quarta-feira, 27 de maio de 2015

Teje preso

O dia 27 de maio tem tudo para ser uma data histórica para o futebol mundial. Não por causa de alguma conquista em campo ou algum gol digno de um Pelé, um Moreno, um Lostau ou um Dener. Neste dia, o FBI prendeu, em um hotel de Zurique, às vésperas da eleição da FIFA, que deve prorrogar o reinado de Joseph Blatter, alguns dos figurões do submundo do futebol, entre eles José Maria Marin, o controverso ex-presidente e atual vice de Marco Polo Del Nero na CBF.

O ex-presidente José Maria Marin, detido em Zurique (Foto: Ricardo Stuckert/CBF)
Se nos gramados as potências são países com vasto histórico de craques e conquistas, abaixo deles, às sombras, quem dá as cartas são membros de países minúsculos e insignificantes (mas com direito a voto), como as Ilhas Caiman, do atual presidente da Concacaf Jeffrey Webb (outro que está ameaçado de ver o sol nascer quadrado), e Trinidad e Tobago, do ex-secretário-geral da mesma entidade, Jack Warner, atolado até o pescoço (e com os filhos) nas maracutaias envolvendo venda de ingressos e pacotes promocionais.

No território autônomo da FIFA, esse minúsculo país situado em Zurique, algumas moedas sustentam poder e longevidade: venda de ingressos, de pacotes de hospitalidade (aqueles com diárias de hotéis, translado até os estádios e ingressos) dos direitos de TV, organização de campeonatos de diversas categorias (o que dá acesso irrestrito aos cofres públicos dos países que têm a "felicidade" de gastar aos borbotões, mesmo não tendo dinheiro nem para saneamento básico) e uso das marcas registradas pela entidade.

Pelos direitos de comercialização da transmissão, segundo o jornalista escocês Andrew Jennings (o único jornalista do mundo previamente barrado nos eventos que a FIFA organiza), a dupla Havelange e Teixeira fez fortuna através de propina. Foi o propinoduto que chegava às contas de sogro e genro que, ainda segundo o britânico, levou a ISL, parceira da FIFA e detentora dos tais direitos de TV, à bancarrota. Propina, aliás, que entrava como comissão e não era proibida pelas bondosas leis suíças. Não por acaso, FIFA e COI têm sede naquele país. 

Outra fonte de renda, esta mais democrática, já que está ao alcance de todos os membros votantes do Comitê Executivo, é a venda do voto na eleição do país-sede. A candidatura inglesa para 2018 naufragou graças à BBC, e a Jennings, que pegaram no pulo alguns "vendedores de convicção" que negociavam seus votos com jornalistas que se passaram por intermediários. Esses membros do Comitê Executivo foram severamente punidos, não pelo ato em si, e sim por terem sido descobertos.

Por muito tempo, alguns membros, sobretudo de países como Camarões e Nigéria, foram parceiros de delito dos posseiros de Zurique, nomeadamente Havelange e Blatter. Quando quiseram, em vez das rebarbas, o filé mignon, foram expulsos do clube, sob alegação de corrupção. Viraram bode-expiatório e exemplos do que aconteceria com que se atrevesse a querer um quinhão maior das benesses da bola.

O FBI esperou pela eleição da entidade máxima do futebol para pegar todos de uma só vez, na surdina, na moita. E conseguiu. No entanto, trata-se de gente muito poderosa (e perigosa na mesma proporção). Ainda não seria de se estranhar se conseguirem se livrar. O chefe do bando, mesmo, não está entre os presos. Fosse um órgão minimamente decente, a eleição já estaria cancelada até segunda ordem, mas se minimamente decente fosse, a ação da polícia americana não teria sido necessária. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Empáfia soberana

por Leandro Marçal*

“Se for fazer de má vontade, nem faça”.

Dona Enivea, minha mãe, costumava me dizer esta frase quando me pedia algum favor. Como boa são paulina que é, tenho certeza que ela diria algo semelhante ao elenco tricolor, caso estivesse em uma preleção: “Se for pra entrar em campo de má vontade, nem subam para o gramado”.

Eu, normalmente, realizava a tarefa doméstica pedida sem vontade. Coisa de filho. Da mesma forma com que o catado do Morumbi joga – ao qual me recuso até mesmo de citar nomes, tamanha falta de dignidade e respeito à camisa neste ano.

Se um marciano caísse em nosso planeta, agora, sem o mínimo conhecimento de como as coisas funcionam por aqui, e assistisse a um jogo do bando que veste a camisa do São Paulo, pensaria que ser jogador de futebol profissional em clube de Primeira Divisão fosse um tormento.

Pato e PH Ganso: símbolos de um time 
sem alma (Rubens Chiri/saopaulofc.net)
Imaginaria que jogar futebol é um suplício, um castigo aplicado como punição a quem cometeu algum crime grave, tamanha a má vontade com que o time entra em campo.

Táticas, pranchetas, comentários de especialistas, calendário apertado... Nada justifica ou explica a nítida falta de vontade de um bom elenco.

Muricy, Sabella, Luxemburgo, Abel, Jesus Cristo. Nenhum técnico resolve sozinho o problema da falta de dignidade e excesso de apatia.

Enquanto corintianos choravam em campo após a eliminação no "paulistinha", a cada tropeço patético o que parece é que nada saiu do planejado e vamos superar isso a hora que quisermos.

Por 15 mil mensais, garanto que eu e mais 10 amigos entraríamos em campo com o dobro de vontade, vestindo a camisa gigante desse clube, que economizaria uma bela grana por um desempenho técnico pouco pior do que o atual.

