domingo, 9 de junho de 2024

PORTUGAL - o rei está nu – e é preciso se vestir logo

ALERTA LIGADO Primeiro teste a valer desnuda deficiências defensivas e mostra que ainda há muito a se fazer se a ideia não for voltar da Alemanha ao cabo de três ou
quatro jogos 
(Foto: Rodrigo Antunes/ Lusa) 

“Um jogo muito positivo para a nossa preparação”. Eis a definição de Roberto Martinez na coletiva de pós-jogo do Portugal 1 a 2 Croácia. O mister está a ver o copo meio cheio. Eu vejo o copo rachado. Principalmente se o este for usado como foi e contra quem foi.

A Croácia, desde que o mundo é mundo, tem um time talhado a ter a bola no pé e fazer o tempo correr mais devagar quando a tem para si. Modric, Kovacevic, Brozovic. Todos com talento para fazer o jogo andar em ritmo lento, e quem quiser que corra. Já Portugal se apresentou, creio eu, com um time mais próximo do que Martinez espreita para a estreia, com Palhinha à frente dos centrais, Vitinha e Bruno Fernandes a serem quem deve fazer a bola chegar à frente, onde o tridente ofensivo era composto por Bernardo Silva, Gonçalo Ramos e João Félix.

Como os Made in Seixal buscam o jogo interior, a ideia era abrir espaço para as descidas de Diogo Dalot e Nuno Mendes. O problema é que estes nunca conseguiram pisar estes lados do campo e a disputa ficou toda no meio, onde justamente a Croácia faz o que quer, como quer e quando quer, e contra quem quer que seja. Basta que existam condições para seus mais graúdos talentos possam desfilar.

A passarela atendeu pelo nome “relvado do Jamor”.

Tudo bem que o pênalti, que de tão estúpido não deveria ter sido marcado, justamente porque Vitinha não o cometeu, condicionou o jogo, mas o fato é que a primeira parte da turma lusitana foi algo que roçou a indigência dos piores momentos vistos daquele período infeliz entre o pós-Copa de 1986 e a afirmação da geração bicampeä mundial júnior, quando, com muita boa vontade, Portugal era daquelas seleções que hoje estariam entre os grupos C e D da Liga das Nações.

Não fosse por Diogo Costa, e aqui está um dos motivos que fazem o mister tirar algumas notas positivas, e o primeiro tempo terminaria com a vaca lusitana já deitada. A segunda parte pedia mudanças para além do planejado para dar minutos à toda a gente – exceto o Rio Patrício, que deve ser um bom contador de anedotas no balneário.

Depois do recreio, o time das Quinas voltou com alterações: os dois laterais, que nem pareciam ter entrado, sairam, rendidos por Semedo e Cancelo; o desastroso, indolente e desatento João Félix também ficou no balneário, fazendo companhia a Gonçalo Ramos, que destes pode ser o único a se considerar uma vítima das circunstâncias ou do sistema que aglutina jogadores com características de posseiros da bola, mas nenhum com rasgos para fazer as funções diferentes que cada quinhão do relvado exige. Diogo Jota e Rafael Leão foram lançados e nos pés deles residiu boa parte da melhora do jogo de Portugal, não pelo sistema apresentado, mas pelas características dos executantes.

Três foram os minutos necessários para que os lusos igualassem as coisas. Semedo fez o que Dalot não conseguiu e mostrou-se uma opção fiável para Martinez, o que talvez não seja necessariamente uma boa noticia. Mas foi ele quem se apresentou para receber passe açucaradinho de Bernardo Silva e deixou Diogo Jota livre para somente encostar a bota na bola, a poucos passos da linha do gol.

E isso deveria fazer com que o sentido do jogo mudasse. Mas essa igualdade durou menos que a do primeiro tempo. Meia dúzia de minutos depois, o recém entrado Pašalić soltou o sapato da entrada da área, na recarga de um cruzamento que João Cancelo achou por bem meter a cabeça numa bola em que o pé, qualquer um, estava mais à mão. Diogo Costa quase acrescentou mais uma defesa daquelas que o Vitor Baía não faria (a maioria delas, pois), mas a bola foi com estrondo à barra e Budimir recolocou os enxadrezados à frente.

O melhor período de Portugal veio a seguir. Insinuante, incisivo, pressionador, empurrando os adversários contra as cordas. Em pouco menos de 10 minutos, criou-se mais que na primeira parte – e naquele período entre a segunda metade de 1986 e 1992. Mas foi sol de pouca dura e a partida voltou a ser simpática aos croatas, que estiveram mais próximos do terceiro do que de sofrerem o empate, que ainda esteve por vir nos remates de Pedro Neto e Rúben Dias.

Para terça-feira, no Aveiro, há a Irlanda do Norte no derradeiro teste antes da Euro. Roberto Martinez, se não houver alguma questão física a apoquentar alguém, deverá levar a campo o onze que imagina para a estreia, contra a Chéquia, no próximo dia 18.

A primeira derrota de Portugal para a Croácia, seja como for, deixa alertas que chegam a tempo: i) de nada serve ter uma riqueza tática se não for escolhida a estratégia mais adequada (como tentar tirar a bola do meio-campo é quando um gajo chamado Modric está com uma camisola diferente daquelas que seus comandados vestem); i) se o Pepe não puder jogar, e Oxalá que jogue, Gonçalo Inácio não é o central mais adequado para fazer companhia a Rúben Dias porque não está habituado a jogar somente com um central ao seu lado e os espaços que deixa entre si e o lateral esquerdo, seja ele quem for, mostram isso, além da dificuldade de fazer a recomposição defensiva nestas condições, ainda mais quando a bola for perdida em zonas mais altas do campo; e iii) agradeçam aos croatas por gritarem que o rei, que venceu 10 em 10 nas eliminatórias, contra ninguém, e sofreu apenas dois golos – e já lá vão oito em quatro jogos após a fase de apuramento, dois em cada -, anda com o rabo de fora.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: ser o melhor da equipa indica que as coisas correram bem, mas só para ele;
Diogo Dalot: só não achou que estava no United por causa da cor da camisola (Nelson Semedo: ganha cada vez mais confiança pela seleção nacional, mas essa não é uma boa notícia);
Rúben Dias: ó, Gato, tens 10 dias para mostrar ao Gonçalo Inácio como é que se joga sem ser a três centrais;
Gonçalo Inácio: é sério que o Ruben Amorim nunca te ensinou a jogar numa linha de quatro?
Nuno Mendes: saudade do Clermont, né, meu filho? (João Cancelo: já gostei mais de ti, Joãozinho. Se calhar, mostre ao mister como jogavas antes de ter a brilhante ideia de ser refilão com o Guardiola);
João Palhinha: ó, João, digas ao mister, SFF, que não é porque tu tens oito nomes que deves bastar para marcar toda a gente que estiver a vestir uma camisola diferente da tua. Duvidam que são oito? O gajo se chama João Maria Lobo Alves Palhares Costa Palhinha Gonçalves. Estou a mentir ou o quê?;
Vitinha: não é porque o João Palhinha tem oito nomes que deve bastar para marcar toda a gente que estiver a vestir uma camisola diferente da vossa. Mas jogaste bem a segunda parte (Matheus Nunes: chegaste a tempo de fazer mais que o João Félix. Só ter calçado as botas corretamente já bastava);
Bruno Fernandes: podias imaginar que estás no United e arriscar um pontapé de fora de vez em quando. Pela primeira parte miserável, dava até pra achar que o careca no banco era o Ten Hag (deu lugar a Pedro Neto, que promete fazer barulho na Euro. Só não pode ser quando todos estiverem a dormir. Não, a dormir mesmo, não como na primeira parte);
Bernardo Silva: quando o mister mandar que fiques aberto do lado direito, faças o favor de dizer que o português dele é incompreensível. Não é, sabemos, mas também não dá para entender que raio tu fazes por lá;
Gonçalo Ramos: vamos fazer um acordo? Voltas ao Benfica, pegas ritmo de jogo e aí serás o substituto do Cristiano quando ele se retirar, depois da Copa de 2030 (Diogo Jota: a sério e com ritmo, é o avançado mais completo do plantel. Quem sabe na próxima Euro?);
João Felix: definitivamente, não era jogo para o João Félix. A propósito, faz tempo que os jogos não são para ele (Rafael Leão: era bom aproveitares esses dias em Portugal e ter com o Quaresma para perguntar como ele acertava os passes dentro da área. Tenho certeza que ele lho dirá);
Roberto Martinez: ó, Fernando Santos, és tu?

