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sábado, 2 de abril de 2022

COPA DO MUNDO - Ela vem aí!

Capitães campeões, Cafu e Matthäus participaram
 do sorteio (Shaun Botterill/Getty Images)

Sim, podemos dizer que a Copa do Mundo de 2022 já começou. Passadas as infindáveis Eliminatórias, quando o sorteio dos grupos é realizado e temos projeções e mais projeções de adversários que podem cruzar o nosso caminho - ou serem evitados a todo custo -, é que a maior competição futebolística do mundo torna-se algo palpável.

Antes de esmiuçar a sorte ou do azar que determinou os duelos e possibilidades até a final do dia 18 de dezembro, é preciso falar que a "escolha" do Catar como país-sede, com farta documentação contendo fortes indícios de corrupção, foi um troço inaceitável, além, é claro, das absurdas vistas grossas feitas pela própria FIFA para as condições - ou falta delas - de trabalho dos operários (ler o trecho da seleção catariana, no Grupo A). Como não recordar da fala emblemática do então secretário-geral Jérôme Valcke, quando ele ficou chiando sobre as dificuldades encontradas naquele Brasil pré-Copa para abrir a porteira e passar a boiada? Para ele, quanto menos democracia houvesse, mais fácil seria para organizar a competição (ou enfiar goela abaixo ou rabo adentro os gastos, para não dizer outra coisa, que este tipo de evento exige). 

Outra prova inconteste do padrão moral extremamente questionável da entidade foi suspender a Rússia pelo ataque militar à Ucrânia, mas fazer de conta que nunca viu coisas como a ditadura da Argentina, onde foi realizado, a toque de caixa, o Mundial de 1978 ou a Guerra do Golfo, liderada pelos Estados Unidos em 1990 e a posterior invasão ianque ao Iraque atrás de armas químicas que sequer existiam, em 2003. "Ah, mas era outro momento e outros dirigentes", o leitor poderá argumentar. Saiba que a Arábia Saudita tem atacado o Iêmen e ó, a FIFA nem se manifestou. Para ser justo, há três anos, a entidade máxima-mas-que-faz-o-mínimo deu um pito no país porque uma emissora local andou pirateando o sinal da Copa de 2018. Isso sim importa.

O ideal seria o local ter sido mudado. Como não foi e vai haver Copa de qualquer forma, vamos a isto. E, com a distribuição dos países, já dá para ter uma ideia do que virá. A grande novidade é que será disputada pela primeira vez entre novembro e dezembro para fugir do calor desumano do verão do Oriente Médio, ou seja, bem no meio do calendário europeu, onde milita a maioria dos jogadores que serão convocados. Por isso, como a entidade ainda não conseguiu alterar o Calendário Gregoriano para, sei lá, 13 meses, os clubes deverão liberar seus atletas para que se apresentem apenas a uma semana do início da prova. É uma vantagem para quem estrear mais tarde, como Brasil e Portugal.

Mas falando no sorteio, que afinal é o motivo deste raio de texto, ele reservou jogos bem interessantes para além dos recordes que volta e meia podem ser quebrados, como o número de jogos (caso Messi jogue todas as partidas e a Argentina chegue ao menos às semifinais) ou os gols marcados, posição liderada por Klose e que tem a ameaça, bastante remota, do compatriota Müller (10) e do quinteto Cristiano Ronaldo, Luis Suárez (7), Kane, Messi e Neymar (6), cujos postulantes precisariam fazer um mundial irretocável para isso.

Por falar em Messi, CR7 e Neymar, esta pode ser a última edição com o trio em campo. O desempenho ruim dos três em seus clubes - também pela zona que são United e PSG - pode fazer com que esta seja a única chance de salvar a temporada. Cristiano, com 37 anos, terá 41 na Copa de 2026. Messi, com 34, já estará ao pé da reforma e Neymar (30), embora não leve muito a sério, já ponderou que esta pode ser a sua terceira e última participação. 

Nos confrontos, reencontros históricos e com pitadas de geopolítica para ninguém colocar defeito, além dos sempre esperados duelos no mata-mata. A se lamentar, obviamente, a ausência da tetracampeã Itália e o cruzamento idiota que colocou Salah e Mané a brigar pela mesma vaga, e que só não fez o mesmo com Portugal e Itália porque a Azzurra conseguiu perder para a Macedônia do Norte.

Bom, feito este introito gigantesco, eis abaixo uma projeção grupo a grupo, seleção a seleção. Se alguém quiser dormir no meu barulho, é só me avisar que eu mando o pix para pegar minha parte do bolão.

Senhoras e senhores, divirtam-se! Alea jacta est! 

Grupo A
Catar (51º)
Países Baixos (10º)
Senegal (20º)
Equador (46º)

O Catar é o atual campeão asiático e tem todos os seus jogadores atuando no futebol local, e só está aí, repito, porque a FIFA é uma instituição com, digamos, padrões morais bastante elásticos. Além do propinoduto que inundou os bolsos de dirigentes suscetíveis a "agrados" (leiam os livros do saudoso jornalista escocês Andrew Jennings), a Copa custou a vida de ao menos 6,5 mil trabalhadores, isso sem contar as diversas violações aos Direitos Humanos, essa "bobagem" que a entidade máxima do futebol só leva em consideração no discurso. Apesar de ter adquirido experiência com a bem sucedida campanha na Copa das Nações da Ásia, do papel até digno na Copa América de 2019 e dos amistosos contra os times do Grupo A das Eliminatórias da Europa, deve levar três cacetes. Quem não torce por isso nem gente é.

A sorte sorriu para os Países Baixos - de volta à Copa após ter falhado a ida à Rússia - quando saltaram do pote 2 para o grupo do Catar, cabeça-de-chave que comprou a vaga na Copa ao comprar o direito de sediar a própria Copa. Novamente treinados pelo lendário Louis Van Gaal, que comandou a campanha do 3º lugar na Copa de 2014, os neerlandeses recuperaram a confiança e têm um time competitivo, embora ainda distante das principais forças da competição.

Atual campeão da CAN, o Senegal tem tudo para ser a sensação do torneio e - por que não? - repetir ou até superar a campanha de 2002, quando parou nas quartas-de-final e faltou um tiquinho só para pegar o Brasil na semifinal. Aliou Cissé, que esteve em campo naquela copa, tem um time bem interessante à disposição, com nomes entre os melhores do mundo em suas posições, como o goleiro Mendy, o zagueiro Koulibaly e o atacante Mané. 

O Equador, que teve uma classificação relativamente tranquila pensando na pontuação, apesar dos percalços no caminho, conta com o zagueiro Piero Hincapié, do Bayer Leverkusen, listado pelo CIES Football Observatory como um dos 10 melhores jogadores Sub-21 a atuar na Europa. Outro nome interessante é Pervis Estupiñán, de excelente temporada no Villarreal. Ademais, o técnico argentino Gustavo Alfaro não dispõe de nenhuma grande estrela ou algumas aspirações além de sonhar com o milagre da classificação. Por estrear contra o Catar, deve manter acesa esta chama até a última rodada, quando dará adeus à Copa com três pontos, justamente os da estreia.

Palpite do editor: este grupo deve ser decidido já na primeira rodada, no jogo entre Senegal e Holanda. Quem ficar em primeiro deve ter a vida mansa nas oitavas. Já o segundo tem 95,894% de chances de pegar a Inglaterra. Aposto em Senegal na ponta e a Holanda que se vire para passar dos ingleses.

21/11 (segunda-feira)
Catar x Equador - 13h
Senegal x Holanda - 7h
25/11 (sexta-feira)
Catar x Senegal - 10h
Holanda x Equador - 13h
29/11 (terça-feira)
Holanda x Catar - 12h
Equador x Senegal - 12h

Grupo B
Inglaterra (5º)
Estados Unidos (15º)
Irã (21º)
País de Gales (18º), Escócia (39º) ou Ucrânia (27º)

Aqui tem História e Geopolítica até os ossos! A Inglaterra, que está na companhia de seus "filhos", os Estados Unidos, na chave, tem um timaço e ele é para agora, depois de maturado pelas semifinais da Copa da Rússia e o inédito vice na Eurocopa. É desnecessário falar que quase todos os possíveis convocados jogam no Inglesão - a exceção é o meia Bellingham, do Dortmund - e é, de longe, a equipe mais forte da chave e uma das mais cotadas para ganhar a Copa. Resumindo, finalmente há a tal geração-mais-forte-desde-1966 e dá toda a pinta de estar prontinha para fazer os súditos da rainha deixarem de ser piada. De quebra, com seis jogos até a estreia no Mundial, é muito provável que Harry Kane chegue à Copa como o maior artilheiro do English Team (tem 49 e divide o segundo posto com o Sir Bobby Charlton, atrás somente de Rooney, que tem 53).

