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quinta-feira, 9 de março de 2023

PORTUGUESA - Lições do Gonzaguinha


“É, 
A gente não tem cara de panaca,
A gente não tem jeito de babaca,
A gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela.”

O enorme e necessário Gonzaguinha (1945-1991), filho adotivo do eterno Gonzagão, que também serviu de inspiração para um dos textos favoritos deste humilde escriba, cantou estes versos num momento em que nós respirávamos a democracia recém restaurada no Brasil. Era o fim dos anos 1980.

Duas décadas e um bocadinho depois, houve o caso Heverton e é escusado falar aqui tudo o que aconteceu durante e depois daquela sacanagem. Jogo jogado, tapetão, mesas viradas. Nem é possível falar em guerra nos bastidores quando um dos lados tem todas as armas e o confronto é com quem tem, se muito, um estilingue e o espírito da lei a seu favor.

O tal espírito da lei, ou mens legis, é a vontade da lei. “Mens legis lex est” (O espírito da lei é a lei – e é favor ler com a voz do Cid Moreira ou do Jonas Mello pra dar um ar de imponência à frase). É implícito, subjetivo. 

Quase dez anos depois, lá vamos nós à voltas com regulamentos, artigos, parágrafos e esse juridiquês que ninguém entende, tampouco fecha a questão. O São Bento, que conseguiu ser mais incompetente que a gente, enviou um ofício safado alegando que a Portuguesa havia descumprido um dos artigos do Campeonato Paulista e, portanto, deveria perder o ponto do clássico com o Corinthians porque mandou o dito cujo fora da cidade onde tem sua sede.

Disse o legislador que “no ano do acesso, o Clube deverá, obrigatoriamente, disputar suas partidas como mandante no município de sua sede, sob pena de perda das partidas por W.O.” Aí vamos para o tal espírito da lei: este artigo foi colocado no regulamento para forçar os clubes a terem um estádio em condições de receber os jogos, senão, nada feito, tanto que o parágrafo 1º coloca que, “na hipótese de caso fortuito ou força maior, e desde que o Clube disponha de Laudo de Engenharia atestando capacidade de acordo com o caput do art. 5º deste RGC, a FPF poderá liberar a disputa da primeira, segunda e terceira partidas do Clube como mandante em local diverso de sua sede”. É o tempo para adequar sua casa ao que exige o regulamento.

O outrora simpático clube sorocabano comete dois erros terríveis e patéticos neste pedido, além da questão moral de fazê-lo, que pode ser vista como uma obrigação, mas que tem o ônus da vergonha tatuado na testa caso a empreitada falhe, como falhou: envia o ofício (bem) depois de 48 horas da entrada da súmula da partida na FPF, prazo máximo estipulado pelo CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), conforme alertou ao NetLusa Rodrigo Marrubia, advogado especializado em direito desportivo; e data o documento em 7 de fevereiro, cinco dias antes da partida, inclusive com o resultado do jogo. É quase uma grilagem. Ou um dom de antevisão incrível de causar inveja ao Herculano Quintanilha, mas que deveria ser usado para adivinhar que o rebaixamento estava vindo aí. Ou um erro de amador.

Por falar em erro de amador, a Portuguesa arriscou. “Pôs-se a jeito”, como dizemos em Portugal, pois o regulamento não é claro na sua intenção e isso dá margem a qualquer interpretação. Ou, como disse o Luiz Gonzaga do Nascimento Jr, deixou a bunda na janela. E por mais que seja óbvio que o regulamento quer dizer o que foi dito aí em cima, dá margem para que, no mínimo, gastemos energia em outras coisas que não a disputa da Taça Independência, que renderá ao campeão 400 paus, que são 40% do que foi embolsado pela Lusa ao levar o jogo com o coirmão de Itaquera para Brasília. Além de ser um título, ó caraças! 

Como comecei este artigo citando Gonzaguinha, termino da mesma forma:

“A gente quer é ter muita saúde.
A gente quer viver a liberdade.
A gente quer viver felicidade”.



Texto originalmente publicado no NETLUSA

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - O ano que não terminou

Texto originalmente publicado no NetLusa*


“Lemniscata” é um termo originado do Latim que significa, no Esoterismo, a eterna recriação e a repetição do Universo. É a infinitude representada por uma espécie de 8 deitado.

Este é um número cheio de significado para mim, na minha relação com a Portuguesa. Era o número do Toninho, meu primeiro ídolo; Dener, o craque que o tempo nos negou, usava a oito na histórica Copa São Paulo de 1991; Enéas, o gênio esquecido, que aterrorizou defesas adversárias com a Cruz de Avis ao peito e o 8 às costas, tornou-se eternidade oito anos depois de ter saído da Lusa.

Era um 27 de dezembro, exatos 25 anos antes do dia 27 de dezembro de 2013, dia em que o farsante STJD condenou a Portuguesa à Série B graças à escalação do meia Héverton na última rodada do Brasileirão daquele ano, no último jogo da Lusa na Série A.

O dia? Oito de dezembro. Há exatos oito anos.

Não vale a pena relembrar nestas linhas o ocorrido, pois uma simples busca no Google traz toda a sorte de informações e opiniões, estas nem sempre corretas, do que aconteceu para que a Portuguesa pusesse-se a jeito, como diz-se em Portugal. Como também não faz sentido nenhum não admitir tantos erros que nos deixaram ao alcance da armação que teve lugar na malfadada Rua da Ajuda.

Mau fado este, o nosso. Um fado cantado com melancolia, como todo bom fado deveria ser, caso este fosse bom. Não se enganem: faça o que fizer, a Portuguesa só começará a sair do limbo em que se encontra no dia em que exorcizar seu maior fantasma. No dia em que o ano de 2013 deixar de ser eterno.

