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sábado, 5 de fevereiro de 2022

Tô fazendo a minha parte, Portuguesa

- Titio, posso te fazer uma pergunta? 

Foi assim que Maria Rita, 7 anos, tocou em um dos assuntos mais importantes da humanidade. Ela queria saber para qual time torcer, qual distintivo iria levar no seu coração. Este é o momento mais esperado por todo pai que se preze, mesmo ela sendo minha enteada. Enteada ou filha, tanto fazia. O momento mágico na vida de um torcedor havia finalmente chegado.

Por causa da pandemia, o contato da Maria Rita com o futebol tem sido longe do estádio, pela TV, isso quando ela quer. Até outro dia, ela pouco ou nada se interessava pelo esporte bretão, a não ser quando o padrinho dela, o craque do futsal Danilo Baron (que começou na Portuguesa), está em quadra, ou quando quer saber para quem estou torcendo só para torcer contra porque é divertido.

E é.

Mas depois de uma conversa com os coleguinhas no prédio, foi despertada a necessidade de pertencer a algo. De vestir uma camisa igual. De ser como aquele que tem como espelho. E, no caso, o espelho sou eu.

Grande responsabilidade essa, que me colocou imediatamente num dilema moral. Afinal, devo incentivá-la a dividir as arquibancadas comigo e cumprir meu papel de educador ou zelar pela sua felicidade? Convenhamos, torcer pela Portuguesa e ser feliz pelos seus feitos desportivos não costumam ser condições que andam juntas.

Mas e daí?

E daí que dei toda liberdade para ela escolher. Até que, num belo dia, estávamos jantando fora e ela viu uma TV ligada:

- Tá tendo jogo, titio. Você não vai ver?
- Não quero não. Você quer?
- É da Portuguesa?
- Não, é São Paulo e Palmeiras.
- Ah, então não quero.

Ontem, ela me perguntou quando o NOSSO time joga. Ontem, pela primeira vez, viu o time que ela escolheu para torcer em campo, mesmo pela TV. Nem sabia direito do que se tratava, mas já sabe bem o significado de se sentir fazendo parte de algo.

- Qual é a Portuguesa, titio?
- A de vermelho, Maria.
- Ah… posso torcer para empatar? É que assim ninguém fica triste.

Ela ainda não entendeu como funciona, mas, aos sete anos, não se trata de vencer ou não, e sim de desfrutar. O resultado do jogo com o São Bento – um até que divertido 0 a 0 – não fez a menor diferença. O que valeu para ela foi se sentar ao meu lado e se divertir. E rir. E falar “Vai! Vai! Vai! Olé! Sai daí”, mesmo que para o lado errado.

Se tudo der certo, vai se apaixonar pela primeira vez na vida, assim como aconteceu comigo também aos 7 anos, quando meu Tio Albano me levou para ver a Lusa ganhar do Marília no Canindé, em 1985.

Fiz a minha parte, Portuguesa. Falta você fazer a sua. E nem precisa vencer. Basta me ajudar a fazer dela uma criança feliz.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Para Rafaela


Amo esse seu jeito de me olhar,
De respirar, de suspirar,
De reclamar quando está só.
Quando está só querendo paz,
Quando quer mais, quando se faz
De frágil, fácil, incapaz
De viver sem o meu amor.
Seu jeito de fazer amor,
Mesmo que só em pensamento,
Que seja só por um momento,
Por um momento ser real.

Amo esse seu jeito competente,
De ser forte, mas dependente,
De não ser auto-suficiente,
De depender da gente
Ou de gente, de repente,
Por mais que seja apenas tipo.
Ou seja um tipo que é só seu,
Como também é o meu amor,
Que é só seu, é mais que meu.
É mais que eu, bem mais que eu.

Amo o fato de te amar,
Só pelo fato de te amar.
Só pelo fato de viver
Só pelo fato de sentir,
De existir, de insistir
Em insistir, em existir.
Em existir sem se explicar.
Não há razão, não há senão.
Senão apenas existir.
Não há razão, não há porquê.
Só há você, só há você.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Futebol, amor e idolatria - Obrigado, Rogério Ceni

*por Guto Monte Ablas

O ÚLTIMO ATO O amor do camisa 10 do gol, simbolizado no beijo do distintivo
 tricolor (Imagem publicada no Instagram oficial do São Paulo, 
@saopaulofc)  
Rogério Ceni pode não ter sido o maior goleiro da história, sequer o maior do São Paulo, que teve Zetti, Gilmar, Valdir, Poy, King... mas, sem dúvida, foi o goleiro que mais amou um clube de futebol.

