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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Pílulas amadoras -24

*Por Humberto Pereira da Silva

Nelson Almeida / AFP

Sobre Brasil versus Uruguai, o empate com a Celeste praticamente garantiu a vaga brasileira para a Copa de 2026. Os resultados dessa Data FIFA, aliás, praticamente definiram os representantes de forma direta da América do Sul: Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, Brasil e Paraguai. 

Comemorar a quase classificação? Sim, óbvio, mesmo com o aumento de vagas, apurando diretamente seis dos 10 postulantes, e logo iremos a isso. Por diversos motivos, há um equilíbrio nessas Eliminatórias. Ao término da rodada dupla - à qual nos habituamos a chamar de Data FIFA -, a Argentina lidera. E tudo indica, manterá a cimeira na próxima. 

Mas, vejamos, por momentos, ela sentiu a sombra da Colômbia. Ao término, fazendo as contas, perdeu do Paraguai e em Buenos Aires não goleou o frágil Peru, de quem ganhou, aos olhos mais atentos, com esperada dificuldade. A Colômbia, por sua vez, fecha a Data FIFA, em que poderia liderar, na quarta posição. 

Então, o Brasil decepcionou nesses dois jogos? Ora, a decepção está obrigatoriamente ligada à expectativa e o Brasil jogou o que é a realidade atual do futebol brasileiro frente ao equilíbrio entre as seleções do continente. 

É impressionante ver a quantidade de jogadores das seleções da América do Sul que atuam no Brasil, cujos times dominam as competições continentais. Salta aos olhos a quantidade de jogadores da América do Sul que atuam nas principais ligas da Europa. 

TODOS os comentários que li sobre Brasil e Uruguai parecem ignorar essa realidade. Assim, simultaneamente, alguém lembra que Valverde é estrela no Real Madrid, e não menciona as ausências de Arrascaeta e De la Cruz, estrelas aqui no Flamengo. Isso sem contar as retiradas recentes de Cavani e Suárez, titulares dos cisplatinos nas últimas três Copas do Mundo. 

No afã de torcedor, jogar contra o Uruguai, e ganhar, seria como 40, 50 anos atrás ter pela frente Venezuela ou Bolívia. E comentários de torcedor sem essa constatação funcionam como um bom tempero para que, sob pressão de emular escretes do passado, a seleção "novamente" decepcione.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

SELEÇÃO BRASILEIRA - Exclusão e desconexão: o aumento da desigualdade no acesso ao futebol brasileiro e o enfraquecimento do vínculo seleção/torcedor

PELE CLARA O perfil do torcedor presente nos jogos do
Brasil (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)  


Não bastasse o baixo nível apresentado em campo, ver a Seleção Brasileira na cancha é um privilégio para poucos, algo proibitivo para a imensa maioria das população brasileira. Em 2021, quando fiz um levantamento para o Ludopédio sobre o custo para ver jogos de Brasil e Portugal nas Eliminatórias para a Copa de 2022, a diferença entre o que era cobrado nos dois países já era grande. Três anos depois, porém, o fosso aumentou.

Para comparar, à época, peguei jogos com o mesmo peso (Brasil x Uruguai e Portugal x Sérvia) e condição: um assalariado que recebia o salário mínimo vigente, desconsiderando os descontos. Resumindo, em 2021, o trabalhador brasileiro que recebia R$ 1.100  teria que pegar no batente por 50 horas para comprar a entrada mais barata, vendida a R$ 250,00 (desconsiderando o benefício da meia-entrada); o português, por sua vez com vencimentos em €665, trabalharia por 3h06min para receber o montante necessário para comprar o ingresso, que custava € 10.

Em 2024, a coisa piorou: com o ingresso mais barato tendo um reajuste de 60% e custando 400 pilas para ver Brasil x Equador no Couto Pereira, quem recebe o salário mínimo (R$ 1.412,00 para uma carga mensal de 220 horas) teve que trabalhar por 62h24min. Portugal x Croácia, no estádio da Luz, custou o equivalente a 2h44min a um gajo nas mesmas condições (€ 820 por 200 horas trabalhadas, segundo a legislação trabalhista portuguesa). Se optasse pela entrada mais cara, o custo seria 50% maior. Ou seja, no Brasil, 93h36min; em Portugal, 4h06min. 

Em termos percentuais, o português comprometeu 1,53% dos seus vencimentos em 2021 e, pasmem, 1,22% três anos depois, já que não houve reajuste no preço das entradas face ao aumento no salário; o brasileiro, esse trouxa, teria amarrado 22,72% há três anos. Agora? 28,3%. Isso se pensarmos no preço "popular". Obviamente, quem recebe um salário mínimo sequer chegou perto da entrada do estádio Couto Pereira.

