segunda-feira, 25 de março de 2019

Preocupante, mas com melhoras - Portugal 1 x 1 Sérvia

Imagem: Reuters
Portugal martelou, tentou, errou, mas apenas empatou com a Sérvia pelas Eliminatórias para a Euro 2020. Segundo empate em casa e o sinal amarelo já ligado. 




O time das Quinas começou bem o jogo, achando espaços para se aproximar do gol adversário, mas errando o último passe que, sabe lá Deus por que, normalmente é um cruzamento desproposital na área. William Carvalho quase abriu os trabalhos aos 4 minutos, mas a finalização, além de fraca, desviou na defesa, apesar de o árbitro ter marcado tiro de meta, na sua primeira decisão equivocada da noite.  

Falando em primeira, a Sérvia apareceu no ataque e já fez movimentar o jogo, com o pênalti marcado, de Rui Patrício, no atacante Gacinovic, após passe primoroso de Tadic, o mais perigoso dos jogadores da turma dos Balcãs. Mesmo com o gol marcado cedo por Tadic, o jogo seguiu no ritmo que seria mesmo no 0 a 0: Portugal buscando espaços e a Sérvia, que até dava campo, contando com os inúmeros erros portugueses no último terço do campo ou, quando precisou, o goleirão Dmitrovic esteve muito bem, e apostou em contragolpes perigosíssimos. E foi o goleiro que impediu que o empate saísse pelos pés de Cristiano Ronaldo, por duas vezes, e de Rafa Silva, o melhor dos lusos em campo.


Aí saiu Cristiano Ronaldo, que sentiu a coxa. Curiosamente – ou não – Portugal melhorou a partir do momento em que teve que se virar sem seu principal jogador, Entenda-se este "se virar" como "liberar Bernardo Silva da prisão da ponta e deixá-lo jogar também pelo meio". Ainda assim, o gol, ou melhor, golaço de empate, saiu em jogada individual e de rara felicidade de um improvável Danilo.


E assim foi também durante o segundo tempo: Portugal atacando, a Sérvia defendendo e o árbitro, que já marcara um pênalti discutível aos sérvios, deixou passar um claro para Portugal (que foi até marcado, mas impugnado por uma anotação equivocada do bandeira), e outro, mais discutível, no Pepe. Aí a Sérvia abdicou do jogo e Portugal teve posse, campo, vontade e um comboio de bolas a passar na frente do gol sérvio, sem nenhum pé lusitano para desviá-las para o gol, mas um azar desgraçado com as hipóteses desperdiçadas e com os erros do árbitro.


Como desgraça pouca é bobagem, o time de Fernando Santos folga nas próximas duas rodadas, em junho, por causa da Liga das Nações, e volta com a faca nos pescoço, embora com boas perspectivas, desde que, claro, Fernando Santos abandone o jogo de ligação direta de nada para ninguém e aposte em um meio criativo, onde os benfiquistas Pizzi e Rafa e o leonino Bruno Fernandes, além de Bernardo Silva, claro, possam aparecer.

Rui Patrício: uma bola no gol e um gol (de pênalti);
João Cancelo: se fosse uma raça de cachorro, já teria desaparecido por não saber 
cruzar;

Pepe: valentia que beirou a irresponsabilidade;
Rúben Dias: gosta de emoçoes fortes;
Raphael Guerreiro: precisa entender que a linha de fundo não morde;
Danilo Pereira: muito luta e um golaço. Pode ter ganho a posição de titular no lugar de Rúben Neves, o que não é necessariamente uma boa notícia;
William Carvalho: o dono do meio de campo;
Rafa Silva: foi responsável por fazer a ligação que faltou no primeiro jogo e foi bem (entrou Gonçalo Guedes, que mal sujou o uniforme);
Bernardo Silva: mais sumido que o Queiroz até a lesão de Cristiano;
Dyego Sousa: seguiu à risca a tradição de centroavantes ruins na Seleção (entrou André Silva, tirou um gol de Raphael Guerreiro, como grande zagueiro que deveria ser se fosse zagueiro);
Cristiano Ronaldo: enquanto esteve em campo, foi perigoso como sempre (deu lugar a Pizzi, que ajudou a aumentar o índice de cruzamentos errados).

sexta-feira, 22 de março de 2019

Estreia para esquecer - Portugal 0 x 0 Ucrânia

Imagem: Reuters

Quer ver Portugal se enrolar? Dê a bola e feche-se na intermediária. Falta um pé que pense melhor o jogo, que encoste e faça Bernardo Silva ser efetivo. Fernando Santos imagina neste ser o João Moutinho, como já pensou ser o João Mário e o André Gomes. Errou sempre. Talvez Pizzi pudesse ser, jogando na ala, um bom auxiliar para o meia do City.

O jogo de estreia nas Eliminatórias da Eurocopa, em que Portugal entra defendendo o título, lembrou demais o jogo com o Uruguai na Copa, mas como a Ucrânia não tem Cavani e Suarez (graças a Deus), o jogo ficou 0 a 0.

Cristiano Ronaldo entregou o que dele se esperava: movimentação, finalizações e foi o jogador mais perigoso da equipe de Fernando Santos, não tendo dado a vantagem a Portugal somente porque o goleiro Pyatov esteve em excelente plano. O mesmo não se pode afirmar de Bernardo Silva, mas, neste caso, a responsabilidade cabe ao treinador português, que teima em desperdiçar seu talento ao deixá-lo preso à ponta, em vez de aproveitar de sua visão de jogo e movimentação na zona de criação, como bem faz Guardiola no Manchester City.

No fim, o empate só não se transformou em desastre porque Pepe, como de costume, fe uma partida exemplar e salvou um gol certo do pé de Júnior Moraes quando este teve o gol aberto após sobressalto de Rui Patrício.  


Rui Patrício: um balde d'água teria o mesmo trabalho que ele.

Cancelo: bem na defesa, medonho no apoio;
Pepe: ganhou metade das jogadas na sua área (e salvou Portugal no fim do jogo);
Rúben Dias: ganhou a outra metade;
Raphael Guerreiro: assistiu ao jogo de dentro do campo;
William Carvalho: o único que se salvou do meio pra frente;
Rúben Neves: tentou de tudo e errou tudo (saiu para dar lugar a Rafa, que não tentou e não errou);
João Moutinho: praticamente um a menos em campo (entrou João Mário e manteve o nível do titular);
Bernardo Silva: deve ligar para o Guardiola à noite e dizer que sente saudade;
André Silva: um bom chute e só (em seu lugar, Dyego Sousa pelo menos se movimentou mais, o que não quer dizer mmuita coisa);
Cristiano Ronaldo: tentou, acertou, parou em Pyatov, tentou, errou, tentou, tentou e tentou, mas, sozinho, não consegue sempre fazer a diferença.


quinta-feira, 21 de março de 2019

Messi ou Ronaldo? Pelé!