quinta-feira, 6 de junho de 2024

PORTUGAL - E não se pode dormir

DESPERTADOR Primeiro dos três amistosos da Seleção de Portugal antes da Euro é
prometedor, mas há com o que se preocupar (Foto: Agência Lusa)

Bom jogo, sinais positivos e alarmes ligados na seleção portuguesa no primeiro jogo da parte final da preparação para o Euro 2024. Os Tugas adiantaram a marcação para sufocar a Finlândia e jogaram ao seu bel prazer, ora com troca de passes curtos, ora esticando a bola. Se Markku Kanerva tinha a ideia de sair com a bola de pé e pé e manter três homens no campo de ataque, tudo isso foi por terra com a pressão lusitana, que fez com que os de branco mantivessem duas linhas com quatro para tentar proteger Hradecky. Independentemente da maciez do adversário, era preciso fortalecer conceitos e dar minutos a jogadores que perderam parte da temporada por lesão, como Pedro Neto, Nuno Mendes e Diogo Jota. 

O ponto mais positivo: a fartura que permite mudar taticamente sem trocar jogadores. Por outro lado, houve a desatenção que fez sofrer dois gols nos dois únicos ataques finlandeses, quando o único jogador de qualidade entre os da linha, Pukki - o outro é Hradecky, titular do Bayer Leverkusen -, esteve em campo. Foi o terceiro jogo seguindo em que Portugal concedeu dois gols a adversários menos apetrechados.

Os gols finlandeses nasceram de cinco minutos que podem ser fatais contra times melhores e em jogos valendo. No primeiro, não se pode deixar bater uma falta com a defesa toda arreganhada. Possivelmente, com Palhinha em campo, não haveria o espaço aproveitado por Pukki. O médio do Fulham é quem mais possibilita um sistema flexível quando baixa para jogar entre os centrais, justamente no espaço em que o único jogador digno de nota dos nórdicos recebeu para picar com classe por cima de José Sá.

O segundo foi uma perda numa saída de bola desleixada, que Pukki aproveitou o ensejo para marcar, sem maiores protestos. Fosse um dos nossos, teria pensado ao receber a bola: "Aié? Estás por aqui? Então vamos a isso". E foi.

O caráter luso manda dizer que isso pode acabar mau. Há quem diga que é bom ter acontecido agora. Quem dera os espaços que a Itália encontrou em 1982 tivessem sido detectados antes daquele maldito jogo no Sarriá em que o gosto do brasileiro pelo jogo bem jogado foi trocado pelo mero ganhar. Nada contra, também me aparece, mas prefiro a beleza à vitória arrancada a ferros.

Os dois passageiros que apanharam o comboio perto da estação de destino estiveram em grande plano: João Neves e Francisco Conceição, apesar de alguma falta de pontaria deste. Chico não será titular, mas será útil em contextos de jogo que precisam do 1 x 1. João mostrou uma maturidade que assusta, com apenas seis jogos pela seleção. Ambos foram os que mais deram na vista na retomada rápida após a perda da bola. 

Não será este o time titular, tampouco o desenho que deverá ser visto na estreia. Espero, inclusive, que a ideia de três centrais seja abandonada de vez, pois perde-se força justamente onde há talento no atacado. Também não acredito em dois jogadores agudos iniciando juntos. Há Bernardo Silva, que obviamente começará a Euro como titular se nada extraordinário acontecer. Assim como Bruno Fernandes, o melhor jogador português da atualidade. 

No mais, me parece que falta decidir uma ou duas posições, a depender da saúde de Pepe e de quem herdará o posto de Otávio como quarto homem do meio. Vitinha (provável)? João Neves (talvez, mas pode ser)? Matheus Nunes (furará a fila)? Pela característica, deveria ser este, mas ter chegado por último pode fazer com que parta um bocado atrás nesta corrida. Mesmo Rúben Neves pode ser o escolhido, embora isso demande mudanças pela sua característica mais técnica e menos impositiva. 

Se Pepe não puder iniciar o Euro, António Silva está em vantagem porque está habituado às rotinas de uma linha de 4, em relação a Gonçalo Inácio, habituado a compor um trio de centrais no Sporting. Aqui, há um pormenor importante: o benfiquista encerrou a temporada em baixa e demorou a reagir ao rasgo de Pukki. Além do mais, Gonçalo parece estar com limitações físicas, o que pode ajudar o ainda benfiquista.

No mais, a careca até aqui literalmente brilhante de Roberto Martinez deve ter resolvido os demais nomes no onze inicial, privilegiando o equilíbrio com Bernardo Silva, que seria titular em qualquer seleção do mundo, mas que ainda está devendo uma grande participação em competições maiores. Por ora, a tendência é começar com Diogo Costa; Dalot, Ruben Neves, Pepe (ou António Silva) e Cancelo; João Palhinha, Vitinha (?), Bruno Fernandes e Bernardo Silva; Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.

Retomando a questão dos cinco minutos em que Portugal desligou, houve um consenso em torno do momento ideal para acontecer, a tempo de remendar. É o copo meio cheio. Em 14 de julho, espero que esteja meio cheio de bagaço.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

BRASIL - Vinícius Jr, Neymar e a tragédia grega, com a Bola de Ouro ao barulho

INTIMIDADE Vini Jr. beija a taça mais cobiçada do
futebol de clubes (Reuters/Carl Recine)

*Texto originalmente publicado no Ludopédio

Vinicius Jr. é a bola da vez. Favorito a devolver ao Brasil a Bola de Ouro, o jogador tem brilhado jogo sim, jogo também, pelo Real Madrid, com quem conquistou sua segunda Liga dos Campeões em três anos, e foi novamente decisivo, outra vez protagonista.