Juntar 60 mil pessoas numa noite de sexta-feira não é pra qualquer um! Rogério Ceni se aposentando é a última pá de terra no pior ano da história do São Paulo. Como será o ano que vem? Sem craques, sem técnico, sem dinheiro, diretoria batendo cabeça, SEM ÍDOLO!

Depois de 19 anos o Tricolor terá um novo dono da camisa 1 (camisa 1, pois a 01 ninguém nunca mais usará) e depois de 19 anos terá de aprender a idolatrar outros nomes. Não terá mais aquele que ontem, emocionado, pedia para suas cinzas serem depositadas no campo do Morumbi, de sua casa, de seu amor.

Caras como Rogério Ceni estão extintos do futebol brasileiro. Símbolos de amor a um clube e a uma carreira. Não me envergonho de dizer que chorei durante a festa e lamentei a falta que um ídolo fará em nossa história.

Obrigado, Rogério Ceni, por me ensinar sobre futebol, amor e idolatria; obrigado por, dos seus 26 anos de carreira, 25 você tenha dedicado a nós!

Todos tiveram goleiros; só nós tivemos Rogério Ceni: goleiro, artilheiro, atacante, guitarrista, são paulino e m1to. Você nos deu o mundo, nós te demos nosso coração.

Que apesar da imensa tristeza de sua aposentadoria, possamos lembrar com alegria de sua história da qual, apesar de fechadas as contas, você ocupa para sempre a página 01.


*Guto Monte Ablas, 28, é jurisfilósofo, jornalista e radieiro.
Trabalha com esporte desde 2008, é sãopaulino desde 1986
e Rogério Ceni desde 1997, além de Fábio Jr desde sempre.
Atualmente no iG Esportes

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Parabéns, Portuguesa

Da união de cinco escudos nasceu, em 14 de agosto de 1920, a maior demonstração de amor pelas cores portuguesas do futebol brasileiro. Uma identificação. Um norte. Um pedaço de Portugal em terras distantes.

Como amor não é propriedade e não tem patente, logo a Portuguesa deixou de ser um clube para portugueses para se transformar na grande família que Archimedes Messina fez com que cantássemos nas frias arquibancadas do Dr. Oswaldo Teixeira Duarte. 

Para ser Portuguesa, não precisa ter sangue lusitano ou um chiadinho no s; ou mesmo pronunciar o r arrastado.

Para ser Portuguesa, basta trazer no peito o orgulho pela Cruz de Avis, que há de brilhar nos brasões que você traz na bandeira verde-encarnada. 

Para ser Portuguesa, basta ir à luta; basta vibrar o coração a cada jornada. Com vitória ou derrota, tanto faz o resultado.

Para ser Portuguesa, basta ser amor. Se não for amor, nunca foi Portuguesa. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre a saudade

A saudade me deixa triste, mesmo sendo um sentimento bom, pois indica que vivi, que estou vivo. Mas viver com a saudade entristece. Entristece, pois mostra o quanto tenho dificuldade de me desfazer do que, por algum tempo, me fez bem.

Triste ignorância a minha, de achar que tal apego far-me-á bem por mais tempo. Talvez para sempre, pobre pretensioso. A saudade tem o tempo dela e deve perecer depois disso. Ao menos a intensidade com a qual grita na memória.  

Nada é para sempre e eu já deveria ter aprendido isso. Nunca o sempre perdura, mesmo a saudade, que me acompanha por eu não ter aprendido a me despedir, mesmo que a partida seja de mim mesmo. 

Eu já deveria saber disso, repito, uma vez que a perenidade não cabe a mim, nem a ninguém, pois mudamos com o tempo e, por conseguinte, mudam também nossas necessidades. Só o que não muda é a missão de ser feliz. E só o que não muda, pelo menos em mim, é essa saudade que me deixa triste.