Os Estados Unidos, que venceram a última Copa Ouro, voltam ao Mundial depois de falharem a Rússia, estão com um time bastante renovado e têm nomes bem interessantes, como Pulisic, Mc Keanny e Timothy Weah, filho do lendário George Weah, mas caíram num grupo em que o noviciado deve cobrar o preço, ainda mais quando a principal força tem contas para acertar desde 1950, de um jogo que virou até filme, sem contar o sempre potencialmente quente duelo com o Irã, reeditando o histórico confronto da Copa de 1998, quando os iranianos venceram por 2 a 1. 

O Irã chega à sua terceira Copa seguida com uma dupla de ataque das mais interessantes, formada pelo competentíssimo e cavador de pênaltis Taremi, do Porto, e por Azmoun, que fez carreira no futebol russo, com grande destaque no Zenit e que agora veste a camisa do Bayer Leverkusen. Outro nome sonante é o goleiro Beiranvant, que defendeu um pênalti cobrado por Cristiano Ronaldo no empate por 1 a 1, que quase eliminou os portugueses na primeira fase da Copa da Rússia. E essa fama de estraga-prazeres não é recente. Em 1978, na sua primeira participação em mundiais, empatou com a Escócia, do craque Kenny Dalglish, e este resultado foi crucial para ditar a eliminação britânica no saldo de gols para a Holanda, que seria (bi) vice no vergonhoso Mundial da Argentina. 

Curiosamente, a segunda força do grupo deve vir do confronto da repescagem europeia que não foi definido por causa da Guerra da Ucrânia. A própria Ucrânia tem pela frente a Escócia, que terá a chance de dar o troco no Irã por causa de 1978, mas, para isso, além de vencer os ucranianos fora de casa, ainda têm que despachar o País de Gales, favorito para esta vaga e também para se candidatar a levar uma tunda do segundo do Grupo A nas oitavas. Ah, sem contar que, caso a Escócia chegue ao Mundial, será a primeira vez que o clássico mais antigo do mundo entre seleções (Inglaterra x Escócia) será disputado em uma copa, e justamente na véspera do aniversário de 150 anos do primeiro duelo entre "os pais do futebol moderno".

Palpite do editor: moleza para a Inglaterra avançar em primeiro, com 100% de aproveitamento. O segundo deve ser quem vem da repescagem, com alguma chance para os Estados Unidos aprontarem caso a inexperiência não atrapalhe.

21/11 (segunda-feira)
Inglaterra x Irã -10h
Estados Unidos x Repescagem europeia - 16h
25/11 (sexta-feira)
Inglaterra x Estados Unidos - 16h
Repescagem europeia x Irã - 7h
29/11 (terça-feira)
Repescagem europeia x Inglaterra - 16h
Irã x Estados Unidos - 16h

Grupo C
Argentina (4º)
México (8º)
Polônia (26º)
Arábia Saudita (49º)

O Grupo C poderia ser o T, de teta, para a Argentina, que chega à Copa finalmente com os excelentes nomes que têm agrupados como um time, o que não acontecia desde que o treinador era o saudoso Alejandro Sabella, na Copa de 2014. Será a primeira edição sem a presença material de Diego Maradona, mas alguém tem dúvida de que um eventual título será um milagre atribuído a São Diego? Time para isso, tem de sobra. "La Scaloneta" terminou as Eliminatórias com boas notícias, como a dupla De Paul e Paredes dando o equilíbrio que há tempos não era visto a vestir albiceleste, além de Di Maria envelhecendo como um bom vinho cultivado na França. Além do mais, esta pode ser a quinta e última Copa de Lionel Messi, que voltou a encontrar pela seleção a alegria que nunca teve no PSG.  

O México, que só chegou à fase de quartas-de-final quando sediou a Copa, em 70 e 86 (em 70 as quartas já eram a segunda fase), vem de sete eliminações seguidas nas oitavas, mas tem apresentado um futebol que o credencia a quebrar essa escrita e cair já na fase de grupos, o que nunca aconteceu desde que La Tri voltou da suspensão de dois anos que a tirou do Mundial de 90 graças ao escândalo dos "Chachirules". O único ponto que pode pesar a favor dos mexicanos é que boa parte dos convocados atua na Liga MX e costuma estar à disposição mais cedo que as demais seleções para iniciar a preparação, e isso pode fazer uma diferença danada em favor dos comandados do argentino Tata Martino numa competição que começa sete dias depois da data estipulada para os jogadores se apresentarem. Como curiosidade, se Guardado e Ochoa forem convocados, chegarão, a exemplo de Messi, a cinco Mundiais e igualarão a marca que tem mais dois mexicanos na lista: Carbajal e Rafa Marques, além do alemão Matthäus e do italiano Buffon (Cristiano Ronaldo também deve integrar este lote). 

Teoricamente, a briga pelo segundo lugar do grupo conta também com a Polônia, uma espécie de Amigos do Lewandowski FC. No entanto, alguns são amigos muito estimados, como o goleiro Szczęsny, o zagueiro Bednarek, o meia Krychowiak e o atacante Zielinski, que, se não são craques do primeiro escalão - e não são -, podem auxiliar o supercentroavente do Bayern a passar de fase e ver o que acontece contra, tudo leva a crer, França ou Dinamarca.

Bem, resta aqui a Arábia Saudita, quarta força da chave porque só existem quatro seleções em cada uma. Para não dizer que não há um deserto de ideias, o melhor jogador saudita, Salem Aldawsari, marcou o gol da vitória contra o Egito de Salah na Copa de 2018 e foi o grande nome da campanha das eliminatórias asiáticas. Com um pouco de sorte, somará um ponto, se muito.

Palpite do editor: a Argentina terá vida mansa ao menos na primeira fase. Depois disso, vem o segundo da chave D, que tem França e Dinamarca. A segunda vaga será disputada entre polacos e mexicanos e deve ficar na Europa. Para os sauditas, a vantagem é que o Catar é bem pertinho.

22/11 (terça-feira)
Argentina x Arábia Saudita - 7h
México x Polônia - 13h
26/11 (sábado)
Argentina x México - 16h
Polônia x Arábia Saudita - 10h
30/11 (quarta-feira)
Polônia x Argentina - 16h
Arábia Saudita x México - 16h

Grupo D
França (3º)
Dinamarca (11º)
Tunísia (35º)
Peru (22°), Austrália (42º) ou Emirados Árabes Unidos (68º)

A França é a melhor seleção do mundo no papel? É. Tem pelo menos dois jogadores de alto nível por posição? Em algumas, até três. É uma das favoritas para conquistar o torneio? Não seria loucura imaginar um novo bicampeão em edições seguidas, algo que só a Itália de Mussolini (1934 e 38) e o Brasil (1958-62) conseguiram. É a favorita do Grupo? É, mas terá que ralar para confirmar o status. Apesar de tudo o que tem, e tem muito, a França costuma oscilar bastante na fase de grupos e, nesta edição, tem uma companhia traiçoeira na chave e isso pode fazer com que Mbappé, Benzema e cia reeditem as oitavas de final da última Copa, quando passaram por cima do arremedo de time que atendia pelo nome de Argentina.

Antes da Euro, ninguém dava a mínima para a Dinamarca. Ok, era um time bom, de futebol vistoso, mas que, exceto por 1992, nunca deu em nada. Aí veio o drama do craque do time, o meia Eriksen na estreia da Euro e a recuperação dentro da competição até cair na semifinal para a dupla apito-Inglaterra. Nas Eliminatórias, caiu em um grupo bem baba e passou o carro em todo mundo. Isso sem seu maior expoente, que já voltou e, em dois amistosos, deu mostras que tem tudo para retomar o ritmo anterior e, ladeado a jogadores como Schmeichel, Christensen, Vestergaard, Maehle, e Höjbjerg, incomodar a poderosa França na disputa pela cimeira da chave.  