Mas não bastou exaltá-lo. Como se o futebol fosse o teatro grego de tragédia e a presença de um protagonista, representando o bem, automaticamente criasse a figura de um antagonista, a quem o mal lhe é atribuído, busca-se diminuir Neymar para enaltecer Vinicius Jr. É a mesma tolice que converte fãs de Messi e Cristiano Ronaldo em detratores do outro. Apesar do péssimo gerenciamento de carreira, Neymar é - ou foi, sei lá o que vai dar dele - um jogador brilhante. 

Fora de campo, Neymar é um cidadão dos mais questionáveis, para não usar outro adjetivo menos abonador, mas, em se tratando de futebol - e o tema aqui é este -, é um extraclasse, é completo. Podem escolher o fundamento do jogo, Neymar, no mínimo, é muito bom. O que pesa contra o maior talento brasileiro, para não falar mundial, em anos é o seu comportamento, e aqui nem entra em questão suas posições pessoais. 

É necessário conter a emoção, mesmo que seja somente para proteger o craque madridista das cobranças exageradas para que seja o número um. Presenciamos um craque em construção, longe do seu ápice físico, técnico e psicológico, e ainda sujeito a cometar algumas bobagens. Hoje, quando este texto é escrito - e afastado do calor da conquista continental -, Vini Jr. é o principal jogador da temporada, da mesma forma que Bellingham já foi apontado como o melhor do ano.

Imaginemos, porém, que a Inglaterra finalmente vença uma competição, a primeira desde 1966. Se Bellingham comer a bola, quem garante que o favorito não passe a ser ele? Ou Kane, que naufragou coletivamente no Bayern, mas individualmente fez provavelmente sua melhor temporada. Comparando as conquistas, a Champions do Real Madrid é só mais uma Champions do Real Madrid. Uma eventual Euro da Inglaterra são outros quinhentos.  

O prêmio pode ir para qualquer um deles, ou até mesmo para Kroos, um dos melhores da história, sem favor algum. Se mantiver o nível estupendo de atuações visto na temporada e, naturalmente, vencer a competição que jogará pela Die Mannschaft, em casa, estará à altura da distinção. Destes, Vini Jr, Bellingham e Kroos arrebentaram na temporada, pelo mesmo Real Madrid. Não me parece nenhum absurdo que os três estejam cotados.

Ainda assim, não será essa obrigação besta que parece ser determinante para decidirmos o tamanho de um jogador que nos dirá se Vinicius é maior ou melhor do que Neymar. Potencial, ele tem; mentalidade, idem; talento, demorará anos para aparecer alguém que se aproxime do ex-santista, isso se algum dia acontecer. Mas isso não basta. Além do mais, um fato poderá ser determinante para o futuro do brasileiro: a chegada de Mbappé ao Real Madrid.

Só para ilustrar, quando ainda não era um criminoso, Robinho era um talentosíssimo atacante, também do Real Madrid, com os olhos postos ao prêmio de melhor do mundo, e numa época pré Messi e Cristiano. Bastou a suspeita de que seria moeda de troca para a chegada do português para rifar a carreira. Bastou uma decisão errada, somente uma. Depois foi o que foi, mas isso não tem nada a ver com o campo.  

Como Vini reagirá à chegada do mimado francês? Ou melhor, como Mbappé chegará ao Real Madrid? Será mais um no vestiário, que não terá mais a liderança natural de Toni Kroos? Aceitará jogar centralizado para que Vini siga atuando onde comprovadamente rende mais? No PSG, essa questão causou ruído. Na seleção francesa, Mbappé já é o capitão.

Voltando à Bola de Ouro, o camisa 7 do Real Madrid sofre a resistência de parte considerável do mundo do futebol porque enfrenta o racismo que sofre até mesmo quando não está em campo, em vez de aceitar bovinamente as ofensas que recebe por causa da sua cor retinta. Não aceita ser atração, tampouco ser desumanizado por um sistema que sequer considera o racismo crime no país onde mora. 

Em todo caso, ainda lhe falta escrever uma história na seleção, onde Neymar, bem ou mal, é o maior artilheiro em jogos oficiais, mesmo tendo feito água nas grandes competições. Talvez a presença do próprio Neymar no grupo ofusque seu crescimento, ou faz com que os treinadores, desde Tite, não lhe deem o protagonismo que parece pronto para receber. Ou mesmo o sistema de jogo de Fernando Diniz tenha atenuado seu talento. Seja como for, Vini nunca foi o cara a ser procurado em campo quando a coisa apertou quando veste a cada vez mais esquisita camisa da seleção.

Pelas características de Dorival Jr, e por Neymar, temporária ou definitivamente, não estar à disposição, esta responsabilidade deve ser-lhe atribuída já na Copa América, na qual terá a chance de pavimentar ainda mais o caminho para chegar ao prêmio de melhor da temporada. Até lá, pelo menos, sugiro ir devagar com o andor porque o santo - e a admiração do torcedor - é de barro.   

sábado, 1 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 14

 *por Humberto Pereira da Silva

CERTO? O "jeitinho brasileiro", injustamente atribuído a
Gérson graças ao comercial do cigarro Vila Rica



Na partida entre Santos e América-MG, pela Série B do Campeonato Brasileiro, disputada há alguns dias, houve um lance que gerou muita discussão: o primeiro gol do Coelho, marcado pelo atacante Renato Marques. Na jogada, o goleiro santista, João Paulo sofreu uma lesão em disputa de bola com Marques, caiu aparentemente com muitas dores e o americano rolou a bola para o gol vazio.

Num primeiro momento, acusação de falta de fair-play da parte do jogador do América. En no calor da hora, jogadores, ex-jogadores, comentaristas  etc se manifestaram. As manifestações, como de costume, foram bem variadas, passionais, ao se levantar argumentos de ocasião. 

O lance em si, bem raro, mostra a surpresa tanto para o jogador quanto para os que se manifestaram. Condenar Renato Marques por falta de fair-play logo pareceu exagerado. 

Tomada isoladamente, a jogada em si dispensa o sentido usual e vago do fair-play.  Fair-play é uma tomada de decisão individual numa situação em que um jogador tem diante de si a possibilidade de pensar se para ele é ou não ético dar sequência a uma jogada. 

Ocorre que o futebol envolve várias situações de catimbas, simulações, blefes. A decisão de fair-play não é automática. Há uma variedade de condicionantes dentro do gramado para, em décimos de segundo, levar a uma decisão.
 
No caso específico de Renato Marques, pelo que vi, o gesto de chutar a bola foi automatico. Mas ele também imediatamente percebeu a situação. Ao não comemorar o gol, deu para ver que ele sentiu que poderia ter tido outra decisão.
 
Ora, se o lance para mim dispensa o sentido usual da palavra fair-play, isso implica que ele pode ser pensado em termos de protocolo. Sendo raro, esse gol de Renato Marques poderia ser tomado como exemplo para situação parecida. Caberia estabelecer um protocolo no qual o árbitro decidiria anular ou não o gol. Há no futebol atual precedentes. A confirmação de um gol numa situação de eventual impedimento é decidida após as linhas traçadas pelo VAR.

Uma vez constatada a contusão no lance, caso do João Paulo, é constrangedor para o América e para o Renato Marques ter o gol confirmado. Então, justamente porque entendo poderia ser decisão do árbitro, porque faz parte do futebol a catimba, a simulação, o blefe.

