*Por Humberto Pereira da Silva
Datado de 2019 e ainda vigente, o Protocolo do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) preconiza em sua página 3 a "mínima interferência - máximo benefício". Para quem quiser, está aqui, a dois cliques de distância. O fluxograma abaixo é bem explicativo:
Notem que a orientação é a de que o VAR só irá agir em caso de erro claro e evidente. Funcionaria caso o futebol não fosse um esporte em que a subjetividade está presente em inúmeras situações. Fluxograma 1 - Manual de Árbitros Assistentes de Vídeo – VAR (CBF)
Por si só, isto já traz inúmeras distorções, proporcionando um magnífico contorcionismo argumentativo da parte de quem defenderá ou não a interferência. Afinal, como definir que determinada jogada trata-se de um "erro claro"?
Em seu Dando Tratos À Bola, Hilário Franco Junior nos lembra que o futebol é um jogo. Segundo a etimologia, jogo vem do termo do latim jocus, que também é divertimento ou brincadeira - ou "zombaria, desdém, algo jocoso, não sério".
O VAR, ironias do destino, serviria pra evitar decisões injustas no futebol, quando ao olho humano é impossível, por exemplo, a certeza de que um jogador estaria ou não em impedimento, situação na qual não existe subjetividade. Neste caso, porém, não raro a paralaxe pode interferir, mas estatisticamente é inexpressivo.
A ferramenta, no entanto, revela o quanto pra qualquer iniciativa de se evitar favorecimento ou prejuízo a uma equipa e os condicionantes para uma decisão se multiplicam. Numa alusão indevida ao filósofo Guilherme D'Occam, os demônios se multiplicam.
Um leve resvalão dentro da área e a absoluta impossibilidade de saber o quanto foi suficiente para uma queda. Tem-se então um efeito em cadeia: quem cai se contorce como se tivesse uma fratura exposta, pressão no árbitro e um jogo de transferências para uma decisão final que acaba na cabine do VAR. Quando não, então eis o alimento pra movimentar toda sorte de discussão em que, ao fim e ao cabo, se beneficia até quem patrocina um canal de YouTube...
Bill Shankly (1913-1981), lendário treinador do Liverpool, disse que "o problema dos árbitros é que eles conhecem as regras, mas não conhecem o jogo", ideia compartilhada pelo ex-árbitro Sandro Meira Ricci.
Enfim, o futebol em campo e fora dele o VAR garante que o show continua.
*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
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