O grande feito recente da Seleção da Tunísia foi, na CAN, eliminar a Nigéria apesar dos 10 desfalques causados por um teste "duvidoso" de Covid-19, pelas oitavas-de-final. Aí, depois de despachar o favoritismo das Super Águias, o bico das Águias dos Carpatos não foi bom o suficiente para vencer Burkina Faso, caindo nas quartas. Seus principais jogadores, o zagueiro Bronn e o volante Skhiri (Metz-FRA e Colônia-ALE, respectivamente), dão alguma experiência de grandes ligas ao time, mas deve ser insuficiente para mais do que fazer figuração.

E este deve ser o mesmo destino de quem sobrar na repescagem que terá sido deputada pelo Peru, quinto colocado da América do Sul, e o vencedor do duelo entre Austrália e Emirados Árabes Unidos, terceiros colocados de seus grupos nas Eliminatórias Asiáticas.

Palpites do editor: apesar de oscilar, a França, se pudesse, montaria outro time entre os não convocados e, ainda assim, poderia se disputar a Copa sem fazer feio. Deve terminar em primeiro e deixar a Dinamarca no caminho da Argentina.

22/11 (terça-feira)
França x Repescagem Ásia/América do Sul - 16h
Dinamarca x Tunísia - 10h
26/11 (sábado)
França x Dinamarca - 13h
Tunísia x Repescagem Ásia/América do Sul - 7h
30/11 (quarta-feira)
Tunísia x França - 12h
Repescagem Ásia/América do Sul x Dinamarca - 12h

Grupo E
Espanha (7º)
Alemanha (12º)
Japão (23º)
Costa Rica (31º) ou Nova Zelândia (101)º

Desde a Era do domínio da Espanha, entre 2008 e 2012, esperamos que a próxima geração do futebol do país faça o que a turma de Xavi e Iniesta fez. Mas é impossível jogar o que Xavi e Iniesta jogaram se ninguém for Xavi ou Iniesta. E também porque a base daquela seleção, dividida entre Real Madrid e Barcelona, não é a mesma. Em todo caso, com Luiz Henrique, La Roja (ai, não pode mais chamar de Fúria) tem possivelmente a seleção com o jogo coletivo mais maduro, o que, de antemão, deixa os ibéricos com meio caminho andado. Porém, a consistência tática e o domínio de jogo não se traduzem em gols como antanho porque não se trata de um ataque demolidor, no qual Morata, Oyarzabal e Gerard Moreno não convenceriam as próprias mães de que são apostas seguras. 

Após sucessivos papelões, que podem ser entendidos como praga de brasileiro por causa do 7 a 1, a Alemanha disputará sua primeira competição sob o comando de Hansi Flick, que foi auxiliar de Joachin Löw. Sob nova direção, o Mannschaft tem jogado um futebol leve e envolvente que nem na hecatombe do Mineirão foi visto. Uma das primeiras medidas foi reintegrar o atacante Thomas Müller ao grupo. O camisa 13, a propósito, é o maior artilheiro em Copas do Mundo em atividade e, se fizer seis, igualará o também alemão Klose no topo desta lista. No mais, é um timaço com Neuer, o antivax Kimmich - que é um imbecil, mas é um imbecil que joga boa demais -, os atacantes de beirada de campo Gnabri e Sané. Ok, nem tudo é perfeito e há Timo Werner testar a paciência e a resiliência do povo germânico.

Bom, sobra o Japão, que tem suas esperanças depositadas no quinteto Endo, Minamoto, Kubo, Kamada e Morita, e quem vier da repescagem entre a Nova Zelândia - do centroavante Chris Wood, do Newcastle, que atua na Inglaterra desde os 17 anos, do capitão Winston Reid, que também tem muita experiência na PL, e de Liberato Cacace, jovem lateral em bom plano no Empoli - e a envelhecida Costa Rica, que capturou essa vaga pelo rabo. Los Ticos ainda contam com os intermináveis Navas (que é melhor que o Donnarumma), Celso Borges e Bryan Ruiz. Convenhamos, quem tem o Bryan Ruiz não deve estar muita coisa de interessante para fazer acontecer. 

Palpite do editor: na cultura japonesa, o número quatro deve ser evitado por causa da carga negativa que sua pronúncia tem (shi), que é semelhante à palavra morte. Imagino que, depois do sorteio, essa fama deverá ser do dia 1º de Abril. Aqui, o vencedor de Alemanha vs. Espanha (minha aposta aqui) deverá ter uma vida longa e próspera na Copa (ao menos até chegar às quartas de final).

23/11 (quarta-feira)
Espanha x Costa Rica ou Nova Zelândia - 13h
Alemanha x Japão - 10h
27/11 (domingo)
Espanha x Alemanha - 16h
Japão x Costa Rica ou Nova Zelândia - 7h
01/12 (quinta-feira)
Japão x Espanha - 16h
Costa Rica ou Nova Zelândia x Alemanha - 16h

Grupo F
Bélgica (2º)
Croácia (16º)
Marrocos (23º)
Canadá (38º)

Evidentemente, a Bélgica é a grande força deste grupo e esta pode ser o último Mundial em grande nível de boa parte do que vem sido chamado, primeiro como constatação, para depois tornar-se galhofa, de "A Ótima Geração Belga".  Na próxima Copa, jogadores como Courtois, Hazard, De Bruyne e Lukaku estarão com mais de 30 anos. Ainda assim, os belgas chegam à terceira Copa do Mundo seguida com o carimbo de favorito na testa, referendado por quem eliminou Brasil e Portugal nas últimas grandes competições, tendo caído para os campeões em ambas. Mesmo assim, caiu na chave mais "imprognosticável" desta Copa.

A vice-campeã Croácia não tem tido sucesso depois do surpreendente vice-campeonato em 2018. Nesta Copa, não terá nomes como Rakitic, que fechou sua conta na seleção, e Mandzukic, que já parou com esse negócio de jogar bola, mas tem Pasalic, Perisic, Kovacic, Vlasic e, principalmente, Modric, que tem jogado muito mais do que 2018, quando ganhou a Bola de Ouro. 

A Seleção de Marrocos, que ficou em último lugar em seu grupo em 2018, mas jogando melhor nos três jogos, vem de uma campanha honesta na Copa Africana de Nações, quando caiu nas quartas-de-final para o Egito, na prorrogação. No entanto, o treinador, o bósnio Vahid Halilhodzic, afastou Harit, Mazraouri e até o craque da equipe, o atacante do Chelsea Ziyech, que são "só" alguns dos principais jogadores, o que enfraqueceria qualquer equipe. Tem o excelente Hakimi, do PSG, mas não parece suficiente para avançar em um grupo tão equilibrado. 

Canadá é a atração do torneio na sua segunda disputa de Copa do Mundo, mas a primeira com jogadores de nível decente. Muito decente, aliás, como Stephen Eustáquio, que chegou ao Porto após grandes partidas pelo Paços de Ferreira; Jonathan David, jogador do Lille; Buchanan, do Bruggee; e, obviamente, aquele que é possivelmente o melhor lateral esquerdo da atualidade, o estupendo Alphonso Davies, do Bayern. A inexperiência pode cobrar o preço, mas é um time suficientemente bom para muito mais do que (não) fez em 86, quando deixou o Mundial sem nenhum golzinho marcado sequer, quando jogou o torneio até com jogadores do "soccer indoor", uma espécie de showball.

Palpite do editor: o grupo F tem o maior potencial para causar surpresas, mas, pela inexperiência canadense e pela falta de um ambiente interno decente em Marrocos, Bélgica e Croácia devem passar. 

23/11 (quarta-feira)
Bélgica x Canadá - 16h
Marrocos x Croácia - 7h
27/11 (domingo)
Bélgica x Marrocos 10h
Croácia x Canadá - 13h
01/12 (quinta-feira)
Croácia x Bélgica - 12h
Canadá x Marrocos - 12h

Grupo G
Brasil (1º)
Suíça (14º)
Sérvia (25º)
Camarões (37º)

Após roçar a perfeição nas Eliminatórias, o Brasil voltou a liderar o ranking de seleções da FIFA, o que não significa absolutamente nada além de servir para o torcedor brasileiro reclamar quando não é o primeiro e desdenhar quando é. O trajeto do único presente em todas as fases finais do Mundial e único cinco vezes campeão teve dois momentos: o primeiro foi de aborrecer, pragmático e sem brilho, mas com vitórias a dar com pau até garantir matematicamente a vaga; o segundo, com testes e chances para mais jogadores e deixando de lado até então intocáveis, deu ao técnico Tite material suficiente para pensar em algo mais do que empacar no primeiro europeu bem organizado que lhe calhar no mata-mata, como tem sido desde 2006. E o melhor de tudo: há vida, e muita, sem Neymar. Há Coutinho, Paquetá, Raphinha, Vini Jr, Thiago Silva, Marquinhos... bom, há muito como há muito tempo não se via.

