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sexta-feira, 12 de julho de 2024

PORTUGAL - Qual é o preço da gratidão?

RESPECT Cristiano deveria ser o primeiro a proteger o seu legado
(Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images)

As contas são simples: antes de Cristiano Ronaldo, a presença de Portugal nas fases finais das competições era intermitente. Mais que isso, eram raras as vezes em que a bandeira de Portugal aparecia ao lado de estandartes habituados aos papelinhos de bolso com os jogos, datas e programações, como Brasil, Alemanha, Argentina e Itália, mais acostumados a estas andanças. Duas destas seguidas, só uma vez, com os Infantes, que estiveram nas fases finais do Euro em 84 e da Copa do Mundo de 86, na França e no México, respectivamente.

Não fosse pela fome de gols de Cristiano, Portugal teria falhado a Copa do Mundo de 2014. Sem ele, o Euro de 2016 não passaria de mais uma desilusão, assim como a Liga das Nações de 2019, em que estreou somente na fase final, também tem as marcas das suas botas. A lista a espalhar os feitos alcançados graças a parte dos 130 golos que fazem dele o maior artilheiro, com folga, do futebol de seleções é enorme. E os serviços prestados também. Se Portugal hoje é uma potência quando fala-se de equipes nacionais, o maior responsável é Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Em grande parte do percurso, um supersónico a rasgar os céus em forma de chão verde.

EU ESTOU AQUI! Três vezes na rede para garantir a vaga
à Copa de 2014 
(Jonathan Nackstrand/AFP/VEJA)

O problema é que o avançado imparável, explosivo e insaciável ficou no passado, como acontece com qualquer um quando o tempo é o marcador. Mesmo que demore, ao cabo, o tempo levará a melhor. Mas faltou-nos o miúdo de Hans Christian Andersen a avisar que o rei ia nu pelas ruas da Alemanha e, a despeito de tanto talento espalhado em todas as posições e para vários tipos de jogo, o Cristiano Ronaldo procurado era o dos golos à Suécia, à Espanha ou à Suíça, em vez do jogador de 39 anos que os 50 e poucos jogos pesaram como nunca às pernas.

Se em 2022, Cristiano quis usar o Mundial do Catar para mostrar ao mundo que seu clube, Manchester United, e seu treinador, Erik Ten Hag, não lhe davam o valor que merecia - e essa obsessão deitou tudo por terra -, o caminho até o início deste Euro mostrou um jogador ainda com faro de gols e marcas, e útil. Dizia-se, e eu também o disse, que havia dois Portugais diferentes, mas a melhor versão era a que tinha Cristiano Ronaldo, desde que fosse associativo e jogasse para o time, como fez no amistoso contra a Irlanda e nos dois primeiros jogos do Euro, não coincidentemente os únicos em que Portugal venceu. Mais que isso: os dois em que Portugal marcou golos.

Até que...

Até que veio a necessidade de ser o primeiro e único a levar o pão à sopa em seis fases finais - ou manter limpo e estatuto de marcar em todas as competições em que participou com a camisola das quinas. Jogou quando não precisava, foi mantido em campo apesar do rendimento que, de insuficiente, passou a miserável conforme o tempo cerrou a marcação.

Então, o jogador associativo deu lugar a alguém que visava estar o mais próximo possível do gol, que pouco se ligou ao jogo coletivo. Portugal, ao longo de toda a prova, cruzou 153 vezes na área. Nos quartos de final contra a França, a bola foi despejada na área em busca de um avançado facilmente domado pela dupla Upamecano-Saliba 30 vezes, e em só duas Cristiano levou vantagem. Para ilustrar melhor sua participação direta no Euro, Cristiano tocou na bola em média 31,4 vezes por partida, seu pior registro em todas as Euros e Copas do Mundo. Em 2016, na vitória contra a Croácia, o camisa 7 encostou na bola 42 vezes e essa havia sido a menor marca até então. No mesmo jogo, Rui Patrício teve contato com a bola 46 vezes.

Como se não bastasse, a simples presença do jogador demandava alterações no posicionamento de peças fundamentais no sistema de jogo do treinador Roberto Martinez, que funcionou à perfeição nos duelos contra os oponentes mais macios das eliminatórias. Bruno Fernandes, que melhor joga quando apanha a bola na intermediária ofensiva, onde há mais espaços e tempo, tinha que pisar terrenos mais altos para compensar a falta de pressão à saída de bola, já que não se pode exigir este tipo de esforço de um avançado de 39 anos, mesmo sendo supostamente um robô; com a subida do 8, Bernardo Silva cumpria um papel de extremo para o qual nunca foi preponderante. Ou seja, a influência dos dois jogadores mais talentosos de grupo foi diminuída em troca da sombra do que Cristiano já foi. E nenhuma entre as 24 participantes do Campeonato Europeu dispôs de seis amistosos desde o fim das eliminatórias e a prova.

Discutir o papel de Cristiano não é um sinal de ingratidão a quem tanto nos deu. Tê-lo em campo nas segundas partes, quando sua fome tenderia a ser maior contra adversários possivelmente com as ideias e movimentos prejudicados pelo desgaste, só faria sentido se testes assim fossem feitos. Além da hipótese de aumentar a influência do capitão nos momentos em que estivesse em campo, ainda pouparia sua imagem e seu legado. E ainda passaria a ideia de alguém mais comprometido com os objetivos do grupo, em vez de suas próprias marcas. 