De vergonha em vergonha, a torcida enche o saco. E nós já sabemos que esse tipo de filme não costuma ter um final feliz...

*Leandro Marçal é um jornalista de 24 anos, torce pelo tricolor paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor, embora esteja
um tanto zangado com o seu Tricolor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Vambora, Jovem Pan

Dispensa legenda (Foto: Alvaro Aiose Junior)
Na semana passada fui à Jovem Pan. O presidente da Portuguesa de Desportos, Jorge Manuel Marques Gonçalves, iria participar do programa Esporte em Discussão. Casa cheia! Flávio Prado, Wanderley Nogueira, Luís Carlos Quartarollo, Nilson César, Claudio Carsughi

O programa seguiu como sempre. Não é um bom exemplo de organização, como também não era o Mesa Redonda nos tempos áureos, com Milton Peruzzi, José Italiano e Peirão de Castro, e notei que, nos momentos mais exaltados da deliciosa discussão, a voz do mestre Carsughi mal se fazia ouvir. No entanto, quando falava, ninguém interrompia.

Ao fim do programa, cumprimentei todos os contendores com o respeito e a admiração de quem cresceu ao som do rádio AM e resolveu ser jornalista também por isso. Quando apertei a mão do italiano de Arezzo, porém, a emoção foi outra, que se aproximou mais da reverência ao mestre do que simples admiração.

Quando nos preparávamos para irmos embora, parei para ver Carsughi pegar o elevador. Algo trivial, não fosse por um detalhe: quando fiz um curso de jornalismo esportivo no mesmo prédio, há coisa de uns cinco ou seis anos, vi a mesma cena. Quando fui dar uma Palestra no mesmo edifício Sir Winston Churchill, onde também fica a sede da Aceesp, no ano passado, lá estava o velho jornalista, outra vez, na Pan, sua casa há quase 60 anos.

Ontem, como todo mundo, fui pego de surpresa pela sua demissão. Como assim? Como demitem o Carsughi? De pronto, me lembrei da saída do Fernando Solera da Gazeta e do Gertel, histórico repórter da Rádio Bandeirantes. Bandeiras apeadas abruptamente.
Estamos perdendo o norte, a referência, e sem referências não somos nada.

domingo, 12 de abril de 2015

Questão de sobrevivência

No final de semana dos jogos das quartas-de-final do Campeonato Paulista, a Globo resolveu mudar sua grade de programação para acomodar o jogo do Corinthians. Com isso, o futebol passou do domingo, dia tradicional de transmissões ludopédicas na TV Plim-Plim, para o sábado, já que o jogo do dia que abre a semana era o do Santos. A atitude dos executivos da posseira do futebol brasileiro mostra que, haja o que houver, apenas o clube do Itaquerão lhes inspira interesse.

Montagem encontrada na internet
Este blogue, é bom deixar claro, não é contra uma empresa lucrar, tampouco tem uma queda rasa pelo romantismo no futebol. Isto é capitalismo e até a China "comunista" sabe disso. A questão é outra: a TV não é entidade filantrópica, mas é uma concessão pública. Tudo bem que neste prostíbulo que chamamos de Brasil, não quer dizer muita coisa, já que, por lei, as concessões de teledifusão não poderiam ser entregues a políticos ou grupos ligados a eles, e sabemos que não é bem assim que a banda toca. Ainda assim, é uma concessão e deve (ou deveria) seguir regras.

Ora, o futebol é um patrimônio cultural e imaterial do país, e, embora quase ninguém leve isso em consideração, o seu dono é o próprio Brasil. Como acontece com toda concessão, seja de rodovias ou recursos naturais, quem quer ganhar dinheiro com ele tem que dar uma contrapartida. OU alguém acha que a Petrobrás investe em cultura só porque acha bonito?

Qualquer emissora que detém os direitos de transmitir o futebol deveria dar espaço a todos os times na sua grade de programação. Obviamente, quem garante um maior retorno deve ter um espaço maior e não há pecado algum nisso. O que não pode é um clube ter 30 jogos na TV aberta, ou em canais pagos, mas com sinal aberto para seus assinantes, e outros só passarem no pay-per-view. Do jeito que está, aumenta a disparidade entre os times, e quem perde é o próprio esporte.

Senão, vejamos: mais torcedores - maior audiência - mais espaço na TV - melhores contratos de patrocínio - melhores jogadores - títulos - mais torcedores - maior audiência - mais espaço na TV - melhores contratos de patrocínio - melhores jogadores - títulos - mais torcedores... E temos uma bola de neve que esmaga equipes não agraciadas com tais benesses. 

Assim, o fim das atividades de União São João e XV de Jaú não são casos isolados. Claro que a má gestão é responsável por uma parcela significativa para explicar o ocaso destes distintivos, mas não é a única causa. A Alemanha, que acabou de ser campeã aqui, no nosso quintal, passou por um tratamento de choque que revirou completamente o futebol no país. Em todo o país. E em todos os níveis. Com o objetivo de reestruturar o esporte a partir do fortalecimento do campeonato nacional, e, consequentemente, dos clubes, medidas importantes foram tomadas, como, por exemplo, permitir que estes distintivos andem com as próprias pernas, sob o comprometimento de investir nas categorias de base.
Equipe de Araras, que foi o primeiro clube-empresa do país e revelou
Roberto Carlos para o futebol, encerrou suas atividades
Desta forma, todas as equipes passaram a ter, uns mais, outros menos, espaço na mídia e direito a uma cota de TV decente. Times mais atraentes, como Bayern e Dortmund, ganham mais, é óbvio, mas até nanicos como Paderborn e St. Pauli têm jogos na grade de TV, que é vendida para todo o mundo. Transmissões via PPV não contam, pois, para os departamentos de marketing, têm o mesmo efeito de colocar um outdoor dentro da casa do seu torcedor, que já conhece o produto e os seus parceiros. Além do mais, ninguém vai desembolsar um puto para  ver jogo de um time para o qual não torce. E voilà! 7 a 1 não foi acidente!

