segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Ucrânia 2 x 1 Portugal - O preço da teimosia

MERECIDO Ucranianos comemoram classificação
(Foto: Valentyn Ogirenko/Reuters)
A teimosia de Fernando Santos custou, enfim, a terceira derrota da Seleção Portuguesa em jogos oficiais desde que o Engenheiro do Penta assumiu o comando da equipe nacional. Portugal, que já havia sido superado pela Suíça por 2 a 0 na primeira partida pós-Eurocopa; pelo Uruguai por 2 a 1 nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2018; e agora pela Ucrânia, em novo 2 a 1, mas pelas Eliminatórias para o Euro 2020, teve em comum dois fatores: a formação em 4-3-3 e o time ser batido por equipes teoricamente mais fracas, mas mais bem montadas em campo.


O pecado do 4-3-3 português não está simplesmente na formação, mas nas caracterísitcas das peças e em como estas estão distribuídas em campo. Contra uruguaios e ucranianos, Portugal teve mais bola para jogar, mas as ideias do que fazer com ela não vieram junto. Ter os super atacantes Cavani e Suárez até torna aceitável o revés contra os uruguaios, mas não havia um jogador ucraniano sequer melhor que seu oponente na partida que definiu a classificação da equipe do mítico Shevchenko por antecipação para a Eurocopa, o que torna a condição portuguesa mais preocupante, nem tanto pelas chances de classificação para a Eurocopa - basta vencer a Lituânia em casa e Luxemburgo fora, caso a Sérvia vença seus dois jogos -, e sim pelo que Portugal vai apresentar em jogos mais complicados.

Com relação ao time que venceu Luxemburgo por 3 a 0 três dias antes, Fernando Santos escalou Gonçalo Guedes e João Mario nos lugares de João Félix e Bruno Fernandes. A escolha de Guedes para render João Félix foi bem justificada: Santos queria que Guedes desse mais largura ao ataque, numa função que João já tentou desempenhar e foi infeliz. Só que a prestação do atacante do Valência foi desastrosa, fruto da outra escolha do treinador ao deixar o leonino no banco sob sabe-se lá qual ideia de jogo.

Ao barrar Bruno Fernandes, Portugal perdeu a capacidade do remate de fora da área contra uma defesa que fechou-se em copas para administrar o gol madrugador que marcou - e que condicionou completamente a partida. O gol não era algo previsível, mas sabia-se que os donos da casa marcariam sob pressão e dariam pouco espaço para o jogo luso no campo de defesa, além de explocar os espaços entre as linhas, onde Portugal sempre foi inferior numericamente e, por consequência, em atitude. Outro ponto importante: a ausência de jogadores capazes de infiltrarem as linhas ucranianas estava clara desde a divulgação do 11 inicial, sobretudo pelo desfalque de William Carvalho. Em seu lugar, Portugal teve a volúpia de Danilo, mas pouca lucidez nos passes para romper os bloqueios defensivos, que poderiam sair dos pés de Rúben Neves, mas este jogou pouco mais que um par de minutos contra Luxemburgo.

Ora, se queria alargar o campo, que colocasse Bruma, única peça à disposição realmente talhada para o trabalho, em vez de lançar Guedes ou Félix para isso. Quando insiste no modelo de jogo engessado que adotou nos primeiros tempos contra Luxemburgo e Ucrânia - e já havia sido assim contra a Lituânia -, Fernando Santos mata a principal qualidade dos homens de frente portugueses, que é a movimentação de Bernardo Silva e seja lá quem for o outro extremo, uma vez que Cristiano Ronaldo tem jogado como referência da equipe. E assim seria em qualquer lugar do mundo, com qualquer treinador do mundo. 

Quando conseguiu arrumar a casa, também por conta da expulsão de Stepanenko no lance do pênalti que originou o gol 700 de Cristiano Ronaldo, Portugal esbarrou em outra grande atuação de Pyatov, na péssima noção de posicionamento de João Félix, quando Bernardo Silva estava pronto para comemorar o gol de empate português, e no azar da bola na trave de Danilo, no último lance do jogo, mas parece-me complicado falar em azar para quem fez tão pouco para merecer melhor sorte.  

sábado, 12 de outubro de 2019

Portugal 3 x 0 Luxemburgo - O toque da concertina

MAIS UM Faltam seis para o centésimo pela Seleção das Cinco Quinas
"A concertina, que não para de tocar,
Deixa uns com o pé no ar 
Outros no chão a bater.
Lá vem mais um chegando pra brincadeira,
Vai dançar a noite inteira
Até o dia amanhecer."

A música O Toque da Concertina fez parte do álbum Refazendo História, que o saudoso Roberto Leal gravou em 1996. Era o início do resgate das raízes da carreira do recém falecido cantor. Assim como ele o fez, a Selecção das Quinas está em busca do resgate de sua identidade, que tem se mostrado tão elástica quanto o fole do tradicional instrumento dos folclores e bailaricos lusitanos. Afinal, quem é Portugal? O time que ganhou a Eurocopa com raça e inteligência? Os que massacraram a Holanda na final da Liga das Nações? A falta absoluta de ideias na Copa da Rússia?

O Toque da Concertina representa bem o que foi o jogo entre Portugal e Luxemburgo, válido pelas Eliminatórias da Euro 2020. Ainda com um jogo a menos que a concorrência no Grupo B e ocupando o segundo lugar, Portugal entrou em campo devendo uma atuação de gala, uma entrada à campeão. Bem, ainda não foi neste jogo no José Alvalade que os comandados de Fernando Santos demonstraram por que reinam na Europa (quem duvidar que veja quem é o atual campeão europeu e da Liga das Nações), mas a concertina, nas mãos de Fernando Santos, começou bem o bailarico no campo do Sporting.