Só depois disso é que será possível retomar alguma coisa. Até lá, o samba do mestre Cartola, que nasceu em 1908 e partiu em 1980, cairá como uma luva para o fado lusitano: “Em cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares, estás à beira do abismo. Abismo que cavaste com seus pés”.

E este abismo já dura oito anos de um sofrimento perene, contínuo, uma eterna recriação, uma repetição de um pesadelo que não acaba.

Lemniscata.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Gre-Nal 424 - uma estupidez

EM VEZ DE HISTÓRIA, VERGONHA Primeiro Gre-Nal da
Libertadores acabou nisso aí (Foto: Diego da Rosa)
Ontem o pau cantou no Gre-Nal 424, histórico Gre-Nal por ser o primeiro pela Libertadores. Ninguém afinou pra ninguém, todo torcedor raiz, de verdade mesmo, achou lindo. Soco no ar, chute por trás, esganadura. Quem ficou horrorizado é Nutella, é Enzo, é o caralho a quatro. O futebol respira, não é mesmo?


Não. O futebol agoniza. Ele respira quando os times são organizados. Respira quando há metodologia em campo. Respira, de verdade, quando há um projeto com início, meios e fins devidamente programados dentro da realidade de cada escudo. Respira mesmo é quando os dirigentes entendem que sem tempo, apoio, método e respeito pela instituição, o máximo que vai acontecer é conquistar algo sem a menor ideia de como fez. Anda a plenos pulmões quando um time não precisa vender o mando de jogo para honrar parte da folha salarial, inchada porque, se der merda, não é o deles que estará na reta.

Quando a imprensa perde dias a fio cobrando resultado com um mês de trabalho porque sim, o futebol, no máximo, arfa com dificuldade, ofega, arqueja.

O que os jogadores de Grêmio e Inter fizeram ontem foi dar razão a quem defende a torcida única, essa imbecilidade/atestado de incapacidade de quem deveria garantir a realização das partidas, seja dirigente de clubes, federações ou autoridades de segurança. Foi dar sentido ao discurso de quem vê desrespeito quando o time que desceu de divisão é alvo de chacota.

Isso não é futebol.

O Gre-Nal foi vergonhoso, uma ode à rivalidade cega, ao ódio, à intolerância. Foi uma estupidez.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Força, Marega!


GIGANTE Marega mostra a pele para os racistas
 vimaranenses (Divulgação/FC Porto)
O Estádio Dom Afonso Henriques foi palco novamente de um espetáculo dantesco, provocado por torcedores do Vitória de Guimarães na partida contra o Porto. Marega, maliano que defendeu as cores vimaranenses na temporada 2016/17, foi vítima de ofensas racistas durante boa parte do duelo.


Nada de novo. De novo.

Mas tão abominável quanto a ofensa racista sofrida por ele foi o cartão amarelo que recebeu do árbitro Luis Godinho por retardar o reinício da partida, como se isso fosse o mais importante. Sons imitando macacos foram ouvidos desde o aquecimento, segundo o jornal A Bola, e não houve nenhuma atitude por parte de Godinho, nem de ninguém. Ao fazer o gol da vitória portista, Marega respondeu aos insultos e foi advertido. O racismo estrutural é mais pernicioso que o racismo descarado. Não que este possa ser tolerado, mas ao menos mostra a cara. 

Companheiros tentaram demovê-lo quando deveriam fazer o mesmo. Exceto Marega, todos erraram. Quem não o apoia incondicionalmente, se coloca ao lado dos desgraçados das bancadas. Quem defende que ele deveria ter ficado até o fim é tão culpado quanto os criminosos racistas. Tivesse feito isso, ninguém estaria falando disso e existem coisas mais importantes do que três pontos. Orgulho, decência e respeito, por exemplo.

Depois de sete minutos de paralisação, o atacante pediu para ser substituído. Perdemos todos com isso.

EDIT. O treinador do Porto, Sérgio Conceição, não falou do jogo na coletiva depois da partida. Limitou-se a falar do tema: "Aquilo que tenho a dizer: o jogo passa para segundo plano quando acontece algo deste gênero. Estamos completamente indignados. Somos uma família independentemente da nacionalidade, da cor da pele, da altura, da cor do cabelo.Somos uma família. Nós somos humanos, precisamos de respeito. O que aconteceu aqui é lamentável". Seria perfeito, caso ele mesmo não tivesse dito, em 2019, que não via racismo em Portugal, quando parte criminosa da torcida do Porto ofendeu, com gritos racistas, o camaronês Nsame, então jogador do Young Boys.  

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Perdão, Boechat

Perdemos Ricardo Boechat. Mais uma vez, uma desgraça que poderia ser evitada, não fosse a cretina mania tupiniquim do “depois a gente vê”. Segundo reportagem de O Globo, o helicóptero em que estavam o jornalista e o piloto, Ronaldo Quattrucci, que também morreu, não tinha autorização para fazer o serviço de taxi aéreo. Se levantou voo, é porque alguém permitiu. Quattrucci era um piloto experiente e sócio da empresa dona da aeronave.

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Não pode

Falta fiscalização no Brasil. Falta tudo neste país que foi feito para dar errado desde o início. E é assim porque somos um bando de hipócritas, cuja indignação tem prazo de validade. Mariana, Boate Kiss, enchentes em Nova Friburgo e Niteroy,  ciclovia Tim Maia, Brumadinho, Voo 1907 da Gol (aquele que resvalou em um jatinho Legacy e caiu na floresta) , Voo 3054 da TAM, Morro do Bumba, voo da Chapecoense, Ninho do Urubu, sem contar outros casos que não causam repercussão. Em comum, a todos, o fato de alguém ter deixado, por omissão, incúria, desmazelo, ganância. Deem o nome que quiserem. Prefiro chamar de desprezo à vida alheia.

