segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A Portuguesa e o centenário sem ter nada


Quando "saí" da Portuguesa, em 2015, o plano era disputar a Libertadores em 2020, ano do centenário do clube. O time estava na Série C do Campeonato Brasileiro e a classificação ao mata-mata estava praticamente definida. Dali, bastava superar as quartas-de-finais, com o segundo jogo em casa, para subir à de 2016, mas quem ficou com a vaga foi o Vila Nova. Foi a última campanha algo perto de digna do clube, que caiu para a Série D no ano seguinte e, de lá, para um lento e continuo desaparecimento, como na foto do Marty McFly.

Foto: Alex Silva/Estadão

Veio um presidente com discurso novo, mas com atitudes que fedem a mofo. Veio jogador que não jogou porque só poderia estrear na segunda fase de um campeonato em que o clube não passou da primeira; veio veterano que indicava técnico e jogadores; veio consultor que foi embora porque não era consultado.


E veio 2019 com a última chance de ter um calendário nacional no ano dos 100 anos, mas as práticas não mudaram. Aliás, mudaram para pior. Brigou contra o descenso durante boa parte da Série A-2 do Estadual, e não passou da primeira fase na semi-amadora Copa Paulista pela segunda vez nos últimos três anos, com direito a técnico brigado com diretor de futebol, reforço que não estreou por causa dos salários atrasados, reforço que não ficou porque não tinha a menor condição de jogar, mandos de campo em outra cidade porque preferiam usar o Canindé para cultos, baladas e Festas Juninas. O resultado, óbvio, foi a lanterna de um grupo de seis, incluindo o Sub-23 do Corinthians, em que se classificavam quatro. 

As eleições estão marcadas para o fim do ano e o presidente fala em reeleição. Ou seja, com o futebol parado até janeiro do ano que vem (ano do centenário), não há a menor possibilidade de que se antecipe a escolha do próximo mandatário, mesmo porque o futebol nunca foi a maior preocupação dessa gente.

Não adianta evocar 2013 como muleta para todas as desgraças do clube desde então. Há que se trabalhar para que o clube centenário não vire só história. 

Como na foto de Marty McFly, a Lusa desaparece, lenta e dolorosamente, mas não há Delorean nem o Doc Emmett Brown para conduzir a Portuguesa de volta para o futuro.

sábado, 24 de agosto de 2019

Benfica 0 x 2 Porto - não foi por falta de aviso




Uma partida para se esquecer do Benfica contra o Porto. Ou melhor: uma partida para nunca se esquecer. Se houve um treinador feliz desde o começo, este foi Sérgio Conceição, que armou seu time para explorar os defeitos defensivos que a equipe da Luz apresentou em todas as partidas nesta temporada. 

Zé Luiz, um touro, dominou a dupla Ferro-Dias. Marega abriu em cima do desastroso Nuno Tavares, que tem sido o calcanhar de Aquiles encarnado na temporada. Luiz Diaz não deixou Florentino respirar, matando a saída de bola do Benfica, que tinha a posse, mas são sabia o que fazer com ela. Romário Baró ficou em Grimaldo, jogando Rafa para o meio, onde Danilo era rei e o que passava parava em Pepe. O resultado disso foi que o forte do Benfica de Bruno Lage, que são os corredores com Rafa e Pizzi, ficaram fechados. Como desgraça pouca é bobagem, o 21 fez, seguramente, sua pior partida em anos, muito em função de não haver quem combinasse jogadas com ele.

No segundo tempo, o Porto deu espaço e especulou, tendo em Pepe o melhor jogador em campo, anulando um inoperante Raúl De Tomas. Quando quis dar mobilidade no ataque colocando Chiquinho, Lage, que já tinha perdido Samaris por lesão, tendo que puxar Pizzi para a posição do 6, perdeu o 19, que sentiu a coxa e só fez número em campo. E poderia ser mais, não fosse a ruindade de Marega, típico caso de jogador que é melhor sem a bola e que precisou de duas chances claras para matar o jogo.

A lição que fica para Bruno Lage é que nem sempre será possivel vencer jogando mal como jogou. As vitórias por 5 a 0 sobre Sporting e Paços de Ferreira esconderam defeitos, sobretudo os defensivos de Nuno Tavares, e a conta chegou na primeira derrota do treinador pela Liga desde que assumiu o time no fim do primeiro turno do campeonato passado.

Para Sérgio Conceição, porém, pode ser a redenção que precisava para remontar o time, que perdeu peças importantes e nada melhor que uma vitória incontestável num clássico para fazê-lo em paz.

sábado, 17 de agosto de 2019

Os Belenenses SAD - 0 x 2 Benfica - defeitos do relvado e no relvado


Quando as coisas caminham mal, ou o caminho atrapalha ou o caminhante é quem tropeça. Podemos resumir assim o trabalho que o Benfica teve para vencer o único adversário que tirou pontos a Bruno Lage na época passada. 

Primeiro porque o gramado do Estádio Nacional estava um campo de batatas, e segundo porque a dupla de atacantes Seferovic e Raúl De Tomás poderia estar até agora a atirar bolas contra a baliza de Koffi, que nada aconteceria.

Em noites assim, os que estão em forma acabam por resolver, e são quatro os que o fizeram: Pizzi (que marcou o segundo), Vlachodimos (que impediu ao menos dois golos certos dos de Belém), Chiquinho (que deu outra cara ao time quando saltou do banco) e Rafa, o grande nome da jornada ao anotar o primeiro e dar o segundo a Pizzi.

Há que se ter cuidado com alguma inconsistência, sobretudo do miolo de zaga encarnado, que permitiu algumas hipóteses sem maiores resistências. E há de se enaltecer o trabalho de Florentino, há muito o grande ladrão de bolas do futebol português.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Lusa, 99 anos




São 99 anos sem o que comemorar, a não ser uma história rica, repleta de realizações e motivos para se orgulhar. São 99 anos em que, durante boa parte deles, as cores da bandeira portuguesa, dos nossos antepassados, foram honradas com suor, sangue e lágrimas, mas muito orgulho por tudo o que este distintivo representa. 
É bobagem falar que é o pior momento do clube, que pode fechar e o caralho a quatro. Tudo isso é muito claro. A Portuguesa de Desportos definha a cada decisão equivocada, a cada mostra de incúria, a cada diretoria incompetente, a cada minuto em que o descalabro virou normalização. A Portuguesa de Oswaldo Teixeira Duarte não merece a Portuguesa de Alexandre Barros, somente para ficar no mandatário atual. A Associação Portuguesa de Desportos é maior que tudo isso que está aí. 

