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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A noite em que o Benfica jogou sua história no lixo

Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP

"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente o ocorrido na partida contra o Real Madrid, no Estádio da Luz, pela segunda fase da Champions League. Confiamos no nosso atleta e temos certeza de que tudo será esclarecido da melhor forma, e o Clube coloca-se à disposição das autoridades para a elucidação dos fatos. Respeitamos a trajetória do atleta Vinicius Jr e reconhecemos sua luta contra o racismo, bandeira que também nos orgulhamos de empunhar nos nossos quase 122 anos de existência. O Benfica é para todos e combate todo e qualquer tipo de preconceito".

Este, ou algo nessa linha, deveria ser o posicionamento do Benfica após os incidentes envolvendo o argentino Prestianni e o brasileiro Vini Jr, atacante do Real Madrid, que acusa o meia encarnado de racismo. Em vez disso, para defender o suposto agressor, desqualificou a denúncia. Mesmo que o acusado vista sua camisa, o clube não pode sob hipótese alguma colocar o rótulo de caluniador na suposta vítima.

Como desgraça pouca é bobagem, o técnico José Mourinho, a quem não se deve cobrar um posicionamento além do que se esperava que a instituição adotasse - não é com pescoço alheio que se exige justiça -, responsabilizou o brasileiro, apontando-lhe o dedo pela forma como comemorou seu gol, como se o próprio Mou não tivesse feito o mesmo reiteradamente em partidas escaldantes.  

Eusébio é o maior jogador que já vestiu a camisa do Benfica. Coluna, o grande capitão, a quem o King tratava por "senhor", é o segundo maior a trazer a águia ao peito. Outro capitão incontornável, Luisão, é o jogador que mais vezes foi campeão pela parte vermelha da Segunda Circular.

Os três, negros. Negros como Anísio Cabral, o novo menino bonito da Luz. Como Renato Sanches, Eliseu, Aldair, Mozer, Valdo, Mantorras e tantos outros. 

O time do Eusébio não tem o direito de escolher o suposto racista; o time do Coluna não pode tratar o tema como algo inexistente ou parte de uma campanha difamatória contra si ou um dos seus - a troco de que mesmo? 

É bom deixar claro que o argentino tem direito à presunção de inocência. Da mesma forma, Vini Jr tem direito de ser tratado com dignidade, em vez de ser desumanizado, como acontece dia após dia no vizinho de península. Ele é chato, provocador, por vezes desrespeitador, mas nada justifica o racismo.

Nada justifica o racismo.

Prestianni tapou a boca. Muitos o fazem. Vini também o fez quando foi falar com Otamendi, capitão encarnado. Mas este não é o ponto. O clube português com mais adeptos nas ex-colônias portuguesas, cujos maiores ídolos são negros, escolheu um lado - e não foi o supostamente ofendido.

Eu, benfiquista como meu pai, estou envergonhado.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pílulas amadoras -12

*por Humberto Pereira da Silva

 (Foto: Mateo Villalba / Getty Images)

Real Madrid e Bayern de Munique fizeram uma segunda partida da Champions no Santiago Bernabeu cercada de enorme expectativa. No jargão boleiro, duas das mais pesadas camisas do mundo definindo uma das vagas à final, tendo empatado na Alemanha por 2 a 2 o primeiro jogo. Duelo eletrizante, o Real, como só o Real faz, perdia em casa por 1 a 0, mas virou a partir dos 43 minutos do segundo tempo. Mas, no último lance de um embate em altíssima temperatura, teria havido o gol de empate do Bayern e a consequente prorrogação.

Teria, mas não! O bandeirinha ergueu a bandeira. E antes da conclusão da jogada, o árbitro apitou. A marcação: impedimento do jogador do Bayern. Em casos assim, seguindo o protocolo, o VAR não é, nem pode, ser solicitado. As imagens de TV, de qualquer forma, sem as tais linhas traçadas, deixam todas as dúvidas possíveis. O correto seria deixar a jogada seguir e o VAR depois diria se por "milímetros" houve ou não impedimento.

Alguns até serenos diriam: a arbitragem mais uma vez a favor do Real; outros mais coléricos esbravejariam: o Real sempre ganha roubando. É, mas na mesma partida o VAR anulou um gol do madridista Joselu: o lance seguiu até o fim e foi corrigido com o auxílio da tecnologia. Ora pois.

Mais. Com toda tensão do final, perdendo como perderam, ouvi de Hummels e Müller o lamento pelo "erro de arbitragem". Os dois, ao mesmo tempo, exaltaram o triunfo do Real. Descontentes, claro, que uma partida tão intensa tenha sido decidida num "erro".

A questão para mim é que os bávaros, sem dizer, sabem que tinham a partida nas mãos. Sabem que falharam nos momentos finais. Não transferiram a culpa pela derrota ao "erro de arbitragem". Essa mentalidade é a maneira de lidar com as infindas contingências em uma partida de futebol. Erros, falhas, são lamentados. Mas tão somente lamentados. 

No Brasil, contudo, não há a mais remotíssima possibilidade de um pênalti, marcado ou não, não gerar toda sorte de discussões, acusações, ofensas, agressões.  É como se a marcação, ou não, fosse decidida a bala. Com a imprensa esportiva pondo óleo quente na fervura, praticamente não há partida de futebol no Brasil sem confusão quanto a uma ou outra marcação. 

A coisa não só vai mudar como tende a piorar. Imprensa, torcedores, dirigentes, técnicos e, com menos intensidade, jogadores, atiçam o fogo que queima a lenha. Não vai mudar o resultado, mas gera um clima que faz valer o jargão boleiro: ganhar no grito. Um "investimento para decisões futuras", segundo o editor deste blog, meu aluno Marcos Teixeira.

Paulo Nobre, ex-presidente do Palmeiras, usou a expressão "mão grande" para se referir a favorecimento ao Flamengo. No fim, o Palmeiras acabou campeão brasileiro de 2016. Ano passado, o auxiliar de Abel Ferreira, João Martins, novamente mencionou complô para que o Palmeiras não conquistasse o bi brasileiro. Ao fim...

Ironias da vida e da lembrança. Em partida do segundo turno no ano passado, entre Flamengo e Palmeiras, que terminou empatada, o Flamengo reclamou de pênalti não marcado em Everton Ribeiro. Nesse "jogo de seis pontos" a marcação poderia, poderia, inverter o título. 

Ocorre que esse mesmo Flamengo que hoje nas primeiras rodadas do Brasileiro reclama de arbitragem faz o que o Palmeiras fez: insinuar favorecimento aqui e ali. Esse mesmo Flamengo que foi campeão brasileiro em 2020 "favorecido" pela arbitragem.

Onde quero chegar? O frequente e insensato clima de acusação às arbitragens começam a macular os títulos. O título do Palmeiras no ano passado depois da insinuação de complô para que não ganhasse mostra o quê? Que erros ao meu favor são do jogo e contra mim são premeditados? John Textor, dono do Botafogo, apelou para a inteligência artificial para insinuar que o Palmeiras foi beneficiado, mas não falou nada sobre a campanha de rebaixado que seu time cumpriu no segundo turno.

Para mim, que é preciso ter princípios morais. Dirigentes e técnicos ao se manifestarem como se manifestam são despidos de qualquer "sentimento moral". Não vejo problema algum em afirmar que não se diferenciam da malta. Dão enorme contribuição para que o futebol brasileiro, além da CBF e outras mumunhas, mais logo se iguale ao mundo da contravenção, do crime, do gangsterismo.