Leia também:
Lituânia 1 x 5 Portugal - Deixa jogar, mister

O corridinho não se dança devagar

Foram 16 minutos intensos, com Cristiano Ronaldo mais adiantado, Bernardo Silva com o diabo no corpo e João Félix, de volta ao time titular, com boa movimentação para completar o trio muito bem servido por Bruno Fernandes e João Moutinho - este no lugar do lesionado William Carvalho. Se o primeiro gol quase saiu na jogada de Joões, quando Moutinho deu o gol para Félix, que dominou com perfeição, mas bateu rente ao poste, o quase ficou para trás na ótima enfiada de Fernandes para Nelson Semedo, que ganhou da marcação e dividiu com o goleiro Moris. Na sobra, Bernardo Silva dominou e, com imensa categoria e calma, abriu o marcador.

O jogo, assim, prometia. 

Um dança o vira, outro dança o malhão

Prometia, mas não cumpriu. E não cumpriu porque nem todos dançavam a mesma dança. Até o fim da primeira parte, o único lance de perigo foi de Luxemburgo, quando Thill tirou Rúben Dias para dançar, mas parou na defesa de Rui Patrício (que o juiz não viu, anotando tiro de meta). Fernando Santos ainda tentou abrir o fole da concertina para o som fazer a malta lusitana dançar, mas somente Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo foram para a roda.

Um bate forte, o outro não sabe bater

Que João Félix é um dos talentos mais prometedores dos últimos tempos, não resta dúvida, mas ainda precisa maturar um bocadinho para fazer jus à titularidade, mesmo estando melhor a casa jogo. Na etapa inicial, ele teve a baliza à disposição, mas errou. Cristiano, na segunda, deu bicicleta, driblou e chutou no canto, fez o diabo. E o gol, ou melhor, golaço, saiu de uma troca de passes desastrosa da defesa luxemburguesa (é assim que se diz?). O camisa 7 apertou Chanot, roubou-lhe a bola e com requintes de crueldade encobriu Moris. 699 gols na carreira, 94 na Seleção e os três pontos na algibeira. A esta altura, se vis que o intervalo havia feito bem  aos campeões e todos voltaram no ritmo do corridinho que iniciou a apresentação

Lá vem mais um chegando pra brincadeira

Mas ainda houve tempo para Gonçalo Guedes, que foi titular contra a Letônia, fazer o dele quando o desinteresse já tomava conta da malta, que já estava com a cabeça no repertório para a apresentação contra a Ucrânia, na próxima segunda-feira (14). Se a turma de Fernando Santos vencer e a Sérvia não ganhar da lanterna Lituânia, já podem arrumar a tocata para a Euro. 

Fernando Santos tem pelo menos 18 jogadores em condições para montar uma equipe competitiva, mas ainda precisa decidir se anda com o fole da concertina aberto, a fazer mais barulho, ou se o retrai, como fez no indesculpável primeiro tempo contra a Lituânia. A mim, folclorista que sou, apetece mais deixar os gajos que dançam à frente soltos. Que a concertina não pare de tocar. 

Em campo, um por um:
Rui Patrício:
o juiz não percebeu a única defesa que fez. Uma cesta de castanhas teria mais serventia;
Nelson Semedo: sem ter a quem marcar, poderia apoiar mais, mas teve uma boa prestação;
Rúben Dias: não fosse a entortada que levou de Vincent Thill, ninguém o notaria;
Pepe: como não foi driblado, não foi notado;
Raphaël Guerreiro: ouvi dizer que jogou;
Danilo Pereira: um bocadinho de trabalho no meio, mas nada que o fizesse suar mais que Rúben Neves, que jogou por três minutos;
João Moutinho: um luxo a ser desperdiçado na reserva a outras alturas e na França, por anos (entrou Rúben Neves, talvez para dar algum aviso a alguém. Honestamente, não vi se foi o caso);
Bruno Fernandes: jogo sim, jogo não, vai bem na Selecção;
Bernardo Silva: quando vai bem, o mundo está bem (deu lugar a Gonçalo Guedes, que marcou um golito para poder enganar o mister por mais tempo); 
Cristiano Ronaldo: faltou pouco para marcar o 700 no mesmo lugar em que fez o primeiro. Seria bonito. Não tanto quanto o golo que anotou, mas seria. Poderia ser substituído para ganhar sozinho os aplausos, já que tanto gosta e tanto mais os merece;
João Félix: calma lá, ó, miúdo, que marcas o golo pela Selecção. Outra grande exibição de quem poderia esperar um poucochinho mais para sair do Benfica (saiu para retornar o João Mário: disseram-me que foi. Eu não vi).
Fernando Santos: me parece que encontrou a forma para os quatro da frente renderem mais. Cinco, a contar com João Moutinho, mas este não deve  ser titular com frequência.  

Dedico este texto a António Joaquim Fernandes, o Roberto Leal, ídolo e amigo que se foi a 15 de setembro. E que, certamente, estaria satisfeito com a vitória portuguesa.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Guia prático para detecção de fake news



Um dos fenômenos da comunicação mundial que certamente será objeto de muitas teses, estudos e dores de cabeça na comunidade acadêmica por anos a fio é a propagação das fake news. Elas espalham feito fogo em palha seca simplesmente porque existe um público ávido por ouvir o que quer o que Aristóteles chamou de pathos em seus estudos sobre Retórica. Então, em muitas das vezes, basta a mensagem conter algo que determinado público almeja e voilà! Temos uma fake news prontinha para fazer seus estragos por aí.