Infelizmente não foi o que ocorreu com o João Paulo. Por isso, acho o caso poderia ser discutido em termos de protocolo e não no vago e usual emprego do fair-play. O árbitro teria a decisão final de validação ou não de um gol em situação como a do gol que abriu o placar, que foi fechado em 2 a 1 para o América.

O contraponto**

Esse lance, como é a moda atual de falar, tem algumas camadas. A comemoração tímida, ou falta dela, demonstra que o avançado percebeu que havia algo de errado, como bem observado acima. Até aí, penso eu, cabe somente ao jogador a decisão de fazer algo grandioso ou "fazer pelas couves", como diria meu pai. Eu gosto de pensar no futebol além do resultado. Lances como o visto no Independência, campo americano, transcendem o jogo, mas aí sou eu, distante do seu contexto, como decidir coube a quem tinha a bola à disposição.  

O que me incomodou foi o que aconteceu depois: vi muita gente dizendo que poderia ser cena. O goleiro foi substituído e teve constatada uma das piores lesões do esporte, pelo caráter traiçoeiro e pelo tempo de recuperação:  o rompimento do tendão de Aquiles. O discurso envergonhado do capitão do América não me convence porque, sendo líder do grupo, poderia propor que o gol fosse retribuído, como já aconteceu em diversas partidas, até sob as ordens do próprio treinador. Marcelo Bielsa, atual técnico da seleçao uruguaia, deixou de conquistar um acesso à Premier League porque ordenou que seu time, o Leeds, retribuísse um gol que marcou e, sob sua ótica, foi antiético

Num ponto, discordamos: o árbitro poder anular o gol. E discordo porque sempre haveria uma forma de burlar. Imagine um lance no fim do jogo: hipótese clara de gol, o goleiro ou algum jogador qualquer simula uma lesão. Quem poderá verificar? Há lesões que são identificadas algumas horas depois.

Eu trabalhei com futebol de base e há um consenso em torno do papel do treinador: este e um educador. Não por acaso é chamado, até de maneira injustamente jocosa, de professor. Bielsa ensinou que a honra vale mais que a conquista a qualquer preço do objetivo da temporada, que ficou para o ano seguinte, e ele, para a história. Rogério Ceni, na primeira de suas passagens no comando do São Paulo, ralhou com Rodrigo Caio logo após um Majestoso por este ter confessado, logo após o lance, que fez uma carga no atacante Jô e isso causou o choque com o goleiro que resultaria no cartão amarelo, o terceiro da série, que tiraria o corintiano do jogo seguinte, não fosse a atitude louvável do defensor. É de cada um, pois. Prefiro Bielsa a Rogério.

Voltando, o autor

Também pensei no exemplo da retribuição. Nesse caso também há precedentes, mas, justamente porque sempre haverá formas de se burlar, o árbitro, neutro, poderia decidir, como decidiu sobre mudar um cartão de amarelo pra vermelho, como aconteceu com o atacante Bruno Henrique, no jogo do Flamengo.

A situação do gol do Renato Marques é bem rara e é muito complicado usar a palavra fair-play para a situação. Você falou inicialmente nas camadas e no final do que escreveu, realmente é um "nó" que transcende o futebol. A saída não é nada fácil, como uma fórmula pronta. Pois imagine que poderia ser cena. Só depois ficamos sabendo que não foi. No instante, o Renato Marques não tinha como saber se era ou não cena.

O que nos incomoda é a conversa rasteira sobre levar vantagem ou sobre a hipocrisia do fair-play. Li que o Renato Gaúcho falou algo sobre o mundo ser dos espertos. A Lei de Gérson é abominável. 


* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo
** Marcos Teixeira é jornalista e editor deste blog, além de colunista do Netlusa, do Ludopédio e setorista do futebol português no PodPlaca.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Pílulas amadoras - 13

*Por Humberto Pereira da Silva

O Senhor Champions League (Getty Images)

Enquete é enquete e o ponto de partida de qualquer uma é gerar discordância.  O que não se deve esquecer em qualquer enquete: é soma de votos. Mas vamos lá: soma de votos da revista britânica FourFourTwo elegeu Cristiano Ronaldo como melhor jogador europeu de todos os tempos. Só para variar, eu discordo.

CR7 ficou na frente de Cruyff, Beckenbauer e Zidane. Esse seria, nessa sequência, meu Top 3. Destaco, de qualquer forma, duas coisas inevitáveis nesse tipo de enquete: a memória e o bombardeio de imagens de hoje. Puskas é 11º e Eusébio, 12º.  Eu não os vi jogar e as imagens deles são raríssimas. [N.E.: a revista Placar, referência brasileira no futebol, organizou a lista dos craques do Século XX a partir de votos de jornalistas das principais publicações esportivas do mundo e tanto Puskás quanto Eusébio - sétimo e nono, respectivamente, estavam no Top 10 mundial].

Em qualquer tipo de escolha faltam critérios e sobram subjetividade, impressão; não é possível ter critérios objetivos pra dizer que CR7 é superior a Eusébio, ou Puskás. Não sendo possível qualquer comparação, há algo nessa "escolha" que merece atenção. As opiniões sobre CR7 vão de A a Z. Há quem o veja apenas como um jogador comum e que se beneficia de enorme publicidade. Mas, vemos com a enquete FourFourTwo não ser pequeno o número dos que o veem como o melhor da Europa na história. 

Quando se pensa nos melhores da história, os sul-americanos de fato são mais lembrados que os europeus. Com ou sem memória ou volume de imagens circulando nos meios midiáticos. A arte de um Pelé, Garrincha, Maradona ou Messi é bem distinta da de Cruyff, Beckenbauer, Zidane ou CR7. Então fiquemos na Europa.  Se eu não colocaria CR7 no meu Top 3, igualmente não vejo absurdo nele ser para muitos o melhor jogador europeu da história. Ou, não vejo que na Europa houve jogadores que chegaram à dimensão de Pelé e Maradona. 

Qualquer lista europeia para mim será sempre fluida, maleável. Não vi George Best, mas, 14º, pela mitologia em torno dele, que tipo de jogador ele seria? Best talvez ilustre como memória afetiva e volume de imagens são determinantes nessas enquetes. E não devemos nos esquecer de que ele fez sua carreira vestindo a camisa do Manchester United, britânico como a FourFourTwo.

Considero, ainda, numa enquete assim. Ela comporta um sentido simbólico que só o futuro pode responder. A se percutir exaustivamente que CR7 é o melhor jogador europeu de todos os tempos, CR7 será mesmo o melhor jogador europeu de todos os tempos. Discordâncias sempre existirão. Pelé não escapa a quem ponha exageros em seus feitos. Mas a discussão é para quem acha exagero Pelé ter sido o melhor da história se ele foi ou não o melhor. 

Nesse sentido, é o que me parece uma escolha como a da FourFourTwo pode causar. A discussão se CR7 passará à história ou não como o melhor europeu.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pílulas amadoras -12

*por Humberto Pereira da Silva

 (Foto: Mateo Villalba / Getty Images)

Real Madrid e Bayern de Munique fizeram uma segunda partida da Champions no Santiago Bernabeu cercada de enorme expectativa. No jargão boleiro, duas das mais pesadas camisas do mundo definindo uma das vagas à final, tendo empatado na Alemanha por 2 a 2 o primeiro jogo. Duelo eletrizante, o Real, como só o Real faz, perdia em casa por 1 a 0, mas virou a partir dos 43 minutos do segundo tempo. Mas, no último lance de um embate em altíssima temperatura, teria havido o gol de empate do Bayern e a consequente prorrogação.