(Fotos: Getty Images. Montagem: Placar)
Vira e mexe, aparecem polêmicas que tentam comparar jogadores diferentes, de épocas diferentes, a vaticinam que este é melhor que aquele e pronto. A mais nova é sobre o melhor jogador de todos os tempos – ou GOAT (Greatest Of All Times, de acordo com as redes sociais): Messi, Cristiano Ronaldo ou Pelé.

O estopim foi a fase de oitavas de final da Liga dos Campeões, quando Cristiano passou por cima do Atlético de Madri e fez os três gols que classificaram sua Juventus aos quartos da competição. Um luxo. A resposta de Messi foi uma atuação de gala (mais uma) no passeio sobre o Lyon, completada na soberba partida feita na goleada sobre o Bétis, pelo Campeonato Espanhol. 


Nada de novo, portanto, do que ambos já vêm fazendo há pelo menos 12 anos.

O duelo entre eles é o que há de mais bonito no futebol mundial e ninguém, atualmente, sequer está próximo dos dois. O português é o maior artilheiro da Liga das Campeões, torneio que conquistou em cinco oportunidades, o mesmo número de Bolas de Ouro que possui. Cinco também tem o argentino, que venceu a maior competição de clubes do mundo quatro vezes. Isso fora o que fazem no dia a dia, o que não é pouco, ainda mais se considerarmos os feitos dos jogadores, com marcas atrás de marcas, hat-tricks aos montes e atuações monumentais nos principais palcos do mundo.

Aí vem a questão: já superaram o Rei? Bom, vamos a alguns fatos: Pelé, na maior competição do futebol, a Copa, tem três títulos em quatro disputadas, o mesmo número de Copas que tiveram Messi e Cristiano em campo. Messi, finalista em 2014, tem seis gols em Copas, todos na primeira fase; Cristiano, semifinalista em 2006, quando foi um jovem coadjuvante do time que tinha Figo como principal expoente, tem um a mais, e nenhum a partir das oitavas. Pelé, que fez 12, só na Copa de 58 fez seis, três deles na semifinal com a França e dois na final, sobre a Suécia, sede daquela edição. Pelé, então coroado Rei, tinha 17 anos. É verdade que Pelé teve companheiros de seleção melhores, mas ele era o melhor entre eles.

Há quem diga que Pelé enfrentou jogadores menos capazes do que a dupla de antagonistas do Século XXI, que “o Paulistinha nem se compara com com La Liga ou com a Champions”. Ora, entre os anos 1950 e 1960 – que concentram as três primeiras conquistas mundiais pela Seleção, fora o bi do Santos, em 62-63 – os melhores estavam aqui. Todos os campeões das Copas de 58 e 62 disputavam o Rio-S.Paulo, torneio em que Pelé deitava e rolava, como fazia em todos. Nem na Copa de 70 havia um forasteiro sequer. Eis as listas:

1958:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Corinthians);
Laterais: De Sordi (São Paulo), Djalma Santos (Portuguesa), Nilton Santos (Botafogo) e Oreco (Corinthians);
Zagueiros: Bellini (Vasco), Mauro (São Paulo), Orlando (Vasco) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Dida (Flamengo), Didi (Botafogo), Dino Sani (São Paulo), Moacir (Flamengo) e Zito (Santos);
Atacantes: Garrincha (Botafogo), Joel (Flamengo), Mazzola (Palmeiras), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Vasco) e Zagallo (Botafogo).  


1962:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Santos);
Laterais: Altair (Fluminense), Djalma Santos (Palmeiras), Jair Marinho (Fluminense) e Nilton Santos (Botafogo);
Zagueiros: Bellini (São Paulo), Jurandir (São Paulo), Mauro (Santos) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Didi (Botafogo), Mengálvio (Santos), Zequinha (Palmeiras) e Zito (Santos);
Atacantes: Amarildo (Botafogo), Coutinho (Santos), Jair da Costa (Portuguesa), Garrincha (Botafogo), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Palmeiras) e Zagallo (Botafogo).


1970:
Goleiros: Ado (Corinthians), Felix (Fluminense) e Leão (Palmeiras);
Laterais: Carlos Alberto (Santos), Everaldo (Grêmio), Marco Antonio (Fluminense) e Zé Maria (Portuguesa);
Zagueiros: Baldocchi (Palmeiras), Brito (Flamengo), Fontana (Cruzeiro) e Joel Camargo (Santos);
Meio-campo: Clodoaldo (Santos), Gerson (São Paulo), Rivelino (Corinthians) e Piazza (Cruzeiro);
Atacantes: Edu (Santos), Dario (Atlético Mineiro), Jairzinho (Botafogo), Paulo Cesar Caju (Botafogo), Pelé (Santos), Roberto Miranda (Botafogo) e Tostão (Cruzeiro).


Ou seja, este argumento, que tenta colar que os campeonatos europeus eram mais fortes que o Paulista e o Carioca, não se sustenta.

Há os que dizem que o futebol era muito mais fácil, que os sistemas táticos não eram tão fechados e que o futebol não era tão físico e veloz como é hoje. Não deixa de ser verdade, mas a tal facilidade é discutível: o esporte, como tudo no mundo, evoluiu. Se há menos espaços, e não há folga mesmo, as condições são bem melhores. Pelé pegou gramados ruins, equipamentos rústicos, bola pesada e uma época em que a medicina esportiva era incipiente, além do fato de o jogo ser mais violento, sem tantas câmeras pegando as pancadas que os jogadores levavam. Messi e Cristiano, por sua vez, têm à disposição uma equipe de profissionais,  tratamentos que atenuam o desgaste físico das partidas, programas de computador que ajudam a analisar o desempenho, bolas que começam e terminam o jogo com o mesmo peso, gramados em perfeitas condições, uniformes que não retêm suor, não terminam o jogo empapados ou, como a pelota, com uma parcela da chuva que eventualmente tenha caído.

Alguns fatores favoreceram o Rei, é bom pontuar. O principal deles é que ele, assim como Messi, vestiu a mesma camisa durante toda a carreira (a passagem pelo Cosmos aconteceu após a despedida oficial pelo Santos), não precisando se adaptar a novas formas de jogo e à vida em outros sítios. Nos dias de hoje, e isso é um ponto a favor do argentino, é praticamente inimaginável que Pelé permanecesse no Santos.

Da mesma forma, não resta dúvida de que o Rei seria um jogador ainda mais completo, uma vez que o talento é nato. Pelé, que media 1,72m (achou que fosse mais alto, né?), provavelmente, seria mais alto e mais forte, considerando o resultado da sua aplicação, combinada com a evolução humana e os avanços em todas as áreas, incluindo a esportiva.

Temporada após temporada, Messi e Cristiano se reinventam, tornam-se melhores porque Messi é e Cristiano faz de tudo para ser, e consegue. Um é arte pura. O outro, obstinação. E a pergunta inevitável é a seguinte: como seria um jogador com o talento de Messi e a determinação de Cristiano? 

A resposta é simples: este é Pelé.

terça-feira, 12 de março de 2019

Sobre Neymar, PSG e o desmazelo com a imagem

CRAQUE DA AVENIDA Neymar dá uma pausa na recuperação da lesão e
 curte o Carnaval no Brasil (Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Sempre que eu escrevo fazendo críticas ao Neymar, torço para que seja a ultima vez. Não por ele, nem me importo com isso, mas faz mal à gente ficar às voltas com críticas, críticas e mais críticas, e fica a impressão de que quando o assunto é recorrente, é pessoal.

Não é.

O problema é que Neymar não se ajuda. Mal saiu – se é que saiu – da crise mais séria sobre a sua imagem por causa do desempenho patético na Copa do Mundo da Rússia, já se envolveu, deliberadamente, em uma nova leva de críticas porque resolveu largar a recuperação da nova lesão no dedinho para aproveitar o Carnaval no Brasil.


Aí o leitor poderá ponderar sobre a importância da ausência do mimadinho craque na nem tanto inacreditável eliminação de sua equipe na Liga dos Campeões, mesmo depois de vencer fora de casa por 2 a 0 e ser superada por um adversário desfalcado de 10 jogadores, entre eles Pogba, o principal nome do United.

Mas tem. E muita.

Neymar chegou a Paris para ser o líder, em campo e fora dele, do projeto de conquista da Europa pelo Paris Saint Germain, um time com alguma tradição doméstica, mas pequeno na Europa e com os cofres abarrotados a partir de uma negociata que envolveu políticos graúdos franceses, fundos de investimentos do Catar e compra de votos para a definição daquele país como sede para a Copa de 2022. E na semana mais importante da temporada, o craque-que-tem-tudo-e-não-é-cobrado-por-nada-em-Paris esteve ausente, o que faz com que o clube seja exatamente do tamanho que é tratado pela sua maior estrela.

Desde que chegou à França, Neymar desfalcou o PSG em 45 de 98 jogos do time (quase a metade das partidas, portanto). Em alguns destes compromissos, o camisa 10 não jogou porque teria sido poupado. É verdade que ficou de fora em boa parte graças às duas lesões mais sérias que sofreu, mas não há azar ou acaso nisso. A celebridade Neymar Jr não conversa com o atleta Neymar Jr e, sabe-se, tem uma vida social bastante agitada, o que não ajuda não só na recuperação física entre osjogos, como também atrapalha, e muito, o trabalho de prevenção de contusões.

Se quer ser levado a sério, o reizinho de Parc des Princes tem que se levar a sério. Precisa entender que sua vida extracampo atrapalha o rendimento dentro das quatro linhas. Precisa entender também que todas suas atitudes repercutem muito mais por causa de sua condição de ídolo, para o bem e para o mal. E precisa escolher entre ser responsável e assumir o ônus que seu status exige, se concentrando no que pode dar em troca dos milhões que recebe, ou aproveitar ainda na juventude tudo o que já amealhou, mas sem esperar por grandes resultados e, consequentemente, ver seu valor de mercado diminuir.

Os dois, não dá.

Mesmo considerando um absurdo imaginar a prima donna no mesmo patamar de Cristiano Ronaldo e Messi, cabem algumas comparações: Cristiano se machucou na final da Eurocopa e voltou ao gramado para apoiar seus companheiros, e Portugal bateu uma França, mais forte e jogando em casa. Neymar, que já havia ficado de fora do jogo de ida pelas oitavas da Champions, deixou seus colegas em Paris e pediu para seguir o tratamento da contusão no Brasil em um período que coincidiu com os festejos de Momo, sem se furtar a largar as muletas e pular, literalmente, o Carnaval.

Esta é somente uma das diferenças.

Messi é o melhor jogador do mundo, o mais dotado tecnicamente. Cristiano diminui a diferença entre eles ao trabalhar feito um louco para ser melhor a cada dia, e se adaptou a uma nova função em campo. O resultado é que, aos 34 anos, o português está longe do declínio físico e técnico esperado nesta faixa de idade. Neymar, que é mais talentoso que o astro lusitano e é sete anos mais jovem, ainda não chegou ao ponto em que a idade pesa e o rendimento cai. Só que a fatura chegará de acordo com o seu planejamento (ou falta de um). Aí restará o mercado brasileiro, que torra grana sem parcimônia alguma, ou algum campeonato endinheirado, como o árabe e o chinês.

Pouco para quem foi projetado para ser o melhor do mundo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Carta de um amor ferido à Placar



Cara Placar, sou de uma geração que cresceu lendo suas páginas. Eram tempos em que o futebol não era a teta que é hoje para ver na TV e não havia internet, o que nos forçava a ser mais imaginativos e atentos às leituras. Você, Placar, assim, foi a principal referência para os amantes de futebol desde 1970, ano da primeira publicação – e do Tri da seleção. Reconheço os acidentes de percurso, as fases menos legais, como a do revistão dos anos 1990 sob o mote Futebol, sexo e rock’n roll, mas que relação de tanto tempo está livre de intempéries? Quem deu o furo de reportagem que detonou a Máfia da Loteria Esportiva tem crédito para errar. Foi em 22 de outubro de 1982, querida Placar. Até das datas mais importantes da gente eu me lembro.

No entanto, querida Placar, algumas pisadas na bola e caneladas são mais difíceis de perdoar. Perdoei o revistão a partir de abril de 1995, os mascotes redesenhados, matérias como A Primeira Transa dos Craques e até o saudoso Alex Alves de cueca de crochê da CK, mas nada se compara à edição comemorativa de 10 anos da carreira de Neymar, na qual você o coloca como o maior jogador brasileiro desde Pelé.

Este disparate, Placar, tem a precisão do pênalti batido na Lua pelo craque – sim, craque – em 2012, contra a Colômbia, ainda mais no momento em que a imagem do jogador tem os arranhões causados ao longo destes 10 anos e que ficaram evidentes no patético desempenho durate a Copa da Rússia.


Além do mais, desde que o Rei (a quem você sempre se referiu como Ele, com inicial maiúscula, uma espécie de Deus da bola) parou, tivemos jogadores maiores que o rapaz que veste a camisa do PSG, essa aí que estampa a capa (podia ser a da Seleção, né?). E isso, me permito dizer, é indiscutível: Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Romário, todos campeões do mundo pelo Brasil e em seus clubes, sendo protagonistas, coisa que o Neymar, seu novo protegido, ainda não foi. Como você pode esquecer Romário e Ronaldo, Placar? Quando você mudou assim?

Neymar é um craque? Repito que sim. É o melhor jogador de sua geração no Brasil. É, e é disparado, mas colocá-lo acima de quem fez muito mais pela Seleção, ainda mais quando a imagem mais forte do Neymar é o papelão nos campos da Rússia, é quase uma traição a quem te ama há tanto tempo.

Desculpe-me, revista Placar. Não é assim que voltarei a te amar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Perdão, Boechat

Perdemos Ricardo Boechat. Mais uma vez, uma desgraça que poderia ser evitada, não fosse a cretina mania tupiniquim do “depois a gente vê”. Segundo reportagem de O Globo, o helicóptero em que estavam o jornalista e o piloto, Ronaldo Quattrucci, que também morreu, não tinha autorização para fazer o serviço de taxi aéreo. Se levantou voo, é porque alguém permitiu. Quattrucci era um piloto experiente e sócio da empresa dona da aeronave.

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Não pode

Falta fiscalização no Brasil. Falta tudo neste país que foi feito para dar errado desde o início. E é assim porque somos um bando de hipócritas, cuja indignação tem prazo de validade. Mariana, Boate Kiss, enchentes em Nova Friburgo e Niteroy,  ciclovia Tim Maia, Brumadinho, Voo 1907 da Gol (aquele que resvalou em um jatinho Legacy e caiu na floresta) , Voo 3054 da TAM, Morro do Bumba, voo da Chapecoense, Ninho do Urubu, sem contar outros casos que não causam repercussão. Em comum, a todos, o fato de alguém ter deixado, por omissão, incúria, desmazelo, ganância. Deem o nome que quiserem. Prefiro chamar de desprezo à vida alheia.

Por ironia, o último comentário de Ricardo Boechat, na Band News, foi sobre o quanto dura a comoção. A tragédia de Brumadinho já deixou, segundo ele, as capas dos jornais, ocupadas agora pela desgraça que matou dez meninos na base do Flamengo, clube de coração do jornalista, na última sexta-feira.

Ricardo Boechat era um âncora que não perdeu sua essência de repórter, que é, em suma, a parte mais importante, a matéria-prima do Jornalismo. Este jornalismo perdeu um dos seus melhores combatentes. Uma esposa perdeu seu marido, pai de seis filhos. O piloto deixou dois. E o Brasil chora, mais uma vez, um choro que tem hora para começar e terminar, que é a próxima tragédia anunciada. Anunciada e negligenciada, como tudo o que acontece neste país de merda.

Perdão, professor.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Não pode

Elenco do Flamengo reza antes do treino (Foto: Twitter.com/flamengo)
Não pode um clube como o Flamengo "alojar" pessoas nas condições em que se encontravam os meninos que morreram no incêndio do Ninho do Urubu.

Não pode a camisa do Flamengo ser usada como escudo para que nenhum dirigente seja responsabilizado.

Não pode um clube que gasta o que gasta em salários, tratar pessoas desta forma. Nenhum pode.

Não pode haver concessão quando vidas estão envolvidas.

Não pode haver mais Mariana, Boate Kiss, Brumadinho, Voo 3054 da TAM, Morro do Bumba, Tragédia do voo da Chapecoense, Ninho do Urubu.

Não pode haver tanto descaso, tanta irresponsabilidade, tanto cala-boca, tanta concessão.

Não pode haver tanto "deixa assim, depois a gente vê".

Não pode haver tanto "faz assim, que é mais barato".

Minuto de silêncio, aplausos antes do treino, todos de braços dados formando uma roda. Tudo é muito bonito, mas não se resolve nada sem ação. Foi no Flamengo, um gigante. Imaginem o que acontece em outros clubes.

Não pode haver tanta desfaçatez.

Não pode.

A dois passos do paraíso

Montagem: RBS

“Longe de casa
Há mais de uma semana
Milhas e milhas distante
Do meu amor

Será que ela está me esperando?
Eu fico aqui sonhando
Voando alto
Tão perto do céu”


Quem teve a oportunidade de trabalhar com futebol de base sabe o quanto é difícil a vida de um garoto que sonha em ser um Neymar, um Philippe Coutinho, um Gabriel Jesus, ou ser apenas ele mesmo. Tem a peneira – cuja malha é cada vez mais estreita, a adaptação à nova casa, à nova família. Porque é disso que se trata: é uma família que é formada, como novos “irmãos”, de sonho e estrada. De vida.

Longe de casa, dos irmãos, pais e amigos, sem o alicerce onde eles poderiam firmam os pés, pés estes que são os que os levarão para a glória – ou para o ostracismo, vão os meninos bons de bola. Com eles, quase que de forma siamesa, vão o medo do fracasso, a proibição de errar e voltar para casa sem o contrato assinado e carregando no ventre do coração uma carreira natimorta. Afinal, é no talento do filho bom de bola que a família se fia por uma vida melhor.

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Números favoráveis não salvam ano pífio da Seleção Brasileira

Rimos quando o Edu Gaspar falou que “era difícil ser Neymar”.Mas aos 14 anos deveria ser mesmo. E se Neymar, como tantos outros, não virasse o Neymar da Seleção, do Santos, do Barcelona, do PSG dos 222 milhões de euros, e tivesse sido só mais um dos meninos bons de bola cujo fama e futuro ficaram presos no funil? Sem a possibilidade de falhar, abrindo mão da infância e do simples jogo de bola por algo que, de divertido, só é para quem está do outro lado da cerca, o menino torna-se homem antes mesmo de a barba aparecer. Todo profissional está sujeito a passar por uma temporada ruim e talvez a vida seguirá. Na base, um ano abaixo significa uma carreira a menos.

