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domingo, 30 de junho de 2013

Touradas do Maraca

Thiago Silva faz gesto perpetuado por Bellini (Flavio Florido/UOL)
No dia 13 de julho de 1950, o Brasil goleou a Espanha por 6 a 1, pela Copa do Mundo de 1950. Naquela tarde, no Maracanã, 152.772 torcedores cantaram a música Touradas de Madri, de Braguinha, que era uma marchinha de Carnaval de muito sucesso naqueles dias. Mais de 60 anos depois, no mesmo Mário Filho, o Brasil toureou a mesma Espanha, que desta vez chegou ao país do futebol com a alcunha de maior seleção do mundo (e uma das maiores da história).

Para conseguir aplacar o poderoso adversário, a seleção de Scolari teve que ser humilde, renunciar ao seu futebol e jogar de acordo com as características da Fúria. A proposta era adiantar a marcação, pressionar de forma alucinante a saída de bola espanhola, agredir sem parar e recompor a marcação com rapidez quando perdesse a bola, evitando que ela chegasse limpa aos pés pensantes de Xavi e Iniesta, os já míticos responsáveis pela construção de jogadas do time do também lendário Del Bosque.

O volante Paulinho, de futebol vistoso e vertical, foi o volante-volante que Felipão tanto aprecia e se doou pelo time. Hulk, tão criticado pelo torcedor e principalmente por parte da imprensa, que clamava por Lucas, jogou em cima de Jordi Alba, anulando a principal jogada de desafogo da Espanha e, de quebra, ainda abriu campo para Daniel Alves fazer uma de suas melhores partidas pela Seleção. David Luiz, visto como um dos pontos fracos da equipe, fez uma partida perfeita, e só não foi o Man Of The Match porque Fred decidiu, como se espera de um nove, e Neymar mais uma vez foi soberbo.

Fred comemora. Cinco vezes em cinco jogos (Christophe Simon/AFP)
Claro que seria humanamente impossível empreender este ritmo durante os 90 minutos, mas o gol de Fred, deitado, chorado, antes da segunda volta do ponteiro, facilitou todo o trabalho do time canarinho. A Espanha, nervosa como poucas vezes se viu, esbarrava na marcação e apelava para a ligação direta da defesa para o ataque, abrindo mão da articulação no meio, o que fez com que se tornasse, naqueles instantes, um time trivial, comum.

Quando conseguiu colocar a bola no chão, quase empatou com Pedro, que entrou livre e tocou na saída de Julio César, mas, quase sobre a linha do gol, um monumental David Luiz surgiu do nada e desfez o gol certo, que valeu como um gol. Ainda mais porque, logo na jogada seguinte, Neymar marcou o segundo, numa bordoada de canhota (seu pé menos bom), cruzada, sobre um atônito Casillas.

Os gigantes David Luiz e Luiz Gustavo: campeões (Marcos Brindicci/Reuters)
Assim que a bola rolou na segunda etapa, o filme se repetiu com o avançado Fred marcando o terceiro e fechando o caixão espanhol, também aos dois minutos. E poderia ter sido mais, se Marcelo, que fez uma Copa das Confederações impecável, tivesse visto Fred livre, na pequena área, esperando o passe que não veio. A partir dali, bastou inverter os papéis e tocar a bola sob o incessante "olé", vindo das arquibancadas, que não cantaram o parara tchimbum das Touradas de Madri, como os mais de 150 mil de 1950, mas viram a camisa mais pesada do mundo jogar, se não sua melhor partida, um jogo para recolocar de vez o Brasil no caminho da reconquista do mundo.

sábado, 29 de junho de 2013

Quem leva?

Neste domingo, Brasil e Espanha fazem a final da Copa das Confederações no novo Maracanã. Em campo, duas seleções com história pra contar e vivendo momentos distintos. Em que pese a falta de importância histórica do torneio, não será uma decisão qualquer. 

O Brasil, em franca ascensão, vive seu melhor momento desde a Copa da África do Sul. Felipão parece ter encontrado uma forma de explorar o futebol de Paulinho, o melhor jogador da competição, ao menos até a disputa da final. Neymar, que ainda não rendeu o que pode, tem sido decisivo. Nada mal para quem chegou ao certame com o peso da desconfiança sob os ombros.

Nas meias-finais, diante dos uruguaios, o escrete canarinho conquistou seu resultado mais expressivo, e olha que antes já havia superado a Itália. Não é pouco. Foi um jogaço, e o êxito foi conquistado nos minutos finais, garantindo aproveitamento de quatro vitórias em quatro jogos.

Paulinho garante vitória diante do Uruguai (Nelson Almeida/AFP)
A Espanha, por sua vez, tem jogado a conta para vencer seus adversários. Foi soberba diante do encolhido e valente Uruguai, que vendeu cara demais a derrota para o Brasil. Aplicou dez gols, com o time reserva, no inexplicável Taiti, e teve problemas para superar a Nigéria, sobretudo por conta da pouca pontaria do avançado Soldado. 