Na manhã deste 03 de outubro, meu celular foi bombardeado por perguntas sobre um suposto pedido de falência da Portuguesa de Desportos graças à propagação de uma imagem bem chinfrim, que continha o distintivo luso, os principais títulos de futebol conquistados pelo clube e uma mensagem do tipo "Lusa decreta falência. Sentiremos sua falta". Obviamente, como pregava o jornalista Geneton Morais Neto(1956–2016), meu desconfiômetro jornalístico soou na hora. Quem decretou? Por quê? Onde? Por que não havia saído em veículo nenhum?

A resposta é fácil: é porque era mentira, oras! Fake news, como se convencionou falar de meses para cá. Felizmente, existem macetes para descobrir se a notícia é real ou tão falsa quanto a Grávida de Taubaté. E trago aqui um "Guia Prático Para a Detecção de Fake News".

Boa leitura (e use sem moderação)!

1) É bom demais para ser verdade? É tipo o Messi dizer que quer jogar no seu time ou algo que você gostaria muito que acontecesse?

Pegue o título e jogue no Google. Ou então digite algo como "Messi diz que quer jogar no Flamengo", se a notícia der o Rubro-Negro como desejo de consumo do jogador. se for verdade, todos os veículos repercutirão.

2) Verifique o texto. Tem erros de Português ou de pontuação? Tem como fonte alguém que pode ser qualquer um?

É natural a fonte ser protegida pelo jornalista, mas nem sempre o sigilo é real, ainda mais se tratar de alguém de forma genérica ou especialistas fictícios. Uma busca no Google pode resolver.

3) O texto responde as informações do lide? Quem, o quê, quando, como, onde e por quê?

Quando não há data, o rumor pode ir e voltar diversas vezes como se fosse algo recente. A falta das outras informações básicas, como local ou ocasião, traz uma gigantesca chance e ser falsa a informação. Mesmo assim, algumas dessas informações podem ser falsas. Um evento que, na verdade nunca ocorreu, pode ser citado. Uma pesquisa rápida é eficaz para isso.

4) Vídeos e fotos rodam mais que notícia ruim no Whatsapp e nas outras redes de relacionamento. O vídeo é realmente da época em que é dito que ocorreu? A foto não foi manipulada? Tem foto do Flavio Bolsonaro com camisa ofendendo nordestinos rodando por ai até hoje e é falsa, como tem da Manuela d'Ávila atacando o Cristianismo. E que também, obviamente, é falsa.

Faça buscas em imagens. Certamente, a foto original será encontrada sem muito trabalho. O mesmo acontece no caso dos vídeos.

5) É um meme com uma frase desastrosa ou "lacradora"?

Se a frase foi dita mesmo, registros sérios e confiáveis podem ser encontrados. Não achou? Nem leve a sério. Clarice Lispector e Machado de Assis não falaram muitas das frases atribuídas a eles. Eu mesmo posso fazer um desses sobre qualquer pessoa e a qualquer momento.

6) Titulos bombásticos existem para atrair likes. Cuidado para ver se é real, se o conteúdo condiz com o teor da chamada. Muita gente lê só o título (e é por isso que esse tipo de mentira funciona).

7) Tem até link que leva à matéria! Olha só (mas olha só com muito cuidado)!

Tem mesmo? Compare a URL do link que recebeu com a URL do site usado para dar veracidade. Existem casos de cópias de diagramação das páginas inteiras, para confundir o incauto internauta. Tá diferente? Cai fora!

8) Veículos tradicionais não têm a notícia.

Não se enganem. Por mais que o Trump diga que a imprensa é inimiga do país (nem só ele, né?), fatos relevantes saem SIM nos grandes veículos, sejam eles de que viés forem. O que muda é o enfoque, mas o fato não é ignorado.

9) Como são os outros conteúdos do veículo?

É preciso estar atento ao tipo de conteúdo que o veículo publica. É um mentiroso contumaz? Desconfie. É satírico? Ria e compartilhe, caso queira, deixando claro que se trata de uma gozação, ou então não compartilhe para não ficar feio.

10) O mais fácil (e por isso deixei por último): pesquisar nos sites especializados em checagem de notícias, como o Boatos.org, Fato ou Fake e o Aos Fatos. Ou o Lupa, meu favorito. 

No fim das contas, se a notícia despertar o mínimo de desconfiança, não publique, não compartilhe, não divulgue.

sábado, 28 de setembro de 2019

Benfica 1 x 0 Vitória de Setúbal - Pra ficar ruim precisa melhorar um bocadinho

Foto: Rodrigo Antunes/Lusa

Ó, Bruno Lage, cá estou eu a andar aos queixumes outra vez. Não me leve a mal, mister, mas é que tu acostumaste mal toda a gente com a máquina encarnada de triturar adversários, fosse na Luz ou longe de casa.


Aí perdes o miúdo que nos deu tantas alegrias e, claro, trabalhas para ter outras soluções. Entre todas as que tentastes, juro que nao entendi ainda que raios querias hoje com o Gédson a avançado. Ora, o miúdo é um canivete suíço e pode executar várias funções, mas avançado não é uma delas. Por falar em suíço, o de verdade, cuja função é meter os golos, anda muito longe do guardarredes, não achas? A conduzir a pelota, o rapaz se enrola todo e, assim, voltará a ser o funcionário do mês que não só queimou as batatas, mas ateou fogo à cozinha toda, pá.

No mais, mister, agora tens de volta o Gabriel, este sim um gajo capaz de fazer a equipa jogar à bola. Fejsa é para destruir e o Samaris ainda é um bocadinho melhor, mas me parece que ele não está lá muito bem depois de renovar o contrato, e o Florentino ainda não é pra agora. Faz, de todo modo, com que seus avançados possam segurar os defesas com eles na área para que as linhas deles possam ter o espaço que o Pizzi tanto gosta. Afinal, se ele joga, toda a gente joga, principalmente o Rafa, que, aliás, não é lá a mais feliz das escolhas a correr na ponta direita, tal como o Fernando Santos insiste em fazer com o Bernardo Silva. Deixa lá, mister.