Não sei me despedir dela. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Goodbye, bafana

por Vinicius Carrilho*

Um dos maiores seres humanos que já passaram pela Terra se foi. Aos 95 anos, Nelson Mandela deixou o mundo. Diante de sua grandeza, qualquer texto escrito passa a ser pequeno ou insuficiente. Logo, nos resta apenas aprender um pouco com um compilado de frases ditas por ele, durante toda sua vida, transformadas em texto:

“Não se esqueça de que os santos são pecadores que continuam tentando. Você não é amado porque você é bom, você é bom porque é amado. Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo. Uma boa cabeça e um bom coração formam sempre uma combinação formidável.

Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito, e inspirar esperança onde há desespero. Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta. Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso? Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.

Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos. Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração. Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar. A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

A humanidade pode não ter aprendido boa parte disso, mas agradece sua sabedoria, Nelson Mandela.

*Vinícius Carrilho é osasquense, maloqueiro, sofredor e gostaria
de ganhar a vida contando piadas, mas o Corinthians tem feito
isso por ele e, depois de ontem, talvez nem se lembre que tem 22 anos.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

À sua porta

Meu coração está batendo à sua porta, mas você não vem abrir. Lembro-me que, não faz muito tempo, nem era preciso bater. Sempre que ele se aproximava, você vinha correndo e deixava a porta aberta. Afinal, já sabia que não tinha outro motivo para passar, senão te visitar.

De uns tempos pra cá, porém, você mudou. Ouvia o toc-toc na sua porta, mas não abria. Às vezes, dizia que estava ocupada; em outras, não quis abrir, e eu notei. Agora nem ouve mais. Deve estar tão acostumada com o som, com o tilintar do senhor-dos-ventos que acusa sua chegada, que nem percebe as batidas misturadas ao som ambiente.

Acho que este é o problema. Você o teve a sua disposição por tanto tempo que não dá mais importância para isso. É como uma roupa esquecida no fundo da gaveta. Quando estiver com muito frio, a encontrará e talvez queira usar. Se não quiser, deixará lá, esquecida, como está. A diferença é que uma blusa não sente. Um coração, sim. O meu também.

Mesmo assim, ele permanece aqui, ao pé da sua soleira, esperando por qualquer vestígio de atenção. E você sabe disso. E é isso o que mais dói. Como se fosse um cãozinho ao pé da mesa, que espera cair uma migalha do seu carinho. Qualquer uma. É uma condição estranha, pois é com elas que ele se alimenta, e é por causa delas que ele está morrendo. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Pra festa ser grande

Nas festas de família, a tia Aurora sempre falava que era pra gente comer devagar, pois assim a festa duraria mais tempo. Mesmo nos tempos de maior dificuldade, o bom humor, assim como o amor, nunca nos faltou. 

(Arquivo pessoal)
Minha mãe, quando lutou contra um câncer no intestino, mantinha o seu intacto, imaculado. Dizia, no hospital, que estava de férias num spa. Sempre, claro, finalizando com uma sonora e deliciosa gargalhada. Apesar de todos os tombos que a vida lhe causou (e não foram poucos), o sorriso nunca lhe faltou. Não fosse por isso, por essa alegria, não sei se ela passaria pelo que passou.

A vida nos prega peças. Traz pessoas, as leva, outras nós deixamos pelo caminho, seja por necessidade ou por omissão, mas este é o andar natural deste andor que, por mais enfeitado que seja, carrega um santo de barro. Deve-se levá-lo com cuidado, sob pena de quebrar. Ainda assim, algumas flores caem. Sempre caem.

Meu pai e o andor enfeitado por si (arquivo pessoal)

Meu pai, mesmo. É forte como um cavalo, teimoso feito uma mula e negligente como todos nós. Cuida de tudo e de todos, menos de si próprio. E em algum momento o tempo manda a fatura. Mas ele está pagando direitinho e, obviamente, terá muito andor pra carregar ainda.

É sempre assim. Temos que ter calma pra não faltar o ar. Pra não sobrecarregar o coração. Pra festa ser grande.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Acerto de contas com a consciência

Quando perdi meu avô materno eu não tinha inspiração para transformar minhas lágrimas e a angústia do passamento do seu João em palavras que trouxessem conforto e alívio para meu coração. Sempre confundo o ano, acho que foi em 1997. O dia eu não sei.

