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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Símbolo de uma geração

* por Fabio Venturini

Luis Fabiano é expulso por reclamação após o fim do jogo no empate
contra o 
Arsenal (ARG). O atacante desfalcaria a equipe por quatro jogos
na Libertadores 
de 2013 (Marcelo Machado de Melo/Foto Arena)

Marcos Teixeira, o editor do Bola de Bigode, provocou-me um dia após a eliminação do São Paulo Futebol Clube na Libertadores de América 2013 a escrever sobre o avançado Luís Fabiano, futebolista muito amado e igualmente contestado nas arquibancadas do Morumbi.

Fui obrigado a aguardar para não deixar a emoção do momento (estava puto mesmo) me induzir a injustiças. Depois de algumas semanas vamos direto ao assunto: o camisa 9 tricolor é sim pipoqueiro e o artilheiro dos gols inúteis. Ponto.

Quem quiser discordar, por favor, relembre um único jogo grande em que Luís Fabiano Clemente foi fundamental para a vitória. Por outro lado poderia mostrar milhões de contusões a lá Valdívia, suspensões estúpidas, expulsões cavadas e apatia associada a icterícia no São Paulo, no Porto, no Sevilla e na Seleção Brasileira.

Juro, torci muito por ele e tentei ser paciente na última década, mas desisti. É o que este rapaz construiu em mais de dez anos de carreira, não apenas em 2013. Mas também devo ser justo: ele é apenas mais um numa geração inteira de pipoqueiros de brilho em partidas inúteis.
 

Contra o River Plate, outra vez após o final do jogo, nova expulsão. 
O jogador não pode bater o pênalti na decisão, e o São Paulo seria
eliminado na Copa Sul-Americana de 2013 (Marcelo Ferrelli/Gazeta Press)


Desde quando a bola se tornou redonda sobre os gramados brasileiros, as gerações de craques se sucederam, conheceram-se e ajudaram os novos talentos que surgiram posteriormente. Leônidas conheceu a geração de 1950, que conheceu Pelé, que conheceu Rivelino, que conheceu Zico, que conheceu Careca, que conheceu Romário, que conheceu Ronaldo, que conheceu Kaká, Robinho, Adriano, Ronaldinho, Diego e Luís Fabiano, que não conseguiram conhecer ninguém.

A um ano da próxima Copa do Mundo, em casa, o mister Luís Felipe precisa remendar um time cujo protagonista é um rapaz tão habilidoso no futebol quanto nos saltos ornamentais, de apenas 21 anos e sem nenhum experiente para dar respaldo, dividir experiência dentro do relvado e chamar a responsabilidade.

Pelé e Garrincha foram para a Copa de 1958 para serem reservas.

Os veteranos, aqueles que seriam o elo de ligação entre Romário, Ronaldo, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos com a geração de Neymar, Oscar, Lucas e Leandro Damião estão todos em uma espécie de aposentadoria ativa sem terem em seus currículos grandes e decisivas atuações. São tão ricos e competitivos quanto Rubens Barrichello.

O único desta geração com poder de decisão, mas que jogou a carreira (de futebol) fora foi Adriano. Os demais têm, no máximo, uma atuação decisiva quando ainda tinham alguma ambição.

Robinho decidiu a final do Brasileirão de 2002, e vive das pedaladas sobre Rogério até hoje.

Kaká foi protagonista em uma partida contra o Manchester United na UEFA Champions League de 2007 e, por ser educado e disciplinado, tem mais reconhecimento pelo título do que os experientes e decisivos Seedorf, Pirlo, Shevchenko, Nesta, Maldini, Dida, Gattuso e Cafu.

Ronaldinho decidiu contra a Inglaterra na Copa de 2002 e nada mais fez nos onze anos seguintes a não ser imitar uma foca com a bola contra adversários pequenos e sumir na hora agá.

Diego decidiu um jogo ganho nas semi do Brasileirão de 2002.

Luís Fabiano, por azar (ou mérito) conseguiu ser inútil em absolutamente todas as decisões que disputou, isso quando o fez, por isso é mais perseguido até pela própria torcida da camisa que defende.

Todos eles saíram brigados dos clubes que os revelaram, cuspindo nos pratos que comeram.

O merecido azar de não possuir no currículo aquele solitário embate que faz seus defensores terem um mísero argumento para apoiar a sua defesa fez com que, injustamente, Luís Fabiano Clemente sofresse sozinho pelo rótulo de pipoqueiro.

Em vez de ser reconhecido como o artilheiro dos gols inúteis deveria ostentar o cetro real de majestade e símbolo de uma geração talentosa, rica, idolatrada, mimada, ingrata e inútil.

* Fabio Venturini é jornalista.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A esposa traída



A saída do técnico Mano Menezes do comando técnico da Seleção Brasileira escancarou um racha na cúpula da entidade que comanda (ou deveria comandar) o futebol deste país. O ex-treineiro corintiano chegou à Seleção depois do trabalho questionável feito pelo seu antecessor, Dunga.

Diferentemente do capitão do título de 1994, Mano ascendeu ao cargo pelos seus bons resultados à frente de Grêmio e, principalmente, Corinthians. Também ajudou o fato de o ex-presidente corintiano Andrés Sanchez ter sido o chefe da delegação que representou o Brasil na Copa realizada no Continente Negro. 

Da mesma forma, Mano não conseguiu, nos quase 40 jogos em que treinou o time, encontrar uma base ou dar padrão de jogo ao escrete da camisa amarela. Tá certo que foi prejudicado, e muito, pela entressafra pela qual passa o futebol nacional. Não houve renovação desde a Copa de 2006. Tanto que não há um jogador sequer, nem mesmo Neymar, que goze de plena confiança do torcedor. Se houver, este é o volante Paulinho, que mantém na equipa nacional o altíssimo nível das suas atuações pelo alvinegro do Parque São Jorge, mas o fato é que o seu trabalho foi muito fraco.


Ainda assim, não foi por questões técnicas que o gaúcho de Passo do Sobrado deixou o cargo. Nos últimos jogos, à despeito do nível dos adversários, seu time apresentou um futebol vistoso, vertical, alegre. Isso coincidiu com o retorno do meia madridista Kaká, que passou a ser o porto seguro do jovem (e inexperiente) time brasileiro. A questão é mais profunda, ou melhor, rasteira, bem rasteira.