Mbappé foi substituído contra Portugal; Harry Kane deixou a meia-final contra os Países Baixos quando o placar ainda apontava a igualdade, desfeita justamente por quem o rendeu; na Copa América, Luis Suárez foi suplente do Uruguai e Messi sequer calçou chuteiras para ficar no banco contra o Peru, na última rodada da primeira fase. Cristiano só viu o número da sua camisola na placa que aponta as substituições aos 66 minutos contra a Géorgia, quando as contas no grupo já estavam feitas e sequer deveria ter jogado. Menos sentido ainda fará se quem tanto serviu à seleção insistir em se servir dela em nome de uma gratidão que ao cabo poderá ficar dispendiosa demais.  

Se calhar, faltou o miúdo a dizer que o rei estava nu. A diferença para o conto de Hans Christian Andersen é que toda a gente já havia notado.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 16

Por Humberto Pereira da Silva*

DRAMA E REDENÇÃO Contusão foi o ponto de viragem
na decisão de 2016 (Fotos: AFP/Getty)

O editor deste blogue, meu aluno Marcos Teixeira, sofreu o bom sofrer da estreia de Portugal na Eurocopa. A República Tcheca é previsível jogar atrás. Acho que a Turquia , que oferece outro tipo de dificuldade, vai propor jogo.  A natureza do jogo será outra. 

As facilidades e dificuldades de um jogo para o outro, de qualquer forma, estão sujeitas ao casuísmo que o futebol tem no nível que praticamente não existe em outros esportes coletivos: um gol em começo da partida, uma expulsão. Na final contra a França, em 2016, CR7 se machucou... 

O que pode, pode bem entendido, se tirar de positivo no jogo contra a Tcheca? O poder de reação.  A falha do zagueiro no final pra mim diz muito desse poder. Contra Marrocos, na Copa do Mundo de 2022, um gol e o jogo acabou pra Portugal. Na Euro do ano anterior, contra a Bélgica, algo parecido após o tento marcado por Thorgan Hazard.

A mim me parece que Portugal, como nenhuma outra seleção de ponta, sente o peso na hora H.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sobre a Bola de Ouro de 2016

DÁ UM TEMPO AÍ, FERA Coleção de Lionel Messi não
deve aumentar neste ano (Divulgação/Barcelona)
No início da semana, a France Football divulgou a lista dos 30 pré-indicados ao Bola de Ouro de 2016. Vele dizer que é a primeira vez, desde 2010, que o prêmio não será dado em conjunto pela revista e pela FIFA. A outra novidade é que apenas jornalistas votarão (capitães de seleções e técnicos não participarão, o que faz com que o "voto pela camaradagem" perca força). Como correção, a inclusão de Buffon, que ficara imperdoavelmente de fora em 2015, e que fez, para variar, uma Eurocopa soberba.

A Eurocopa, inclusive, tem muito peso na confecção do rol, visto que Pepe e Rui Patrício e até o francês Payet estão com seus nomes lá. Os principais campeonatos nacionais europeus também contribuíram para que alguns de seus destaques também aparecessem: o milagre que atende pelo nome de Leicester (Léster, para os mais chegados) coloca dois jogadores na parada: Mahrez e Vardy. Pelos gols que fez ainda pelo Napoli, Higuain também está na disputa e Dybala, destaque no título italiano pela Juventus, também corre - muito - por fora. Já Ibrahimovic, que fez o que quis na fraca Ligue 1, está indicado por mero cacoete.

ANO DE GRAÇA Contratação mais cara da História quando chegou a Madrid, Gareth Bale
finalmente teve uma temporada à altura do investimento (Rex Feature)

Se o campeão europeu Portugal conta com três (entre eles o favoritão Cristiano Ronaldo, obviamente), o Brasil olímpico e dourado aparece apenas pela isolada presença de Neymar, que não fez nada de notável no ano, exceto pelo título olímpico quase Sub-23 e pelo papel de coadjuvante de luxo no chamado trio MSN.

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Como a inclusão do colombiano Borja, grande nome da conquista da Libertadores pelo Atlético Nacional, sequer foi cogitada, vê-se que eles ainda olham para a América do Sul como mero fornecedor de matéria-prima para a Europa, o centro desenvolvido do Planeta Bola. A última vez em que algum "forasteiro" marcou presença foi em 2011, quando Neymar ainda atuava pelo Santos. 
HOMEM-GOL Gols por atacado podem colocar o
 uruguaioSuárez entre os finalistas (EFE)

Pela falta de conquistas internacionais e pelo fracasso na Copa América, Messi corre risco de não figurar entre os três finalistas, exceto pelo conjunto da obra, o que seria inédito desde 2007, quando ficou em terceiro lugar na sua primeira aparição no palco da premiação. Neymar, então, é capaz que fique abaixo dele, o que seria natural, apenas para citar quem compôs, com Lionel e Cristiano, o trio que disputou a honraria em 2015. Griezmann, que ficou no quase tanto na Eurocopa quanto na Liga dos Campeões, teve um ano individualmente mais interessante que o argentino.