O grupo dos reencontros tem duas seleções que estiveram no caminho já na primeira fase de 2018. E são chatas até dizer chega: Suíça e Sérvia. Coincidentemente, as duas mandaram para o limbo da repescagem a Itália, que ficou por lá, e Portugal, que se safou da vergonha de não chegar à Copa. Só isso já faz que sejam adversários que merecem respeito. Os alpinos, por exemplo, já haviam mandado a favoritíssima França para casa na Eurocopa. O duelo entre eles, marcado para a última rodada, tem potencial de gerar faísca por dois motivos: a provável disputa por uma das vagas e que deve ser a segunda, e, principalmente, pela questão geopolítica que já incendiou o último encontro entre as seleções, vencido pelos suíços por 2 a 1, com direito ao gol da virada ser marcado no último minuto e com o autor, Shaqiri, repetir o gesto que já havia sido feito por Xhaka, que empatou: as mãos simbolizando a águia de duas cabeças, presente na bandeira da Grande Albânia, área desmembrada entre os países da ex-Iugoslávia após as Guerras Balcânicas. Os dois, inclusive, seguem na seleção e têm a boa companhia de gente como os zagueiros Akanji e Elvedi, o ótimo meia Freuler e os atacante Embolo, Zuber e Seferovic, que fez dois dos três gols que ajudaram a despachar a França na Euro. A Sérvia também tem um poder de fogo respeitável, com a máquina de fazer gols da Championship Mitrovic (marcou o tento que jogou Portugal no tacho do capiroto em Lisboa), os ótimos Milinković-Savić, Tadic e Vlahovic, além de outros bons valores espalhados pelo campo.

E tem Camarões, que volta à Copa após falhar a presença em 2018. Os Leões Indomáveis estão novamente no grupo do Brasil, como em 2014, e o destino tem tudo para ser o mesmo: voltar para casa após três jogos. Como sempre, não é um exemplo de organização, tendo trocado de treinador após cair na semifinal da CAN, que era disputada em casa (e nem foi por 7 a 1), para o Egito. Saiu o português Toni Conceição e chegou o lendário Rigobert Song para realizar o milagre da classificação. Com Toni, já havia surpreendido ao terminar na liderança o grupo que tinha Costa do Marfim, mas o drama mesmo estava na repescagem: perdeu em casa por 1 a 0 para a Argélia de Mahrez, que tem muito mais time, para vencer fora e se classificar pelo já obsoleto critério do gol qualificado, ganhando por 2 a 1 após sofrer o gol de empate, que o eliminaria, aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação. O milagreiro, Ekambi, que joga no Lyon, também é um dos destaques do time. Também merecem atenção Choupo-Moting, do Bayern, o excelente Anguissa, do Napoli, e o instável, mas bom - ou o contrário, dependendo da boa vontade de quem lê - Onana, do Ajax.

Palpite do editor: grupo sob medida para o Brasil passar com alguma dificuldade, elevando o nível de competitividade para chegar em bom nível para o inevitável mata-mata. O pau deve torar pela segunda vaga, com uma leve tendência para a Sérvia avançar, apesar - ou talvez por isso - da minha torcida contrária. Camarões, que deve ter esgotado seu estoque de milagres, fica por aqui.

24/11 (quinta-feira)
Brasil x Sérvia - 16h 
Suíça x Camarões - 7h
28/11 (segunda-feira)
Brasil x Suíça - 13h
Camarões x Sérvia - 7h
02/12 (sexta-feira)
Camarões x Brasil - 16h 
Sérvia x Suíça - 16h

Grupo H
Portugal (8º)
Uruguai (13º)
Coréia do Sul (29º)
Gana (60º)

Da repescagem diretamente para o pote 1 do sorteio, Portugal deu caldo verde para azar, mas calhou-lhe um grupo que, se não promete facilidades, tem o mesmo condão de obrigar-lhe a estar em alto nível desde o início para não registrar uma nova campanha decepcionante pelo material que tem, ainda mais tendo a concorrência do Uruguai, que despachou a turma da caneta na orelha ainda nas oitavas-de-final na Rússia. Com Cristiano às portas da sua quinta Copa, tem uma defesa cujo eixo central ainda depende do interminável Pepe, mas formaria dois ou até três times muito competentes do meio para a frente. Talento não falta e quase todos atuam nas grandes ligas. O que falta é Fernando Santos encontrar uma forma para privilegiar um dos elencos mais fortes do mundo. Com a faca no pescoço e contra as inferiores Turquia e Macedônia do Norte, conseguiu. Em todo caso, não é bom duvidar de quem tem, além do CR7, Rúben Dias, Bernardo Silva, Diogo Jota, João Cancelo, João Félix, João Moutinho e Bruno Fernandes, só para ficar em alguns. Quem quiser desdenhar também pode, afinal, só quando chegou às semifinais é que Portugal venceu mais do que um jogo por Copa que disputou. Convenhamos, é um retrospecto fraquinho para quem tem o cartaz que tem.

A grande história desta chave, porém, é o reencontro entre Suárez, provavelmente em sua última Copa, e Gana. Para quem não sabe - o que seria imperdoável - ou não se lembra, os ganeses estiveram às portas de serem os primeiros africanos a chegarem às semifinais da Copa, em 2010. Para isso, bastava o craque do time, Asamoah Gyan, converter o pênalti que Suárez cometeu ao meter a mão na bola praticamente em cima da linha no último minuto da prorrogação. Ele acertou o travessão, o Uruguai venceu noa pênaltis com cavadinha do Loco Abreu e Luisito tornou-se herói nacional.

Heroísmo à parte, o Uruguai renasceu após estar praticamente desenganado nas Eliminatórias, quando trocou o lendário Maestro Óscar Tabárez, desde 2006 no cargo, por Diego Alonso e vencer os quatro últimos jogos. Há os intermináveis e perigosíssimos Cavani-e-Suárez, além do superbeque Godín, mais uma série de grandes nomes abaixo da casa dos 30 anos, como os zagueiros Araújo e Gimenez, o lateral Viña, os meio-campistas Torreira, Betancur, Ugarte e De Arrazcaeta, além da máquina de gols Dárwin Nuñez, que deve herdar a camisa 9 - ou a 14 - após o Mundial.

A Coréia do Sul, que não havia feito nada que prestasse em Copas até co-sediar a de 2002 e ser levada pela arbitragem até a semifinal, tem o espetacular Son, do Tottenham, como grande nome da história do futebol sul-coreano, e tem o apoio de Hwang, do Wolverhampton, para que não se diga que o camisa 7 joga sozinho. Ok, Kim, do Fernerbahçe, não é de se jogar fora, mas não parece ser o suficiente para que Paulo Bento possa levar o país ao menos a igualar 2010, quando caiu nas oitavas-de-final.   

O mesmo fado deve ser cantado pela seleção de Gana, que não esteve na Copa da Rússia e precisou eliminar a favorita Nigéria no gol qualificado para voltar aos mundiais. As Estrelas Negras, que de estrela mesmo só têm o Thomas Partey, do Arsenal, além dos bons Djiku, zagueiro do Strasburgo, do meia Kudus, que defende o Ajax, e de Afena-Gyan, "descoberta" de José Mourinho na Roma, não devem fazer muito mais do que sonhar com uma vitória contra os asiáticos do grupo e, porventura, atrapalhar os planos de portugueses e uruguaios. 

Palpite do editor: apesar da possibilidade de zebra aqui ser considerável, não dá para não imaginar Portugal e Uruguai chegando às oitavas. A saber, quem estará no caminho do Brasil. A aposta aqui é que haverá clássico sul-americano valendo vaga para as quarta-de-final.

24/11 (quarta-feira)
Portugal x Gana - 13h
Uruguai x Coréia do Sul - 10h
28/11 (segunda-feira)
Portugal x Uruguai - 16h
Coréia do Sul x Gana - 10h
02/12 (sexta-feira)
Coréia do Sul x Portugal - 12h
Gana x Uruguai - 12h

terça-feira, 16 de novembro de 2021

O inferno da repescagem


Procurei em sites brasileiros e do exterior como é a dinâmica da repescagem das Eliminatórias da Europa para a Copa do Mundo. Como não achei - e sou um jornalista, afinal -, fui ao site da UEFA e peguei as informações que precisava. Conta feita aqui, projeção feita acolá, eis o que será a demoníaca repescagem europeia para a Copa de 2022.