Entrar nas categorias de base do clube não garante nada, a não ser a manutenção do sonho. Daí, subir ao time de cima, degrau por degrau, chegar à equipe principal, manter-se no elenco, virar titular, chegar a um grande e não sentir o peso da camisa, uma eventual convocação para a seleção, para aí sim ter acesso às benesses que a vida de jogador de futebol de primeiro nível oferece, é um caminho longo demais a ser percorrido. Isso sem contar os percalços, como um empresário golpista que lhe roubou o sonho em troca de meia dúzia de moedas, uma lesão, ou justamente naquele dia a cabeça estava longe, a camisa pesou, um eventual pedófilo que troca o lugar no time por favores inconfessáveis, a estrutura precária do time.

O fogo que lambeu o CT do Flamengo não interrompeu apenas carreiras. Acabou com sonhos de uma existência mais digna, tirou mais que a promessa de um futuro melhor: por mais que pareça clichê, vidas acabaram no inferno do Ninho do Urubu. O clube fica, Flamengo ou não. Os meninos, porém, como uma falta por trás cometida de forma traiçoeira pela noite, por incúria ou fatalidade, não tiveram defesa ou a chance do drible para encarar o próximo lance. Não haverá próximo lance. Não haverá dor maior do que a provocada às famílias pela perda não do candidato a jogador, mas do filho, do irmão, do amigo.

Famílias. Família. Consanguínea ou de escolha, tanto faz. Tudo gira em torno disso. E são as famílias que ficam sem seus meninos, bons de bola ou não. No fim, a bola é o que menos importa. E o paraíso, que estava a dois passos, tornou-se inalcansável.

“Estou a dois passos do paraíso. Não sei se vou voltar
Estou a dois passos do paraíso. Talvez eu fique, eu fique por lá”.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Números favoráveis não salvam ano pífio da Seleção Brasileira

NÚMEROS MENTEM Brasil venceu todos amistosos, mas fez uma Copa
 do Mundo bem abaixo do que poderia (Foto: Jewel Samad/AFP)
A Seleção Brasileira fechou o ano "positivamente". Foram 15 jogos, com 13 vitórias, um empate e uma derrota, com 28 gols marcados e apenas três sofridos e um aproveitamento de quase 90%. Números superlativos, que, em condições normais, mostrariam um trabalho com consistência, que atingiu o sucesso esperado por dez entre dez torcedores - nos quais não me incluo. Em condições normais, porém, os números mostram menos do que deveriam, apresentam meias verdades.

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Por que, Tite?

Trajando as vestes da modernidade, Tite abriu a temporada sob a confiança da torcida, que o via como o condutor ideal do hexa, o portador da boa nova após a trágica passagem de Dunga. E os números, sempre eles, fiavam a imagem de Midas do futebol nacional. Afinal, pegou a equipe em situação de extremo risco e a levou a uma incontestável classificação à Copa, com brilho, intensidade, competitividade. Enfim, "Titebilidade", como brincavam torcedores e mídia com o jeito de falar do treinador, idolatrado por grande parte da imprensa dita especializada.

E é aí que morou o problema. A unanimidade fez mal ao treinador, que chegou à Copa no pedestal da genialidade. As entrevistas do "Professor Adenor" mais pareciam o quadro do Profeta, do genial Ronald Golias, na Praça É Nossa. Nenhuma contestação, Neymar fazendo o que queria, jogadores rendendo abaixo do que era o necessário, sobretudo atuando em campeonatos de nível de competitividade quase nula. Outros, chegaram à Rússia na curva descendente do condicionamento físico e minguaram durante a competição, que era o único objeto do Brasil, que foi uma espécie de estudante que tirou nota máxima em todos os simulados, mas que bombou na prova porque chegou confiante demais e foi pra balada na noite anterior.

UÁLA! Entrevistas coletivas mas pareciam palestras. (Foto: Youtube)
15 jogos, 13 vitórias, um empate e uma derrota, sofrendo só três gols, mas justamente quando não podia, na Copa do Mundo em que jogou bem em apenas dois tempos, em partidas diferentes, durante toda a competição. Realmente, os números mostram quase tudo, mas escondem o essencial, como diria o Roberto Campos naquela analogia com o biquíni.

O lado bom é que agora o manto da inquestionabilidade não cobre mais o "Professor", nem sua primadona. Eis um passo necessário a ser dado para que o outrora país do futebol recupere, pelo menos, a decência de suas atuações em campo. Principalmente quando for valendo.

sábado, 7 de julho de 2018

Por que, Tite?

UAHLAH! O mestre Tite, tal e qual o Profeta de Ronald Golias


Um pecado a eliminação do Brasil. E o pecador atende pelo nome Adenor. Tite, o civilizador, montou o time parecido com o que não funcionou contra o México. William preso na ponta, Paulinho sem função alguma, e jogando com Fernandinho, que é lento, e precisava de ajuda para substituir Casemiro, que fez uma falta imensa. Fagner, um terror, não teve cobertura, que deveria ser feita por um dos volantes. Ninguém fez.


Roberto Martinez, por sua vez, desmanchou o sistema com cinco defensores que quase emperrou no Japão, reforçou o meio-de-campo e, favorecido não só pela ausência de Casemiro, mas também pela pavorosa atuação da dupla Fernandinho-Paulinho,encaminhou a vaga ainda no primeiro tempo, coisa que o México poderia ter feito caso tivesse um pé que pensasse o jogo.

Neymar, abaixo do mais baixo que já jogou pela Seleção, foi uma figura patética no primeiro tempo. Apático, errou tudo o que tentou e saiu do Mundial com a imagem de chorão, mimado e ídolo que ninguém deveria ter. Marcelo, depois de uma temporada estonteante, foi um fiasco maior do que já havia sido em 2014, e ainda teve problemas físicos. Nem Coutinho foi bem, e Gabriel Jesus, em noite para ser esquecida, não terá quem o defenda. No segundo tempo, sem a nulidade da camisa 19, com Douglas Costa querendo jogo e com Firmino mais à frente, o Brasil funcionou um pouco melhor.

Quando Renato Augusto entrou para igualar numericamente o jogo, já que Paulinho era, para variar, praticamente menos um em campo, o Brasil melhorou. Neymar entrou no jogo, embora sem brilho, mas minimamente efetivo. Coutinho, mesmo mal, achou um passe fantástico para Renato Augusto diminuir. E quase o mesmo Renato empatou, se aproveitando de um raro momento de desarranjo belga.