Meus votos, caso eu participasse do sufrágio, seriam do chuteira de ouro Suárez, de Gareth Bale, que carregou País de Gales nas costas durante a Euro e que foi essencial para a conquista continental do Real Madrid, e, é claro, de Cristiano Ronaldo, que nem jogou o que já jogou em temporadas anteriores, mas que ganhou um título por Portugal e arrebentou com a boca do burro na Liga dos Campeões e que está com a faca, o queijo e os tremoços na mão para abiscoitar sua quarta redonda e seguir na sua “guerra” particular com Lionel Messi.

BARBADA Artilheiro, campeão, protagonista e líder. Temporada dos
 sonhos faz votação virar mero protocolo (Carl Recine/Reuters)

sexta-feira, 15 de julho de 2016

De Aljubarrota a Paris



O fado representa mais que a identidade portuguesa. É a própria alma lusitana. O drama. O destino. A luta. A batalha. A dor. O amor.

Desde sempre foi assim: Portugal se acostumou às grandes batalhas. No Campo de São Jorge, a 1385, quando tinha um décimo dos soldados que tinha o inimigo de Castella e que era apoiado pelo exército francês, os comandados por Nuno Álvaro Pereira saíram do jugo de Castella e Aragão e iniciaram a Dinastia de Avis e a época de ouro das grandes navegações.

Houve épocas em que teve que recuar, até fugir. Como quando as tropas de Napoleão, implacáveis, invadiram Portugal a partir da Espanha e ficaram a ver os navios com a família real atravessando o Atlântico para instalar a coroa aqui. Napoleão, no exílio, admitiu que D. João VI fora o único a enganá-lo.

Mas deixemos o mar.

Quando a Eurocopa começou, os lusos chegaram credenciados por um cartel respeitável: Portugal, a única seleção européia a estar ao menos nas quartas-de-final das últimas cinco edições, desde 1996. Não só isso: por muito pouco não eliminou a França, em 2000, e a Espanha, em 2012. Caiu nas semifinais para equipes que foram campeãs.

Mas isso pouco importava.

A imagem lusa para o mundo era o choro da inimaginável derrota de 2004. Em casa. Com Figo e Rui Costa em campo. Com Felipão, campeão do mundo. E Cristiano Ronaldo começando a escrever sua história.

Mais valia ter o fracasso como base e julgar pela campanha ruim da primeira fase, em um grupo dos mais acessíveis. Sim, foi ruim. Foi feio. Foi abaixo do que qualquer um poderia imaginar. Tivemos sorte de um regulamento questionável permitir que fosse possível avançar com três empates.

Mas não temos culpa.

Esta, porém, tem quem não quis ver que Portugal mudou, que se reinventou durante a prova. O time que mais chutava a gol, que buscava a ter a bola. Foi preciso reconhecer suas limitações e fortalecer a retaguarda para impelir avanços de tropas inimigas.

Para os críticos, do Novo e do Velho Mundo, Portugal é um país fadado ao insucesso. Fomos chamados de nojentos em França. Aqui no Brasil, era a Seleção de um jogador só, que cairia cedo ou tarde, que nunca foi nada.

A cada fase, o favorito era o adversário de Portugal, seja quem fosse. Croácia, Polônia, até País de Gales. E, enfim, a França.

E era loucura mesmo apostar em Portugal na final. Enfrentaria a dona da casa, com mais camisa, mais time (embora sem um protagonista de respeito), com a torcida toda a favor, com o Saint Denis lotado a cantar Allez Le Bleus. E com o retrospecto todo a favor, posto que não perdia para o oponente da decisão havia 41 anos.

Perto de Aljubarrota, isso era só mais um reino a ser vencido.

Quando Cristiano tombou, aos 8 minutos, houve um rearranjo no tempo e no espaço. Voltamos a 2004. Os medos todos. Os fracassos. A bola na trave. O gol de ouro. Poborski. A morte súbita. A França. Alcácer Qbir. A Grécia. A França.

A França, que ficou anestesiada. Inexplicavelmente, não cresceu. Não teve volúpia, como quem perde a referência, o ponto a ser mirado. Portugal viu seu capitão tombar e agigantou-se. O choro do herói caído foi o aditivo que faltava aos outros 22 heróis. Todos eles. Os navegadores todos no mar verde de Paris. Cabral. Vasco da Gama. Coluna. Eusébio. E uma nova página a ser escrita. Camões, Fernando e todas as suas Pessoas dentro de 11 camisas.

Quando acabou o tempo normal e Cristiano Ronaldo voltou ao relvado, foi mais que um adjunto de Fernando Santos. Ronaldo foi 11 milhões de portugueses. Cristiano Manuel. Cristiano Joaquim. Ou Antonio. Ou Aurora. Ou Jorge. Ou Maria. Ou Éder, o herói improvável. E o improvável para os outros aconteceu. Para os outros!

Portugal cresceu quando precisou e mostrou o seu tamanho ao mundo. 2004 finalmente acabou. Para desespero de quem se acostumou a nos olhar por cima dos ombros. Que nos respeitem como grandes que, enfim, somos.

*Texto originalmente publicado em psicodoidera.com.br

domingo, 10 de julho de 2016

Respeitem os campeões

A LENDA Cristiano Ronaldo ergue a taça de
campeão (Michael Regan/Getty Images)
Hoje Portugal fechou uma das suas feridas mais profundas. Finalmente exorcizamos o fantasma de 2004, daquela final em casa com a Grécia. Como em Aljubarrota, a superação. O principal soldado caído, ferido, morto para a batalha, mas não para a guerra.