Só mais uma coisa: o Vinícius, que era zagueiro aqui no Brasil, virou um avançado de 17 milhões e fez o golo da vitória, mas não acredite nesta solução. Se era para ter um avançado a mais na área dos setubalenses, ok, compreende-se, mas não caias na tentação de ir pelo caminho mais fácil.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

O louco futebol brasileiro e a dança das cadeiras




Vamos brincar de “Explique a um europeu que gosta de futebol o fim de setembro de 2019 no futebol brasileiro”? Quero ver quem consegue. Ok, pode até ter sucesso ao elencar as peripécias dos dirigentes e – pior ainda – jogadores, mas se ele vai achar normal são outros quinhentos. Ontem, Cuca (que "caiu a si mesmo") e Rogério Ceni deixaram seus cargos; hoje, Zé Ricardo e Oswaldo de Oliveira foram demitidos. Todas as trocas foram bizarras, sem exceção.


Cuca não conseguiu dar padrão ao estrelado time do Tricolor e entregou o cargo de forma até inesperada. Rogério foi fritado em óleo bem quente pelos medalhões do elenco do Cruzeiro, o que mostra que ele ainda não está pronto para ser treinador de ponta, o que é absolutamente normal para quem acabou de iniciar a carreira à beira do campo. Ter sido o craque sob as traves não é garantia de nada ao mudar de função. Ter sido um líder no gramado também não.

Ao que parece, sobrou para o Zé Ricardo, que teve o pescoço colocado na guilhotina quando o ex-goleiro foi demitido e a dúvida sobre o retorno de Ceni ao Fortaleza não é se vai, mas quando vai.

Por fim, a ópera bufa do Maracanã, que envolveu um quase ex-craque - e possivelmente a maior decepção do futebol brasileiro no século XXI - e um treinador que sempre chega com a certeza de que será demitido. Neste caso, todos erraram. Ganso, mimado desde o Santos, não é mais o menino que se recusou a sair na final do Paulista de 2010, desacatando o então técnico Dorival Júnior.  Oswaldo, por sua vez, mostrou o dedo do meio para o torcedor, que ficou ao lado do camisa 10. Um profissional com a experiência dele não poderia jamais entrar nessa pilha. Se a coisa já não estava boa pra ele, ficou insustentável. "Burro pra c*" pra lá, "Você é vagabundo" pra cá, a demissão era questão de horas.

Quem quiser descascar o abacaxi azul de Minas Gerais, terá à disposição - não sei exatamente se este é o termo mais adequado - um elenco que acabou de derrubar o treinador. Não que isso seja raro, mas poucas vezes se viu de forma tão explícita. O mesmo se aplica ao time das Laranjeiras. 

Assim caminha o futebol brasileiro. De surpresa em surpresa, a única certeza é que não há certeza nenhuma. E nenhuma surpresa também.

Atualização:

i) Rogério, que pediu demissão do Fortaleza para acertar com o Cruzeiro, voltou ao Fortaleza, que recebeu dos mineiros uma indenização de R$ 1 milhão pela quebra de contrato do treinador quando este foi para Minas, o que só deixa a situação mais estarrecedora ainda.
...
ii) Abel Braga foi anunciado como treinador do Cruzeiro.
...
iii) Fernando Diniz, que foi demitido do Tricolor carioca, foi contratado pelo Tricolor Paulista. Vagner Mancini, coordenador técnico do clube e que havia sido anunciado como substituto de Cuca, pediu demissão ao saber que havia a intenção de trazer Diniz. 

sábado, 14 de setembro de 2019

Benfica 2 x 0 Gil Vicente - para o gasto

O homem do passe de mágica para destravar o jogo
 (Imagem: Antonio Cotrim/Lusa)

Não se esperava muita coisa do jogo de hoje entre o atual campeão e a equipe que recuperou nos tribunais o lugar que haviam lhe tomado (e a única que solidarizou-se pela filhadaputagem feita com a Portuguesa por aqui em 2013). Afinal, há pouco tivemos os compromissos das seleções e, já na próxima terça, há Liga dos Campeões e o adversário é o Red Bull Leipizig, favorito à cimeira da chave e líder da Bundesliga.



Isto posto, o Benfica ainda perdeu Florentino, o dínamo do time, o maior ladrão de bolas do universo, o que fez com que Fejsa fosse recuperado do limbo diretamente para o onze.

Do outro lado, o time de Barcelos, que derrotou o Porto na abertura do Campeonato Português e também vinha com novidades, como Nogueira, de quem falaremos adiante.

O time gilista, claro, apostou nas linhas bem próximas para não deixar espaços para Pizzi jogar entre elas. A tática poderia ter dado errado se o 21 não desperdiçasse o pênalti que ele mesmo sofreu de Nogueira já aos 8 minutos. Denis, aquele - sim, aquele mesmo -, pegou no canto direito, à meia altura.

Depois disso o jogo ficou numa nhaca desgraçada, com uma chegada aqui, um chute acolá, um sono em toda a gente que assistia, uma boa defesa de Denis em novo chute de Pizzi, mas Taarabt resolveu reivindicar o lugar no meio para quando Gabriel voltar. Com um passe à Gabriel, descobriu André Almeida na direita. O passe buscava Raúl De Tomás e ele já estava pronto para fazer seu primeiro gol encarnado, mas apareceu o desastrado Nogueira para empurrar contra.

O segundo tempo foi um troço meio protocolar, com o Gil Vicente podendo pouco e o Benfica querendo menos ainda. No pouco que conseguiu, o time de Barcelos por pouco não empatou com Kraev, mas o chute saiu à direita de Vlachodimos, que viu o jogo de dentro do gramado.

