segunda-feira, 23 de março de 2026

Pílulas amadoras - 34

*Por Humberto Pereira da Silva

Datado de 2019 e ainda vigente, o Protocolo do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) preconiza em sua página 3 a "mínima interferência - máximo benefício". Para quem quiser, está aqui, a dois cliques de distância. O fluxograma abaixo é bem explicativo:

Fluxograma 1 - Manual de Árbitros Assistentes de Vídeo – VAR (CBF)

Notem que a orientação é a de que o VAR só irá agir em caso de erro claro e evidente. Funcionaria caso o futebol não fosse um esporte em que a subjetividade está presente em inúmeras situações. 

Por si só, isto já traz inúmeras distorções, proporcionando um magnífico contorcionismo argumentativo da parte de quem defenderá ou não a interferência. Afinal, como definir que determinada jogada trata-se de um "erro claro"?

Em seu Dando Tratos À Bola, Hilário Franco Junior nos lembra que o futebol é um jogo. Segundo a etimologia, jogo vem do termo do latim jocus, que também é divertimento ou brincadeira - ou "zombaria, desdém, algo jocoso, não sério". 

O VAR, ironias do destino, serviria pra evitar decisões injustas no futebol, quando ao olho humano é impossível, por exemplo, a certeza de que um jogador estaria ou não em impedimento, situação na qual não existe subjetividade. Neste caso, porém, não raro a paralaxe pode interferir, mas estatisticamente é inexpressivo.

A ferramenta, no entanto, revela o quanto pra qualquer iniciativa de se evitar favorecimento ou prejuízo a uma equipa e os condicionantes para uma decisão se multiplicam. Numa alusão indevida ao filósofo Guilherme D'Occam, os demônios se multiplicam. 

Um leve resvalão dentro da área e a absoluta impossibilidade de saber o quanto foi suficiente para uma queda. Tem-se então um efeito em cadeia: quem cai se contorce como se tivesse uma fratura exposta, pressão no árbitro e um jogo de transferências para uma decisão final que acaba na cabine do VAR.  Quando não, então eis o alimento pra movimentar toda sorte de discussão em que, ao fim e ao cabo, se beneficia até quem patrocina um canal de YouTube...

Bill Shankly (1913-1981), lendário treinador do Liverpool, disse que "o problema dos árbitros é que eles conhecem as regras, mas não conhecem o jogo", ideia compartilhada pelo ex-árbitro Sandro Meira Ricci

Enfim, o futebol em campo e fora dele o VAR garante que o show continua.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 33

*Por Humberto Pereira da Silva

Foto: Icon Sports

Diz-se que o Flamengo perdeu o título da Recopa ao ser superado no Maracanã pelo argentino Lanús nesta semana. Conceitualmente, para que algo seja perdido, é necessário que esteja na posse de alguém. Não é um caso quando existe uma disputa.

Conceitos à parte, se o desfecho, como a coisa parece indicar, for a queda do treinador Filipe Luís, modéstia à parte, e como um bom filósofo, eu posso fazer um afirmação categórica: o Flamengo é menor que o Palmeiras - para comparar com o seu rival do momento. Ou não age como grande que pressupõe que seja. 

O dinheiro que gira em torno do Rubro-Negro é uma espécie de canto da sereia: ilude, mobiliza toda sorte de expectativa tanto quanto o tempo todo é fonte de engano. Administrar altos investimentos requer habilidade pra lidar com nível altíssimo de pressão, e isso implica lidar e contornar crises que pelos investimentos em jogo são sempre estratosféricas. 

Com investimento bem menor, mas expectativas também altas, notamos nesses últimos sete anos a soma de títulos do Palmeiras, mesmo há dois anos sem conquistas, e vemos como está forte e com Abel, cuja permanência sequer é discutida, apesar do ano em que o ataque as taças falhou. Mesmo as derrotas para o (esse sim rival) Corinthians não colocou em cheque a manutenção do trabalho da comissão técnica capitaneada pelo penafidelense. Isso dá o sentido da tal superioridade do "projeto" do Verdão sobre o do Fla - se é que há algum. 

A reação, para mim previsível, à derrota para o Lanús parece dar ponto final a algo que deveria ser habilmente contornado. Derrotas são ingredientes inextrincáveis no futebol. Lidar com elas é fator de engrandecimento e superação. Mas, no caso, agora, Filipe Luís está completamente à deriva. 

O que é notável aos meus olhos? Seria uma situação para que, com a superação, ele mostrar a maturidade de um grande técnico, cuja maturidade só virá com as vitórias (que já tem) e com as derrotas (que também já as tem). Essa situação no entanto parece ter sido implodida. Sem ser vidente, evidentemente, o prazo de validade dele é uma eventual derrota no Fla-Flu na final do Campeonato Carioca. 