São 12 seleções disputando três carimbos no passaporte para o Catar, divididas em dois potes: os seis melhores segundos colocados no um e os quatro restantes, além dos dois melhores da última Liga das Nações que não se classificaram diretamente ou ficaram em segundo, no pote dois.

O formato é simples: serão três grupos com quatro seleções em cada, com uma semifinal e uma final dentro de cada grupo, sempre em jogo único, com o campeão de cada quadrangular garantindo a vaga para a Copa do Mundo. Os seis melhores jogam em casa e a "final" terá o mando de campo sorteado.

Até o momento, estão confirmados na repescagem: Portugal, Suécia, Itália, Escócia, Rússia, Polônia, Macedônia do Norte, Áustria (via Liga das Nações), Gales (segundo do E ou via Liga das Nações) e República Tcheca (idem). Restariam ainda duas vagas.

No Grupo D, Finlândia (11 pontos/dois gols de saldo) e Ucrânia (9/1) ainda jogam. Os nórdicos pegam a classificada França em casa e os ucranianos visitam a eliminada Bósnia. Como o primeiro critério de desempate é o saldo de gols, tudo pode acontecer.

No demoníaco Grupo D, está tudo em aberto: a Holanda lidera com 20 pontos e saldo "infinito" de 23; Turquia e Noruega têm 18, com vantagem no saldo para os turcos (10 a 9), que visitam a eliminada Montenegro. Já a Noruega tem confronto direto com a Holanda, fora. A Laranja Mecânica, que se enrolou ao empatar com Montenegro após abrir 2 a 0 e mantar o placar até o minuto 80, ficou de fora da última Copa e lhe basta empatar para evitar outra hecatombe e garantir a vaga direta do Grupo G, já que a Turquia não vai tirar a diferença de 13 gols no saldo nem a pau. Os turcos precisam empatar para garantirem no mínimo a repescagem. Vencendo, esperam pelo resultado de Holanda x Noruega para saber se comemoram ou se vão ao purgatório.

A Noruega, por sua vez, também tem que vencer para garantir ao menos a segunda colocação. Aí secaria a Turquia ou precisa fazer ao menos dois de saldo a mais, já que nos gols marcados (terceiro critério de desempate), os turcos têm 25 a 15 na frente). Se perder, a conta é a mesma: tem que esperar pela derrota turca com pelo menos dois gols a mais de diferença. Voltando à Holanda, se perder, terá que secar os turcos, ou então já era até a repescagem.

No Grupo E, que tem Gales em segundo (14 pontos e cinco gols de saldo) e República Tcheca em terceiro (11/3), a dúvida é saber para qual pote os britânicos vão. Basta vencer a classificada Bélgica para estar entre os seis melhores. Se empatar, segue o mesmo caminho de a Turquia não golear por quatro gols de diferença. Se perder, vai para o pote dois.

Neste momento, a distribuição está assim, entre os já classificados: Pote 1, já garantidos: Portugal, Escócia, Itália e Suécia; Na briga, mas que já jogaram: Suécia (15/6) e Polônia (14/8); ainda jogam: Gales (14/5), Turquia (12/1) e Finlândia (11/2); Pote 2, já dentro: Macedônia do Norte, República Tcheca e Áustria.

A Noruega, em terceiro no grupo G, tem 12 pontos e dois gols de saldo. Como há grupos com seis e com cinco seleções, os resultados contra os últimos colocados nos grupos com mais seleções são descartados para a definição dos melhores segundos colocados.

Mas qual é a vantagem de estar no pote um? Além de jogar o primeiro mata em casa, livra a seleção do confronto já nesta fase contra um dos outros cinco melhores. É a única separação e aqui é onde o filho chora e a mãe não vê. Pode ter gente grande se matando por uma vaga!

Serão três quadrangulares, A, B e C, nos quais serão distribuídas primeiro as seis do pote um e, depois, as do outro lote. Se, por um acaso, a ordem do sorteio de Portugal e Itália - para ficar em duas favoritas à Copa que quebraram a cara na última rodada - for 1 e 2, 3 e 4 ou 5 e 6, só um deles irá ao Catar, considerando que vençam a primeira partida, evidentemente.

Assim como pode acontecer com a Holanda, caso ela fique em segundo no grupo dela, pois com 14 pontos e saldo de gols de 18 (já descontados os jogos com Gibraltar), seria no mínimo a sexta melhor campanha, desde que não perca para a Noruega e a Turquia não vença, claro, pois aí ficaria em terceiro, como já foi falado aqui. Ou seja, se a Holanda passar em segundo, a chance de haver um confronto entre duas destas três grandes seleções é muito grande, pois ocuparão metade das vagas dos cabeças-de-chave.

Sem contar que, das seleções menos festejadas, ainda pode pintar um Haaland, um Bale ou um Lewandowski pelo caminho. Ou seja, o pau vai torar bonito e pode sim ter gente graúda vendo a Copa pela TV.

domingo, 11 de outubro de 2015

Confira o que cada seleção precisa fazer para se garantir na fase final da Eurocopa


"É a Copa do Mundo sem Brasil e Argentina, amigo!". Falta menos de um ano para esta frase, mais surrada que judas em Sábado de Aleluia, invadir a sala de todo torcedor que gosta de futebol europeu.

Ainda assim, o fato é que a Eurocopa é a segunda maior competição entre seleções do mundo, perdendo apenas para a própria Copa do Mundo, em relevância e também em tamanho. São 53 selecionados nacionais lutando pelo direito de estar na fase final. E ficou maior ainda, depois que o lobby feito pelo presidente Michel Platini, de olho nos votos das federações nacionais, fez aumentar de 16 para 24 o número de participantes do torneio, que volta à França pela segunda vez após a primeira edição, de 1960, e que foi disputado por quatro países.

Se por um lado o inchaço do certame tem razões meramente eleitoreiras, por outro possibilita países que nunca passaram perto da possibilidade de o disputarem sonharem com uma das vagas e proporcionaram momentos de êxtase em lugares como a Irlanda do Norte, uma das estreantes garantidas para o ano que vem, e que comemorou a vaga ao som de "Sweet Caroline".

As eliminatórias começaram no dia 07 de setembro de 2014 e, pouco mais de um ano e um mês depois, chegam à última rodada dos nove grupos. Entre barbadas, agradáveis surpresas e decepções clamorosas, onze equipes já garantiram suas respectivas vagas para a 15ª edição, dentre as quais três debutantes: a própria Irlanda do Norte, Islândia e País de Gales. Além delas, Áustria, Bélgica, Espanha, Inglaterra, Itália, Portugal, República Tcheca e Suíça já carimbaram o passaporte para estar na França entre 10 de junho e 10 de julho de 2016.

São 19 vagas diretas para os dois primeiros colocados de cada grupo e o melhor terceiro, mais quatro, que serão disputadas entre os oito terceiros restantes, no sistema de mata-mata, além da anfitriã França, perfazendo, assim, 24 países. Como um dos grupos tem somente cinco equipes, não serão considerados os resultados das partidas entre os terceiros colocados e os lanternas dos respectivos grupos compostos por seis seleções.

Confira, abaixo, grupo por grupo, o que é preciso para conseguir a apuração e, se for o caso, pegar o terço ou o pé de coelho:

Grupo A
Na sombra: Islândia e República Tcheca
Na briga: Turquia e Holanda
Já foram: Letônia e Cazaquistão
Última rodada nesta terça (13), às 15h45.

No grupo em que a Islândia garantiu sua primeira classificação à fase final da Euro e a República Tcheca confirmou a quinta presença seguida e oitava (se a considerarmos herdeira das campanhas da Tchecoslováquia, campeã de 1976), a Holanda corre o risco de ficar de fora pela primeira vez desde 1988, quando conquistou seu único título.

Para os turcos (15 pontos) avançarem para a repescagem e continuarem na briga pela terceira vez seguida, basta empatarem com a já classificada Islândia, fora de casa. Se perderem, torcem pelo tropeço da Holanda (13), em casa, contra a talvez desinteressada e classificada República Tcheca. Se terminarem empatados em pontos, a Turquia levará vantagem sobre a seleção holandesa. Se vencer a Islândia e o lanterna Cazaquistão bater a Letônia, fora de casa, os turcos abiscoitarão a vaga como melhor terceiro colocado, já que terão apenas dois pontos descontados na conta para se aferir a vaga pelo índice técnico.