Por ironia, o último comentário de Ricardo Boechat, na Band News, foi sobre o quanto dura a comoção. A tragédia de Brumadinho já deixou, segundo ele, as capas dos jornais, ocupadas agora pela desgraça que matou dez meninos na base do Flamengo, clube de coração do jornalista, na última sexta-feira.

Ricardo Boechat era um âncora que não perdeu sua essência de repórter, que é, em suma, a parte mais importante, a matéria-prima do Jornalismo. Este jornalismo perdeu um dos seus melhores combatentes. Uma esposa perdeu seu marido, pai de seis filhos. O piloto deixou dois. E o Brasil chora, mais uma vez, um choro que tem hora para começar e terminar, que é a próxima tragédia anunciada. Anunciada e negligenciada, como tudo o que acontece neste país de merda.

Perdão, professor.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O mundo é um moinho, Portuguesa

SOLIDÃO Pequeno torcedor durante o jogo em que a Lusa foi derrotada
 no Canindé por 5 a 0 pelo Botafogo (Fábio Soares/Futebol de Campo)
Domingo, 4 de junho de 2017. Neste dia, a Portuguesa perdeu para o Villa Nova por 2 a 1 e chegou à última posição de seu grupo na Série D do Campeonato Brasileiro. Bobagem falar que é o pior momento da quase centenária história do clube. Também é besteira apelar para o passado glorioso, de jogadores disputando Copas do Mundo, das goleadas contra rivais, dos craques como Enéas e Dener. Bobagem. Isso pode ser visto a partir de qualquer busca no Google.

O que deveria ser visto, e é simples, é o espiral para baixo em que se meteu o clube do Canindé. Nem preciso falar da escalação de Héverton. Foi o clímax de uma morte anunciada, uma crônica de uma doença crônica chamada, como dizem os antigos, de desmazelo. À época, eu era o assessor de imprensa do clube (permaneci até agosto de 2015) e quando o Coritiba tentou fazer com que pontos fossem tirados por uma suspeita de haver mais jogadores emprestados do que permitia o regulamento, alertei: é só o começo. Vão procurar até encontrar.

E encontraram.

Quem não se encontra desde então é a própria Portuguesa. A briga contra a CBF, na qual não passava de um Exército de Brancaleone. A trágica retirada do time de campo na estreia da Série B, quando dominava completamente o Joinville em Santa Catarina, foi a pá de cal na sepultura, de onde uma mão rubro-verde buscava força para sair, após um Paulistão heroico, em que não cair foi um título e tanto.


Quando o técnico Argel recebeu a ordem para chamar seus comandados de volta ao vestiário, de onde não mais sairia, foi decretada a paixão lusitana. Era a Sexta-Feira Santa de 2014, mas não houve ressurreição. Houve, sim, um lento e agoniante velório de 38 rodadas e de corpo presente, um féretro do qual o cadáver insepulto resolveu se levantar e, desde então, vaga sem rumo, como os mortos na Antares de Érico Veríssimo.

A sequência foi aterrorizante: rebaixamentos, cassino clandestino estourado dentro do clube (e com a presença do presidente), penhora de rendas, processos na justiça, o mesmo presidente garantindo ter a informação de quem pagou para que o jogador fosse escalado e depois indo pedir desculpas sob a alegação de ter tomado um vinho forte. Falta de pagamento de parcelas de acordos trabalhistas, dívidas em forma de bola de neve, greve de jogadores, de funcionários. Perda da dignidade humana. Deterioração.

VINHO MUITO FORTE Ao lado de Peter Siemsen, Ilídio Lico foi
 pedir desculpas por acusações feitas sobre o Caso Heverton (ESPN)
Quatro ou cinco técnicos durante o mesmo campeonato. 60 e poucos jogadores contratados em menos de 12 meses. Vi três treinadores sendo acertados no mesmo dia: um pelo diretor de futebol, outro pelo vice e outro pelo presidente (ficou o que se desligou do clube onde estava para acertar com a Lusa). E vi Rei do Acesso. E o milagreiro da Ilha do Retiro. Hipnólogo. Imagem de Nossa Senhora de Fátima jogada no lixo. Vi atletas disputando para ver quem levaria o pão com frios que sobrou na bandeja para casa. Ganhou o que disse que tinha filhos para alimentar. Vi renúncia atrás de renúncia, presidente-jornalista que criticou no ar o time que ele mesmo havia montado. “Competitivo”. Este era o mantra da gestão em um certame no qual o time quase foi despromovido ao terceiro escalão do futebol estadual, com direito à derrota em casa para o Botafogo por 5 a 0. Consultor famoso a custo zero, mas que não era consultado para nada. Falácia. Mixórdia. Morte lenta de dolorosa.

E vi gente abnegada, tentando erguer, ou salvar, o que restou do clube. A eles, alguns até amigos, meu respeito.

Não se enganem; faça o que fizer, a Portuguesa só começará a sair do limbo em que se encontra no dia em que exorcizar seu maior fantasma. No dia em que terminar de uma vez por todas o ano de 2013. Até lá, empresa nenhuma quererá ligar sua marca à imagem de um clube destruído de fora para dentro, frágil como uma construção haitiana ante o terremoto que a destruirá.

Só depois disso é que será possível retomar alguma coisa. Até lá, virar Juventus terá sido lucro. Até lá, o samba do mestre Cartola cairá como uma luva para o fado lusitano: “Em cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares, estás à beira do abismo. Abismo que cavaste com seus pés”.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ah, se fosse outro técnico

Por Alessandro Yara Rossi*

NOVO FIASCO O Tricolor foi eliminado em casa pelo fraco Defensa y Justicia (Nelson Almeida/AFP)
O São Paulo parece que está levando ao pé da letra o trecho do seu hino, que diz: “As suas glórias vem do passado”, porque ultimamente o que acontece no Tricolor Paulista é uma sucessão de vexames, como o da noite do último dia 11 pela Copa Sul-Americana, na eliminação em casa para o modestíssimo Defensa y Justicia, que nunca tinha jogado fora da Argentina.