Pior derrota do Brasil em Copas não foi acidente (Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM)
Mudar o status quo não vai, definitivamente, fazer Criciúma ou Ponte Preta, ou Portuguesa, serem campeões brasileiros, mas vai viabilizar a existência (sem prostituir sua camisa) de emblemas médios ou pequenos. Não é filantropia; é a sobrevivência do próprio futebol brasileiro.        

segunda-feira, 16 de março de 2015

Eu também vou reclamar


Em 1976, o grande Raul Seixas satirizou a onda de músicas de protesto ao gravar “Eu Também Vou Reclamar”, faixa no histórico álbum Há Dez Mil Anos Atrás. Segundo ele mesmo, foi o primeiro a reclamar, já havia passado tanto janeiro e, se todos gostavam, ele também iria voltar.

Mais janeiros ficaram pelo caminho – 39, para ser mais exato – e o ato de ralhar voltou à baila no ano passado, na onda dos 20 centavos (que acabou virando mero chororô da estudantada, para ficar no neologismo), no panelaço do dia 08 de março, chamado de uma forma nada carinhosa de “varandas gourmets”, de acordo com pessoas simpáticas ao governo, e o ato deste domingo, dia 15, que reuniu milhões de pessoas em diversas capitais e em algumas das cidades mais importantes do Brasil.

Como Raulzito, “já que todos gostam”, eu também vou reclamar:

Meu protesto é contra quem acha que a corrupção foi inventada pelo PT. Não é uma questão de sigla, se é PT, PSDB ou a PQP. Está na prática tupiniquim de se fazer política, o “toma-lá-dá-cá”.  

Meu protesto é contra o inchaço da máquina administrativa para acomodar os aliados, companheiros e novos amigos de infância, em nome da governabilidade; é contra a sanha arrecadatória necessária para lubrificar a máquina. É contra o empresário que reclama dos impostos cobrados, mas não quer diminuir a margem de lucro.

Meu protesto é contra sistema que permite a um grande partido que apoie o governo (qualquer um) para, dado a sua representatividade nas casas legislativas (Câmara e Senado), abiscoitar os principais ministérios e os cargos estratégicos nas estatais, que é onde o erário está mais à mão.
   
Meu protesto é contra o desesperador grau de desinformação de quem defende uma intervenção militar. Quem conhece a história política recente do Brasil sabe que a corrupção endêmica que hoje nos assola teve muito de sua sedimentação nas décadas de 60 e 70, quando as empreiteiras nadavam de braçada e não era possível noticiar, pois a imprensa era cerceada.

Meu protesto é contra quem, em nome de meros indícios, quer desopilar o fígado e defenestrar a presidente. Querer a saída na marra de um governo eleito democraticamente é fomentar a ideia de um golpe de Estado. Mesmo que esteja previsto na Constituição, o impedimento só tem cabimento quando uma série de passos é dado, entre os quais a prova do envolvimento direto ou indireto do mandatário.

Meu protesto é contra quem chama de golpista quem quer o impeachment, mas não fez o mesmo juízo quando o presidente era Fernando Henrique Cardoso. Da mesma forma, é contra quem, de saída, responsabiliza a mandatária maior da nação, mas não cobra sequer uma investigação quando o acusado não é do Partido dos Trabalhadores.

Meu protesto é contra quem admite que uma arbitragem seja favorável ao seu time, mas quer matar quando o árbitro marca, mesmo que corretamente, contra o seu. Parece bobagem, mas quem defende valores tão questionáveis leva isso para outros setores, pois o caráter, bom ou mau, é o mesmo.

O problema, pois, é cultural, é de berço, de (falta de) retidão de caráter. O cidadão que aceita qualquer calhordice que o favoreça, despe-se da moral. É vil, é desprezível. Um miserável que mendiga por favores, por benesses, mesmo que seja à margem da lei e em todos os níveis, desde o cafezinho para o guarda à propina do fiscal.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Matamos

Por Leandro Marçal*

Matamos porque roubamos. Matamos porque reagiram. Matamos porque não reagiram. Matamos porque eles não tinham. 

Matamos porque torcemos. Matamos porque eles torcem. Matamos porque não torcemos pelos mesmos. Matamos porque brigamos.

Matamos porque policiamos, servimos e protegemos.

Matamos porque governamos, matamos porque temos poder, matamos porque corrompemos.

Matamos porque cremos. Matamos porque eles creem. Matamos porque eles não creem. Matamos porque eles creem diferente de nós.

Matamos porque discutimos, porque passamos do ponto, porque dirigimos e não levamos desaforo pra casa.

Matamos porque odiamos.

Ah, às vezes matamos até quando amamos.

Matamos enquanto trabalhamos, enquanto estudamos, enquanto nos divertimos, enquanto bebemos, no momento em que nos drogamos.
Matamos porque negligenciamos.

Matamos porque queremos, porque podemos.

Principalmente porque não pensamos.

Mais ainda porque não somos humanos.

Matamos porque...

Matamos por quê?

Matamos por quem?

Matamos até quando?