Pensando ainda no futebol português, jogos de clubes são bem mais caros. Um jogo do FC Porto pela Liga sai, no mínimo, a € 28 euros para não sócios. Do Sporting, pela Liga dos Campeões, o tíquete mais baixo sai por €31, praticamente o mesmo para ver um jogo do Benfica pela Liga, isso sem considerar os planos de sócio-torcedor que os clubes mantêm.  

No entanto, diferentemente dos clubes, as confederações nacionais não têm que pagar por multas de quebras de contratos para contar com jogadores. Basta que eles sejam elegíveis para vestirem suas camisas. A CBF, por exemplo, bateu seu recorde de faturamento em 2023, com R$ 1,17 bilhão em receitas e superávit de R$ 238 milhões graças aos ganhos com repasses de direitos de transmissão e comerciais. Nas bilheterias, houve uma queda no faturamento que, somado às premiações das seleções, caiu de R$ 103,7 milhões para R$ 45,8 milhões, o que mostra que não precisa lubrificar as engrenagens da sua máquina com o dinheiro de quem paga pelos ingressos para ver os jogos da Seleção. 

É óbvio que o futebol abaixo da crítica afasta os torcedores, sobretudo os que têm um comportamento de consumidor, que é o perfil mais comum atualmente em eventos mais caros, mas não é só isso. Existem estudos, como este, este e este, que relacionam o torcer com o sentimento de pertencimento, que é negado a quem não é bem-vindo nos estádios, locais repletos de simbolismo e de sedimentação. 

Um dos livros mais cultuados sobre o assunto é Febre de Bola, do inglês Nick Hornby, fanático pelo Arsenal, mas que forjou seu amor nas arquibancadas, sejam do antigo e histórico Highbury ou em pelejas fora de casa. Esta obra ensejou estudos como este, que classificam o estádio como "espaço autobiográfico". Afastado dos locais de convívio, o laço afetivo é rompido e corre-se o risco de ver novos torcedores se afeiçoarem por camisas vestidas por seus ídolos, cada vez mais afastados das figuras dos clubes - e seleções nacionais, por conseguinte -, ainda mais em tempos em que jogos de todas as equipes estão a um click de distância, como mostra a pesquisa CNN/Itatiaia/Quaest, divulgada em 2023, apontando que quase metade dos entrevistados entre 16 e 30 anos torce também por clubes do exterior.

Ao cabo, é o dinheiro que cria as conexões, que duram até que outros dinheiros as quebrem e novas conexões sejam feitas. Por ser um país onde culturas se sobrepõem a outras mesmo regionalmente, é comum torcedores que vestem a camisa de clubes de outros estados, fenômeno que explica a força do futebol carioca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil desde a Era Vargas. Neste sentido, não é pelo clube da cidade ou do bairro que se torce, como é comum acontecer em lugares como Buenos Aires e Londres, e que de certa forma é explicado no À Sombra de Gigantes - uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu, do jornalista Leandro Vignolli.

Neste sentido, o futebol varzeano está imune porque é o lugar que conecta  pessoas a lugares, independentemente de conquistas ou poder de mercado e é exatamente esse "fazer parte", como mostra o jornalista Leandro Marçal, que une comunidades em torno de equipes de futebol amador.

Ao cabo, como animal social, o homem busca conexões, mas não ficará onde não se sentir bem-vindo. 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

BRASIL - Por que o Brasil piorou 10 anos depois do 7 a 1

DA DOR AO RISO: tratar a tragédia como chacota só piorou
o futebol brasileiro (Imagem: Jamie McDonald/Getty Images)

O maior vexame da história do esporte completa 10 anos hoje, 8 de julho. A efeméride, data redonda, ganhou mais força com a precoce eliminação da seleção brasileira na Copa América disputada nos Estados Unidos, a nova casa do futebol sulamericano – e brasileiro, ao menos quando se trata da seleção, mas vamos a isto mais adiante.

Gentes muito melhores que eu, como o comentarista Carlos Eduardo Mansur, do Grupo Globo, não gostam dos adjetivos que qualificam o episódio como vergonha e vexame. Eu considero que servem à perfeição para falar da hecatombe que acometeu a camisa mais pesada do esporte mais popular do mundo, ainda mais jogando em casa. Logo, o termo cabe.