Contra a Itália, avançou após um dos jogos mais difíceis desde que tomou para si o cetro do futebol mundial. Enfrentou um time que, além de povoar o meio de campo espanhol, seu nascedouro de jogadas, ainda criou várias hipóteses de golo e graças a atuação impecável do enorme Casillas, além da falta de um centroavante competente (leia-se Balotelli), não pos termo à invencibilidade de mais de três anos da Fúria em jogos oficiais.

O alívio após a vitória nas grandes penalidades (Paulo Whitaker/Reuters)
A campanha perfeita do Brasil, no entanto, esconde problemas. David Luiz tem falhado em todos os jogos, sistematicamente, e outro erro pode ser fatal contra a Fúria. Marcelo é uma bomba-relógio com o visor tampado, que pode explodir a qualquer momento, e Luiz Gustavo ainda não viu a cartolina encarnada graças à conivência dos árbitros.

Para chegar à quarta decisão seguida, a Fúria também apresentou problemas, e com suas maiores estrelas. Xavi não tem mais o mesmo vigor de outrora e Iniesta foi burocrático. Sem contar um defeito que parece crônico: a falta de um goleador confiável. Torres não emplaca desde que foi para o futebol inglês e Villa, maior artilheiro da Seleção Espanhola, não retomou o ritmo de antes da fratura do Mundial de Clubes de 2011. 

É um panorama muito parecido com o visto na Eurocopa, quando a Fúria chegou claudicante à final, após uma semi-final suada, diante de Portugal, e também vencida nas grandes penalidades. Na decisão, Xavi jogou tudo o que não jogara nas partidas anteriores (como Iniesta nesta Copa das Confederações) e o time de Del Bosque deitou por terra todas as críticas, dúvidas e questionamentos com uma aula de futebol sobre a Squadra Azzurra. 

Exceto Portugal, naquela ocasião, e Itália, agora, ninguém conseguiu emparelhar o jogo espanhol. E isso foi feito graças à diminuição de espaços e a sufocante marcação no meio. Só que é praticamente impossível exercer essa marcação durante o jogo todo, ainda mais sem disciplina e organização tática, coisas que o Brasil não tem e não se aprende de uma hora pra outra. 

O rótulo de favorita só não estará estampado na testa dos espanhóis porque, do outro lado, está a camisa mais pesada do futebol mundial, comandada por um treinador afeito a este tipo de partida. Será épico ver o encontro da seleção mais vitoriosa de todos os tempos com a mais vencedora dos últimos tempos. 

domingo, 16 de junho de 2013

A Fúria não voltou

CENA COMUM Pedro comemora o primeiro gol espanhol (EFE)
Ao fim do jogo de estreia da Espanha na Copa das Confederações, a vitória sobre o Uruguai por 2 a 1, uma frase se espalhou feito fogo em palha seca: a Fúria voltou. Afinal de contas, o time de Vicente Del Bosque, comandado em campo pelo gigante Iniesta, passou como um trator sobre o atual campeão sul-americano, apesar do escore apertado.

Que bobagem! Como é possível dizer isso se os atuais bicampeões europeus e campeões mundiais nunca viraram o fio? Possivelmente, a ideia de que os espanhóis não eram os mesmos deve-se ao fato de o Barcelona ter tido uma temporada ruim, apesar do título nacional com a melhor campanha da história.

HÁBITO Iniesta foi o termômetro da Fúria
 em campo (Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Os detratores do futebol-egoísta-que-quer-a-bola-só-para-si se esqueceram de observar um detalhe: o Barcelona pode ter mudado, a Espanha, não. A máquina catalã de jogar bola sofreu com a queda de rendimento de seu principal jogador, Lionel Messi (muito por causa dos problemas físicos que La Pulga tem sofrido), além da troca do treinador e os problemas de saúde do atual, Tito Vilanova. A seleção espanhola, por sua vez, continua sob o comando do já mítico Del Bosque e, como nunca contou com o craque argentino, não teve nenhuma influência por causa dele.

Ou seja, para desespero do resto do mundo, a melhor seleção do planeta ainda tem lenha para queimar e, de antemão, é a maior favorita ao título não só da Copa das Confederações (que não vale lá muita coisa, mas é o único que falta em sua sala de troféus), como da próxima Copa do Mundo. Não concordam?  Basta ver o confronto entre os campeões da Europa e da América, quando o enredo foi o mesmo que já nos acostumamos a ver: um time tinha a bola e o outro era o Uruguai.
RESIGNAÇÃO Oscar Tabarez, técnico uruguaio, apenas observa
 o passeio da 
Espanha de Del Bosque, ao fundo (AFP)