*Leandro Marçal é um jornalista de 23 anos, torce pelo tricolor paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O suicídio do Jornalismo

Capa do jornal carioca do dia 09 de janeiro.
Periódico cortou 160 pessoas, 30 delas da redação

No mesmo dia em que O Globo chamou o abominável ataque aoCharlie Hebdo de "ataque à liberdade de expressão", anunciou a demissão de 160 pessoas do seu quadro de colaboradores. O Estado de Minas também ceifou dez profissionais. A editora Abril fecha revistas e entrega parte da sede.

Não foi o ataque extremista em Paris que feriu o Jornalismo, mas ele próprio se mutila dia a dia. Quando faz coberturas superficiais, o Jornalismo morre um pouco; quando aceita a pressão de grupos políticos ou anunciantes, o Jornalismo morre um pouco.

O jornalista Jorge Kajuru, que perdeu o emprego na Band por ter feito críticas
ao governo de Minas Gerais às vésperas de um Brasil x Argentina, em 2004
Quando entretém em vez de informar, o Jornalismo morre um pouco; quando um veículo cria um título dúbio para obter mais acessos, o Jornalismo morre um pouco. 

Quando o jornalista mostra-se preconceituoso, o Jornalismo morre um pouco; quando o aspirante a foca entra na faculdade para fazer o curso só porque gosta de futebol, o Jornalismo agoniza.

O Jornalismo de verdade, não essa coisa que é praticada por aí, dá voz a quem não tem; dá vez a quem dela precisa; é instrumento de justiça, não da justiça ou de justiçamento; é o enfrentamento da censura de onde quer que ela venha. É sacerdócio. É renúncia. É praticamente um franciscanismo, um voto de pobreza no qual se despe da vaidade pessoal pelo bem coletivo.

O Jornalismo morre porque nos falta paixão e nos sobra vaidade. O Jornalismo morre porque não damos a ele a importância que deveria ter, tampouco a dignidade que merece. Uma pátria que se diz educadora, mas não respeita seus professores, está doente, definha. E o Jornalismo sucumbe com ela.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O dilema de Tostines e as eleições no Brasil


Estive conversando durante a semana com o jornalista Luis Simon, o Menon, sobre o pleito deste mês de outubro e, entre tantas observações, ele me disse que o Brasil é uma jovem democracia.

O que me assusta é que, baseado no que estamos assistindo e lendo, o eleitor brasileiro tem piorado com o passar dos anos e com as eleições (se eu não estiver equivocado, esta é a sétima eleição direta para presidente desde o fim do regime militar). A prova é o nível da campanha eleitoral em curso.

Fica o dilema de Tostines, mas em vez se perguntar se "vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais", a questão é se os candidatos são ruins porque o eleitor não é exigente ou se o eleitor não é exigente porque os candidatos são ruins.

 

Assim como no primeiro turno, a campanha é baseada na desconstrução do adversário. É o clássico Nhô Ruim x Nhô Pior. "Ah, o candidato me acusa disso, mas o partido dele fez isso e isso" é o que se tem de um lado. "A senhora está faltando com a verdade, candidata", é a resposta do outro. Propostas? Para quê, se o povo não se importa? 

Tratam a disputa como uma guerra entre torcidas organizadas, que respinga nas redes sociais e transforma parte do seu eleitorado em ignorantes e barulhentos ativistas sem informação e, por consequência, sem argumentos. O tom usado pelos candidatos, pelas siglas e pelos militantes de última hora faz uma briga de reunião de condomínio parecer com crianças mostrando a língua através do vidro traseiro do carro. 





Ao candidato da oposição, a missão fica mais fácil, pois é só apontar os deslizes de quem ocupa o cargo. Se fosse o contrário, seria assim também (como foi em 2001). 

No fim das contas, questões importantes ficam de fora do debate. Reforma política? Esquece. Se quiser, é só reeleição. O resto fica de fora. PMDB? Que importância tem?

É a velha briga do mar contra o rochedo, em que o marisco leva a pior. Só que o marisco, no caso, é o povo.


*Imagens extraídas da internet

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O 7 a 1 eleitoral

Por Leandro Marçal*

Não importa se a escolha da maioria no próximo dia 26 seja uma "petralha/corruPTa/comuna" ou um "tucanalha/coxinha/reaça" para ocupar a presidência do país. Nós todos já perdemos as eleições. E de goleada.

O primeiro e segundo gols saem quando alguns autointitulados "esclarecidos" e "inteligentes" desrespeitam os que optaram por outra escolha, que exerceram seu direito de ter outra opinião. Logo em seguida, pipocam links, sites e vídeos disseminando o ódio e a intolerância com os que ousam pensar diferente – sejam eles nordestinos ou paulistas. O que importa é menosprezar aqueles que pensam de forma diferente.


Quando nos damos conta de que há uma suposta preocupação com a política e os rumos do Brasil apenas no mês de eleições e ainda assim com o único propósito de conseguir likes e compartilhamentos no Facebook, já está 3 a 0 para eles. Tudo isso num frango coletivo, quando muitos se atrapalham e repetem discursos sem saber o motivo


Quarto gol! Temos no dia a dia uma conduta individualista, egoísta e retrógrada. Brigamos no trânsito, nos estádios, nas baladas. Agredimos os que pensam de outro jeito ou têm outra opção sexual. Por vezes, discriminamos os que têm uma cor de pele diferente da nossa. Ainda assim, a culpa é apenas do governo.

O 5 a 0 sai logo na sequência, quando temos um congresso estúpido e vergonhoso. Os que nos “representam” são despreparados, com más intenções, intolerantes e olham apenas para o próprio umbigo – qualquer semelhança com o seu dia a dia não é mera coincidência. Elegemos aberrações que nos causam um prejuízo bilionário ano a ano para pouco (ou nada) fazer por nós mesmos.