Se o gol não saiu lá, saiu cá. E foi de Pizzi, artilheiro do campeonato, escorando de primeira no segundo pau o canto batido por Grimaldo para finalmente superar o goleiro brasileiro (que um dia foi chamado pelo genial Rogério Centrone de "falso 1". E foi só, num dia em que Taarabt bastou. Para terça, porém...

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Lituânia 1 x 5 Portugal - Deixa jogar, mister

IMPLACÁVEL Mais quatro para a conta (Ints Kalnins/Reuters)
A única preocupação portuguesa nesta partida deveria ser como jogar no gramado sintético de Vilnius. Só que Fernando Santos resolveu que seria fácil demais colocar Cristiano a sair da área e trazer os zagueiros com ele, ou então deixar Bernardo Silva e João Félix livres para jogarem entre as linhas muito espaçadas da defesa lituana. Então fez o que melhor sabe fazer, quando está à procura de ideias: abriu Bernardo Silva na ala, onde ele nunca rende; deixou João Félix sumido na ponta esquerda, onde ele nunca joga; e esperou que Bruno Fernandes fizesse com a camisa de Portugal o que ele faz no Sporting, o que ele nunca faz.


O primeiro gol foi obra do acaso, um pênalti discutível, que Cristiano tratou de abrir os trabalhos e anotar o seu 90º pela seleção. E acabou aí no primeiro tempo, justamente pela falta de repertório de um time talentoso mal escalado, como um rancho com as concertinas desafinadas, o bumbo frouxo e o cavaquinho a faltarem as cordas.

Com Bruno Fernandes perdido e William Carvalho errando até o nome, caso perguntassem, parecia que Portugal havia voltado ao fim dos anos 1980, era uma equipe trivial, sem talento. E até gol tomou, do grandão Andriuškevičius, que era marcado por João Félix. Ora, isso não daria certo.

Foi preciso jogar fora 55 minutos para o teimoso treinador perceber que não se toca um corridinho sem uma tocata bem composta. Então saiu Bruno Fernandes e entrou Rafa Silva. Mais que isso, a entrada do 15 permitiu que Cristiano, Félix e, sobretudo, Bernardo Silva (figura nula na primeira etapa) tratassem de ocupar o campo de ataque todo, com Cristiano revezando com Félix e Bernardo a ir pelo meio também. Tudo bem que o segundo gol de Cristiano na partida foi um troço difícil de escrever. O goleiro Šetkus, que fazia boa partida, conseguiu se enrolar num chute safado do CR7 e a bola quicou, bateu em suas mãos, subiu, bateu em suas costas - ou braços, ou cabeça, ou ombro, tanto faz - e foi para o gol.

O terceiro e o quarto, pra variar, saíram dos pés de Bernardo para os de Cristiano, que fechou a noite com 93 tentos anotados por Portugal. Nota-se o grande trabalho de João Félix, que atraiu dois marcadores para que Ronaldo recebesse livre, no quarto gol. Nota-se também que ele, Félix, já se soltou mais e a camisola das Quinas veste-o melhor a cada dia. E nota-se, por fim, que William Carvalho também deixou o dele.
Nem precisávamos sofrer tanto, mister.   

Em campo, um por um:
Rui Patrício: teve lá algum trabalho;
João Cancelo: esteve abaixo, mas a culpa é do mister, que abre Bernardo Silva e segura-o na defesa. Em todo caso, André Almeida deveria fazer-lhe sombra nos próximos jogos;
Rúben Dias: assistiu ao jogo de dentro do campo;José Fonte: fez-lhe companhia;
Raphael Guerreiro: chamem o Coentrão!
William Carvalho: passes errados aos montes e um golo. Nada mau;
Rúben Neves: só não foi o pior de Portugal porque Bruno Fernandes está aí pra isso;
Bruno Fernandes: a julgar por esta partida, se retira no Sporting (entrou Rafa Silva: foi o revolucionário do jogo);
Bernardo Silva: precisa fazer ouvidos moucos para quando Fernando Santos mandar abrir para a lateral (imaginam o lado direito com Cancelo, Bernardo e Pizzi? Não foi dessa vez, pois o 21 entrou no lugar de Bernardo. Deve ser para impedir que haja tanto talento em campo);
Cristiano Ronaldo: quatro gols. E só (entrou Gonçalo Guedes para fazer Cristiano ser aplaudido sozinho);
João Félix: calma, miúdo, que o golo vem.
Fernando Santos: ó mister, já sabes que o formato inicial não funciona, pá. Deixa lá a rapaziada a se divertir e a divertir toda a gente, pá! 

Foto: EPA

sábado, 7 de setembro de 2019

Eu amo um homem

O gênio, o operário e o craque silencioso (Getty  Images)

Sim, admito, amo um homem. E este homem é Bernardo Silva. E que homem! É o craque silencioso e humilde. Abre na ponta, some do jogo, se sacrifica pelo sistema meio sem sentido de Fernando Santos, que o larga na ponta para dar amplitude e espaço para Bruno Fernandes, mais ou menos como esperar que o Xororó faça a segunda voz para o Chitãozinho. E está lá, impávido, à disposição, sem mandar um "que raio é isto, mister?" Tem muito jogador que não tem metade do talento dele e dá chilique quando joga fora de posição. Ele não!

Repitam comigo: ELE NÃO!

Aí o mister resolve libertá-lo dos grilhões da ponta direita e o que ele faz? Uma assistência de almanaque para o semideus Cristiano Ronaldo e um gol. Simples, dominando e batendo no canto. Silencioso e genial, como só ele poderia fazer.




Admito. Eu amo Bernardo Silva.