Apesar de tudo, parabéns, Portuguesa. Que você sobreviva para o Centenário, aquele em que diziam trazer CR7, jogar Libertadores. Não, Portuguesa, não é hora de sonhar acordada. É hora de se manter viva. Faça isso por nós, que carregamos no peito esse orgulho que te mantém viva.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Benfica 5 x 0 Sporting - bastou meio tempo




Quem olha somente para o placar da decisão da Supertaça Cândido de Oliveira pode imaginar um Benfica que segue avassalador contra um Sporting completamente destroçado. Mais ou menos isso, mas mais para menos, principalmente no primeiro tempo, quando o Sporting apresentou argumentos para ir ao balneário com um ou dois golos à frente.

Ainda contando com Bruno Fernandes, que pode ter tido sua última aparição como leonino, a mudança notável dos comandados de Marcel Keizer era a presença do terceiro zagueiro, o ex-Zenit Luís Neto. O Benfica, por sua vez, fez seu primeiro jogo a valer sem o genial João Félix, e foi preciso reestruturar a equipe sem seu atacante de mais movimentação, por ora substituído por Raúl De Tomás, jogador de área como Seferovic, mas com menos mobilidade que o suíço.

Tais premissas indicavam um jogo parelho no Algarve, e foi isso o que aconteceu no primeiro tempo. As primeiras chances claras de gol foram do Sporting, que parou três vezes no ótimo Vlachodimos, como que o grego a dizer: "Não precisamos de outro guardarredes". Só no meio do primeiro tempo é que o Benfica ajustou seu time em campo, trazendo um pouco Pizzi para dar apoio a Nuno Tavares, que substituia André Almeida e que, pelo seu setor, era onde os de Alvalade conseguiam chegar com mais facilidade.

Sendo Seferovic o responsável por fazer a do agora jogador do Atlético de Madrid, foi preciso haver uma maior interação dos alas Pizzi e Rafa Silva. E foram justamente eles os grandes nomes da partida. O 21 bisou e deu um passe para o 27, que retribuiu com duas assistências para ele, além do gol que abriu os trabalhos já perto do intervalo. Observa-se aí o grande trabalho tático de De Tomás, que passou a ocupar os espaços que eram atacados por Pizzi.

O segundo gol benfiquista, no início do segundo tempo, evidenciou o maior dos problemas do Sporting: a falta de autoconfiança e poderio para reverter situações contrárias, a ponto de o comentador da RTP, no 3 a 0 apontado por Grimaldo, dizer que " o Benfica está a vulgarizar o Sporting". Um duro golpe para quem terminou a época passada confiante por ter sido campeão da Taça sobre o Porto.

Quanto ao Benfica, será preciso ter calma para perceber que o placar dilatado não pode esconder as deficiências que surgiram quando Pizzi atuou mais próximo dos atacantes, e que só não foram devidamente aproveitadas graças à atuação em grande plano de Vlachodimos. Seferovic não é João Félix, obviamente, e caberá a Bruno Lage encontrar, seja com RDT ou com Taarabt, uma forma de manter os encarnados com o equilíbrio visto na última época.

PS: feliz é o time que tem Rafa Silva.
PSII: sem Bruno Fernandes, o futuro desenha-se nebuloso em Alvalade.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

À Tite, Brasil conquista Copa América e seu treinador enfim volta a ter paz

YOU ARE THE CHAMPIONS Brasil, mesmo sem Neymar, conquista
 a nona Copa América de sua história (Foto: Vítor Caivano /AP)
Após a decepção causada pela Copa de 2018 sem brilho, Tite tinha como missão vencer a Copa América, fosse como fosse. Resolveu, então, dar uma bica no planejamento para o Mundial e garantir seu lugar sob o boné no Catar. Assim, convocou jogadores cascudos que, talvez, não cheguem em dezembro de 2022 (o evento foi transferido pela primeira vez para o fim do ano por causa das temperaturas desumanas do verão no Oriente Médio) em condições físicas, como Thiago Silva e Daniel Alves, dois dos três melhores jogadores da equipe na competição (o outro foi Gabriel Jesus, que, mesmo torto à direita, foi decisivo nas semifinais - talvez não tanto quanto a arbitragem - e na final - apesar da arbitragem). 
Com o cargo em risco e sem seu principal jogador, Neymar, o selecionador brasileiro gastou uma competição de importância secundária, na qual poderia, caso seu prestígio fosse o mesmo do pré-Copa da Rússia, fazer experimentos no ambiente de competição, que sempre é diferente de amistosos. Por isso, mudanças táticas foram quase inexistentes, e os nomes dos titulares, com exceção de David Neres, que realmente foi muito mal no jogo e meio em que atuou, só mudariam a partir do Departamento Médico. Obra do acaso ou da melhor distribuição em campo causada pelo fim das centralizações de jogadas em Neymar, o Brasil mostrou-se uma equipe mais sólida, embora pouco imaginativa por causa das opções táticas de Tite.   

A final com o digno time do Peru teve a cara do treinador brasileiro, assim como quase toda a competição: obediência tática, entrega e um ou outro brilhareco individual, o suficiente para conquistar o nono título da Copa América e manter a escrita de sempre vencê-la em território brasileiro, como já fizera em 1919, 1922, 1949 e 1989. Bonito ou não, pouco importa, como pouco será dito sobre a desastrosa arbitragem da decisão, que expulsou Gabriel Jesus sem motivo algum e marcou um pênalti  sobre Everton Cebolinha que nem Javier Castrilli marcaria. Mentira, aquele argentino desgraçado marcaria sim!

O Brasil abiscoitou todos os prêmios individuais: melhor goleiro (Alisson), artilheiro, melhor jogador da final (ambos para Everton Cebolinha) e craque da competição (Daniel Alves), e isso numa competição marcada pelo nível técnico nivelado por baixo, cujo grande jogo, entre Brasil e Argentina, não foi nenhum exemplo de partida para ficar na história. E olha que estamos falando de uma Copa América em que, exceto Neymar (que não fez a menor falta, diga-se), as seleções trouxeram seus craques (Sanchez e Vidal, pelo Chile; James com a Colômbia; os uruguaios Cavani e Suárez; e Messi). Ok, o Japão veio com o Sub-23 reforçado, mas também não é lá algo para se notar a ausência.