Seis, sete. Hashtags estúpidas, debates rasos, argumentos inexistentes, como se política fosse arquibancada de um estádio de futebol. Intolerância e desrespeito ao que chamamos de democracia. Um verdadeiro chocolate. Oportunismo, manipulação, Empreiteiras, banqueiros, fanáticos dando o tom das campanhas fecham a goleada massacrante.


Talvez o gol de honra seja a liberdade que temos para escolher em quem votar, mas não faz a menor diferença, pois não importa quem vença do lado de lá, nós já perdemos do lado de cá. 

E assim segue o jogo...

*Leandro Marçal é um jornalista de 23 anos, torce pelo tricolor paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O futebol faz mal ao Brasil

*por Fabio Venturini

Sempre defendi que essa ideia de que o futebol é desimportante, por isso um mundo separado, é conversa para boi dormir. O futebol é dialético com todos os demais momentos e lugares de nossas vidas. Ele é reflexo do que pensamos assim como molda o nosso pensamento, seja na condição de jogador, torcedor, peladeiro, árbitro, juiz do STJD etc.

Esta semana particularmente chamou-me  a atenção três momentos. Relendo Paulo Freire me aparece um trecho memorável de Pedagogia do Oprimido:

“Não haveria oprimidos se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão. Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que oprimem como outro.”

Freire descreve longamente uma dinâmica em que o opressor responsabiliza o oprimido pelas violências e injustiças a que são submetidos. Nos intervalos da leitura, tive a (in) felicidade de ver um jogo daqueles eletrizantes do campeonato inglês, Manchester City x Chelsea.

No desenrolar da partida, o zagueiro Zabaleta, do City, fez uma falta dura em Diego Costa. Não satisfeito, foi para cima do atacante do Chelsea e iniciou uma ríspida discussão, com troca de afagos que não chegaram a ser agressão. O árbitro expulsou Zabaleta, apenas, pela falta e por ter gerado a confusão.
Qual é a dúvida de que no Brasil ambos seriam expulsos?

Os homens de preto daqui sempre tomam a decisão que os comprometem menos. O maior sintoma é quando Sandro Meira Rici vai à Copa do Mundo e apita como se estivesse na Bundesliga, não nas “arenas” do Brasil.

Toda vez que um comentarista de arbitragem quer justificar os erros absurdos, daqueles que acomodam opinião pública, times em questão e “orientações” da comissão de arbitragem, falam em “imprudência”.
Se um jogador colocou a mão no rosto do adversário que se atirou no chão e foi expulso, sua atitude foi imprudente. Se deu um carrinho, o atacante se atira no chão e o juiz marca equivocadamente o pênalti, a responsabilidade é do zagueiro e sua imprudência, sua inconsequência.

Assim se difundem padrões de opressão pelas telinhas todas quartas à noite e nas tardes de domingo.
O que faz então pessoas como Sandro Meira Rici terem uma postura em torneios internacionais e outra nos campeonatos locais?

Na Inglaterra, na Alemanha e, em menor medida, na Copa do Mundo, o objetivo do árbitro é cumprir a regra. No Brasil, é “controlar o jogo”, como expõem sem o menor constrangimento os comentaristas de arbitragem: Arnaldo Cézar Coelho, Leonardo Gaciba, José Roberto Wright, Paulo César de Oliveira e até Sálvio Espínola, que está na ESPN, uma emissora cujos comentaristas tanto exaltam o futebol europeu, mas, quando se tratam de torneios brasileiros, acomodam-se na ideia de “imprudência” do injustiçado.

Essa mentalidade faz com que uma falta seja digna de expulsão aos 38 minutos do segundo tempo, quando o time da casa já tem um a mais e está ganhando o jogo, mas lances idênticos não sejam punidos com cartão amarelo no primeiro tempo ou sequer se marque falta. O mesmo critério que faz uma bola tocada na mão vire pênalti contra o visitante, mas uma mão intencional na bola no meio de campo pelo atacante adversário não lhe renda o segundo amarelo.

Imagine o seguinte lance: um atacante que desde o começo do jogo está procurando contato com os zagueiros e se atirando dentro da área corre na direção do gol adversário com a bola dominada. Um zagueiro corre e o alcança, mas para dar tempo de impedir o gol estica a perna e se joga à frente da trajetória da bola. O atacante, atrapalhado, erra o chute e na sequência dobra os joelhos. Na sequência ambos se embolam. O atacante, tocado na perna esquerda, dá três rolamentos gritando como se fosse amputado a sangue frio com a mão no joelho direito.

O lance é dentro da grande área. É falta?

A regra do jogo manda avaliar se a bola estava em disputa, mas as orientações de arbitragem no Brasil mandam jogar a partida.

As chances de o juiz ser ludibriado e marcar um pênalti são grandes em qualquer lugar do mundo, mesmo na Inglaterra e na Alemanha, onde joga a maioria dos jogadores dos quatro semifinalistas da última Copa do Mundo. Nesses locais há também uma boa possibilidade de o árbitro, estando próximo da jogada, aproximadamente seis ou sete metros e com visão frontal do lance, perceber a acrobacia do atacante e não botar a bola na marca penal.

No Brasil essas duas possibilidades estão condicionadas aos mesmos critérios que fazem um time ter 60% mais pênaltis em seu estádio do que qualquer outro adversário, os mesmos que fazem uma agremiação perder pontos e ser rebaixada pelos mesmos motivos que outras são absolvidas.