Portugal fez uma primeira fase trôpega, ruim, arrastada. Foi se reconstruindo durante a competição para chegar a Paris com força, com ganas de ser campeão e, finalmente, ser respeitado pelo mundo. O melhor cenário, na casa dos entojados franceses. Não o time Bleu, que foi gigante também e um adversário que valorizou a nossa conquista; a mídia gaulesa, que menosprezou os portugueses, como fazem desde que Napoleão Bonaparte colocou a Família Real Portuguesa para correr, no início do século XIX.
ACIDENTE DE TRABALHO Cristiano Ronaldo sofre
entrada de Payet e sai machucado (AFP)
No lado de cá do Atlântico, uma horda de críticos ferrenhos do estilo lutador português. Somos assim mesmo. Feios, rudes às vezes, mas com coração. E não há no mundo um coração mais valente que o português.

Talvez por causa da colonização exploratória desde 1500 e também pelos lacaios e parasitas que chegaram com a corte de D. João VI, exista desde os bancos escolares um sentimento antilusitano. As piadas de português, que eu também conto com propriedade, são a prova do oprimido fazendo troça com o opressor. 

Não me importo. 

Como disse, eu mesmo as conto. Só não gosto de deslealdade, de desonestidade. Se nossa crônica especializada fosse honesta no propósito de informar, veria que existe um trabalho sério em Portugal para fazer o futebol dar certo. Que desde a chamada Geração de Ouro da década de 1990, Portugal não para de revelar valores de excelência mundial. Cristiano Ronaldo, Renato Sanches, Figo, João Pinto, Sérgio Conceição, Rui Costa. Não é de graça.


Admitam que não somos um time de um jogador só. Só dessa vez. Ou melhor, a partir de agora. Para desespero dos comentaristas pré-fabricados, fomos campeões sem Cristiano em campo durante quase 100 dos 120 minutos. Se os comentadores fossem realmente isentos, veriam que Portugal cresceu durante a competição, que mudou, que admitiu suas limitações e, dentro de suas qualidades, que foram muitas, chegou com mérito sim a Paris, e para pegar um time forte, com mais camisa, em casa, e moralizado por uma vitória incontestável sobre a poderosa Alemanha, mas com chances reais de fazer história.
GIGANTES Pepe e Renato Sanches brilharam
 na Euro-2016 (AFP/Getty Images)
Teriam notado que o jogo seria outro. A França, contra a Alemanha, deu a bola e marcou. Contra Portugal, teria que propor o jogo, ainda mais depois da infeliz (e leal) entrada do ótimo Payet, que alijou Cristiano da disputa.

Seria de bom tom levarem em consideração que, desde 2000, Portugal participa de todas as Copas e Eurocopas, seguidamente. Países como Inglaterra e Holanda falharam ao menos uma dessas competições. Portugal não. Talvez fosse pedir demais, e reconheço isso, levar a sério o fato de que Portugal é a única seleção europeia a garantir passagem a todas as quartas-de-finais, pelo menos, de todas as Eurocopas que disputou. Se o escrutínio for bem feito, verão que, em sete participações, nós estivemos em cinco semifinais, coisa que ninguém fez. 

Ao falar do caminho suave que Portugal teve até a final, poderiam ter percebido que os adversários dos franceses também não foram dos mais gabaritados. A França só enfrentou um time realmente forte nas semifinais.

O herói improvável saiu do banco para nos dar a maior vitória de todos os tempos. Rui Patrício, um goleiro contestado, foi gigante durante a prova toda. O "tosco" Pepe, irrepreensível. Nani e Quaresma, que nem nós levávamos a sério, foram monstruosos. Uma vitória que nos coloca, enfim, entre os grandes. 
O MAIOR GOL DO MUNDO Ederzito faz história e marca o gol mais
importante da história do futebol português (AFP/Getty Imagens)
Que nunca mais nos olhem por cima dos ombros. Não precisa nem passar a gostar de nós. Basta que nos respeitem. 

Impressões sobre a Euro-16

Por Humberto Pereira da Silva*


Uma das premissas do jornalismo é o exagero: fazer ver ao espectador desatento algo que ele não veria não fosse dado grande destaque. Assim, nenhuma novidade quando uma notícia ganha destaque e logo depois é esquecida, sem considerandos.

Nessa Euro-16 a noticia veio da Islândia. A surpresa do torneio, pois chegou às quartas de final. Ora, o futebol islandês jamais havia participado de competição tão importante e, para surpresa geral, na fase de grupos classificou-se na frente de Portugal de Cristiano Ronaldo e, nas oitavas de final, despachou a “poderosa” Inglaterra.
BOLA DA VEZ Islândia cumpriu bem o papel
de surpresa na Eurocopa (Reuters)
Ocorre que, numa rápida inspeção por torneios como Copa de Mundo e Euro, a constatação de que a Islândia agora foi a bola de vez. Uma seleção sem tradição futebolística que em razão de circunstâncias bem específicas avança e cai no meio do caminho.

Vejamos: depois de golear o Uruguai na Copa de 86, na partida seguinte a Dinamarca foi humilhada pela Espanha; depois de desbancar a forte Argentina em 94, a Romênia caiu diante da Suécia; depois de superar os ingleses, os islandeses foram atropelados pelos franceses...