FEZ A LIMPA Todos os prêmios individuais ficaram com brasileiros, bem
como a taça de campeão e o troféu Fair Play (Foto: Mauro Pimentel/AFP)


O que interessa, de fato, é que o Brasil volta a conquistar algo relevante depois de quase 12 anos (o bicampeonato da Copa das Confederações não conta para uma seleção com tantos títulos) e Tite terá, enfim, fôlego para renovar a equipe que disputará a próxima Copa do Mundo, e também para corrigir o problema crônico de pouco criar contra times fechados. Para vencer na América do Sul foi suficiente; contra gente grande mesmo, são outros 500, mas seria muito rabugento de minha parte destacar isso poucas horas depois da conquista. De chato, basta o futebol da Seleção.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Para o gasto e sem o VAR, deu Brasil

BRILHANTE  Gabriel Jesus "renasceu" na Seleção (Foto: Eugenio Souza/AP)
Suficiente e letal. Assim pode ser considerada a atuação do Brasil na vitória sobre a Argentina, pelas semifinais da Copa América. Messi e Argentina fizeram seu melhor jogo na competição, o que não significa dizer que foram bem. 

Leia também:
A quadradabilidade da seleção de Tite

Da Albiceleste, o que dá para elogiar é a entrega, e só. Um catado de azul e branco, que não se armou para se defender porque não sabe e não atacou decentemente porque Messi não joga sozinho, e que tomou um gol patético, parando para pedir um pênalti (que não houve)* e com três jogadores desabando ao tentar tirar a bola de um Gabriel Jesus extenuado, quase se arrastando de cansaço. Ainda assim, o "time de Scaloni" acertou duas bolas na trave. 

Ainda sobre Messi: não se joga sozinho. Ele começa a jogada, passa a bola e o lance acaba. Contra uma defesa sólida, que não tomou sequer um gol no torneio, era preciso ter companheiros minimamente razoáveis, coisa que ele não tem.

Sobre o Brasil, uma partida com a cara de Tite: fria, calculista, sólido na defesa e com poucas chances de gol, mas com um aproveitamento exemplar. O Brasil fez um jogo burocrático, com Cebolinha e Arthur abaixo, mas com Gabriel Jesus brilhante (e sacrificado outra vez pela teimosia do treinador) e Daniel Alves fazendo uma partida gigante, de almanaque, de contar para os netos. Quiçá, a melhor exibição com a camisa da Seleção do jogador mais titulado da História do futebol.

Pode não ter sido vistoso, e não foi mesmo, mas jogos como estes não são feitos para que o brilho apareça, e sim a entrega, e, convenhamos, isso não faltou de parte a parte, quer pelo burocrático Brasil de Tite, quer pela tragicômica Argentina de ninguém. 

Enfim, um Brasil x Argentina raramente é um jogo excepcional e o Brasil teve o desempenho que se espera num jogo desses. Se pensarmos em atitude, todos foram brilhantes, pois não afinaram, não tiraram o pé. Assim, encaminhou uma vitória importantíssima.

**

*PS. "Una VARbaridad". Esta é a manchete do Diário Olé, o principal jornal de esportes argentino. Vi os lances reclamados pelos argentinos após o jogo, no programa Linha de Passe, da ESPN. Eles têm razão. Daniel Alves faz um pênalti gigantesco no início da jogada do segundo gol do Brasil, que não teria acontecido caso tivesse sido marcado. Messi poderia perder, poderia cair num buraco na hora da cobrança, poderia ter sofrido um enfarte, uma porção de coisas, mas o pênalti deveria ter sido marcado. Antes que falem em interpretação, não era para isso. Foi pênalti em todas as interpretações possíveis. O segundo, do Arthur no Otamendi, também foi, mas o placar já estava praticamente definido. O VAR é uma vergonha e foi desmoralizado porque o péssimo juiz central simplesmente não quis ver o vídeo. Se o VAR avisou que não houve nada de anormal, fechem as portas e abandonem o recurso. 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A quadradabilidade da Seleção de Tite

E AÍ, PROFESSOR? Time previsível pelas escolhas convencionais do treinador,
que passou de Midas a contestado (Foto: Juan Mabromata/AFP)
Um chute no gol em 100 minutos de jogo. UM CHUTE! Um Brasil burocrático e bagunçado, com um técnico previsível, com jogadores fora de posição e com muito o que explicar na coletiva. VAR (essa desgraça do futebol moderno) à parte, o Brasil não mereceu vencer a boa Venezuela, armada para se defender bem e que, com uma boa dose de coragem, poderia ter feito história em Salvador.

Leia também:
Os reis da Europa


Taticamente o Brasil se comportou bem sem a bola, com recomposição rápida e pressão no campo de ataque para recuperar a bola rapidamente. Mas o que fazer quando se tem a bola? Tite armou um time quadrado, com pouca movimentação e com jogadores em posição errada. Com pouco tempo para treinar, seria interessante aproveitar as características possíveis de serem aglutinadas, como o posicionamento de Roberto Firmino um pouco mais recuado, jogando atrás do outro atacante. 

Comparando com outra seleção só para aproximar as condições, Fernando Santos mudou o jeito de Portugal jogar durante a Eurocopa e também na Liga das Nações. A coincidência foi ter ganho ambas. Na Euro, Portugal empatou os três jogos na primeira fase, com direito ao maior número de finalizações e segunda posse de bola, mas com pouca efetividade. Na Liga das Nações, quando ele recuou Bernardo Silva e Gonçalo Guedes, Portugal voltou a ter a bola, mas com jogadores melhores pra isso.

Em ambos os casos, a qualidade do jogo apareceu nisso, e em direções opostas, mas guiado pelo que poderiam entregar em campo. Obviamente que não é o caso de o Brasil passe a jogar como na época de Dunga e volte a especular, pois não é esta a característica do nosso jogo, tampouco dos jogadores à disposição, mas, até aqui, Tite não se mostrou à vontade para modificar a forma de jogar. Contra a Vinotinto, fez três substituições: Richarlison por Gabriel Jesus, Casemiro por Fernandinho e David Neres rendido por Everton Cebolinha. Trocando em miúdos, três trocas simples, com jogadores com características parecidas para executarem a mesma função dos substituídos.

SEIS POR MEIA DÚZIA Alterações somente nos nomes, não na forma de jogar
Tite, durante a coletiva, disse que não dá para esperar que, na troca de volante por meia, as coisas mudem por um "passe de mágica" e que é preciso haver uma estrutura tática que propicie isso. Ora, qual o trabalho do treinador, que não este? Qual é a função do comandante, além de encontrar uma maneira de fazer o meio-campo, setor fundamental para quem tem a bola como o Brasil tem, organizar o jogo e fazer com que os atacantes sejam servidos, ou, em outra situação de jogo, fazer com que os espaços surjam contra equipes fechadas?

Não se trata do mítico “camisa 10”, esta instituição sumida no futebol brasileiro, e sim de fazer o negócio funcionar, o jogo fluir, os volantes aparecerem na frente.  Como na Copa, Tite se agarra às suas convicções. Coutinho vai mal, Casemiro vai mal, Tite vai mal.
Um chute no gol em 100 minutos, apesar da posse de bola de 70%, mas 37 cruzamentos na área, o que explica o meio-de-campo insosso. Se o frio torcedor paulistano que foi ao Morumbi não apoiou na estreia, em Salvador nem o "axé dos baianos" resolveu.

domingo, 9 de junho de 2019

Os reis da Europa

VOLTE SEMPRE, PÁ! Contra a freguesa Holanda, Portugal é campeão
 novamente na Europa (Ivan Del Val/Global Imagens)
 


A Europa veste-se de verde e vermelho novamente! E com brilho, domínio e a classe que a excelente safra permite ter. Portugal, um campeão que soube sofrer em Saint-Denis, há quase dois anos, desta vez foi senhor do jogo contra uma Holanda em reconstrução, mas que já  havia deixado Alemanha e França para trás, na fase de grupos, e a perigosa Inglaterra, já nas semifinais.

Há muito tempo que Portugal não fazia uma partida tão boa. Se houve apenas Cristiano contra a Suíça, no gramado do Estádio do Dragão havia de vermelho um time inteiro, coeso, forte e dono do jogo. Fernando Santos abriu mão de um 4-4-2 sem maiores efeitos nas semifinais e colocou um time no 4-2-3-1, com Cristiano Ronaldo mais à frente, Gonçalo Guedes e Bernardo Silva buscando mais o jogo e dando espaço para Bruno Fernandes finalmente fazer um jogo à altura da temporada que teve pelo Sporting. 

Leia também:
Cristiano e Ronaldo, os responsáveis pela classificação portuguesa à final da Liga das Nações

O primeiro tempo terminou com 12 finalizações portuguesas contra nenhuma da Holanda, que tinha a bola, mas não conseguia passar pelas duas barreiras armadas com as duplas William Carvalho/Danilo Pereira e José Fonte/Rúben Dias, muito em função de De Jong não ter espaço para fazer fluir o jogo holandês. Na única vez em que os de Koeman conseguiram concluir no gol, na cabeçada perigosa de Depay, Rui Patrício estava atento, como também estivera no quase gol contra de Rúben Dias. Fora isso, outro chute que passou muito perto do travessão. E mais nada. A essa altura, Portugal já vencia com um golaço de Gonçalo Guedes, completando excelente jogada de Bernardo Silva, o melhor em campo.

Quando Koeman tentou corrigir a falta de profundidade de seu time ao colocar o centroavante Luuk de Jong dentro da área portuguesa, Fernando Santos respondeu lançando Rafa Silva, que tocou o terror na excelente defesa holandesa, e João Moutinho, que terminou de controlar o jogo a ponto de William Carvalho se transformar no homem dos contragolpes (algo que precisa ser corrigido para as próximas jornadas).  

Finalmente, Fernando Santos mostrou ser capaz de armar um time que privilegie seus melhores jogadores, e Bernardo Silva fez sua melhor partida pela Equipa das Quinas, assim como Bruno Fernandes, a maior das dores de cabeça para Ronald Koeman. Não houve quem vestisse vermelho e saísse do gramado do Dragão sem ter brilhado intensamente. 

Não me importa se é a primeira Liga das Nações, se não sabemos se o torneio será relevante. O que conta para a história é que Portugal foi campeão outra vez, a primeira delas em casa. Quem perde é que desdenha, como a raposa e as uvas de Esopo. E de uvas, meus amigos, ninguém na Europa entende mais do que nós.

Obrigado, Portugal! Somos campeões outra vez!

Rui Patrício: na única bola que foi ao gol, fez uma defesa brilhante;
Nélson Semedo: não apoiou, mas engoliu Babel e quem mais aparecesse pelo seu setor;
José Fonte: um gigante em campo;
Rúben Dias: cada vez mais à vontade em campo com a camisa de Portugal. Partida simplesmente perfeita;
Raphael Guerreiro: jogou em seu melhor nível, o mesmo que apresentou na Eurocopa;
William Carvalho: é um dos três melhores volantes do mundo (
Rúben Neves: entrou só para gastar o tempo, já nos acréscimos);
Danilo Pereira: a quem quiser achar Wijnaldum e De Jong, é só procurar nos bolsos do volante do Porto; 
Bruno Fernandes: um monstro em campo. Parecia estar com a camisa do Sporting (João Moutinho: entrou quando era preciso ter o controle do jogo. A Holanda acabou a partir daí);
Bernardo Silva: finalmente fez por Portugal o que faz jogo sim, jogo também, pelo Manchester City;

Cristiano Ronaldo: sem Boulahrouz ou Payet para tirá-lo de campo à base da pancada, fez uma rara partida em que jogou demais e não fez gols;
Gonçalo Guedes: jogou com se estivesse com a camisa do Benfica por baixo da de Portugal. Entrou para a história como o herói improvável do gol do título, assim como fora Eder contra a França em 2016 (Rafa Silva: nos 18 minutos em que esteve em campo fez mais que todos os jogadores holandeses de linha juntos. Tocou o terror na afamada dupla De Ligt/Van Dijk).  