Em poucas horas o jogador expulso e o time rebaixado se tornam “imprudentes”, responsáveis pela violência a que foram submetidos. O jogador vítima do racismo se torna culpado por ter feito uma denúncia e as vaias, tão ou mais racistas do que gritos de “macaco”, se tornam sua obra. Críticos de pastores homofóbicos chegam ao delírio chamando o torcedor adversário de viado. Inconformados com a corrupção “de tudo que está aí” buscam releituras das regras para justificar uma vitória conduzida desde o primeiro minuto pela arbitragem.

E assim, nos dias em que não há futebol, a criança de um ano de idade bombardeada com lacrimogêneo é a culpada por não respirar oxigênio, pois estava onde não deveria. O pobre é culpado por não ter nascido em condições de ficar rico. O camelô que leva um tiro na boca é tão responsável pela sua morte quanto o homicida que puxou o gatilho.

Esporte é para dar sanidade a corpo e mente. Na TV tem feito justamente o contrário.

*Fabio Venturini é jornalista

sábado, 19 de julho de 2014

Sobre Dunga, CBF e o mesmo cheiro

Com a saída do técnico Felipão após a desastrosa Copa do Mundo do Brasil, as atenções estão voltadas para quem será o responsável por encabeçar o projeto de devolver ao país o título de melhor futebol do mundo, embora os ufanistas de plantão ainda considerem este o país do futebol. O nome da vez, pasmem, segundo apurou a ESPN, é o de Dunga, aquele que treinou o escrete nacional na africana Copa de 2010.
CBF estaria conversando com Dunga (Nelson Coelho/Diário de S. Paulo)
A simples possibilidade de recontratar não o capitão do tetra, mas o técnico da Copa de 2010, escancara o que todo mundo sabe, mas ninguém dos que têm o poder (plim-plim!), admite publicamente: não existe um projeto minimamente sério pelos lados da Barra da Tijuca. 

Seja quem for o escolhido, e pelos primeiros movimentos da cúpula da CBF (Marin-Del Nero), a tentativa de retomada do posto de número 1 dará com os burros n'água. O primeiro passo foi contratar Gilmar Rinaldi para ser o coordenador de seleções da entidade. Sabe-se que ele era, até poucos dias, agente de jogadores. Ora, não basta à mulher de César que seja honesta, tem que parecer sê-lo também. 

Del Nero e Marin, com o futebol brasileiro na cabeça
Ainda assim, não será a escolha do coordenador ou do treinador, simplesmente, que mudará este status quo que teve como ápice as duas lavadas levadas pelo time do Scolari. O problema é outro, bem pior. Os time pequenos, fornecedores de craques para os grandes, estão falidos; o dinheiro, que é pouco ante o que se arrecada, é mal distribuído; os times grandes estão com a base entregue a empresários e agentes preocupados apenas em ganhar dinheiro. 

Enquanto o 7 a 1 for tratado resultado de sete minutos de apagão, como tentaram apregoar Pareira e Scolari na cretina entrevista coletiva post mortemduvido que alguém faça alguma coisa porque quem manda, e isso a gente vê por aqui, não vai parar de tratar o futebol como mero produto de grade de TV. Como o torcedor-telespectador é pouco exigente e, portanto, suscetível a opiniões dos Galvões Buenos e Tiagos Leiferts de plantão, ou de outros jornalistas catequizados sob o Evangelho Segundo os Marinho, acreditarão que o futebol daqui é bom e que ver o Olodum na Copa é divertido.
Frieza dos números: Felipão, na coletiva após a
Copa de 2014 (Heuler Andrey/Mowa Press)
 
Voltando a Carlos Caetano, o Dunga, ele chegou à Seleção para ser um contraponto à esbórnia que foi vista na Alemanha, quatro anos antes, quando era Parreira o treinador. No entanto, o trabalho não foi bom, mesmo com os títulos das Copas América e das Confederações. Sob sua gestão, o Brasil jogava fechado e saía no contra-ataque, com a bola saindo diretamente dos pés acéfalos dos volantes para os laterais ou para a disparada do então serelepe Robinho. A Holanda acertou a marcação em apenas meio tempo e deu no que deu. Ou seja, a "renovação" não renovará nada. Vão apenas mudar a cobertura do bolo. O recheio será o mesmo. E não é bom.  

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Já está escrito

Por Vinicius Carrilho*

A “Copa das Copas” se encaminha para seu último ato. A grande final será apenas no domingo, mas já é possível cravar que a história está feita e será justa, premiando uma das melhores, se não a melhor, Copa do Mundo de todos os tempos.

De um lado, a vitória pode ser do trabalho, da organização, de quem se deve ter como espelho. O futebol alemão há 12 anos está entre os melhores nas Copas. Porém, em 2002 o acaso contribuiu. Sábios e serenos, os germânicos compreenderam que a sorte não bate à porta duas vezes e apostaram em algo maior, mais trabalhoso, porém de frutos certos: o trabalho.

Desde então, toda uma geração foi preparada. O serviço, porém, não se resumiu apenas a isso. O futebol por lá sofreu drásticas mudanças. Passados dois mundiais (nos quais ficou na semifinal), a Alemanha conta hoje com uma das ligas mais fortes e ricas do planeta e ela é toda administrada pelos clubes. A federação, preocupada exclusivamente com a seleção, deu tranquilidade a Joachim Löw, no cargo desde 2007. Com um time ótimo, os alemães, favoritos, podem ver todo este trabalho coroado com a taça dourada.

Do outro lado, a Argentina. Com um futebol interno tão desorganizado e pobre quanto o destas terras, o time albiceleste vem para provar que este esporte é cíclico e que pode demorar, mas uma boa geração sempre aparece. Se a defesa – que vai bem no Brasil, faça-se justiça – é o ponto fraco, os argentinos contam com muitos talentos em seu meio-campo e ataque e não se encabulam em utilizar o que há de melhor buscando o gol.

