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segunda-feira, 20 de julho de 2026

O novo jeito de torcer e o velho jeito de distorcer

Assisti, dia desses, a um recorte no canal do Youtube do Trivela em que os jornalistas Allan Simon e Tim Vickery - é importante pontuar que são jornalistas profissionais e deles se espera uma prática condizente ao juramento que fizeram na Colação de Grau - discutiam sobre a prática, comum entre os torcedores mais jovens, de seguir seus ídolos e torcer por eles acima das camisas que vestem ou emblemas que defendem.

Simon, inclusive, usa a CazéTV como exemplo de quem surfou na onda do culto à persona. O (não mais) simpático canal do YouTube "abraçou a defesa do Neymar desde antes" da convocação para a Copa. Suspeitava-se, como foi possível verificar, que o jogador não tinha condições de jogar em alto nível por conta de seu estado físico deplorável - por obra e graça de seu comportamento desde sempre, é bom frisar.  No entanto, para agradar seus seguidores, jamais fez o que se espera de quem detém os direitos de transmissão: informar, com qualidade e isenção.

Comportamentos como chorar por ter feito duas perguntas simplórias ao ídolo não é o que se espera de quem se preparou - ou deveria - para fazer a cobertura jornalística. Sim, é jornalismo e isso requer distância. Não falo aqui de um desastre natural ou uma cobertura de temas delicados, portanto, capazes de causar este tipo de emoção. O ápice é estar no evento, não é fazer uma pergunta a quem quer que seja.

Pode ser duro, mas ser jornalista é isso. Mas como disse o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), o homem é produto do meio em que vive. Aí, não fulanizando a questão, mas entendendo o contexto, fica fácil perceber em que ponto essa distância entre meio e notícia se perdeu. É a formação social, não profissional, o ponto.

Voltando ao trecho do vídeo citado lá no primeiro parágrafo, o culto à persona faz com que a presença dos ídolos seja mais relevante que as camisas que eles vestem, e isso é transferido para as seleções nacionais. Não há outra explicação para o fato de a página da seleção portuguesa no Instagram ter o dobro de seguidores em relação à população do país que a presença de Cristiano Ronaldo na equipe. E essa presença é cobrada pelo séquito como se fosse condição para que se torça, mesmo que isso prejudique o desempenho em campo do time, como aconteceu. Não por acaso, passando para o lado de cá do Atlântico, o pior momento do Brasil no jogo que custou a eliminação da Seleção na Copa, contra a Noruega, foi justamente quando Neymar esteve em campo.

Convenhamos, nem deveria ter sido convocado.

O jornalista, como qualquer outra pessoa em qualquer atividade, não escolhe o que sente, mas tem controle sobre o que e como opina. Então, se molda sua opinião ao interesse de milhares de pessoas que têm um comportamento de seita e exigem que sua vontade seja saciada - e, diretamente, agrade seu empregador, que ganha muito com a atenção e o engajamento que uma polêmica pode causar, mesmo sendo um assunto banal -, passa a ser um problema para a própria atividade jornalística. 

Mais uma vez, a questão não é o choro, e sim o que leva um profissional a ter esta reação. Como é impossível separar a formação do mundo onde o sujeito está inserido, podemos crer que a imparcialidade já foi para o caralho antes mesmo que a experiência seja adquirida. Boa semente não floresce em solo ruim.  

Se puderem, peguem o jogo entre Croácia e Portugal, que terminou com a vitória deste, e reparem no comportamento de todos os que estavam na transmissão. Primeiro, o óbvio exagero após Cristiano ter feito um gol de pênalti. De pênalti! Depois, quando era claro que Portugal era dominado e era preciso reforçar o meio de campo, só faltaram botar um ovo quando Roberto Martinez substituiu o camisa 7. E por quê? Porque não é possível, sob a ótica do engajamento, aceitar que o objeto de adoração da seita seja tirado de campo, por mais óbvia que seja a necessidade de fazê-lo.

Ao cabo, o ruído que emana das redes sociais devidamente abastecidas por um tipo de conteúdo estrategicamente pensado para ativar e atiçar a seita é capaz não só de interferir na formação de um elenco para uma grande competição, como na escalação de equipe que vai ao campo.

Afinal, para o patrão, o cliente sempre tem razão.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

PORTUGAL - Carta aberta a Roberto Martinez


SEM PROBLEMA - Este pode ter sido o gesto mais repetido por Roberto Martinez
 no comando da seleção portuguesa (Foto: Reuters/Hannah Mckay)

Caro Roberto Martinez, não posso começar esta carta sem destacar que foi fixe vê-lo cantar A Portuguesa já no início do trabalho à frente da Equipa de Todos Nós. Era um sinal de que estavas a incorporar o jeito de ser do lado menos apetrechado da Península Ibérica.

Ao menos era o que parecia. Infelizmente, pá, ficou por aí o jeito tuga de ser. Faltou-lhe o essencial: ser frontal.

Mas aí, creio eu, era além do expectável, já que em tua passagem pela Bélgica tu sempre foste alguém avesso a contrariar as vedetas que tinha à disposição. E olha que eram muitas. Não espanta o último mundial com eles ter sido à prestação mínima, ao pé do que fizeste nos outros anos, inclusive dando cabo de Portugal no Europeu de 20.

Por isso eu digo que a culpa, se é que há culpados à beira do relvado, não é tua, é de quem o trouxe sabendo de teu temperamento e, principalmente, de quem te manteve ao leme, mesmo não acreditando que resultaria. A tal da frontalidade não faltou somente a ti, Roberto.

Não posso dizer que não houve bons momentos. Jogar olhos nos olhos com a França no jogo em que nos deitaram fora da última Eurocopa foi, se calhar, o melhor jogo que fizemos nestes três anos e meio em que passamos juntos. Houve outros, como a vitória contra a Arménia, quando, apesar da maciez do oponente, vimos um time leve, arejado, flexível e... sem Ronaldo.

Mas não podias contraria o astro, não é? Não foi para isto que vieste. Dizias tanto ter um lote alargado de trinta e tantos jogadores para, no fim, usar os 15 ou 16 de sempre. Pote, Quenda, Horta, Mora, Trincão, Gonçalos (os dois, Ramos e Inácio, ou até o Guedes, se calhar, que levaste e não deste por ele no Mundial), outros tantos. Era um prémio pra eles ver os treinos? Mais ganhavam a descansar. 

Se fosse para fazer o fácil, o confortável, podia ser qualquer um e saía mais barato. Eu, por exemplo, ou algum dono de tasca, o Gajo de Alfama do Ricardo Araújo Pereira, tanto faz. Podias mais, Roberto. Tenho certeza de que podias para além deste futebol que roçou a indigência. Mas aí, se calhar, não serias tu.

Já ouviste falar em Pirro? Creio que sim, mas vamos a isto: Pirro foi um general do caraças que, ao ver que grande parte do seu exército foi para o caralho mesmo tendo vencido a batalha, teria dito algo como “Mais uma vitória como esta e estou perdido”. Ganhar a Liga das Nações, se calhar, não soube bem. 

Sabe, ao cabo, o que mais incomoda? É não ter acreditado nem por um segundo que era possível. É a certeza de que, a qualquer momento, cairíamos. Mesmo tendo a maior reserva de talento que nenhuma vez tivemos, nem há exatos 10 anos, em 2016, quando fizemo-nos grandes aos olhos de todos. Só não havia coragem. E olha que já acreditamos em equipas inferiores a esta que tu tiveste disponível.

Obrigado por nada.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Copa do Mundo - Por quem choras, Cristiano?

Ryan Pierse - FIFA


Ó, Cristiano, quanto do teu sal são lágrimas por Portugal? 

Começo com esta pequena adaptação que tomei emprestada ao A Bola para perguntar, de fato, quanto Cristiano sofreu pelo povo que representa. Ou as lágrimas são por si, que passou mais um Mundial sendo a sombra do que foi? Quem tanto deu não entendeu que não era recebendo de volta que se manteria grande.

Cristiano subiu a fasquia do futebol português e isso é inegável. Seu legado, porém, manter-se-ia imaculado se aceitasse o papel do líder que espreita de momentos melhores e deixasse a ribalta para outros brilharem. Em vez de alguém que seria reconhecido pela grandeza do gesto, terminou mesquinho, soberbo.