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Cristiano e Ronaldo, os responsáveis pela classificação portuguesa à final da Liga das Nações

MAIS TRÊS Sem forçar muito, Cristiano Ronaldo coloca
 Portugal em mais uma final (José Coelho/Lusa)

Admito a hipótese de a Liga das Nações não valer lá muita coisa, mas, se tem Portugal em campo, vale e vale muito! Talvez não tenha valido a pena Fernando Santos escalar um time com tantos pés pensantes (Cristiano, João Félix, Bernardo Silva, Bruno Fernandes e Rubem Neves) e colocá-los quase estáticos, partindo basicamente de bolas longas para Cristiano ver se saía algo que prestasse. E por 88 minutos não saiu, exceto pelo golaço de falta que ele mesmo sofreu ainda no primeiro tempo. 

A Suíça foi superior durante quase o tempo todo, mas faltou brilho ao quarteto Shaqiri, Xhaka, Zuber e Seferovic. A Portugal faltou Fernando Santos ousar um poucochinho só. Ele deve ter um bom motivo pra manter seus quatro jogadores de frente presos, eu só não entendi ainda qual é. 

Por sorte, Cristiano Ronaldo foi Cristiano Ronaldo em sua melhor versão e definiu o negócio com três gols, interrompendo a incômoda sequência de quatro empates (dois pela Liga das Nações, e dois pelas Eliminatórias para a Euro 2020), que já fazem os mais ressabiados torcerem os bigodes. Como gosta de empatar este Portugal de Fernando Santos.

É irritante assistir aos jogos de Portugal, sobretudo quando o adversário fica todo atrás, obrigando os campeões da Europa a saírem da zona de conforto, ou quando resolve adiantar a marcação, obrigando os campeões da Europa a saírem da zona de conforto com o mínimo de organização e qualidade, o que não deveria ser um problema para quem tem jogadores como William Carvalho, João Moutinho, Rúben Neves e Pizzi. Mas tem sido porque os jogadores de frente pouco se movimentam e, não raro, um dos trincos busca a ligação direta, quando os armadores deveriam se aproximar para abrir espaços aos que vêm de trás. A Suíça sufocou a saída de bola enquanto teve pernas e pulmões para isso, e Portugal só garantiu a vaga após 88 minutos, dos quais, em pelo 60 esteve abaixo do adversário. 


VAR à parte, para bater a Suíça foi suficiente. Para a final de domingo, seja contra a Inglaterra ou contra a Holanda dos superzagueiros De Ligt e Van Dijk, talvez só Ronaldo não baste.

Avaliações:
Rui Patrício:
a mesma segurança dos últimos anos;
Semedo: marcou bem, mas não se aventurou no ataque;
Pepe: partida gigante. Saiu machucado (entrou Fonte, mas graças a Deus nem foi notado);
Rúben Dias: joga mais pela Seleção do que pelo Benfica. Grande jogo;
Raphael Guerreiro: tímido em campo, não comprometeu, mas não fez nada digno de nota;
William Carvalho: errou mais passes que pai de santo em má fase, mas foi o dínamo de sempre no meio;
Rúben Neves: um chute bisonho, algumas bolas longas inclassificáveis, mas conseguiu controlar o jogo quando a Suíça empatou e parecia querer graça;
Bruno Fernandes: Ainda não foi desta vez que justificou a titularidade (entrou João Moutinho, que poderia ter entrado mais cedo);
Bernardo Silva: outra vez, foi sacrificado pelo esquema de Fernando Santos. Ainda assim, conseguiu criar boas situações, inclusive dando o passe do segundo gol;
João Félix: triste estreia, apesar do pênalti por marcar. Pode muito mais do que fez. Poderia ter jogado um pouco mais recuado, mas isso é lá com o mister (entrou Gonçalo Guedes: jogou mais longe da área, onde não corre o risco de perder golos);
Cristiano Ronaldo: três gols. Não é preciso dizer mais.
(Foto: José Coelho/Lusa)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Sobre Neymar, estupro e calúnia



E lá vamos nós falar de Neymar outra vez: a acusação de estupro é pesada, mas, até que se prove, ele é inocente. E a prova cabe a quem acusa, como em qualquer caso, em qualquer crime. No entanto, o vídeo que ele postou para desqualilficar a acusadora é de uma baixeza inacreditável. E que não venham falar de mal assessoramento, pois é o tipo de coisa que não precisa que alguém peue pela mão e diga para não fazer. 

Ele expõe a suposta vítima numa rede social em que inúmeros de seus seguidores são crianças, além de cometer crime cibernético ao divulgar fotos dela sem seu consentimento. Crianças viram e leram um conteúdo que não lhes diz respeito, e sem precisar ir atrás disso. É uma invasão, uma canalhice. 

Ao agir como agiu, o que Neymar buscou não foi a absolvição. Ele jogou a moça aos leões, como se fosse uma qualquer que buscou se aproveitar dele, arrancar uma grana do inocente rapaz. Mais que isso: dentro de uma cultura em que existe a predisposição de colocar a culpa na vítima - novamente: se é que há uma vítima na acusação de estupro -, é muito cômodo e fácil tentar a inversão dos pepéis. 

Naturalmente, Neymar contou com o julgamento pré-concebido de que ela não foi a Paris só pra passear, que sabia muito bem o que queria e o que a esperava no quarto com ele. Mesmo que teha sido o caso, não é não em Paris, em São Vicente, em Mogi das Cruzes ou no raio que os partam. Se há algo de errado no encontro "amoroso" -mesmo que não haja-, os dois fizeram. 

Se não houve o estupro, Neymar é vítima, mas a atitude que tomou para livrar a cara é um erro já de antemão. Sem a gravidade da violação, claro, mas um não exclui o outro. E, obviamente, a sua permanência com a Seleção que disputará a Copa América nem deveria ser discutida. O corte já deveria ter sido anunciado.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Redenção e decepção - o fim da temporada de Sporting e Porto no Jamor




Foi verde e branco o sorriso ao fim da época do futebol português.  Outra vez nos pênaltis,  outra vez sobre o Porto, outra vez com o Sporting a levantar o troféu  no duelo com Sérgio Conceição,  que conheceu o quinto infortúnio nas grandes penalidades como treinador, o quarto pelo Porto, que venceu a última disputa desta natureza em 2010.