Palpite do blog: o time do bravo guerreiro Netherland, vice-campeão do mundo em 2010 e terceiro em 2014, pode até vencer, mas fica pelo caminho.

Grupo B
Na sombra: Bélgica e País de Gales
Na briga: Bósnia-Herzegóvina, Israel e Chipre
Já foi: Andorra

Última rodada nesta terça (13), às 15h45.

Um dos debutantes dividiu a supremacia do grupo com a talentosíssima Bélgica, de Hazard, Lukako, Cortois, Chadli, Fellaini e De Bruyne, que volta à disputa pela primeira vez neste século. É o País de Gales, do craque Gareth Bale e do artilheiro amaldiçoado Aaron Ramsey. Mesmo perdendo a invencibilidade para a Bósnia-Herzegóvina, foi beneficiado porque Israel inventou de perder em casa para o Chipre, resultado que, além de fazer com que deixasse de depender apenas de si, ainda ressuscitou os cipriotas.

Assim, a última jornada reserva uma briga em que três equipes têm chances reais de pegar a vaga para a repescagem. Ao time dos Balcãs (14 pontos), basta vencer o Chipre (12 pontos) fora de casa. Se empatar, terá que torcer pelo tropeço de Israel (13 pontos), que pega a classificada Bélgica na casa do adversário. Os israelenses, que não podem nem sonhar com o empate, ainda precisam secar os bósnios, ao passo que o Chipre, que estava quase morto, seguirá sonhando com a sua primeira Eurocopa se vencer a Bósnia em casa e Israel não vencer a Bélgica. Difícil? Sim, mas o Chipre já venceu a Bósnia nestas eliminatórias, e na casa do adversário.

Palpite do blog: a Bósnia-Herzegóvina, que disputou a Copa do Mundo de 2014, terá sua sobrevida.

Grupo C
Na sombra: Espanha
Na briga: Eslováquia e Ucrânia
Já foram: Bielorrússia, Luxemburgo e Macedônia
Última rodada nesta segunda (12), às 15h45.

Dona de três títulos e atual bicampeã (e único país a vencer por duas vezes consecutivas), a Espanha não brilhou, mas se classificou para sua décima (e sexta seguida) fase final sem maiores problemas numa das chaves mais fáceis, apesar de ter sido surpreendida logo na segunda rodada pela Eslováquia (19 pontos), que poderia ter garantido por antecipação sua primeira participação se não tivesse conseguido a proeza de perder em casa para a eliminada Bielorrússia.

Mesmo assim, chega em condições de não precisar do purgatório para assegurar a presença em terras francesas. Basta não dar mais sopa para o azar e bater Luxemburgo fora de casa. Já a Ucrânia (19 pontos) zerou a diferença de seis pontos para os eslovacos em três rodadas, mas o fato de ter desvantagem no confronto direto, o primeiro critério de desempate, faz com que os órfãos de Schevchenko tenham que ganhar só da líder Espanha e torcer pelo tropeço do concorrente.

Palpite do blog: os ucranianos seguirão sentindo falta do Schevchenko e teremos mais um debutante em Paris. No entanto, pode sair deste grupo o melhor terceiro colocado.

Grupo D
Na sombra: ninguém
Na briga: Alemanha, Polônia e Irlanda
Já foram: Escócia, Geórgia e Gibraltar

Última rodada neste domingo (11), às 15h45.

Ao lado da Espanha, a Alemanha ostenta o maior número de títulos europeus. São três, sendo o último foi em 1996. Os atuais campeões mundiais também são os donos da maior sequência de participações seguidas na fase final da Eurocopa, com dez aparições. Mesmo com este cartel de respeito, os alemães ainda não carimbaram o passaporte. Poderiam, se não tivessem perdido para a Irlanda e adiado o apuramento.

Ainda assim, a chance de sobrar é meramente virtual. Com 19 pontos, basta vencer, em casa, a já findada Geórgia. É mel na teta. A briga mesmo deve ficar entre Polônia e Irlanda, ambas com 18 pontos e que se engalfinham na última rodada. Os germânicos, inclusive, só saem se perderem e houver um empate neste duelo, pois o número de gols marcados (primeiro critério de desempate quando três ou mais equipes ficam com o mesmo número de pontos) é menor.

Quem vencer o jogo se classifica. Se empatarem, aí dependerá de quantos gols forem marcados. Como o encontro no primeiro turno, disputado na Irlanda, acabou 1 a 1, se houver empate sem gols, passam os poloneses, que também jogam pelo empate por um gol e que tem o melhor ataque das eliminatórias, com 31 gols, e Lewandowski, que tem feito gols com a mesma frequência com que Galvão Bueno falou "gol da Alemanha". No caso de empate por dois gols ou mais, passa a Irlanda, pois faria mais gols fora de casa dentro do confronto direto. 

Palpite do blog: Alemanha trucida a Geórgia e será o único lugar onde a cerveja acabará. Na Irlanda, os pubs terão mais duas datas para esvaziar os barris.

Grupo E
Na sombra: Inglaterra e Suíça
Na briga: Eslovênia, Lituânia e Estônia
Já foi: San Marino

Última rodada nesta segunda (12), às 15h45.

Nunca foi tão fácil para o English Team. Nove jogos, nove vitórias e único time com aproveitamento pleno de pontos. A última vez que ficou de fora da fase final da Eurocopa foi em 2008, quando perdeu a vaga em casa para uma Croácia já classificada, com direito a frango de Scott Carson. A nova e de enorme potencial geração inglesa, dos excelentes Harry Kane, Sturridge e Sterling, tem a companhia da sempre chata Suíça, que se classificou sem sustos ao sapecar 7 a 0 no pobre San Marino, com seis gols no segundo tempo, sendo três de pênalti.

Aqui o negócio está praticamente definido. A Eslovênia (13 pontos) visita San Marino e tem tudo para chegar a 16. Estônia e Lituânia (10), além de torcer para San Marino, que nunca venceu ninguém, ganhar sua partida, teriam que bater Suíça e Inglaterra, respectivamente. Isso sem contar a incontável  diferença de gols a ser tirada. Esquece, né?

Palpite do blog: a Eslovênia será eliminada na repescagem.

Grupo F
Na sombra: Irlanda do Norte
Na briga: Romênia e Hungria
Já foram: Finlândia, Ilhas Faroe e Grécia

Última rodada neste domingo (11), às 13 h.

"Sweet Caroline, (Oooh) good times never seem so good Oh I've been inclined (Oooh) to believe it never would"
Foi assim, ao som de Neil Diamond, que os norte irlandeses comemoraram a vitória sobre a Grécia e a inédita classificação à fase final da Eurocopa. Uma festa espetacular para coroar uma campanha igualmente memorável do país de George Best. O papelão ficou a cargo do Navio Pirata, campeão em 2004 e que vinha de um papel decente na Copa do Mundo. A Grécia fica fora da sua primeira Euro depois de três participações seguidas.

Romênia (17) e Hungria (16) decidem quem se classifica e quem vai para a repescagem. Os romenos, que deixaram de jogar por um simples empate fora contra as Ilhas Faroe ao empatar em casa com a Finlândia, só precisam vencer seu jogo, que é contra um time que só pontuou contra a Grécia. Os magiares têm uma missão mais complicada para voltar à fase aguda da Eurocopa pela primeira vez depois depois de 1972, não pelo adversário em si, os gregos, mas porque têm que ganhar e torcer contra os romenos. No improvável caso de a Romênia perder e a Hungria empatar, eles terminariam iguais em pontos, mas a vantagem no desempate seria dos húngaros por terem feito um gol a mais fora de casa nos dois empates entre as seleções.

Palpite do blog: vai ter festa na terra do Conde Drácula, mas existe a possibilidade de o melhor terceiro colocado sair deste grupo, uma vez que ambos deixaram pontos pelo caminho contra os gregos, tendo, portanto, menos pontos a serem descontados na aferição do melhor terceiro entre todos os grupos.

Grupo G
Na sombra: Áustria
Na briga: Rússia e Suécia
Já foram: Montenegro, Liechtenstein e Moldávia

Última rodada nesta segunda (12), às 13 h.

A única participação austríaca numa fase final de Eurocopa aconteceu em 2008, quando o país foi uma das sedes do torneio - a outra sede foi a Suíça. Ainda assim, não foi grande coisa, caindo ainda na fase de grupos, com apenas um empate. No entanto, aqueles que já foram chamados de Wunderteam nos anos 1930 não deixaram dúvida nenhuma do que podem fazer na França, com a segunda melhor campanha (oito vitórias e um empate, na primeira rodada, contra a Suécia) até aqui entre os 53 postulantes.