Se o 7 a 1 serviu para algo, foi para redimir a geração que foi empurrada para a derrota pelo oba-oba de políticos, que não tinham intenções das mais puras – nunca as têm –, e da imprensa no jogo que decidiu a Copa do Mundo de 1950. Passados 10 anos do atropelamento alemão, que nem cumpria uma campanha tão brilhante assim naquele mundial, o futebol brasileiro regrediu. Nem mesmo os incrementos financeiros resultantes do aumento da média de público podem ser considerados como avanços sem o senão dos efeitos da gentrificação, do afastamento do povo pobre e preto das arquibancadas.

A seleção brasileira está mais afastada do torcedor do que há 10 anos, quando as piadas pelo Mineiraço já surgiam no intervalo, no colo do 5 a 0 que ainda aumentaria para o sete-a-um que virou verbete informal para as agruras do cotidiano. A capacidade de rir da própria desgraça é tão brasileira quanto quem nasce, vive e morre no país. Por um lado, ajuda a aliviar as mazelas da vida de quem sofre e não tem muitas perspectivas. Por outro, porém, ao aceitá-las em vez de combatê-las, ajudamos a perpetuar este sistema que insiste em normalizar o inaceitável, seja qual for o setor.

Pouco de concreto foi feito para corrigir a rota do futebol nacional. No ano seguinte, a CBF promoveu uma reunião com ex-técnicos da Seleção para buscar respostas. Para participar do encontro, que reuniu o então treinador Dunga, além de Parreira, Zagallo, Carlos Alberto Silva, Paulo Roberto Falcão, Sebastião Lazaroni, Candinho e Ernesto Paulo, bastava ter sido treinador da seleção em pelo menos um jogo e estar vivo na ocasião. Mano Menezes, Felipão, Vanderlei Luxemburgo e Leão foram convidados, mas não participaram de um evento que resultou num sem número de chavões, discursos vazios e constatações óbvias.

No mesmo ano, a entidade criou seu curso de treinadores, com o nome pomposo de CBF Academy. No entanto, os efeitos práticos são indetectáveis. Dez anos depois, o Campeonato Brasileiro foi iniciado com metade dos clubes tendo treinadores estrangeiros, boa parte deles vindos de Portugal e da Argentina. O curso de treinadores da Argentina, o AFTA Campus Virtual, teve treinadores portugueses como instrutores, tanto que é válido na Europa, diferentemente do nosso, e essa limitação impede um intercâmbio que favoreceria o desenvolvimento do futebol nacional. Não se trata de copiar os métodos, e sim de entender os conceitos e utilizar o que pode ajudar, dentro das bases do futebol nacional, a desenvolvê-lo. 

Ao cabo, passamos por uma profunda crise de identidade, sem uma cultura tática estabelecida e tentando emular os sistemas da moda na Europa, mas não entendemos ou respeitamos os processos necessários para que os tais sistemas sejam compreendidos. Hoje, a busca é pela posse de bola, pela transição rápida, pelo jogo que transforma os meias em meros passadores de bola e o futebol posicional. Técnicos seguem promovendo sistemas táticos que tentam evitar a derrota para protegerem seus empregos. Programas de debate barulhentos, cujo objetivo maior é criar engajamento por meio de opiniões enfáticas, polêmicas e rasas, buscam respostas fáceis para segurar a audiência de torcedores que preferem acompanhar canais segmentados ou influenciadores sem o menor compromisso com a informação. Atende-se assim àqueles que não querem contraditório, mas querem endosso.

Respostas fáceis. Muitas delas voltaram com força com a eliminação para o Uruguai. E tome falar de seres abstratos, como o amor à camisa, a falta que o Neymar faz, a falta de protagonistas, a seleção de 2006. Obviamente, o comportamento dos jogadores, ralhando com a torcida a cada gol contra a poderosa esquadra paraguaia, o bate-boca público de Vini Jr a um jornalista que fez críticas técnicas ao seu desempenho no mesmo jogo, ou a desastrosa entrevista de Andreas Pereira, sugerindo que jogar na Premier League seja o suficiente até para causar inveja aos jogadores do Uruguai, histórico rival e orgulhoso de sua própria e gigante história, é contraproducente, não ajuda e ainda atrapalha. Isso vindo de um jogador que no Flamengo era reserva de um uruguaio, que nem é titular na Celeste.

Este ambiente forjado à base do "nós contra eles" pode ter dado certo com Felipão em 2002, mas foi uma completa tragédia com Dunga. O capitão Danilo foi ao pé da torcida cobrar apoio após um medonho 0 a 0 com a Costa Rica; Endrick deu a entender que alguns ali faziam um favor ao defender a seleção quando poderiam estar de férias. Endrick precisava dar a entrevista após a eliminação? Passou pela cabeça de Andreas que suas declarações seriam combustível para um adversário que, além de estar em um melhor momento, não precisa de um estímulo extra? Neste sentido, há jogadores uruguaios que o torcedor brasileiro gostaria de ver usando a camisa amarela. É sinal de que falta, além de autocrítica, gestão.