Rogério Ceni só não foi demitido ainda porque tem um senhor nome e muita moral entre a torcida, mas se fosse outro técnico, 100% de certeza que já teria pego o boné e um abraço.

Desde que virou treinador do São Paulo, o ex-goleiro-artilheiro ainda não conseguiu sequer consolidar um padrão tático; o sistema defensivo é um desastre e o time fica todo espaçado no campo, sem nenhuma aproximação. Parece que os treinos táticos com os auxiliares europeus não estão surtindo o efeito esperado.

As goleadas impostas no Campeonato Paulista contra equipes fracas foram ilusórias ao torcedor, que se empolgou um pouco e achou que tudo seria diferente dos anos anteriores. Porém, as fracas atuações continuam, os resultados desapareceram e as três eliminações seguidas no primeiro semestre tendem a deixar qualquer um preocupado.

Leia também:
A máquina de triturar treinadores

Ceni falou na entrevista coletiva concedida depois do empate por 1 a 1 contra os argentinos que a desclassificação em um torneio de nível técnico fraco, mas com uma grande possibilidade de título e vaga na Libertadores do ano que vem não foi um vexame. Ora, então o que precisa ser feito de pior para ser um?

Está na hora de ele ajustar o time, que antes jogava no 3-4-3, mas que logo largou mão para ficar no 4-3-3 todo esparramado, sem uma jogada e isolando o seu centroavante. As substituições não mudaram em nada o panorama e mostraram certo desespero, como colocar dois atacantes enfiados e sem cruzar uma bola sequer na área.


O Brasileirão começou com derrota para o algoz da vez na Copa do Brasil, o Cruzeiro. Mesmo tendo um retrospecto favorável contra a parte azul de Minas Gerais, a derrota em si por 1 a 0 não foi nenhuma surpresa, mas serve para reforçar o sinal amarelo que já está ligado. Será a única competição que o São Paulo vai jogar no segundo semestre, enquanto os seus principais adversários estarão preocupados com pelo menos mais um torneio. Esta é a hora de o Tricolor fazer alguns pontos e não se complicar para não chegar a uma vergonha ainda maior, a consumação de um flerte que foi perigosamente feito em temporadas recentes.

Rogério tem todo o respaldo, carta branca e idolatria que o mantêm firme e forte no comando técnico, mas um Brasileirão também ruim deixará a situação bem complicada, pois o momento é refletir e admitir que o time precise melhorar muito se pretende brigar na parte de cima da tabela.


Depois de tanto tempo, o torcedor são-paulino sente que a perspectiva não é nada boa e a época de ficar sem uma taça perdurará.

*Alessandro Yara Rossi é jornalista corneteiro e fã de esportes alternativos

quinta-feira, 30 de março de 2017

O escorpião e o sapo

DE POUCOS AMIGOS É somente a cara. Del Nero tem na mão
 os cartolas do futebol brasileiro (Foto: Reuters/Sergio Moraes)

De acordo com a fábula do escritor grego Esopo (620-560 a.C.), o escorpião pediu ajuda ao sapo para atravessar o rio. O sapo estava receoso de ser picado durante a travessia e o escorpião argumentou que, se o picasse, os dois se afogariam. Só que o escorpião de fato picou o sapo e disse: “Perdoe-me. É da minha natureza”.

No fim de 2015, Del Nero aglutinou os clubes em torno de seu umbigo para que, por manobra, o Coronel Nunes, presidente há mais de 25 anos da Federação PARAENSE de Futebol, fosse eleito vice da região SUDESTE (que fica a pelo menos 2 mil km do Pará). O objetivo era impedir que um adversário político, Delfim Peixoto, que morreria um ano depois no acidente da Chapecoense, assumisse a presidência da CBF quando ele, Del Nero, tivesse que se “afastar” do cargo. Eram tempos de moralização do futebol mundial e o Don Juan da Barra Funda estava com aquilo na mão de as investigações do FBI respingarem nele.
Em caso de vacância do mandatário, quem assumiria a presidência seria o vice-presidente mais idoso, e este era o falecido Peixoto, 74, presidente da Federação Catarinense de Futebol e dirigente que não simpatizava com a gestão Del Nero/Marin. Então foi costurado o acordo: Antonio Carlos Nunes de Lima, de 79 anos e parceiro de longa data do ex-presidente Marin, que ainda cumpre prisão domiciliar nos Estados Unidos, enquanto aguarda julgamento, seria o candidato para concorrer a uma das vice-presidências, a do Sudeste, quintal de Del Nero.

Era a chance de os clubes livrarem-se do jugo da CBF, do clientelismo, dos desmandos e das maracutaias que os cartolas da entidade máxima do futebol estavam tão acostumados. Mas não. Nenhuma voz foi contrária ao acordo. Ninguém sequer questionou os porquês de um dirigente de uma federação completamente estranha à região, e que em meio século não havia desenvolvido em absolutamente nada o esporte do Norte do país.

Fecharam questão em torno do Coronel Nunes, de história ligada à Ditadura Militar, a suspeitas de enriquecimento ilícito e favorecimento, que foram investigadas por uma CPI na Assembleia Legislativa do Pará e não deu em nada, apesar do teor das acusações. A Comissão tinha, entre seus membros, parlamentares que receberam doações da entidade presidida por Nunes.

CORONÉ DE CAPACIDADE O caricato Coronel Nunes, homem
 de Marin e Del Nero, que presidiu interinamente a CBF
 até Il capo voltar (Foto: Lucas Figueredo/MowaPress)
 

Nada que fuja ao modus operandi da própria CBF.