Arquivo pessoal

Quase 15 anos depois, em 2010, foi a vez do meu outro avô, seu Mário, ir para o outro lado do mistério. Eu já escrevia neste espaço minhas singelas linhas e só consegui aliviar um pouco meu peito depois de escrever alguma poucas mas sinceras palavras. Naquele tempo, já contava 12 anos da ida da minha avó Ana. Minha outra vó, Maria, eu sequer conheci. Só por foto. E era linda. Devia ser proibido os avós morrerem. É triste ver tanta gente que nós amamos sofrer por algo natural, pois essa é a ordem das coisas.

Arquivo pessoal

Quando o vô Mário morreu e eu escrevi sobre o seu legado pra nós, que ficamos, senti-me, de certa forma, aliviado, como já disse, mas também um pouco incomodado. Por que do vô João eu não falei? Não havia um favorito, mas o momento era diferente. Em todo caso, se eu tivesse falado do quanto o velho João foi importante na minha vida, cometeria a mesma injustiça, que foi externar este amor após sua morte.

Somos assim: injustos e irresponsáveis. Esperamos pelo último minuto para fazer as coisas, isso quando fazemos. Sempre fica a sensação de um "amo-te" que ficou por ser dito.

Hoje, finalmente, presto contas à minha consciência. Ainda assim, o tempo é implacável. Mas algo é mais cruel que ele: o remorso. O arrependimento não perdoa. É uma pena constante, perene, perpétua.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ode para a minha morte

Dizem que as lágrimas são a saudade saindo pelos olhos quando não cabe no peito. Talvez. Pode ser também a vida que vai se esvaindo a cada ferida mal cicatrizada, a cada sonho que adoece, a cada amor que acaba. Aliás, o amor não acaba, apenas adormece. Se morreu é porque sequer existiu, sequer nasceu.

Elas são fruto dos sentimentos de quem as chora. São oriundas de toda a carga emocional. São sinceras. Em via de regra, honestas. Pobre de quem as evita, as esconde. Mal sabe o bem imensurável que faz derramá-las, qualquer que seja o motivo. Do mais banal ao mais nobre.

Mas dá para definir isso? Segregar? Não, não dá. Todos têm uma bagagem, uma experiência, um caminho percorrido. Ninguém pode ser juiz. Ou réu. Ninguém.

As lágrimas são divisórias nas fases da vida. Nos acompanham em todas, desde quando nascemos. Encerramos um ciclo e sabemos disso quando elas vêm lavar o chão da alma e prepará-la para a incerteza do que virá. Vêm para zerar o balanço, para começar de novo. Inclusive na alegria e na tristeza elas estão presentes. Mesmo na partida, os que ficam as trazem à cena, pois os que vão já não as tem mais.   

Elas também acabam. Tudo acaba.

  

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A tristeza e o olhar

A tristeza é um dos estados de espírito mais nobres que existem. É sincera, verdadeira. Ninguém consegue inventá-la. Só é capaz de demostrar quem a sente de verdade. Até uma lágrima pode ser dissimulada. Um semblante fechado, sombrio, tudo isso é capaz de ser produzido. Mas não um olhar.

Um olhar triste pode parecer perdido, em busca do nada, mas na verdade está voltado para dentro de si mesmo, pois é lá que procura as respostas, embora quase nunca as encontre.

Não se deve desprezar a tristeza, da mesma forma que é perigoso superestimá-la. Como um bom vinho, deve ser apreciada na medida certa: menos é desperdício, enquanto que mais é perigoso tornar-se refém.


Como o vinho é cantado no fado, a tristeza só faz mal a quem a julga ser ninguém e dela faz pouco. Mesmo porque um sentimento tão puro não deve ser tratado de qualquer forma, pois não é a esmo que surge.

Surge, pois, numa perda de um ente querido, de um sonho, de um amor. Também, e principalmente, quando o sonho e o amor na realidade são um só. Esta é a mais dolorida. E também é a mais bela de todas, a mais digna.

Cada um reage de uma forma, conforme é sua tenacidade, sua maneira de ver e sentir. Seja como for, portanto, merece todo respeito e consideração. E mais uma vez como o vinho, deve ter seu tempo de amadurecimento, de cura, sob pena de, caso não seja conservada da maneira correta, virar vinagre e perder seu sabor e essência.