Sanchez chegou ao cargo de diretor de Seleções mesmo não tendo nada que justificasse a escolha, do ponto de vista técnico. No entanto, do prisma político, ou politiqueiro, fez todo o sentido. O ex-Todo Poderoso Ricardo Teixeira precisava de apoio para se manter no cargo de presidente da CBF, já que a proximidade da Copa do Mundo faria com que seus passos fossem mais "visados", por assim dizer. O então Presidente da República Lula, desgraçadamente, gozava de prestígio em todos os âmbitos. Assim, que tal colocar o presidente do seu Corinthians lá dentro? Em troca da fidelidade canina do corintiano, um estádio novinho em folha, com participação direta do ex-mandatário da nação, bancado em parte pelo dinheiro público e feito a toque de caixa para a Copa de 2014. Pronto, estavam todos felizes.

Mudou o governo e a presidente Dilma Rousseff, que parece ter mais decência que seu antecessor, embora não precisasse de muita para isso, fechou as portas palacianas para um Ricardo Teixeira cada vez mais afundado em denúncias de corrupção. Sua queda era questão de tempo. Pelas normas da CBF, assumiria o vice-presidente mais velho, e este era José Maria Marin. Ligado umbilicalmente à Federação Paulista de Futebol, Marin representou a mudança do epicentro do futebol nacional do Rio de Janeiro para São Paulo. A indicação do atual presidente da FPF, Marco Polo Del Nero, para vice-presidente da Região Centro Sul da CBF, escancarou o plano de permanência do poder. Caso o homem do cabelo acaju de gosto duvidoso e dos óculos Ambervision deixe o cargo antes das eleições, assumirá, novamente, o vice mais velho, e este é Del Nero. O constante entra-e-sai de políticos e dirigentes de todos os estados e correntes visto na sede da própria FPF deixa claro que existe algo em curso.

Imagem: Leonardo Soares (UOL)
Mas era preciso desfazer o último laço existente entre a CBF e Teixeira. Para isso, nada melhor que trocar o questionado treinador e guardar o lugar para aquele que mais agradar a opinião pública, fator fundamental para a tal permanência no poder. Assim, Andrés Sanchez foi fritado, lentamente, e viu o pouco de prestígio que seu cargo lhe conferia sumir de vez quando da queda do treinador que ajudar a içar. Ele, na condição de diretor de seleções, deveria ter voz ativa, não por mérito, mas de direito, no processo, e a ele coube apenas a desditosa missão de comunicar à imprensa e ao técnico a sua saída. 

Restará a Andrés, desconfortável como uma esposa que acabou de descobrir a pulada de cerca do marido, deixar o cargo e salvar o pouco de dignidade que ainda lhe resta. E tentar articular uma oposição que viabilize seu retorno à CBF. E garantir a "renovação" do cada vez mais secundário, pobre e endinheirado futebol brasileiro.


   

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ressurreição emergencial



Mano Menezes respira. O contestado treinador do escrete canarinho ganhou uma sobrevida após os últimos amistosos, sobretudo no de hoje, diante do Iraque. Não que o time do brasileiro Zico seja um adversário digno de testar até onde vai a evolução do time brasileiro, tampouco que Mano seja o único treinador questionado ou questionável da história da Seleção. A propósito, sofrer a saraivada de críticas é algo inerente ao cargo.

Mano Menezes, além da sua sabida limitação tática, assumiu o time nacional num dos maiores períodos de entressafra da história. Nunca a Seleção ficou órfã de jogadores experientes como está agora. Ou ao menos estava, agora que Kaká está de volta e caso ele tenha uma boa sequência de jogos, inclusive no Real Madrid, poderá ser este homem de quem tanto necessita a equipa nacional. Os grandes nomes da história do futebol brasileiro sempre foram amparados quando chegaram no escrete nacional. Pelé era um menino imberbe, que tinha em nomes como Nilton Santos, Djalma Santos, Didi, Zito e Gilmar seu porto seguro. Assim também com Zico, Romário e Ronaldo.


A maior diferença que pode ser vista no Brasil, independentemente da parte técnica e tática, é que com Kaká no time Neymar tem com quem dividir responsabilidades. Mais que isso, a joia do cabelo estranho e do futebol acima da média agora tem uma referência, alguém para o socorrer quando a vaca tupiniquim estiver deitando.

Mais que Neymar, Mano ficou órfão dessa referência. Ronaldinho Gaúcho, como era de se esperar, negou fogo. Ronaldo parou. Mesmo sem experiência, Ganso, que mais parece um veterano de tão calmo, também não esquentou lugar, muito por suas limitações físicas. Com Kaká em forma, o selecionador terá mais que uma reserva técnica: terá alguém para ser o condutor do time em campo.

Aí, sim, ele terá todas as condições de continuar sendo contestado e mostrar se merece estar na beira do campo em 2014.   

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Paris Saint Ghanim

* por Douglas Sato e Marcos Teixeira

Vistam fraque e cartola, caros leitores! O torneio mais disputado da Europa já começou. Muitas equipes fizeram suas apostas e investiram valores exorbitantes na contratação de grandes atletas. O Paris Saint Germain, mais conhecido como PSG, está nessa lista e todos esperam que a equipe repleta de estrelas tenha um bom rendimento neste primeiro ano de Champions League sob o comando do xeque Nasser Ghanim Al-Khelaïfi, o maluco rasgador de dinheiro que comprou o time do Canal +.

A equipe parisiense foi quem mais investiu na janela de verão com um valor aproximado a 147 milhões de euros, 47 a mais que o Chelsea, outra grande potência financeira da Europa que não costuma olhar o preço na vitrine. Vieram o zagueiro Thiago Silva, o lateral Van der Wiel, o ótimo trinco Marco Verratti, os avançados estrelados Ibrahimovic e Lavezzi, além de Lucas, que chegará ao final do ano.

Isso tudo, sem contar os zagueiros Alex e Lugano, sendo que o uruguaio nem chegou a ser inscrito no torneio, os meio-campistas Nenê, Javier Pastore e Thiago Motta e o atacante Kevin Gameiro, autor de singelos 14 gols na última temporada, que já estavam no plantel.