A Bélgica, que abriu a vantagem com De Bruyne jantando o apavorado e injustificável Fagner, Lukaku ganhando tudo sobre todos no primeiro tempo e Hazard como o dínamo do time, sentiu o gol e se fiou no imenso Courtois, que brilhou quando um desesperado Brasil mandava no jogo, à base do bumba-meu-canarinho. Pena para o Brasil Douglas Costa não ter tido mais chances em campo, assim como Renato Augusto.

Tite, como sempre calmo, sereno e irritantemente professoral na coletiva post-mortem, teria muito o que explicar, caso a imprensa presente não bebesse de sua inquestionável sabedoria. Por que Fred? Por que Taison? Por que Fagner? Por que Alisson titular? Por que insistir tanto com Fernandinho? Por que Gabriel Jesus? Por que Marcelo voltou? Por que Paulinho? Por que, Tite?

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Passou quem teve coração. E não foi Portugal


A VIDA PELA VAGA O que faltou a Portugal sobrou
 ao imenso Cavani (Facebook.com/FIFA)
 
Desde o início da Copa eu tenho reclamado da convocação, da postura e das escolhas de Fernando Santos. Hoje, Portugal caiu por causa da falta de opções para fazer a bola chegar à frente. Sem essa de cair em pé. Perdeu para um grande time, uma camisa gigante, mas perdeu, e poderia ter feito mais. Não com o grupo que foi convocado. Não com João Moutinho no banco quando era o único com passe qualificado. Não com Gonçalo Guedes em campo. Não com Guerreiro sendo engolido por Cavani, com João Mario errando o que podia e o que não podia. Não com Bernardo Silva jogando torto na direita e órfão do apoio do grotesco Ricardo Pereira.


O Uruguai, ciente de suas limitações, deu campo, bola, fechou a defesa e apostou nos imensos Cavani e Suárez. Não tem um elenco numeroso, mas Óscar Tabarez extraiu o melhor do que tinha em mãos e anulou Cristiano, que mal viu a bola e, quando a teve e só tiha o chute como opção, tinha à frente Torrera, Laxalt, Cavani e outros 3 milhões de uruguaios se matando a cada bola.

Uma pena a única partida monstruosa feita por Bernardo Silva, melhor jogador português em campo, ter sido a última. Guerreiro, Guedes e João Mário, por sua vez, foram pesos mortos em campo num jogo em que era preciso estar no máximo do desempenho, num jogo em que era inadimissível ter tantos escanteios que morreram antes mesmo de chegarem à área.

Fernando Santos, a quem devemos agradecimento eterno pelo título da Eurocopa, terá que renovar não só a Selecção das Quinas, como seus conceitos e modo de jogar. Portugal deve perder Pepe depois de três Eurocopas e outras tantas  Copas do Mundo, além de Fonte, João Moutinho e Quaresma, que podem ter cumprido seus derradeiros serviços com a Cruz da Ordem de Cristo ao peito, ao passo que Cristiano ainda deve ter um ciclo completo pela frente.

Voltando ao jogo, passou quem mereceu passar.

Pegou no breu

GIGANTE Neymar se estica para, se sola, cravar seu nome na
história (Alexandre Schneider/Inovafotos/Gazeta Press)


Soberba a atuação do Brasil. Com um Neymar gigante, como se espera dele, sem firula, jogando para o time e sem simular faltas, e tendo Paulinho, recuado, mais ou menos como fez na sua maior partida pelo Brasil, na final da Copa das Confederações de 2013, contra a Espanha, que finalmente fez um grande jogo em Copas.

O México surpreendeu pelo ímpeto do primeiro tempo e só não fez a vantagem pela falta de inteligência de seus homens de frente. Se tivesse um pé só que pensasse o jogo, o time de Juan Carlos Osorio poderia ter cirado problemas sérios ao Brasil, que foi encurralado durante boa parte do primeiro período de jogo.


No segundo, com Paulinho preso e William com o diabo no corpo, aproveitando o espaço deixado por Coutinho, que esteve abaixo, mas se doou para completar a marcação,no espeço deixado pelo volante do Barcelona, o Brasil mandou no jogo. O pouco que passou ficou na excelente dupla Thiago Silva e Miranda, que tiveram um desempenho perfeito, sobretudo o primeiro, que está tendo sua redenção pela equipe canarinha.

Com a bola do segundo tempo, com Neymar centrado como foi e com a defesa bem posta, o Brasil tem bola para ser campeão. A saber, apenas, sem Casemiro, outro que faz uma Copa absurda, mas, punido por ter acumulado cartões amarelos, será rendido por Fernandinho, que tem cumprido uma boa temporada, mas não tem o peso do madridista.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Classificação à lusitana

REI DA TRIVELA Quaresma decidiu com
 golaço em noite de pouco brilho
Ufa! Portugal está classificado às oitavas de final da Copa do Mundo. Como nas outras partidas que antecederam a esta contra o Irã, Portugal pecou pela escalação malfeita, efeito direto da convocação errada promovida por Fernando Santos, que privilegiou passadores, mas nenhum gancho, de fato.

Se o sistema de jogo era o correto, com três jogadores à frente e Ronaldo e André Silva trocando de posições, Quaresma sobrava, na pior interpretação possível do termo. Esquecido na ponta, passou a maior parte do jogo à parte, aparecendo somente no golaço que marcou, obra e graça apenas da sua capacidade técnica. O meio era um amontoado de marcadores e passadores de lado, como um caranguejo, quando precisava mesmo era de um jogador capaz de passes em profundidade.

Ao Irã, coube o papel de especulador, um cormorão vivendo dos restos deixados por Portugal, como no lance do pênalti, que nasceu num passe desastroso do desastrado André Silva, no momento de mais controle português da partida, que já se encaminhava para o fim.

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E Cristiano? Diferentemente dos outros jogos, ele esteve abaixo em todos os sentidos: paciência, sorte, juízo. Poderia ser expulso quando deixou o braço no peito do adversário, que acusou uma agressão. Foi inconsequente, juvenil, parecendo acusar o golpe de ter desperdiçado a grande penalidade que deixaria a nau lusitana a navegar em águas calmas, em vez da tormenta de cinco minutos que foi o final do jogo.