Sobre ele, o “moderno” Paulo Nobre, ex-presidente/mecenas do Palmeiras, disse ter capacidade quando da vergonhosa manobra. Um escárnio. Um nojo. Depois que colocou seu capanga no posto, Del Nero enfim licenciou-se da presidência. E o cavalo passou selado mais uma vez.

Pois bem. Passado o susto e com todos os seus asseclas acochambrados sob sua asa, eis que Il Capo Del Nero resolveu passar a perna nos clubes na absurda reforma estatutária que ele mesmo promoveu (no mesmo dia do jogo da Seleção Brasileira contra o Uruguai), tirando-lhes poder e, pelo visto, se agarrando feito cipó-parasita no poder ad aeternum.

Pela reforma sugerida pela CBF, aprovada pela CBF e promovida pela CBF, as Federações passam a ter peso maior que os clubes nas eleições, o que, na prática, significa que os desejos da entidade passarão a ser ordem. Clubes e imprensa não foram avisados, tampouco a assembleia surpresa foi publicada no site da entidade, o que fere a Lei Geral do Esporte. Não pelo entendimento da CBF, entidade privada segundo qual não reconhece interferência alguma sobre seu estatuto.

Coloca-se acima do bem e do mal.

Pela reforma, haverá um conselho administrativo formado por oito vice-presidentes, o que tiraria, teoricamente, o poder do presidente. Isso se estes oito não fossem da chapa de Del Nero.


Quer saber? É bem feito! Mudo meu nome se os clubes unirem-se de fato para reverter isso. Principalmente os cartolas paulistas, esse bando de frouxos que diz amém a tudo que ele faz desde a época da FPF, quando já eram picados pelo escorpião de Esopo. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O dia em que morri



Foi no dia 15 ou 16 de dezembro de 2013 – não estou certo quanto à data exata – que começou a morrer o torcedor de futebol que nasceu em junho de 1985, num Portuguesa 2; Marília 0, pelo Paulistão daquele ano. Os sintomas, porém, começaram a aparecer pouco mais de uma semana antes.

9 de dezembro, segunda-feira. Festa do troféu Mesa Redonda, da TV Gazeta. Eu era assessor de imprensa da Lusa e estava com uma taça de vinho branco na mão quando a bomba estourou: o meia Héverton, na véspera, teria sido escalado irregularmente na última rodada do Brasileirão. É desnecessário falar dos acontecimentos que se seguiram até o primeiro “julgamento” na sede do infame stjd (espero que o editor mantenha em caixa baixa), na Rua da Ajuda, Rio de Janeiro.

Naquele maldito dezembro, dormi mal em todas as noites. Trabalhei mais na sala do departamento jurídico da Lusa do que na minha própria mesa. Presenciei todas as trapalhadas cometidas pelos homens da Lusa. Uma por uma. E não forma poucas. Falei mais com o Júlio Gomes, colega de profissão e de infortúnio luso, do que com a minha própria mãe naquele período, tentando achar uma saída para o clube.

Não achamos.

Mesmo que tivéssemos encontrado uma luz que não fosse a do trem vindo no sentido contrário, o fado já estava escrito: a execução sumária travestida de julgamento teve de tudo: torcida do tricolor carioca (não escrevo o nome daquele time nas minhas tribunas) na porta do tribunaleco, com faixas, com bandeiras, mas sem dignidade; voto do relator escrito na véspera devidamente guardado na gaveta, à espera do momento certo para atingir o coração de um clube que foi morto porque cometeu o crime de querer lutar contra o Negócio futebol, o business. Morreu porque quis ser grande.

Leia também:
Eduardo Baptista e o imediatismo tupiniquim


Comecei a morrer como torcedor quando o massacre de 9 a 0 foi consumado no patético e hediondo “julgamento” da citação do Pequeno Príncipe; quando vi hienas de verde e grená rindo sobre o cadáver ainda quente, como se fosse parte do seu instinto animal. Não, não é. Aquilo era uma mostra do pior que pode haver naquela gente. É esse tipo de pessoa que brada feito louca quando um pênalti legítimo é marcado contra si, mas regozija-se a cada lance ou armação ou tapetão a favor do seu time.

Eles, como tantos outros, sob outras camisas, são os mesmos que, com este comportamento deplorável, fiam as maracutaias existentes em todos os níveis sociais. O “levar um por fora”, o “quanto é que eu levo nisso”, é inerente a esse tipo de gente.

Tornei-me, então, um ser completamente isento de qualquer cor ou sentimento positivo relativo ao futebol brasileiro. Tal qual o Homem de Pedra do Trio Parada Dura (ouçam), decidi que ninguém mais pisaria em mim. Torço sim! Mas só quando o Benfica joga, quando A Portuguesa é tocada antes de cada partida da Seleção de Portugal. E contra o time da CBF.

Já a Lusa segue definhando num espiral infinito, uma queda em parafuso que não para. Foi num 8 de dezembro que o sistema achou o motivo torpe para nos matar. 8 também era a camisa que o Rei Enéas, o gênio esquecido, usava quando acordava para destroçar adversário por adversário dentro de campo. No dia 27 de dezembro de 2013, a morte do craque da camisa 8 completou 25 anos. No mesmo dia, os doutos donos da lei da ópera bufa e farsante da Rua da Ajuda deram o tiro de misericórdia.

E eu morri.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Como passar vergonha em 11 passos

Quer queimar seu filme perante o país inteiro e causar uma vergonha eterna à sua torcida? É fácil. O Internacional ensina:

1) Contrate um treinador que irá tentar demitir por não gostar do seu estilo, mas que os resultados o manterão no cargo;

BODE NA SALA Diretoria colorada tentava se livrar de Argel
desde o Brasileiro de 2015. Excelente campanha e título no
Gaúcho seguraram o treinador (Feliz Zucco/Agência RBS)
2) Livre-se de seu capitão e maior ídolo da torcida, mesmo que nem ele ou a torcida queiram isso;

3) Monte um elenco com milhares de atacantes, meia dúzia de gringos de qualidade técnica duvidosa e um antigo ídolo do maior rival completamente fora de forma, mas com salário astronômico e contrato longo;

4) Demita o treinador e contrate outro que tenha identificação com o clube, mesmo que não tenha resultados que banquem a aposta;

Leia também:
Que horas são?

