sábado, 28 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - O Mar Português do Campeonato Paulista

Foto: Ronaldo Barreto/NETLUSA


goleada sofrida no primeiro clássico neste retorno à elite desnuda, se é que ainda era preciso, uma série de limitações técnicas de um elenco montado às duras penas e sem as características desejadas no planejamento. As mesmas deficiências vistas da estreia, trocando em miúdos, o que faz com que a surpreendente vitória contra o Red Bull Bragantino, ainda mais pelo placar alcançado, mais pareça um ponto fora da curva do que propriamente uma amostra do que a Lusa pode fazer.

Não podemos nos iludir. Os objetivos têm que ser claros e não cair é o maior deles. Na melhor das hipóteses, terminar à frente de pelo menos três das seis equipes que não têm vaga assegurada na Série D do Brasileiro do ano que vem para poder trabalhar tendo um calendário nacional onde por o pé. Classificar às quartas-de-final é utópico, é um milagre.

Sem contar com a sorte de um gol de pênalti nos acréscimos ou um frango monumental no início do jogo, as coisas tendem a ser como são. E não são lá muito animadoras. Com pouco poder de investimento e tendo trabalhado timidamente nos bastidores para montar um elenco capaz de segurar o tranco na primeira divisão, é normal e aconselhável que a Lusa tenha um time para contra-atacar, qualquer que seja o adversário. Contra o São Paulo não seria diferente.

E funcionou até que bem no primeiro tempo, tanto que o gol sai em uma jogada de bola parada em que qualquer equipe está sujeita a sofrer. Antes disso, pouco foi permitido ao São Paulo. Até que veio o segundo tempo.

Temos que ser compreensivos com as limitações técnicas da equipe pelos motivos explicados há dois parágrafos. O que não dá para aceitar é apatia que resultou na facilidade para o David vencer a defesa como se fosse uma faca cortando um pastel de nata quente e passar a bola onde três ou quatro sujeitos desmarcados e mal-intencionados esperavam para arrematar sem maiores protestos com o gol vazio.

Dava para piorar? Claro que dava. Sempre dá. Pior que isso foi a inocência vista no lance do pênalti do terceiro gol tricolor. Seria inadmissível na Copinha ver dois jogadores batendo boca por uma saída de bola errada e, quando notaram, lá estava um gajo de camisa diferente da deles pronto para finalizar. Imagina em um jogo da primeira divisão? E se for em um clássico? E se for o clássico que marca o orgulho de voltar a disputar jogos desta envergadura sem ser contra times de juniores em competições semiamadoras como a Copa Paulista?

Ah, teve um golaço depois de um passe de almanaque do Daniel Costa para o Lucas Nathan. Seria legal se não houvesse acontecido o quarto tento, o da goleada, o do desespero de ver o que somos ao pé de equipes mais bem apetrechadas.

Se Fernando Pessoa nos mostrou que o sal do Mar Português são lágrimas de Portugal, não será doce a água do Campeonato Paulista. E nem tranquila. E para passar além do nosso Cabo Bojador, a alma não pode ser pequena. Assim como o espelho do mar é o céu, a alma dos torcedores é o norte de quem tem que evitar o abismo da queda. A mesma alma que fez a torcida cantar, pular e sofrer e, mesmo após o jogo, declarar seu amor à Portuguesa.

Ou então nem terá valido a pena.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - Sobre respeito, necessidade e pertencimento

Foto: Ronaldo Barreto/NETLUSA

Antes de qualquer coisa, é importante reconhecer que a gestão Castanheira tem um saldo positivo de proporções bíblicas e que, sem exagero algum, ajudou a devolver decência e dignidade à Portuguesa. Dito isto, ninguém está isento de críticas. Nem mesmo quem tanto já acertou – e isso nem precisava ser dito.

Muita tinta tem corrido desde que o clássico com o Corinthians foi levado para Brasília por 1 milhão de dinheiros para pagar as contas. Não há um consenso sobre o tema e muitas das reações dos torcedores foram negativas. Claro que existem os que concordaram, pois "não existe almoço grátis", "é preciso pagar as contas". Sim, sei de tudo isso, mas este jogo, especificamente, não poderia ser disputado longe do Canindé.

A nota oficial assinada pelo presidente Antonio Carlos Castanheira, então, atribuindo a decisão à falta da presença maciça dos que vestem verde e vermelho nos jogos ou a baixa adesão ao Sócio-Torcedor é pouco lisonjeira, sendo simpático, a quem tanto fez e faz pela Lusa.

Além do aspecto técnico, o financeiro é importante – e isso é tão óbvio quanto afirmar que quem fizer mais golos vencerá – mas não pode estar acima do sentimento do torcedor. Fosse uma temporada qualquer, seria somente um jogo em que a possibilidade da casa cheia de torcedores rivais seria um remédio amargo, mas necessário, como em tantas vezes.