A entrevista anterior ao jogo foi a prova inconteste de que o tempo, em vez de sabedoria, o encheu de arrogância. No pós jogo, então, deixou transparecer que seus objetivos pessoais sempre estiveram na frente quando comparou as conquistas da seleção das Quinas antes dele e depois que estreou, em 2003.

Com sua iminente retirada, certamente os números colossais que sua presença trouxe irão minguar. Os 25 milhões e coisa e tal de seguidores da seleção de um país com 11 milhões de habitantes devem diminuir, ficando só os que realmente vestem a camisola das Quinas, mesmo não sendo somente a 7.

Em nome de todos os portugueses, obrigado por tanto, Cristiano, mas o tempo chega para todos. Já não é sem tempo a necessidade de abrir espaços para os que vêm. Já fizeste por si e por nós. É a vez dos outros. Como era há três anos e meio.

terça-feira, 16 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 3 - O dilema CR7 e a seleção de Portugal

*Por Humberto Pereira da Silva

(Foto: Alexandre de Sousa / ZUMA Press Wire / Imago)

A geração atual de Portugal, campeã da Liga das Nações da UEFA no ano passado, cintila como a mais brilhante da história do futebol português. Parte significativa desse escrete se impôs nos principais times das ligas mais disputadas da Europa, de modo que, mesmo não entrando na Copa com favoritismo incontestável, é inegável que o desempenho de Portugal gera grande expectativa. Mais: sabendo ser arriscado fazer uma afirmação assim, não tenho na memória outra seleção portuguesa que tenha entrado numa Copa do Mundo entre as quatro destacadas favoritas ao título mundial.   

Ao longo dos últimos 20 anos, de fato, o futebol português saiu da periferia mais longínqua da Europa para o centro das atenções. Por isso, considerado esse período de duas décadas, quando não se tinha propriamente expectativa de que Portugal fosse tão longe, para esta Copa, caso não vá, será realmente frustrante. 

Bem, vale então assinalar que o avanço do futebol português rumo ao centro das atenções, para além de todas as mudanças estruturais decorridas no futebol do país, foi protagonizado por um personagem central. Seu nome? Cristiano Ronaldo. Desnecessário dizer que se trata de um dos maiores atacantes da história do futebol. Desnecessário dizer que ele mobiliza atenções desmedidas desde que despontou para o mundo na Copa de 2006.   

Antes dele, Portugal havia se qualificado às fases finais dos principais campeonatos de seleções em 1966, 1986 e 2002 (Copa do Mundo), e em 1984, 1996 e 2000 (Eurocopa); depois, não falhou nenhum apuramento, marcando presença consecutivamente desde 2002.

Entretanto, ele é o nó. Paradoxalmente, o principal jogador português, um dos maiores da história, é o maior problema de Portugal. E, sobre o uso da palavra “problema”, faço questão de não pôr aspas, nem usá-la como recurso retórico. Cristiano Ronaldo é para mim um problema seríssimo. Faço uso dessa palavra, portanto, em sentido literal.   

Em 2022, obviamente quatro anos mais jovem, e ainda um atacante cujo poderio não se podia subestimar, Cristiano Ronaldo em campo e fora dele foi um personagem desestabilizador. Portugal naufragou naquela Copa em grande parte devido à presença dele, que sob enormes controvérsias, aliás, acabou aquela competição na reserva. Principalmente, assim entendo, sua postura exageradamente individualista gerou tensões que tiveram como desfecho a decepcionante participação portuguesa no Catar.   

Vejamos, então: 2022 foi esquecido? Denega-se seu comportamento naquela Copa? Convém lembrar o episódio no qual levou consigo para dentro do estágio na seleção portuguesa a sua crise com o Manchester United, a ponto de, em novembro daquele ano, ter veiculada uma entrevista - sem outro adjetivo melhor - desastrosa, na qual desanca seu clube e seu treinador na ocasião, o neerlandês Ten Hag, o que culminou na sua saída de um distintivo no qual já era uma lenda. 

Não se extraiu nenhuma lição? Agora, 2026, com a lembrança de 2022, considero ser impossível subestimar Cristiano Ronaldo como problema. Quatro anos mais velho, por óbvio, sem o mesmo condicionamento físico e técnico, para além dos 40 anos e atuando em uma liga periférica, como o vaidoso português se comportará?

Literalmente, se ele apagou o que aconteceu em 2022, não há como esconder que ele é um grande PROBLEMA para que essa brilhante geração portuguesa, mesmo não sendo campeã, repita campanhas como a de 66 e, ironia do destino, de 2006, quando justamente CR7 despontou para o mundo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 9 de junho de 2025

PORTUGAL - sobre crer e a padeira de Aljubarrota


Conta a história que Brites de Almeida, uma padeira de Aljubarrota, deu cabo a golpes com a sua pá de meia dúzia que castelhanos que buscavam refúgio depois que as tropas de Nuno Alvares Pereira colocaram para correr o exército de Castela e Aragão, muito - mas muito mesmo - mais numeroso, no episódio que consolidou Portugal como uma nação livre.

Conta a história que, sempre que Portugal e Espanha jogam, a parte que não chora ao ouvir um fado ou não anda a enrolar os bigodes ao som de Quim Barreiros normalmente é quem perde. A primeira partida da Seleção Portuguesa, já contada aqui, foi perdida para os espanhóis. Antes do Estado Novo, Portugal, que fez boa figura nos Jogos Olímpicos de 1928, levou um sacode de 9 a 0 do vizinho ibérico, o que suscitou as mudanças que culminaram na criação da Liga Portuguesa.

A história, para ser contada, é mister que seja escrita. Há 13 anos, João Moutinho falhou o pênalti que meteu travão na caminhada das Quinas à final da Eurocopa de 2012. Quatro anos se passaram e, pelas mãos de Cristiano Ronaldo, Moutinho voltou à marca da cal para ajudar Portugal a chegar às meias finais, no conhecido "andar a bater, tu bates bem. Se perdermos, que se f***". 

Nove anos depois, Portugal voltou a encontrar a Espanha, desta vez em uma decisão. Já fazia 25 anos que não ganhava aos alemães, que foram devidamente despachados; no duelo ibérico, a última vitória a doer havia sido em casa, no malogrado Euro 2004. E os espanhóis chegaram a Munique com a panca de melhor seleção do mundo e atual campeã continental, tendo o futuro craque geracional a fazer o diabo já aos 17 anos.

Para aplacar La Roja, seria preciso que os Tugas contrariassem todas as expectativas (as minhas, inclusas). A surpresa João Neves na lateral não surtiu o mesmo efeito do jogo anterior e Nico Williams fez o que quis com o pequeno e destemido jogador do PSG, que saiu ao intervalo, como no jogo anterior, para dar lugar a Nelson Semedo, lateral de origem e em fase exuberante.

O placar, à altura, apontava um seguro 2 a 1 para a Espanha, que atacava quando queria - querendo cada vez menos - contra uma turma que atacava quando podia - podendo cada vez mais. O sinal havia sido dado no golo de Bruno Fernandes, anulado por fora de jogo de Pedro Neto. Logo em seguida, o monstruoso Nuno Mendes, que já havia apontado o golo de empate, fez de conta que Yamal não era nada e, espalhando perfume e classe, contou com um desvio na rota antes de ver Cristiano Ronaldo empatar novamente o jogo após um cruzamento seu.

Esta, se calhar, foi a novidade: mais do que querer, crer, como cantam os benfiquistas quando querem "raça, crer e ambição". E isto vale tanto ou mais que sistemas. "Tens sol se há sol e ramos se ramos busca", já ensinou Fernando Pessoa sob Ricardo Reis. Com a qualidade que tem em mãos, acreditar é meio caminho andado. E este caminho, que passamos a conhecer em Paris, parecia-nos estranho sempre que topávamos com alguém maior que nós.

Não precisa ser assim. Não deve ser assim. O sonho de ganhar o mundo é possível, embora o normal seja ficar pelo caminho. Mas que não seja por medo de no fim do mar haver um abismo. Quem, pela água, deu mundos ao mundo não pode temer aquilo que conhece.