Se voltarmos no tempo em um ano, veremos que este foi o desfecho mais improvável do lado lusitano da Península Ibérica. O Porto havia recuperado ao Benfica a hegemonia do futebol português e deixava encaminhada uma temporada de afirmação após o inédito tetra encarnado, ao passo que o Sporting ardia em chamas na invasão a Alcochete, que fez entrar para a decisão no mesmo Val do Jamor praticamente derrotado pelo Desportivo das Aves, cenário que acabou por confirmar-se da forma mais catastrófica possível com a perda do troféu e de nomes influentes do elenco, como Gelson Martins, William Carvalho, Rui Patrício e  Bruno Fernandes. Destes, somente o último ficou. E o fez para ser o nome da redenção leonina.
Adiantemo-nos meia época. Líder prestes a engatar a maior sequência de vitórias da história do futebol português e, novamente,  único representante do país na segunda fase da Liga dos Campeões, cumpria-se uma "época à Porto" e tudo levava a crer que o time de Sérgio Conceição, caminhando bem nas três frentes em que militava, somaria mais taças ao seu já avantajado palmarés de conquistas. Foi justamente em um empate vulgar contra o Sporting no José Alvalade, na última jornada do primeiro turno, que a turma portista começou a perder terreno, vendo cair de sete para cinco pontos a vantagem sobre um Benfica que viria a ser imparável na Liga e que seria campeão com uma segunda volta demolidora.

A contar para a Taça da Liga, ainda houve tempo para os dragões imporem a primeira derrota às águias de Bruno Lage, mas pavimentaram o caminho apenas para serem superados pelos leões de Marcel Keizer após estarem a vencer até o final da final, quando Bast Dost, aos 92, salvou sua equipe e levou a decisão aos penais. Se naquele jogo Fernando Andrade fez o tento azul e branco e por pouco não vestiu a capa de herói, no Jamor serviram-lhe justamente as vestes de vilão numa altura em que foi preciso o esforço dos do norte para esticarem, graças ao gol do zagueiro Felipe já além do minuto 120, a discussão para os pênaltis. E foi ele quem viu sua cobrança parar em Renan Ribeiro depois que Bast Dost e Pepe já haviam encontrado a barra nas suas cobranças.




Termina uma época da forma que nem o mais otimista sportinguista, nem o mais alarmista dos portistas, poderiam imaginar. Aos perdedores, fica a lição de que é possivel recomeçar sem Militão, Felipe, Herrera e Brahimi, que se despediram-se do Dragão.  Aos vencedores, vencer as duas taças na mesma temporada pode ser o incentivo que faltava para buscar a reafirmação com o título da Liga, que, nos últimos 30 anos, foi apenas duas vezes para o José Alvalade, mas possivelmente sem o capitão Bruno Fernandes, de partida para o futebol inglês.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

23 sem novidades para a Liga das Nações

ARRISCAR É PRECISO Cabe a Fernando Santos fazer a máquina
funcionar também com a bola (Foto: Global Imagens)


Ao convocar para as semifinais da Liga das Nações 23 dos 25 jogadores que estiveram nas duas partidas das Eliminatórias da Euro 2020, o treinador de Portugal Fernando Santos deixa claro: está satisfeito com o que foi apresentado nos empates contra Ucrânia (0 a 0) e Sérvia (1 a 1). Se o rendimento dentro de campo melhorou notavelmente entre as partidas, escapando a vitória na segunda partida somente pela má atuação do árbitro, deixar de fora somente o machucado André Silva e o meia João Mário, vindo de péssima temporada pelo West Ham e, depois, pela Internazionale, mostra que o leque não é tão aberto quanto se propaga.
Sem surpresas na baliza, Rui Patricio deve seguir como dono absoluto da camisa 1, rivalizado pelo experiente Beto e pelo terceiro guardarredes da vez, José Sá. Aqui, a concorrência nem é tão grande assim, o que não se pode falar da lateral direita.

As dúvidas que pairavam sobre João Cancelo e Nelson Semedo eram mais sobre as questões físicas do que propriamente técnicas. As crias do Seixal vêm de recuperação de uma cirurgia para reparar uma fratura no nariz, que é o caso do juventino, ou de uma parada breve ao fim do Campeonato Espanhol, no qual Semedo não foi titular incontestável. Correndo por fora, Cédrid perdeu o pouco espaço que tinha na Inter de Milão e Ricardo Pereira, eleito para o Mundial e em grande no Leicester, acabou à margem, como também o foi André Almeida, vindo de magnífica campanha pelo Benfica, a ponto de poder reivindicar uma nova convocação depois de quatro anos.

Se sobram bons nomes, no outro extremo do eixo defensivo o pé de obra qualificado é mais escasso: Raphaël Guerreiro, mais meia do que ala, e Mário Rui, de temporada difícil no Napoli e que segue chamado por falta de competidores, são os preferidos. Uma opção, mas que ainda não foi testada, é Diogo Dalot, que está com a Seleção Sub-20 na disputa do Mundial da Polônia e que se destacou com a camisa do United.

No miolo de zaga, o grande erro do mister Santos: ter chamado somente três jogadores, dois quais dois, Pepe e Fonte, pela idade avançada, já não dão garantias de que chegarão em forma à Euro. Aqui caberia observar o benfiquista Ferro, ainda mais com o caráter quase amistoso da competição.

Do meio para a frente, jogadores não faltam. A safra é excelente e poder-se-ia montar outra equipe apenas com médios e avançados que ficaram à margem, como Nani e Quaresma (contam menos anos que Pepe e Fonte), ou João Mário, Bruma, Florentino, Adrien Silva, Gelson Martins, André Gomes, Renato Sanches, André Silva, Ederzito, Rony Lopes e Helder Costa. Com Danilo e William Carvalho em grande plano, Ruben Neves à espreita ao lado do companheiro de Wolverhampton João Moutinho, o “Engenheiro do Penta” ainda conta com Pizzi e Bruno Fernandes, que acabaram de cumprir exuberante temporada e são, respectivamente, o melhor passador para gols e o meia mais artilheiro da Europa. Não é pouca coisa. 

No setor mais ofensivo, onde o trio que ajudou a derrotar a França na Euro (Eder, Nani e Quaresma) deixou de ser opção, Cristiano Ronaldo segue rei incontestável e tem grandes companheiros: Bernardo Silva, o pé pensante e faz-tudo de Guardiola no City, Gonçalo Guedes, outra vez em destaque no Valência, e João Félix, a joia mais cobiçada da janela europeia e ainda à espera por debutar pela Seleção A. O valente Dyego Sousa, o recuperado Rafa e o multifuncional Diogo Jota, que completa o quarteto anglo-lusitano dos Wolves a serviço da Seleção, completam o leque de opções para a fase aguda da mais nova competição de seleções da Europa.