Ah, recentemente na volta para casa, jogadores do Fortaleza foram atacados em emboscada. Não houve mortos. É isso.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

BENFICA - a noite das vergonhas europeias



Prostrado. Humilhado. Vergado. Não faltam adjetivos para descrever a terrível prestação benfiquista nesta edição da Liga dos Campeões, mas poucas vezes se viu em campo uma equipa tão vulgar, indigente. Ainda mais considerando que este espantalho em forma de time de futebol - ou seria o contrário? - carrega no peito três estrelas, cada qual para uma dezena de títulos nacionais, e a reputação histórica de ser bicampeã europeia, além de outras finais disputadas antanho.

Lá se vai muito tempo, sei, desde que a maldição de Béla Guttmann caiu sobre a cabeça dos avaros dirigentes encarnados, mas nada faria supor que depois da magnífica demonstração de como jogar futebol vista na temporada passada, um rascunho formado por 11 jogadores estaria a vestir a mesma camisola.

A noite no Anoeta foi de estarrecer, de petrificar, de fazer corar de vergonha o mais pessimista dos portugueses. E olhe que falo de uma característica praticamente inata ao povo português, ainda mais quando há do outro lado 11 gajos a representar o futebol espanhol e uma bola no meio. 

A Bola, maior jornal da Terrinha dedicado ao chamado desporto rei, fez uma compilação do que os jornais da Espanha disseram. A ver:

As:
"O Benfica, um brilhante bicampeão europeu, ajoelhou-se diante de uma Real Sociedad avassaladora, o que lhe deu uma lição histórica. Um banho frente a um rival que nada disse (...) O volume do seu futebol foi tão grande que rompeu os tímpanos dos lisboetas. Do aquecimento até o último apagão, foi um turbilhão que marca a época"

"Defensivamente, a equipa vermelha nem sabia para onde se virar. O Benfica ficou mumificado, era um fóssil, a agonia levou-o para uma caverna do horror. Para isso contribuiu o seu treinador, que colocou Neves na lateral, algo para o qual não está preparado, e deu a Barrenetxea uma pista para brilhar. Um cervo a dormir a sesta era mais assustador do que essas águias comidas por traças. (…) Neves foi um espectador na primeira fila. O que fazia ali o pobre rapaz?"

Sport:
"Exibição, banho, 'masterclass' de futebol, inúmeras qualificativos que demoraríamos mais tempo a procurar do que o Real levou para vencer um campeão da Europa e de Portugal como o Benfica. Parecia um jogo de profissionais contra juniores numa meia hora mágica e histórica, daquelas raramente vistas no mundo do futebol."

De certo, o leitor há de perdoar a reprodução do que parte da imprensa espanhola viu e disse, mas peço que notem o respeito para com o distintivo humilhado: 'brilhante campeão europeu", que venceu Barcelona em 1961 e, já com Eusébio, o mítico Real Madrid em 1962. Dois distintivos já enormes. O Barça com Ramallets, Evaristo de Macedo, Luis Suárez e os magiares Czibor, Kocsis e Kubala; o Real Madrid, pentacampeão, com Puskás, Di Stéfano, Santamaria e Gento.

Aquele Benfica, de Germano, Cavém, Simões, Coluna, José Augusto, José Águas e Eusébio, que mantém a reputação encarnada imaculada, nada tem a ver com este apanhado vulgar de jogadores de vermelho que ao cabo de meia hora já perdiam por 0-3, fora os dois gols anulados e o pênalti desperdiçado. O placar foi condescendente demais para a pobreza e absoluta falta de argumentos levada pelos de Schmidt a San Sebastián.

Há muito trabalho pela frente e o primeiro passo é admitir o fracasso do projeto de equipa levado a campo para esta temporada, seja com três centrais e Florentino a ter que varrer tudo sozinho e João Neves como extremo e presa fácil e entregue a Barrenetxea, que fez com ele o que quis, como quis e quando quis; seja com a linha de três médios e um avançado solo que não pressionam e deixam tudo a estoirar nos de trás, ora Florentino, ora Kokçü. Gastou-se quase 60 milhões de euros em reforços até aqui desnecessários e não há um lateral direito de raiz para colmatar as ausências de Bah pelas agruras físicas, tampouco um do outro lado que minimamente mimetize o que fazia Grimaldo, perda já cantada com um ano de antecedência. Seu substituto é Jurásek, o defesa mais caro da história do clube, que perdeu a bola 28 vezes em pouco mais de 60 minutos em campo, segundo dados do Goal Point.

Roger Schmidt, brilhante na sua temporada de estreia, parece não querer ver o naufrágio à sua frente e agarra-se a frases fáceis como "não é que o planejamento foi errado, os lesionados fazem falta" ou "realmente, não merecemos a classificação", como se houvesse viv'alma a pensar o contrário. O capitão do barco se mantém fiel às suas ideias e só não está a tocar o violino enquanto a embarcação afunda porque o que tem, quando muito, é uma tocata com instrumentos desafinados.

Ao lado, mas nem por isso menos importante, registre-se a vergonha causada por imbecis que atiraram tochas nos adeptos locais, o que poderia ter causado uma tragédia como a que aconteceu em 1996, na final da Taça de Portugal, entre Sporting e... Benfica!  O fracasso do projeto desportivo quando se tem tudo à mão é de se lamentar, mas a falência cultural espelhada em indivíduos que viajam, não pelo seu clube, mas por uma realização pessoal tendo os pés fincados na violência, este sim é de se envergonhar.

Que vergonha, Benfica! 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Lech 2 x 4 Benfica - reorganizar a casa


Inúmeros são os reality shows que abordam de tudo sobre tudo: namoro, negócios, vestuário, estilo, confinamentos em casas e fazendas para se aferir o pior do ser humano, arrumação. Neste último tipo, espaços são pensados para que o aproveitamento seja o máximo, qualquer que seja o tamanho disponível. 

Não é o caso, mas talvez Jorge Jesus encontre a inspiração necessária para reorganizar a casa, ou melhor, o sistema defensivo, que perdeu o elemento que mais se adequa ao que o treinador quer para o restante da época. Sem André Almeida - já não contava com Rúben Dias, mas era algo previsível sem os milhões da Champions -, foi chamado Gilberto, o reforço menos destacado para a temporada.

As dificuldades ficaram claras e só não deitaram a estreia na Liga Europa porque a turma da frente esteve em um dia dos mais inspirados, principalmente Darwin Núñes, que fez gosto ao pé, à cabeça e mostrou seu farto arsenal para justificar o maior investimento na história encarnada e do próprio futebol português. 

E começou como JJ gosta: pressão na saída de bola, blocos altos para retomada rápida e golo de Pizzi em um pênalti, quando Waldschmidt cruzou a bola na área e  encontrou o braço de Dejewski. Logo depois, porém, a primeira amostra do quanto será necessário arrumar a cozinha. A linha toda à altura do meio de campo e não houve quem resolvesse, pelas laterais ou pelo meio, a ruptura causada pelo passe a Czerwinski em velocidade até chegar aos pés de Ishak, livre à frente de Odisseas para empatar.

A tática polonesa era clara: atrair o Benfica e chegar no menor tempo - e números de passes - possível até o centroavante, quando muito passando pelos pés dos ibéricos Pedro Tiba (em má jornada) e Dani Ramirez (em muito bom plano). Também colaborou o fato de Taarabt, clássico e em busca do melhor passe, ter começado no lugar de Rafa Silva, velocista e grande ladrão de bolas dentro do sistema de JJ, mas que ficou no banco porque o treinador sabia que o Lech pouco trocaria passes na altura do meio.