Ainda assim, é só mais um aspecto nessa profunda crise, e não dá para dissociar do 7 a 1. A primeira resposta fácil foi o retorno de Dunga, que já havia sido escolhido para o ciclo seguinte a 2006 porque representava entrega, disciplina e identificação com a camisa da seleção. Não funcionou porque o problema certamente não era esse. Veio Tite e o Brasil saiu do nada para o muito bom, vencendo todos os jogos de uma eliminatória tida como “a mais difícil de todos os tempos”. Foi um suspiro de modernidade e eficiência, mas que fez ressurgir o ufanismo tão nosso de cada dia que causa estragos desde 1950.

Pela melhora imediata apresentada logo à chegada de Tite e sua comissão técnica, seu trabalho passou a ser incensado por quem deveria manter uma distância segura para evitar a contaminação, mas a cobertura da seleção brasileira, mais do que qualquer outra no mundo – e não por acaso –, é acompanhada pelo exagero para o bem ou para o mal, e não havia a contestação necessária para não vender a ilusão de favoritismo absoluto.

Deve-se admitir que Tite, no comando da seleção, fez com que houvesse um trabalho diário, com método, processos e profissionalismo, mas não o suficiente para que o Brasil fosse além das quartas-de-final da Copas de 2018 e 2022. Pecado dos maiores, também não foi o bastante para delimitar ao gramado a influência do melhor jogador da geração, a ponto de aceitar bovinamente o acesso dos “parças” e que seu pai, eminência parda da seleção brasileira e que sequer deveria estar próximo, corroesse o organograma hierárquico necessário a qualquer organização.  

Outro ponto, já abordado aqui, é o afastamento do torcedor. E são diversos os vértices a ligar as arestas dessa figura cheia de faces: Pegando o recorte específico abordado aqui, desde o 7 a 1, o Brasil jogou 49 amistosos. Destes, somente cinco foram jogados no país. Em termos de comparação, o Brasil jogou 11 vezes nos Estados Unidos e seis na Inglaterra. Nem quando havia a possibilidade de buscar uma reaproximação, e a melhor oportunidade se ofereceu antes da Copa de 2018. O único amistoso realizado naquele ano antes do Mundial ocorreu em março. E não foi no Brasil, foi na Rússia. Jogos oficiais são proibitivos pelo preço. O ingresso mais barato do último jogo de eliminatórias disputado em terras brasileiras custou R$ 200,00 (a meia entrada). O preço cheio variou entre R$ 400 e R$ 600. 

O calendário também não ajuda, com a imposição das 38 rodadas do Campeonato Brasileiro e a necessidade de proteger os campeonatos estaduais, que garantem a subsistência de inúmeros clubes, postos de trabalho e setores da economia local. Queiram ou não os defensores do planejamento hipotético dos maiores clubes, o futebol não se restringe aos 13 que criaram a Copa União, em 1987, nem os outros estão fadados a serem seus entrepostos. A resposta? Não sei, mas defenestrar os clubes menos ricos ou menores jamais será o caminho.

Um dos impactos é a impossibilidade de parar os campeonatos para que seleção possa atuar. E nem adianta falar que no dia dos jogos da seleção não há jogos, já que eles acontecem no dia seguinte. Como acomodar isso? Haverá quem possa dar as respostas. Por aqui, fazemos as perguntas e fomentamos o debate. O jornalista Júlio Gomes sugeriu, em sua coluna do UOL, inverter estaduais e o Brasileiro para coexistirem de maneira mais inteligente e poder haver uma parada de verdade para que os jogos da seleção não desfalquem os clubes e causem a revolta de torcedores e jornalistas mais figadais, digamos assim. Eu considero a ideia do Júlio muito boa, portanto, viável. A minha seria mandar às favas os pontos corridos. Não acontecerá.

Mas voltemos à eliminação na Copa América. Ela é o resultado de todas as barbeiragens cometidas pela CBF, sobretudo pelo seu presidente, Ednaldo Rodrigues. Não a eliminação em si, mas a forma, que até foi previsível. A queda nas quartas de final, no Catar, foi encarada como fracasso e, em vez de esperar pelo rescaldo e analisar o que foi feito de bom e de mau, que é o mínino que se espera quando existe algum direcionamento, tudo o que foi trabalhado até ali foi jogado fora. O Brasil ficou sem supervisor e diretor de seleções e todas as decisões foram tomadas monocraticamente por Rodrigues, que não é lá um sujeito a quem se possa atribuir todas as qualidades de um grande gestor. Se fosse, não compraria a ideia, praticamente platônica, de que Carlo Ancelotti ocuparia o cargo de treinador da seleção. Mais que isso, caso Carlo realmente tivesse assinado o contrato, a transição jamais poderia ser feita por um treinador com características tão diferentes.