Mas, caraças! Foram quase oito anos longe de qualquer vestígio de futebol de elite. E justamente quando há um clássico com o rival de quem dá mais prazer de vencer, levam o raio do jogo para Brasília? Negar esta experiência ao torcedor, aquele que mantém o clube respirando e que não lhe virou as costas no pior momento da centenária história lusa, é de uma infelicidade enorme, para dizer o mínimo.

Na temporada 2013, a Portuguesa vendeu dois mandos de campo no fatídico Brasileirão: contra o Corinthians e contra o Flamengo. Na época, tanto quanto hoje, era preciso vender o almoço para pagar a janta, mas eram tempos em que os clássicos em casa eram normais. Não são raros os torcedores da Portuguesa que nunca viram um jogo contra Corinthians, Palmeiras, São Paulo ou Santos no Canindé. Uma vitória, então, é preciso recuar até a 26ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2013 (um baile de 3 a 0 sobre o Santos). Pelo Paulistão, o viratempo tem que rodar mais, muito mais, e transportar o torcedor ao ano de 2001 (1 a 0 sobre o São Paulo).

DOIS MIL E UM! São impensáveis duas décadas. Se por um lado essa informação dá munição para quem acha que a questão técnica não pesa e o Corinthians seria o favorito no Canindé, em Brasília, no Pacaembu ou na Lua (e seria mesmo), por outro, um dos pilares que sustentam o ato de torcer por um time de futebol que não é lá muito habituado a glórias em campo é a sensação de pertencimento. Tire-nos isso e quase nada nos restará.

Voltando quatro parágrafos, a grana é necessária para que não só o funcionamento do clube seja viabilizado, mas sua própria existência. No entanto, como apontou aqui mesmo no NetLusa o Antonio Carlos Zorzi, se essa quantia – que é considerável, mas que não resolverá a vida de ninguém – é imprescindível, em algum momento, o planejamento financeiro para participar da elite foi falho. Quando o clube se converter em SAF, de nada adiantará um eventual aporte se quem determina onde e como será usado, errar.

Como também apontou o Zorzi com a habitual precisão de suas linhas, a Portuguesa só existe ainda porque tem uma torcida apaixonada e que nunca a largou, mesmo com todos os motivos do mundo para isso.

Não é assim que se trata quem te ama.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - Vox populi, vox Dei

Foto: Ronaldo Barreto/NETLUSA

Quando começa uma competição, qualquer uma, é necessário um tempo para que o time comece a entrar no ritmo de competição. Se for combinado com o início de um novo projeto, então, também demanda tempo para que as ideias do treinador, qualquer um, comecem a ser assimiladas pelo elenco.

Já falei aqui, mas não me canso de repetir: ao cabo, o resultado raramente foge à dependência de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo. Sem isso, o projeto vira passageiro da própria sorte e do clamor vindo das arquibancadas, reais ou virtuais, que têm, como único compromisso, amar o clube. Se especialistas fôssemos, afinal, estaríamos nos gabinetes da diretoria, e não do lado de fora do alambrado.

É a regra. E toda regra tem sua exceção.

Desde o início da temporada, a torcida a Lusa tem apoiado o time durante os noventa e poucos minutos de cada contenda. As críticas são deixadas para o intervalo ou para o fim da partida, como as endereçadas ao presidente Castanheira pela venda do mando no clássico com o Corinthians, assunto que será abordado de forma pouco aconselhável (com grande chance de levar porrada dos dois lados) nesta coluna, mas vamos a isto quando tivermos que ir.

Desde o início da temporada, são raros os torcedores que não têm pedido Marzagão e Paraizo no time titular. Não é de se estranhar, pois o volante reúne tudo o que um torcedor quer em campo, além de saber jogar à bola: ele dá tudo o que tem. Já o menino da base é a esperança de dias melhores. E foi com os dois em campo – um por escolha do treinador e o outro, ao substituir o titular que saiu contundido – que a Lusa conquistou sua primeira vitória na elite do estadual depois de muito tempo ou 10 jogos, contando a desgraceira que foi a segunda metade do Paulista de 2015 e que culminou com o rebaixamento.

A decisão e o ônus dela cabem a quem é chamado de burro quando erra e não é reconhecido como inteligente quando acerta. Ou alguém aqui já ouviu algum coro de “Inteligente! Inteligente!”, quando o reserva que entrou faz o gol da vitória? Da mesma forma, quase ninguém queria o Pará e ele foi o melhor em campo.

A única regra é não haver regra. Mesmo acertos e erros o são por causa de nada. O que diferencia um do outro muitas vezes – ou quase sempre – é um detalhe indomável, um golpe de sorte.

Colocou o garoto que cansou de fazer gols no Sub-20, mas ainda virgem do orgasmo das redes no profissional? “Deveria ter colocado antes.” Meteu lá o Marzagão? “Mas só porque o outro se machucou.” “Burro com sorte”, diria o Levir Culpi.

É assim desde 1920 e sempre será. Mas é bom que se saiba que o estádio tem alma, tem coração. E pulsa. E erra. E acerta.