Teria, mas não! O bandeirinha ergueu a bandeira. E antes da conclusão da jogada, o árbitro apitou. A marcação: impedimento do jogador do Bayern. Em casos assim, seguindo o protocolo, o VAR não é, nem pode, ser solicitado. As imagens de TV, de qualquer forma, sem as tais linhas traçadas, deixam todas as dúvidas possíveis. O correto seria deixar a jogada seguir e o VAR depois diria se por "milímetros" houve ou não impedimento.

Alguns até serenos diriam: a arbitragem mais uma vez a favor do Real; outros mais coléricos esbravejariam: o Real sempre ganha roubando. É, mas na mesma partida o VAR anulou um gol do madridista Joselu: o lance seguiu até o fim e foi corrigido com o auxílio da tecnologia. Ora pois.

Mais. Com toda tensão do final, perdendo como perderam, ouvi de Hummels e Müller o lamento pelo "erro de arbitragem". Os dois, ao mesmo tempo, exaltaram o triunfo do Real. Descontentes, claro, que uma partida tão intensa tenha sido decidida num "erro".

A questão para mim é que os bávaros, sem dizer, sabem que tinham a partida nas mãos. Sabem que falharam nos momentos finais. Não transferiram a culpa pela derrota ao "erro de arbitragem". Essa mentalidade é a maneira de lidar com as infindas contingências em uma partida de futebol. Erros, falhas, são lamentados. Mas tão somente lamentados. 

No Brasil, contudo, não há a mais remotíssima possibilidade de um pênalti, marcado ou não, não gerar toda sorte de discussões, acusações, ofensas, agressões.  É como se a marcação, ou não, fosse decidida a bala. Com a imprensa esportiva pondo óleo quente na fervura, praticamente não há partida de futebol no Brasil sem confusão quanto a uma ou outra marcação. 

A coisa não só vai mudar como tende a piorar. Imprensa, torcedores, dirigentes, técnicos e, com menos intensidade, jogadores, atiçam o fogo que queima a lenha. Não vai mudar o resultado, mas gera um clima que faz valer o jargão boleiro: ganhar no grito. Um "investimento para decisões futuras", segundo o editor deste blog, meu aluno Marcos Teixeira.

Paulo Nobre, ex-presidente do Palmeiras, usou a expressão "mão grande" para se referir a favorecimento ao Flamengo. No fim, o Palmeiras acabou campeão brasileiro de 2016. Ano passado, o auxiliar de Abel Ferreira, João Martins, novamente mencionou complô para que o Palmeiras não conquistasse o bi brasileiro. Ao fim...

Ironias da vida e da lembrança. Em partida do segundo turno no ano passado, entre Flamengo e Palmeiras, que terminou empatada, o Flamengo reclamou de pênalti não marcado em Everton Ribeiro. Nesse "jogo de seis pontos" a marcação poderia, poderia, inverter o título. 

Ocorre que esse mesmo Flamengo que hoje nas primeiras rodadas do Brasileiro reclama de arbitragem faz o que o Palmeiras fez: insinuar favorecimento aqui e ali. Esse mesmo Flamengo que foi campeão brasileiro em 2020 "favorecido" pela arbitragem.

Onde quero chegar? O frequente e insensato clima de acusação às arbitragens começam a macular os títulos. O título do Palmeiras no ano passado depois da insinuação de complô para que não ganhasse mostra o quê? Que erros ao meu favor são do jogo e contra mim são premeditados? John Textor, dono do Botafogo, apelou para a inteligência artificial para insinuar que o Palmeiras foi beneficiado, mas não falou nada sobre a campanha de rebaixado que seu time cumpriu no segundo turno.

Para mim, que é preciso ter princípios morais. Dirigentes e técnicos ao se manifestarem como se manifestam são despidos de qualquer "sentimento moral". Não vejo problema algum em afirmar que não se diferenciam da malta. Dão enorme contribuição para que o futebol brasileiro, além da CBF e outras mumunhas, mais logo se iguale ao mundo da contravenção, do crime, do gangsterismo.

Ah, recentemente na volta para casa, jogadores do Fortaleza foram atacados em emboscada. Não houve mortos. É isso.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 26 de abril de 2024

PORTUGUESA - O Dia do Cárcere

ÓDIO GENUÍNO Javier Castrilli tirou a Portuguesa da final
 do Paulistão de 1998 (Alex Ribeiro/Folhapress)

Nutro por Javier Castrilli um ódio tão genuíno que quase torna-se respeitoso, íntimo. Não sei sua idade, tampouco seu nome completo ou sua profissão. Não sei se é ou foi um bom filho, se tem irmãos, se é um bom avô, sequer se tem netos. Será que seus netos, caso existam, o chamam de Abuelito Javi? Não sei. Deve ser um bom avô.

Não conheço suas preferências políticas, se apoiou as torturas em meio à escandalosa Copa de 1978. Não faço ideia sobre o que ele pensa sobre a Asociación Madres de la Plaza de Mayo. Vibrou com a Guerra das Malvinas? Apostaria que sim, mas não sei.

Só o que sei é que pelo menos uma vez por ano me vem à mente aquele 26 de abril de 1998. É um looping eterno, no qual me recordo que ele tirou da gente a última chance de disputar uma final de um campeonato de elite ao marcar um pênalti obsceno no último minuto do segundo jogo da semifinal entre Portuguesa e Corinthians. Ganharíamos? Ninguém sabe. O que ninguém discute é que aquele time, com Evair, Alexandre, César, Leandro e tanta gente boa, era ótimo. E daria jogo na decisão.

Se o dia 25 de abril é o Dia da Liberdade (em Portugal), o dia 26 de abril de 1998 é o meu Dia do Cárcere. Desde aquele dia, estou preso no ódio a Javier Castrilli, que deve ser um bom avô.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 11

por Humberto Pereira da Silva*

LO DE SIEMPRE? Flamengo perdeu com o Bolívar e
Tite foi criticado (Marcelo Cortes/Flamengo)

Nos anos recentes, a Libertadores tornou-se uma espécie de Copa do Brasil com os melhores do Campeonato Brasileiro. Mas trata-se de uma Copa do Brasil com peculiaridades, como fazer jogos-treino com equipas latino-americanas. 

Esses treinos oficiais, certo, às vezes em situações bem peculiares. Jogar em altitudes próximas dos 4 mil metros, por exemplo. É de fato uma competição bem peculiar. A cobertura que a imprensa dá às equipes sul-americanas não é diferente da que daria a uma equipa do planeta Marte. E, por isso, a cara de espanto quando um desses supostos sparrings se dá bem. No ano passado, se bem me lembro, algum incauto jornalista sugeriu que perder para o Aucas na estreia seria uma vergonha para o todo-poderoso rubro-negro. E perdeu. 