O cobertor curto só foi resolvido quando Pizzi, que era dúvida, deu o lugar a Rafa, na volta do intervalo. Pouco antes, Gilberto já havia colocado a bola na cabeça de Darwin com a precisão típica dos laterais brasileiros, e recolocado os encarnados à dianteira, num placar injusto. Na volta, porém, em troca de passes, o Lech voltou a empatar ao encontrar falhas no movimento defensivo entre o central argentino e o lateral brasileiro.  Se na primeira parte foi no espaço existente entre Grimaldo e Vertonghen, desta feita, foi no meio de Gilberto e Otamendi, com Rafa mal na foto ao estar sem função na frente da área, quando saiu a tabela curta, o chute de Kaminski e o aproveitamento na recarga de Vlachodimos na cabeça de Ishak, que bisou na partida. 

As linhas fechadas dos da casa impediam os passes verticais de Gabriel e Taarabt, mas não foram suficientes para parar umas das raras combinações entre Grimaldo e Everton, que buscou o jogo pelo meio e achou Darwin de costas, se apresentando para a tabela. O uruguaio, no entanto, resolveu ele mesmo a parada ao girar, meter uma caneta no marcador, Cmormakovic, e bater sem resposta na saída de Bednarek.

Praticamente acabou ali o jogo para os da casa, ainda mais depois que o treinador Darius Zuraw respondeu às mexidas de Jesus (Weigl e Pedrinho nos lugares de Taarabt e Waldschmidt, e depois Tavares na vaga de Grimaldo) tirando seus melhores jogadores para tentar a ligação direta para Cacharava, um desastre cipriota de 1,98m, que até recebeu boas bolas, mas nunca teve capacidade de converter em algo que chegasse próximo a oportunidades claras de gol. 

Ainda houve tempo para que Darwin fizesse o terceiro, com ele mesmo a começar a trabalhar a jogada ao buscar, à esquerda, a aproximação de Gabriel, que buscou Pedrinho, que segurou até a passagem de Gilberto o tempo suficiente para este abrir o necessário para encontrar Rafa na área. Ele levou ao fundo e encontrou o 9 quase dentro do gol, já desmarcado de Dejewski para resolver a questão e abrir, em grande, seu lugar na galeria dos marcadores benfiquistas. 

Pouco mais de 300 quilômetros separam Poznań da portuária Gdansk, na Polônia, onde será disputada a final da Liga Europa. Vi no zerozero.pt que foi na Polônia também que Jorge Jesus fez, pelo Estrela da Amadora, seu primeiro jogo em competições europeias, há pouco mais de duas décadas, em uma cidade chamada Chorzów, perdendo nos pênaltis pela extinta Taça Intertoto.  

É, pois, um país de recordações para o treinador benfiquista, que somou mais uma às que já tem na estreia pela Liga Europa, competição na qual o Benfica não participava da fase de grupos já há pouco mais de uma década, coincidentemente, pelas mãos de JJ. Para voltar às terras polacas, o mister terá que arrumar a casa a partir da sua defesa. E com as peças que tem, tal e qual acontece nos reality shows de arrumação.

Vlachodimos: achas que é sempre que vais sair sem sofrer golos, Ody?
Gilberto: "Vai-te ao inferno" foi a frase que falei para o Gilberto ao menos umas sete vezes. "Grande trabalho!", foi a que eu disse duas vezes; 
Otamendi: segundo parte da imprensa portuguesa, pior que um dos golos do Lech ter saído pelo seu lado foi o fato de Otamendi ter terminado a partida como capitão. Um escândalo, pois, dado o passado portista e o pouco tempo na Luz. Escândalo mesmo é deitar tinta fora por isso;
Vertonghen: a difícil vida de um senhor de quase 33 anos e meio que tem de correr, já consagrado, tendo Grimaldo ou Nuno Tavares ao lado;
Grimaldo: a saída do jogo foi seu melhor momento (Nuno Tavares: a quantidade de ar que deslocou ao errar a bola dentro da sua área foi a mesma que eu gastei num sonoro e intempestivo "Ah, vá pra pqp, Nuno Tavares!"); 
Gabriel: no Brasil, chamamos de 'pau pra toda obra' um gajo que faz o que o Gabriel tem feito algures nos jogos do Benfica, seja na construção, seja na criação. As botas pretas dão um ar operário ao melhor jogador da época;
Taarabt: mais algumas atuações destas e tu estarás no Wolverhampton. Não sei se gosto ou não disto (Weigl: não falei que estarias melhor no banco? Até podes saltar de lá às vezes, que não comprometes);
Pizzi: caro Luís Miguel, trate de imitar as grandes partidas do seu amigo Bruno Fernandes também. O saltinho na grande penalidade é um bom começo, mas não basta (Rafa: felizes os adeptos que têm Rafael Alexandre na equipa. Titular ou não, a magia e a entrega são as mesmas. Pode até deixar crescer a barba à náufrago, que é um direito que só os grandes têm);
Éverton: o único ponto ruim de ter um titular da Seleção Brasileira no time é ter a certeza de que não durará muito (Jardel: por falar em durar muito...);
Waldschmidt: chegamos àquele estágio em que, se o Gian-Luca não resolve o jogo, tendemos a achar que não esteve lá tão bem. Não nos leve a mal, mas somos injustos (Pedrinho: segue apanhando, mas soube que já ganhou seis quilos de massa muscular. Mais uns 15 e já estará mais pesado que o Fernando Farinha); 
Darwin Núnez: o último jogador que fez o que tu fizeste pelo Benfica foi o João Félix. Três golos, a jogar para a equipa, a rir-se a cada vez que fazias um golo, como se isso fosse o mesmo que buscar o jornal ao passeio e fartar-se com as tirinhas do Garfield na volta, até passar pelo alpendre. Vais render alguns muitos milhões, certamente, mas renda alguns troféus antes, SFF.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Manchester City 3 x 1 Porto - Poucas ideia


"Poucas ideia, mano!" É isso o que a gente costuma falar lá em Diadema, onde fui criado e vivi por mais de 30 anos, quando a gente está disposto a resolver algo sem demora, sem lá muito - ou mesmo qualquer - diálogo. A paciência está no fim? Poucas ideia, mano! Não merece atenção? Poucas ideia, mano!

Foi assim, sem dar muita trela aos adversários, que o Porto chegou à Liga dos Campeões. Qualquer que fosse o oponente, buscava resolver sem meios termos a parada. Sem precisar trabalhar muito a bola quando a tinha. Direto ao ponto. Poucas ideia para o contrário. 

Para a Liga dos Campeões, porém, palco onde a discussão acontece em outro nível, Sérgio Conceição sabia que teria que mudar o argumento para tentar ter razão no fim. Saiu o 4-4-2 para entrar um 5-4-1, com Mbemba, Pepe e Sarr no miolo de zaga, Zaidu e Corona nas laterais; o meio com Uribe, Sérgio Oliveira, Fábio Vieira e Luis Díaz e, na frente, o operário Marega. Como o City tem o jogo construído a partir do trio de centrais apoiados ainda por um médio que lá volta para apanhar a bola, os espaços no campo de defesa portista eram, invariavelmente, fechados em bloco pelos visitantes.

Claro que a questão era chegar em um menor tempo possível no gol de Ederson quando tivesse a bola nos pés, mas sem pressionar alto para não espaçar tanto o time. Resultou cedo, quando Rúben Dias foi sair jogando e tentou buscar Bernardo Silva, num erro made in Seixal. Uribe interceptou um bocadinho após a linha do meio-campo e acionou Luis Díaz. O colombiano se aproveitou do caminho que Marega abriu ao levar três dos de azul claro para a área, invadiu em diagonal, levou mais para o lado para atacar o espaço aberto por Fábio Vieira, e bateu cruzado. Um golaço que coroava uma estratégia até então perfeita.