A Suécia (15) tinha tudo para estar com a segunda vaga garantida. Além de ser o único adversário a tirar pontos dos austríacos, vinha invicta até a sétima rodada, havia ganho seus últimos dois jogos e aberto quatro pontos de vantagem sobre a Rússia (17). Aí veio o confronto direto com os russos, que venceram por 1 a 0, num jogo em que Ibrahimovic saiu machucado. Como desgraça pouca é bobagem, o jogo seguinte, com seu único craque atuando a meia bomba, foi contra a Áustria, que não foi nada amigável e, mesmo na Friends Arena, passou como um panzer e venceu por 4 a 1.

Para chegar à sua quinta Eurocopa seguida, os suecos precisam vencer a molezinha Moldávia em casa e torcer pela derrota russa, que enfrenta Montenegro, um adversário a quem venceu por 3 a 0 fora, em casa. Para completar, caso a Suécia vença e a Rússia consiga a proeza de empatar, terminam juntos, com 18 pontos, e a vantagem do confronto direto é da Rússia, que tem tudo para chegar à quarta fase final consecutiva e se manter como o país com mais participações na história do torneio (12 em 15 edições), caso a consideremos herdeira da União Soviética, campeã da primeira Eurocopa, em 1960.
        
Palpite do blog: Ibrahimovic vai para outra repescagem. A boa notícia é que Cristiano Ronaldo não estará em seu caminho.

Grupo H
Na sombra: Itália
Na briga: Noruega e Croácia
Já foram: Bulgária, Azerbaijão e Malta

Última rodada nesta terça (13), às 15h45.

Desde que sagrou-se tetracampeã mundial em 2006, a vida da Itália não tem sido fácil. Em 2008, foi eliminada pela campeã Espanha nas quartas-de-final, depois de uma fase de grupos medíocre. É verdade que na edição seguinte chegou à decisão após se impor sobre a Alemanha nas semi-finais, mas a tunda de 4 a 0 que levou da Espanha nunca será esquecida. Neste meio tempo, disputou duas Copas do Mundo e sequer avançou à fase de oitavas-de-final.

A boa notícia é que os intermináveis Pirlo e Buffon seguem comandando uma Azzurra em reformulação, que, mesmo se empolgar, se classificou invicta e sem sustos. Noruega (19) e Croácia (17) disputam a segunda vaga da chave.

A missão norueguesa é mais difícil. Precisa vencer a Itália fora de casa para não depender do resultado da Croácia, que joga com a baba Malta e tem tudo para ganhar sem maiores sobressaltos. Se a Noruega empatar e a Croácia fizer o seu, a vantagem no confronto direto é enxadrezada. A Croácia, aliás, só está dois pontos atrás dos nórdicos porque foi punida com a perda de um ponto conquistado contra a Itália porque algum imbecil desenhou uma suástica no gramado.

Palpite do blog: a não ser que consiga perder pontos para Malta, a Croácia passa. E sem juiz japonês para atrapalhar.

Grupo I
Na sombra: Portugal
Na briga: Dinamarca e Albânia
Já foram: Sérvia e Armênia

Última rodada neste domingo (13), às 13 h.

Depois de três repescagens seguidas (Copas de 2010 e 2014 e Eurocopa de 2012), finalmente Portugal se classifica de forma direta. O país vice-campeão em 2004 e semifinalista em 1984, 2000 e em 2012 garantiu, com a vitória por 1 a 0 sobre a Dinamarca, a participação na fase final da competição pela sétima vez (a sexta consecutiva), mesmo perdendo em casa na estreia e sendo o único dos já classificados a trocar de treinador.

Para fazer companhia à Selecção das Quinas, a Albânia (11) está com a faca e o bukë zize nas mãos, pois a Dinamarca (12), que surpreendeu o mundo ao ser campeã em 1992, quando foi convidada para ocupar o lugar da Iugoslávia, punida por causa da guerra, já encerrou sua participação do único grupo com número ímpar de participantes, o que faz com que uma seleção não jogue a cada rodada.

Dinamarqueses e Albaneses fazem uma força desgraçada para irem à repescagem, pois somaram apenas um ponto nos últimos três jogos. A Albânia, que  chega à última rodada com chances de classificação porque a UEFA lhe deu os pontos do jogo com a Sérvia, quando o pau comeu porque um drone sobrevoou o gramado com uma bandeira albanesa em provocação aos sérvios, visita a lanterna Armênia e precisa vencer para ser mais uma estreante em fases finais da Euro, já que está em desvantagem no confronto direto com a Dinamarca. 

Palpite do blog: apesar dos três jogos sem fazer gols, a Dinamarca será beneficiada pela ruindade albanesa.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

¡Gracias, Furia!

A desolação de um gigante (David Ramos/Getty Images/Veja)
Chegou ao fim o domínio do futebol espanhol. Os ibéricos caíram frente ao bom time do Chile e, após ter estreado na Copa do Mundo apanhando da Holanda por 5 a 1, disseram adeus com uma rodada de antecedência e o jogo contra a Austrália não passará de mero compromisso protocolar.

A Copa das Confederações foi o último suspiro do mágico futebol praticado por La Furia. No inédito bicampeonato europeu de seleções, o time de Vicente Del Bosque chegou trôpego àquela decisão, mas atropelou a Itália na final com um inquestionável 4 a 0.

Durante as Eliminatórias a classificação veio sem maiores problemas, embora sem muito brilho, em um grupo no qual tinha como principal adversário a inconstante França, e mais um monte de seleções inexpressivas.

O sonho de quebrar a escrita do bicampeonato mundial seguido (o último foi o Brasil, em 1958 e 1962) ruiu de forma inacreditável. Na estreia, contra os holandeses, o time espanhol fazia uma partida tranquila até levar o gol de empate. Depois que tomou o segundo tento, entrou em parafuso e, em momento algum, pareceu ter forças para empatar.

O jogo seguinte era contra o perigoso Chile de Jorge Sampaoli. Uma Espanha com mudanças, com Xavi e Piqué no banco, mas sem identidade, que não era nem sombra do time que mostrou ao mundo um jeito novo de jogar bola. Casillas e Xavi, dois dos maiores expoentes dessa geração, terminaram como símbolos do seu final. Enquanto o goleiro, que completava a marca de 17 partidas disputadas em Copas do Mundo, no seu terceiro mundial, e assim superava o também mítico Andoni Zubizarreta, falhava clamorosamente no segundo gol chileno, o já lendário meia sequer saiu do banco de reservas.

Como eu escrevi neste mesmo blog (leia aqui) após a já citada derrota da estreia, este time não merecia um final tão triste. Em todo caso, em vez de aproveitar para tirar um sarro ou bancar o vidente do passado, considero mais digno agradecer pelos quase dez anos de um futebol mágico, que poderei dizer aos meus netos que vi. ¡Gracias, Furia!     


Esta é a imagem que fica: um time que entrou para a história (Reuters)

sábado, 14 de junho de 2014

Queda do império

Nunca na história das Copas do Mundo um campeão levou uma cacetada tão grande na defesa do título como a que a Espanha levou hoje, da Holanda, na chuvosa Salvador. Desde que apanhou de seis do Brasil, no jogo que ficou marcado pela marchinha "Touradas em Madri", de Braguinha, sendo entoada por mais de 150 mil vozes, a Fúria não tinha as redes balançadas tantas vezes em Mundiais.

A hecatombe que pode ter posto termo, definitivamente, à supremacia espanhola, que durava desde a Eurocopa de 2008, pode se vista por dois prismas opostos. Deu tudo certo para a Holanda e tudo errado para a Espanha? Talvez. Pode ser simplesmente o fim de um dos ciclos mais vitoriosos da história? Pode ser que sim.

Até a marcação do golaço de empate do Van Persie, a Espanha era dona absoluta da partida. Havia feito 1 a 0 no gol de pênalti (inexistente) marcado por Xabi Alonso e amassava os holandeses contra seu campo, embora não criasse tantas chances de gol, como é natural no estilo de jogo "são dois times e o que tem a bola é a Espanha". 

Pouco antes do empate, Iniesta deixou David Silva na cara do goleiro e com Diego Costa, livre, na frente da moldura vazia. O médio resolveu tentar encobrir o goleiro holandês, que, caindo, conseguiu se esticar todo e evitar a dilatação do placar e a muito provável vitória espanhola. 