Ontem, o Palmeiras jogou no Equador contra o Independiente Del Valle. O Flamengo foi ter com o Bolívar, na Bolívia. Como estão Del Valle e Bolívar em seus respectivos nacionais? Aliás, como são disputados os campeonatos no Equador e na Bolívia? De onde é o Aucas, a propósito? Bem, bem, hoje, se eu fizer um esforcinho de memória, decorarei até a escalação do Al-Hilal e do Al-Nassr.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 10

por Humberto Pereira da Silva*

DESGASTE DO MURO De herói a bode expiatório, Cássio vive
tempos turbulentos no Corinthians (Reprodução)

Há quem diga que Cássio é o melhor goleiro da história do Corinthians. Eu vi, na seleção, Ado, vi Carlos, vi Leão, vi Waldir Peres, vi Dida. Não vi Gylmar. Aqui todos, inclusive Cássio, passaram pela equipe nacional em copas do mundo. Acho que Cássio está entre os melhores dos melhores. 

O Corinthians vive HOJE um dos momentos mais horrorosos dos últimos anos, que igualmente são pouco gloriosos. E Cássio, herói e campeão do mundo pelo Timão, desperta HOJE ira da torcida, é tomado como vilão.

Cássio, após derrota na Sul-americana para o desfalcado Argentinos Juniors, desabafou: "Se sou culpado, melhor sair". Dessa declaração, destaco:

1. Cássio está de saco cheio, a ponto de explodir. Conveniências contratuais e outros motivos e ele dificilmente vai explodir;

2. Cássio tem memória. Sabe que há quem diga que é o melhor goleiro que já jogou no Corinthians. Sabe que o Corinthians foi campeão do mundo com ele pegando até vento.

Se Cássio sucumbir, sairá definitivamente pela porta dos fundos, como vilão. E dificilmente ficaria numa prateleira entre os melhores. Esse cenário seria bom para o Corinthians. Teria um bom bode expiatório. 

Se Cássio não explodir. Bem... Cássio usa o condicional para não perder grana, para não ser enquadrado em abandono de emprego. 

Resumo: com a declaração, Cássio não é mais jogador do Corinthians. Cumpriria contrato. 

Na situação do Corinthians HOJE, ter Cássio é o pior cenário, num cenário já medonho. Quando tudo está ruim, sempre se pode pensar no pior. E HOJE parece haver uma aposta no Corinthians: ver onde está o fundo do poço. 

Adendo 1: no Rio, Vasco e Botafogo têm flertado com o fundo do poço. Em Minas, mais recentemente, o Cruzeiro. Em São Paulo, dos "grandes", mesmo o Santos na segunda divisão, o Corinthians para mim é o mais forte candidato a ex-grande. 

Adendo 2: e Cássio? Para mim um dos grandes goleiros na história. Defeito? Ser fiel ao Corinthians. Sua fidelidade e como presente um final de carreira melancoóico. Palmas para a Fiel. 

HOJE, para mim, o glorioso Corinthians se apequena diante do literalmente grande Cássio.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Pílulas amadoras - 9

por Humberto Pereira da Silva*

 QUEM SEGURA? Sem apoio de lado algum, o rolar da cabeça
de Thiago Carpini é uma questão de tempo (Foto: Getty)

A eventual queda de Thiago Carpini exibe o quanto há de esdrúxulo nas decisões de um grande time no futebol brasileiro. Não é cabível imaginar que pessoas com o mínimo de inteligência e que ocupam a direção de São Paulo não tivessem diagnóstico das dificuldades do treinador para conduzir a equipa no Brasileirão. Mas,  passada a primeira rodada, e um primeiro fiasco contra o Fortaleza, e Carpini incrivelmente não é técnico pra um time como o São Paulo. 

Nessa "não é técnico para time do tamanho do São Paulo, o esdrúxulo. Ao demitir o técnico que podia ser demitido na véspera do Brasileirão, e assim com o técnico novo PLANEJAR a temporada, a diretoria do São Paulo acena com técnico novo passada apenas a primeira rodada. Nesse aceno, HOJE, o tamanho do São Paulo. O tamanho do técnico que foi contratado. Ou seja, Hoje, sem qualquer planejamento, um time que começa o Brasileirão com todas as incertezas possíveis. Como qualquer outro time que pulou da Série B e que, após duas ou três rodadas, troca o técnico para desviar a atenção da torcida e imprensa para a inevitável volta à Segunda Divisão.

PS. Alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que há um ano a mesma diretoria demitiu Rogério Ceni logo depois da primeira rodada do Brasileirão. Vinha de uma eliminação precoce no Paulista, para o Água Santa, e o nível de atuações não subiu mesmo com os treinos entre a queda no Paulista e o debute no nacional. Nem a vitória na Sul-americana, contra o Puerto Cabello da Venezuela, manteve o treinador. 

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quarta-feira, 13 de março de 2024

PORTUGUESA - a estupidez e a hipocrisia

Foto: x/Lusa_Oficial


*Texto originalmente publicado no NetLusa

Desde 2014 o Campeonato Paulista é disputado com a atual fórmula de disputa, variando somente o número de participantes – consequentemente de jogos por equipe – e de rebaixados. Em 2014 e 2015, eram 20 clubes divididos em quatro grupos e caiam quatro para a Série A2, ao passo que outros tantos faziam a travessia contrária. Em 2016, para chegar ao número de 16 clubes e enxugar a competição, seis foram degolados e somente dois subiram. Desde então, são quatro grupos com quatro times. Em comum, a estupidez de não haver confrontos diretos, pois não há jogos dentro da própria chave, mas os chamados clássicos entre os quatro filhos preferidos estão mantidos.

A fórmula possibilita que clubes com grandes campanhas sejam eliminados já na primeira fase e outros, com quantidades risíveis de pontos ganhos, se apurem. Tudo depende do grupo em que estiverem. E é assim desde que a distribuição por grupos foi definida. Nas 11 edições dessa forma, em nenhuma os oito melhores no geral se classificaram. Entre 2015 e 2020, Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo avançaram juntos ao menos até as quartas de final. Já são, portanto, quatro anos seguidos sem que os quatro alcançam simultaneamente os jogos a eliminar.

No ano passado, o Ituano se classificou com 12 pontos e despachou o Corinthians na fase seguinte, e esta havia sido a menor pontuação de um classificado até a Portuguesa conquistar a vaga com incríveis dez pontos, ao passo que o São Bernardo, que fez 21, ficou de fora. Foi – e está sendo – um escândalo!

A fórmula é boa? Não, não é. E é assim porque existe uma limitação de datas e é preciso garantir os confrontos entre os quatro, mas daí a ser justa essa barulheira toda? Ora, bastava ler o regulamento para saber que poderia acontecer. Aliás, bastava ler os regulamentos há 11 anos.

É mais escandaloso que os quatro filhos mais bonitos aos olhos da FPF recebam 40 milhões de reais para participarem, cinco vezes mais que cada um dos outros 12, com exceção do Bragantino, que recebe uns caraminguás a mais. Ok, é preciso que os clubes prestigiem a competição, mas essa diferença é obscena, para dizer o mínimo.

Não há injustiça alguma na classificação com este número de pontos que, na temporada passada, quase foi insuficiente para evitar a queda. Como os dois rebaixados estavam no grupo da Portuguesa, ela perdeu uma boa chance de somar mais seis pontos. Tira-se os seis que o São Bernardo somou contra Ituano e Santo André e os repasse para Lusa, em um exercício tão simples quanto safado no qual o representante do ABC e a Lusa trocam de chave, e a pontuação rubro-verde será maior. 