Se em Portugal bastaria para fazer o jogo ficar à feição tripeira, na Liga dos Campeões é preciso mais. Uma desatenção dupla - do sistema defensivo e do árbitro, que não viu um pisão de Gundogan em Marchesín - e a entrada estabanada de Pepe em Sterling no ressalto da bola de Agüero na trave culminaram no pênalti marcado e não invalidado pelo VAR, que não considerou falta no goleiro. E o 1 a 1 veio dos pés de Agüero, que quase pararam nas mãos do arqueiro argentino.

Aí faltou a sorte que sobra em competições domésticas: Marega, cara a cara com Ederson, teve a bola para devolver a vantagem ao Dragão e até superou o tipo com luvas que estava à frente, mas não passou por Walker, praticamente sob o travessão a tirar a bola.

O fado foi o mesmo para a segunda parte. O Porto a fazer um jogo seguro, sólido, mas sem o poderio para definir os detalhes que desatam os nós mais apertados. O adversário, porém, mais apetrechado, foi quem chegou à vitória no golo de falta de Gundogan, em lance muito reclamado pelos de Sérgio Conceição e que ainda fará correr muita tinta. 

Em desvantagem, a estratégia do Porto já não servia mais e Conceição desfez o 5-4-1 para reabilitar o habitual 4-4-2, mas foi o City quem, sem lá muita negociação, chegou ao golo em remate de Ferran Torres após rápida entrada em diagonal e corte seco em Pepe.

Fica a sensação agridoce de ter feito um grande jogo, mas insuficientemente para regressar ao Porto com pelo menos um ponto. As "poucas ideia" que bastam em Portugal não chegaram para a Liga dos Campeões.  

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

PAOK 2 x 1 Benfica - o natimorto projeto europeu

A lei do ex mais merecida de todos os tempos (PAOK/Divulgação)

Entra ano, sai ano, e as noites europeias seguem causando pesadelo à toda malta benfiquista. Não bastasse passar vergonha em grupos acessíveis, o Benfica não chegou sequer para discutir a terceira eliminatória com o PAOK na Grécia. Os gregos, que jamais jogaram a Liga dos Campeões, seguem para a disputa a duas mãos com o Krasnodar-RUS - que também busca debutar na Champions - por uma vaga. Já o Benfica, que sonhava em encaixar mais €37 milhões com a presença na prova, está fora da liga milionária pela primeira vez desde 2010/2011, época em que começou a sequência interrompida em gramas gregas.

Bom, sempre que há Grécia e Portugal envolvidos em qualquer diabo que tenha uma bola, seria bom colocar os bigodes de molho, caso Jorge Jesus os tivesse. E ele, como fez Bruno Lage, deixou Florentino fora do banco e apostou em Weigl, que quase marca, quase arma, quase participa bem do jogo, quase convence.

Faltam-me palavras que não sejam de baixo calão para definir o que foi a prestação benfiquista, sobretudo no segundo tempo, quando Abel Ferreira - e toda a humanidade que resolveu gastar duas horinhas de sua vida para apreciar o fado lisboeta em terras helênicas - percebeu que não havia quem batalhasse com qualidade para recuperar a bola no permissivo meio-campo do time... não sei se chamo de encarnado com aquela camisola de cor indecifrável.

De qualquer forma, faltou ao Benfica preencher três requisitos fundamentais para aceder à eliminatória com o Krasnodar, a última antes do pote de ouro e de euros da fase de grupos: quem rompesse linhas de equipas a jogar compactadas, atrás da bola, como foi o PAOK na primeira parte, quando deu a bola ao Benfica e viu do que (não) eram capazes os rapazes de Jorge Jesus (o Gabriel estava sentadinho ao lado do mister, e assim ficou); quem fizesse a bola andar pelas beiradas quando o resultado já era desfavorável e os gregos entrincheiraram-se à frente de seu golo (Pizzi passou ao meio quando a vaca começou a deitar); e quem recuperasse a bola quando ela invariavelmente batia à porta (onde raios estava o Florentino, ó, Jesus?).

Para não dizer que não houve nada que se aproveitasse, dos quatro estreantes da noite, três estiveram em bom plano: Pedrinho, enquanto teve mais pernas que hematomas; Vertonghen, infelicidade à parte no gol contra, teve uma atuação bastante segura; e Everton, cuja produção caiu quando o time todo emperrou, mas de cujos pés saíram as melhores hipóteses de gol. 

Vai encaixar? Vai, mas isso só vem com tempo e treinamento, e toda a gente sabe que a temporada já começou condicionada pelas ausências causadas pelas convocações para as seleções, mas era algo previsível (ainda assim Rafa e Pizzi não foram chamados), como também era expectável que alterar a forma de jogar não era o ideal para agora, às portas do jogo mais importante da época.

O resultado, lápis e papel à mão, foi construído a partir de um gol contra e outro contragolpe muito bem encaixado e terminado no chute de quem foi chutado da Luz após uma temporada encostado no Seixal, mas é no fim das contas que se vê também que o futebol é isto.

Sobrou a Liga Europa, a competição europeia na qual o Benfica fez suas melhores campanhas europeias nos últimos anos, inclusive com Jesus ao leme, mas é pouco para quem voltou ao Velho Continente para estar sob os olhos das ligas mais poderosas. E pouco também para os objetivos eleitorais de Luiz Filipe Vieira. Bom, talvez esta seja a boa notícia na noite. 

Vlachodimos: olha, Ody, se queres um minuto de paz - ou 90 -, diz ao mister que precisa de trinco à porta na sua área. Não sabes o que é trinco? Ele sabe;
André Almeida: ó, Almeidinhos, não queiras que o Gilberto tome seu lugar no 11. Nem eu quero isto. Se calh
ar, nem ele;
Rúben Dias: o gajo que valeria €100 milhões, ao fim e ao cabo, está a ser vulgarizado jogo sim, jogo também, porque insistem em jogar sem quem proteja a entrada da área. Ao menos que o Jorge Mendes mostre os jogos da Selecção quando tentar vendê-lo;
Vertonghen: não confunda atuação de ferro com atuação à Ferro, SFF. No mais, tens estofo para dar alegria a toda a malta encarnada (ainda não sei se devo usar o adjetivo);
Grimaldo: saiu mal na foto quando foi tirado para dançar pelo Zivkovic, mas dança por dança as com o Cebolinha pela esquerda vão render quando o par estiver mais entrosado;
Taarabt: responda-me, Adel: se chegas à casa e a porta estiver fechada, tu corres e tentas abrir à força ou procuras por uma chave? Se não perceberes a analogia, não te preocupes, pois o mister também não entendeu (Rafa Silva: agradeço por não ter marcado o golo mais cedo para não dar esperanças falsas a toda a gente, Rafael Alexandre. Além do mais, se o Porto, que é o Porto, levou uma trepa do Krasnodar e depois descontou as frustrações em cima de nós, imagina o que nos aguardava? Deus nos livre! Em todo caso, é bom avisar ao mister que não és ponta de lança);
Weigl: Julian, Julian. Não sei o que pensar de ti
;
Pizzi: podias falar bem do Tino para o Jesus, Luis Miguel. Realces que ele é melhor que o Willian Arão, que é para o mister não andar com ideias ruins à cabeça. Já basta as de ontem;
Pedrinho: seria bom se disfarçasses essas olheiras de zumbi com alguma maquilagem para que os adversários parem de dar pancadas em ti. No mais, foi um começo bastante auspicioso do miúdo da 38 (Darwin: não consegui fazer nenhum trocadilho decente sobre a Teoria da Evolução e o Benfica. Por ora, isso não é possível, mas torço para que eu seja capaz em breve);
Seferovic/Carlos Vinicius: o primeiro perdeu um gol na frente do goleiro. O segundo, nem isso. Será que o RDT aceita voltar?   
Everton: imaginam os estragos que o Cebolinha causará na Liga dos Campeões 2021/2022?
Zivkovic: não é porque vestes outra camisola agora que não te incluo aqui, Andrija querido. O respeito que demonstraste ao não comemorares um gol que tirou-lhe um peso do tamanho da Sérvia de suas costas mostra que merecias pelo menos o mesmo respeito, que lhe negaram na última época com a águia ao peito. Bom, pelo visto, ainda veremos outros casos deste, como quando o Jota nos enfrentar por algum time inglês ou espanhol;
Jorge Jesus: ó, mister, agora que viste a bobagem que fizeste, é bom para ti que as coisas caminhem em bom plano para a próxima época. É isto ou terás que pedir desculpas à torcida do Flamengo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