Pois não é sempre que a Padeira de Aljubarrota perceberá que há alguém escondido no forno.   

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

SELEÇÃO BRASILEIRA - Exclusão e desconexão: o aumento da desigualdade no acesso ao futebol brasileiro e o enfraquecimento do vínculo seleção/torcedor

PELE CLARA O perfil do torcedor presente nos jogos do
Brasil (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)  


Não bastasse o baixo nível apresentado em campo, ver a Seleção Brasileira na cancha é um privilégio para poucos, algo proibitivo para a imensa maioria das população brasileira. Em 2021, quando fiz um levantamento para o Ludopédio sobre o custo para ver jogos de Brasil e Portugal nas Eliminatórias para a Copa de 2022, a diferença entre o que era cobrado nos dois países já era grande. Três anos depois, porém, o fosso aumentou.

Para comparar, à época, peguei jogos com o mesmo peso (Brasil x Uruguai e Portugal x Sérvia) e condição: um assalariado que recebia o salário mínimo vigente, desconsiderando os descontos. Resumindo, em 2021, o trabalhador brasileiro que recebia R$ 1.100  teria que pegar no batente por 50 horas para comprar a entrada mais barata, vendida a R$ 250,00 (desconsiderando o benefício da meia-entrada); o português, por sua vez com vencimentos em €665, trabalharia por 3h06min para receber o montante necessário para comprar o ingresso, que custava € 10.

Em 2024, a coisa piorou: com o ingresso mais barato tendo um reajuste de 60% e custando 400 pilas para ver Brasil x Equador no Couto Pereira, quem recebe o salário mínimo (R$ 1.412,00 para uma carga mensal de 220 horas) teve que trabalhar por 62h24min. Portugal x Croácia, no estádio da Luz, custou o equivalente a 2h44min a um gajo nas mesmas condições (€ 820 por 200 horas trabalhadas, segundo a legislação trabalhista portuguesa). Se optasse pela entrada mais cara, o custo seria 50% maior. Ou seja, no Brasil, 93h36min; em Portugal, 4h06min. 

Em termos percentuais, o português comprometeu 1,53% dos seus vencimentos em 2021 e, pasmem, 1,22% três anos depois, já que não houve reajuste no preço das entradas face ao aumento no salário; o brasileiro, esse trouxa, teria amarrado 22,72% há três anos. Agora? 28,3%. Isso se pensarmos no preço "popular". Obviamente, quem recebe um salário mínimo sequer chegou perto da entrada do estádio Couto Pereira.

Pensando ainda no futebol português, jogos de clubes são bem mais caros. Um jogo do FC Porto pela Liga sai, no mínimo, a € 28 euros para não sócios. Do Sporting, pela Liga dos Campeões, o tíquete mais baixo sai por €31, praticamente o mesmo para ver um jogo do Benfica pela Liga, isso sem considerar os planos de sócio-torcedor que os clubes mantêm.  

No entanto, diferentemente dos clubes, as confederações nacionais não têm que pagar por multas de quebras de contratos para contar com jogadores. Basta que eles sejam elegíveis para vestirem suas camisas. A CBF, por exemplo, bateu seu recorde de faturamento em 2023, com R$ 1,17 bilhão em receitas e superávit de R$ 238 milhões graças aos ganhos com repasses de direitos de transmissão e comerciais. Nas bilheterias, houve uma queda no faturamento que, somado às premiações das seleções, caiu de R$ 103,7 milhões para R$ 45,8 milhões, o que mostra que não precisa lubrificar as engrenagens da sua máquina com o dinheiro de quem paga pelos ingressos para ver os jogos da Seleção. 

É óbvio que o futebol abaixo da crítica afasta os torcedores, sobretudo os que têm um comportamento de consumidor, que é o perfil mais comum atualmente em eventos mais caros, mas não é só isso. Existem estudos, como este, este e este, que relacionam o torcer com o sentimento de pertencimento, que é negado a quem não é bem-vindo nos estádios, locais repletos de simbolismo e de sedimentação. 

Um dos livros mais cultuados sobre o assunto é Febre de Bola, do inglês Nick Hornby, fanático pelo Arsenal, mas que forjou seu amor nas arquibancadas, sejam do antigo e histórico Highbury ou em pelejas fora de casa. Esta obra ensejou estudos como este, que classificam o estádio como "espaço autobiográfico". Afastado dos locais de convívio, o laço afetivo é rompido e corre-se o risco de ver novos torcedores se afeiçoarem por camisas vestidas por seus ídolos, cada vez mais afastados das figuras dos clubes - e seleções nacionais, por conseguinte -, ainda mais em tempos em que jogos de todas as equipes estão a um click de distância, como mostra a pesquisa CNN/Itatiaia/Quaest, divulgada em 2023, apontando que quase metade dos entrevistados entre 16 e 30 anos torce também por clubes do exterior.

Ao cabo, é o dinheiro que cria as conexões, que duram até que outros dinheiros as quebrem e novas conexões sejam feitas. Por ser um país onde culturas se sobrepõem a outras mesmo regionalmente, é comum torcedores que vestem a camisa de clubes de outros estados, fenômeno que explica a força do futebol carioca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil desde a Era Vargas. Neste sentido, não é pelo clube da cidade ou do bairro que se torce, como é comum acontecer em lugares como Buenos Aires e Londres, e que de certa forma é explicado no À Sombra de Gigantes - uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu, do jornalista Leandro Vignolli.

Neste sentido, o futebol varzeano está imune porque é o lugar que conecta  pessoas a lugares, independentemente de conquistas ou poder de mercado e é exatamente esse "fazer parte", como mostra o jornalista Leandro Marçal, que une comunidades em torno de equipes de futebol amador.

Ao cabo, como animal social, o homem busca conexões, mas não ficará onde não se sentir bem-vindo. 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

PORTUGAL - Renovar ou garantir, mas e o futuro?

DUPLA INFERNAL Félix e Cristiano estiveram em grande (Profimedia)

A versão portuguesa pré-competições voltou a dar as caras em Lisboa, para os dois primeiros jogos da Liga da Nações. E nem parecia aquele time sonolento e previsível que conseguiu ficar três jogos sem ir às redes, com as poderosas Geórgia e Eslovênia a anteceder a França, quando finalmente os de Martinez deram luta e justificaram a fama. 

Se por um lado haverá quem diga que já viu este filme antes, com as 10 vitórias em outros tantos jogos na fase de classificação ao Euro, por outro, o nível dos adversários é melhor que as peras doces à catrefada que o sorteio indicara. 

Ao que tudo indica, tendo tido três oponentes relativamente acessíveis - Croácia, Escócia e Polônia -, o maior desafio ao selecionador será arrumar formas de testar soluções além das que já conhecia. Das novidades em relação aos 26 que estiveram na competição vencida há quase dois meses pela Espanha, Rui Silva, Pedro Gonçalves e Francisco Trincão retornaram ao lote de convocados, mas Tiago Santos (defesa direito do Lille), Renato Veiga (que joga a central e defesa esquerdo no Chelsea) e Geovany Quenda (extremo/avançado do Sporting) foram chamados pela primeira vez para a seleção principal.

Destes, apenas Pote teve direito a minutos - um, para ser exato - no jogo com a Croácia. A ideia, portanto, seria dar tempo de jogo aos novos internacionais, mas a dureza dos jogos impediu, segundo o mister, que experiências fossem realizadas, já que é importante garantir o apuramento aos quartos da competição para garantir, sem depender do posicionamento no ranking de seleções, uma vaga como cabeça de chave de um dos 12 grupos das eliminatórias da Copa do Mundo.

Este ponto faz levantar algumas questões? Com um lote alargado a 35 jogadores, por que Roberto Martinez confia nos mesmos? Trincão e Pote, que já mereceram um lugar na comitiva que foi ao Euro, não têm tido nível para as primeiras jornadas da Liga das Nações? Nem falo de Quenda, cuja expectativa era que pudesse derrubar a marca de mais jovem de sempre a defender as Quinas, honraria que pertence desde 1983, portanto há 40 anos, a Paulo Futre, mas seria bom ter um leque mais amplo.
 