Porém, a história estará toda com Messi. De contestado por duas Copas medíocres a um provável candidato a ídolo eterno, igualando ou até passando Diego Maradona, La Pulga, como El Pibe, é um monstro, jogador raro, daqueles que aparecem no mundo a cada 30 anos.

Caso vença, ambos empatarão em mundiais. Também vão se igualar no protagonismo, é verdade, porém Leo conta a seu favor vencer sem qualquer contestação e com uma carreira muito mais limpa e vitoriosa do que a de Diego (o que não mancha e muito menos diminui seu brilhantismo). Indo para o campo divino, como gostam os vizinhos sul-americanos, seria a oportunidade perfeita de trocar uma vitória com a ajuda de “la mano de Dios” por uma com o auxilio de “la bendición del Papa”. Em resumo, vencer uma copa 28 anos depois e ainda no Brasil seria para Messi e para os argentinos um roteiro que nem Ricardo Darín, no alto de sua inspiração, conseguiria imaginar.

Aconteça o que for, seja como o destino quiser, a história já está escrita e ela virá com páginas douradas, independentemente do resultado. Um capítulo final justo, feliz e merecedor para o verdadeiro drama que foi toda a trama da Copa do Mundo no Brasil, desde que começou a ser escrita, em outubro de 2007.


Aos que ainda velam o jogo entre Brasil e Alemanha – acreditem, ainda tem quem sinta muito aquela derrota – o conselho é de que, ao menos por um domingo, se permita gostar de futebol, sem se importar com as cores que estiverem no campo. Será uma oportunidade única de ver e sentir a história passar sob suas retinas.  

* Vinicius Carrilho tem 23 anos, é jornalista, morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida 
fazendo humor, mas escreve melhor do que conta piadas.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O fundo do poço pode ser cavado

*Por Fabio Venturini

A Copa do Mundo apenas mostrou o que tem de pior no futebol brasileiro. Desde 2010 tinha muito medo de que se repetisse uma catástrofe na Copa do Mundo do Brasil. Com o Uruguai bem na África do Sul pensei em um novo Maracanazo ou uma derrota para a Argentina. A vergonha foi diferente e pior, pois se uma derrota para um rival vizinho é dolorida, tomar sete de qualquer adversário que seja é humilhante, desonroso. Porém, brasileiro nenhum pode reclamar de ser surpreendido ou achar que não estava anunciado. Não foi um pesadelo. Pelo contrário, foi um choque de realidade em quem tinha um sonho absurdo de ser feliz em cima de estruturas tão frágeis para o esporte.

Crônica esportiva – Quando era estudante de jornalismo ouvia que jornalismo esportivo era o reduto dos que não teriam condições de trabalhar em outras editorias. Achava absurdo, desrespeitoso. Hoje penso que é incorreto e generalizante, pois uma maioria absolutamente limitada intelectualmente e que sequer sabe fazer uma mínima análise da realidade de forma honesta mancha um setor inteiro do jornalismo. Aqueles "Pachecos" que adoram jargões e agora liderarão a caça às bruxas são os mesmos que em 2010 pressionaram a CBF para mudar tudo na seleção e excomungaram Dunga e Felipe Melo. Os mesmos que fizeram matérias e editoriais em 2011 para criticar a revista inglesa FourFourTwo por ter apontado todos os problemas do futebol brasileiro, como se fosse uma perseguição, não uma análise precisa. Pois bem, atendendo ao apelo do pachequismo liderado pelas Organizações Globo, em vez de ter um time pronto a partir da África do Sul para aperfeiçoar com novos talentos foi tudo recomeçado do zero. Em vez de melhorar a seleção e o esporte internamente, a CBF continuou seu caminho de transformar tudo num zaralho com jogos às 22h. A injustiça com a crônica esportiva, salvo algumas exceções, como a ESPN, se dá no sentido de que asneiras do mesmo nível saem das crônicas política, econômica, policial.

Organizações Globo – Se há o corrupto, devemos encontrar o corruptor. Quem faz de tudo para transformar futebol em um elemento da grade de programação com mera finalidade de garantia de audiência e alienação do telespectador é o grupo da famiglia Marinho. Antecipam cotas a clubes totalmente zoneados, prendem os clubes dirigidos por pessoas de conduta questionável, age como agiota para manter a propriedade sobre o futebol brasileiro. É dona da CBF, lidera as campanhas para troca de treinador, escolha do novo, elege os candidatos a ídolo nacional e seus capos se orgulham de dizer nos bastidores do futebol que podem escolher datas e horários de jogos porque é a TV quem paga por isso. Pois é, ao lado da sua subordinada CBF, as grandes responsáveis não por um 7x1, mas pelo estado de petição de miséria que se encontra o futebol brasileiro. E se um dia os clubes e campeonatos daqui acabarem porque estas duas entidades filhotes da ditadura assim conduziram a situação, a Globo não terá o menor pudor em comprar direitos de outros esportes que se encaixem na sua grade de programação. Nós gostamos de futebol, a Globo de poder. O que faz no esporte fará, a partir de 14/7, com as eleições.