Pode ser que a vitória por 4 a 1, contra o Dínamo de Kiev, seja ilusória, até porque, tirando o Shakhtar Donetsk, que disputa regularmente a Champions League, a Ucrânia não possui tradição no torneio de clubes europeus. O que nos resta é ver se a equipe de Paris conseguirá realizar o sonho de inúmeros parisienses que almejam o caneco do Velho Continente. Sabemos que o dinheiro traz atletas e prestigio, mas canecos e futebol bonito é bem difícil, ainda mais sendo esta a primeira época da equipa da Cidade Luz. Veremos nas próximas rodadas se o dinheiro do xeque fará o Paris Saint Ghanim deixar de ser uma promessa de time grande.

Mas todo esse dinheiro, todo esse investimento, valerá a pena? O Real Madrid, por exemplo, detém a espantosa marca de nove títulos europeus, sendo o maior campeão da história da UEFA Champions League. Mas o que se viu nos últimos anos, entretanto, contrasta com tamanha grandeza, tanto que a última taça erguida foi na época 2001-2002, no começo da primeira Era Galáctica do megalomaníaco Florentino Perez.

Nas últimas temporadas, são inúmeras eliminações precoces, todas a partir das oitavas de finais do maior torneio entre clubes do mundo. Nos últimos dois anos, nem gastando os tubos para trazer gente como Kaká, Cristiano Ronaldo e Xabi Alonso foi suficiente para realizar o sonho merengue de conquistar o décimo título europeu.

* Douglas Sato tem 23 anos, é músico e estudante de Jornalismo 
(nesta ordem) e, nas horas vagas, é imitado pela dupla 
Cesar Menotti e Fabiano. E Marcos Teixeira ainda sou eu.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um trabalho sujo

* por Vinícius Carrilho

Um dos grandes sucessos da TV mundial é o programa Trabalho Sujo, apresentado e produzido por Mike Rowe. No Brasil, a série é transmitida há tempos pelo canal pago Discovery e também pela TV Bandeirantes, porém, neste último canal, em pequenos trechos. A ideia do programa é simples: mostrar os piores empregos do mundo.

Toda esta apresentação foi necessária para que de fato começasse a desenvolver o assunto inicial deste texto. Se algum dia encontrasse Mike Rowe pela rua, daria uma sugestão de emprego para que ele colocasse em seu programa. Sem dúvidas, falaria ao americano que uma das piores profissões do mundo é ser técnico da Seleção Brasileira de Futebol.

Escolher os melhores jogadores do Brasil parece ser um trabalho fácil, porém torna-se um verdadeiro martírio quando se tem mais de 190 milhões de patrões, sendo que a grande maioria é de uma incoerência digna de estudos. A começar pelo fato de que todos batem no peito e dizem não estão nem um pouco interessado na Seleção Brasileira, porém não é bem assim que as coisas são.

Comece pensando nos acontecidos pós Copa do Mundo de 2002. Parreira assumiu a Seleção Brasileira após um grande trabalho no Corinthians. Credenciado por sua longa carreira no futebol, tinha em mãos uma equipe repleta de bons jogadores, todos já com bagagem no mundo da bola. Reeditando a dupla tetracampeã do mundo com Zagallo, o treinador viu seus comandados conquistarem uma vitória heroica na Copa América de 2004 e ressurgirem das cinzas na Copa das Confederações de 2005, passando por equipes como Alemanha e Argentina após uma derrota para o México e um empate com o Japão na primeira fase.

Chegou então o ano de 2006 e o Brasil aparecia como a melhor equipe da Copa do Mundo da Alemanha, muito pelo chamado “quadrado mágico”, formado por Ronaldinho Gaúcho, melhor do mundo por duas vezes; Kaká, grande estrela do Milan; Ronaldo, o fenômeno e herói da última Copa do Mundo; e Adriano, ainda considerado o Imperador de Milão. Parreira não titubeou, atendeu ao apelo de seus 190 milhões de incoerentes patrões, que na época exaltavam essa grande equipe, e os colocou em campo. Porém, a magia do quadrado desapareceu e o Brasil acabou eliminado daquela copa por um gênio, que atende pelo nome de Zinedine Zidane. A partir deste momento, todas as conquistas anteriores foram esquecidas e então Parreira, de grande criador do quadrado mágico, passou a ser considerado velho demais por seus patrões. Resultado: deixou o comando da Seleção Brasileira.

Os patrões, que clamavam por renovação na comissão técnica e no time titular, tiveram mais uma vez seu pedido atendido. Dunga, em seu primeiro trabalho como treinador, chegava ao comando da Seleção Brasileira e promovia uma renovação moderada. Nomes conhecidos, como os de Júlio César, Lúcio e Kaká receberam a companhia de nomes até então desconhecidos, como os de Afondo Alves e Felipe Melo. A pressão sob o treinador começou aí e ele foi resistindo, vencendo a Copa América e a Copa das Confederações. Chegava então 2010.

A Copa da África do Sul começou com algum susto para o Brasil, após uma vitória magra por 2 a 1 sobre a Coréia do Norte. Na sequência, um trunfo sobre a Costa do Marfim e um empate com Portugal deram ao time o primeiro lugar do grupo. Nas oitavas, o Chile foi presa fácil e então chegou a Holanda. Com uma falha de Júlio César e uma expulsão de Felipe Melo (que antes havia dado a assistência para o gol de Robinho), a Seleção Brasileira estava mais uma vez fora do mundial e os dias de Dunga, que acabava de perder seu primeiro campeonato profissional, contados. Os patrões demitiam mais um treinador.

Então era a vez de Mano Menezes desempenhar um dos piores trabalhos do mundo. Vitorioso no Corinthians, o jovem treinador chegava credenciado também pelo trabalho realizado do Grêmio, anos antes. Os patrões, mais uma vez, clamavam por renovação e Mano atendeu, trocando praticamente todos os outros antigos convocados do último mundial. A safra de atletas era uma das mais fracas dos últimos tempos, porém a média de idade do time caiu consideravelmente.