Em campo, porém, alguns dos erros vistos na Alemanha não se repetiram, como a demora a reagir em condições adversas que fizeram com que resultados, como a vitória sobre a Chéquia, fosse arrancada a ferros. Nestes dois jogos que marcam o início do novo ciclo, Portugal fez um primeiro tempo de excelência com os croatas, que deverão ser, ao cabo, com quem discutirá a primeira colocação da chave. As dificuldades vistas nesta partida estão mais relacionadas às qualidades dos axadrezados que a alguma quebra de rendimento da turma lusitana.

O segundo jogo teve drama, reviravolta no fim e bons indicadores, embora fragilidades defensivas ainda sejam marca de Portugal, que terá que aprender a andar sem Pepe e procura seu substituto - por ora, Gonçalo Inácio parece estar à frente de António Silva, que tem demonstrado alguma insegurança "trazida", afinal, do mesmo estádio da Luz, e que será missão de Bruno Lage resolver neste retorno ao Benfica.

Sem Vitinha, em grande na estreia, dispensado por lesão, coube a João Palhinha ser o amálgama entre os setores, tendo recuado Bernardo Silva para auxiliá-lo na função. Na frente, Cristiano Ronaldo ficou no banco e Diogo Jota foi o jogador mais adiantado, ladeado por Rafael Leão e Pedro Neto, com Nelson Semedo a dar largura, ocupando a vaga que foi do mais acutilante Diogo Dalot. Como o gol escocês saiu muito cedo, o jogo acabou condicionado e os britânicos atuaram em bloco mais baixo ainda. Martinez recorreu no intervalo a um passador melhor - Ruben Neves - para render o mais garantidor de posse Palhinha e a produção ofensiva resultou no golo de empate, em chute longo do aniversariante Bruno Fernandes.

Steve Clark respondeu adiantando a marcação e, com maior imposição física, a Escócia cresceu na partida e teve uma mão cheia de jogadas perigosas e maior domínio territorial, o que só acabou quando João Neves, o pequeno gladiador do meio-de-campo português, foi lançado para o lugar de Bernardo Silva, muitos furos abaixo do habitual, e João Félix rendeu Rafael Leão para ter mais jogo pelo meio e mais espaço para Nuno Mendes fazer o que faz de melhor, que é atacar e aterrorizar defesas contrárias. A partir daí, o que se seguiu foi uma blitz que só não deu em gol antes porque o goleiro Gunn e os postes resolveram contrariar.

Já perto do fim, Cristiano iniciou a contagem regressiva para o milésimo golo. Ele, que tinha feito gosto ao pé no seu tento 900 frente aos croatas, repetiu a dose a dois minutos do fim ao completar, como no jogo anterior, um passe teleguiado de Nuno Mendes para definir, como de costume, a vitória portuguesa nesta, na prática, eliminatória para definir os oito que avançarão na disputa pelo título. Sem dramas ao ficar como suplente, Cristiano parece ter entendido, depois da malograda prestação no Euro, sua importância mesmo fora do onze inicial.

A ver se será assim nos jogos a doer mais à frente, como também fica no ar a utilização de mais jogadores que os habituais. Não que isso garanta alguma coisa, porque nada garante, mas afasta a frustração de ver bons jogos somente contra grandes seleções, invariavelmente nas partidas que marcam as eliminações. 

    

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Pílulas amadoras - 21

 * Por Humberto Pereira da Silva

Cr7 e a inalcançável régua real (Fabrice Coffrini/Getty)

Cristiano Ronaldo chegou, contra a Croácia, aos 900 goles. É o primeiro jogador de futebol a alcançar, oficialmente, essa marca. Claro, "todos" sabem que Pelé fez mais de 1200 goles. E não muitos, que o austríaco Josef Bican teria feito em torno de 1800 goles entre os anos 20 e 50 do século passado. 

Aí, me faz questão de lembrar o editor deste blog, há o "problema" de ignorar goles marcados em partidas amistosas, mas contra grandes equipas do futebol mundial: nestas excursões para fazer um pé de meia que pudesse, além de preencher o calendário, pagar as contas - e manter o próprio Rei -, perdem-se tentos marcados contra Internazionale (8), Barcelona (4), Benfica (4), Juventus (2) e Real Madrid (1), esquadrões repletos de craques e donos de troféus internacionais. Pela América do Sul, 22 goles divididos entre River Plate (7), Boca Juniors (5), Racing (4), Independiente (2), Millonarios-COL (2) e Nacional-URU (2) viram fumaça. 

Isso se não contarmos os grandes brasileiros: Atlético Mineiro (5), Cruzeiro (4), Bahia (2), Botafogo (2), Palmeiras (2), Corinthians (1), Flamengo (1), Grêmio (1) e Portuguesa (1). Eibares, Numancias, Al Qualquer Coisa e quetais, para ficar em termos do editor, não oferecem um átimo das dificuldades impostas pelos times citados neste parágrafo.

Ontem, Cristiano saiu do banco para desenroscar um jogo que exigiu a persistência lusitana até praticamente o último minuto para superar o ferrolho escocês. O gole da vitória do Tugas foi marcado aos 43 minutos do segundo tempo por ele, que já havia atirado duas vezes ao ferro, iniciando a contagem regressiva para o tal milésimo, que deve, se acontecer, sair quando a Terra de Cristiano estiver na 43ª volta em torno do Sol, justamente a idade em que Josef Bican deu seus últimos pontapés. 

A título de comparação, o milésimo do Rei foi marcado aos 29 anos. Dito isso, o que resta? Números são... não mais que... números. Por isso, fico com Fernando Pessoa, para ter a dimensão do feito de CR7: "O mito é o nada que é tudo", primeiro verso do poema "Ulisses".

Números são números, pois não. Mas neles, além da frieza, não se deve ignorar o simbolismo. O mito do milésimo gole de Pelé simboliza um dos feitos do Rei. O que, justamente, oferece ponto de partida para qualquer feito posterior. 

Ao milésimo gole agregam-se três Copas do mundo, 58 goles numa edição do Campeonato Paulista (aos 17 anos), parar uma guerra..., que fazem de Pelé o maior mito da história do futebol. 

O feito de Cristiano Ronaldo, assim, ganha enorme poder simbólico porque tem como ponto de partida para que se ponha a régua à marca Pelé. Agora, entre a frieza dos números e o simbolismo, o futebol também é feito de circunstâncias e circunstâncias de momento. 

Na conta dos quase 1300 goles do Rei, mais de 500 ajustados em jogos que causam constrangimento saber precisariam ser contados. Na frieza dos números, o mito Pelé, para ser Pelé, não precisa do registro de goles na Seleção do Exército (10 em 14 jogos), tampouco de goles contra equipas "amadoras" nas inúmeras excursões do Santos nos anos 60 para exibir a Majestade. 

Certo. Nas circunstâncias e circunstâncias do futebol, o feito dos 900 goles de Cristiano Ronaldo se deve a um oportuno final de carreira no futebol árabe. Sua última passagem pelo Manchester United mostra que ele não atingiria essa marca no futebol europeu. Igualmente, Pelé não teria chegado a essa marca sem as convenientes contas para se ensaiar contra o Vasco da Gama o dia do mítico milésimo gole. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 12 de julho de 2024

PORTUGAL - Qual é o preço da gratidão?

RESPECT Cristiano deveria ser o primeiro a proteger o seu legado
(Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images)

As contas são simples: antes de Cristiano Ronaldo, a presença de Portugal nas fases finais das competições era intermitente. Mais que isso, eram raras as vezes em que a bandeira de Portugal aparecia ao lado de estandartes habituados aos papelinhos de bolso com os jogos, datas e programações, como Brasil, Alemanha, Argentina e Itália, mais acostumados a estas andanças. Duas destas seguidas, só uma vez, com os Infantes, que estiveram nas fases finais do Euro em 84 e da Copa do Mundo de 86, na França e no México, respectivamente.