Até Ednaldo sabe disso, tanto que vendeu a ideia de que Fernando Diniz e Carlo Ancelotti tinham conceitos parecidos. O problema é que claramente não têm. De toda forma, qualquer que fosse o resultado desse “espera aí que eu vou depois”, o treinador pegaria um trabalho a partir do zero, que é o que aconteceu com Dorival Júnior. A Copa América, portanto, não poderia ser o ponto de análise do projeto, e sim o de partida, e o resultado é o que menos deveria importar.

No entanto, como não existem verdades absolutas ou garantias de vitórias no futebol, não é possível notar que o período entre a apresentação dos convocados e a despedida do torneio trouxe evolução alguma. O que pudemos perceber foi o contrário: a incapacidade de sair jogando – o jornalista Leonardo Bertozzi trouxe, no Linha de Passe seguinte ao jogo com o Uruguai, um dado insuspeito: os jogadores que mais tocaram na bola no primeiro tempo foram o zagueiro Marquinhos e o goleiro Alisson, além de que apenas um passe foi concretizado no último terço do campo defensivo uruguaio – e a falta de rotinas que pudessem potencializar o talento dos principais jogadores, que, sim, existem e atuam destacadamente em alguns dos principais clubes do mundo.

Este texto não tem a intenção de dar as respostas e interditar o debate. Pelo contrário, é preciso analisar e tentar entender o que levou o futebol brasileiro para além do fundo do poço, que, imaginava-se, era perder de 7 a 1 em casa numa semifinal de Copa do Mundo.

sábado, 9 de setembro de 2023

BRASIL - Sobre Neymar, Pelé, revisionismos, recordes e o Anticristo do Jornalismo Esportivo

A MARCA DO REI  Neymar dá soco no ar ao superar
Pelé em jogos oficiais (Ricardo Moraes / Reuters)

Li, em grandes portais, textos sobre o grande feito de Neymar, chamando-o de o maior artilheiro de todos os tempos da Seleção Brasileira. Faltou qualificar: EM JOGOS OFICIAIS. 

Há alguns anos, fui à Aceesp para assistir a uma palestra daquele que vou chamar de Anticristo do Jornalismo Esportivo, mas não direi quem é. Ele disse, entre outras bobajadas, que aquele que se orgulhava de ter boa memória perderia a utilidade, já que o Google está aí pra isso.Não podemos perder a capacidade de contextualizar as épocas. 

Nada é tão raso ou tão equivocado, ainda mais numa área de atuação em que a História é tão importante. Não se trata do que, mas de como e por quê. Bom, tudo o que ele, o Anticristo, produziu depois mostrou que minha impressão sobre ele estava certa.

Ah, não tem como aferir com um critério razoável porque não existe um que seja próximo de um consenso. Então, faça-se a distinção, mas jamais deixe de qualificar, pois é impossível comparar épocas diferentes, com competições diferentes e calendários diferentes. .

A História, como ciência, não deve ser vista em ordem decrescente. Não se trata de diminuir o feito de Neymar, que marcou dois, fora os lances em que espalhou o perfume do futebol brasileiro em campo. Isso não tendo jogado ainda nesta temporada, longe da melhor forma. 

Ou então deixaremos a inteligência artificial contar a história


quarta-feira, 30 de março de 2022

PORTUGAL 2 X 0 MACEDÔNIA - Seja bem-vindo, Bruno Fernandes

Ok, não era preciso sofrer tanto, mas já que foi este o fado, cantâmo-lo como sempre. Foi a terceira repescagem das últimas quatro Eliminatórias e, pela necessidade, Portugal mostrou mais talento, com marchinhas e bailaricos, em vez do fado sofrido, que é tradicional. E assim manteve o pleno para estar pela sexta vez seguida no Mundial!

Com um meio-campo leve (o mesmo que venceu os turcos), a proposta era ir para dentro desde cedo pra evitar que os macedônios colocassem correria, mas a marcação alta dos de Blagoja Milevski encurtou os espaços dos pés pensantes portugueses, colocando no jogo velocidade e intensidade que a Turquia não fez, chegando de maneira mais consistente no campo de ataque.