BENFICA - a hora da verdade para Jorge Jesus


Já são menos de 30 os dias para que se conheça o fado do Benfica na Liga dos Campeões. Ou melhor, menos de um mês separa toda a gente da resposta para a pergunta que mais foi feita desde que Jorge Jesus aterrou em Portugal, de volta à Luz, em Portugal e no Brasil: o mister acertou ao deixar a idolatria que criou no Flamengo ao abraçar um novo desafio no futebol português?

Jorge Jesus não anda lá muito satisfeito com a falta de agressividade dos Encarnados no mercado. Afinal, o Flamengo era um tubarão na América do Sul e não tinha lá muitas dificuldades para atender os pedidos do treinador, coisa que não acontece para os lados do Cosme Damião, mesmo com o orçamento de €100 milhões à disposição para a montagem do elenco para atuar em grande em tantas quantas forem as provas na época que está para começar, sobretudo a Champions.

Não obstante haver tantos travões para seduzir os alvos de Jesus a oferecer o projeto desportivo no lugar dos milhões de euros em salários anuais, os dirigentes benfiquistas também não se desfazem dos jogadores excedentários. Se já não bastasse os nomes que já estavam no plantel e não continuarão, nomeadamente Carlos Vinícius, Seferovic, Jota e Cervi, ainda há os que retornam de empréstimo e que o clube tenta, sem sucesso por ora, colocar em outros clubes, que são os casos de Alfa Semedo, Ferreyra, Lema, Willock, Krovinovic, Fejsa e outros que andam aos treinos à parte.
Vendo malogradas as negociações por Cavani e até por antigos comandados no Mengão (o médio Gerson e o avançado Bruno Henrique), cujas multas indenizatórias impedem o Benfica de avançar, mesmo extrapolando o teto salarial a custo do pagamento de prêmios por assinatura, Jorge Jesus luta contra o relógio para montar uma equipa competitiva a ponto de discutir a eliminatória a sério com os gregos do PAOK de Abel Ferreira do próximo dia 15, em Salónica. E ainda haverá o Krasnodar, carrasco do FC Porto a esta mesma altura na época transata, pelo caminho que separa os cofres da Luz dos milhões da Champions.
Entre tantas dúvidas, a única certeza é que, se tombar antes de chegar à fase de grupos da Champions, o Benfica verá ainda mais limitado seu "poder de convencimento" e terá comprometido destarte seu projeto de reavivar a chamada “dimensão europeia”, aquela que Luís Filipe Vieira garantiu que recuperaria somente com o que floresce no Seixal e que, obviamente, mudou com a chegada de Jesus.
Basta saber se o nome do treinador será suficiente. Bem, ao cabo de setembro saberemos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O Benfica e a dimensão europeia

OS MELHORES EM CAMPO Benfica só foi bem quando teve os
principais jogadores em ação (Quality Sports Images)

Reza a sabedoria futebolística que os melhores jogadores devem ser escalados nos principais jogos. Mais que sabedoria, que poucos a têm, é uma questão de lógica, que todos deveriam seguir. Os dois últimos jogos do Benfica na fase de grupos da Liga dos Campeões mostram que, se a lógica fosse seguida por Bruno Lage, os Encarnados teriam grandes chances de seguir adiante até como primeiros colocados do Grupo F, o mais equilibrado de toda a prova.
O empate que era vitória por 2-0 até o minuto 90 na Alemanha e a vitória incontestável sobre o Zenit, atirando os russos para fora das competições europeias, foram as únicas partidas em que Lage mandou a campo o que havia de melhor. Não o tal "melhor onze para a ocasião", tanto defendido após os desastrosos jogos feitos nas quatro primeiras rodadas - incluindo a vitória por 2-1 sobre o Lyon na Luz, que caiu do céu na forma de um presente dado por Anthony Lopes para Pizzi quando os franceses já demonstravam argumentos sólidos para vencerem o jogo.

Pizzi, o jogador mais influente da equipe na ausência de Rafa e que é o meia mais goleador do futebol europeu na temporada, fez seu primeiro jogo inteiro pela competição somente na última rodada, quando somente a Liga Europa era possível. E foi assim, com seus melhores jogadores em campo, que o Benfica fez suas melhores partidas pela Liga dos Campeões, contra Leipzig e Zenit.

Podendo ser cabeça-de-chave nos 16 avos de final da Liga Europa, na qual entrará em fevereiro e que ainda pode contar com mais três emblemas portugueses (Sporting e Braga já estão classificados e o Porto pode fazê-lo hoje, caso vença o Feyenoord), Bruno Lage tem a chance de, com melhores escolhas que as que tem tomado desde a Liga Europa da temporada passada, quando também poupou jogadores e caiu para o Eintracht Frankfurt nas quartas-de-finais, conduzir o Benfica à disputa do título da segunda competição de clubes do continente.

É o limite. É a tal dimensão europeia de que tanto falam.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

RasenBallsport Leipzig 2 x 2 Benfica - a nova vergonha europeia

TF Images

Quando Julian Nagelsmann disse que o jogo entre o seu RB Leipzig e Benfica seria um duelo entre Davi e Golias e que os alemães eram os gigantes do confronto, houve uma gritaria em Portugal. Onde já se viu um time que está em sua segunda participação na Liga dos Campeões colocar-se tão acima do remoto bicampeão europeu?

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Mas é exatamente este o tamanho europeu do atual Benfica. Não adianta nada ser um tubarão em Portugal se, para além das fronteiras, não passar de um carapau. Já são três temporadas seguidas sem superar a fase de grupos, que irrompeu apenas três vezes nesta década, na qual a presença não falhou uma vez sequer. E são apenas quatro vitórias nos últimos 20 jogos, contando uma edição com seis derrotas.

O empate que ditou a eliminação da edição 2019-2020, por si só, nem é um descalabro. Afinal, na Alemanha, foi a primeira vez que o Benfica pontuou pela competição. Havia perdido os 11 jogos anteriores. O que faria prever uma situação diferente hoje?

Abrir 2 a 0 aos 60 minutos poderia supor a quebra de tal escrita, além de deixar os Encarnados às portas das oitavas-de-final, bastando vencer o Zenit em casa na última rodada do grupo. Mas aí pesou a inexperiência de Bruno Lage em jogos deste calibre. Foram três substituições após o minuto 80, sendo duas equivocadas e a terceira após o 2 a 2, quando mais nada havia a fazer.

Bruno Lage, que colocou o Benfica na fase de grupos ao protagonizar a improvável arrancada da época passada, errou desde o primeiro jogo da liga milionária. Escolheu jogadores errados, escalou como titulares quem sequer ficava no banco de reservas nos jogos anteriores e, esta noite, mandou a campo o avançado Caio Lucas quando a prudência mandava Florentino entrar, já que o RB Leipzig agigantou-se ao diminuir o placar ante uma equipe animicamente morta em campo, e ainda com seis minutos a contar nos acréscimos.