Não fosse pela fome de gols de Cristiano, Portugal teria falhado a Copa do Mundo de 2014. Sem ele, o Euro de 2016 não passaria de mais uma desilusão, assim como a Liga das Nações de 2019, em que estreou somente na fase final, também tem as marcas das suas botas. A lista a espalhar os feitos alcançados graças a parte dos 130 golos que fazem dele o maior artilheiro, com folga, do futebol de seleções é enorme. E os serviços prestados também. Se Portugal hoje é uma potência quando fala-se de equipes nacionais, o maior responsável é Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Em grande parte do percurso, um supersónico a rasgar os céus em forma de chão verde.

EU ESTOU AQUI! Três vezes na rede para garantir a vaga
à Copa de 2014 
(Jonathan Nackstrand/AFP/VEJA)

O problema é que o avançado imparável, explosivo e insaciável ficou no passado, como acontece com qualquer um quando o tempo é o marcador. Mesmo que demore, ao cabo, o tempo levará a melhor. Mas faltou-nos o miúdo de Hans Christian Andersen a avisar que o rei ia nu pelas ruas da Alemanha e, a despeito de tanto talento espalhado em todas as posições e para vários tipos de jogo, o Cristiano Ronaldo procurado era o dos golos à Suécia, à Espanha ou à Suíça, em vez do jogador de 39 anos que os 50 e poucos jogos pesaram como nunca às pernas.

Se em 2022, Cristiano quis usar o Mundial do Catar para mostrar ao mundo que seu clube, Manchester United, e seu treinador, Erik Ten Hag, não lhe davam o valor que merecia - e essa obsessão deitou tudo por terra -, o caminho até o início deste Euro mostrou um jogador ainda com faro de gols e marcas, e útil. Dizia-se, e eu também o disse, que havia dois Portugais diferentes, mas a melhor versão era a que tinha Cristiano Ronaldo, desde que fosse associativo e jogasse para o time, como fez no amistoso contra a Irlanda e nos dois primeiros jogos do Euro, não coincidentemente os únicos em que Portugal venceu. Mais que isso: os dois em que Portugal marcou golos.

Até que...

Até que veio a necessidade de ser o primeiro e único a levar o pão à sopa em seis fases finais - ou manter limpo e estatuto de marcar em todas as competições em que participou com a camisola das quinas. Jogou quando não precisava, foi mantido em campo apesar do rendimento que, de insuficiente, passou a miserável conforme o tempo cerrou a marcação.

Então, o jogador associativo deu lugar a alguém que visava estar o mais próximo possível do gol, que pouco se ligou ao jogo coletivo. Portugal, ao longo de toda a prova, cruzou 153 vezes na área. Nos quartos de final contra a França, a bola foi despejada na área em busca de um avançado facilmente domado pela dupla Upamecano-Saliba 30 vezes, e em só duas Cristiano levou vantagem. Para ilustrar melhor sua participação direta no Euro, Cristiano tocou na bola em média 31,4 vezes por partida, seu pior registro em todas as Euros e Copas do Mundo. Em 2016, na vitória contra a Croácia, o camisa 7 encostou na bola 42 vezes e essa havia sido a menor marca até então. No mesmo jogo, Rui Patrício teve contato com a bola 46 vezes.

Como se não bastasse, a simples presença do jogador demandava alterações no posicionamento de peças fundamentais no sistema de jogo do treinador Roberto Martinez, que funcionou à perfeição nos duelos contra os oponentes mais macios das eliminatórias. Bruno Fernandes, que melhor joga quando apanha a bola na intermediária ofensiva, onde há mais espaços e tempo, tinha que pisar terrenos mais altos para compensar a falta de pressão à saída de bola, já que não se pode exigir este tipo de esforço de um avançado de 39 anos, mesmo sendo supostamente um robô; com a subida do 8, Bernardo Silva cumpria um papel de extremo para o qual nunca foi preponderante. Ou seja, a influência dos dois jogadores mais talentosos de grupo foi diminuída em troca da sombra do que Cristiano já foi. E nenhuma entre as 24 participantes do Campeonato Europeu dispôs de seis amistosos desde o fim das eliminatórias e a prova.

Discutir o papel de Cristiano não é um sinal de ingratidão a quem tanto nos deu. Tê-lo em campo nas segundas partes, quando sua fome tenderia a ser maior contra adversários possivelmente com as ideias e movimentos prejudicados pelo desgaste, só faria sentido se testes assim fossem feitos. Além da hipótese de aumentar a influência do capitão nos momentos em que estivesse em campo, ainda pouparia sua imagem e seu legado. E ainda passaria a ideia de alguém mais comprometido com os objetivos do grupo, em vez de suas próprias marcas. 

Mbappé foi substituído contra Portugal; Harry Kane deixou a meia-final contra os Países Baixos quando o placar ainda apontava a igualdade, desfeita justamente por quem o rendeu; na Copa América, Luis Suárez foi suplente do Uruguai e Messi sequer calçou chuteiras para ficar no banco contra o Peru, na última rodada da primeira fase. Cristiano só viu o número da sua camisola na placa que aponta as substituições aos 66 minutos contra a Géorgia, quando as contas no grupo já estavam feitas e sequer deveria ter jogado. Menos sentido ainda fará se quem tanto serviu à seleção insistir em se servir dela em nome de uma gratidão que ao cabo poderá ficar dispendiosa demais.  

Se calhar, faltou o miúdo a dizer que o rei estava nu. A diferença para o conto de Hans Christian Andersen é que toda a gente já havia notado.

sábado, 6 de julho de 2024

PORTUGAL - Que pena, Portugal

Texto originalmente publicado no Netlusa

LENDAS DAS ÁREAS Estes senhores dispensam legendas, mas
é preciso que um deles entenda seus limites (Hassan Ammar)

“O único erro foi a bola não ter entrado”. Assim, Roberto Martinez definiu a prestação de Portugal nos quartos-de-finais do Euro-2024. Também disse que não se deve avaliar a participação portuguesa por três jogos. Um a mais que a metade dos cinco, sem contarmos a hora adicional em forma de prolongamentos, contra Eslovénia e França, este já citado.

Foram 364 minutos sem meter a bola, este ser que ganha vontades quando as nossas intenções não se concretizam, nas balizas contrárias. E há muitos nomes aqui a responderem por isso: Mamardashvili, Oblak, Maignan, Martinez, Ronaldo.

O que Martinez disse é que a bola não quis entrar. Noutro sentido, o ótimo Francisco Martins, jornalista do Expresso, sacou no podcast No Princípio Era a Bola a frase que melhor resume e responde: “A bola não quis entrar e Cristiano Ronaldo não quis sair”. Reduzindo a este jogo em específico, foi o que faltou a Portugal.

Se há algo sobre o qual ninguém poderá apontar o dedo ao treinador é a sua capacidade de preparar a equipa para os jogos. Exceto pela abordagem desastrosa – como todo o resto naquele dia – para a partida contra a Geórgia, o selecionador português sempre apresentou a melhor formação possível para os contextos que se avizinhavam. 

Contra a poderosa França, de prestações à medida em todos os jogos até aqui, mas com claras hipóteses de crescer de acordo com a exigência apresentada – e Portugal exigiu o melhor que os gauleses poderiam dar –, Martinez apostou no seu onze base, mas com alguma diferença nas funções, diferenças essas há muito solicitadas. 

A mais flagrante e necessária: Bernardo Silva foi descolado da linha lateral e buscou associações com João Cancelo, dividido entre apoiar o ataque – e fê-lo muito bem – e segurar Mbappé, figura opaca em campo graças ao trabalho defensivo do lateral português e aos incômodos proporcionados pela máscara que trazia colada à cara. Do outro lado, Nuno Mendes manteve a tendência de crescimento e formou uma dupla diabólica com Rafael Leão, ligeiramente abaixo porque ainda não dá a melhor continuação às jogadas quando vence a marcação.

Esses elementos, somados a João Palhinha e Vitinha, fizeram com que o melhor de Portugal fosse melhor que o melhor da França, capaz de bascular o jogo de extremo a extremo com seu soberbo trio de médios formado por Camavinga, Tchouaméni e Kanté. Ainda assim, foi um duelo equilibrado e que, caísse para o lado que fosse nos 90 e tantos minutos, não haveria voz lúcida em Hamburgo, Paris, Lisboa ou em Diadema a sugerir uma injustiça.

