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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

PORTUGAL - Foi bonito e é só o começo



Acordar pouco antes das 4h, a tempo de apanhar a execução de "A Portuguesa", para ver Portugal x Estados Unidos, valeu a pena. Valeu cada segundo, cada pormenor de Jéssica Silva, cada defesa de Inês Pereira, cada balé de Kika Nazareth, esse monumento de jogadora, cada movimento para abrir caminhos de Andreia Norton, cada "cá mando eu" da dona do meio-campo, a Dolores Silva. Valeu pelos pulmões petrificados quando os pés de Ana Capeta nos fizeram sonhar, mas o poste resolveu contrariar. Teria valido a pena também se tivéssemos tomado a surra que o mundo imaginava quando os grupos foram sorteados e calhou a Portugal as campeãs e as vice-campeãs em título, pois é parte do processo.

A história está escrita e o futuro das Navegadoras é risonho, mas para isso será preciso mais do que viver do talento de jogadoras maravilhosas, intensas, talhadas à Portugal. Por elas, por quem virá depois delas e terá nelas as referências. E pelo legado daquelas que lutaram quando nem havia uma competição regular entre mulheres no país.

Que invistam na formação e no profissionalismo do futebol feminino. Que clubes como o FC Porto tenham equipas de mulheres desde a formação, mesmo que seja na marra. 

Como foi bom sonhar. A viagem não acabou, está apenas começando.

Obrigado, Portugal!

quinta-feira, 27 de julho de 2023

PORTUGAL - Heroínas do mar


A história está a ser feita. As Navegadoras venceram pela primeira vez na história da Copa do Mundo de futebol feminino. E quis o destino que fosse na mesma Hamilton, onde superou Camarões para ter o direito de viver o sonho. 
É a vitória de quem sonha, de quem acredita, de quem trabalha, tem apoio e uma estrutura para transformar sonhos em feitos. 

Tudo bem, a adversária era mansinha e mostrou as garras no início do jogo para assustar, mas o fato é que, exceto pelo final da primeira parte, quando o Vietnã conseguiu sair das cordas e causar algum embaraço, a bola rolou à portuguesa, com todas as virtudes e os defeitos do jeito português de ser.

O talento da craque Kika Nazareth - que mulher maravilhosa!; a classe e a fineza de Jéssica Silva, a quem o futebol deve ao menos um golo nesta Copa; as virtudes de Telma Encarnação, que mostrou na estreia que era possível olhar nos olhos das maiores, e a quem coube a honra de marcar o primeiro. E Lúcia Alves. E Andreia Jacinto. E Joana Marchão. E toda a malta.

O 2-0, tímido para o tanto que foi criado, poderia ter sido 5 ou 6, não fosse a precipitação no momento de prosseguir com a jogada. Faz parte do processo. O tempo trará a maturidade que permite tomar as melhores decisões. 

Temos pela frente os Estados Unidos, que é o Brasil do futebol feminino, e provavelmente só a vitória contra a camisa mais pesada do mundo servirá para seguir. Temos a certeza de que a viagem está a ser bonita, mesmo não sabendo onde vai dar. Para além da dor já passamos e o abismo está logo à frente, mas o espelho do céu também.

Vamos, Portugal! Sobre a terra, sobre o mar, sobre a relva. É sobre sonhar. É sobre ser português.

domingo, 23 de julho de 2023

PORTUGAL - A História está escrita por elas

Portugal fez sua estreia em mundiais. Uma história que começou há quase meio século, foi interrompida - porque, "afinal, jogar à bola não é para raparigas - e agora é levada a sério. Pode mais.

Como mostrou poder frente às vice-campeãs do mundo. As comandadas de Francisco Neto não abdicaram do jogar à portuguesa, buscando a construção de jogo desde as centrais. Pensando neste jogo, pode ter sido um erro, pois Portugal nunca conseguiu superar a frescura e a superioridade física das neerlandesas, sempre a recuperar a posse de bola ainda na sua metade ofensiva. Pensando em longo prazo, mais do que construir jogadas, as portuguesas estavam a construir uma identidade. Saber o caminho é a melhor forma quando se quer chegar a algum lugar.

Talvez o maior erro do selecionador português tenha sido sobrecarregar os pés mais finos entre as que não vestiram laranja, os de Andreia Norton, o que acabou por fazer que a espetacular Jéssica Silva tivesse que se virar sozinha durante boa parte do tempo. Jogar sem Kika Nazareth ou Telma Encarnação desde o início também não se mostrou uma decisão muito feliz, pois não havia quem incomodasse as centrais contrárias, que sempre jogaram compactadas e em vantagem numérica onde quer que a bola estivesse.

Claro que, além disso, o nervosismo das debutantes deixou tudo mais difícil.

Na segunda parte, mais à vontade ante a grandeza do palco, já com as neerlandesas a marcar mais perto do meio-campo, Portugal pode mostrar um pouco do que é capaz. Trocas de passes, velocidade, Jéssica Silva. O empate não era mau, embora a turma que mais fez por merecer a vitória tenha sido quem realmente venceu.

Para quinta, no mesmo horário, haverá mais. E será mais um passo em busca do crescimento. O resultado, para já, é o que menos importa. Que desfrutem o caminho.

Na imagem, a emoção de Jéssica Silva mostra o que representa estar no Mundial para quem, há meio século, nem poderia jogar.