Em campo, o técnico colocou o que havia de melhor e todos os jogadores em suas posições de preferências, da forma como atuam em seus respectivos clubes. Até então se passaram dois anos desde a contratação de Mano e em duas competições (sendo uma os Jogos Olímpicos, formado por jogadores Sub23), duas derrotas.

Mais uma vez os patrões não perdoam e pedem o cargo do treinador, que realiza exatamente o que antes era pedido a ele. Mano Menezes sabe que a paciência dos inconstantes donos da Seleção Brasileira se esgotará em seu próximo revés e a Copa do Mundo de 2014, antes meta imposta ao mesmo, pode ser vista apenas pela televisão. A última reclamação por parte dos patrões foi a convocação do goleiro Cássio, considerado o melhor arqueiro da Copa Libertadores da América de 2012. Acusam o técnico de ter convocado o jogador por ele ser empresariado por Carlos Leite, também empresário de Mano Menezes.

É por essas e outras que indicaria este cargo para o programa de Mike Rowe. Parece ser impossível conseguir agradar tanta gente que não suporta uma derrota ou a ideia que seu produto já não tem mais a qualidade de outros tempos. Parece impossível imaginar que algum dia, após tantas atitudes tomadas e pouco resultado final, passem os patrões a entender que deve ser cobrado aqueles que de fato fazem o jogo, dentro das quatro linhas. E se encontrasse Mano Menezes, acho que apenas diria para ele: “mas que trabalho sujo esse que você arrumou, hein mano?!”.

* Vinícius Carrilho tem 21 anos, é estudante de Jornalismo, 
morador de Osasco e gostaria de ganhar a vida fazendo humor, 
mas escreve melhor do que conta piada.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Terça-feira gorda

Em um dia de tantos assuntos, não poderia ficar apenas comentando o jogo da Lusa. Teve a lei da mordaça, implantada pelo Felipão, no Palmeiras, a suíte do pedido de dispensa do Mário Fernandes do time caseiro da CBF, a rodada da Champions, com direito à ressurreição do Kaká, a vitória do Benfica e a esperadíssima falta de profissionalismo de Tevez, no City.


Começando pelo Palmeiras, onde todo mundo grita e ninguém tem razão, não por falta de pão, mas de controle, Luís Felipe Scolari baixou determinação proibindo declarações dos jogadores à imprensa. A desculpa, esfarrapadíssima, por sinal, é que assim evita-se declarações polêmicas de alguém do grupo antes do jogo contra o lanterna América Mineiro.


O estopim foram as declarações do atacante Kléber, que reclamou de o time só fazer golos de bola parada. Falando em golos, o Gladiador não os marca há 100 dias. Muita resenha, pouca bola e nenhum respeito pelos companheiros. Felipão, perdido, não percebe que não será amordaçando o elenco que resolverá o problema. O buraco é muito mais embaixo: está na politicagem do clube, onde todo mundo manda, ninguém obedece e é o próprio Palmeiras quem perde com isso.


No Grêmio, Mário Fernandes voltou aos treinos um dia após dar uma bica na seleção caseira da CBF. Tudo o que tinha que ser dito a respeito o foi ontem. A vida segue, o lateral gremista terá outras chances com a camisa amarela e a seleção continuará agonizando na banalização promovida pela própria CBF, que conseguiu a proeza de transformar um Brasil x Argentina em um Araçatuba x Paysandu, só para manter as cores dos fardamentos.


Indo para o Velho Continente, rodada nobre pela Liga dos Campeões, com destaque para a vitória do meu Benfica (apenas porque é meu time), contra o romeno Otelul Galati, a ressurreição do futebol de Kaká na vitória madridista diante do Ajax, em dia de show do trio Ronaldo-Kaká-Benzema, e de mais uma molecagem do argentino Carlitos Tevez, que se recusou a entrar em campo na derrota do nanico endinheirado Manchester City para o enorme e fortíssimo Bayern de Munique.


A atuação do meia merengue é um alento para a Seleção, pois não há um meia sequer capaz de segurar o rojão. Kaká pode ser esse homem. Ganso é uma incógnita e Ronaldinho Gaúcho liderando o Brasil é uma piada de gosto extremamente duvidoso.


Em Munique, Tevez fez o que sempre fez: deu uma banana para o contrato que assinou e forçou, mais uma vez, a saída de mais um clube, como já fez no Boca, no Corínthians e no Manchester United. O clima é insustentável e o treinador Roberto Mancini disse que, com ele, Carlitos não joga mais. Agora ou o City o vende por um preço bem baixo ou vai ficar rasgando dinheiro com um ótimo jogador (e péssimo profissional) mofando, encostado.


Para fechar o dia, nada melhor que mais um espetáculo da Lusa. De manto novo e futebol à moda antiga, atropelou o Goiás no Canindé e abriu seis pontos do Náutico, segundo colocado. Rogério, Henrique e Marcelo Cordeiro marcaram, numa noite em que o maestro Marco Antonio desfalcou a equipa e Edno perdeu um comboio de golos, mas participou de dois dos que foram anotados. Mais Barcelusa do que nunca, o grená da camisa nova combina perfeitamente com o azul do céu que cobre as águas calmas que a nau lusitana navega em busca do porto seguro da primeira divisão.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Em silêncio, mas feliz

Hoje eu passei por uma experiência interessante. Assisti ao jogo de Portugal em um hospital. Explico: minha mãe está passando por um tratamento e precisava de um acompanhante. Logo eu me prontifiquei a sê-lo.


Como fico extremamente tenso quando a Selecção das Cinco Quinas joga, ponderei que aquele seria o lugar mais apropriado para acompanhar a partida. O começo do jogo justificou esta opinião: pelota na baliza, em cabeçada do becão Ricardo Carvalho. Depois a Coréia do Norte resolver engrossar o caldo verde e deu trabalho, muito trabalho.


Ao meu lado, um senhor careca ressonava, desinteressado que estava. "Esse time de Portugal é fraco", sentenciou após um perigoso ataque dos asiáticos que o despertou. A sala de espera onde eu estava, devidamente trajado com a minha camisola verde-encarnada, tinha uma meia-dúzia de três ou quatro, se muito. Todos balançaram a cabeça, para cima e para baixo, concordando com o idoso. "Ah, nem precisa do Kaká pra ganhar", disse outro rapaz, após (mais) um passe errado do Miguel.