5) Mande-o embora menos de dois meses depois;

6) Aposte na velha receita do técnico-ultrapassado-que-sempre-volta-para-apagar-incêndio;

VOU, MAS EU VOLTO Milésima apresentação de Celso Roth no
 Internacional (Tomás Hammer/Globo Esporte.com)
 
7) Mande-o embora a três rodadas do fim do campeonato e praticamente afundado na zona do rebaixamento;

8) Para evitar a queda, apele pro tapetão;

9) Reclame publicamente se seu jogo for adiado devido a um acidente que vitimou praticamente um time todo e causou comoção mundial;
9.1) Compare a morte de mais de 70 pessoas ligadas à mesma modalidade esportiva à sua briga, que você pode chamar de "nossa tragédia";

"TRAGÉDIA PARTICULAR" Fernando Carvalho pisa
 na dignidade colorada (Tomás Hammer)
10) Na maior cara de pau, use a tragédia para tentar melar a última rodada e o quase inevitável rebaixamento;

11) Use seu elenco para isso.    
CEREJA DO BOLO Jogadores do Inter manifestam desejo de não mais
atuarem pelo Brasileirão, mas não falam sobre a posição final na tabela

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Brasil na Copa América Centenária

Por Humberto Pereira da Silva*
Na noite fria e outonal paulistana, assisti ao jogo entre Colômbia e Costa Rica pela centenária Copa América. Classificada em seu grupo ao lado os Estados Unidos, a Colômbia entrou em campo contra a desclassificada Costa Rica com time misto para cumprir tabela. 

Os reservas da Colômbia acabaram surpreendidos e o jogo terminou com o placar de 3 a 2 para os costa-riquenhos. Vendo o jogo pela TV, ouvi comentários de que faltou seriedade ao treinador colombiano. Com a derrota, os Estados Unidos ficaram com o primeiro lugar no grupo.

A questão levantada durante a transmissão era da inconveniência com o risco da segunda colocação: pegar o Brasil, eventual primeiro lugar em seu grupo. Por que o treinador colombiano teria optado por preservar sua equipe titular quando isso o colocava na iminência de enfrentar o Brasil na fase seguinte da competição? A Colômbia não teria “medo” do Brasil?

Durante o jogo, com a derrota colombiana cada vez mais evidente, o comentário era de que sua atual geração é forte e que para o Brasil seria mais tranquilo pegar os Estados Unidos. Ao final do jogo a discussão era: a Colômbia devia ter medo do Brasil, e não o contrário; essa é a condição natural entre as duas seleções, ainda que fosse melhor cruzar com os ianques.



Nisso tudo, de modo debochado, surgiu a ideia de que uma combinação quase impossível colocaria o Brasil na segunda colocação em seu grupo. O Equador teria de fazer uma diferença superior a seis gols no Haiti; enquanto o Brasil teria que... empatar com o Peru.

Uma combinação difícil de ocorrer. Líquido e certo que numa partida decisiva o Brasil não empataria com a frágil seleção peruana; nem que, sob pressão, mesmo contra o amador Haiti, fosse fácil um placar para o Equador acima dos seis gols.

O Equador, para seu azar, empatara com o Peru. Teria então de se contentar com a segunda colocação no grupo. Tudo perfeitamente natural, pois o Equador estava no grupo do Brasil.

Com o jogo entre Colômbia e Costa Rica encerrado, em tom de deboche, a definição do próximo adversário do Brasil: a Colômbia; mas, lembra um dos comentaristas, isso ainda precisa ser combinado com o Peru...

Pois é, eis a anedota: no domingo o Equador fez apenas quatro gols no Haiti; mas o Brasil perdeu para o Peru... Discutir a eliminação do Brasil pela segunda vez na história na fase de grupos da Copa América? Discutir a... seleção de Dunga? Para quem faz isso por ofício profissional, sinto tristeza e certo dó.

Desde a Copa de 2014 não há Seleção Brasileira. Há sim a imagem patética, grotesca, estapafúrdia e caricata do que, como usurpação, hoje recebe o nome de Seleção Brasileira. Dunga? Os Jogadores??? Convenhamos, trata-se para mim de uma piada sem graça.

Se não for preciso desenhar, então que fique claro: sem uma mudança radical na estrutura do futebol brasileiro – o que acho improvável, pois a derrota na Copa de 2014 caiu no anedotário – as próximas competições em que a “seleção” participar serão marcadas pela tentativa de não dar “vexame”.

Assim continuando, vaticino, passados alguns anos e restarão pálidas lembranças de que aqui, algum dia, foi o "País do Futebol". Qualquer discussão fora disso se resume a balbucios, singularidades vazias que preenchem conversas alienadas.

*Humberto Pereira da Silva, 52 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Por que torço contra a Seleção Brasileira


Foi em 2013. Durante a festa dos melhores do Campeonato Brasileiro organizada pelo Mesa Redonda, uma terça-feira, a bomba do Caso Heverton estourou. Os dias seguintes foram uma sucessão de cartas marcadas. O julgamento da Rua da Ajuda, o posicionamento antecipado do procurador irregular do STJD, as bobagens que a Portuguesa fez ao longo do processo. O rebaixamento. A festa dos torcedores daquela porcaria de time do Rio de Janeiro, cujo nome não pronuncio fora do ar. Tudo isso matou meu lado torcedor como um tiro bem no meio do coração.