De primeiro colocado quase garantido a por pouco não eliminado, o fato é que Portugal fez o que se esperava dele, que era se classificar. Com brilho? Nunca tivemos. Com luta? Muita, mas não precisava ser assim tão difícil.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A vitória e o craque dispensável

NÃO ME TOQUEM Até onde vai a necessidade de ter Neymar no time titular? (Reuters)

O Brasil que venceu a Costa Rica pode ser dividido em duas análises distintas, uma para cada tempo. Na primeira parte, foi um time apático, com poucas ideias, um lado direito nulo com o pouco inspirado William e o injustificável Fagner, que teve a sorte de não haver um Overmars em campo, como foi com Zé Carlos em 98. No meio, Paulinho (não) fez o de sempre, Casemiro não tinha a quem marcar e Coutinho era uma ilha de talento cercada por cabeças-de-bagre. Não rendeu. Gabriel Jesus se esforçou, roubou bolas, teve um gol anulado, mas não justifica ainda estar em campo enquanto Firmino esquenta o banco. 

Na etapa complementar, com Douglas Costa melhor na frente, a render o badalado atacante do Chelsea, e com o inútil Paulinho um pouco mais aberto para auxiliá-lo (e plantar Fagner atrás, onde não atrapalhava tanto), o Brasil melhorou, mas ainda assim era pouco. Finalmente, com Firmino e sem a nulidade da camisa 15, o time do Tite teve cara de time. Bem pouco, mas o suficiente para alcançar a vitória, ainda mais com o virtuose Coutinho resolvendo outra vez. Ele é o craque do time.

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Notem que não falei do Neymar. Ele fez uma de suas piores apresentações pelo Brasil e, intocável que é, não faz a menor questão de mudar isso. Prendeu bola, se jogou, poderia ter sido expulso por indisciplina e conseguiu que um pênalti (que não foi) fosse desmarcado. Apareceu nos acréscimos, fazendo graça com o jogo ganho e marcando um gol que só serviu para que eu acertasse o bolão. No fim, chorou, como se estivesse sentindo a injustiça da pressão de quem não reconhece seu talento, sua magnitude, sua importância. Quanta perseguição ao gênio que nasceu para brilhar.



Vitória no sufoco escancara defeitos lusos na Rússia


Se Cristiano Ronaldo fosse espanhol, Portugal teria dado adeus hoje à Copa. Tendo o desempenho sofrível da estreia como parâmetro, Fernando Santos escalou mal, mexeu pior ainda e tem que dar graças a Deus pela defesa sobrenatural do Rui Patrício no momento que Marrocos mais pressionava.

Os Leões do Atlas, com sua marcação sob pressão e impressionante superioridade física, mandaram no meio, ainda mais porque Bernardo Silva erraria até o nome dele, caso perguntassem. Com menos gente no setor, seria interessante começar com Bruno Fernandes, na falta de outro, para soltar um pouco João Moutinho, mas abrindo mão do sistema com três jogadores de frente, uma vez que isso deixa o meio pouco criativo e sobrecarrega William Carvalho, único marcador a rigor em campo. 

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Não fez uma coisa, nem outra. Pior que isso, mandou a campo Gélson Martins, que é condutor de bola, quando era preciso um organizador, e não aconteceu nada, obviamente, exceto pelas tentativas bisonhas de sair driblando no meio de quatro adversários. A própria entrada do camisa 16, Bruno Fernandes, se deu de forma errada, pois manteve o desenho tático equivocado do início do jogo.

Outro problema foi o vareio que Rafael Guerreiro levou do tanque Amrabat. E Ronaldo, olha, voltou a apresentar o comportamento irritante de querer resolver sozinho quando viu que a vaca bigoduda poderia deitar.

Diferentemente do que houve em Alcáver Qbir (e em 1986), Marrocos foi superado. Passa pelo Irã? Acredito que sim, mas não aposto dois pastéis de Belém que seja um jogo tranquilo.

VAR à parte, Brasil decepciona no arranque da Copa


O Brasil fez uma estreia abaixo da crítica contra a Suíça. O time do Tite deu a impressão de que nunca jogou junto na vida. Dois dos protagonistas, senão os principais, fizeram um jogo para esquecer. Ou melhor, para lembrar de que, desde 2014, Neymar e Paulinho não fizeram uma só partida que prestasse com a camisa do Brasil em mundiais. É cedo? Talvez, mas já entra para a conta. O volante, inclusive, perdeu a posição para Fernandinho durante a Copa do Mundo de 2014.

Neymar, novamente, não jogou absolutamente nada. É verdade que falta ainda ritmo de jogo ao atacante, que fez apenas uma partida inteira desde que foi submetido a uma cirurgia no dedinho, mas não foi por causa de alguma precaução inconsciente que o camisa 10 jogou mal. Ele prendeu a bola, se jogou, cavou faltas, encenou dores improváveis e foi mais um peso a ser carregado do que o condutor da equipe. De fato, apenas Phellipe Coutinho, que fez um golaço, teve atuação digna de nota.
É certo que nenhum favorito jogou bem na primeira rodada, mas a impressão que ficou é que o Brasil regrediu dois anos, mesmo não tendo o VAR usado para apontar a clara irregularidade no gol suíço, além de um pênalti discutível a ser marcado no nulo Gabriel Jesus. No entanto, não dá para notar que o desempenho foi muito abaixo do esperado. O hexa, amigos, pode acontecer, mas a Seleção precisa progredir demais, demais. E Neymar precisa estrear em Copas.

Sobrou emoção e Ronaldo. E só.

TRÊS VEZES CRISTIANO Melhor do mundo evitou desaire
 pesado na estreia (Getty Images/FIFA)

Esperava mais do clássico ibérico. No que diz respeito à emoção, o jogo no estádio Olímpico de Sochi já pode ser considerado um dos maiores da história das Copas, mas as duas seleções pecaram quando não podiam. Portugal abriu o placar em um pênalti muito, mas muito duvidoso (para não dizer inexistente) e poderia ter ampliado não fosse a falta de tamanho de Gonçalo Guedes, que desperdiçou dois contragolpes muito promissores, para um jogo desses. Era praticamente um jogador a menos em campo (dois, se formos considerar o péssimo B
runo Fernandes também).

Tendo em Guedes praticamente um adversário em campo e Bruno Fernandes sendo um grande nulo no meio, Portugal jogava praticamente com 9 contra uma Espanha com um meio de campo absolutamente fantástico e com Diego Costa, braços e faltas no primeiro gol à parte, letal, e Iniesta em sua melhor versão.
A virada espanhola deveria ter acontecido já no primeiro tempo, mas um desafortunado De Gea devolveu a vantagem aos lusos, mostrando que a estrela de Ronaldo estava acesa.