Eu, da minha parte, estralava as articulações dos dedos para poupar minhas unhas e suava frio. Coçava a nuca de cinco em cinco minutos, até que Raul Meireles abriu o escore, após passe de Tiago, açucarado feito um pastelzinho de Belém. A vontade era de sair gritando, mandando um solene "chupa!", mas hospital é lugar de fazer silêncio. Até o fim do primeiro tempo, Portugal tentava atacar e a Coreia do Norte permanecia bem postada, dando poucos espaços para o time de Carlos Queiroz.



O intervalo trouxe um pouco de sossego, logo quebrado pelas inúmeras mensagens provocadoras recebidas via SMS. "Depois do jogo eles me pagam", maldosamente pensei.

Na segunda parte a sala já estava repleta de secadores tupiniquins, que achavam graça no meu sofrimento silencioso. As chacotas aumentavam à medida em que o esférico teimava em não entrar. A Coréia voltou do balneário pensando que, ao contrário do que havia feito contra o Brasil, atacar seria melhor negócio. Portugal, perdulário, atacava sem parar e perdia tantas chances quantas eram criadas. Foi quando Raul Meireles achou Simão livre na área e caixa! Dois a zero e porteira aberta. Mais cinco minutos e Hugo Almeida marcou o terceiro e Tiago, o quarto. Cristiano Ronaldo, com a braçadeira, comandava, sem frescura, o time português, que não saia do campo de defesa asiático.



A esta altura, os olhares zombeteiros davam lugar a expressões preocupadas. Meu telemóvel, outrora muito requisitado, calou-se repentinamente, enquanto o capitão luso acertava outro petardo à barra, para o terror dos presentes - e o meu frisson -, que torciam desesperadamente para que o craque madridista recebesse uma cartolina amarela, já que estava pendurado. O senhor careca, acordado como nunca, mudava de ideia: "Time bom esse de Portugal..."


Em campo, o camisa sete portuga distribuía generosos passes aos companheiros, deixando-os na cara do gol. A Coréia, recuada e acuada, tentava alguma coisa em tiros de longe, mas faltava-lhe competência. Competência que não faltou a Liédson. O Levezinho, que acabara de entrar na vaga de Hugo Almeida, marcou o quinto golo.


Ao contrário dos que me acompanhavam, eu estava muito satisfeito com o que via. Enquanto eles faziam contas e, invariavelmente, confundiam-se nos cálculos de pontos, saldos, cartões e intermináveis conjecturas, eu só esperava por mais golos, que vieram pois, pelos pés de Cristiano Ronaldo e pela cabeça do Tiago, o melhor jogador em campo.



Ao final do jogo, os incrédulos e assustados assistentes que me fizeram companhia resolveram parabenizar-me. Diplomaticamente, respondi a todos com um sorriso e um simpático "tomara que empatemos na sexta", estabelecendo uma politica de boa vizinhança. Intimamente, porém, eu pensava: "empate é o cacete!" Ah, os torpedos eu deixei para responder na sexta-feira à tarde.