Sérvia 2 x 4 Portugal - Não foi pra tudo isso

Os donos do Velho Mundo (Pedja Milosavljevic/AFP/Getty Images)
Portugal tem uma equipe movida a desconforto. Começou o jogo contra a Sérvia melhor que os mandantes, com volume de jogo, mas sem espaços porque Ljubisa Tumbakovic armou a defesa com cinco jogadores atrás, ao passo que Fernando Santos voltou a insistir em Bernardo Silva preso na direita. O gol, é claro, saiu quase sem querer dos pés de William Carvalho e das mãos desastradas de Dmitrovic. A ideia seria dar mobilidade para Bruno Fernandes, mas o leonino não esteve bem no Marakana.

Leia também:
A Portuguesa e o centenário sem ter nada

A etapa complementar começou com os campeões europeus achando espaços na intermediária sérvia, que tinha a essa altura Ljajic para incomodar Portugal. Aí brilhou Gonçalo Guedes, herói improvável da Liga das Nações, que fez um golaço em jogada individual. Aí o jogo ficou morno, Portugal começou a cozinhar o galo e esqueceu de jogar. Voltou ao jogo só quando os de vermelho diminuíram na cabeçada de Milenkovic.

Placar diminuído. Pressão dos donos da casa? Não! Portugal tratou de aumentar a concentração e manter a posse de bola para impedir o crescimento dos anfitriões, em vez de se encolher e jogar no contra-ataque, como qualquer time faria. Santos, então, mandou a campo João Félix, e, com o colchonero em campo, Bernardo Silva se libertou dos grilhões da ponta esquerda. Pelo meio, achou Cristiano Ronaldo tão sozinho que estava impedido no terceiro gol português, o primeiro do CR7 nestas eliminatórias.



Claro que a Sérvia ainda diminuiu na paulada de Mitrovic, mas a resposta veio um minuto depois com Bernardo Silva, que dominou e bateu colocadinho, por baixo das pernas de Kolarov, mandando a bola para dormir na cantinho. Melhor jogador de Portugal em campo, Bernardo é o mais pronto para receber o bastão quando Cristiano resolver que já deu.



Tomara que demore.


Em campo, um por um:
Rui Patrício: segurança tem nome (e é composto);
Nelson Semedo: estava sendo engolido pelo Kolarov até levar uma pezada dele. Entrou João Cancelo: encontrou Kolarov já de barriga cheia;

Rúben Dias: um ou outro susto. O de sempre;
José Fonte: pra ficar à altura de Pepe só faltou dar pancada;Raphael Guerreiro: volta, Coentrão!Danilo: dormiu no primeiro gol sérvio;

William Carvalho: achou o primeiro gol português. No mais, foi gigante como sempre;
Bruno Fernandes: jogou? (entrou João Moutinho: participou da comemoração do quarto gol);
Gonçalo Guedes: testa a paciência de toda gente jogo sim, jogo também. Mas tem estrela (entrou João Félix: um bom passe, um drible errado e uma tentativa de jogada que não deu certo);
Cristiano Ronaldo: grande figura portuguesa, pra variar. Estava impedido no gol que fez;
Bernardo Silva: o melhor em campo. Se sacrificou em boa parte do jogo para dar amplitude ao time. Quando teve liberdade, deu o passe para o terceiro gol e marcou o quarto.
Fernando Santos: contra cinco defensores, não adianta tentar abrir o jogo. Entendeu isso, reforçou o meio de campo e Portugal rendeu. Ainda precisa descobrir como fazer o time atacar sem deixar as laterais expostas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A Portuguesa e o centenário sem ter nada


Quando "saí" da Portuguesa, em 2015, o plano era disputar a Libertadores em 2020, ano do centenário do clube. O time estava na Série C do Campeonato Brasileiro e a classificação ao mata-mata estava praticamente definida. Dali, bastava superar as quartas-de-finais, com o segundo jogo em casa, para subir à de 2016, mas quem ficou com a vaga foi o Vila Nova. Foi a última campanha algo perto de digna do clube, que caiu para a Série D no ano seguinte e, de lá, para um lento e continuo desaparecimento, como na foto do Marty McFly.

Foto: Alex Silva/Estadão

Veio um presidente com discurso novo, mas com atitudes que fedem a mofo. Veio jogador que não jogou porque só poderia estrear na segunda fase de um campeonato em que o clube não passou da primeira; veio veterano que indicava técnico e jogadores; veio consultor que foi embora porque não era consultado.


E veio 2019 com a última chance de ter um calendário nacional no ano dos 100 anos, mas as práticas não mudaram. Aliás, mudaram para pior. Brigou contra o descenso durante boa parte da Série A-2 do Estadual, e não passou da primeira fase na semi-amadora Copa Paulista pela segunda vez nos últimos três anos, com direito a técnico brigado com diretor de futebol, reforço que não estreou por causa dos salários atrasados, reforço que não ficou porque não tinha a menor condição de jogar, mandos de campo em outra cidade porque preferiam usar o Canindé para cultos, baladas e Festas Juninas. O resultado, óbvio, foi a lanterna de um grupo de seis, incluindo o Sub-23 do Corinthians, em que se classificavam quatro. 

As eleições estão marcadas para o fim do ano e o presidente fala em reeleição. Ou seja, com o futebol parado até janeiro do ano que vem (ano do centenário), não há a menor possibilidade de que se antecipe a escolha do próximo mandatário, mesmo porque o futebol nunca foi a maior preocupação dessa gente.

Não adianta evocar 2013 como muleta para todas as desgraças do clube desde então. Há que se trabalhar para que o clube centenário não vire só história. 