O jogo, mesmo, seguiu o roteiro que poderia ser comum e aceitável caso o Benfica não dependesse desesperadamente de vencer para seguir vivo. O time fechado, organizado e contra-atacando quando podia, ao passo que os donos da casa chegavam e desperdiçavam tantas quantas chances foram criadas. 

E assim foi até os 82 minutos, com 2 a 0 a favor porque Bruno Lage não inventou ao lançar no 11 jogadores menos utilizados n'outros jogos, como Tomás Tavares, Jardel e Gedson Fernandes. André Almeida, por exemplo, fez sua estreia nesta edição, e teve mais ações defensivas que a soma de Tavares nos jogos em que atuou. Até que Lage começou a promover as trocas. 

Raúl De Tomas, que acabara de entrar no lugar de Carlos Vinicius, quase fez um gol antológico do meio-campo, o que segurou o ímpeto do Leipzig por oito minutos. Esse foi o tempo em que os da Saxônia ficaram sem incomodar, o suficiente para baixar a guarda benfiquista e a desgraça se desenhar na Red Bull Arena Leipzig a partir do início dos acréscimos de nove minutos de intenso terror para os encarnados.

Quando foi preciso fazer a leitura correta da partida, Lage falhou com louvor. Primeiro, colocando De Tomas para executar o mesmo papel de Carlos Vinícius. O touro que segurava os defensores na área dando lugar a um avançado altamente técnico, mas pouco combativo, o que fez que a troca não surtisse o efeito desejado. Pizzi, melhor homem em campo, saiu para ser rendido pelo desastroso e injustificável Caio Lucas, que nem vinha sendo relacionado e, de repente, apareceu entre as opções. Ao entrar, o camisa 7 deixou o lado direito, onde Pizzi e André Almeida controlavam o jogo na medida do possível, como uma autêntica autoban, por onde o porsche alvirrubro atropelou o adversário sem a menor dificuldade. Em vez dele, se era para ter em campo um jogador que agredisse o adversário, Lage poderia ter feito entrar Gedson Fernandes, jogador com mais argumentos para fazer a função, mas que estava, por opção do mister, a ver o jogo das tribunas. Ou manter Pizzi, o melhor e mais lúcido benfiquista em campo, colocando Florentino no lugar Chiquinho, que se arrastava. 

Ao fim e ao cabo, a sensação que ficou é que, caso Bruno Lage desse à Liga dos Campeões a importância que merecia e mandasse a campo um time sem invencionices e com os melhores disponíveis a cada jogo, o Benfica teria chegado à Alemanha podendo até perder e ainda teria a chance de garantir a classificação na última jornada. 

Para deixar de ser o Bate Borisov que fala Português e assumir a tal dimensão europeia que tanto se orgulha de ter, há de ser mais ousado no mercado, contratando pés e cabeças qualificadas e experimentadas para segurarem o rojão que os verdes anos dos recém-promovidos do Seixal não permitem fazê-lo.

Não adianta planear chegar às finais com uma equipa cuja base vem do Seixal se, à primeira investida mais forte, perde os valores que mais se destacam. E só há duas maneiras de se fazer isso: pagando salários que permitam segurar os melhores jogadores; e tendo um projeto desportivo ambicioso, e que funcione na prática, coisa que o Benfica não tem. 

Vlachodimos: prolongou o sonho com defesas monumentais;
André Almeida: por que diabos não jogou antes?
Rúben Dias: o futuro melhor zagueiro do mundo mostrou por que ainda não é o melhor zagueiro do mundo ao cometer o pênalti que originou o primeiro gol alemão;
Ferro: por que diabos não jogou antes?

Grimaldo: renovou contrato essa semana. Por quê, meu Deus? Por quê?
Gabriel: fez o que podia, mas tem podido cada vez menos;

Taarabt: atuação de gala enquanto teve fôlego. Participou dos dois gols;
Pizzi: alguns já se recusaram a deixar o relvado. O Pizzi poderia ter feito o mesmo (Caio Lucas: é o menos culpado por estar em campo quando deveria estar no Benfica-B, isso se devesse estar);
Cervi: o Rafa só volta em fevereiro, né? (Jota: pfff!);
Chiquinho: esteve abaixo, mas ainda abaixo faz mais que o Caio Lucas. Suspeito que também assim era quando estava lesionado;
Carlos Vinícius: queimou minha língua pela nona vez, mas vai errar passes em contragolpes assim lá na...(Raúl De Tomas: ah, se aquela bola entra...)

Bruno Lage: só de reclamações, caberia aqui um texto maior que este. 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Benfica 1x2 RB Leipzig - Carta ao mister Lage

CALVÁRIO Não foi dessa vez que a superioridade em Portugal
foi vista em jogos pela Champions (Foto: Nurphoto)
Ó mister Lage, gostamos um bocado de ti. Gostamos mesmo, a ponto de perdoar a jornada infeliz contra o Porto, quando Pizzi e Florentino foram anulados sem maiores protestos, ou quando fizemos uma partidinha mequetrefe contra o Gil Vicente. Afinal, neste caso, tínhamos o jogo da Champions.

Mas aí, no jogo da Liga dos Campeões, me colocas o Cervi e o Jota para render Rafa e Seferovic? Nada contra, até gosto deles, mas os gajos estavam a ver o jogo das bancadas até outro dia. Não seria o caso de fazer o contrário? Talvez fosse mais interessante deixar descansar os dois que saíram do 11 para estarem mais frescos à altura do jogo mais importante.

Aí, sem o Rafa, deixas tudo às costas do Pizzi? Ora, o Nagelsmann colocou dois nele e resolveu o problema, ainda mais porque não havia Gabriel ou Florentino. Nem o Rafa. E havia Taarabt, mas era pouco. Tu te lembras de que falei?

Tá, o Pizzi falhou uma hipótese que não costuma antes do primeiro golo, e o Cervi praticamente desfez o tento que empataria o jogo antes que o Werner fizesse o bis. Mantiveste o De Tomás quando poderias começar com o Seferovic, que até fez um golito no fim.

A propósito, por que raios deixá-lo no banco? Se é pra fazer de conta que o Jota é o João Félix, finge que o Seferovic é o Seferovic, oras.

E coloque os melhores pra começar o jogo, pá.
Ajuda a toda a gente a seguir gostando de ti.


terça-feira, 12 de março de 2019

Sobre Neymar, PSG e o desmazelo com a imagem

CRAQUE DA AVENIDA Neymar dá uma pausa na recuperação da lesão e
 curte o Carnaval no Brasil (Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Sempre que eu escrevo fazendo críticas ao Neymar, torço para que seja a última vez. Não por ele, nem me importo com isso e duvido que ele sequer suspeite da minha existência, mas faz mal à gente ficar às voltas com críticas, críticas e mais críticas, e fica a impressão de que quando o assunto é recorrente, é pessoal.

Não é.

O problema é que Neymar não se ajuda. Mal saiu – se é que saiu – da crise mais séria sobre a sua imagem por causa do desempenho patético na Copa do Mundo da Rússia, já se envolveu, deliberadamente, em uma nova leva de críticas porque resolveu largar a recuperação da nova lesão no dedinho para aproveitar o Carnaval no Brasil.


Aí o leitor poderá ponderar sobre a importância da ausência do mimadinho craque na nem tanto inacreditável eliminação de sua equipe na Liga dos Campeões, mesmo depois de vencer fora de casa por 2 a 0 e ser superada por um adversário desfalcado de 10 jogadores, entre eles Pogba, o principal nome do United.

Mas tem. E muita.