Como o jogo é disputado por humanos, o afã inicial foi passando e Portugal, tendo a bola no chão e talento para fazê-la rolar a seu gosto, passou a frequentar a intermediária cm mais frequência. Para ajudar, Stefan Ristovski, que disse na coletiva que tinha um pouco de português, foi um dos nossos de coração e deu uma cruzada de bola que não seria capaz nem nos seus piores dias de Sporting, e olha que foram muitos. Bruno Fernandes interceptou, tocou para o CR7 e se colocou para receber do capitão, que atraiu dois marcadores e devolveu com a doçura de um pastel de natas para o 11 abrir os serviços e estabelecer o placar com o qual as representações foram para o balneário.

No segundo tempo, precisando do resultado para operar um novo milagre, a turma dos Balcãs adiantou a marcação para novamente acelerar o jogo e reeditar as condições do início da partida, com até sete de branco no campo de ataque. Como aconteceu naquele jogo em que roçou o miserável com a Sérvia e que enviou os lusos para o purgatório da repescagem, Portugal errava passes nos poucos espaços que tinha. Contra os vizinhos dos macedônios, os de Fernando Santos não conseguiram encaixar um contragolpe. Mas ontem havia Pepe.

Aproveitando-se da leveza lusa, a Macedônia, que subia com quatro no meio e três na frente, projetou-se com seu melhor jogador, Bardhi, que tinha Miovski e Churlinov entre os zagueiros. Neste momento, Danilo e Pepe fecharam a porta a Miovski e Nuno Mendes afunilou para inviabilizar o passe para Churlinov. Cancelo baixou para apoiar Danilo e Pepe, à perfeição, tirou a bola de Bardhi. Bruno Fernandes puxou o contragolpe, limpou para Bernardo Silva e se mandou contra os desarrumados macedônios. A bola andou pelos pés de Otávio e do apagado Diogo Jota, que encontrou Bruno Fernandes livre à frente do goleiro. O passe foi para os pés do 11 e, de lá, para coroar o futebol leve e solto de uma seleção que, quase não a tempo, entregou o futebol que lhe é exigido. Aquela seleção rude e carrancuda deu lugar a um time com ideias arejadas e, empolgação à parte pela classificação sofrida, chega com a moral renovada e com novos nomes para fazer muito.

No fim das contas, um caminho sem margem de erro obrigou Fernando Santos a abandonar o pragmatismo de um time engessado. Deixe-nos sonhar, mister.
Diogo Costa: poderia ter resolvido umas palavras cruzadas no meio do jogo;
João Cancelo: o melhor lateral do mundo (nas duas, Fds!) não poderia ficar fora da Copa;
Pepe: é o tipo de jogador que você ama se joga no seu time. Joga no time do meu avô e na minha seleção. Então, EU TE AMO, PEPE!
Danilo: Rúben quem?
Nuno Mendes: não atrapalhou, o que é um grande avanço!
João Moutinho: que belíssimo trinco nos apareceu, João!
Otávio: nem me lembrei que joga no Porto. Que achado! Obrigado, Brasil, por deixar para nós!
Bruno Fernandes: belíssima estreia na Equipa de Todos Nós;
Bernardo Silva: brilhante até quando não apareceu. Não tem nenhuma Bola de Ouro? Azar da Bola de Ouro!
Diogo Jota: olha, pá... estamos na Copa e meu humor está ótimo. E ajudou seu passe teleguiado para o golo que mais pareceu um bilhete para o Catar. Mas mais uma partidas dessas, ai ai ai!
Cristiano Ronaldo: o dono desta caralha toda! Irá à quinta Copa, será o primeiro a marcar em cinco diferentes e entrará entre os 10 maiores marcadores. Tudo isso sendo campeão do mundo! E que vá pro caralho quem duvidar!
Reservas que entraram: nem vi, mas estão de parabéns!
Fernando Santos: não precisávamos sofrer tanto, mister, mas agora sabes que podemos jogar mais do que o básico.
Aos que duvidaram: que vão todos pro caralho!

terça-feira, 16 de novembro de 2021

O inferno da repescagem


Procurei em sites brasileiros e do exterior como é a dinâmica da repescagem das Eliminatórias da Europa para a Copa do Mundo. Como não achei - e sou um jornalista, afinal -, fui ao site da UEFA e peguei as informações que precisava. Conta feita aqui, projeção feita acolá, eis o que será a demoníaca repescagem europeia para a Copa de 2022.

São 12 seleções disputando três carimbos no passaporte para o Catar, divididas em dois potes: os seis melhores segundos colocados no um e os quatro restantes, além dos dois melhores da última Liga das Nações que não se classificaram diretamente ou ficaram em segundo, no pote dois.