Fotos: Reuters

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Seleção de Dunga

Texto publicado também no sítio Digestivo Cultural

* por Humberto Pereira da Silva

Na Copa do Mundo de 90, na Itália, o técnico foi Sebastião Lazaroni, que um ano antes ganhara a Copa América, competição na qual o Brasil não ia bem (a conquista de 89 quebrou um jejum de quarenta anos nesse torneio, que até então era o preferido de argentinos e de uruguaios). Com a conquista da Copa América, Lazaroni teve carta branca da CBF e levou para a Itália a primeira geração pós Zico, Falcão e Sócrates. Esta geração, como se sabe, perdeu as Copas de 82 e 86. Lazaroni, então, formou uma seleção com alguns egressos de 86, mas fundamentalmente com espírito diverso da geração anterior e que tinha no meio-campista Dunga uma espécie de emblema daquele grupo que foi para a Itália com o peso de conquistar um título que há 20 anos o Brasil perseguia.
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A seleção de 90 não se deu bem, foi eliminada justamente pela Argentina de Maradona, e aquele time passou para o anedotário do futebol como a "Geração Dunga". A história tem seus caprichos e, em 94, Dunga, capitão da seleção contra a vontade de muitos que viam-no de sobrolho, levantou a Copa do Mundo, num feito esperado por 24 anos. Dunga, ainda, em 98, novamente como capitão da seleção, chegou a outra final de Copa do Mundo, contra a França. O Brasil, como todos sabem, perdeu a final, mas não lembro outro capitão de seleção em qualquer país que tenha chegado a duas finais seguidas de Copa do Mundo (quem foi o capitão italiano nas finais de 34 e 38? O jornalista Paulo Vinícius Coelho, do ESPN e jornal Folha de S. Paulo, que se esmera com memória invulgar, responderia de bate pronto?).
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Dunga e sua geração foram estigmatizados em 90, ganhou a Copa de 94, mas, quando a Copa acabou, voltou-se para a imprensa e disse "esse título é para vocês, seus traíras!" Na época, com o título, Dunga tinha um alvo bem fixo: a imprensa esportiva. O tempo passa e, após a controvertida participação na Copa da Alemanha em 2006, Dunga foi chamado pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, para técnico da seleção. No início, desconfiança; depois, títulos, vitórias incontestes sobre a arquirival Argentina, sobre o Uruguai em Montevidéu, classificação antecipada para a Copa Sulafricana de 2010. Mas, após a convocação, a imprensa bate pesado em Dunga, que, quando tem microfones e holofotes, revida com virulência que impressiona.
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Recentemente, em entrevista coletiva, Dunga afirmou, para afrontar os jornalistas, que a seleção era sua. Se perder, será ele e sua seleção que serão derrotados e, portanto, alvos de ira jornalística. Dunga, por isso, foi acusado de levar para o "pessoal" o que é um trabalho jornalístico. O que se pode extrair é que Dunga, como figura do futebol brasileiro, marca como poucos (como jogador ou agora como técnico) sua passagem na seleção. Com seu estilo duro e seco, ele não agrada a gregos e troianos, mas creio que seria o caso de observá-lo com um olhar, digamos, mais pausado: ele tem história, sabe o que é futebol para além das pranchetas dos jornalistas especializados (tenho em vista principalmente Paulo Vinícius Coelho), ganhou, perdeu, foi estigmatizado e convocou uma seleção praticamente pautada pela relação de confiança num grupo que se formou ao longo desses últimos quatro anos.
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Espera-se que uma seleção não agrade a todos. A "seleção de Dunga" não é a que muitos gostariam, mas o que muitos podem não gostar, e isso não tem importância, é que ele dá a incautos e especialistas, com certa generosidade inconsciente, motivos para pensar. Se perder esta Copa, como ele e todos nós sabemos, será execrado; se ganhar, pode até ser desdenhado, como muitos desdenham a conquista de 94, mas a terá ganho e, junto ao coro dos ressentidos, ouvir-se-á: HEXA! O que se pode aprender com Dunga e sua seleção? Revelamo-nos à altura dos acontecimentos quando nos elevamos na vitória e na derrota, não quando choramos e procuramos culpados, como crianças imberbes que não têm a bola só para si.
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Mas o que quer dizer que Dunga leva para o lado "pessoal" o que seria um trabalho jornalístico? Creio que há muito tempo o trabalho da imprensa esportiva em época de Copa do Mundo, principalmente, carece de autocrítica. Para além da ajeitada de meia de Roberto Carlos na jogada que resultou no gol de Thierry Henry na derrota para a França na Copa de 2006, a imprensa tem também grande parcela de culpa pelo insucesso da seleção. O papel da imprensa esportiva é ― todos com bom senso hão de concordar ― cobrir a seleção, manter-se numa posição quase neutra para falar o que acontece, digamos, de "bom" e de "ruim". Mas muitos, muitos jornalistas acabam por ter uma influência que vai além da mera cobertura profissional. Num momento como o de Copa do Mundo, de ânimos exacerbados e de paixões incontidas, muitos jornalistas esquecem o profissional e falam da seleção como se fosse uma coisa "pessoal", de torcida a favor ou contra conforme não tenham a seleção que desejam.
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O que esperar dos jornalistas? Na posição em que eles estão, menos paixão, mais discernimento e cultura futebolística. Dunga tem história e sabe bem mais de futebol do que possa desconfiar nossa vã filosofia. O que esperar de Dunga? Que, se perder, tenha a dignidade e grandeza que tem demonstrado ao longo de sua carreira: uma derrota, como os gregos ficaram sabendo com os trezentos liderados por Leônidas em Termófilas, não é simplesmente uma derrota. Basta, para tanto, ler as belas páginas de Heródoto. As derrotas em 82 e 86 serviram para que não se cometessem erros similares em 94. A derrota em 2006 traz uma experiência a não ser seguida agora em 2010. A presença de Dunga como técnico da seleção afirma que em 2010 não se repetirá o que ocorreu em 2006.
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Dunga leva para o pessoal? Aí os jornalistas precisariam ter grandeza. Em certos momentos, argumentar que alguém leva para o "pessoal" tem algo como falar da bota do soldado antes do desembarque na Normandia. Quem entra em campo de batalha sabe o que pode sofrer, ou pelo menos o que o espera. Imagino no Dia D um soldado a reclamar que a guerra era uma questão pessoal. Estabelecidas as bases para o embate, não posso me esconder sob o manto dos sentimentos pessoais, com o risco de parecer criança sem a bola do jogo. Ao bater, é ingênuo exigir que meu oponente não me bata com força igual ou maior.
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O que parece mais saliente com esta "seleção de Dunga" é que grande parte da imprensa está tendo, como teve no passado, grande dificuldade para reagir com grandeza no caso de uma conquista ou de uma derrota. O que espero dos jornalistas em caso de uma vitória não é outra coisa senão lembrarem sempre que essa é a "seleção de Dunga", que assim se manifestou para lembrar que seu time não satisfaz o desejo de grande parte imprensa. Mas, a essa altura, alguém pode imaginar que creio que segmento expressivo da imprensa esportiva torce contra a seleção.
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Não acredito, sinceramente, que algum jornalista sério, mesmo que espinafre a seleção de Dunga, torça contra ela. Acredito é que o jornalismo esportivo no Brasil, em grande parte, reverbera a voz da galera, ecoa paixões incontidas, se dispersa em dores de jogadores como Kaká, fofocas de corredores e perde o senso de grandeza e de responsabilidade diante do evento. Raras vezes, cito Juca Kfouri (da ESPN e Folha de S. Paulo), vi um jornalista fazer meaculpa. Não é, portanto, que muitos bons jornalistas torcem, digamos, contra, é que perdem o senso do que dizem e de seus efeitos. Se não quero levar meu alvo de crítica a falar e depois, em momento de fraqueza, acusá-lo de levar para o "pessoal", eu teria que ter discernimento e acuidade para acusar a mulher de Cesar sem ofender Cesar.

*Humberto Pereira da Silva, 47 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de 
cultura de diversos órgãos de imprensa.

sábado, 15 de maio de 2010

Nossos Carlos

Caríssimos, como de hábito resolvi esperar um pouco pra tentar entender o que se passou nas listas de convocados das seleções lusófonas para a Copa. Vou ser bem sincero com vocês: não gostei de ambas.

Pra início de conversa, falemos sobre os escolhidos do Dunga. Deles eu só não esperava pelo Gomes, do Tottenham. Apostava no Victor, do Grêmio, ou no Hélton, guardarredes do Porto. No mais o Dunga não me surpreendeu. Inclusive na convocação do Grafite, já que ele esteve bem quando foi colocado em campo e eu tinha ouvido um cochicho, de fonte securíssima, quanto à sua convocação. Entretanto, se há um atacante que deveria ser convocado, pelo que vem jogando ou pelo que mostrou nas vezes em que atuou pela Seleção, este é Diego Tardelli. Se tivesse convocado o atacante do Galo, ninguém poderia chamar o treineiro de incoerente.

No que toca aos ausentes, talvez o PH Ganso, do Santos, e o corintiano Roberto Carlos poderiam ter lugar. O primeiro, porque seria um bom regra três pro caso de o Kaká não poder jogar. Já o experiente lateral não precisa ser testado, não é ruim de grupo e está jogando muito. Além do mais, os dois nomes chamados pra posição, Michel Bastos e Gilberto, além de jogarem no meio de campo, não vivem lá os melhores momentos da carreira.