Neymar chegou a Paris para ser o líder, em campo e fora dele, do projeto de conquista da Europa pelo Paris Saint Germain, um time com alguma tradição doméstica, mas pequeno na Europa e com os cofres abarrotados a partir de uma negociata que envolveu políticos graúdos franceses, fundos de investimentos do Catar e compra de votos para a definição daquele país como sede para a Copa de 2022. E na semana mais importante da temporada, o craque-que-tem-tudo-e-não-é-cobrado-por-nada-em-Paris esteve ausente, o que faz com que o clube seja exatamente do tamanho que é tratado pela sua maior estrela.

Desde que chegou à França, Neymar desfalcou o PSG em 45 de 98 jogos do time (quase a metade das partidas, portanto). Em alguns destes compromissos, o camisa 10 não jogou porque teria sido poupado. É verdade que ficou de fora em boa parte graças às duas lesões mais sérias que sofreu, mas não há azar ou acaso nisso. A celebridade Neymar Jr não conversa com o atleta Neymar Jr e, sabe-se, tem uma vida social bastante agitada, o que não ajuda não só na recuperação física entre os jogos, como também atrapalha, e muito, o trabalho de prevenção de contusões.

Se quer ser levado a sério, o reizinho de Parc des Princes tem que se levar a sério. Precisa entender que sua vida extracampo atrapalha o rendimento dentro das quatro linhas. Precisa entender também que todas suas atitudes repercutem muito mais por causa de sua condição de ídolo, para o bem e para o mal. E precisa escolher entre ser responsável e assumir o ônus que seu status exige, se concentrando no que pode dar em troca dos milhões que recebe, ou aproveitar ainda na juventude tudo o que já amealhou, mas sem esperar por grandes resultados e, consequentemente, ver seu valor de mercado diminuir.

Os dois, não dá.

Mesmo considerando um absurdo imaginar a prima donna no mesmo patamar de Cristiano Ronaldo e Messi, cabem algumas comparações: Cristiano se machucou na final da Eurocopa e voltou ao gramado para apoiar seus companheiros, e Portugal bateu uma França, mais forte e jogando em casa. Neymar, que já havia ficado de fora do jogo de ida pelas oitavas da Champions, deixou seus colegas em Paris e pediu para seguir o tratamento da contusão no Brasil em um período que coincidiu com os festejos de Momo, sem se furtar a largar as muletas e pular, literalmente, o Carnaval.

Esta é somente uma das diferenças.

Messi é o melhor jogador do mundo, o mais dotado tecnicamente. Cristiano diminui a diferença entre eles ao trabalhar feito um louco para ser melhor a cada dia, e se adaptou a uma nova função em campo. O resultado é que, aos 34 anos, o português está longe do declínio físico e técnico esperado nesta faixa de idade. Neymar, que é mais talentoso que o astro lusitano e é sete anos mais jovem, ainda não chegou ao ponto em que a idade pesa e o rendimento cai. Só que a fatura chegará de acordo com o seu planejamento (ou falta de um). Aí restará o mercado brasileiro, que torra grana sem parcimônia alguma, ou algum campeonato endinheirado, como o árabe e o chinês.

Pouco para quem foi projetado para ser o melhor do mundo.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A ampulheta de Cristiano

Há uma espécie de ampulheta imaginária que é virada todos os anos. Ela marca o início do declínio de um dos jogadores mais absurdos, possivelmente o maior atleta do futebol, de todos os tempos. 

Sim, falo de Cristiano Ronaldo.

Após a temporada praticamente perfeita de 2016, quando venceu os dois troféus mais importantes do ano (a Liga dos Campeões pelo Real Madrid e a Eurocopa por Portugal), houve um declínio natural que, normalmente, sucede o ápice.

Este fato, combinado com a virada sobrenatural do Barcelona sobre o pouco respeitável time do PSG, na qual Neymar só não fez chover nos últimos oito minutos, fez os donos da ampulheta, mais uma vez, vaticinarem: é o começo do fim! Mais que isso, finalmente, chegou a vez de Neymar!

Mesmo que tenha sido por um jogo. Ok, um grande jogo, mas ainda assim um jogo, e contra um adversário de grandeza questionável. Estávamos apenas em fevereiro, mas já tínhamos o melhor do ano. Deve ser outra a ampulheta neste caso. 




E daí que Cristiano, com o passar do tempo, começa a mudar o posicionamento em campo? "Mas ele fez pouco mais de 30 gols na temporada".

Realmente, para os padrões de Ronaldo, 30 gols em uma temporada é pouco. Ele é o primeiro - e único, por ora - a romper os 50 gols em seis temporadas consecutivas. 

O prêmio de melhor do mundo tem suas peculiaridades, e desde que surgiram Cristiano e Messi pode ser resumido a Melhor da Dupla, e por mais que a pachecada de plantão esperneie, não haverá espaço para Neymar tão cedo, mesmo porque a Liga dos Campeões tem um peso absurdo (principalmente o mata-mata) e quem chega mais longe entre os dois coloca uma mão e meia na honraria. Para azar do craque brasileiro, se pensarmos na possibilidade de ser eleito, Messi está no seu time e Neymar precisará fazer chover para superar o argentino, o que, honestamente, não vejo ser possível simplesmente porque ele é muito melhor.

Nem deveríamos discutir isso.

Mas discutimos. E a ampulheta que contém a areia lusitana já estava mais cheia da metade para baixo. Neymar despachou o PSG e Cristiano se limitou a dar passes para gol contra o Napoli. Messi, por sua vez, que tinha feito 11 gols na fase de grupos da Liga dos Campeões, passou em branco nas oitavas e nas quartas, mas acabou com El Clasico e voltou a ser o melhor de todos os 
tempos. 

OITO MINUTOS Neymar foi o melhor do mundo
no fim do jogo com o PSG (Getty Images)
Há uma ampulheta relativamente mais apertada para o gênio argentino. De quebra, chegou a 500 gols só com a camisa blaugrana em uma partida que Neymar não jogou por estar suspenso de forma estúpida. Mesmo assim, os oito minutos de fantasia pura ainda lhe mantinham no topo de melhor-do-mundo-de-2017-ainda-estando-em-abril. 

Nos jogos contra a Juventus, Neymar e Messi não jogaram absolutamente nada, mas mantiveram-se intactos. O mesmo tratamento não teve o português pelo desempenho pífio no jogo com o Barcelona, mesmo que este valha menos, embora seja um dos maiores clássicos do mundo. A areia do portuga quase não era vista na parte de cima.

Mas da mesma forma que os 500 gols de Messi pesaram, Cristiano passar de 100 em competições europeias, depois chegar - e passar - a 100 só pela Liga dos Campeões e desandar a fazer gols decisivos (cinco dos seis contra o Bayern nas quartas de final e os três do primeiro jogo das semifinais contra o Atleti) também devolveram ao português o status de semideus (como se isso tivesse sido construído em apenas um jogo ou em uma temporada).

IMPARÁVEL Três gols e atuação de gala na
Liga dos Campeões (Getty Images)
Frases prontas como "o pior momento desde que chegou ao topo", "declínio físico aos 30 e poucos anos chegou" ou "só faz gol de pênalti" (mesmo sendo só 11, dos 103 na Champions, dessa forma) voltam para a gaveta, ou ao menos até a final da competição, quando sua ampulheta poderá ser zerada outra vez e estará acabado ou no topo do mundo.

Como em todos os anos. 
      