O formato é simples: serão três grupos com quatro seleções em cada, com uma semifinal e uma final dentro de cada grupo, sempre em jogo único, com o campeão de cada quadrangular garantindo a vaga para a Copa do Mundo. Os seis melhores jogam em casa e a "final" terá o mando de campo sorteado.

Até o momento, estão confirmados na repescagem: Portugal, Suécia, Itália, Escócia, Rússia, Polônia, Macedônia do Norte, Áustria (via Liga das Nações), Gales (segundo do E ou via Liga das Nações) e República Tcheca (idem). Restariam ainda duas vagas.

No Grupo D, Finlândia (11 pontos/dois gols de saldo) e Ucrânia (9/1) ainda jogam. Os nórdicos pegam a classificada França em casa e os ucranianos visitam a eliminada Bósnia. Como o primeiro critério de desempate é o saldo de gols, tudo pode acontecer.

No demoníaco Grupo D, está tudo em aberto: a Holanda lidera com 20 pontos e saldo "infinito" de 23; Turquia e Noruega têm 18, com vantagem no saldo para os turcos (10 a 9), que visitam a eliminada Montenegro. Já a Noruega tem confronto direto com a Holanda, fora. A Laranja Mecânica, que se enrolou ao empatar com Montenegro após abrir 2 a 0 e mantar o placar até o minuto 80, ficou de fora da última Copa e lhe basta empatar para evitar outra hecatombe e garantir a vaga direta do Grupo G, já que a Turquia não vai tirar a diferença de 13 gols no saldo nem a pau. Os turcos precisam empatar para garantirem no mínimo a repescagem. Vencendo, esperam pelo resultado de Holanda x Noruega para saber se comemoram ou se vão ao purgatório.

A Noruega, por sua vez, também tem que vencer para garantir ao menos a segunda colocação. Aí secaria a Turquia ou precisa fazer ao menos dois de saldo a mais, já que nos gols marcados (terceiro critério de desempate), os turcos têm 25 a 15 na frente). Se perder, a conta é a mesma: tem que esperar pela derrota turca com pelo menos dois gols a mais de diferença. Voltando à Holanda, se perder, terá que secar os turcos, ou então já era até a repescagem.

No Grupo E, que tem Gales em segundo (14 pontos e cinco gols de saldo) e República Tcheca em terceiro (11/3), a dúvida é saber para qual pote os britânicos vão. Basta vencer a classificada Bélgica para estar entre os seis melhores. Se empatar, segue o mesmo caminho de a Turquia não golear por quatro gols de diferença. Se perder, vai para o pote dois.

Neste momento, a distribuição está assim, entre os já classificados: Pote 1, já garantidos: Portugal, Escócia, Itália e Suécia; Na briga, mas que já jogaram: Suécia (15/6) e Polônia (14/8); ainda jogam: Gales (14/5), Turquia (12/1) e Finlândia (11/2); Pote 2, já dentro: Macedônia do Norte, República Tcheca e Áustria.

A Noruega, em terceiro no grupo G, tem 12 pontos e dois gols de saldo. Como há grupos com seis e com cinco seleções, os resultados contra os últimos colocados nos grupos com mais seleções são descartados para a definição dos melhores segundos colocados.

Mas qual é a vantagem de estar no pote um? Além de jogar o primeiro mata em casa, livra a seleção do confronto já nesta fase contra um dos outros cinco melhores. É a única separação e aqui é onde o filho chora e a mãe não vê. Pode ter gente grande se matando por uma vaga!

Serão três quadrangulares, A, B e C, nos quais serão distribuídas primeiro as seis do pote um e, depois, as do outro lote. Se, por um acaso, a ordem do sorteio de Portugal e Itália - para ficar em duas favoritas à Copa que quebraram a cara na última rodada - for 1 e 2, 3 e 4 ou 5 e 6, só um deles irá ao Catar, considerando que vençam a primeira partida, evidentemente.

Assim como pode acontecer com a Holanda, caso ela fique em segundo no grupo dela, pois com 14 pontos e saldo de gols de 18 (já descontados os jogos com Gibraltar), seria no mínimo a sexta melhor campanha, desde que não perca para a Noruega e a Turquia não vença, claro, pois aí ficaria em terceiro, como já foi falado aqui. Ou seja, se a Holanda passar em segundo, a chance de haver um confronto entre duas destas três grandes seleções é muito grande, pois ocuparão metade das vagas dos cabeças-de-chave.