Ela mora dentro do peito, mas pode ser vista pela janela do coração, que é o olhar. Um olhar triste, verdadeiro, leal. Leal como a tristeza. Leal como o amor.

terça-feira, 22 de março de 2011

O enterro do amor

Depois de tentar descansar, levantei-me da cama e me vesti respeitosamente. Meus olhos, vermelhos e inchados, denunciavam uma noite não mal dormida, mas em claro. Resolvi não colocar meus óculos escuros, pois não fazia a menor questão de escondê-los.

Saí calado, meditabundo. Nossas lembranças passavam em meus sentidos como um filme sem começo, nem meio, mas com final. Eu estava indo enterrar o amor.

Quando cheguei, cabisbaixo, pude notar nossos amigos todos lá. Queriam me confortar, cada um como podia, embora ninguém pudesse. Um abraço. Um gesto. Uma palavra. Ou o silêncio. Nada podia aliviar minha dor. Honestamente, preferi apenas ouvir o silêncio, pois não havia o que dizer, nem o que ouvir.

Nas paredes, coroas de flores homenageavam os momentos, alegres ou não. Afinal, o amor não está apenas nos momentos felizes. É na tristeza que ele tem o seu sentido em plenitude. Em momento algum me aproximei do féretro. Não era essa a imagem que eu queria levar na retina. A lembrança que eu quis cultivar era outra, a de um amor forte, eterno. E isso ele era mesmo. Forte como eu nunca imaginei poder sentir.

Claro que eu nunca fui prepotente a ponto de achar que era o maior amor que já se houve, mas eu não conheci outro tão grande quanto. Tudo bem, pode ser que o meu amor fosse como o rio que corta a aldeia do Alberto Caeiro, mas o fato é que era imensurável. Quanto maior é o amor, mais dolorosa é sua partida. O ocaso sempre é difícil. Custa-nos a alma admitir que ele está doente, que irá nos deixar, que está morrendo.

Quando a última pá de terra o cobriu, o único som que ouvi foi o que vinha do vazio do meu peito. Sequer vi alguém à minha volta. No mesmo silêncio, caminhei sozinho de volta para casa, tão vazia quanto meu coração. Lá chegando percebi o meu engano: o que eu enterrei foi a esperança; o amor voltou comigo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O dia da minha morte

Se eu pudesse escolher o dia da minha morte, seria quando acabassem meus sonhos. A vida sem eles é vida sem vida, sem sentido, não vale a pena.

A essência da felicidade está na capacidade de sonhar sonhos palpáveis; a capacidade de sonhar é proporcional à fé, e tendo fé os sonhos estão ao alcance. Uns mais perto, outros, nem tanto, mas todos são possíveis.

Quero viver enquanto puder sonhar. Nunca se chega ao fim dos objetivos, mesmo quando olha-se para trás e percebe-se que tudo foi conquistado. Aliás, nunca tudo está feito. Não se cumpre tabela na vida, pois a manutenção da felicidade é uma tarefa e tanto. Está no dia-a-dia, nos pequenos gestos, nos sorrisos, nos olhares, na gentileza, na gratidão. Seja gentil e um simples sorriso de agradecimento será a maior das recompensas. Caso não a receba, não mude, pois o problema não estará em você.

Se eu puder escolher o findar dos meus dias, quero que seja quando não sentir mais a alegria de viver. Neste dia, quero à minha volta meus pais, irmãos e amigos, que são as pessoas que fazem a diferença nas nossas vidas.

É simples ser feliz. Isso está na fé, nas relações interpessoais, na música que nos faz fechar os olhos; não está no que temos, mas no que somos, embora ser ou não ser não seja a questão (deixe isso para Shakespeare).

Quando me tomarem a capacidade de sonhar, o dia de cerrar os olhos terá, enfim, chegado. Esta é a morte real. A morte física é apenas consequência.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Andar morrendo pela vida

Durante a vida sofremos perdas irreparáveis. Estas são as mortes que sofremos de tempos em tempos. Elas nos acometem quando perdemos quem amamos, como os pais, os irmãos, os amigos mais próximos. Felizes daqueles que morreram antes da morte definitiva, pois significa que amaram. 

