorge Jesus e cia.

O Benfica voltou ao segundo tempo com os titulares - Grimaldo, voltando de lesão, e Gilberto, na falta de outro - nas laterais. Mas foi novamente por ali que os problemas prosseguiram. Logo aos cinco minutos, Goldson teve todo espaço do mundo para acionar Tavernier na ponta. Ele foi ao fundo, mas havia Vlachodimos fechando o primeiro pau, e Vertonghen, Jardel e Grimaldo, além de Weigl mais para o centro da área, a diminuir as opções de passe do francês apenas a Morelos, que era seguido de perto por Gilberto. Era, porque o brasileiro escolheu parar. "Olha, o cara estará sozinho, mas o Ody pode desviar. E se não desviar? Dane-se, vou esperar". Escolhas, enfim.

Às favas com as poupanças, Darwin entrou aos 15 no lugar de Seferovic e, menos de uma dezena de minutos depois,  Waldschmidt rendeu um esgotado Everton, que jogou como titular em todos os jogos da temporada. Ainda assim, o Rangers seguia dominando como queria. Fora uma escapada de Rafa, que terminou na conclusão errada do 27, eram os escoceses os donos do jogo. Pressionando a saída de bola, provocaram o erro de um desastroso Gilberto, que sem opções perdeu para Barisic. A bola ficou com Morelos, que buscou Jack no meio; este com um passe só deixou Kent na cara do gol, mas acabou tirando demais de Vlachodimos e acertou o pé da trave.

Com o jogo tranquilo demais, talvez inconscientemente, o Rangers passou a querer enfeitar o último passe, e a escolha cobrou seu preço. Exceto pela dupla de avançados que entrou no decorrer da segunda etapa e de Rafa Silva, o Benfica era uma presa um tanto fácil, mas dois lances mudaram a sorte do jogo: em ambos, Waldschmidt colocou-se entre os médios e achou para Darwin primeiro para ganhar aos trambolhões de Helander e de McGregor, antes de servir Rafa para o 2-3; depois, ele mesmo, finalmente em posição legal, para receber e bater na saída de McGregor e reestabelecer o mínimo da dignidade que começou a ser perdida no Bessa e estava a se afogar no dilúvio da Luz.

Vlachodimos: voltamos às eras em que o Ody vai buscar a bola ao golo, mesmo que seja vindo de um companheiro. O duro é quando faz vindo de todos os lados; 
Diogo Gonçalves: da próxima vez, certifique-se de que a baliza é a certa, pá (Gilberto
: ó, rapaz, ainda és novo nisto, então lá vai: não deixes o gajo com a camisola diferente da tua sozinho na área);
Otamendi: 1 a 0 em casa, mais de 70 minutos de jogo pela frente, o colega das luvas no lance e tu me resolves fazer a falta? Que caraças estavas a pensar?;
Vertonghen: a desilusão quando viu o gajo meter o terceiro deles nos mostra que, mesmo para quem já viu de tudo na vida, ainda há espaço para indignações. Em todo caso, para não se repetir com frequência, seria bom se o senhor Jan desse uns conselhos pros miúdos da defesa;
Nuno Tavares: certa vez, o JJ disse que o Nuno Tavares é o futuro da lateral esquerda da Selecção Nacional. Das duas, uma: vai ensinar o miúdo a marcar ou deseja o pior para os seleccionadores da equipa nacional (Grimaldo: o brilho nos olhos de ver que o Alejandro voltou esvaiu-se quando tomamos um golo pelo lado dele. Ainda assim, que bom que voltou);
Weigl: chegou a ser comovente o olhar perdido de quem esteve tão perto nos golos tomados sem poder fazer mais. Sentimos a mesma impotência, Julian;
Taarabt: aprendas a falar uma só frase em Português, SFF: "Ó, mister, mete cá mais um trinco, caraças". Facilitará tua vida e a dos adeptos;
Pizzi: tenho certeza de que estavas prestes a fazer um daqueles grandes jogos que fazes quando ninguém mais espera por isto. Carlos Carvalhal que me perdoe, mas ficou para domingo (Jardel: uma pena o Fernando Santos ter convocado a Selecção antes do jogo. Certamente, pensaria em ti para render o Pepe. Pensando bem, que bom o Engenheiro estar ocupado);
Rafa: ao fim do jogo, o Jorge Jesus foi ter com o Rafa no relvado e falou-lhe ao pé do ouvido, gesticulando um bocado a mais do que o normal. Explicou na coletiva que disse ao Rafael Alexandre que jogadores como ele fazem o Benfica ganhar títulos. Digo-lhe mais: com mais uns seis de ti, a Europa seria nossa;
Everton: lembras quando disse que tuas atuações fariam com que um Wolverhampton o levaria embora? Voltes a jogar o que jogavas,  SFF, mesmo que isto custe tua despedida. Bom, sem ser assim, não faz sentido ficares (Waldschmidt: volto a perguntar: por que raios não viestes em janeiro?);
Seferovic: gostei da tática de cansares os adversários para o Darwin terminar o serviço (Darwin Núñez: Cavani quem?). 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Boavista 3 x 0 Benfica - xeque-mate no Bessa


Quem esperava por um passeio à Cidade do Porto com três pontos na bagagem e oito de avanço ao oponente do Norte se enganou. Quem passeou em campo, no fim das contas, foram os enxadrezados de Vasco Seabra, que impuseram uma pesada derrota aos de Jorge Jesus.