Sem contar que, das seleções menos festejadas, ainda pode pintar um Haaland, um Bale ou um Lewandowski pelo caminho. Ou seja, o pau vai torar bonito e pode sim ter gente graúda vendo a Copa pela TV.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

PORTUGAL 1 X 2 SÉRVIA - o gajo da anedota da casca da banana

(Foto: Pedro Nunes/Reuters)

Já ouviram a piada do português que estava andando na rua e, resignado, ao ver uma casca de banana à frente, diz "ai, Jesus, outro tombo"? Certamente, Fernando Santos não. Se tivesse ouvido, não teria caído na mesma armadilha do jogo com a Irlanda, quando a saída de bola foi sufocada e Portugal teve que quebrar a todo instante. Mesmo o gol madrugador de Renato Sanches, no segundo minuto de jogo, não tirou da Sérvia a ideia de não dar espaço para os portugueses tentarem a construção desde os centrais. 

Assim, a bola batia e voltava. E tome a Sérvia com a bola. E tome Tadić, Kostić e Milinković-Savić encontrando espaços entre as linhas de marcação de Portugal e Živković tocando o terror pra cima de um apavorado Nuno Mendes. 

Assim, o time comandado pelo cracaço Dragan Stojković adiantou a marcação, matou a saída de bola dos donos da casa e obrigou Portugal a quebrar, tirando o time de Fernando Santos da sua zona de conforto, que é o jogo no meio com a bola no chão. O gol de empate, que teve a sorte nos pés de Tadić e o azar no desvio em Danilo, foi fruto dessa desarrumação lusitana, que permitiu a troca de passes na entrada da área até o chute torto do camisa 10. Antes, uma bola de Vlahović na trave foi o aviso que deveria ser sido notado.

Para o segundo tempo, Fernando Santos poderia sacar Nuno Mendes, passar João Cancelo para o seu lado e acabar com a graça de Živković, ou tirar Cristiano Ronaldo da área para fazer fluir o jogo. Ou esperar o time sérvio cansar, o que viria a acontecer. Só que, neste momento, Portugal seguiu afoito, tentando resolver a partida em dois ou três passes, em vez de jogar com o tempo a favor e tirar da Sérvia a única opção que havia sobrado, a bola longa pelo alto. A única chance de gol digna de nota esteve nos pés de Renato Sanches, um dos melhores jogadores lusos em campo em um jogo em que, pela característica de muito combate e pouca lucidez com a bola, sequer deveria começar no onze titular. 

Isso diz muito sobre o que foi o jogo. 

Fora isso, nenhum jogador de Portugal conseguiu segurar a bola e só havia um pingo de lucidez quando ela chegava em Cristiano Ronaldo ou em Bernardo Silva, que teve que sair quando faltaram-lhe pernas. Com o jogo morno, o negócio seria colocar o capitão aberto e ir de André Silva. Aí teria um centroavante segurando os zagueiros e um jogador capaz de manter a bola na frente, atrair adversários para a marcação e, de quebra, abrir espaço para Bruno Fernandes ou Bernardo Silva, caso este não tivesse saído, deixar o jogo à feição de Portugal. 

Era preciso desacelerar o jogo, coisa que Portugal jamais teve a capacidade de fazer, muito em função da incapacidade de Fernando Santos em ler o jogo, o que já havia acontecido na Eurocopa. Não tirar da Sérvia a possibilidade de ter a bola e jogar pelo alto tornou previsível o gol de Mitrović, já ao pé do minuto 90. Não o tento em si, mas a forma como foi marcado. 

Em vez de fazer valer a maior capacidade técnica de sua equipe, Fernando Santos resolveu defender o resultado que bastava. Desceu Danilo para fazer uma linha de três zagueiros quando o melhor seria buscar superioridade no meio-campo. Dessa forma, quando deveria condicionar as ações do jogo - porque time para isso ele tem -, permitiu à Sérvia fazer o jogo que lhe interessava. 

Não era difícil prever.

Agora, vem o purgatório da repescagem, um caminho que Portugal já fez e se classificou nas três vezes em que por lá esteve, mas não no formato demoníaco que se avizinha: três grupos com quatro seleções (as 10 segundas colocadas de cada chave mais os dois melhores da Liga das Nações que não terminarem entre os dois de seus grupos), com duas semifinais e uma final, sempre em jogo único dentro de cada grupo para apontar os três que vão ao Catar. O mando de campo na semifinal será do melhor ranqueado e Portugal, que é o sexto, só jogaria fora se o adversário fosse a Itália, único país à frente que ainda não se classificou, mas a condição de cabeça de chave tira desde já os transalpinos do caminho, assim como o outro dos três de melhor campanha. O mando da final, porém, será definido por sorteio.

Esta pode ser a única boa notícia para Portugal. A má é que o treinador pode muito bem ser o gajo da anedota, aquele incapaz de desviar da casca da banana.