Podia ainda pensar na Polônia em 74, na Croácia em 98, mesmo na Costa Rica em 2014...; nenhuma novidade, portanto, na esperada surpresa, senão que agora foi a vez da Islândia. Para mim será surpreendente, de fato, se a Islândia passar bem pelas eliminatórias e voltar a brilhar na Copa da Rússia.

Deixando a “surpresa” de lado, a surpresa é não se perceber, antes, as seleções candidatas à decepção. A da Bélgica, apontada pela imprensa como favorita ao título, também era candidata à decepção; e assim, como decepção, caiu diante do apenas entusiasmado País de Gales.
PELO CAMINHO Elogiada geração belga não foi
 além do seu tamanho (Getty Images)
A atual geração belga é forte e criou-se a expectativa de que a seleção seria campeã. Mas o futebol belga, convenhamos, nunca passou de força intermediária na Europa. E como força intermediária nunca foi além de forças intermediárias como Holanda, campeã da Euro em 88, e da Dinamarca, que arrebatou a Euro em 92.

Claro, a Bélgica podia repetir essas duas seleções; mas claro também que a expectativa em seleções intermediárias é para saber a partir de que momento elas serão consideradas decepção. Pela incrível previsibilidade, a “grande decepção” em torneios como Euro e Copa do Mundo é não haver decepção. Nesse sentido, a Bélgica fez bem seu papel: a favorita que provavelmente decepcionaria. Nenhuma novidade, portanto, no fiasco da Bélgica.

Assim como nenhuma novidade em “novo” fiasco inglês. Sobre a Inglaterra, aliás, a estranha insistência em colocá-la como força de primeira grandeza. A liga inglesa é forte, de primeira linha, sim, mas a seleção...
NOVO FIASCO DE SEMPRE A Inglaterra não decepcionou
 e caiu como sempre Paul Ellis/AFP/Getty Images)
 
A melhor colocação inglesa na Euro foi o terceiro lugar; obtido duas vezes: em 68 e em 96, quando jogou em casa. Pondo na mesa a Inglaterra na Copa do Mundo, apenas uma final, cinquenta anos atrás, quando se sagrou campeã e sediou o torneio. É pouco, muito pouco para se por o futebol inglês em primeiro plano, esperar título como se...

Países futebolisticamente periféricos – Portugal, República Tcheca... – ao longo da história são mais constantes que a Inglaterra: os tchecos chegaram a duas finais de Copa do Mundo e já levaram a Euro. Ainda que a desclassificação diante da Islândia exija mais que clichês de ocasião, certo é igualmente que a Inglaterra chegou onde tem chegado nessas últimas décadas: no meio do caminho em competições importantes.

E já que colocamos Portugal no circulo periférico, eis um país que não é uma potência futebolística mundial e para o qual as palavras “surpresa” e “decepção” não são gratuitas. Desacreditada, a seleção portuguesa chega onde não se imagina; envolta em otimismo, os lusos fraquejam inexplicavelmente.
A derrota para os gregos na final da Euro-04 é um trauma lusitano. Do futebol grego, que, sim, venceu surpreendentemente, se pode falar que o surpreendente pode acontecer. No futebol, os gregos não são mais que os suíços, para ficar na Europa, ou... os costa-riquenhos, para virmos à América.

Assim, quando Portugal perdeu em sua própria casa a Euro-04 para a Grécia, pode-se falar em decepção. Uma seleção, que na época tinha Luís Figo entre os melhores do mundo, perder a final em casa para um país que mal existe no mapa do futebol?

O otimismo luso gera a sensação de que sua seleção é mais do que se espera. Convém não exagerar, o futebol português, exceção talvez em 66, nunca foi deslumbrante. Sendo assim, quando mais se espera, vem frustração.

Mas se o futebol português muitas vezes é menos do que se espera, não é menos verdade que muitas vezes há um agigantamento que faz dos lusos mais do que se espera. Ora, não é gratuito que Portugal – na Euro e na Copa do Mundo – tenha invariavelmente se colocado entre as semifinalistas nesses últimos doze anos após o trauma com a Grécia.

De Portugal, convém não guardar expectativa exagerada; como igualmente convém supor que pode ir onde não se espera. Pois nesse sentido o futebol português é incrivelmente excêntrico. Sem ter jamais uma esquadra exatamente forte, exuberante, consegue por vezes ter um jogador que carrega o time, um jogador acima da normalidade: antanho foi Eusébio; não faz muito, Luís Figo; hoje é Cristiano Ronaldo.

Não seria injusto dizer que, na década de 1960, Eusébio foi para Pelé o que hoje Cristiano Ronaldo é para Messi...; ou seja, de um país que revela Eusébio, Figo e Cristino Ronaldo se pode esperar muito. Mas justamente por que avis rara, em jogadores desse porte um brilho que pode ser ofuscado pelas circunstâncias específicas de uma partida.

Por fim, falemos da França, país sede da Euro-16. Ao contrário da Inglaterra, entendo que a França é uma das potências do futebol mundial. E tem ratificado essa posição ao longo dessas últimas décadas com seguidas e constantes gerações de jogadores geniais.

Na década de 1980 floresceu na França a magnífica geração de Michel Platini; para não ficar atrás, uma nova geração de jogadores extraordinários, comandados por Zinedine Zidane, fez história no final do século passado e início deste.