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sobre retranca, postura, apito e linha burra

O DONO DA BOLA Neymar só não fez chover na
 histórica goleada sobre o PSG (Getty Images)
Passadas quase 24 horas da hecatombe blaugrana pelo jogo de volta das oitavas de final da Liga dos Campeões, creio que não caibam em uma discussão os aspectos táticos vistos no Camp Nou envolvendo Barcelona e PSG. De notável mesmo, só o fato de o Barça ter abdicado dos laterais e,com três zagueiros e dois meias abertos nos flancos, ter matado um adversário que resolveu jogar com 10 atrás da linha de bola.


Parece maluquice, mas a gigante vantagem de quatro gols fez mal ao Paris Saint Germain. Isso porque Unai Emery armou o time para se defender o tempo todo e achou que seria o suficiente para não tomar impensáveis cinco gols. Tomou seis. A tática funcionou bem até os 42 minutos do segundo tempo, quando a avalanche azul e grená caiu por cima do time de Paris e um encapetado Neymar resolveu que ainda dava.

No entanto, o placar de 6 a 1 esconde tudo o que aconteceu no jogo: um Barcelona pouco inspirado no primeiro tempo, com Suárez isolado e perdido entre os zagueiros, Messi com poucas ideias e Neymar mais preocupado em reclamar do que em jogar bola. O placar de 2 a 0, muito dilatado pelo que o Barça produziu, foi um castigo merecido para quem resolveu não atacar.

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O segundo tempo começou e a mão da arbitragem resolveu aparecer. O pênalti marcado em Neymar chega a ser indecente. Meunier caiu e foi o brasileiro que buscou o contato, causou o choque. Ele tropeçou, não foi atingido. Porém, o gol de Cavani, que em condições normais teria dado a classificação aos visitantes, diminui o impacto desse lance, pois o Barcelona poderia ter marcado em outros ataques, uma vez que o gol no fim da primeira etapa foi o combustível para um reinício aceso de jogo. Caso o placar do primeiro tempo fosse a vitória mínima, alcançado logo no segundo minuto de jogo, a ausência do segundo gol no intervalo poderia representar um entrave (mais um) à missão quase impossível de reverter a vantagem da representação parisiense.

A partir daí é que a epopeia se desenha e, qualquer que seja a gravura, terá que levar um apito nela. Di Maria, melhor em campo na ida e que ficou no banco por não estar inteiro fisicamente, entrou no lugar do quase sempre apagado Lucas e teve a chance de matar o jogo, mas foi ele que quase morreu ao ser derrubado por trás por Mascherano (depois do jogo, ele admitiu ter feito pênalti no compatriota), no lance que poderia e deveria definir a partida. Na pior das hipóteses para o PSG, o penal poderia ser desperdiçado, mas haveria um jogador a mais em campo com a evidente expulsão do volante/zagueiro barcelonista, um dos esteios da equipe.

Quando um até então irritadiço, mas efetivo, Neymar achou o golaço de falta, faltavam três minutos (e três gols) para o fim do jogo. Naquele momento, se fosse um time maior, mais esperto e mais equilibrado emocionalmente, o PSG teria amarrado a partida até os 300 minutos, se fosse necessário. Aí entrou em colapso quando o árbitro inventou outro pênalti, este de Marquinhos em Suárez. O relógio já marcava 46 minutos e ninguém teve a decência de cercar o nefasto árbitro ou segurar a bola no ataque, ou mesmo “cozinhar” o jogo até o fim.

Aí veio linha burra. A um minuto do fim, com todos os jogadores na área, é inadmissível Sergi Roberto ou outro jogador qualquer receber a bola sozinho, ainda mais com uma zaga que custou o que custou.

O Barcelona, que aceitou a eliminação que parecia clara até o quarto gol, passou porque teve ânimo, porque Neymar deixou de frescura e resolveu jogar (muita) bola, mas também porque o árbitro alemão fez uma das piores e mais tendenciosas arbitragens de que se tem notícia em jogos deste tamanho, mas não dá para eximir um time que, em oito minutos, jogou fora por covardia o que construiu durante mais de 170 minutos. E que fez a linha burra mais burra da história do futebol.

MILAGRE de Santo Apito e marcação frouxa possibilitam
 a festa final (Albert Gea / Reuters)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sobre a Bola de Ouro de 2016

DÁ UM TEMPO AÍ, FERA Coleção de Lionel Messi não
deve aumentar neste ano (Divulgação/Barcelona)
No início da semana, a France Football divulgou a lista dos 30 pré-indicados ao Bola de Ouro de 2016. Vele dizer que é a primeira vez, desde 2010, que o prêmio não será dado em conjunto pela revista e pela FIFA. A outra novidade é que apenas jornalistas votarão (capitães de seleções e técnicos não participarão, o que faz com que o "voto pela camaradagem" perca força). Como correção, a inclusão de Buffon, que ficara imperdoavelmente de fora em 2015, e que fez, para variar, uma Eurocopa soberba.

A Eurocopa, inclusive, tem muito peso na confecção do rol, visto que Pepe e Rui Patrício e até o francês Payet estão com seus nomes lá. Os principais campeonatos nacionais europeus também contribuíram para que alguns de seus destaques também aparecessem: o milagre que atende pelo nome de Leicester (Léster, para os mais chegados) coloca dois jogadores na parada: Mahrez e Vardy. Pelos gols que fez ainda pelo Napoli, Higuain também está na disputa e Dybala, destaque no título italiano pela Juventus, também corre - muito - por fora. Já Ibrahimovic, que fez o que quis na fraca Ligue 1, está indicado por mero cacoete.

ANO DE GRAÇA Contratação mais cara da História quando chegou a Madrid, Gareth Bale
finalmente teve uma temporada à altura do investimento (Rex Feature)

Se o campeão europeu Portugal conta com três (entre eles o favoritão Cristiano Ronaldo, obviamente), o Brasil olímpico e dourado aparece apenas pela isolada presença de Neymar, que não fez nada de notável no ano, exceto pelo título olímpico quase Sub-23 e pelo papel de coadjuvante de luxo no chamado trio MSN.

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O Tricolor em tempos de cólera

Como a inclusão do colombiano Borja, grande nome da conquista da Libertadores pelo Atlético Nacional, sequer foi cogitada, vê-se que eles ainda olham para a América do Sul como mero fornecedor de matéria-prima para a Europa, o centro desenvolvido do Planeta Bola. A última vez em que algum "forasteiro" marcou presença foi em 2011, quando Neymar ainda atuava pelo Santos. 
HOMEM-GOL Gols por atacado podem colocar o
 uruguaioSuárez entre os finalistas (EFE)

Pela falta de conquistas internacionais e pelo fracasso na Copa América, Messi corre risco de não figurar entre os três finalistas, exceto pelo conjunto da obra, o que seria inédito desde 2007, quando ficou em terceiro lugar na sua primeira aparição no palco da premiação. Neymar, então, é capaz que fique abaixo dele, o que seria natural, apenas para citar quem compôs, com Lionel e Cristiano, o trio que disputou a honraria em 2015. Griezmann, que ficou no quase tanto na Eurocopa quanto na Liga dos Campeões, teve um ano individualmente mais interessante que o argentino.

Meus votos, caso eu participasse do sufrágio, seriam do chuteira de ouro Suárez, de Gareth Bale, que carregou País de Gales nas costas durante a Euro e que foi essencial para a conquista continental do Real Madrid, e, é claro, de Cristiano Ronaldo, que nem jogou o que já jogou em temporadas anteriores, mas que ganhou um título por Portugal e arrebentou com a boca do burro na Liga dos Campeões e que está com a faca, o queijo e os tremoços na mão para abiscoitar sua quarta redonda e seguir na sua “guerra” particular com Lionel Messi.

BARBADA Artilheiro, campeão, protagonista e líder. Temporada dos
 sonhos faz votação virar mero protocolo (Carl Recine/Reuters)