O único senão é o pragmatismo quase cego de Fernando Santos, que até agora foi incapaz de fazer seus dois principais jogadores, Cristiano Silva e Bernardo, funcionarem juntos. Fernando Santos colocou seu nome na história do futebol português ao ser campeão europeu, mas não pode fiar-se definitivamente numa única conquista que se deu sob circunstâncias que dificilmente se repetirão.

Na Eurocopa, a tática de dar a bola e esperar deu certo, mas para isso é preciso ser atacado, coisa que Inglaterra ou a Holanda certamente farão, mas ainda há uma perigosa Suíça antes, e o próximo adversário, que disputou com Portugal ponto a ponto a vaga direta à Copa da Rússia, não apostará em um jogo franco.

Ser campeão europeu aumentou o patamar e a responsabilidade de Portugal, que se não tem um grupo de primeiríssimo nível, tem jogadores capazes de montar uma equipe competitiva e que permita sonhar com novas insígnias de campeão na camisola. Mais que navegar, acreditar também é preciso.

sábado, 18 de maio de 2019

A reconquista


Quando Bruno Lage assumiu o comando do Benfica, a diferença para o Porto era de sete pontos, e ainda havia Sporting e Braga a separá-los na tábua de classificação. Para complicar, os do norte eram os atuais campeões, lideravam seu grupo na Liga dos Campeões, prova na qual o Benfica caiu com estrondo na primeira fase, e estavam a dois jogos de baterem o recorde nacional de vitórias consecutivas (19), do próprio Benfica. Como se não bastasse, os cinco adversários mais bem colocados na tabela – Braga, Moreirense, Porto, Sporting e Vitória de Guimarães – seriam enfrentados em seus redutos na segunda volta, que começaria três rodadas depois.
Não era, pois, uma missão das mais fáceis à turma encarnada a reconquista do título que escapou na temporada que seria a do inédito penta. Quase uma utopia, inclusive para mim. Aí veio Bruno Lage e as ideias arejadas de quem passou um bom tempo a respirar os ares do futebol inglês no Swansea, de Carlos Cavalhal.

A primeira missão foi recuperar jogadores desmoralizados no plantel, como Gabriel e Samaris, e fazer subir Ferro, Florentino e Jota dos bês, de onde já havia saído o novo titular João Felix, ao passo que Sporting e Porto iam às compras.

Só quem tem na alma a chama imensa acreditaria que, quatro meses e meio depois, um empate bastaria para o 37 e apenas um gol seria preciso para chegar aos 100 na prova, algo que aconteceu pela última vez pelos lados de Cosme Damião quando o Pantera Negra ainda rugia na Europa. Claro que a inconstância de Braga e Sporting, mais os quatro tropeços do Porto, ajudaram, mas a marca de 18 vitórias e 72 gols em 19 partidas não deixam dúvidas sobre quem foi o grande time da época.

Para além de recuperar mais valias no elenco e abrir espaço para novas, também era claro que nomes como Rafa e Pizzi precisavam voltar a brilhar. E Bruno Lage assim o fez ao mudar o 4-3-3 habitual para o 4-4-2, que fez seus comandados gostarem de ter a bola mais que qualquer adversário. Salvio se machucou, Cervi, Krovinovic e Zivkovic perderam espaço e Pizzi, que era quase um terceiro trinco, saiu do meio e virou o extremo, mais próximo dos atacantes a ponto de ser o maor passador para gols da Europa. No corredor central que era do General, Rafa finalmente fez sua grande temporada desde que chegou do Braga após ajudar Portugal a conquistar a Europa em gramados franceses em 2016. Promover o brasileiro Gabriel a organizador de toda a malta a partir do círculo central foi a grande mudança tática de um time que deixou de pensar pouco quando havia a bola ao pé ainda na intermediária, marca que vinha desde Jorge Jesus, a uma equipe que bastava para si ter a bola para buscar oportunidades.

Com Jonas às voltas com problemas físicos, coube ao miúdo João Felix fazer Portugal render-se ao novo prodígio do país. 19 anos, frieza de veterano e atributos de craque que precisam ser lapidados, como a finalização e a tomada de decisão, mas, como diria Rui Vitória, o talento lá está. Como também esteve nos garotos que tomaram conta do onze com a temporada de afirmação do já internacional Ruben Dias e de duas joias que logo pedirão passagem na Seleção e nas grandes ligas europeias, Ferro e Florentino, que, ao lado do “novo menino bonito da Luz”, formaram a trinca de principais revelações da competição.

Se Luiz Felipe Vieira errou na formação do elenco que perdeu o penta, acertou em cheio quando resolveu que era a vez dos miúdos e que Jorge Jesus não era o nome ideal para tocar o projeto rendendo Rui Vitória, mas sim o Bruno Lage que conhecia bem o que florecia no Seixal, terreno que também ajudou a fertilizar. O resultado aí está: a melhor campanha do returno da história do futebol nacional, 103 gols marcados e um futebol vistoso em quase todo o tempo, algo que raramente aconteceu no histórico, mas enfadonho, tetracampeonato português, quando a época de sofrimento contra os grandes era recompensada com o trofeú erguido ao fim. Desta vez, ser campeão foi apenas a consequência de um trabalho fantástico de um time que dá gosto aos pés de seus jogadores e aos olhos de toda a malta que veste vermelho com a águia ao peito em Portugal e no mundo.

Meu pai partiu uma semana depois de o Benfica perder em casa para o Porto, praticamente ficando de fora da briga pelo título na temporada passada. Quando o jogo com o Santa Clara acabou, pela primeira vez eu comemorei um troféu sem tê-lo ao lado, mas ainda assim eu tive a certeza de que ele estava a dizer ao pé de mim o mesmo que falou quando fomos campeões da Europa em 2016: "Somos campões, caralho!". Sim, meu pai, somos campeões.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Sidão, Rede Globo e a quinta série



Ao entrar em campo para o jogo com o Santos, Sidão era mais que o Sidão. Era o Sidney Aparecido Ramos da Silva, 36 anos, que perdeu a mãe aos 18 e que, naquele Dia das Mães, tinha o nome da dona Vera Lucia na camisa. Ele entrou em campo disposto a dedicar a partida à sua memória e, ao fim do jogo, certamente só tem motivos para esquecer este dia.