É estúpido? Sim, mas mais parvoíce que isso é maldizer o regulamento somente agora, mesmo tendo dez anos para notar isso.

segunda-feira, 11 de março de 2024

Cuca, Bauermann, Robinho e a ética masculina do torcedor de futebol

*texto originalmente publicado no site Ludopédio (ligar)

Protestos abreviaram a passagem do treinador, então condenado
 por estupro, pelo Corinthians (foto: Meu Timão)

Cuca foi anunciado como novo treinador do Athletico paranaense e o caso da condenação por estupro quando ainda era um jogador no início da carreira e defendia o Grêmio voltou ao centro das discussões, como era esperado. Da mesma forma, também, discutimos uma porção de coisas: se ele poderia ou não voltar a trabalhar, se pode ocupar um lugar de liderança ou idolatria, mesmo se é culpado, já que o processo foi anulado e o crime prescreveu, portanto, sem haver a possibilidade de um novo julgamento. Até sobre a legislação suíça nós palpitamos a rodo nos últimos dias, como se estivéssemos falando de trivialidades como o preço da cerveja. Falamos de quase tudo, exceto o essencial. Não falamos sobre a vítima.

Precisamos discutir a ética masculina do torcedor de futebol e o que a constrói. Atenção! Não é a ética do torcedor masculino, é a ética masculina, pois há mulheres que reproduzem o discurso machista e duvidam da palavra da vítima, suposta ou não, como se o homem não fosse o agressor, apenas uma vítima da mulher ou das circunstâncias.

É uma construção social complicada de ser desfeita, mas é necessário. As escrituras, no nono mandamento da Lei de Deus, coisificaram a mulher. O que hoje é “não cobice a mulher do próximo”, era “Não cobice a mulher. Não cobice a casa do seu próximo, nem a sua propriedade, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo”. A mulher era reduzida a uma propriedade.

Segundo a ética masculina do torcedor de futebol, é mais grave quando um Bauermann combina um cartão amarelo ou troca um pênalti por alguns trocados do que agredir, violentar ou matar uma mulher. Robinho, condenado por estupro na Itália, está livre a ponto de frequentar churrascos no Santos e ser tietado por um jogador que até outro dia respondia por violência doméstica.

“Ah, a moça retirou a queixa”, mesmo com farto material probatório. A retirada da queixa não significa que a agressão não existiu; a prescrição do crime não faz o estupro desaparecer.  E discute-se se o jogador estragou a carreira. “Que pena, tinha tanto potencial”. “Quem poderia imaginar? O jogador com mais títulos na história do futebol jogou sua história no lixo”. Que se lixe a história, a carreira. O valor disso é ínfimo ao pé do que destruiu.

Milly Lacombe, no UOL, questionou brilhantemente a formação do indivíduo. A mulher é educada a saber se portar, a se vestir sem provocar, a não se colocar em situações que favoreçam que seja violentada, como se seu comportamento justificasse o crime. Ao homem é ensinado a caçar e interpretar qualquer sinal de simpatia feminina como uma possível abertura de pernas. Seu capital social, e aqui reproduzo exatamente o termo que Milly usou porque não há forma melhor para se referir a isso: o capital social do homem aumenta conforme ele pega mais mulheres. Ela é a vagabunda; ele, o fodão.  

Da mesma forma que o menino espanhol chamou Vini Jr. de macaco porque reproduz o que observa no seu entorno, é ensinado que a mulher está em uma categoria inferior e deve servir ao homem, querendo ou não. Mais importante que discutir a punição e a recolocação profissional é rever como estamos educando nossas crianças, principalmente os futuros homens, para que eles não vejam as mulheres como mero instrumento para uma noite de farras, a tal travessura irresponsável, como qualificou na ocasião o colunista do jornal Zero Hora, Paulo Santana. Para o homem pode ser somente uma noite. Para a mulher, a vítima, é uma vida. É a vida dela, da família dela.

Não cabe mais repetir a célebre e infeliz frase atribuída a João Saldanha, "eu o quero para jogar no meu time, não para se casar com a minha filha", tão comum nos anos 1990, os tais anos de ouro dessa bobagem que chamamos de futebol raiz, o “futebol que respira”. Porque a mensagem é mais importante que o gol. Não é sobre ganhar ou perder, é sobre ser decente.  

E só seremos decentes quando interrompermos este processo, entendermos o valor e lutarmos de verdade para que as mulheres sejam respeitadas e tratadas como iguais.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Pílulas amadoras - 8 - O Palmeiras tem Mundial

*por Humberto Pereira da Silva

A Copa Rio. Foto: Divulgação

O Palmeiras tem mundial! A FIFA reconheceu em 2014 e documento recente ratifica: Palmeiras campeão da Copa Rio 51.

Futebol envolve paixões, gozações e jardim d'infância. Corinthianos, são-paulinos, santistas gritam: Palmeiras não tem mundial!

O jardim d'infância escamoteia, pois coisa de criança, o patético, o constrangimento, a HUMILHAÇÃO: o reconhecimento oficial da FIFA de que o Palmeiras tem mundial. 

A FIFA reconheceu, sim, a Copa Rio 51 como primeira competição internacional entre clubes. Mas, atropelos do que é tão só reconhecimento formal, burocrático, pois: não equiparou a Copa Rio 51 aos mundiais da FIFA a partir de 2000; mais, pois reconhecimento formal, o Fluminense, vencedor da Copa Rio 52, a última Copa Rio, pois, não tem mundial. 

Há um dado simbólico que as paixões, manobras de dirigentes e mesmo a imprensa fazem de conta não ver: um clube do tamanho do Palmeiras se HUMILHAR para ter reconhecido um título que nos áureos anos das academias Ademir da Guia simplesmente não tomava conhecimento e exibia seu gênio. 

Nos anos 60/70, o PALMEIRAS de Ademir da Guia e o Santos de Pelé desdenhavam a Libertadores. Uma competição na qual teriam de enfrentar a brutalidade de argentinos e uruguaios - e a complacência das arbitragens. 

Desdenhavam, portanto, um mundial que ao fim e ao cabo não movia os interesses econômicos de hoje. Santos preferia exibir Pelé em excursões pelo mundo a enfrentar argentinos e uruguaios em batalhas campais. 

O mundo gira, a bola gira, os interesses giram, interesses subterrâneos de dirigentes giram.

Simbolicamente, para mim, o que o Palmeiras perde com esse título postiço? A VERGONHA. Não se constrange ao se HUMILHAR para dizer TENHO MUNDIAL. 

Uma camisa com o peso da do Palmeiras não precisa se rebaixar a alguns gramas numa balança viciada. Mas se assim palmeirenses, torcedores, desejam com um quê de masoquismo, então: há 73 anos o Palmeiras não tem mundial; de lá pra cá o São Paulo tem três, Santos e Corinthians,  dois; nessa perspectiva, o Olimpia do Paraguai tem um (1979); logo, o Olimpia é do tamanho do Palmeiras. 