Os pontos de desequilíbrio estavam justamente nas outras extremidades do campo, onde Rúben Dias e Pepe – este é um caso à parte e já voltaremos a isto – engoliam quem quer que surgisse por ali, e Upamecano e Saliba sobravam para neutralizar um destoante Cristiano Ronaldo.

E aqui talvez esteja a resposta para o desempenho abaixo do possível de figuras de proa da equipa nacional, como Bruno Fernandes, posicionado mais perto da área para compensar a ocupação de espaços que o capitão já não pode dar. E Cristiano deu pouco na maior parte da prova, sobretudo quando não foi poupado quando deveria.

Já lá voltaremos também.

A França é uma equipa que, sob Deschamps, pode ser classificada como a seleção mais cínica do mundo. Parece adormecida, adepta da lei do mínimo esforço, somente o necessário. Aí, quando o oponente abaixa os braços, vem o golpe. Suas capacidades acabam por moldar o adversário, e com Portugal não foi diferente. A primeira parte foi de estudos de parte a parte, poucas excursões ao coração da área adversária mais pela superioridade dos defensores do que pela vontade dos avançados, tanto que, remates, foram poucos concretizados.

O senso de urgência adquirido nos balneários após passadas a limpo as impressões trazidas do relvado trouxe duas equipes acutilantes, determinadas a evitar o drama da prorrogação e com a faca nos dentes. Palhinha travava Mbappé, Camavinga esteve a centímetros de fazer a festa gaulesa e Kolo Muani reviu Dibu Matinez na pele de Rúben Dias, dono e senhor de uma intervenção daquelas que valem por um golo a socorrer um Diogo Costa, cujos milagres não seriam suficientes naquele instante.

Do outro lado, Maignan esteve magnânimo para aplacar Leão. Depois, para fazer a defesa da noite quando Bruno Fernandes apareceu livre, em movimento a rasgar e recebendo passe açucarado tal uma bola de Berlim, que era onde Portugal queria estar no dia 14, mas o braço esticado do guardião francês não permitiu. Depois contou com a sorte para ver o chute colocado de João Cancelo ter outro destino, que não a vértice contrária.

A essa altura, Dembelé já estava em campo, rendendo um inoperante Griezmann. A resposta dada por Martinez foi lançar Francisco Conceição e Nelson Semedo. Deschamps ainda lançaria folego novo e pernas frescas com Marcus Thuram e Barcola. Na mesma altura, já no tempo-extra, João Félix voltaria a ser utilizado após inexplicavelmente ficar de fora de todas as opções contra a Eslovênia.

Se és um atacante e vestes a camisola da França, terás sido devorado por Pepe, possivelmente na melhor atuação desde que estreou pela Selecção Nacional. Aos 41 anos, que só foram notados naquele lance já no prolongamento contra os georgianos, o melhor zagueiro português da história – e um dos melhores do século em qualquer que seja a lista mundial que for feita se esta for minimamente séria – deu uma aula de posicionamento, leitura de jogo e vigor. Limpo, na bola, sempre na bola.

Os minutos se arrastaram até a necessidade de haver outros 30, que começaram com Francisco Conceição a levar de vencida toda a gente francesa que estivesse à sua frente antes de oferecer o gol a Cristiano Ronaldo. Aquele que fez cinco golos na última Euro não enviaria a bola à lua, como fez este, a versão pré-reforma que não venceu o tempo. 

O minuto além do 120 talvez tenha feito a pergunta a ser respondida: precisávamos do drama do prolongamento frente à Eslovênia? Em Hamburgo, este minuto teve dois ataques, de parte a parte, em que ficou nítido que o cansaço impediu que Portugal marcasse quando Nuno Mendes escolheu o pé menos usual para dar seguimento ao passe de Bernardo Silva. Thuram, na resposta, teve a porta fechada por Pepe, o melhor de todos os que estavam em campo. Pouco antes, Félix e Barcola tiveram suas hipóteses, mas as malhas que receberam a bola foram as do lado externo.

A esperança residiu ao fim no milagreiro da fase anterior, São Diogo, mas nem com asas ele pegaria as cobranças perfeitas de Dembelé, Fofana, Koundé, Barcola e Theo Hernandez. Chamado a abrir a série portuguesa, Cristiano não tremeu. Bernardo, como havia sido nos oitavas, também foi perfeito, mas João Félix, que substituiu o outro batedor, Bruno Fernandes, acabou acertando o poste. A cobrança sem reparos de Nuno Mendes serviu somente para manter a fé dos portugueses por alguns segundos.   

Se a França fez por onde passar, Portugal talvez tenha feito mais, mas o futebol é isto. Como é perceber o que foi feito de mau, reforçar o que foi feito de bom e, pelo amor de Deus, resolver o que fazer com o maior jogador português de sempre, que precisa ser convencido de que não há mais nada a provar.

O melhor jogo foi o último e há ótimos indicadores para o futuro, mas é preciso ter coragem.

***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: nem se voasse pegaria as cobranças francesas. Milagres não são feitos todos os dias; 
João Cancelo: se a Eurocopa serviu para algo, foi para recuperar o futebol de quem sequer sabe onde jogará na próxima temporada (Nelson Semedo: outro a recuperar a dignidade na relva alemã. Se quiseres, a lateral de um certo time vermelho da Segunda Circular estará à sua espera); 
Rúben Dias: o bloqueio ao chute do Kolo Muani teria sido aplaudido por Dibu Martinez; 
Pepe: vai voltar para Portugal com a mala carregada de atacantes de 10 a 20 anos mais jovens e incapazes de superá-lo. Um monumento de jogador; 
Nuno Mendes: a bola do jogo calhou-lhe ao pé errado. Melhor a cada jogo. 2026 estará à porta; 
João Palhinha: olhem o mapa mundi e reparem: a superfície é coberta por 60 e tal por cento de água. O resto é coberto pelo João Palhinha (Rúben Neves: era bonito seus passes teleguiados serem vistos mais vezes na Alemanha); 
Vitinha: o único azar é pisar os mesmos lugares de Bruno Fernandes (Matheus Nunes: perdeste suas férias para isso?);
Bruno Fernandes: poderia ter baixado mais vezes para organizar o jogo desde trás, onde há mais espaços. Nas duas vezes em que conseguiu, Portugal quase marcou. E ter saído é uma das tolices que ficaram na conta do mister (Francisco Conceição: seu pai certamente ficou mais orgulhoso pelo que viu do que o pai do Marcus Thuram. O problema é que eles saíram felizes, nós não); 
Bernardo Silva: juro que não entendo que caral** faz com que jogues como extremo. Entra técnico, sai técnico, e não há um corno pra te deixar jogar solto. Fez isso contra a França e, obviamente, Portugal cresceu; 
Rafael Leão: Koundé deveria passar por terapia para se livrar dos traumas causados pelos avanços de Rafael Leão. Nós todos também teremos que passar por terapia para esquecer que Rafael Leão ganha todas as jogadas e não acontece nada depois disso, a não ser uma ou outra ecrã quebrada por quem esperava pelo golo (João Félix: merecias mais respeito e minutos, mas nunca no lugar de Rafael Leão);
Cristiano Ronaldo: por quê, Cristiano? 
Roberto Martinez: havia muito potencial, flexibilidade tática, jogadores acima da média em todas as posições. Mas havia um treinador que dispôs de seis amistosos - mais um jogo para cumprir tabela - para preparar um time que ficou amarrado às vontades de seu capitão, que começou bem, mas deitou tudo ao chão conforme seu golo não saiu. O que dói é que poderia ser melhor. Uma pena, Roberto, mas simpatia não basta nos grandes palcos.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

PORTUGAL - São Diogo

*Originalmente publicado no Netlusa

Na noite em que faltou treinador e os veteranos quase
ruíram, sobroua sobrenatural atuação para expiar
 os pecados portugueses (Heiko Becker/Reuters)

Portugal orgulha-se de ser o país mais católico do mundo. Ao menos quando miúdo ouvi muitas vezes esta ideia. Os tempos podem ser outros, mas não haverá um português, seja em Portugal, na Alemanha ou em algures no mundo que não tenha acendido uma vela para São Diogo.