Desde então, me reservo o direito de não torcer para nada que se refira ao futebol brasileiro. Virou trabalho e só trabalho. Quando eu estive sem nada para fazer, após uma pessoa decidir na Portuguesa que não faço o perfil do clube e, por isso, não servia para a função de assessor de imprensa, era como se os jogos daqui não existissem. Nenhum deles.

Durante a Copa de 2014, voltei a ser torcedor. Por Portugal, é claro. E contra o Brasil. Hoje eu volto a ser daqueles que brigam com a TV em ocasiões especiais: Benfica, Portugal ou Brasil em campo. Nos dois primeiros casos, torço, brigo, reclamo, comemoro. No caso da seleção da CBF, quero mais é que exploda.



A cereja do bolo fétido expurgado pela turma que vem roubando o futebol nacional está às portas. E nem é o 7 a 1 que, constrangido, nem cheguei a comemorar. Apenas um riso solto após o apito final daquela vergonha. Nem ficar, pela primeira vez na história, sequer entre os oito da Copa América, que é uma grande porcaria. Será, num grupo de dez e com cinco vagas à disposição, ficar de fora da fase final da Copa do Mundo.

A safra não é das melhores, o único craque não resolve absolutamente nada e o "técnico" é autoexplicativo.

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A culpa

Pode ser que troquem o Dunga pelo Tite, pelo Jorginho, pelo diabo. Seguirei torcendo contra. Constrangido, mas satisfeito por ver a cara de imbecis da pachecada que não vê, ou finge que não vê, que a culpa é de todo mundo: menos do Dunga e de quem o escolheu, mas, sobretudo, de quem escolheu e legitimou quem o escolheu.

Dunga disse, na coletiva de pós-jogo, que foi eliminado por causa de um gol de mão. Não, professor! A mão que te eliminou não foi a peruana. Foi a mesma que vem roubando o futebol do país há quase 30 anos.

Lucas Figueredo (MOVA PRESS)

A culpa

O fiasco (mais um) da Seleção Brasileira, eliminada da primeira fase da Copa América, não é culpa apenas do Dunga. Sim, ele é uma besta quadrada, mas nunca deu nenhum vestígio do contrário.

Em 2010, na Copa do Mundo, o Brasil apresentava uma pobreza tática absurda. De lá para cá, Dunga não fez nada de útil, a não ser ser técnico do Internacional de Porto Alegre por meio ano. E só.

A culpa é da cúpula da CBF, que o escolheu quando poderia contratar Pep Guardiola. Teixeira, Marin, Del Nero, Coroné Nunes e qualquer um que os valha.

A culpa é dos péssimos cartolas dos clubes, que dizem amém a tudo o que a CBF determina e não têm coragem de peitar o descomando de quem deveria zelar pelo futebol nacional, porque força para isso têm.

A culpa é de quem escolhe um empresário de jogadores para ser diretor de seleções.



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A culpa é do Eduardo Bandeira de Mello, outrora combativo presidente do Flamengo, que rasgou o discurso por uma boquinha na delegação da Seleção que foi passar vergonha nos Estados Unidos.

A culpa é de quem achou que o 7 a 1 foi resultado de um apagão de oito minutos.

A culpa é da Dona Lúcia.

A culpa é da imprensa, que deveria ser combativa e, salvo raras exceções, não cobra como deveria, não cobre como deveria, não tem vergonha na cara.

A culpa é de quem acredita que o futebol brasileiro é forte, que o Campeonato Brasileiro é de bom nível, que somos o país do futebol.

Não foi o Peru. Não foi o gol com a mão. Não foi um time que só joga relativamente bem até o "treinador" passar instruções e, sempre, fazer segundas etapas bisonhas. Foi também o obtuso treinador que coloca na conta do árbitro a eliminação pelo gol com a mão, mas não se incomodou de não perder para o Equador graças ao árbitro. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Projetado para dar errado


Quando a ideia da Liga Rio-Sul-Minas saiu do papel, foi uma festa! Era a carta de alforria dos clubes, que, finalmente, escapariam do jugo da CBF e poderiam andar com as próprias pernas. À CBF, resignada, restou acatar e arrumar uma vaga no calendário oficial do futebol brasileiro. Afinal de contas, havia um surto de honestidade no ar, a parti de Zurique e as das ações do FBI sobre os mais altos dirigentes da FIFA. "Novos tempos no futebol!", bradavam por aí vozes das mais entusiasmadas.

Funcionou até a página dois. Se no princípio a CBF aceitou, mansamente, depois o discurso mudou. Disse, por intermédio do ex-presidente Del Nero, aquele que não pode sair do país, que iria aguardar. Algumas federações, acostumadas a mamar nas tetas dos filiados, se colocaram contra. A carioca, a gaúcha. Os clubes iam bem. Até que resolveram discutir as cotas. Aí a fraternidade acabou.

Enfraquecida e sem o dinheiro que esperava receber da TV pelos direitos da competição, que colocaria em campo os principais clubes do Rio de Janeiro (exceto Vasco e Botafogo, fiéis à Ferj e, não por acaso, finalistas do último Campeonato Carioca), Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a Primeira Liga (nome oficial da entidade formada) acertou os ponteiros e divulgou tudo; clubes, tabela, forma de competição.

Neste meio-tempo, Marco Polo Del Nero, chafurdando nas denúncias de corrupção (as mesmas que "derrubaram" Havelange, Teixeira e Marin), se afastava do cargo, não antes de colocar, com o apoio de alguns dos principais clubes do país, um obscuro Coronel Nunes em seu lugar. Ele era presidente da Federação Paraense há mais de duas dúzias de anos, e sabemos como estão os clubes do Pará. 

Quando podiam dizer "não" à manobra, os clubes paulistas abaixaram a cabeça e, como cordeirinhos, aceitaram a "recomendação" da FPF, de apoiar a candidatura do tal coronel à vice-presidência da região Sudeste e, consequentemente, da CBF quando Del Nero largasse o osso. E entrou o indicado do presidente afastado.