Era a oportunidade de Fernando Santos arrumar a casa, sacando as nulidades da primeira etapa e mandando a campo já Quaresma, para desafogar Ronaldo, e até um balde d'água no lugar de Bruno Fernandes, sem função em campo.

Quando a representação lusa acordou, a Fúria já tinha virado o jogo e encaminhava uma vitória até tranquila, mas resolveu sentar no placar ao tirar o gigantesco Iniesta, condutor de tudo de bom que a Espanha tinha em campo. De perdido em campo, Portugal se salvou tal e qual o peregrino que garantiu que o Galo de Barcelos cantaria já morto, à mesa do juiz, no golaço de falta de Cristiano, como há muito tempo não se via. Com curva, colocado, inapelável.

Mesmo assim, a falta que originou o gol aconteceu mais em virtude da injustificável afoiteza de Piqué do que por mérito dos de vermelho, embora a experiência de Ronaldo tenha contado muito para reter a bola e praticamente implorar pela falta. Depois, Quaresma, que entrou bem no jogo, quase deu aos lusos uma vitória em um jogo no qual poderia ter sido goleado, não fosse seu espetacular camisa 7, que, enfim, mostrou seu tamanho em um jogo de Copa do Mundo.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Um sopro de dignidade

Duas décadas depois, Zé Roberto volta a vestir-se de
rubro-verde (Fernando Dantas/Gazeta Press)
E Zé Roberto cumpriu sua promessa de dar seus últimos chutes com a camisa que usou nos primeiros. Uma volta tardia? Talvez. Uma esperança efêmera para uma torcida que virou alvo de chacota, piedade. Uma torcida que escolheu a difícil missão de apoiar um clube que por quase um século lutou para ser reconhecido como grande. Um clube que sucumbiu ante os próprios erros e a crueldade de um futebol que não dá espaço para quem não oferece grandes cifras, audiência ou nada além que a própria história ou o próprio orgulho por nunca desistir e que, nos dias que correm, trocou a luta por teimosia, agonia.

Particularmente, sempre esperei que o Zé voltasse ainda capaz de que seu canto do cisne durasse uma competição, pelo menos. Cheguei a praguejar, duvidar que sua gratidão não passasse de discurso vazio, mas como voltar tendo tanto a dar a quem não estava preparado para receber?

A cada descenso anterior à hecatombe de 2013, um lamento. "Ele poderia vir." Mas não viria assim. Decepção. Raiva. Como a vida muda, não sou capaz de julgar. Não mais.

Sua volta, enfim, aconteceu. Aos 43 anos, 20 após ter decolado para voos mais altos. Por dois jogos, num torneio amistoso de pré-temporada, mas por mais paliativo que possa ser, seu retorno faz a malta rubro-verde reviver, mesmo que por um momento, a sensação de grandeza que se perdeu quando a nau Portuguesa ficou à deriva, sem rumo, sem norte.

Como um Dom Sebastião que volta de Alcácer Quibir, Zé Roberto veste, talvez pela última vez neste domingo, a camisa que permitiu que sonhasse alto, grande. Grande como o sonho de uma torcida machucada, magoada, mas que voltou, na lágrima do velho Zé, a se sentir querida por um instante.

Talvez amanhã a realidade seja dura como a Quarta-Feira é de cinzas após a passageira alegria do Carnaval, como é triste o estádio, aos olhos de Eduardo Galeano, agora vazio quando o torcedor deixa de ser nós é passa a ser eu na volta para casa. 

Talvez o futuro seja negro como o xaile que descansa sobre os ombros da fadista que, com olhos fechados, enxerga com o coração e canta com a alma, a mesma alma que se sentiu grande e que por ela tudo vale a pena.


Mesmo que somente por dois jogos.

(Foto: Rafael Ribeiro)

sábado, 16 de dezembro de 2017

O que sobrou de nós

MAIS UM Cristiano Ronaldo iguala Pelé como maior artilheiro
 do Mundial de Clubes ((Mike Hewitt - FIFA/Getty Images)

O pior Real Madrid possível pôs o Grêmio no bolso, dominou os gaúchos como quis. Jogou pro gasto. Ganhou como quis, mesmo parecendo, às vezes, que não queria. O Tricolor Gaúcho, pela terceira vez campeão sul-americano, se contentou em tentar uma bola, literalmente. Tivesse um balde d'água no lugar de Navas, o placar seria o mesmo.

É isso o que sobrou para os times da América do Sul no confronto com os europeus: tentar não passar vergonha, isso quando chegam à decisão. A disparidade é imensa, e não só em se tratando de talentos em campo. É na filosofia de jogo, na estrutura, na organização.

O Real Madrid, quando avançava, o fazia como faca na manteiga e só parava na monstruosa atuação de Geromel ou em Marcelo Grohe. Já o Grêmio parecia uma faca de rocambole cortanto um pão italiano a cada vez que tentava trocar três passes nos campo de defesa madridista.

Para definir de forma grosseira a diferença entre tricolores e merengues, basta imaginar que os de Madrid poderiam errar por atacado e, ainda assim, teriam enormes chances de ficarem com a sexta taça mundial. Aos comandados de Renato Portaluppi, porém, um erro poderia ser fatal.

E foi.

Falar que o problema não é perder, mas perder sem chutar uma bola ao gol, é ser simplista demais. Chegar à decisão com essa perspectiva é de doer. E está ficando normal enaltecer a raça, a entregar, o cair de pé, quando isso é o mínimo, não é mais que obrigação. Nos contentamos em jogar pela tal única bola e ganhar - ou perder - na raça, único parâmetro independente e qualidade técnica ou filosofia de trabalho.

Ano após ano, assistimos a um campeonato nacional de baixíssima qualidade e, por conseguinte, os parâmetros caem. Aí entram oito porcarias na farra de vagas da Libertadores e vestimos, brasileiramente, a capa de favoritos. Aí apanhamos e ficamos com cara de idiotas, tentando achar explicações onde elas não estão. É fácil: somos muito fracos.

Mas sabe o que incomoda? De verdade? É o otimismo de que, no fim, tudo vai dar certo. O Cássio vai pegar tudo; o Aloísio vai deixar o Mineiro na cara do gol; o Gabirú vai derrubar o Barcelona. Como se isso fosse regra, não exceção. Vivemos do herói cada vez mais improvável, quando o improvável mesmo é, cada vez mais, deixar de ser zebra. Inclusive jogando contra a pior versão do atual campeão do mundo, com seu melhor jogador em uma jornada apagada.

É o que sobrou de nós.