Mas nem era preciso tanto sofrimento. Se existiu um acerto da parte de Roberto Martinez, este foi a escalação. Depois das mal sucedidas e mal explicadas experiências com a Geórgia, Portugal foi a Frankfurt com o sistema com dois zagueiros, tendo Nuno Mendes e João Cancelo nas laterais; os incansáveis João Palhinha e Vitinha como trincos, tendo este a missão de ser amálgama para toda a equipa. Bruno Fernandes mais próximo da área e Bernardo Silva dando largura à direita para Cristiano Ronaldo e Rafael Leão, este sempre aberto do outro lado, completarem o onze inicial. 

Sem surpresas, pois.

Surpreendente, de fato, foi o espaço que Portugal encontrou no início acutilante, na melhor entrada da turma de Martinez nesta Eurocopa. Há quem diga que Portugal andava pendido à esquerda, mas as principais jogadas sempre iam ter pelos lados de Rafael Leão, que deu as caras na competição, e Nuno Mendes, um verdadeiro tormento. E o placar só não foi movimentado porque sempre faltava algo, fossem pernas para Bernardo Silva alcançar o passe de Bruno Fernandes ou Cristiano fazer jus ao bom nome de goleador que tem. 

Os cinquenta e poucos jogos que suas pernas levam na temporada parecem pesar, a ponto de lhe tirar explosão e tempo de bola, justamente as suas principais armas. Não tem sido raras as vezes em que o camisa 7 quase chega à bola. Foi assim contra a Geórgia, foi assim no Qatar, há um ano e meio.

Ainda não ter levado o pão à sopa tem trazido à tona o pior de Cristiano Ronaldo: a ansiedade. Contra a Eslovênia, aquele atacante associativo deu lugar à versão atabalhoada e mesquinha, que invariavelmente tomará a pior decisão, como na cobrança de falta praticamente sem ângulo nem cabimento, em que tentou mandar direto para o gol, como se lá estivesse um qualquer.

Como Portugal não marcou, a intensidade caiu e a Eslovênia conseguiu respirar um bocado e vez ou outra até criou problemas, ora com Sesko - perigoso avançado de 21 anos, que venceu alguns duelos com Pepe, o monumental defensor com quase o dobro da sua idade -, ora com Sporar, de quem a bola foi tirada uma par de vezes por um Nuno Mendes insinuante a apoiar e diligente a defender. 

A segunda metade da primeira etapa teve alguma calmaria, quebrada somente quando João Palhinha, novamente soberbo, acertou o poste de Oblak pouco antes do final da primeira parte. Não faltava muito para acertar para poder encaminhar uma classificação relativamente tranquila.

Mas o segundo tempo teve duas partes distintas: uma em que Portugal teve inventividade e a que não teve nada a partir dos 20 minutos, quando da inexplicável dupla mudança promovida por Roberto Martinez, que tirou seus dois melhores homens, Vitinha e Rafael Leão, e colocou Diogo Jota e Francisco Conceição. Bruno Fernandes foi recuado para terrenos mais baixos, quando o ideal seria aproximá-lo de Bernardo Silva; Leão, um verdadeiro tormento, um felino livre e faminto na Savana, deu lugar para Chico Conceição, numa troca de imposição pelo drible que não resultou. 

O tempo foi passando, o jogo ficou partido e os eslovenos só não conseguiram algo ainda no tempo normal pela sua inaptidão ao ataque e o inevitável nulo permaneceu até o fim do tempo regulamentar. 

Como estava, já não havia mais sentido coletivo algum em Portugal, que ficou dependendo dos seus valores individuais. E Diogo Jota disse presente quando rompeu com a bola entre os defensores e só parou quando foi derrubado na área: pênalti indiscutível e a grande chance de Cristiano finalmente marcar o seu e estabelecer o recorde que, mesmo dizendo o contrário, incomodará até que consiga, mas faltou-lhe a calma de costume e o chute, forte e à meia-altura, foi desviado por Oblak e encontrou seu poste esquerdo antes de sair. 

Se o veterano avançado falhou, o jogador com mais rodagem da Terra entre todos que já estiveram pelas andanças da Eurocopa, o monumental Pepe, foi tentar um passe em zona proibida e errou tudo: bola, chão e tempo de bola. E Sesko, 20 anos mais moço, ficou com o gol à sua frente, mas desperdiçou. Ou melhor, Diogo Costa, com o pé, operou o primeiro milagre da noite já a dois minutos do fim. Seria injusto Portugal cair por erros justamente de Pepe e de Cristiano.

Quando acabou o jogo, o capitão caiu. Trocou o chilique dos gols falhados por um choro que o fez tocar o chão dos mortais, posto que é humano. Daí surgiu Diogo Dalot, seu melhor - e talvez único - amigo na segunda passagem pelo Manchester United, e o consolou. 

Mas ainda faltava o fado, o drama, o palco perfeito para o surgimento de heróis e vilões. E santos. 

A canonização é possível quando dois milagres são comprovados. Faltava um. E este veio na forma de três pênaltis defendidos, mas não daqueles em que o goleiro escolhe um canto e seja o que Deus quiser. Foi buscar os três, a começar pela injustiça da perda nos pés de Ilicic, que venceu uma depressão e é um dos vencedores desta Euro. 

Cristiano, mais calmo, se redimiu com uma cobrança perfeita que, não o fosse, teria parado nas mãos do outro santo dos postes. Bruno Fernandes e Bernardo Silva também foram chamados e colocaram Portugal no comboio para Hamburgo, onde a França, também de prestações mininas até aqui, espera para mais um duelo entre os países que disputaram uma final e duas meias finais. 

O apuramento aos quartos teve todo o drama que toda a gente mais dada a emoções e histórias de superação mais gosta. Se resultar em um troféu ao alto no dia 14, lembrar-se ao dos campeões forjados com lágrimas, suor e sofrimento. Se não resultar, e isto sempre é o mais provável, perguntarão por que um jogo acessível se arrastou a ponto de extenuar toda a gente? Por que Vitinha, o melhor em campo, saiu? Por que Bernardo Silva fica fixo como extremo, se joga melhor quando se associa por mais partes do relvado? Por que colocar os objetivos de Cristiano Ronaldo acima da própria equipa? 

E será preciso mais, pois milagres não acontecem todos os dias.

(Getty Images)


***

As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Se algum português estiver a escolher o nome do filho e não pensar em Diogo estará morto por dentro. E se for menina? Nomes compostos servem pra isso;
João Cancelo: Queira descobrir algum segredo cabeludo do mister para usar contra ele quando pensar em te tirar da lateral (Nelson Semedo: Tenho para mim que o Semedo sabe);
Rúben Dias: Estupendo, como sempre. Mas podia correr um bocadinho mais quando o Pepe deu aquela fífia;
Pepe: Os monumentos tombam, afinal (Rúben Neves: "Ó, mister, duvidas que eu dê um pontapé e meta a bola pra fora do estádio?" E foi assim que Rúben Neves entrou);
Nuno Mendes: Jogas tanto, mas tanto, que nem pareces jogador do PSG;
João Palhinha: Já que tens que marcar por todos, faça uma pergunta ao mister: "VAIS TIRAR O VITINHA? ÉS PARVO OU O QUÊ?";
Vitinha: Não erras um cara** de um passe e és tu que sais? (Diogo Jota: Não inventes mais de sofrer um pênalti quando o Cristiano estiver ansioso);
Bruno Fernandes: Já pensaste em colocar laxante no suco do mister? Ele jamais desconfiaria de ti; 
Bernardo Silva: Interessante, a ideia do mister ao te tirar da ponta direita, onde não rendes, e te passar para a esquerda, onde nunca jogas. Nem Jorge Jesus faria isso. Não hoje;
Cristiano Ronaldo: Que a humanização do seu choro e a humildade do pedido de desculpas te façam ver que podes não jogar sempre; 
Rafael Leão: Excelente estreia, Rafael Alexandre. Onde estiveste este tempo todo? (Francisco Conceição: "Eu? No lugar do Rafa? É isso mesmo?" Essas eram as únicas perguntas a serem feitas, pá, até ele cair em si);
Roberto Martinez: Não basta ter os ovos para fazer a omelete; tens que quebrá-los. Sim, é do Cristiano que estou falando.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