Antonio Carlos Nunes de Lima, o tal coroné, era homem da Ditadura Militar, como é possível ver na excelente reportagem do excelente jornalista Lúcio de Castro, para o apublica.org. É da mesma laia de gente como José Maria Marin, que tentou cassar a nacionalidade do atacante Diego Costa porque este resolveu jogar a Copa de 2014 pela Espanha. Para eles, a lei serve somente quando os favorece.

Eis que a semana da estreia da Primeira Liga chegou e, faltando três dias apenas para que começasse o torneio que representaria a modernidade do futebol nacional, a CBF do Coronel Nunes resolveu vetar sua realização, se baseando, entre outras justificativas, no Estatuto do Torcedor e no descumprimento do intervalo mínimo entre as partidas a serem disputadas pelos jogadores.

Até aí, tudo bem. O problema é que a entidade não tem a menor moral para alegar o descumprimento destas regras, pois ela deu de ombros ao mesmo Estatuto do Torcedor quando rebaixou a Portuguesa no Brasileirão de 2013 e, quanto às tais 72 horas que devem haver entre uma parida e outra, não é difícil de encontrar casos (aos montes) em que os jogadores voltaram a campo antes do prazo mínimo estabelecido, e pelo qual os próprios sindicatos de jogadores não dá a minima.

Mandando onde não deveria, a CBF chamou os clubes da tal Liga para conversarem, mas para a sua inclusão no calendário a partir de 2017, mas "sem nenhuma infringência às leis, regulamentos e estatutos", os mesmos que ela passa por cima quando lhe convém. Faltou coragem aos clubes. Faltou vontade aos dirigentes, que tinham a possibilidade de, enfim, dar um passo gigante na direção da modernização do futebol brasileiro.

Para tanto, bastava os principais distintivos brasileiros pararem de olhar para seu próprio umbigo, se unirem pelo bem maior - o futebol - e dar uma banana à CBF, mas aí é pedir demais aos modernos cartolas brasileiros. Tudo normal para o "Padrão-Brasil", o país projetado para dar errado.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Teje preso

O dia 27 de maio tem tudo para ser uma data histórica para o futebol mundial. Não por causa de alguma conquista em campo ou algum gol digno de um Pelé, um Moreno, um Lostau ou um Dener. Neste dia, o FBI prendeu, em um hotel de Zurique, às vésperas da eleição da FIFA, que deve prorrogar o reinado de Joseph Blatter, alguns dos figurões do submundo do futebol, entre eles José Maria Marin, o controverso ex-presidente e atual vice de Marco Polo Del Nero na CBF.

O ex-presidente José Maria Marin, detido em Zurique (Foto: Ricardo Stuckert/CBF)
Se nos gramados as potências são países com vasto histórico de craques e conquistas, abaixo deles, às sombras, quem dá as cartas são membros de países minúsculos e insignificantes (mas com direito a voto), como as Ilhas Caiman, do atual presidente da Concacaf Jeffrey Webb (outro que está ameaçado de ver o sol nascer quadrado), e Trinidad e Tobago, do ex-secretário-geral da mesma entidade, Jack Warner, atolado até o pescoço (e com os filhos) nas maracutaias envolvendo venda de ingressos e pacotes promocionais.

No território autônomo da FIFA, esse minúsculo país situado em Zurique, algumas moedas sustentam poder e longevidade: venda de ingressos, de pacotes de hospitalidade (aqueles com diárias de hotéis, translado até os estádios e ingressos) dos direitos de TV, organização de campeonatos de diversas categorias (o que dá acesso irrestrito aos cofres públicos dos países que têm a "felicidade" de gastar aos borbotões, mesmo não tendo dinheiro nem para saneamento básico) e uso das marcas registradas pela entidade.

Pelos direitos de comercialização da transmissão, segundo o jornalista escocês Andrew Jennings (o único jornalista do mundo previamente barrado nos eventos que a FIFA organiza), a dupla Havelange e Teixeira fez fortuna através de propina. Foi o propinoduto que chegava às contas de sogro e genro que, ainda segundo o britânico, levou a ISL, parceira da FIFA e detentora dos tais direitos de TV, à bancarrota. Propina, aliás, que entrava como comissão e não era proibida pelas bondosas leis suíças. Não por acaso, FIFA e COI têm sede naquele país. 

Outra fonte de renda, esta mais democrática, já que está ao alcance de todos os membros votantes do Comitê Executivo, é a venda do voto na eleição do país-sede. A candidatura inglesa para 2018 naufragou graças à BBC, e a Jennings, que pegaram no pulo alguns "vendedores de convicção" que negociavam seus votos com jornalistas que se passaram por intermediários. Esses membros do Comitê Executivo foram severamente punidos, não pelo ato em si, e sim por terem sido descobertos.

Por muito tempo, alguns membros, sobretudo de países como Camarões e Nigéria, foram parceiros de delito dos posseiros de Zurique, nomeadamente Havelange e Blatter. Quando quiseram, em vez das rebarbas, o filé mignon, foram expulsos do clube, sob alegação de corrupção. Viraram bode-expiatório e exemplos do que aconteceria com que se atrevesse a querer um quinhão maior das benesses da bola.

O FBI esperou pela eleição da entidade máxima do futebol para pegar todos de uma só vez, na surdina, na moita. E conseguiu. No entanto, trata-se de gente muito poderosa (e perigosa na mesma proporção). Ainda não seria de se estranhar se conseguirem se livrar. O chefe do bando, mesmo, não está entre os presos. Fosse um órgão minimamente decente, a eleição já estaria cancelada até segunda ordem, mas se minimamente decente fosse, a ação da polícia americana não teria sido necessária.