Não foi desta vez que JJ igualou seu melhor registro pessoal no arranque da Liga, as seis vitórias que teve ao leme do Sporting. E muito se deve à atuação irreconhecível dos de vermelho, mas em função da teia armada pelo jovem treinador boavisteiro.

Sabendo que Jorge Jesus tem problemas na última linha defensiva, onde conta somente com um dos titulares que começaram a temporada - André Almeida e Grimaldo estão lesionados e Rúben Dias mudou-se para estar às ordens de Guardiola -, Seabra montou sua equipa para pressionar a saída de bola benfiquista e forçar tantos quanto fossem possíveis os erros próximos da área de Vlachodimos. Com tanta disparidade técnica entre os oponentes, somente uma jornada roçando à perfeição de um e desastrosa do outro faria resultar com folga. 

E resultou.

Resultou porque Nuno Tavares tem seríssimos problemas para marcar; porque Gilberto é, por ora, um pedido incompreensível do treinador para a lateral; porque a presença de Taarabt no 11 deixou Gabriel, em noite para ser esquecida, sobrecarregado na marcação. E porque Elis e Angel Gomes foram um tormento para toda a gente benfiquista. Foi dos pés de Gomes que saíram os dois golos dos enxadrezados: primeiro, quando sofreu um pênalti besta de Everton, que ele mesmo converteu em golo; depois, no passe de letra genial que deixou tudo o que vestia vermelho sem ação para encontrar Elis à frente de Vlachodimos para dilatar o marcador. 

Ao fim da primeira parte, um Benfica mansinho tinha finalizado uma única vez, em uma cabeçada de Vertonghen. No mais, um golo anulado de Darwin Núñez por fora-de-jogo quando o nulo ainda estava no placar. E só. O Benfica tinha a bola, mas nunca teve ideias para criar espaços onde Waldschmidt e Darwin poderiam fazer a diferença.

E não adiantou Jesus sacudir a equipe no balneário ou promover três substituições ainda aos 46 minutos: as nulidades Gabriel, Pizzi e Everton foram sacados para as entradas de Weigl, Rafa e Seferovic para fazer frente ao 4-5-1 de Seabra, mas não houve o entendimento necessário para que a posse de bola encarnada se traduzisse em chances de gol. Pior que isso: os dois elementos mais perigosos dos encarnados sucumbiram de vez após o intervalo, havendo, se muito, duas finalizações, uma de Rafa e outra de Darwin.

Pelo lado do Boavista, equipa que começa a receber as feições de seu treinador e deixa de ser um time somente lutador para ele condicionar a partida, venceu pela primeira vez na prova porque sempre esteve por cima, porque não teve resposta à altura e, porque quando Angel Gomes se cansou teve o hondurenho Elis ora aberto para aterrorizar Nuno Tavares, ora para fazer da vida de Diogo Gonçalves, em lugar de Gilberto, um verdadeiro inferno. 

No terceiro do Boavista, Elis puxou fez a parede na intermediária para Paulinho e foi levar os dois centrais benfiquistas para dentro da área o suficiente para desarrumar a defesa para que Hamache chegasse livre, sozinho, sem ninguém para tentar travar o chute que terminou inapelavelmente no ângulo esquerdo de um estático Vlachodimos.

De nada adianta Jorge Jesus reclamar das 31 faltas do Boavista ou a habitual choradeira da News Benfica a apontar o dedo à complacência da arbitragem. Perdeu porque foi pior. Melhor dizendo, não perdeu, foi o Boavista quem venceu. 

E venceu sem dar margem, num autêntico xeque-mate no xadrez do Bessa.

Vlachodimos: espero que não comece a beber para se esquecer de partidas como estas. Com os colegas que têm na defesa, acho importante andar perto do Ody para evitar más ideias; 
Gilberto: deve haver miúdos a ler, então não escreverei o que disse a cada prestação mal conseguida (Diogo Gonçalves: manteve o padrão defensivo do brasileiro); 
Otamendi: chegou a ser desrespeito ao senhor zagueiro ser submetido a estar com os abusados de camisola enxadrezada. O drible da vaca, então, justificaria umas palmadas no traseiro de quem fez;
Vertonghen: deveria levar doces nos meiões para evitar as travessuras dos tipos de xadrez que tentou (?) marcar;
Nuno Tavares: o único Tavares que sobrou lamentou ter sido o último Tavares a ter sobrado;
Gabriel: desta vez nem reclamou por ter saído 
(Weigl: melhorou o nível da equipe. Isso explica muita coisa);
Taarabt: teria errado até o nome, caso perguntassem (Cervi: e não é que estás aqui, Franco? Foi o mesmo que não estar, aliás);
Pizzi: até tu, Pizzi? 
(Rafa: lamento por teres tido 21 adversários em campo);
Everton: perdeu um dente onde o Benfica perdeu a dignidade (Seferovic: que saudade de ter o Carlos Vinícius na equipa para entrar em roubadas como esta, não?) 

Waldschmidt: experimente soltar a bola um bocadinho antes para ver se o Darwin não fica impedido. Ou então aprenda a falar "espera lá, ó, caraças!". Pode ser em Espanhol também.;
Darwin: funciona assim: entre tu e a linha de fundo deve haver ao menos dois dos gajos de camisola diferente da tua. Diferente disto é fora de jogo, pá. Aprenda, ó, caraças!