Morremos também quando perdemos um amor. No entanto, esta morte pode ser diferente das demais, pois não é apenas a morte trivial que o leva de nós; o epílogo pode ser outro, mais doloroso, pois trata-se do próprio amor posto a termo. Diferente da morte fisiológica, que é inevitável, irremediável, o fim do amor traz a aflição deste poder ser evitado. Neste caso, quando o sentimento ainda resiste em quem não tomou a decisão pelo fim, o melhor é que também termine. Por mais doloroso que seja, é o melhor caminho.

Na música "Pedágio", Moacyr Franco diz que na vida "se vive mesmo nove meses, pois o resto a gente morre". E a mais dolorosa das mortes é um amor não correspondido. Esta é a morte que dura a vida toda, ou ao menos enquanto o amor viver. É lenta, gradual, implacável. Agoniza e nos consome, dia após dia.
.
Mesmo assim, a vida sem as suas mortes não faria sentido. Para haver a alegria é necessário que haja a tristeza. Não fosse assim nem seria percebida. Isto posto, viva a vida.

sábado, 11 de setembro de 2010

O tempo

Somos prisioneiros do tempo. Todos nós. É estranha a nossa relação com ele. Desde cedo jogamos contra o relógio, exceto na dita primeira infância, já que, crianças que somos, não temos preocupação alguma, a não ser a de brincar. Deliciosamente despudorados, não nos interessa o que os outros pensam.




A partir daí queremos que ele, o tempo, passe logo para que sejamos tratados de forma diferente. Queremos ser adultos. Os primeiros fios de bigode, então, são um prêmio, valem ouro. Ridiculamente cultivados até que percebamos que não passam de uma tentativa de parecermos mais velhos, apesar do atestado de adolescente recém "pós-imberbe". Logo, o primeiro barbear é um momento solene: aquele monte de espuma para tirar meia dúzia de três ou quatro pêlos mal e porcamente distribuídos (uma ova! espalhados, isso sim) pelo rosto é algo inesquecível.

A tão esperada fase adulta vem acompanhada das cobranças, das responsabilidades. Ah, que saudade do colo da mãe, da proteção do pai, essas dádivas desprezadas na arrogância da adolescência. Daríamos nossas almas pela paz que passou-nos despercebida no tempo.

O tempo, aliás, é um senhor de atitudes curiosas. O melhor da nossa essência é alcançado na maturidade, justamente quando o corpo cobra o preço (ele sempre cobra) dos abusos cometidos nos arroubos da juventude. As noites mal dormidas, os exageros nas farras, nas festas, dos amores eternos que duraram até o cantar do galo, ou nem isso.

A segurança e a serenidade da experiência chegam com o rarear dos cabelos, do ar que nos foge de repente. Vai-se o vigor, vem o cansaço, que pode ser dosado graças à vivência. Somos obrigados a ser safos, pois disto depende nossa própria sobrevivência.

Ele, o tempo, dá com uma mão e tira com a outra. E é nesta maldosa benevolência que trilhamos o caminho que resolvemos seguir. No final do curso o sucesso dependerá da sabedoria amealhada e a forma de como fora empregada.

Ah, o tempo. Tudo gira em torno dele. O tic-tac indelével que nos faz olhar o mundo com os olhos da alma. Quando os olhos falharem, será o coração quem dirá se valeu a pena ou não. E este dia, leitores, virá. Cedo ou tarde. E só o tempo é quem dirá quando.


terça-feira, 27 de abril de 2010

O céu está em festa

Arquivo pessoal
Estou triste. Perdi meu avô. Foram quase 94 anos de muita luta, muitas tristezas e alegrias infinitas.


Bom ver que, no fim do curso da sua vida, todos aqueles que o amavam estiveram ali, do seu lado. Sinal de que teve uma vida plena e correta. Nunca ouvi de quem quer que fosse algo que o desabonasse.


Os últimos meses foram difíceis. Resquícios de um AVC avassalador. Ainda assim, foram dois meses de uma intensa batalha pela vida. Essa é a batalha que todos nós travaremos um dia e que, invariavelmente, perderemos. Mas a forma com a qual se luta é que diferencia os vencedores dos demais, e meu avô, neste aspecto, foi o maior vencedor que se houve.