Nesta Euro-16 a França desponta com uma nova geração. Com talentos do quilate de Paul Pogba e Antoine Griezmann, a França já havia deixado impressão positiva na Copa-14, mesmo caindo diante da Alemanha. É cedo ainda para asseverar, mas essa nova geração tem tudo para repetir conquistas das anteriores gerações francesas.


Em suma: com o declínio espanhol, que durante o último decênio pontificou no futebol europeu e mundial, se excluirmos que a Alemanha é a Alemanha, que a Itália é a Itália..., os franceses bem podem ocupar o lugar que coube à Espanha: com futebol vistoso e jogadores fora de série, protagonizar as próximas competições.

*Humberto Pereira da Silva, 52 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.

sábado, 9 de julho de 2016

Às armas e às glórias, Portugal!

O ARRANQUE Portugal comemora classificação
sobre a Dinamarca (Getty Images)

São dez derrotas seguidas. 41 anos sem vencer. Três eliminações em três confrontos oficiais. Sem contar que o adversário venceu duas das três grandes competições que organizou. É este o tamanho da encrenca que Portugal terá pela frente neste domingo na final da Euro 2016, quando enfrentará a dona da casa França no mesmo Saint-Denis em que os gauleses destroçaram o Brasil em 1998. 

O único texto com algum fragmento informativo que você, leitor, encontrará aqui está no parágrafo acima. Me assumo incapaz de escrever qualquer coisa com cores imparciais. Tem Portugal na final. Tem sofrimento garantido. E não vou me privar de torcer, ainda mais aqui neste espaço.
NO ALTO Com Cristiano Ronaldo, Portugal
quer fazer história (Getty Images)
A França é favorita e despachou a poderosa Alemanha no único jogo grande que teve pelo caminho. Portugal empatou seus cinco primeiros jogos.  O regulamento que permitiu a classificação sem vencer é questionável. O retrospecto é desfavorável. Sei de tudo isso.

Aí eu pergunto: e daí?

A Itália vivia eliminando a Alemanha, que sempre passava por cima da França, que sempre ganha de Portugal. Chegou nossa hora de ir à forra. De subir um patamar. Bem ou mal, sob o comando de Fernando Santos, Portugal está invicto em jogos oficiais. São 13, sendo oito vitórias (sete nas Eliminatórias). 

É nisso que acreditamos.
DIFERENCIAIS Em grande fase, Nani e Renato Sanches
 são destaques de Portugal (Getty Images)
Não fosse assim, nenhum bigodudo no século XV se aventuraria em caravelas pelo mundo afora. Não fosse assim, teríamos sucumbido à superioridade numérica dos castelhanos e franceses na Batalha de Aljubarrota, quando Portugal saiu do jugo espanhol.

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Sobre bipolaridade e Cristiano Ronaldo


Nada disso entra em campo, é verdade. Mas a hora é de subverter a ordem. De devolver as eliminações nas meias-finais das Eurocopas de 1984 e 2000 e na Copa de 2006. 

É hora de mostrar à Europa inteira que Portugal não pereceu, como diz "A Portuguesa". Que teu braço (e pés) vencedor, que deu novos mundos ao mundo, agora dê um mundo novo a Portugal.

Às armas, Portugal! Sobre a terra. Sobre o mar. Sobre a relva É sobre amor. É amor de sobra. É Portugal.       

terça-feira, 5 de julho de 2016

Sobre bipolaridade e Cristiano Ronaldo

SE PERDER, QUE SE F... Cristiano Ronaldo "convence" João Moutinho (8)
 a bater um dos pênaltis contra a Polônia  (Catherine Ivill/AMA/Getty)
Cristiano Ronaldo é uma cara que desperta paixões na mesma proporção em que faz aflorar um ódio mortal em quem não suporta sua estampa moderninha. Ele é uma figura das mais difíceis de interpretar. E das mais fáceis também.

Quando pressionado, é capaz de falar as maiores bobagens do mundo, como reclamar da alegria de um adversário a quem fora incapaz de ajudar a derrotar (posto que futebol é esporte coletivo), maldizer o nível dos companheiros de equipe ou atirar num lago francês o microfone de um repórter pago para fazer o jogo cretino de um jornaleco de merda de Portugal.

Ele costuma dar milho para bode sempre que troca os pés pelas mãos. isso sem contar os motivos bestas que gente tão besta quanto usa para diminuir seu inegável talento: olhar para o telão a cada gol perdido, fazer a sobrancelha, usar xampu anti-caspa. "Ó, que pecado! Que marra!"

Aí faz três ou quatro gols e vira o mais amado de novo. E perde um clássico para o Barcelona, E vira pipoqueiro. Consegue a proeza (não para ele) de marcar 50 gols ou mais na temporada, como nas últimas seis. É craque! Afunda com Portugal (o que é normal). Ah, é marqueteiro. Bom é o Messi!

Ele não tem tido uma Eurocopa das mais felizes, muito por culpa dele mesmo, como já dissemos aqui. Ainda assim, foi essencial para classificar Portugal para o mata-mata ao acabar com o jogo contra a Hungria, que é o mínimo que se espera de um jogador de seu nível, embora fosse um jogo desfavorável por todo o contexto, inclusive sendo um dia depois de fazer o tal microfone submergir em Lyon.