Neymar não tem lugar, Ronaldinho Gaúcho não merece jogar outra Copa, Ronaldo é um ex-jogador em atividade e Adriano se desconvocou. Este se sobressai pelo enorme vigor físico que tem, pois tecnicamente é apenas comum. Como não tem agido como atleta, tornou-se um atacante mediano.

Embora entenda as razões que o levaram a chamar quem chamou, não significa exatamente que eu tenha gostado. Com esse inchaço de volantes e meias com características defensivas, ficou claro que a postura do Brasil de Dunga será especular e sair nos contra-ataques rápidos. Afinal, quem joga no erro do adversário, como faz o escrete nacional desde que o capitão do tetra assumiu o comando, não necessita de meias cerebrais. Basta ter médios que tenham um bom passe (e isso tanto Ramires, Felipe Melo e Josué têm) para acionar sobretudo os laterais, estes os principais fornecedores de bolas para os atacantes tupiniquins.

O que me preocuparia, caso estivesse torcendo para o Brasil, seria o fato de que, se marcarem as laterais e o único meia de criação, por ora Kaká, matarão o time, que dependeria exclusivamente dos lampejos do Robinho e do oportunismo do Luís Fabiano. Pra sorte do Carlos Caetano o país conta com a melhor defesa do mundo, que tem os ótimos Lúcio, Juan e Luisão, além do Júlio Cesar, melhor goleiro do planeta e que voltou a jogar bem. Ainda assim, acho pouco para uma Copa.

Pegando o voo Rio de Janeiro-Lisboa, chegamos à lista dos eleitos de Carlos Queiroz, selecionador de Portugal. Causaram-me espécie alguns nomes que constam e que faltam. Foram chamados 24 jogadores, numa referência clara de que irão esperar até o último instante pra ver se Pepe terá condições. Caso não as reúna, será cortado, estando o sportinguista Pedro Mendes já ambientado.

A presença do médio leonino foi uma das surpresas, assim como José Castro, lateral do La Coruña, Ricardo Costa, zagueiro do Lille e dos goleiros Daniel Fernandes, que atua no grego Iraklis(!), e Beto, do Porto. Ora essa! Como é que o Queiroz deixa de fora o principal goleiro do Campeonato Português, o benfiquista Quim, para chamar o Beto, que é reserva do Porto? Não por eu ser benfiquista, mas nosso arqueiro é o melhor pra posição. Agora, estranha mesmo foi a ausência do João Moutinho. Ele esteve presente em todas as convocações desde pouco antes da Eurocopa e ficou de fora. Como consolo, está na lista dos seis reservas, caso algum dos convocados não possa ir.

Particularmente, gostaria de ver o Nuno Gomes jogando sua terceira Copa, mas isso é apenas um gosto pessoal, apesar de ter que aturar o Hugo Almeida. No mais estamos bem serviços, apesar das laterais, eterno calcanhar de Aquiles do time desde que Dimas se aposentou. Temos Deco, Simão, Nani e Cristiano Ronaldo, mas não é o suficiente para algo maior do que sonhar.

O bacalhau está de molho, os tremoços já estão na geladeira e o vinho e a sardinha só esperam para serem degustados. E quero fazê-lo, em 11 de julho, assistindo a Brasil e Portugal. Com estas listas ficou mais difícil, mas confiemos nos Carlos, o Caetano e o Queiroz.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Entre Scolari e Lazaroni

Faltando poucos dias para o anúncio dos 23 jogadores que representarão o Brasil em mais uma Copa do Mundo, a pressão para que Dunga leve a dupla Neymar-Ganso aumenta a cada dia. Dunga não é o primeiro, nem será o último. Lazaroni não levou o hoje comentarista Neto pra Itália, assim como Felipão deu de ombros ao clamor nacional e deixou Romário no Rio, em vez de levá-lo à Ásia. A diferença, aqui, é que o Felipão voltou com a taça e ninguém mais lhe encheu o saco. Já Lazaroni...


Podemos apontar o dedo para o Dunga por diversos motivos, mas se tem uma coisa pela qual o gaúcho prima é o respeito pelos seus critérios. Assim que chegou, esquentando a cadeira até a sonhada volta de Scolari, tratou de enquadrar as duas estrelas da companhia: Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Ambos voltaram, mas este não aproveitou as infindáveis oportunidades que teve. Ele, Ronaldinho, não tem a confiança do chefe. Logo, está fora. Assim Dunga conseguiu, além de sair da sombra do Felipão, ter o grupo na mão, como reza o jargão do vernáculo futebolês. Convocar Gansos e Neymares seria arriscar perder o grupo.

Eu até gosto do Ganso. Jogador à moda antiga, joga de cabeça erguida, é rápido, tem rara visão de jogo e, como mostrou domingo passado, não treme. E o melhor de tudo: é sério. O Neymar domina todos os fundamentos básicos, como passe, chute, cabeceio e posicionamento, além e ter uma frieza que poucos veteranos têm na boca do gol. No entanto, parece que a fama lhe sobe à cabeça, não só na forma do moicano colorido, alisado e de gosto extremamente duvidoso, ou da gola da camisa levantada, mas principalmente na marra mostrada em campo e no detestável e condenável cai-cai. O jogador, sobretudo o atacante, deve ser malandro, sim, mas o que o Neymar vem fazendo beira a cafagestagem.

Não creio que Carlos Caetano os leve, embora gostaria de ver o dono da 10 do Peixe na lista. Restará esperar para saber que lugar a história reserva ao treineiro do escrete nacional. Se ficará ao lado de Felipão, na galeria de heróis, ou se fará companhia a Sebastião Lazaroni, com os fantasmas do passado arrastando suas correntes atrás de si, para todo o sempre.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O outro

Ontem, pela Copa do Brasil, o Santos deu mais um espetáculo. Como de hábito, cilindrou o adversário, que desta vez foi o Bugre campineiro. Foi um massacre. Só Neymar, em noite (ir)real, fez cinco. Com direito a gol com tabelinha no adversário, como fazia, no mesmo estádio, o dono do cetro e da coroa.