O segundo tempo veio e a fúria holandesa apareceu. Tudo bem que houve falta em Casillas no terceiro gol, em lance mais claro que o também faltoso sobre o brasileiro Julio Cesar, no jogo de ontem, mas o fato é que a Espanha não existiu na segunda etapa. Com Robben endiabrado, 5 a 1 foi um placar modesto.

São raras as vezes em que uma geração acolhe tantos jogadores brilhantes no mesmo país. E ciclos chegam ao fim. Não é coincidência que times cujo jogo tenha como base a posse de bola quase doentia, tenham ruído como castelos de areia. A própria Espanha, na Copa das Confederações, o Barcelona de Guardiola diante do Bayern de Jupp Heynckes, e mesmo o Bayern, este ano, já sob a direção de Guardiola, contra o Real Madrid. Em comum, como nesta tarde soteropolitana, os vencedores sufocaram a saída de bola e, quando a roubavam, chegavam em poucos passes na frente do gol. O terceiro gol da Holanda foi assim. Apertaram, tomaram a bola e precisaram de quatro passes para a bola chegar aos pés de Robben. Verticalmente.

Ainda faltam duas partidas e é pouco provável que Chile e Austrália tenham o poder de marcação da Oranje. Seja como for, La Furia tem lugar reservado no panteão dos grandes esquadrões da história. Tomara que avance, pois um time tão vitorioso não merece um fim tão melancólico.      

sábado, 7 de dezembro de 2013

Conjecturas

A partir do dia 12 de junho do ano que vem, a bola irá rolar sob os olhares de mais de 6 bilhões de pares de olhos espalhados pelo mundo. Para tanto, bolas menores definiram hoje, na Costa do Sauípe, a sorte (ou falta de) das 32 seleções que farão a festa do mundo da bola.

Já que todo mundo arrisca um palpite aqui, outro acolá, este blog não se furtará disso. No entanto, dessa vez, não é só a qualidade das representações nacionais que deve ser levada em consideração para o preenchimento dos bolões por aí afora: como este é um país de dimensões continentais, a distância percorrida e a expectativa da temperatura na hora do jogo farão sim a diferença. Ademais, por se tratar de um torneio de tiro curto, a própria tabela pode determinar o fado das seleções.

Para não ficar bagunçado, vamos por grupos, a começar pelo do Brasil, o A: tecnicamente, o escrete canarinho deve sobrar. Resta aqui uma vaga para ser tirada no tapa por Croácia, México e Camarões. Destes, Croácia e México trocaram de treinador durante as eliminatórias (ambos passaram pela repescagem) e os africanos ainda dependem de um Eto'o que já virou o fio, embora seja perigoso. Além disso, o ambiente interno é o pior possível. Não acredito que os Leões Indomáveis tenham vida longa. 

Engana-se quem pensa que, por conta do nível dos adversários, a vida brasileira será mansa. Os donos da casa viajarão mais de 4 mil quilômetros, passando por São Paulo, pelo calor cearense e pelo clima seco de Brasília. Sem contar que, nas oitavas, seu adversário sairá do Grupo B, onde estão os dois finalistas da última Copa.

Espanha e Holanda, favoritas do grupo, têm o Chile querendo ser a surpresa da chave e a Austrália. O país dos coalas e cangurus deve voltar feliz pro outro lado do mundo se fizer um ponto que seja. Os chilenos se classificaram sem maiores problemas e têm no ótimo técnico Jorge Sampaoli o maior trunfo. Em campo, porém, Vargas e Alexis Sanchez parecem não fazer frente aos espanhóis (já no panteão dos grandes times da história) e holandeses. Para aqueles que ainda tentam diminuir o favoritismo espanhol por causa da tunda que tomou do Brasil na Copa da Confederações, um aviso: o torneio teste para a Copa nunca apontou um campeão que fizesse uma copa decente logo depois. 

O Grupo C é um dos mais insossos. A Colômbia, dos excelentes Cuadrado, James Rodriguez, Jackson Martinez e, sobretudo, o mega-goleador Falcão Garcia, tem a companhia de Costa do Marfim, finalmente numa chave acessível, Grécia e Japão. Pela lógica, Colômbia e Costa do Marfim devem passar, mas é bom ficar de olho no Navio Pirata grego, que tem um time experiente, embora envelhecido, mas capaz de se fechar durante os 90 minutos e jogar por uma única bola. Quanto ao Japão, que até tem um time bom, não se espera muito.

Se a chave C não deve ter muitas emoções, o mesmo não se aplica ao Grupo D, que tem "só" três campeões mundiais: Itália, Uruguai e Inglaterra. Apesar do papelão da última copa, quando foi eliminada na primeira fase, nunca se pode fazer pouco da Squadra Azzurra. Pirlo e Buffon insistem em contrariar o tempo e seguem comandando a equipe de Cesare Prandelli. Mesmo não sendo uma geração primorosa, a camisa pesa. A Celeste, semifinalista na África do Sul, mantém a base daquele mundial, mas agora conta com os golos de um Cavani mais experiente e letal. Já a Inglaterra tem um time jovem e talentoso, mas cru. Pode pesar a favor dos uruguaios o confronto entre ingleses e italianos, em Manaus, já na primeira rodada, que deve fazer com que um dos europeus já chegue à segunda ronda precisando do resultado para se manter vivo. Ah, o outro time da chave é a Costa Rica. Próximo!

Grupo E: o grupo da morte de tédio. A França, que passou pelo purgatório de uma repescagem quase perdida, caiu no grupo mais baba da Copa, que tem como cabeça-de-série a Suíça, e os mequetrefes Equador e Honduras. Como se diz "teta" em francês?

A vida francesa deve seguir tranquila ainda nas oitavas, pois seu adversário sairá do Grupo F, que tem a favoritíssima Argentina, de Messi, Aguero, Di Maria e mais uma penca de bons jogadores, o bom time da debutante em Copas Bósnia-Herzegovina e os figurantes Irã e Nigéria. Nuestros hermanitos devem nadar de braçada até chegar aos quartos-de-final. Lionel pode não ter tido uma das temporadas mais fáceis, com lesões no lugar dos títulos, mas deve chegar à Copa nos cascos, física e tecnicamente. Ou seja, esta pode ser a Copa de Messi. O time dos bálcãs, que bateu na trave nas últimas competições (foi eliminado na repescagem da Copa de 2010 e da Euro 2012 por Portugal) vem da escola iugoslava, de toque de bola, e pode ser que avance.

Falando em Portugal, a Selecção das Quinas está no dificílimo Grupo G, ao lado de Alemanha, Gana e Estados Unidos. Os alemães são favoritos na chave, mas podem estar desfalcados de dois de seus principais jogadores no meio-campo, Schweinsteiger e Khedira, mas têm uma geração talentosíssima, repleta de jovens de nível como Götze e Reus. Os jogos no calor de Salvador, Natal, Fortaleza e Brasília podem favorecer o rápido time ganês, sem contar no duelo entre os europeus logo na estreia. No entanto, não se despreza uma seleção que conta com o melhor jogador do mundo em 2013. 

Portugal sobreviveu à terceira repescagem seguida. Precisou superar a Suécia para refazer o caminho das Índias mas de 500 anos depois, o que permite entender que, sob pressão, o time de Paulo Bento funciona. Em um grupo no qual o primeiro jogo é contra a Alemanha, trata-se de uma boa notícia. No entanto, as poucas opções de banco podem prejudicar o time da Pátria-Mãe, mas este deve passar, mesmo em segundo lugar.  Se o Puto Maravilha mantiver o nível das atuações deste ano, os patrícios não temem ninguém.

Caso avance mesmo em segundo, Portugal deve ter problemas já nas oitavas, quando pode ter pela frente o excelente time da Bélgica, cabeça do Grupo H. Sensação das últimas eliminatórias europeias, os belgas têm os ótimos Courtois, Kompany, Hazard, Lukaku e Witsel. Eles não vêm ao Brasil a passeio, diga-se. O segundo lugar do grupo deve ficar com a Rússia, que mandou Portugal para a repescagem. Coréia do Sul e Argélia brigarão para ver quem não fica na lanterna do grupo e, possivelmente, da Copa.

É óbvio que um tropeço, uma atuação mal conseguida, um erro de arbitragem ou mesmo uma jornada ruim, podem deitar por terra todas as explanações. Mas conjecturas não passam disso: conjecturas.