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Paralelamente, Messi fazia chover na Copa América, vestindo a camisa da Argentina. Não é preciso citar como terminou o torneio de seleções americano. Apenas trago o assunto à baila para mostrar o tamanho da encrenca que colocava em lados opostos "lionetes" e "ronaldetes", como se fosse impossível gostar de ambos.

Não, meninos. Não é! Aceitem. Apenas aceitem.

Para completar, Cristiano Ronaldo havia perdido um pênalti no fim do jogo com a Áustria, o que ajudou para que Portugal não vencesse nenhuma partida na Eurocopa até o momento.

Eis que chegou o jogo das quartas de final, no qual ele, Cristiano, fez uma partida tecnicamente sofrível, furando na frente do goleiro dois gols certos ("pipoqueiro!"), que dispensariam a necessidade do drama das penalidades.

Mas Ronaldo precisava.

Um hiato aqui para servir de intróito ao que vem:

Você, leitor, poderia estar em coma desde junho de 2014 até ontem; ou ter sido sequestrado pelas FARC numa excursão com o pessoal do cursinho para a Colômbia; ou mesmo ter sido abduzido por alienígenas. Se não se encaixar em uma destas três possibilidades, certamente sabe que Thiago Silva, capitão da Seleção Brasileira, amarelou bonito na disputa de pênaltis na Copa de 2014 contra o Chile. Mesmo não ligando lhufas para o futebol, saberá também que a braçadeira não tem caído bem no braço do mimadinho Neymar, aquele que andou chamando de babacas toda a gente que não lhe lambe as chuteiras.

Voltemos à marca da cal do Velodrome.

Após a partida abaixo da crítica contra os poloneses, o camisa 7 abriu a disputa de pênaltis, converteu e ajudou Portugal a chegar às meias-finais. Até aí, nada que já não tivera feito antes. 

Até aí.

Até aí porque, desde ontem, circula na internet um vídeo que mostra a liderança do capitão português (a quem já critiquei aqui e aqui) antes dos pênaltis. O meia João Moutinho, que entrou durante a partida, não estava lá muito disposto a bater. 

Cabe salientar, pois, que ele, Moutinho, foi um dos que perdeu sua cobrança contra a Espanha, nas semifinais da Euro 2012, quando Portugal ficou pelo caminho. Destaca-se também que o jogador do Monaco não faz uma campanha das melhores na França, tendo perdido até o lugar no 11 de Fernando Santos.  

Cristiano não só convocou o camisola 8 a bater como o encheu de ânimo e tirou-lhe toda a responsabilidade no caso de novo erro. Moutinho bateu com perfeição, Portugal converteu os cinco chutes, se classificou para a quarta semifinal em cinco Eurocopas e o mundo voltou a amar Cristiano Ronaldo.

Ao menos até o próximo jogo.



Veja o vídeo de Cristiano convocando João Moutinho:


sábado, 2 de julho de 2016

Vencedores e vencidos

FIM DE BATALHA O choro do maior de todos os
tempos (E F E)
No futebol um ganha e um perde. Não há saída. Nesta noite, em Bordeaux, pela primeira vez a Alemanha saiu vencedora no duelo com a Itália. Duas camisas das mais pesadas da História em campo. Um vencedor na injustiça cruel da disputa por pênaltis, mas nenhum derrotado.

A Itália chegou à França desacreditada, que é como ela se sente bem. Dominou a tão falada geração belga, não tomou conhecimento da bi-campeã Espanha e fez um jogo memorável com os temíveis alemães, atuais campeões do mundo e que pegaram no breu.

Sob as metas, o maior goleiro do mundo e o maior de todos os tempos, que teima em contrariar o tempo e opera milagres. Dois times com arqueiros à altura de suas histórias. Buffon, que foi gigante, chorou ao fim da disputa.
O choro do histórico portiere italiano é compreensivo, mas injusto. Nenhum dos jogadores que participaram da épica batalha, que teve o tamanho de uma final, tem tantos motivos para se orgulhar. Foi o capitão de um time inferior tecnicamente, mas que ninguém foi capaz de superar no coração.

Segue a Alemanha, que foi gigante como o desafio exigia. A Itália volta para casa de la testa alta porque tinha que passar apenas um e desta vez foi a Mannschaft. Com orgulho de quem resgatou a mística de uma das mais importantes camisas do mundo. 

Sem essa de derrotada. Perde somente quem acha que o futebol de seleções acabou; que gosta do mundinho dos grandes clubes, dos agentes, dos super-salários, de quem não se importa com derrotas. O choro de Buffon, cinco Copas e cinco Euros no currículo, mostra quem venceu: o futebol. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Futebol feio. E daí?

PREDADOR Renato Sanches marca seu primeiro
gol com a camisa de Portugal (Getty Images)
Portugal não tem a menor obrigação de jogar bonito. Nunca teve. Sequer tem essa identidade. Com Fernando Santos no comando, raramente fez partidas vistosas, mas quase sempre foi um time que se mostrou forte na sua proposta de jogo: marcar e atacar em velocidade, com poucos passes, sempre em progressão; caso perca a bola, fecha-se rapidamente. Isso garante ao time tomar poucos gols, o que normalmente acontece.

Isto posto, tenho visto e lido muita gente que nunca reservou uma tarde do seu tempo para ver uma partida de quem quer que seja no time luso, exceção feita a Cristiano Ronaldo e mais alguns nomes conhecidos, para maldizer. Quem é Cédric? Renato Sanches? Adrien Silva? João o quê? Ah, Mário. Não, não conheço.

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O inusitado mostra-se na campanha do primeiro semifinalista da Eurocopa (pela quarta vez nas últimas cinco edições): chegar a esta fase sem vencer uma partida sequer. O "se" não joga, mas se Ronaldo tivesse convertido o pênalti contra a Islândia, se os chutes do húngaro Dzsudzsak não desviassem tanto e se o alemão que apitou hoje tivesse marcado os dois que aconteceram ontem contra a Polônia, seriam, provavelmente, três vitórias em cinco partidas, mas o futebol feio seria o mesmo. Futebol feio, inclusive, que Tite fez o Corinthians jogar em 2012 e desta forma ganhou tudo (e com todos os méritos), mas ele é genial por isso (e é mesmo).

Não percebem, ou não querem perceber, que este mesmo time que joga esse futebolzinho mequetrefe teve que reunir forças para se recuperar de placares adversos, e em partidas muito complicadas.

Então, senhores, devagar com o andor. Também não aprecio o estilo de jogo da equipe do Fernando Santos, mas e daí? Apreciei menos ainda ter perdido em 2004 em casa para a Grécia, que jogava um futebol mais feio ainda que este português.

A história mostra que Portugal não será campeão. Pode chegar às finais, e jogar, possivelmente, contra Itália, França ou Alemanha, que são países que normalmente nos vencem. Pelo tamanho da Selecção das Quinas, o título é muito mais do que podemos almejar. Pelo tamanho do nosso sonho, ser campeão é só o início do que queremos para nós. Prefiro sonhar.
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Em tempo: o Pepe é um zagueiro espetacular (quando está com a cabeça no lugar). Joga mais que o capitão que chora.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A assustadora pobreza portuguesa

O jogo de estreia de Portugal pela Eurocopa começou com uma excelente expectativa, aumentada após a divulgação da escalação, passou a decepção conforme a partida se desenvolveu e terminou em preocupação.

Fernando Santos escalou Raphael Guerreiro na lateral esquerda, deixando o pouco confiável Eliseu no banco de reservas. No meio, a novidade principal: André Gomes, um trinco de boa chegada à frente,  na vaga de Adrien, grande marcador, mas que pouco contribui para a armação no meio.

Contra a Islândia, time de forte marcação e pouco jogo pelo meio, faria sentido.

Começou o jogo e Portugal chegava sem maiores problemas à área islandesa, mas desperdiçava todas as oportunidades, ora com Nani, ora com Ronaldo. O gol saiu naturalmente, em passe rasteiro de André Gomes (olha o volante que aparece desmarcado no ataque a funcionar) para Nani, no primeiro pau, sem marcação.

Totalmente acuada, restava à Islândia se encolher e ver Portugal ficar virando a bola a procura de espaços, que eram poucos, ou jogando a bola na área.

O segundo tempo começou como o primeiro, com o time das Quinas frequentando o campo de defesa contrário e criando oportunidades. Cristiano Ronaldo teve uma grande chance em um chute de fora que passou perto, muito perto. Pouco depois, uma falta não marcada na lateral da área propiciou um contra-ataque letal aos islandeses e eles não desperdiçaram.

A partir daí tornou-se quase impossível a Portugal furar a marcação. Com pelo menos nove jogadores dentro da área, a Islândia formou uma barreira à frente do gol. O caminho natural seria jogar pelos flancos, de preferência com Ronaldo e Quaresma, que estava no banco, e tentar tirar os defensores de dentro da área, abrindo espaço para Moutinho, André Gomes e Renato Sanches, que também estava na suplência.

Fernando Santos poderia ter tirado um volante, João Mário, que não tinha a que marcar, e lançar Quaresma.  Colocou Renato e tirou Moutinho, deixando o time sem o principal organizador, quando poderia sacar Nani, que já se arrastava sem função alguma em campo. A principal jogada lusitana era o chuveirinho de Vieirinha ou a bola longa de quem a tivesse perto da intermediária.  

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A sede de Cristiano Ronaldo

Neste momento, Portugal jogava contra a Islândia com inacreditáveis quatro volantes em campo. Depois fez entrar Quaresma no lugar de João Mário, mas ainda tinha três jogadores de características defensivas, embora jogassem mais à frente, deixando apenas Danilo como marcador de fato. Acontece que a criação morreu, pois Renato Sanches, além de marcador, é condutor de bola, e sempre tocava de lado ou esbarrava na cerrada defesa adversária.



No fim, tirou André Gomes, cansado, e pôs um atacante terrível, o Éder. Acabou numa espécie de 4-2-0-4 (ou 4-2-0-3 menos 1, este "menos  1" sendo Éder), alçando bola na área por mais de 30 minutos.


Numa chave teoricamente fácil, em que a Áustria, de quem não se espera muito, perdeu por 2 a 0 para a Hungria, de quem se espera menos ainda, Portugal tem obrigação de passar. O que assusta é a pobreza tática portuguesa e um Cristiano Ronaldo mais preocupado em reclamar da alegria do adversário inferior, que conseguira um feito, do que em fazer jus ao seu discurso de pleitear a única glória que lhe falta, que é um título pela Seleção.