A cada pessoa que chegava a certeza de que valeu a pena aumentava, se é que isso fosse possível. Como disse Fernando Pessoa no seu imortal Mar Português, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena". E esta foi grande. Ao final, um choro em uníssono o acompanhou até sua última morada.


Nós vivemos pedindo milagres, mas só no fim é que percebemos que o milagre nos é concedido todos os dias. E o milagre foi a dádiva de tê-lo conosco por tanto tempo, e em plenitude.


Hoje nós choramos, amanhã serão outros, depois seremos nós, novamente. E assim a vida segue. E assim a morte segue. E assim a morte nos segue. Ela sempre nos alcança, mas o quê fizermos e como fizermos é que determinará o legado que deixaremos. E o legado do seu Mário Ferreira é o amor à família. Amor este que também o espera do outro lado do mistério. Quando lá chegar, ele deverá encontrar minha vó Ana, com as mãos na cintura e a perguntar: "Por que demoraste tanto?"


Arquivo pessoal

quarta-feira, 3 de março de 2010

Não passe pela vida

Se alguém me pedisse um conselho, só um, sobre como agir em determinadas situações, seria este: não passe pela vida. Não seja um mero espectador do seu dia-a-dia. Em vez disso, assuma as rédeas. Seja você o ator principal.

Deve ser muito triste alguém chegar ao fim do curso da vida e, após um balanço geral, perceber que não foi feliz, que não viveu plenamente, que apenas passou.

Não existe uma fórmula mágica ou uma regra específica. A única regra é não estabelecer regras. Ser feliz não exige formação superior, doutorado ou qualquer coisa que o valha. Aí talvez esteja o maior erro das pessoas: achar que a felicidade não está nas coisas simples da vida. Um sorvete, o pôr-do-sol, o animalzinho de estimação, a música preferida, o sorriso de uma criança te pedindo colo, o amor. Existe complicação nisso? Claro que não!

Tudo é questão de momento. Somos muito volúveis e a toda hora queremos coisas diferentes. Se está frio, queremos o sol para que possamos ir à praia ou ao clube; se está calor, queremos a chuva para nos refrescar, e nunca estamos satisfeitos.

Não sei se você sabe, mas ficar mal-humorado NÃO resolve as coisas. Sim, é verdade! Em vez disso, torna-nos amargos e ressentidos, e os problemas continuarão lá, onde nós os deixamos.

Não faça do "ganhar dinheiro" a prioridade da sua vida. Caso contrário, você gastará boa parte dele para recuperar a sua saúde. Além do mais, não terá tempo para desfrutá-lo, pois trabalhará cada vez mais para manter seu patrimônio. Trabalhe o suficiente para poder aproveitar a vida. Seja como for, ela é o maior presente que Deus nos deu, e você não faria a desfeita de não cuidar de uma dádiva tão preciosa.


Leve o café da manhã da sua esposa na cama. Leve seus filhos à escola. Leve o cãozinho pra passear. Leve a vida menos a sério. Não fomente seus problemas imaginários, sob pena de torná-los reais. Não perca tempo achando que a vida seria melhor se você tivesse tomado uma decisão diferente. Pode ter certeza: você teria a mesma dúvida.

Procure-se nos olhos do seu amor todos os dias. Enquanto você estiver se vendo no brilho que só tem um olhar feliz, que bom, tá tudo certo! Se não, será hora de refletir e tratar de recolocar o brilho de volta naqueles olhos que te admiram tanto.

Se seguir este singelo conselho e, no momento daquele balanço do fim do ciclo da vida, você chegar à conclusão que foi feliz, parabéns! Você não apenas passou pela vida, mas a viveu plenamente. E poderá deixar, além do legado, o seguinte epitáfio: "Aqui jaz alguém que amou e viveu intensamente e que partiu muito feliz."

A alma portuguesa

O português é triste por natureza. É essa a sua essência. É do seu ser o saudosismo, tanto que a palavra "saudade" não existe em qualquer outro idioma. Não tem tradução. Não que ninguém mais a sinta, longe disso, mas que não há quem a sintetize com mais beleza, mais ternura, ah, isso não há.


A tristeza portuguesa, de tão triste, é bonita. É o principal ingrediente do fado, e como é bonito o fado. Um fado de verdade é cantado com a voz do coração. Canta-se com os olhos fechados, pois vê-se melhor assim, com os olhos da alma, e esta é capaz de enxergar além. Olhos tristes como o fado são olhos com alma!