Leia também:
Preocupante, mas com melhoras - Portugal 1 x 1 Sérvia

Nem tanto pela atuação ruim. Não foi a primeira, não será a última, tampouco foi o único a passar por isso. Porém, a humilhação à qual foi submetido por causa da desastrosa e desastrada ação da Rede Globo, que deu o direito ao “amigo internauta” decidir o “craque do jogo” e, mesmo diante de uma clara demonstração do quanto o brasileiro é galhofeiro, resolveu ir até o fim de “premiar” o jogador.

Não fosse por isso, seria um jogo que em três ou quatro anos pouca gente se lembraria. Trivial, com um Santos bem treinado e triturando o que sobrou do Vasco da Gama, o desempenho dos times era previsível e, mesmo sem o erro do primeiro gol, o Peixe tinha tudo para vencer com relativa facilidade.

A atuação de gala de Rodrygo e a pavorosa exibição do time da Cruz da Ordem de Cristo ficaram em segundo plano diante do embaraço da repórter Julia Guimarães e da resignação de Sidão. Duas vítimas da falta de tato de quem deu a ordem de entregar a tal honraria.

Já houve quem dissesse que o goleiro errou ao abandonar a entrevista ou que a jornalista deveria se recusar a fazê-lo. É fácil falar quando o julgamento será feito de qualquer maneira. Mas a questão é que quem julga é, na verdade, o grande culpado.

Vivemos uma era de idiotização constante, em que tudo é razão de chacota, mesmo que o preço seja a humilhação. Um dia de trabalho ruim é motivo de riso, como se quem faz troça não estivesse sujeito a isso. É como a assistência que ia às arenas sedenta de ver o polegar apontado para baixo. De um modo geral, quem colaborou com isso não é muito diferente deles, à espera de uma falha para fazer o movimento giratório e virar o dedão para o chão, fazendo dos atletas a nova versão dos cristãos a serem servidos aos leões.

Só que o torcedor - e só o torcedor - pode. Pode e é bom que faça, para o bem do próprio esporte. Não, não estou relativizando. Desde que não haja crime de injúria racial, homofobia ou de qualquer outra espécie, o sujeito que paga o ingresso pode provocar o adversário para tentar desestabilizá-lo. Ora, eu mesmo fui uma das vozes que gritaram que o Junior Baiano tinha afundado a Seleção em um Portuguesa x Palmeiras de 1998, poucos minutos antes de o zagueiro fazer o gol da virada – e da vitória – palmeirense por 3 a 2. É do jogo e acabou ali.

O problema existe quando quem deveria mediar a situação abraça os urros que vêm das redes sociais. Por mais que a Globo tente, o futebol é um produto jornalístico, não do Departamento de Entretenimento da emissora, e deve ser tratado com o mesmo cuidado que é tomado quando uma informação é trabalhada. Quando parte da imprensa dá os braços para o jornalismo engraçadinho, o que se vê é aquele espetáculo deprimente de pós-jogo do Pacaembu, como já havia acontecido com o também goleiro Muralha, outra vítima da perseguição travestida de deboche.

Repito: a troça cabe ao torcedor. Por mais leve que possa ser, o Jornalismo deve primar pela responsabilidade. Assusta saber que o movimento que “elegeu” Sidão ganhou força a partir desses perfis que se dedicam a tirar o sarro de todo mundo, mas que, desgraçadamente, formam opinião o suficiente para reverter a palhaçada em 90% dos votos. Faz parte, ainda mais com o aspecto e o espaço para a diversão existente na rede. Que isso, no entanto, fique restrito a elas. À imprensa, sobretudo à Rede Globo, que o episódio sirva de exemplo para abandonar coisas do tipo Inacreditável Futebol Clube e outras dessas bobagens que vivem da exposição alheia para agradar quem pensa que a verdade do mundo se resume ao YouTube, ao Desimpedidos e aos programas do Danilo Gentili.

sábado, 4 de maio de 2019

Benfica 5 x 1 Portimonense - sorte de campeão



O Benfica fazia um jogo pavoroso na Luz contra um Portimonense que caprichou no direito de perder gols. Se o adversário dos encarnados tivesse um jogador meia boca no ataque, teria virado com pelo menos três de vantagem e o título cairia no colo do Porto. Com Pizzi e Grimaldo bem marcados e Rafa não tendo o apoio do espanhol para fazer do corredor central o seu quintal, os armadores ficaram distantes do apagado João Félix e do atrapalhado Seferovic, e o primeiro tempo foi de dar sono - e medo, muito em função do fato de os de Portimão adiantarem cinco ou até seis elementos ao campo de ataque. 

No segundo, o mesmo fado, mas com os portimonenses aproveitando uma pane geral da defesa encarnada para Tabata limpar Odysseas e fazer 1 a 0, o que quase virou uma tragédia quando os visitantes desperdiçaram o segundo com Paulinho, logo em seguida.

Aí saiu Samaris e entrou Jonas, com Pizzi recuando até o setor do grego e o brasileiro centralizado, e isso só seria possível se Florentino, de 19 anos e não fazendo uma prestação das melhores, segurasse o rojão. Um minuto depois, balão de Jardel pra frente e o zagueiro Lucas cochilou o suficiente para Rafa roubar-lhe o doce e empatar. Logo depois, Seferovic recebeu em condição legal, tirou o goleiro do gol e deu pra Grimaldo brigar para Rafa marcar o segundo, com o gol aberto.

O jogo voltou a ficar complicado quando Paulo Henrique entrou para pressionar Pizzi na saída de bola (e dois erros seguidos, com Grimaldo e Ferro, devidamente socorridos por Odysseas e Jardel), forçados pela marcação alta do Portimonense. Aí entra o mérito de Bruno Lage: João Félix saiu, Gedson entrou e Pizzi, o melhor em campo, voltou à posição de extremo. Assim, Seferovic desencantou, marcou dois e deixou o Benfica com quase todos os dedos na taça, a quinta em seis temporadas. Ainda teve tempo para Jonas, que entrou bem demais, escorar cruzamento perfeito do excelente André Almeida e marcar seu 300º gol na carreira - o de número 137 com a águia ao peito.

A ponderar: i) foram 30 minutos de futebol decente: ii) Seferovic é medonho, mas é taticamente importante; iii) Florentino é jogador para ser titular de qualquer time do mundo. Qualquer um; iii.a) e o mais importante: seremos campeões outra vez!