Como na foto de Marty McFly, a Lusa desaparece, lenta e dolorosamente, mas não há Delorean nem o Doc Emmett Brown para conduzir a Portuguesa de volta para o futuro.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Lusa, 99 anos




São 99 anos sem o que comemorar, a não ser uma história rica, repleta de realizações e motivos para se orgulhar. São 99 anos em que, durante boa parte deles, as cores da bandeira portuguesa, dos nossos antepassados, foram honradas com suor, sangue e lágrimas, mas muito orgulho por tudo o que este distintivo representa. 
É bobagem falar que é o pior momento do clube, que pode fechar e o caralho a quatro. Tudo isso é muito claro. A Portuguesa de Desportos definha a cada decisão equivocada, a cada mostra de incúria, a cada diretoria incompetente, a cada minuto em que o descalabro virou normalização. A Portuguesa de Oswaldo Teixeira Duarte não merece a Portuguesa de Alexandre Barros, somente para ficar no mandatário atual. A Associação Portuguesa de Desportos é maior que tudo isso que está aí. 

Apesar de tudo, parabéns, Portuguesa. Que você sobreviva para o Centenário, aquele em que diziam trazer CR7, jogar Libertadores. Não, Portuguesa, não é hora de sonhar acordada. É hora de se manter viva. Faça isso por nós, que carregamos no peito esse orgulho que te mantém viva.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

À Tite, Brasil conquista Copa América e seu treinador enfim volta a ter paz

YOU ARE THE CHAMPIONS Brasil, mesmo sem Neymar, conquista
 a nona Copa América de sua história (Foto: Vítor Caivano /AP)
Após a decepção causada pela Copa de 2018 sem brilho, Tite tinha como missão vencer a Copa América, fosse como fosse. Resolveu, então, dar uma bica no planejamento para o Mundial e garantir seu lugar sob o boné no Catar. Assim, convocou jogadores cascudos que, talvez, não cheguem em dezembro de 2022 (o evento foi transferido pela primeira vez para o fim do ano por causa das temperaturas desumanas do verão no Oriente Médio) em condições físicas, como Thiago Silva e Daniel Alves, dois dos três melhores jogadores da equipe na competição (o outro foi Gabriel Jesus, que, mesmo torto à direita, foi decisivo nas semifinais - talvez não tanto quanto a arbitragem - e na final - apesar da arbitragem). 
Com o cargo em risco e sem seu principal jogador, Neymar, o selecionador brasileiro gastou uma competição de importância secundária, na qual poderia, caso seu prestígio fosse o mesmo do pré-Copa da Rússia, fazer experimentos no ambiente de competição, que sempre é diferente de amistosos. Por isso, mudanças táticas foram quase inexistentes, e os nomes dos titulares, com exceção de David Neres, que realmente foi muito mal no jogo e meio em que atuou, só mudariam a partir do Departamento Médico. Obra do acaso ou da melhor distribuição em campo causada pelo fim das centralizações de jogadas em Neymar, o Brasil mostrou-se uma equipe mais sólida, embora pouco imaginativa por causa das opções táticas de Tite.   

A final com o digno time do Peru teve a cara do treinador brasileiro, assim como quase toda a competição: obediência tática, entrega e um ou outro brilhareco individual, o suficiente para conquistar o nono título da Copa América e manter a escrita de sempre vencê-la em território brasileiro, como já fizera em 1919, 1922, 1949 e 1989. Bonito ou não, pouco importa, como pouco será dito sobre a desastrosa arbitragem da decisão, que expulsou Gabriel Jesus sem motivo algum e marcou um pênalti  sobre Everton Cebolinha que nem Javier Castrilli marcaria. Mentira, aquele argentino desgraçado marcaria sim!

O Brasil abiscoitou todos os prêmios individuais: melhor goleiro (Alisson), artilheiro, melhor jogador da final (ambos para Everton Cebolinha) e craque da competição (Daniel Alves), e isso numa competição marcada pelo nível técnico nivelado por baixo, cujo grande jogo, entre Brasil e Argentina, não foi nenhum exemplo de partida para ficar na história. E olha que estamos falando de uma Copa América em que, exceto Neymar (que não fez a menor falta, diga-se), as seleções trouxeram seus craques (Sanchez e Vidal, pelo Chile; James com a Colômbia; os uruguaios Cavani e Suárez; e Messi). Ok, o Japão veio com o Sub-23 reforçado, mas também não é lá algo para se notar a ausência.


FEZ A LIMPA Todos os prêmios individuais ficaram com brasileiros, bem
como a taça de campeão e o troféu Fair Play (Foto: Mauro Pimentel/AFP)


O que interessa, de fato, é que o Brasil volta a conquistar algo relevante depois de quase 12 anos (o bicampeonato da Copa das Confederações não conta para uma seleção com tantos títulos) e Tite terá, enfim, fôlego para renovar a equipe que disputará a próxima Copa do Mundo, e também para corrigir o problema crônico de pouco criar contra times fechados. Para vencer na América do Sul foi suficiente; contra gente grande mesmo, são outros 500, mas seria muito rabugento de minha parte destacar isso poucas horas depois da conquista. De chato, basta o futebol da Seleção.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Para o gasto e sem o VAR, deu Brasil

BRILHANTE  Gabriel Jesus "renasceu" na Seleção (Foto: Eugenio Souza/AP)
Suficiente e letal. Assim pode ser considerada a atuação do Brasil na vitória sobre a Argentina, pelas semifinais da Copa América. Messi e Argentina fizeram seu melhor jogo na competição, o que não significa dizer que foram bem. 

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Da Albiceleste, o que dá para elogiar é a entrega, e só. Um catado de azul e branco, que não se armou para se defender porque não sabe e não atacou decentemente porque Messi não joga sozinho, e que tomou um gol patético, parando para pedir um pênalti (que não houve)* e com três jogadores desabando ao tentar tirar a bola de um Gabriel Jesus extenuado, quase se arrastando de cansaço. Ainda assim, o "time de Scaloni" acertou duas bolas na trave. 

