quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Guto Ferreira merece respeito no país que frita treinadores



Guto Ferreira foi campeão da Copa do Nordeste. E venceu jogando à bola, que é um aspecto que nem deveria ser cobrado logo após o retorno do futebol. Reforço que é uma sandice voltar com as competições, ainda mais com os protocolos sendo feitos de qualquer jeito, e sendo descumpridos assim, de tudo que é jeito.

Mas a discussão nem é se poderia ou não ter futebol agora, e sim sobre o trabalho do treinador. Guto conquistou sua segunda Copa do Nordeste (a primeira foi em 2017, com o Bahia, que o seu Ceará derrotou na última terça-feira, 4), motivo que deveria ser suficiente para que ele seja visto com respeito.

Além de títulos, o trabalho dele e de toda a comissão técnica é de uma excelência que já deveria ser reconhecida por quem comenta e vive de futebol. Ser campeão pode ser o objetivo, mas não é o que determina se os conceitos - ou a filosofia de trabalho - são bons ou não. A manutenção de um projeto que caminha bem não é garantia de conquista, mas aumenta consideravelmente as chances de que títulos serão alcançados.
 
O próprio Guto Ferreira foi demitido em fevereiro do Sport após ser eliminado na Copa do Brasil. Fevereiro. Em 2019, ele foi campeão estadual e subiu o Leão à elite do futebol nacional com o vice-campeonato da Série-B. Aí, no primeiro revés do ano seguinte, com menos de dois meses de temporada já é possível decidir que não serve mais? E as mudanças no elenco, que certamente condicionam o trabalho? 
 
Falamos tanto do quanto o Brasil pode evoluir com os treinadores estrangeiros (eu também sou um dos que falam isso), mas precisamos reconhecer que também há grandes nomes por aqui. Quantos técnicos têm tempo para colher os frutos do trabalho? Quantos clubes dão apoio e condições para que ele não jogue apenas para garantir o emprego? Ora, como podemos ter nomes de vulto se batemos bumbo para que o técnico seja demitido porque o resultado não veio ou porque o time não tem jogado bem, mesmo com poucos dias de trabalho?
 
A excelência do trabalho depende de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo. Sem isso, o projeto, se é que há, vira passageiro da própria sorte e do clamor vindo das arquibancadas, sejam elas físicas ou virtuais. É claro que todo profissional deve ser analisado, mas há que ter uma visão mais ampla do que somente se a bola entrou ou não.
 
Em tempo: este texto elegeu o treinador do Ceará como personagem, mas há inúmeros casos semelhantes de técnicos demitidos a partir das reclamações dos torcedores (que estão o seu direito, é bom deixar claro) e do ruído causado pelas discussões na imprensa, não raro rasas e desprovidas de quem deveria ter cautela e comedimento.
 
E, por gentileza, nem falem do Caso Héverton, pois tenho a mais absoluta certeza de que a comissão técnica da Lusa à época não tem a menor responsabilidade sobre o ocorrido.

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