Entretanto o grande nome do jogo, na visão deste que vos escreve, foi o dono da mítica camisa 10 do alvinegro praiano, que responde pelo nome de Paulo Henrique, o Ganso. Há muito tempo essa camisa não veste tão bem. O garoto é craque! Joga fácil, de cabeça erguida, cadencia com raro talento o futebol do Peixe.

Ganso, o craque santista (Miguel Schincariol)

O genial Luis Fernando Veríssimo criou, há algum tempo, o "outrista", um sujeito que acharia a Paula melhor que a Hortência, o "Magic" Johnson mais genial que o "Air" Jordan e que por certo torceria pro Tom pegar o Jerry. Pois bem, visto a carapuça do outrista, pois Neymar e Robinho podem ser os mais festejados do elenco, mas o maior responsável pelo hipnótico futebol do Santos é ele, PH Ganso. Assim como atrevo-me a dizer que o maior nome do Barcelona é Xavi, em vez de Messi.

Que a imprensa pare de aporrinhar o técnico da Seleção pra que ele chame o Ronaldinho, já que Kaká não teria um imediato à altura, O gaúcho teve todas as chances e não as aproveitou. O homem certo pra função é o 10 da Vila. É o maestro do melhor time que o futebol brasileiro já viu nos últimos doze ou treze anos e não levá-lo por não tê-lo testado ainda seria mais que um desperdício, seria um desaforo. E, como diz o mestre Antonio Quintal, tão luso quanto eu, futebol não aceita desaforo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Os craques dos jogos fáceis

Na semana passada, antes do espetáculo dantesco que a “seleção” nos proporcionou no Maracanã, frente à Colômbia, o meia Kaká foi homenageado, passando a ser o jogador mais novo a ter seus pés imortalizados na calçada da fama do maior do mundo. Na mesma ocasião, Robinho também foi homenageado, ao ver seu belíssimo drible contra o Chile registrado numa igualmente belíssima seqüência de fotos.

O curioso, pra não dizer lamentável, é que eles foram homenageados por absolutamente nada, ou pouco mais que isso. O que eles fizeram pela Seleção a ponto de receberem tal honraria? Nada!




Kaká brilha no Milan. Na equipe canarinho a única conquista dele foi estar no grupo que foi campeão do mundo em 2002. Recentemente, quando Dunga precisou dele pros Jogos Olímpicos, foi operado no joelho e ficou de fora dos jogos. Depois reconheceu que poderia esperar pra passar pela cirurgia.

E o Robinho? Além das firulas, pouca coisa. Aquele drible foi bonito, mas dar essa importância toda? Ainda mais pra um jogador que fugiu da Olimpíada? Alegou uma contusão e durante a competição já estava fagueiro e serelepe, já recuperado. Contra a Colômbia, se contundiu e pediu pra sair, mas após o jogo estava “atuando” num pagode com alguns amigos. E disse que estaria à disposição do seu time, o Manchester City.


Temos o péssimo hábito de cultuar ídolos instantâneos. Um drible mais sofisticado chama muito a atenção. Gols, então, meia dúzia basta pra render contratos milionários, e infelizmente a Seleção, que era o ápice da carreira profissional de um atleta, hoje nada mais é que um mero trampolim, uma simples etapa pra se ganhar dinheiro, muito dinheiro. Não que eles não mereçam. Que ganhem milhões, mas que deixem a “amarelinha” pra quem tem vontade de jogar, de verdade. E não querer aparecer somente em jogos fáceis.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Seria o ocaso?




Saiu ontem mais uma convocação da “Seleção”, desta feita para os jogos contra Venezuela e Colômbia, válidos pelas eliminatórias para a Copa de 2010. Evidentemente, apenas protocolo, pois as chances de ficarmos de fora da Copa são as mesmas de a Angelina Jolie se separar do Brad Pitt para se casar comigo.

Um fato em especial chamou-me a atenção: não a inevitável e inadiável volta do Kaká, nem as convocações absurdas de Kleber, Juan e Doni, ou o merecidíssimo chamamento do interista Mancini para, finalmente, atuar na frente, mas sim a ausência do ex-número 1 do mundo, Ronaldinho Gaúcho.

Não é de hoje que defendo a tese de que ele não deva ser convocado pro escrete canarinho. Afinal, exceto na Copa de 2002 e naquele jogo contra o vento, ou melhor, Venezuela, quando fez um glaço com direito a chaleira e tudo, nada mais fez que justificasse a sua condição de intocável. Em termos de clubes, tudo bem, sempre foi um monstro, apesar da última temporada, mas na Seleção poucas vezes foi além de um bom coadjuvante.

Está certo que a ausência se deve à sua condição física, ou falta dela, mas é algo que me parece sintomático.

Em outros tempos, mesmo estando 300 arrobas acima do peso ideal, ele teria sido chamado, como, aliás, fora imposta pelo Dom Ricardo Corleonne Teixeira a sua ida aos Jogos Olímpicos, recentemente findados e de amargas recordações para a torcida brasileira.

Sempre me pareceram estranhas as suas contusões. Alguém se lembra de alguma vez tê-lo visto sair machucado de algum jogo? É estranho como ele só se lesiona nos treinos, sem que haja uma imagem sequer do momento da contusão. Sem querer ser leviano, essas contusões coincidem com a estreia do craque na noite espanhola.  

A perda do prestígio do camisa 80 do Milan fica ainda mais evidente com a convocação do Kaká, outro que já foi considerado o melhor do mundo.

Não sei se você, caro leitor, concorda, mas a opção pelo Dunga para ser o atual treinador do Brasil foi uma espécie de contraponto à esbórnia na qual se transformou a Seleção na última passagem da vitoriosa dupla Parreira-Zagallo no seu comando. Como não foi possível repatriar o Felipão, optou-se por alguém cujo nome fosse associado à entrega, à disciplina, itens que faltaram na Alemanha.

Para mostrar quem manda, tratou de afastar as duas maiores estrelas da companhia, os já citados Kaká e Ronaldinho, para servirem de exemplo aos que estavam chegando. Não demorou para que voltassem, obviamente, mas só um deles permaneceu.

Depende só dele, Gaúcho, recuperar o terreno perdido e a camisa 10, que está órfã desde que Rivaldo saiu. Talvez aí esteja o problema.