Confederação Brasileira de Futebol – A mesma trupe está na CBF desde 1989, sendo que naquela época já não houve muita renovação do que vinha antes. Ricardo Teixeira liderou a Confederação em episódios como a mudança de fórmula durante campeonato para classificar o Flamengo para a segunda fase, salvação de fluminense (três vezes), Corinthians e Botafogo de rebaixamentos no campo, sucateamento desportivo e embelezamento estrutural às custas de compromissos governamentais com eventos esportivos de grande porte. Sabedor desde 2003 de que a Copa seria no Brasil, Teixeira e seus asseclas não se dignaram a preparar uma seleção decente acreditando no mito de que no Brasil nascem craques por bênção da natureza, não por condições sociais. Dedicaram-se à construção civil, ao turismo, à operação de entretenimento e deixaram o futebol nas mãos de dirigentes de clubes, federações e treinadores, enquanto a especulação imobiliária acabou com campos de várzea, empresários empurraram pernetas de escolinhas de futebol goela abaixo dos clubes grandes e os melhores talentos saíram do País aos borbotões antes de sequer jogarem uma única partida de primeira divisão do lado de cá do Atlântico.

Treinadores péssimos – Por falar na pior derrota, devemos nos lembrar da pior vitória do futebol brasileiro, em 1994. Naquela época havia no Brasil dois times que bateriam hoje em Barcelona e Bayern com desenvoltura. O São Paulo de Telê Santana era um dos melhores times do futebol mundial do século XX. O Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo tinha condições de sozinho ganhar a Copa realizada nos Estados Unidos. E fomos com Parreira retrancando até contra Rússia e Camarões, montando um time de brucutus que davam bicão para o Romário decidir lá na frente, assim como Felipão e Parreira tentaram fazer com Neymar este ano. Desde aquela vitória nos pênaltis contra uma Itália que tinha seus dois melhores jogadores (Baresi e Baggio) com os joelhos machucados, o “ganhar feio” virou regra e inspirou uma geração inteirinha de treinadores obsoletos, retranqueiros, desatualizados, marrentos e que foram campeões colocando camisas gigantes atuando como se fossem o Novorizontino. Felipão e Parreira têm culpa, mas deve ser dividida com outros. Enquanto a Argentina produziu Marcelo Bielsa, Tata Martino e José Perckerman, aqui no Brasil a crônica esportiva alienada elevou ao nível de grandes treinadores de futebol senhores como Muricy Ramalho, Celso Roth, Tite, Mano Menezes, Abel Braga e outros retranqueiros incorrigíveis.

No jogo, Felipão dormiu e acordou em 2002 – A extrema arrogância do técnico brasileiro ao achar que basta formar uma “famiglia” e usar autoajuda para ganhar Copa chegou ao nível do ridículo. Obsoleto, desatualizado, sequer teve a capacidade de entender que não poderia ir para cima do melhor time do mundo. Sacou uma escalação de Bernard como técnicos da década de 1960 que escolhiam os jogadores pelo estádio, para conseguir apoio da torcida local. Nem se a partida fosse na Ucrânia poderia colocar o jogador do Dínamo de Kiev para ser engolido miseravelmente pelo poderoso meio-campo alemão. Teve seu método emotivo-metafísico atropelado de tal forma pela racionalidade germânica que os jogadores alemães tiraram o pé em respeito ao país que tão bem os acolheram. Se não fora 10 ou 15x1 devemos agradecer ao povo da Bahia, onde está concentrada a Alemanha, e às belezas de Santa Cruz de Cabrália, não à obsoleta comissão técnica brasileira.

Sem torcida – Nos jogos do Brasil não havia torcedores brasileiros. Os estádios estavam cheios de VIPs que adoram fazer selfie na arquibancada e falar mal da Dilma. Quando a Alemanha fez o segundo gol uma porção de oportunistas que adora dizer que estava lá onde havia o mundo olhando abandonou o barco. Contra o México parecia que o jogo era em Guadalajara, não em Fortaleza. Graças às prioridades de Globo e CBF tivemos uma Copa do Mundo no Brasil em que a seleção local não atuou no Maracanã e o torcedor não pode ver os jogos para dar lugar a um bando de coxinhas que adquiriram ingressos em meio a uma máfia de vendas selecionadas que está sendo desmascarada pela Polícia Federal, como já havia sido denunciado na imprensa inglesa.

Torcedor não cidadão – Foram 12 “arenas” construídas ou reformadas. Em breve teremos de volta um campeonato horroroso, com jogadores ruins ou decadentes e que a qualquer momento é decidido pelo Tribunal Protetor de Cariocas Rebaixáveis. Criciúma é candidato a salvar o Flamengo da Série B enquanto o rebaixado salvo fluminense disputará o título. A justiça do campo fará com que os tricolores do Rio retirem título e vaga em torneio importante de paulistas que calaram pelo descalabro feito com a Portuguesa. E o torcedor doutrinado pelo pachequismo global bate palmas a tudo isso. Acha bonito ganhar estádio com dinheiro público e calote inserido no planejamento, não se escandaliza com torcida organizada servindo de milícia antimanifestação, não se opõe à construção de quarto estádio em cidades com três clubes, como Recife e Natal, cala quando pessoas morrem na Fonte Nova, apoia a retirada dos pobres das arquibancadas para encher de coxinhas nas cadeiras das “arenas”. Há muitos responsáveis que hoje querem atitudes do governo ou de dirigentes.
  

O futebol brasileiro está no fundo do poço. Não é de hoje, deveriam ter percebido quando as principais lideranças eram Juvenal Juvêncio, Andrés Sanches e Marco Polo Del Nero, sucessores de Mustafá Contursi, Alberto Dualib, Ricardo Teixeira e Eurico Miranda. Sinceramente, 7x1 é hoje o menor dos problemas do futebol no Brasil, pois quantifica até modestamente a diferença entre a estruturação do futebol no Brasil, paraíso dos canalhas, e na Alemanha. E no sentido que está tomado é sim possível cavar o fundo do poço. Plim-plim.

* Fabio Venturini é jornalista