Ainda sobre Messi: não se joga sozinho. Ele começa a jogada, passa a bola e o lance acaba. Contra uma defesa sólida, que não tomou sequer um gol no torneio, era preciso ter companheiros minimamente razoáveis, coisa que ele não tem.

Sobre o Brasil, uma partida com a cara de Tite: fria, calculista, sólido na defesa e com poucas chances de gol, mas com um aproveitamento exemplar. O Brasil fez um jogo burocrático, com Cebolinha e Arthur abaixo, mas com Gabriel Jesus brilhante (e sacrificado outra vez pela teimosia do treinador) e Daniel Alves fazendo uma partida gigante, de almanaque, de contar para os netos. Quiçá, a melhor exibição com a camisa da Seleção do jogador mais titulado da História do futebol.

Pode não ter sido vistoso, e não foi mesmo, mas jogos como estes não são feitos para que o brilho apareça, e sim a entrega, e, convenhamos, isso não faltou de parte a parte, quer pelo burocrático Brasil de Tite, quer pela tragicômica Argentina de ninguém. 

Enfim, um Brasil x Argentina raramente é um jogo excepcional e o Brasil teve o desempenho que se espera num jogo desses. Se pensarmos em atitude, todos foram brilhantes, pois não afinaram, não tiraram o pé. Assim, encaminhou uma vitória importantíssima.

**

*PS. "Una VARbaridad". Esta é a manchete do Diário Olé, o principal jornal de esportes argentino. Vi os lances reclamados pelos argentinos após o jogo, no programa Linha de Passe, da ESPN. Eles têm razão. Daniel Alves faz um pênalti gigantesco no início da jogada do segundo gol do Brasil, que não teria acontecido caso tivesse sido marcado. Messi poderia perder, poderia cair num buraco na hora da cobrança, poderia ter sofrido um enfarte, uma porção de coisas, mas o pênalti deveria ter sido marcado. Antes que falem em interpretação, não era para isso. Foi pênalti em todas as interpretações possíveis. O segundo, do Arthur no Otamendi, também foi, mas o placar já estava praticamente definido. O VAR é uma vergonha e foi desmoralizado porque o péssimo juiz central simplesmente não quis ver o vídeo. Se o VAR avisou que não houve nada de anormal, fechem as portas e abandonem o recurso. 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A quadradabilidade da Seleção de Tite

E AÍ, PROFESSOR? Time previsível pelas escolhas convencionais do treinador,
que passou de Midas a contestado (Foto: Juan Mabromata/AFP)
Um chute no gol em 100 minutos de jogo. UM CHUTE! Um Brasil burocrático e bagunçado, com um técnico previsível, com jogadores fora de posição e com muito o que explicar na coletiva. VAR (essa desgraça do futebol moderno) à parte, o Brasil não mereceu vencer a boa Venezuela, armada para se defender bem e que, com uma boa dose de coragem, poderia ter feito história em Salvador.

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Taticamente o Brasil se comportou bem sem a bola, com recomposição rápida e pressão no campo de ataque para recuperar a bola rapidamente. Mas o que fazer quando se tem a bola? Tite armou um time quadrado, com pouca movimentação e com jogadores em posição errada. Com pouco tempo para treinar, seria interessante aproveitar as características possíveis de serem aglutinadas, como o posicionamento de Roberto Firmino um pouco mais recuado, jogando atrás do outro atacante. 

Comparando com outra seleção só para aproximar as condições, Fernando Santos mudou o jeito de Portugal jogar durante a Eurocopa e também na Liga das Nações. A coincidência foi ter ganho ambas. Na Euro, Portugal empatou os três jogos na primeira fase, com direito ao maior número de finalizações e segunda posse de bola, mas com pouca efetividade. Na Liga das Nações, quando ele recuou Bernardo Silva e Gonçalo Guedes, Portugal voltou a ter a bola, mas com jogadores melhores pra isso.

Em ambos os casos, a qualidade do jogo apareceu nisso, e em direções opostas, mas guiado pelo que poderiam entregar em campo. Obviamente que não é o caso de o Brasil passe a jogar como na época de Dunga e volte a especular, pois não é esta a característica do nosso jogo, tampouco dos jogadores à disposição, mas, até aqui, Tite não se mostrou à vontade para modificar a forma de jogar. Contra a Vinotinto, fez três substituições: Richarlison por Gabriel Jesus, Casemiro por Fernandinho e David Neres rendido por Everton Cebolinha. Trocando em miúdos, três trocas simples, com jogadores com características parecidas para executarem a mesma função dos substituídos.

SEIS POR MEIA DÚZIA Alterações somente nos nomes, não na forma de jogar
Tite, durante a coletiva, disse que não dá para esperar que, na troca de volante por meia, as coisas mudem por um "passe de mágica" e que é preciso haver uma estrutura tática que propicie isso. Ora, qual o trabalho do treinador, que não este? Qual é a função do comandante, além de encontrar uma maneira de fazer o meio-campo, setor fundamental para quem tem a bola como o Brasil tem, organizar o jogo e fazer com que os atacantes sejam servidos, ou, em outra situação de jogo, fazer com que os espaços surjam contra equipes fechadas?

Não se trata do mítico “camisa 10”, esta instituição sumida no futebol brasileiro, e sim de fazer o negócio funcionar, o jogo fluir, os volantes aparecerem na frente.  Como na Copa, Tite se agarra às suas convicções. Coutinho vai mal, Casemiro vai mal, Tite vai mal.
Um chute no gol em 100 minutos, apesar da posse de bola de 70%, mas 37 cruzamentos na área, o que explica o meio-de-campo insosso. Se o frio torcedor paulistano que foi ao Morumbi não apoiou na estreia, em Salvador nem o "axé dos baianos" resolveu.