Os sentidos vão longe. Como diz a canção, "a solidão é uma canoa, navega o corpo e a alma voa além do céu e do mar. No pensamento a gente voa. Qualquer problema é coisa à toa e fica mais fácil de se amar".

Quando for ouvir um fado, feche os olhos e escute, apenas escute. Sinta o murmurar da guitarra portuguesa. É como uma viagem ao interior de si próprio. É a tradução mais completa e fiel do íntimo de quem ama, e quem ama chora. A lágrima é inerente ao amor, seja de alegria ou tristeza. Pessoalmente, confesso preferir esta. Não por ser mais digna, pois ambas são, mas porque é mais bonita.


A lágrima de quem sofre por amor tem algo a mais: o desejo da recompensa. Este pode se entender como esperança. E como é bonito tê-la. Como é bonito chorar por amor. Nunca, em tempo algum, se deve esconder uma lágrima, nem se deve esconder um amor pois, como disse Fernando Pessoa, "mas se isto puder contar-lhe o que não lhe ouso contar, já não terei que falar-lhe porque lhe estou a falar".



Imagens captadas na Internet
Vídeo: O Que Foi Que Aconteceu - Ana Moura (Universal Music)


Sugestão do querido professor Eduardo Viveiros de Freitas, que ainda emprestará suas linhas a este blog.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ame

Certa vez alguém me perguntou o que é o amor. Parece uma resposta fácil, já que todos, sejam bons ou maus, ricos ou miseráveis, alegres ou tristes, leais ou cafajestes, já experimentaram a sublime sensação de amar, mesmo que não tenham sido correspondidos.

Parece, pois, mas não é. Com precisão, quem é capaz de definir o que é o amor? Pode ser um aperto no peito, um descompasso do coração, uma dificuldade para respirar, o suar das mãos, o embargar da voz ou o rubor da face na primeira suspeita de ter sido descoberto. São meras conjecturas (ou não).

Lembro-me que, quando criança, apaixonei-me pela menina que sentava na carteira ao lado da minha, na escola. Seu nome era Fátima. Pele clarinha, cabelos cacheados e um olhar... Ah, aquele olhar! Olhos negros como a noite, mas que brilhavam feito a lua cheia. Evidentemente, nunca disse a ela. Amor infantil é assim mesmo. Você sonha, pensa nela, quer estar sempre junto, mas ela não pode saber!


Por quê? Quem é que sabe? Medo, talvez; timidez, sei lá. Até porque o amor não se explica. Sente-se, apenas, e isso basta. No amor você não escolhe. Não se ama o de melhor conduta, o de boa família, o mais bonito, o mais popular. O que determina por quem irá bater o coração pode ser a voz, o olhar, o jeito de andar ou de segurar o cigarro, ou nem isso. Conjecturas, apenas e tão somente hipóteses. Quem sabe? Ninguém, a não ser o coração.

O coração. Ah, o coração, esse matreiro! Ele não avisa, tão pouco escuta a voz da razão. É independente. Às vezes, dá uma dica aqui, outra acolá, dá uma acelerada. O problema é que a gente não dá bola, nem percebe. Aí, quando vemos, é tarde demais, pois o cupido já fez seu serviço.

Há quem diga que o tempo é capaz de entender o amor. Discordo. O tempo é o senhor da razão - reza a sabedoria popular -, e amor e razão são imiscíveis como água e óleo.

Ainda que seja, não se deve dar tempo ao amor. Ame hoje, e intensamente, sem querer nada em troca. Ame o sol, que te dá a luz; ame a lua, que clareia a imensidão da noite; ame seus pais, seus filhos e seus irmãos; ame os animais, os amigos, que são com quem podemos contar nos momentos de incerteza; ame as dificuldades, pois são elas que nos fazem dar valor aos momentos de paz; ame a tristeza, que faz a alegria ter sentido; ame a tudo e, principalmente, a Deus, que nos dá a vida e tudo o mais que podemos ter.

Enfim, apenas ame, incondicional e imensuravelmente, mesmo sem saber o porquê ou o "para quê", pois o amor alimenta os sonhos e estes são o combustível da vida.

Falando nisso: por onde andará a Fátima?