E é bom ouvir.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - A sorte e o bolinho de bacalhau


Divulgação/Portuguesa

jogo 2/12 da Lusa no Paulistão foi bem melhor que a desastrosa estreia. Não que tenha sido animadora, mas a atuação em Itu contra um adversário que costumeiramente nos causa problemas até em boa fase tirou um pouco da sensação de desalento que ficou do embate com os de Ribeirão Preto.

Ok, pouco é mais que nada, é verdade, mas vimos no campo do Novelli Jr. um time mais atento, mais organizado e mais disposto a tentar algo mais que torcer pelo Thomazella. E com um bocado de sorte. Sem ela não se chupa nem um Chicabon, ensinou Nelson Rodrigues. Troque o famoso sorvete por algo mais nosso e pronto! Sem sorte, não se come nem um bolinho de bacalhau. Vai que uma espinha para atravessada onde não deve. No nosso caso, a espinha é um pênalti mal marcado contra e a sorte é ele ser bisonhamente desperdiçado. Ter outro a favor, já nos acréscimos, quando tudo levava a crer que seguiríamos sem pontuar, então, é praticamente uma dádiva, um milagre.

Como a essa hora do dia quem lê essas linhas já deve ter tido acesso a textos melhores que este sobre o desenrolar do jogo, fiquemos na parte conceitual. Não dá para jogar por uma bola se não tivermos uma referência para segurar defensores adversários e criar algum espaço para os pés pensantes de Lucas Natan ou Daniel Costa e para as boas chegadas à frente de Gustavo Bochecha. Não sei se colocar o garoto Paraizo na berlinda agora é o melhor a se fazer, mas sem ele, que entrou mal pra dedéu no jogo, estaríamos agora falando de duas derrotas para dois adversários que nem de longe jogaram o que podem.

Outro que errou mais que acertou foi Daniel Costa, de longe o jogador com melhor repertório técnico que temos à disposição. O problema é que nosso jogo será cada vez mais o de contra-ataque, ou reativo, como a molecada fluente no Tatiquês gosta de falar. E isso nos obriga a ser mais efetivos quando tivermos chances de contragolpear. Se não para marcar, ao menos para deixar recados aos adversários e desencorajá-los a nos atacar sem maiores preocupações.

Este ponto pode ser, e espero que seja, essencial para nos manter na Série A1 para o próximo ano. É importante parar de bater e voltar para a viabilidade do futebol lusitano. E é bom não contar tanto assim com a sorte.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

PORTUGUESA - Sobre calvário e tenacidade

Divulgação/Portuguesa

Segundo o dicionário online Michaelis, a definição de tenacidade é a seguinte: “Substantivo feminino; qualidade ou característica do que é tenaz ou difícil de partir.” No sentido figurado, que é o que interessa a esta coluna, tenacidade é “persistência muito forte; perseverança” ou, na Física, é a “capacidade de metais ou ligas de suportar grande pressão sem partir-se”. Num Português claro, é a capacidade de levar pancada sem quebrar.

O retorno da Portuguesa à Série A1 do Campeonato Paulista será mais uma prova de resistência e tenacidade do torcedor rubro-verde e da diretoria de futebol. Sem um calendário nacional no segundo semestre como atrativo e, principalmente, capacidade de investimento reduzida, a Lusa conseguiu montar um elenco, digamos, limitado – para ser simpático.

A primeira mostra do calvário que espera quem esperou por sete anos para retornar à elite estadual foi a estreia com o Botafogo, em casa. Pior que a derrota, a falta de argumentos para discutir um placar favorável foi desalentadora.

A Pantera tem um trabalho mais evoluído e acabou de subir à Série B do Campeonato Brasileiro. A Lusa, do contrário, estreava 14 reforços, tinha todo o meio de campo do ano passado no banco e ainda cometeu erros que poderão ser fatais ao cabo do certame. Fora de campo, a troca da comissão técnica que vinha da conquista da Série A2 e a saída de jogadores que, até o momento, não tiveram substitutos à altura, como os atacantes Caio Mancha e Gustavo França. Dentro de campo, um time apático, cuja sensação que passou é que os jogadores foram apresentados no vestiário, momentos antes do jogo.

Jogo coletivo que é, o futebol demanda tempo para treinamento, condições para implementação das ideias de jogo e investimento para trazer os jogadores cujas características sejam as mais próximas do ideal para absorverem em menos tempo o que é chamado de “filosofia de trabalho”. Quando as coisas vão mal, a tendência é trocar tudo – e isso acontece em todos os clubes. Aí troca-se a comissão técnica por outra que esteja dando sopa no momento porque é preciso dar uma resposta rápida. E todo o início deste parágrafo, sobre jogo coletivo, vai pra casa do chapéu.

A torcida, ao menos ela, demonstrou estar com o time, como tem feito ao longo destes penosos anos desde… bom, nem é preciso repetir aqui o início da queda livre. Mas, tanto aqui como em outros lugares e porque não somo0s diferentes de ninguém neste sentido, o apoio dependerá mais do que o time (dentro de campo) e a direção (fora dele) oferecerem do que qualquer outra coisa.

Se tiramos pelo que vimos na estreia, não vai durar.

Texto originalmente publicado no NETLUSA