Para a altura do sarrafo estabelecida por imprensa, clube e, por conseguinte, a torcida, o Campeonato Carioca e a Recopa são torneio de importância secundária. Mesmo assim, o clima criado, tenho quase certeza, é irreversível. Ao contrário do Palmeiras, que nunca devemos esquecer, foi seu adversário vencido na final da Libertadores (este sim de importância indiscutível), o Flamengo consegue pensar que apaga incêndio com querosene. 

Sobre Filipe Luís ser um bom técnico para além das bobagens de torcedor que escala assim e assado, e de comentaristas que são incapazes de ver que discussões sobre esquemas A ou B são dados de superfície, esse seria o momento ideal para ver qual seria a solução encontrada pelo treinador. Essa possibilidade de possível saída me parece foi solapada.  

Para ficar no clichê, o jovem treinador perdeu o comando, não tem mais domínio algum da situação. E bem entendido não porque é bom ou mau técnico, mas por que o Flamengo, ao contrário do Palmeiras, é algo como a mancha vermelha no planeta Júpiter: um turbilhão que se mantém ativo há séculos com ventos que na Terra transformariam em pó, em questão de segundos, o Monte Everest.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O engajamento e a permissão para odiar

O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da
partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista

Na semana que passou, casos de racismo e misoginia ocuparam lugar de destaque no noticiário esportivo, com os lamentáveis acontecimentos nos jogos Benfica x Real Madrid e Red Bull Bragantino x São Paulo. Como ocorre com tudo o que é relevante, os temas dominaram as discussões também nas redes sociais. 

Antes de retomar o tema, cabe uma contextualização: que a forma de comunicar mudou, todos aqui sabem. A inclusão digital, as redes sociais e o acesso à internet de alta velocidade possibilitaram que a opinião e a informação, chamados por aí de "produção de conteúdo", possam ser feitas por qualquer pessoa munida de um aparelho celular com acesso à rede mundial de computadores.

Mais gente gera conteúdo, mais gente engaja, mais gente lucra. O jogo é este e está tudo certo. O problema é ser desonesto em troca de engajamento.

Alguns perfis, ao menos entre os que tentam se passar como sérios, têm uma linha editorial progressista. Dos que eu conheço, a maioria se enquadra aqui. Muitos se posicionaram, o que fez com que uma horda de trolls barulhentos saísse do esgoto para vomitar ódio e preconceito. Coisa de gente covarde, que não mostra a cara e se esconde atrás da tela do celular. Pessoalmente, duvido que tenham coragem para bancar esse monte de merda que o ambiente online os deixa a vontade para ser.  

No entanto, o mesmo perfil que defende as vítimas permite toda sorte de imundícies nos comentários. Deixa todos lá, um por um. Pelo engajamento, dá palco, microfone e amplificador a quem deveria ser combatido. 

Ao menos, que sejam honestos e deixem claro que, por ganharem com isso, não apagam os insultos, tampouco bloqueiam e/ou denunciam seus seguidores que rezam para pneu e, nem é preciso explicar por quê, não deveriam ter esse espaço. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo

Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".

Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na suposta vítima.

Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse - não é com pescoço alheio que se exige justiça -, responsabilizou o brasileiro, apontando-lhe o dedo pela forma como comemorou seu gol, como se o próprio Mou não tivesse feito o mesmo reiteradamente em partidas escaldantes.  

Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior a trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão pela parte vermelha da Segunda Circular.

Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Valdo, Mantorras e tantos outros. 

O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo? 

É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.

Nada justifica o racismo.

Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é o ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas, cujos maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.

Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pílulas amadoras - 31

 *Por Humberto Pereira da Silva

Triste Tite! 

Parece feliz agora que de fato encontrou o que procurava já no Flamengo: ou seja, uma decadência melancólica.

Ainda é muito cedo. Mas o Cruzeiro parece seguir a cartilha do Inter em 24. Fez um excelente brasileiro na reta final e chegou próximo do título. Para 25 havia grande expectativa do Inter. No final do brasileiro não caiu por milagre. Estava na 18ª posição na última rodada. Aí contou com ajuda dos cearenses. 

O Cruzeiro depois de temporadas na série B subiu e ano passado surpreendeu ao ficar entre os três primeiros até a última rodada. Para esse ano, com Tite, Gerson e cia e muita expectativa. O começo é simplesmente desastroso. O São Paulo vai cair? Nesse momento o Cruzeiro me lembra o Inter, enquanto o São Paulo é preciso esperar, óbvio, mas eu colocaria um freio na "torcida" de alguns, hoje, pela queda tricolor.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo