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terça-feira, 16 de junho de 2026

A Copa do Mundo em pílulas - 3 - O dilema CR7 e a seleção de Portugal

*Por Humberto Pereira da Silva

(Foto: Alexandre de Sousa / ZUMA Press Wire / Imago)

A geração atual de Portugal, campeã da Liga das Nações da UEFA no ano passado, cintila como a mais brilhante da história do futebol português. Parte significativa desse escrete se impôs nos principais times das ligas mais disputadas da Europa, de modo que, mesmo não entrando na Copa com favoritismo incontestável, é inegável que o desempenho de Portugal gera grande expectativa. Mais: sabendo ser arriscado fazer uma afirmação assim, não tenho na memória outra seleção portuguesa que tenha entrado numa Copa do Mundo entre as quatro destacadas favoritas ao título mundial.   

Ao longo dos últimos 20 anos, de fato, o futebol português saiu da periferia mais longínqua da Europa para o centro das atenções. Por isso, considerado esse período de duas décadas, quando não se tinha propriamente expectativa de que Portugal fosse tão longe, para esta Copa, caso não vá, será realmente frustrante. 

Bem, vale então assinalar que o avanço do futebol português rumo ao centro das atenções, para além de todas as mudanças estruturais decorridas no futebol do país, foi protagonizado por um personagem central. Seu nome? Cristiano Ronaldo. Desnecessário dizer que se trata de um dos maiores atacantes da história do futebol. Desnecessário dizer que ele mobiliza atenções desmedidas desde que despontou para o mundo na Copa de 2006.   

Antes dele, Portugal havia se qualificado às fases finais dos principais campeonatos de seleções em 1966, 1986 e 2002 (Copa do Mundo), e em 1984, 1996 e 2000 (Eurocopa); depois, não falhou nenhum apuramento, marcando presença consecutivamente desde 2002.

Entretanto, ele é o nó. Paradoxalmente, o principal jogador português, um dos maiores da história, é o maior problema de Portugal. E, sobre o uso da palavra “problema”, faço questão de não pôr aspas, nem usá-la como recurso retórico. Cristiano Ronaldo é para mim um problema seríssimo. Faço uso dessa palavra, portanto, em sentido literal.   

Em 2022, obviamente quatro anos mais jovem, e ainda um atacante cujo poderio não se podia subestimar, Cristiano Ronaldo em campo e fora dele foi um personagem desestabilizador. Portugal naufragou naquela Copa em grande parte devido à presença dele, que sob enormes controvérsias, aliás, acabou aquela competição na reserva. Principalmente, assim entendo, sua postura exageradamente individualista gerou tensões que tiveram como desfecho a decepcionante participação portuguesa no Catar.   

Vejamos, então: 2022 foi esquecido? Denega-se seu comportamento naquela Copa? Convém lembrar o episódio no qual levou consigo para dentro do estágio na seleção portuguesa a sua crise com o Manchester United, a ponto de, em novembro daquele ano, ter veiculada uma entrevista - sem outro adjetivo melhor - desastrosa, na qual desanca seu clube e seu treinador na ocasião, o neerlandês Ten Hag, o que culminou na sua saída de um distintivo no qual já era uma lenda. 

Não se extraiu nenhuma lição? Agora, 2026, com a lembrança de 2022, considero ser impossível subestimar Cristiano Ronaldo como problema. Quatro anos mais velho, por óbvio, sem o mesmo condicionamento físico e técnico, para além dos 40 anos e atuando em uma liga periférica, como o vaidoso português se comportará?

Literalmente, se ele apagou o que aconteceu em 2022, não há como esconder que ele é um grande PROBLEMA para que essa brilhante geração portuguesa, mesmo não sendo campeã, repita campanhas como a de 66 e, ironia do destino, de 2006, quando justamente CR7 despontou para o mundo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 12 de julho de 2024

PORTUGAL - Qual é o preço da gratidão?

RESPECT Cristiano deveria ser o primeiro a proteger o seu legado
(Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images)

As contas são simples: antes de Cristiano Ronaldo, a presença de Portugal nas fases finais das competições era intermitente. Mais que isso, eram raras as vezes em que a bandeira de Portugal aparecia ao lado de estandartes habituados aos papelinhos de bolso com os jogos, datas e programações, como Brasil, Alemanha, Argentina e Itália, mais acostumados a estas andanças. Duas destas seguidas, só uma vez, com os Infantes, que estiveram nas fases finais do Euro em 84 e da Copa do Mundo de 86, na França e no México, respectivamente.

Não fosse pela fome de gols de Cristiano, Portugal teria falhado a Copa do Mundo de 2014. Sem ele, o Euro de 2016 não passaria de mais uma desilusão, assim como a Liga das Nações de 2019, em que estreou somente na fase final, também tem as marcas das suas botas. A lista a espalhar os feitos alcançados graças a parte dos 130 golos que fazem dele o maior artilheiro, com folga, do futebol de seleções é enorme. E os serviços prestados também. Se Portugal hoje é uma potência quando fala-se de equipes nacionais, o maior responsável é Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Em grande parte do percurso, um supersónico a rasgar os céus em forma de chão verde.

EU ESTOU AQUI! Três vezes na rede para garantir a vaga
à Copa de 2014 
(Jonathan Nackstrand/AFP/VEJA)

O problema é que o avançado imparável, explosivo e insaciável ficou no passado, como acontece com qualquer um quando o tempo é o marcador. Mesmo que demore, ao cabo, o tempo levará a melhor. Mas faltou-nos o miúdo de Hans Christian Andersen a avisar que o rei ia nu pelas ruas da Alemanha e, a despeito de tanto talento espalhado em todas as posições e para vários tipos de jogo, o Cristiano Ronaldo procurado era o dos golos à Suécia, à Espanha ou à Suíça, em vez do jogador de 39 anos que os 50 e poucos jogos pesaram como nunca às pernas.

Se em 2022, Cristiano quis usar o Mundial do Catar para mostrar ao mundo que seu clube, Manchester United, e seu treinador, Erik Ten Hag, não lhe davam o valor que merecia - e essa obsessão deitou tudo por terra -, o caminho até o início deste Euro mostrou um jogador ainda com faro de gols e marcas, e útil. Dizia-se, e eu também o disse, que havia dois Portugais diferentes, mas a melhor versão era a que tinha Cristiano Ronaldo, desde que fosse associativo e jogasse para o time, como fez no amistoso contra a Irlanda e nos dois primeiros jogos do Euro, não coincidentemente os únicos em que Portugal venceu. Mais que isso: os dois em que Portugal marcou golos.

Até que...

Até que veio a necessidade de ser o primeiro e único a levar o pão à sopa em seis fases finais - ou manter limpo e estatuto de marcar em todas as competições em que participou com a camisola das quinas. Jogou quando não precisava, foi mantido em campo apesar do rendimento que, de insuficiente, passou a miserável conforme o tempo cerrou a marcação.

Então, o jogador associativo deu lugar a alguém que visava estar o mais próximo possível do gol, que pouco se ligou ao jogo coletivo. Portugal, ao longo de toda a prova, cruzou 153 vezes na área. Nos quartos de final contra a França, a bola foi despejada na área em busca de um avançado facilmente domado pela dupla Upamecano-Saliba 30 vezes, e em só duas Cristiano levou vantagem. Para ilustrar melhor sua participação direta no Euro, Cristiano tocou na bola em média 31,4 vezes por partida, seu pior registro em todas as Euros e Copas do Mundo. Em 2016, na vitória contra a Croácia, o camisa 7 encostou na bola 42 vezes e essa havia sido a menor marca até então. No mesmo jogo, Rui Patrício teve contato com a bola 46 vezes.

Como se não bastasse, a simples presença do jogador demandava alterações no posicionamento de peças fundamentais no sistema de jogo do treinador Roberto Martinez, que funcionou à perfeição nos duelos contra os oponentes mais macios das eliminatórias. Bruno Fernandes, que melhor joga quando apanha a bola na intermediária ofensiva, onde há mais espaços e tempo, tinha que pisar terrenos mais altos para compensar a falta de pressão à saída de bola, já que não se pode exigir este tipo de esforço de um avançado de 39 anos, mesmo sendo supostamente um robô; com a subida do 8, Bernardo Silva cumpria um papel de extremo para o qual nunca foi preponderante. Ou seja, a influência dos dois jogadores mais talentosos de grupo foi diminuída em troca da sombra do que Cristiano já foi. E nenhuma entre as 24 participantes do Campeonato Europeu dispôs de seis amistosos desde o fim das eliminatórias e a prova.

Discutir o papel de Cristiano não é um sinal de ingratidão a quem tanto nos deu. Tê-lo em campo nas segundas partes, quando sua fome tenderia a ser maior contra adversários possivelmente com as ideias e movimentos prejudicados pelo desgaste, só faria sentido se testes assim fossem feitos. Além da hipótese de aumentar a influência do capitão nos momentos em que estivesse em campo, ainda pouparia sua imagem e seu legado. E ainda passaria a ideia de alguém mais comprometido com os objetivos do grupo, em vez de suas próprias marcas. 

Mbappé foi substituído contra Portugal; Harry Kane deixou a meia-final contra os Países Baixos quando o placar ainda apontava a igualdade, desfeita justamente por quem o rendeu; na Copa América, Luis Suárez foi suplente do Uruguai e Messi sequer calçou chuteiras para ficar no banco contra o Peru, na última rodada da primeira fase. Cristiano só viu o número da sua camisola na placa que aponta as substituições aos 66 minutos contra a Géorgia, quando as contas no grupo já estavam feitas e sequer deveria ter jogado. Menos sentido ainda fará se quem tanto serviu à seleção insistir em se servir dela em nome de uma gratidão que ao cabo poderá ficar dispendiosa demais.  

Se calhar, faltou o miúdo a dizer que o rei estava nu. A diferença para o conto de Hans Christian Andersen é que toda a gente já havia notado.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PORTUGAL - A melhor versão é a de sempre: a que tem Ronaldo


UM DIA COMO OUTROS QUALQUER Em Aveiro, aquele que tem Aveiro
no nome fez história outra vez e sepultou as dúvidas
sobre seu papel no Euro (Foto: Gualter Fatia)

"Cristiano Ronaldo atingiu uma marca histórica…” Esta crônica começa como tantas outras desde que o maior artilheiro do futebol de seleções de todos os tempos colocou na cabeça que não anda atrás dos recordes, são estes que o perseguem. Contra a República da Irlanda, contra quem já havia eternizado seu nome como o maior artilheiro de equipes nacionais nas eliminatórias para a Copa de 2022, o capitão chegou a incríveis e inimagináveis 130 gols com a camisa das Quinas, além de ser o primeiro da história, segundo informou o ótimo Leonardo Bertozzi durante a transmissão, pela ESPN, a marcar em 21 temporadas seguidas em jogos de selecionados nacionais.

Não é pouca coisa. Como também não será pequeno aquilo que ele deverá alcançar, de hoje a oito, quando Portugal estrear na competição, contra a Chéquia, caso nada fora do normal ocorrer até lá: estar em campo em seis edições. Não só não é para qualquer um, como ele será o único até então.

Se havia alguma dúvida sobre ele estar no onze inicial, esta dissipou-se no belíssimo e praticamente inútil Estádio Municipal de Aveiro, cujo costumeiro mandante anda a rastejar-se no quarto escalão do futebol nacional. E não foi o CR7 de costume, também porque o jogo pedia que não o fosse.

Roberto Martinez trouxe preocupações por causa da permeabilidade que a defesa apresentou nos últimos quatro jogos, contra Suécia, Eslovênia, Finlândia e Croácia. Por isso, e porque tinha Pepe de volta ao menos por meio tempo, armou o time com um trio defensivo de raíz, com o monumental zagueiro ladeado à direita por António Silva e à esquerda por Gonçalo Inácio, numa inusitada mistura de Benfica, Porto e Sporting, pelo menos enquanto por lá estiverem.

Em vez de Palhinha, João Neves na vértice mais recuado do losango, tendo à frente Bruno Fernandes e, nas alas, Diogo Dalot e João Cancelo, com papéis diferentes em cada lado do campo: o primeiro a abrir e a buscar combinações com Bruno Fernandes e o outro, centralizando para Rafael Leão atacar os adversários como se estivesse a correr numa savana. João Félix e Cristiano, sem posicionamento fixo, tinham liberdade para tentar combinações, com a diferença do (bem) mais jovem ser imbuído de obrigações defensivas para atrasar um bocado a saída de bola irlandesa.

É o ônus de ter Cristiano na equipe: não haverá pressão para tentar retomar a bola o mais perto possível do gol adversário. Por outro lado, Portugal com Cristiano tem o que mais ninguém tem ou teve: o próprio Cristiano. E o melhor: numa versão mais solidária, jogando para o time, não tentando resolver sozinho. E nem poderia ser assim, com tantos pés pensantes juntos.

Félix, que havia roçado a inutilidade contra os croatas, fez um grande primeiro tempo e foi premiado com um belíssimo gol segundos depois de ter visto um, também muito bonito, negado pelo goleiraço do Liverpool, Kelleher, depois de boa trama que envolveu Dalot e Ronaldo, que parou na trave em cobrança de falta que desviou na barreira, além de reclamar um pênalti não marcado.

A segunda etapa chegou com mudanças (Dalot e Cancelo por Semedo e Nuno Mendes, Pepe por Danilo, João Félix por Rúben Neves e Rafael Leão por Diogo Jota). A presença de Rúben Neves fez com que o outro Neves tivesse companhia no papel de marcador no meio e acabou com o fogo que vez ou outra aparecia pelo lado dos bebedores de cerveja e liberou Bruno Fernandes, o que faria com que qualquer time do mundo ficasse mais forte.

As férias fizeram bem a Rúben Neves, que deu um passe teleguiado de 30 metros (com margem de erro de cinco metros, para mais ou menos, que seja) para Ronaldo tirar um defensor cujo nome eu não sei duvido que ele saiba depois do que se passou e atirar com efeito, no ângulo e de esquerda, numa obra de arte que faz por merecer estar entre os cinco mais bonitos dos 129 até então. Este número durou por 10 minutos, quando Diogo Jota tirou a bola de um contrário com uma facilidade constrangedora e deu de trivela para o 130, também de esquerda.

Mesmo com muitos reparos a serem feitos na defesa, sobretudo na saída de bola, cujos erros podem ser fatais contra equipes não tão mansinhas no ataque como a Irlanda, é provável que Roberto Martinez tenha encontrado a melhor formação na volta do balneário. Aí, não se trata dos nomes, e sim do papel que cada um desempenhará, principalmente um certo senhor que, mesmo praticando um futebol altruísta muito raro para os seus padrões, não deixou o faro de gol na Arábia.

***
As avaliações a seguir têm um certo exagero, galhofa e quase nenhuma base técnica. É favor não levar tão a sério.

Diogo Costa: podia ter aproveitado a noite para assar umas castanhas ou defumar um chouriço. Ou então gritar para alguns cabrões pararem de errar passes no campo de defesa;
António Silva: está até mais fortinho, o gajo. Ouvi dizer que ganhou oito quilos de músculos. Só falta jogar sem essa cara de criança para poder assustar os contrários. Podia pedir umas dicas ao Pepe;
Pepe: quando não anda às cacetadas, é um monumento de jogador, mesmo jogando com medo de se machucar. Nessa idade é difícil, eu sei (Danilo Pereira: espero que essas atuações bisonhas sejam para que o mister ocupe a cabeça com problemas mais difíceis de resolver, como o Rafael Leão aprender a passar a bola ou o Gonçalo Inácio não atravessar a bola na frente da própria área quando por lá estiverem alguns gajos com camisolas diferentes das dele);
Gonçalo Inácio: uma ou outra rateada na primeira parte. Impecável na segunda, quando os irlandeses pararam de atacar;
Diogo Dalot: nota-se a alegria de quem não precisará voltar para Manchester nos próximos dias. Que isso ajude a esticar a estada na Alemanha até o dia 14 do mês que vem (Nelson Semedo: até lembra aquele gajo que apareceu no Benfica e depois não jogou em sótio nenhum. Qual era o nome mesmo? Nelson? Isso, esse mesmo);
João Neves: querido João, faça o favor de não mostrar este futebol soberbo na Eurocopa, ou acontecerá a ti o que ocorreu ao Renato Sanches. Não, não falo da carreira deitada fora pelas lesões, e sim de uma transferência que faria o Benfica gastar todo o dinheiro com jogadores que não precisa (Matheus Nunes: entrou para desenferrujar um bocadinho a mais, já que o Guardiola usa pouco);
Bruno Fernandes: o gajo não joga mal nem se tentar; 
João Félix: ora veja! Um grande jogo do Joãozinho! Como todos em que não era preciso ajudar na marcação. Pena que na Euro não haverá partidas assim a partir dos oitavos (Rúben Neves: disseram que não deveria ser convocado por jogar contra camelos mancos. Ele, com o orgulho de quem foi o capitão mais jovem da história do Porto, resolveu mostrar que também pode jogar contra irlandeses, o que é praticamente a mesma coisa);
João Cancelo: quando estiveres à esquerda, cochiche ao Rafael Leão que é aconselhável olhar para onde quer meter a bola antes de tentar fazê-lo (Nuno Mendes: mais um jogo em grande, mais um jogo sem sair lesionado. Como faz bem ficar longe dos preparadores físicos do PSG);
Cristiano Ronaldo: associativo e solidário. Nem parecia aquele gajo que deitou tudo a perder em 2022 porque Fernando Santos estragou seus planos de mostrar a língua ao Ten Hag. Viu como é possível jogar pela equipa e marcar golos?
Rafael Leão: é o Sandoval Quaresma português: faz tudo certinho até chegar ao momento do 10. Depois é o que se viu. Resolveria olhar antes de passar a bola (Diogo Jota: se vais convencer o mister que deves ser o titular, que sigas a fazer isso durante a competição).
Roberto Martinez: já que a versão avassaladora voltou das eliminatórias voltou, fica a pergunta: e nos jogos contra os que não são fraquinhos? Na Euro, para a primeira fase - e contra os ingleses -, o que temos visto, dá. 
 

terça-feira, 12 de março de 2019

Sobre Neymar, PSG e o desmazelo com a imagem

CRAQUE DA AVENIDA Neymar dá uma pausa na recuperação da lesão e
 curte o Carnaval no Brasil (Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Sempre que eu escrevo fazendo críticas ao Neymar, torço para que seja a última vez. Não por ele, nem me importo com isso e duvido que ele sequer suspeite da minha existência, mas faz mal à gente ficar às voltas com críticas, críticas e mais críticas, e fica a impressão de que quando o assunto é recorrente, é pessoal.

Não é.

O problema é que Neymar não se ajuda. Mal saiu – se é que saiu – da crise mais séria sobre a sua imagem por causa do desempenho patético na Copa do Mundo da Rússia, já se envolveu, deliberadamente, em uma nova leva de críticas porque resolveu largar a recuperação da nova lesão no dedinho para aproveitar o Carnaval no Brasil.


Aí o leitor poderá ponderar sobre a importância da ausência do mimadinho craque na nem tanto inacreditável eliminação de sua equipe na Liga dos Campeões, mesmo depois de vencer fora de casa por 2 a 0 e ser superada por um adversário desfalcado de 10 jogadores, entre eles Pogba, o principal nome do United.

Mas tem. E muita.

Neymar chegou a Paris para ser o líder, em campo e fora dele, do projeto de conquista da Europa pelo Paris Saint Germain, um time com alguma tradição doméstica, mas pequeno na Europa e com os cofres abarrotados a partir de uma negociata que envolveu políticos graúdos franceses, fundos de investimentos do Catar e compra de votos para a definição daquele país como sede para a Copa de 2022. E na semana mais importante da temporada, o craque-que-tem-tudo-e-não-é-cobrado-por-nada-em-Paris esteve ausente, o que faz com que o clube seja exatamente do tamanho que é tratado pela sua maior estrela.

Desde que chegou à França, Neymar desfalcou o PSG em 45 de 98 jogos do time (quase a metade das partidas, portanto). Em alguns destes compromissos, o camisa 10 não jogou porque teria sido poupado. É verdade que ficou de fora em boa parte graças às duas lesões mais sérias que sofreu, mas não há azar ou acaso nisso. A celebridade Neymar Jr não conversa com o atleta Neymar Jr e, sabe-se, tem uma vida social bastante agitada, o que não ajuda não só na recuperação física entre os jogos, como também atrapalha, e muito, o trabalho de prevenção de contusões.

Se quer ser levado a sério, o reizinho de Parc des Princes tem que se levar a sério. Precisa entender que sua vida extracampo atrapalha o rendimento dentro das quatro linhas. Precisa entender também que todas suas atitudes repercutem muito mais por causa de sua condição de ídolo, para o bem e para o mal. E precisa escolher entre ser responsável e assumir o ônus que seu status exige, se concentrando no que pode dar em troca dos milhões que recebe, ou aproveitar ainda na juventude tudo o que já amealhou, mas sem esperar por grandes resultados e, consequentemente, ver seu valor de mercado diminuir.

Os dois, não dá.

Mesmo considerando um absurdo imaginar a prima donna no mesmo patamar de Cristiano Ronaldo e Messi, cabem algumas comparações: Cristiano se machucou na final da Eurocopa e voltou ao gramado para apoiar seus companheiros, e Portugal bateu uma França, mais forte e jogando em casa. Neymar, que já havia ficado de fora do jogo de ida pelas oitavas da Champions, deixou seus colegas em Paris e pediu para seguir o tratamento da contusão no Brasil em um período que coincidiu com os festejos de Momo, sem se furtar a largar as muletas e pular, literalmente, o Carnaval.

Esta é somente uma das diferenças.

Messi é o melhor jogador do mundo, o mais dotado tecnicamente. Cristiano diminui a diferença entre eles ao trabalhar feito um louco para ser melhor a cada dia, e se adaptou a uma nova função em campo. O resultado é que, aos 34 anos, o português está longe do declínio físico e técnico esperado nesta faixa de idade. Neymar, que é mais talentoso que o astro lusitano e é sete anos mais jovem, ainda não chegou ao ponto em que a idade pesa e o rendimento cai. Só que a fatura chegará de acordo com o seu planejamento (ou falta de um). Aí restará o mercado brasileiro, que torra grana sem parcimônia alguma, ou algum campeonato endinheirado, como o árabe e o chinês.

Pouco para quem foi projetado para ser o melhor do mundo.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A pior face do ser humano

DESUMANO Vale tudo no futebol? (Getty Images)
“Ó vascaíno, por que estás tão triste? Mas o que foi que aconteceu? Foi o Dener que bateu na árvore, quebrou o pescoço e depois morreu” (elementos vestidos com a camisa do Flamengo cantaram para provocar a torcida do Vasco em virtude da morte do meia Dener, em 1994)

“Foi no Jamor  que o lagarto ardeu” (ultras imbecis da No Name Boys, torcida extremista e violenta do Benfica, entoam este grito sempre que Benfica e Sporting se enfrentam (em qualquer modalidade), em alusão à morte do torcedor Rui Mendes, atingido por um sinalizador (chamado de “very light“, em Portugal) na final da Taça de Portugal de 1996, no estádio do Vale do Jamor, em Lisboa).

“Ah, quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica” (vagabundos da Super Dragões, uniformizada do Porto, durante uma partida de handebol entre Porto e Benfica, em 2017)

“Não é mole não, você vai cair igual o Fernandão” (grito ouvido durante um Corinthians x Internacional de 2016 em referência ao acidente de helicóptero que vitimou o atacante Fernandão dois anos antes)

“Ão ão ão, abastece o avião” (torcida organizada do Criciúma, durante o jogo com a Chapecoense, pelo Campeonato Catarinense de 2017).

IMBECIS "Torcida" do Tigre que cantou sobre o avião
 da Chapecoense (Reprodução/Twitter)
O psicólogo e sociólogo francês Gustave Le Bon publicou em 1895 a tese da Psicologia das Multidões, segundo qual o contato com as pessoas traz influências pelo contágio, em que há influência no comportamento individual a partir de ações tomadas no grupo. As opiniões e crenças das multidões são propagadas por contágio e não pela razão. Este princípio é citado n’O Livro dos Insultos, de HL Mencken, no capítulo “A Turba”, que diz que, quando ombreados, homens descem um ou dois degraus intelectualmente dizendo e têm as mesmas reações mentais e intelectuais de pessoas inferiores nestes sentidos.
Menckens, brilhante jornalista americano do início do século XX, discorda. De acordo com ele, trata-se de uma rara oportunidade de exprimir sua verdadeira face em segurança. Isso foi escrito em 1918. Tendo a concordar com ele, Mencken. Hoje, as oportunidades de aglomeração de palermas dão-se todos os dias e de diversas formas. As mídias sociais são um exemplo disso, mas vamos nos ater às torcidas organizadas.

Comecei este texto citando cinco momentos infelizes, para dizer o mínimo, que ocorreram dentro de campos de futebol do Brasil e de praças esportivas portuguesas. Elas são mostras incontestes de como Mencken tinha razão ao associar o comportamento de massas com a verdadeira cara desta escumalha. 

Mostram o pior do ser humano, sua repugnância, ainda mais no ambiente do estádio de futebol, esse território sem lei onde os imbecis creem tudo poder.

Referência nacional nos estudos da violência no futebol, o sociólogo Maurício Murad, em entrevista ao site Goal Brasil, explica a sensação de impunidade e pleno poder que existe nas praças esportivas, e sua opinião vai ao encontro da teoria de Le Bon. “O futebol é um evento cultural muito forte das multidões e da paixão humana. A paixão e a multidão tudo acentuam. Então, a multidão tocada pela paixão é muito propícia a exageros, transgressões e ultrapassagem dos limites razoáveis da vida, da convivência humana. São minorias estúpidas, com um grau de irracionalidade, violência e ódio muito intensos e que pensam que o universo do futebol permite tudo; que em um estádio ou no meio da multidão você pode tudo que você não pode na, digamos, vida real”.

É um quadro desolador. Em 2014, no Derby Della Moli, torcedores da Juventus ironizaram a Tragédia de Superga (1949), quando 42 pessoas morreram, entre elas 18 jogadores do supertime do Torino (base da Squadra Azzurra que disputaria a Copa de 1950), quando o avião que trazia o Toro bateu na torre da catedral de Superga. Não é raro os rivais do Manchester United fazerem troça com o acidente que matou 23 pessoas em Munique, entre elas, integrantes da delegação do United.

Mas o que os atinge? A execração moral não os incomoda, uma vez que, entre os iguais, ganham projeção e respeito dentro da organização que se classifica como torcida organizada. Na verdade, são gangues que se aproveitam da conivência do poder público e dos próprios clubes para, como disse Murad, fazer tudo o que não poderia em outros lugares e ambientes fora do futebol. A ascensão da Barra Brava mais temida da Argentina deu-se dentro deste panorama, como conta La Doce – a Explosiva História da Torcida Organizada MaisTemida do Mundo, o excelente e indispensável livro do jornalista argentino Gustavo Grabia sobre a gangue organizada do Boca Juniors.


Esta é a pior face do ser humano. Fazer troça com tragédias desta natureza não é aceitável, não há exceção, seja pela morte de um ídolo, um adepto ou uma equipe inteira. Não se trata de um rebaixamento ou uma derrota vexatória. Há limites sim para a zoação, e o respeito da vida humana é um deles, se não o principal. A falta de discernimento e empatia é o primeiro passo para a barbárie e, daí, para a prova inequívoca de que a humanidade é uma experiência que não deu certo. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Que horas são?

IMPLACÁVEL Pequeno torcedor lamenta a perda de seus heróis
 na triste arquibancada da Arena Condá (Nelson Almeida/AFP)
 

Acordei com o choro da minha filha, que está com o ouvido inflamado. Fui lavar o rosto antes de pegar o antibiótico. No celular, notificações de mensagens chegaram. Uma, duas, 10, 50. Cinquenta? Depois eu vejo. Tenho que dar o remédio da pequena. Voltei, já eram mais de 150. De várias pessoas e grupos. Todos os de futebol. O que aconteceu?

Abri. Não, deve ser brincadeira. No outro, a mesma coisa. E no outro, no outro, em todos. “Você conhecia os jornalistas?” “Viram o que aconteceu com o avião da Chapecoense?” “Que tragédia!” É um pesadelo. É um engano. Ligo o rádio, a TV, vou ao Twitter. Não, não é um engano. É a equipe da Fox. Deus do céu! O Mario Sérgio estava no voo. Puta que pariu! É verdade mesmo. Procuro por informações. O Danilo também morreu? Não, foi dado como morto, mas está sendo operado. A Teleantioquia deu que ele faleceu. Não, a mãe deu entrevista garantindo que ele está vivo. A Caracol também diz que morreu. Está ou não está? A imprensa, que deveria informar, está perdida. Desinforma. Prestação de serviço que não presta. Desserviço.

Olho para o relógio, mas segundos depois não me lembro de que horas são. Preciso de um café. Está garoando, mas preciso respirar. Saio mesmo assim. O tempo passa lento, o dia passa arrastado, o ar é pesado, denso. Que horas são? Olho para o pulso, mas deixei o relógio em cima da mesa.

Na mente o jogo de domingo. Bruno Rangel, Gil, Ananias, Caio Júnior. Os nomes não param de girar em volta da minha cabeça. Olho o celular e as informações continuam confusas. Danilo. Sobreviveu? Não? E o Follmann? Ah, amputou uma perna. Ele morreu também. Espera! Não, não morreu. Cacete! Jornalismo de merda esse que não informa, que não checa. Que tem pressa. Precisa sair antes do outro. Mas tá errado, chefe! Tanto faz, depois arruma.

Busco outra vez pela tela do celular. Mais mensagens. Muitas. Viu que o Tiaguinho ficou sabendo esses dias que seria pai? Recebo o áudio do Mauro Beting. Mario Sérgio estava decidido a deixar a Fox pela voz embargada do ex-companheiro de tela e de luta. Porra, o Mário! Sinto cortar o coração.

Aparecem os caça-clicks. “Veja as fotos do acidente”. “Veja a galeria de pessoas que fizeram selfies segundos antes da morte”. Malditos! Procuro abstrair, mas não consigo. Olho em volta e tudo se move lentamente. A rua parece um grande cemitério em movimento. Sem cor. O cheiro é de dor. É de morte.

Recebo pelo celular a lista com os nomes dos passageiros. Vejo amigos de amigos. Gente que vi no domingo, pela TV. Que não via há tempos. Com quem não falava há mais de um ano. Resolvo ligar para confortar quem também perdeu amigos, esses mais próximos que eu. Quanta pretensão! É impossível, mas vou mesmo assim. Falo com um, dois, três. Produtores, repórteres, amigos. Não pergunto como estão. Seria estúpido e desnecessário.

Volto para casa e vejo as horas. De novo me esqueço, segundos depois. Viu que o seu Benfica quer emprestar jogadores? Que bacana! Solidariedade sem gesto concreto é como abraçar árvore. O PSG vai doar não sei quantos milhões. Sério? Não, é mentira. Quem será o vagabundo que fica plantando isso?

Homenagens. Tottenham, Real Madrid, De Gea, Messi, Figo, o mundo. Liverpool."You'll Never Walk Alone". O Torino e o Manchester United também. Eles também sabem o que é perder um time de uma vez, o que é ver heróis e sonhos se espatifando após um voo infeliz. Minuto de silêncio nos clubes. Coletivas canceladas. Treinos suspensos. O dia acontece não acontecendo. Não deveria acontecer. O Vasco anuncia o novo técnico. Idiotas!

O distintivo da Chape está em todo lugar. Em todos os clubes. Até o Corinthians veste verde hoje. A Portuguesa, quebrada e falida, oferece ajuda. É bonito. É triste. Vejo o menino sentado, sozinho, na arquibancada da Arena Condá. É triste. O Atlético Nacional abre mão da disputa da final e pede o reconhecimento do adversário campeão. Amigos choram. Busco o relógio outra vez. Mero costume, cacoete. Não sei que horas são, mas não importa. Parece que o mundo está subindo uma ladeira com todo seu peso nas costas. Pesado. Sofrido. Lento. Estúpido.

Percebo que não almocei. Que mal bebi água. Minha filha dorme. Olho pela janela e já está escuro.

Que horas são?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O motivo da escolha

*por Fábio Preccaro


Surpreendendo todos que acompanham o futebol europeu, o catalão Pep Guardiola acertou contrato de três temporadas, a se iniciar em julho de 2013, com o todo poderoso Bayern de Munique.
Essa surpresa ficou evidente após ele dizer que gostaria de trabalhar no futebol inglês e jornais da Terra da Rainha cravarem que ele seria o sonho de Roman Abramovich, mandatário do Chelsea, para suceder o ‘tapa buraco’ Rafa Benítez. Os periódicos também diziam que Roberto Mancini balançava no cargo após a eliminação precoce do Manchester City na UEFA Champions League e que Sir Alex Ferguson pensava em aposentadoria do cargo de manager do Manchester United.
Em um primeiro momento, o que podemos TENTAR analisar, por pura especulação, é que Guardiola fugiu de clubes cujo seus mandatários sejam obcecados por resultados positivos e (alguns) brincam de Football Manager: a Inter de Massimo Moratti, o Milan de Silvio Berlusconi e o PSG de Nasser Al-Khelaïfi, além dos times ingleses já citados. A pressão exercida por estes presidentes é imensa, e isso ele não teve no Barcelona e não terá na Baviera.
A Bundesliga é hoje o torneio de melhor média de público (45 mil pagantes) e com taxa de ocupação nos estádios que rondam os 95%. Além disso, o Bayern é disparado o maior vencedor do torneio, com 22 títulos, e sempre é apontado como favorito para levantar a Salva de Prata.
Segundo o comentarista Gerd Wenzel, da ESPN. o clube bávaro tem ‘escolinha de base’, tipo La Masia, onde insere sua filosofia de jogo aos garotos das categorias inferiores. Isso tem dado resultado, já que o atual elenco comandado por Jupp Heynckes conta com seis atletas formados no clube que atuam com regularidade ou são titulares absolutos: Lahm, Badstuber, Alaba, Schweinsteiger, Kroos e Muller.
Junte essa qualidade em formar atletas com o grande poderio financeiro, e teremos um grupo repleto de jogadores de extrema categoria: Neuer, Dante, Boateng, Ribéry, Javi Martínez, Robben, Shaqiri, Luiz Gustavo e Mario Gomez.
Todos estes atletas formam um time de velocidade na saída de bola, que explora bastante as laterais do campo e com qualidade em cadenciar o jogo no meio campo. Quando se defende, o time fica compacto, com os jogadores recompondo de forma rápida e diminuindo o especo do adversário. Talvez não veremos um Barcelona, mas com certeza será um dos maiores times do planeta. Um time que será lembrado por muitos e muitos anos, como os Galáticos do Real Madrid e os Pupilos de Sir Alex Ferguson.
Especialista no futebol alemão, Wenzel também percebeu que o Bayern de Munique é comandado por três ex-jogadores que já venceram a Liga dos Campeões pelo clube na década de 1970**(o presidente Uli Hoeness, o presidente de honra Franz Beckenbauer, com três conquistas, e o diretor executivo Karl-Heinz Rummenigge, com "apenas" dois troféus).
De tabela, Rafa Benítez acabou por perder sua maior sombra para o comando técnico do Chelsea. Essa função, acredito, caberá ao português José Mourinho, ídolo dos Blues.
**1973/1974, 1974/1975 e 1975/1976
* Fábio Preccaro tem 22 anos, estudante de Jornalismo, é fá do futebol do Velho Continente, dos Raimundos, do Bad Religion e da Luiza.

domingo, 2 de setembro de 2012

De segunda mão

* por Douglas Sato

Os clubes brasileiros, há muito, não conseguem segurar seus grandes jogadores, que são levados para os grandes polos do futebol: Europa, Ásia, Oriente Médio, a peso de ouro e, certamente, ganhando rios de dinheiro, além de vários anos de contrato.

Em contrapartida, os grandes do cenários nacional passaram a importar atletas já em final de carreira e de contrato. Por este fator, entramos numa via inversa. Existem atletas que, como se tem visto, já não possuem mais condições de atuar nos dois tempos. Iniciam o jogo e saem no período final, ou vice-versa. São como  aquele celular ou outro eletrônico qualquer que chega no Brasil um ano depois do lançamento, já obsoleto. Esses jogadores, pela idade, já não estavam mais rendendo nos clubes onde atuaram e ganharam prestigio. Neste caso, alguns foram até dispensados para dar lugar aos mais jovens.

Agora, se olharmos no elenco dos grandes clubes, podemos ver que o nosso futebol está importando demais e muitas vezes de forma errada. Vejamos Diego Forlán, do Internacioanl. Filho de Pablo Forlán, ex-lateral do São Paulo, Forlán chegou à Inter de Milão credenciado pela ótima exibição na Copa de 2010, quando não só se destacou pela seleção uruguaia como foi escolhido o melhor jogador da Copa. Apesar da expectativa, o veterano de 33 de anos não conseguiu se estabelecer no clube italiano.




E agora eu pergunto. Se na Inter de Milão, com todos os grandes nomes que possui no elenco, o uruguaio não conseguiu se estabelecer, porque aqui seria diferente? Em 2002, o atacante acertou sua ida para o Manchester United, onde jogou ao lado de grandes craque como Barthez, Giggs, Beckham, Scholes, dentre outros. Mas não conseguiu emplacar nos Red Devils.

Então, deixou a Inglaterra, mas, sem sair da Europa, mudou-se para o Villareal. Sem brilhantismo, mas com números ao seu favor, ascendeu para o Atlético de Madrid, e ai sim, desencantou. Porém, os altos e baixos na carreira do atleta não o qualificam para o investimento do Internacional. Ao todo, foram sete partidas como titular e nenhum gol marcado, fora as grandes chances perdidas pelo uruguaio.

No Botafogo, temos outra situação parecida. A maior contratação de um estrangeiro feita por um clube  brasileiro. Único a conquistar a Liga dos Campeões por três clubes diferentes, bicampeão do mundo, campeão espanhol, holandês e italiano, entre outras inúmeras conquistas coletivas e individuais. Não vingou. Ao contrário, em inúmeras vezes, o atleta acaba atuando só com o nome.

Sei das qualidades de Seerdorf, e não são poucas. Mas creio que o médio deveria ser mais humilde consigo mesmo. Em várias partidas pelo clube de General Severiano o atleta vem precisando de um par de pulmões a mais. Ele ainda está no calendário Europeu, precisa melhorar sua condição física e recuperar seu ritmo de jogo.


Por fim, e infelizmente, só nos resta ver e tentar gostar daquilo que nos oferecem e, paralelamente, torcer pelos ídolos que vão atuar no exterior. Lá, sim, o IPhone é de primeira mão.

* Douglas Sato tem 23 anos, é músico e estudante de Jornalismo 
(nesta ordem) e, nas horas vagas, é imitado pela dupla Cesar Menotti e Fabiano.

sábado, 28 de maio de 2011

Indiscutível



Hoje o Barcelona foi campeão europeu de clubes. Nada mais previsível, apesar de o adversário ser o grande Manchester, do grande Sir Alex Ferguson. Previsível também foi a partidaça que o genial Messi fez. O pequeno notável foi um monstro, de novo.
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Se alguém ainda tinha dúvidas do que a equipe azul-e-grená é capaz de fazer, essas esvairam-se em Wembley. Exceto pelo início do jogo, quando o United adiantou a marcação e sufocou a saída de bola do sistema defensivo catalão, só deu a equipa (brilhantemente) dirigida pelo Pep Guardiola. Mesmo quando Rooney marcou o tento de empate, o time espanhol não mudou em uma vírgula o estilo de jogo. O placar foi 3 a 1 para o Barcelona, mas é apenas um detalhe, pois se fosse 4 ou 5 não seria exagero algum.
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Há quem use os números para definir o tamanho do domínio do Barcelona, com tanto porcento de posse de bola ou tantos chutes a gol, mas os números são frios. A diferença que eu vi no lendário estádio inglês mais parecia um Diplomatão 4.1 (isso que é carro) num racha contra um Corsinha 1.0 (este é o meu carro). O jogo flui nos pés pensantes barcelonistas, seja com Messi, Pedro, Iniesta, Daniel Alves, Xavi... Aliás, se o gênio argentino é o solista do violino na orquestra blaugrana, o maestro é o camisola de número 6.
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Mesmo que não concorde com este escriba, meu caro leitor, fique feliz. Afinal, somos privilegiados, pois assim como os que viram o Santos de Pelé, o Benfica de Eusébio, o Ajax de Cruyff ou o Real Madrid de Puskas e Di Stéfano, somos testemunhas de um time que está fezendo história. Só falta saber o degrau que ocupará.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Um enigma chamado Ronaldinho Gaúcho e a Copa 2010

* por Humberto Pereira da Silva

Ontem vi Milan e Manchester United, pela Copa dos Campeões. A presença de Ronadinho foi aguardada, depois de boa atuação na rodada de final de semana do italiano, na vitória do Milan sobre a Udinese. Os primeiros dez minutos do jogo foram para quem guarda na lembrança as atuações de Ronaldinho nos tempos de Barcelona, quando foi eleito duas vezes melhor do mundo e, para gente como Tostão, estaria abaixo de Pelé, mas acima de Maradona. Choveram perguntas dos torcedores sobre o ausência de Ronaldinho na lista de Dunga para o próximo amistoso da seleção. O comentarista da ESPN, Paulo Vinícius Coelho, encantado, fez comentários como: "em nível de genialidade pura, não tem como não levar Ronaldinho para a Copa". Para o PVC, se arrebentar na Copa dos Campeões, Dunga não suportaria a pressão e teria de levar Ronaldinho para a Copa.

Passados os dez minutos iniciais, o Manchester foi aos poucos tomando as rédeas da partida. Começou perdendo, gol de Ronaldinho aos 3 minutos, no segundo tempo virou para 3 a 1 e colocou o Milan em situação difícil na Copa dos Campeões. Nessa altura do jogo, Ronaldinho Gaúcho tinha sua atuação posta em xeque por torcedores com seus e-mails para a ESPN e pelo próprio Paulo Vinícius Coelho. Faltando menos de dez minutos para terminar o jogo, Ronaldinho dá um passe milimétrico para Seedorf marcar o segundo gol do Milan; dois ou três minutos depois, um novo passe genial para Inzagui, mas o atacante perdeu o gol e o Milan saiu derrotado por 3 a 2.

Há uma frase do PVC que merece refleção: "Ronaldinho em estado puro de genialidade". Parece que PVC, sem querer, ou com uma frase expontânea, disse muito mais do que imagina sobre Ronaldinho Gaúcho. Como, afinal, entender o significado de "estado puro de genialidade"? Nessa mesma Copa dos Campeões, vi em Madrid a partida entre Milan e Real Madrid. Ronaldinho está no meio do campo, a bola chega na direção de seu peito e, aquilo que PVC, talvez, chame de "genialidade pura": a bola cola no peito de Ronaldinho, que está entre três marcadores madrilenhos. Os três ficam como bobos tentando em vão encontrar uma bola que apenas a Ronaldinho pertence. A humilhação é mitigada com uma entrada dura de um dos madrilenhos.

Pois é, no meio de campo, numa jogada isolada, talvez sem muitas consequências para o jogo, Ronaldinho faz aquilo que apenas os gênios fizeram. Como futebol é alimentado por paixões, na paixão não há como dizer que Tostão estaria enganado. E, de fato, é esse ingrediente de paixão que alimenta muito do que se fala sobre o futebol de Ronaldinho Gaúcho. Mas voltemos ao jogo de ontem. O Milan perdeu em Milão e corre grande risco de  fazer seu último jogo na Copa dos Campeões em Manchester. Ronaldinho, portanto, teria só mais um jogo para provar que merece ser convocado para a Copa de 2010.

Estranha - no fundo misteriosa - ironia pela qual passa um jogador genial: futebol, um esporte coletivo, e um jogador, individualmente, participa de uma partida como se ele fosse a partida. Não é que ele tem que provar, é que no eventual insucesso do Milan em Manchester, e Ronaldinho será o "perdedor". A estranha ou misteriosa pergunta, é: por que quem faz o que Ronaldinho faz com a bola tem que provar alguma coisa sobre sua genialidade em estado puro? Seria culpa de Ronaldinho a desatenção da defesa do Milan, que não marcou como deveria o Rooney? Seus três ou quatro lances geniais não propiciariam uma vitória do Milan por dois ou três gols, que praticamente garantiria a ida dos milaneses para a próxima fase da Copa dos Campeões? Numa Copa do Mundo, duas ou três jogadas geniais não são suficientes? Não foi isso que Zidane fez em 98?

É, mais é isso que os aficcionados por Ronaldinho precisam ser sempre lembrados, inclusive PVC, de boa memória. A primeira competição em que se esperava os lances de pura genialidade de Ronaldinho Gaúcho foi a Copa das Confederações de 99: artilheiro e eleito melhor jogador do torneio, essa genialidade não apareceu na final, como agradeceram os mexicanos. A mais recente competição para Ronaldinho Gaúcho desfilar sua genialidade, sem que se precise de memória de PVC, foi em Pequim, na Olimpíada passada. O cume, como bem sabemos todos, foi a Copa de 2006. E é nesse ponto que o mistério Ronaldinho fica realmente engimaticamente misterioso. Por que sua genialidade em estado puro não aparece quando dele não se espera senão genialidade?

Dunga parece ser bem mais racional e disciplinador que movido por paixões. Quer novamente desmentir os que nele não acreditam e, como técnico, falar o que falou em 94, campeão do mundo: "Esse título é pras vocês, seus traíras". Acho, imagino, que Dunga é suficientemente lúcido para saber que o caminho mais curto para jogar na cara de seus desafetos suas virtudes é contar numa Copa do Mundo com um jogador genial. Pragmático, Dunga quer ver em campo jogador de futebol e não ficar com historinhas sobre festinhas em Milão ou não. Mas, justamente por ser disciplinador e pragmático, Dunga que contar com um jogador genial e não com uma promessa ou quem na hora H não foi o que se esperava.

O enigma Ronaldinho parece ter sido bem expresso na frase meio espontânea de PVC: "Ronaldinho em estado puro de genialidade". Na frase de PVC se subentende que há um Ronaldinho que em certos momentos é genial; mais, embora PVC não tenha deixado explícito, não vamos pensar que a genialidade de Ronaldinho ocorra quando esperamos que ocorra; na frase de PVC há uma torcida, um apelo às paixões, para que essa genialidade em estado puro ocorra em plena Copa do Mundo. Mesmo que não tenha ocorrido em outros momentos em que a esperávamos, não vamos perder a fé. Para um gênio, os caminhos não são os dos reles mortais e Ronaldinho pode fazer da Copa de 2010 o momento para eternizar seu nome na galeria dos imortais.

Essa é a torcida embutida na frase de PVC; essa também é minha torcida. Mas Dunga é pragmático, disciplinador, racional e não quer repetir 2006, quando sob pressão Parreira levou Ronaldo sem condições físicas. Dunga não quer levar Ronaldinho sob pressão. Mais, racionalmente, ou estatisticamente, Dunga sabe do risco que é levar Ronaldinho, que jamais mostrou genialidade em estado puro na seleção (um ou outro lampejo no meio de campo, para não exagerar). PVC percebeu bem o enigma Ronaldinho, mas sua percepção só pode ser levada em conta quando se considera que ele expressa uma grande dose de paixão, uma torcida para ver na Copa um "Ronaldinho em estado puro..." PVC também organiza seus comentários com tabelas, estatísticas, dados de memória. Levasse ao pé da letra sua frase, teria a mesma posição de Dunga: é arriscado levar Ronaldinho Gaúcho para a Copa 2010.

Eu sou um torcedor, só um torcedor, e por isso torço para ver Ronaldinho Gaúcho na Copa. Assim torci para ver Ronaldo em 2006, Romário em 98...; se a genialidade aparecer, como muitos experimentarei a história e contarei aos meus netos que vi um gênio desfilar pelos campos sulafricanos; se não aparecer, esse é um problema que o Dunga terá de explicar, que os comentaristas esportivos terão de explicar: ora, que significa "genialidade em estado puro"? Lampejos? Ronaldinho é um gênio. Alguém em que todos olhem e digam que ficarão para a história por terem estado ao seu lado ou terem-no por adversário? Até hoje esse gênio não responde na seleção brasileira pelo nome de Ronaldo de Assis Moreira.

*Humberto Pereira da Silva, 46 anos, é professor
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Nada como um fim-de-semana gordo

Nesse fim-de-semana gordo, esportivamente dizendo, eu estava chato. Principalmente sábado. Sabe aquele dia em que se puder, você sequer sai da cama? Pois é, era um dia daqueles.

Tempo encoberto, Lewis Hamilton cravando a poli-position na Fórmula 1, campeonato português sem rodada, início de horário de verão (não estamos na primavera?), um tédio só! Enfim, um dia daqueles! Pra não falar que nada se aproveitaria do sábado, tinha um churrasquinho pra ir à noite. Mas à noite, choveu, e muito...

Mas como tudo na vida tem remédio, o sábado chegou ao fim. Após assistir com minha esposa a um filmaço na madrugada, acertei o despertador pra poder acordar às 5 horas, pois queria “secar” o Hamilton.

Pois bem, acordei às 6:45, e só vi a festa do inglês, já no pódio. Pelo visto o domingo seria “tão bom” quanto o dia anterior. E o pior é que a Lusa ainda jogaria com o Grêmio, o líder do campeonato, e sabe como é, né? Como dizem os espanhóis, “lo que empéza mal...”

Nem fiz questão de assistir à final do Mundial de futsal, mas me disseram que Brasil e Espanha fizeram um jogo contra-indicado para cardíacos, até as últimas conseqüências, ou melhor, disputa de tiros-livres, e o Brasil levou a melhor.

Na hora do almoço assisti maravilhado ao banho de bola que o Manchester United deu no West Bromwich, pelo Campeonato Inglês. Que maravilha! Sem contar que o público foi de 75 mil pessoas, na oitava rodada. Raro um clássico que atraia tanta gente no Brasil atual.

Era um sinal de que o domingo poderia ser bom. Tinha “Choquei-Rei” no Morumbi, e o clima antes do jogo já estava carregado por conta das declarações de ambos os lados, principalmente por parte do presidente são-paulino, Juvenal Juvêncio, useiro e vezeiro em criar factóides antes de jogos dessa envergadura. Ou seja, prenúncio de um jogão.

E foi mesmo! Teve tudo que um clássico de verdade deve ter: rivalidade, lances ríspidos, expulsões, gols e polêmica, muita polêmica. No fim o empate traduziu muito bem o que foi o jogo. Mas faltava o prato principal: o jogo da Lusa! E que jogo! Fazia tempo que a Portuguesa não jogava com tanta frieza e inteligência. Torcida cantando o tempo todo, futebol raçudo, vistoso... Teve maior volume de jogo, mais tranqüilidade e paciência para esperar o momento certo para “dar o bote”, sem deixar possibilidades para o líder.

Enfim, um desfecho perfeito para um fim-de-semana gordo.