Humilhantes tentativas recentes de PALMEIRAS, Grêmio, Flamengo, Fluminense nos tais mundiais não preveem sorte diferente de outras aventuras nos anos vindouros... a bola gira, no giro, hoje, ser campeão mundial para sul-americanos como Olímpia e PALMEIRAS é obra divina, que faz Davi vencer Golias.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


segunda-feira, 4 de março de 2024

BENFICA - carapaus, tubarões e a óbvia vergonha

Nem precisa de legenda. Imagem: x/fcporto 

Tubarão em águas nacionais, dentro do ecossistema do futebol, o Benfica é um carapau a nadar em águas repletas de predadores quando vai para longe da costa portuguesa. Ponto. É preciso entender isso para perceber que raio aconteceu a uma equipa que na temporada passada tanto fez e que, agora, mal se sustenta na briga pelo título nacional.

Se o Benfica, como o Porto e o Sporting, pesca os destaques dos outros clubes portugueses, quando está às vistas das grandes ligas, perde os seus. E só há um jeito de suavizar essas perdas: planejar, antever, perceber quem vai e ter à mão quem vem, de preferência já ambientado dentro do elenco.

O livro Soccernomics mostra como o Lyon se preparava para montar seu elenco. Mandava no futebol francês, antes do PSG ser adquirido pelo fundo de investimento do Catar, mas ainda assim não tinha como fazer frente a alemães, espanhóis, italianos ou ingleses, que sempre levavam seus destaques. Então identificava quem poderia sair e já tinha sob os olhos quem chegaria. E assim foi campeão sete vezes seguidas.

Grimaldo, Enzo Fernández e Gonçalo Ramos saíram. Era óbvio que sairiam. E como foi o processo para amainar isso?

Sequer houve. Para o lugar de Grimaldo, vieram Bernat (apoquentado por uma lesão crônica desde o PSG), Álvaro Carreras e Jurásek. E nenhum deles tem características semelhantes ao espanhol que hoje brilha sob as ordens de Xabi Alonso no Leverkusen, tanto que Morato e o faz-tudo Aursnes têm jogado por ali, onde poderia estar Ristic, melhor que os outros três, mas que foi dispensado para que Jurásek fosse contratado por 14 milhões. Após perder Ramos para o PSG, cerca de 40 milhões  foram gastos com os avançados Marcos Leonardo e Arthur Cabral, mas quem joga é Tengstedt, o mais tosco deles, mas que é capaz de pressionar a saída de bola mais que os outros. E ainda havia Musa. E, para ser Enzo, chegou Kökçü, melhor jogador do campeonato dos Países Baixos na temporada passada e aposta pessoal do treinador, que queria porque queria, mesmo com fartas opções no plantel para o setor. O problema é que ele não é Enzo. 

A chegada de Di María, um dos maiores jogadores da história, fatalmente faria o time perder um pouco do poder de pressionar após a perda da bola, que era uma das armas mais fortes no primeiro ano da gestão Schmidt, forçando o treinador a encontrar soluções para amenizar o impacto e aproveitar todos os benefícios ofensivos que Fideo poderia dar à equipa. Mas isso está longe de acontecer, pois o craque argentino, aos 36 anos, tem que correr atrás de lateral e ponta e quem mais cair por ali porque não há laterais e porque a entrada de Kökçü desequilibrou o time. Não por culpa dele, mas porque Roger Schmidt é teimoso e arrogante. E não há laterais porque Gilberto, reserva imediato de Bah, foi liberado para assinar com o Bahia antes que seu substituto fosse encontrado. A aposta em João Victor para o setor mostrou-se um equívoco fácil de prever pelas suas prestações a serviço dos franceses do Nantes.

O plantel foi mal montado, mas Schmidt, que em 2022-23 mal rodava o onze, razão que forçou Lucas Veríssimo a buscar minutos fora, agora raramente repete não só nomes, mas o sistema.

Florentino, o maior ladrão de bolas da última Champions, que dava sustentação defensiva e liberava o prodígio João Neves para ser o homem mais influente, mal sai do banco. Com ele a trinco, a linha com os três médios funcionava, qualquer que fosse a composição do trio. Quando Arthur Cabral começou a entender o jogo de pressão de Schmidt, voltou para o banco, tendo cinco ou dez minutos para jogar, dependendo do placar. Para caber Kökçü, recuou João Mario para a posição de 6 (ou segundo volante) porque não quer abrir mão da calma e do critério do jogador para o achar o melhor caminho. O problema é fazer isso na cabeça de área.

E fica tudo às costas de João Neves. Perde-se tudo assim: estraga o jogo de João Mario, obriga Di María a correr como um louco, anula Rafa Silva, que quando recebe a bola as defesas já estão postas e o espaço entre zagueiros e volantes, seu habitual parque de diversões, deixa de existir porque a bola é recuperada longe do gol adversário. Neves, coitado, é obrigado a viver como Sísifo e empurrar morro acima a pedra que fatalmente voltará ao pé da montanha, e perde seu melhor, que é a pressão no campo de defesa adversário, onde rouba a bola e avança com ela ou encontra, com passes medidos, gajos com camisolas iguais àquela que veste em espaços em meio a defesas desorganizadas. 

Vieram dois clássicos: Sporting, pela Taça; e Porto, pela Liga, com a possibilidade de abrir 12 pontos de vantagem aos azuis. Ora com avançado, ora sem, o Benfica apostou em formações com o meio-campo leve demais para enfrentar duplas como Hjulmand e Morita ou Alan Varela e Nico González, de bom trato à bola e fortes no combate. O futebol, desde sempre, é a luta por espaços, e não é somente com atletas pouco afeitos à imposição física que o Benfica terá a bola para servir seus tipos mais habilidosos. Fosse mais eficaz, a goleada teria sido aplicada pelos leões, que jogaram como quiseram e só não marcaram mais porque foram perdulários. Os sinais, porém, não foram notados e o Porto, sabedor das mazelas das gentes encarnadas, jogou para juntar sua melhor característica - a agressividade - às maiores deficiências benfiquistas.

Aí Schmidt tem a desfaçatez de falar que o time se preparou da melhor forma. Desculpas, não as deve porque perder é do jogo e é preciso entender isso para tirar a carga negativa que toda derrota traz e perder, ora, não só faz parte como é um dia três resultados possíveis, mesmo que a malta que consuma o jogo - atentem-se ao verbo consumir, não por acaso escrito aqui - só admita vencer. Obviamente, ninguém entra em campo para perder. Clara também é a dependência de uma série de fatores para que goleadas como esta aconteçam entre equipas niveladas. 

Ninguém se prepara para fazer 5 a 0 em um clássico, como respondeu o treinador Rogério Ceni, do Fortaleza, após uma pergunta imbecil feita durante uma entrevista. No entanto, dificuldades além das naturais para um jogo deste tamanho eram previsíveis quando insiste-se no que deu errado e o adversário é o Porto, que é forte nos duelos, tem atacantes móveis e é rápido a atacar pelas alas, sobretudo contra jogadores improvisados e mal protegidos pelos alas ou pelos centrais, que tinham que se preocupar com os gajos de azul.

No fundo, somente um dos lados se preparou para o jogo. Sérgio Conceição minou os pontos fortes, como o espaço para Rafa e a possibilidade de Di María fazer a diagonal para bater no gol ou servir algum tipo de vermelho.

Era de se esperar, afinal.