PORTUGAL - Vivendo e aprendendo a jogar

*Originalmente publicado no Netlusa

PESADELO Na noite em que nada resultou, Portugal sofreu sua primeira
derrota oficial com Roberto Martinez (Foto: Patrícia Melo Moreira/AFP)

Portugal tem motivos para reclamar na primeira derrota em jogos oficiais sob o comando de Roberto Martinez e que impede o registro limpo na primeira fase. Pode reclamar do pênalti não marcado sobre Cristiano Ronaldo quando o placar ainda apontava o 1-0 ofertado por um infeliz e deslocado António Silva; poderá reclamar do suíço que estava a dormir na cabine do VAR, enquanto o outro suíço estava a cochilar no relvado, a ponto de não ver o puxão que testou a elasticidade da belíssima camisola azulejada do capitão; poderá reclamar da monstruosa atuação de Mamardashvili, que já havia feito pela vida contra os turcos. Mas o maior motivo de reclamação deve ser endereçado às escolhas de Martinez, da abordagem ao jogo ao onze que escolheu. Ao cabo, os maiores responsáveis pela derrota terão sido o próprio selecionado e seu selecionador.

Martinez, que escolheu dar minutos a uns e descansar outros, voltou ao sistema com o trio de centrais, formado por Danilo, ao centro, ladeado pelos jovens António Silva e Gonçalo Inácio. Nas alas, Diogo Dalot e um estranho Pedro Neto dariam largura para que a dupla de Joões – Palhinha e Neves – tivesse algum espaço para avançar com a bola e levá-la a Francisco Conceição, enquanto Cristiano Ronaldo e João Félix teriam liberdade para trocar de lugar e criar alguma dificuldade para o sistema defensivo de Willy Sagnol.

Com menos de dois minutos, toda a gente se colocou no campo de ataque e António Silva carregou, carregou, carregou. Era um tanto cedo para essa desorganização. Mais fora de hora ainda para o passe errado, com desleixo, de quem esteve intimamente ligado também ao segundo tento, e que apanhou tudo fora do lugar e acabou com Kvaratskhelia a comemorar seu primeiro golo na prova do jeito que mais lhes apetecia: o roubo da bola em zona proibida, a descida em velocidade e a bola no pé do seu melhor jogador.

Fora de lugar. Se as escolhas da estreia foram justificadas pela expectativa de uma Chéquia que mudou a si própria para enganar Portugal – e conseguiu -, a falta de rotina numa defesa a três do jovem benfiquista novamente foi flagrante. Da mesma forma, Pedro Neto não tem as valências defensivas de Nuno Mendes e sua presença na ala era, é e será algo injustificável.

Também não se explica, a não ser pela possibilidade de deixar o capitão levar o pão à sopa e afastar a ansiedade que costumeiramente atrapalha e contamina toda a gente, a presença de Cristiano Ronaldo no time que começou o jogo, mesmo que Diogo Jota e Gonçalo Ramos tenham feito somente um treino.

Mesmo assim, Portugal ainda fez por onde merecer melhor sorte, sobretudo porque João Félix e Francisco Conceição estiveram à altura da missão, que talvez seria mais bem conseguida com Vítinha, melhor português da Euro, pudesse encher as medidas do campo como o fez nos outros dois jogos.

Haverá a reclamação pela grande penalidade sonegada pela arbitragem, e com o auxílio da vídeo arbitragem é ainda mais inaceitável que o lance tenha passado sem maiores consequências. Mas há que ser perguntar: i) por que escalar Pedro Neto em vez de João Cancelo?) por que diabos Dalot, se Nelson Semedo está em melhor forma e vai mais ao fundo? iii) por que João Palhinha, se era para sair ao intervalo para evitar um segundo cartão amarelo e a suspensão nos oitavos? e iv) por que voltar ao sistema em que toda a gente fica desconfortável e que nunca resultou?

Pelas características de quem estava em campo, faltou paciência e critério para furar o bloqueio com cinco ou até seis defensores. Como na estreia, havia gente para conduzir, não para passar a bola ou buscar um passe a rasgar entre os contrários. A essa altura, ao cabo da fase em que ainda era permitido perder sem maiores consequências diretas no apuramento, é preocupante tornar a ver os mesmos problemas da estreia.

Enquanto Portugal usou o jogo para poupar e dar a chance de Cristiano Ronaldo marcar um gol – o fantasma do dono do time que se coloca acima dos interesses do grupo sempre aparece quando as coisas não correm a contento -, a Geórgia ousou sonhar e, com seus dois craques a decidir, fez história e se classificou logo na sua primeira fase final de uma grande competição. Aqui, o sonho foi capaz de abrandar as terríveis falhas defensivas que fizeram do seu goleiro o melhor da posição na primeira fase.

Com a derrota, calhou-nos a Eslovênia, mesmo adversário de um dos amigáveis depois da fase de classificação. Na ocasião, Roberto Martinez convocou mais de 30 jogadores e os distribuiu em em três turmas, resultando numa equipe alternativa na primeira derrota de Portugal sob sua direção. Dali, tirou notas sobre como não jogar.

Que o desaire frente aos georgianos tenha servido ao menos para isso.

***
As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: Camisolas azuis e brancas, golos oferecidos. Parecia que estavas a defender o Porto;
António Silva: era preciso avisar que, no jogo entre malta de camisolas vermelhas e os de azul e branco, tu estavas com esses últimos? (Nelson Semedo: se a sua missão era ser melhor que o António Silva, já o farias se dissesse seu nome corretamente a quem eventualmente perguntasse);
Danilo Pereira: podias estar de férias, podias estar a pensar em como fazer para o timinho que tu defendes em França ganhar qualquer caralho além das fronteiras. Tu sabes que não estavas, Comendador?
Gonçalo Inácio: Ora viva! Tu foste o melhor dos três da defesa. Não era preciso muita coisa, que fique claro;
Diogo Dalot: quando o mister disser que tu precisas jogar como um avançado, será de bom tom dar com algo teso na cabeça dele. Se não for possível, queiras tropeçar na escada da saída do balneário. Não havia escadas? Então fica difícil, pá. Mais difícil que furar defesas a cinco, como a que vem aí;
João Palhinha: entre as perguntas que deverias fazer antes do jogo, a principal seria “Eh, pá! Vais mesmo me escalar sendo o único gajo a arriscar uma suspensão para o jogo a doer? Não que ia resultar, mas ficava o registo (Rúben Neves: o mister sabe que não és avançado?);
João Neves: Saudade do Florentino, né, meu filho? (Matheus Nunes: até o fim do Euro, será que consegues jogar um tempo completo? Já disseste ao mister que podes?);
Pedro Neto: Ó, miúdo, faz favor, anda cá. O mister disse que te escalou a ala porque já havias jogado assim no Wolverhampton. Por que caraças não disseste que não eras tu? (Diogo Jota: foste o único a entrar na posição certa. Aproveite essa predileção para, sei lá, fazer com que o Rafael Leão fique no banco caso Portugal passe pelos eslovenos);
Francisco Conceição: ao par de João Félix, teu melhor amigo, eras o mais inconformado com o que (não) aconteceu. Faça o favor de ser amigo de todos os outros também. E do mister;
Cristiano Ronaldo: Peça o quadro usado pelo Rafael Leão após a estreia e escrevas o seguinte, quanto baste: “Os interesses coletivos estão acima dos individuais”. Pela atenção, obrigado (Gonçalo Ramos: não jogas no Paris, não jogas na seleção nacional. Sabia que na Segunda Circular, em Lisboa, há um clube em que tu jogarias? Não, não é o Sporting, lá também não jogarias);
João Félix: se este jogo serviu pra algo, foi pra mostrar que há vida no gajo que não quer ser um flop. Depende mais de ti que dos outros;
Roberto Martinez: cantas A Portuguesa e és teimoso feito um cavalo. Para ser um português completo, falta gritar ao Ronaldo: “Ó, pá, pro caralho com os recordes! Foda-se! Vê-se que não falta muito.