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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pílulas amadoras - 32

*Por Humberto Pereira da Silva

Nenhuma novidade entre os classificados no Campeonato Paulista. 

Em outros tempos, a Lusa seria difícil para o Corinthians. Hoje, infelizmente, é menos poderosa que o Bragantino, que é "favorito" contra o São Paulo. Não pode não ser até pela posição na tabela e pelo futebol que o Tricolor (não) apresentou até aqui.

No Rio, deu Fla, que tem o Madureira pela frente e mesmo não tendo feito nenhum jogo minimamente regular esse ano, todos horrorosos, é favorito ao título carioca. 

De futebol, é isso. O que se fala, de fato, é o que o futebol deveria ter como parte do jogo, posto que o erro é humano e, mesmo com o VAR, a subjetividade de muitas jogadas é que determina o seu desenrolar. Isto posto, foi falta no gol do Paquetá?

Vou escrever uma coisa em tom bem pesado. E tentar fazer a coisa ter muita ressonância: para qualquer pessoa que minimamente hoje discuta decisão de arbitragem, eu olho com enorme desconfiança de que há algo errado com essa ela. Algo tipo aceitar discutir se a terra é plana ou expor provas irrefutáveis de que as pirâmides foram erguidas por seres de outras planetas.

Aceita-se um teatro, uma encenação de muito péssimo gosto. É melancólico, estapafúrdio, caricato ouvir coisas tipo houve contato (não convém esquecer que o futebol é esporte de contato), ou não sei se a intensidade foi suficiente pra fulano cair, e, pelo critério adotado, o árbitro deveria marcar.

O absurdo, o nonsense, o VAR como praga que estimula o pior no futebol. Visto a pele de quem habita os gramados. Assim, formo o provável cenário: sou jogador de futebol e o domínio da bola está difícil, não tenho confiança, detecto uma situação de perigo. Alguém me toca e eu, já condicionado, deixo-me cair e jogo a responsabilidade para a arbitragem. Esse teatro é tão evidente que fico pasmo ao imaginar que só eu vejo o Rei nu. Tenho certeza: todos veem. Mas tantos e tantos preferem aceitar a participação no showbusiness.

Ainda sobre o VAR, há o consenso de que ele só deverá intervir em caso de erro claro. O mesmo lance tem interpretações diferentes de gentes que supostamente entendem do riscado. Logo, não é o caso de interferência. Ainda assim, a discussão segue para o campo do casuísmo, do grito, da desconfiança. E a audiência é cativa assim.  

Dia desses, De Arrascaeta caiu contra o São Paulo no último lance do jogo, perdendo um gol que o avô dele marcaria. Foi tocado. O câmara tal mostra o toque. Atrapalhou a conclusão? Mas como não tocar em um esporte de contato?

A malícia, a esperteza, a Lei de Gérson. Isso faz parte do futebol. Jogar a responsabilidade para o VAR em última instância é mais velho que andar para a frente. Ou reclamar mesmo não tendo razão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Pílulas amadoras - 20

Por Humberto Pereira da Silva


A imprensa, com um bocadinho de atenção, podia ter percebido na fala desbocada do Abel sobre as mulheres algo além do clichê machismo. Há uma zona de atrito bem visual entre ele e QUALQUER COISA externa ao Palmeiras. Abel é inteligente, muito bem ligado, falou sabendo que causaria repercussão para esconder alguma coisa que não está bem. Basta o ABC da filosofia da linguagem: perguntado se gosta de bolo, ele ficou irritado e respondeu que o inverno na Patagônia é rigoroso...

Palmeiras teve sorte. Agora caminho livre pro TRI noBbrasileiro. 

Fla enroscadíssimo em três disputas e ainda tendo que lidar com o fogo amigo da imprensa flamenguista que, para mim, calculadamente e com os olhos voltados ao próprio umbigo, boicota uma diretoria, contaminando o ambiente.

Fogão???? Sinceramente, com a eliminação do Palmeiras na Libertadores, abriu-se o caminho para o Tri Verdão no Brasileiro. Fogão na Libertadores??? Nunca cri. Bem, mas o Flu levou ano passado... O mundo do futebol é bem estranho... Tenho para mim, na Libertadores, como concorrente o peso da camisa do São Paulo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Pílulas amadoras - 19

*Por Humberto Pereira da Silva

VITÓRIA DE PIRRO? Pedro comemora classificação após
duelo com o Palmeiras (Gilvan de Souza/Flamengo)

Para quem acompanha o futebol brasileiro, o planejamento das grandes equipes deixa a impressão de que onde se movimenta tanto dinheiro, decisões são tomadas no calor da hora. A parte submersa do iceberg é invisível. Refiro-me aqui a Palmeiras e Flamengo, que têm polarizado disputas e atenções na linha de frente das competições que participam. 

Para eles, qual a importância da Copa do Brasil? E, com a importância que tiver, as do Brasileiro e Libertadores?

A torcida, e a imprensa reverberando a torcida, congelam o momento. Não há antes nem depois. O que importa é ganhar. Mas, planeja-se para saber onde se quer chegar, óbvio. 

E inimaginável na realidade do futebol brasileiro disputar Copa do Brasil, Brasileiro e Libertadores com a mesma intensidade, pra ficar no clichê. Como a Copa do Brasil é disputada em mata-mata, se em um planejamento ela não é alvo, cair fora o quanto antes é "ganhar". Na porção inviável de decisões que parecem aleatórias, não tendo sido calculada, a derrota do Palmeiras para o Flamengo foi vitoriosa.

Stricto sensu, ao vencer a Copa do Brasil, a equipe o que o fizer garantirá uma vaga na Libertadores da temporada seguida. Não é razoável imaginar que tanto Palmeiras quanto Flamengo estarão entre os qualificados pelo certame nacional após 38 rodadas.

O Flamengo, vencedor, agora está enroscado em três competições, com torcida e imprensa nos calcanhares. O Palmeiras, perdedor, teria num planejamento o Tri Brasileiro por alvo? A Libertadores é pedra no meio do caminho, com torcedores e imprensa no encalço. 

Enquanto isso, o Botafogo, também eliminado na Copa do Brasil, tem pela frente só o Brasileiro. Sim, o Fogão vai se deixar seduzir pela conquista da Libertadores, com torcida e imprensa a cobrar uma resposta à altura depois da queda de rendimento mal ainda mal digerida de 2023?

Na Libertadores, quis o destino, Palmeiras e Botafogo vão se encontrar.  Capricho do destino e, sem que se veja planejamento, eis a sorte do Flamengo no Brasileiro... supondo que o Flamengo tenha a sorte, claro, de cair no próximo mata-mata da Copa do Brasil.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quarta-feira, 12 de junho de 2024

Pílulas amadoras - 15

Por Humberto Pereira da Silva*

O CUME DA DESGRAÇA Vasco foi o time mais citado por torcedores
que apontaram os favoritos ao rebaixamento em pesquisa
 Quaest/CNN/Itatiaia (Foto: Leandro Amorim)


O Brasileirão, entre chuvas, trovoadas e enchentes, aproxima-se de seu primeiro quarto e duas coisas se podem extrair do que se viu: 

Primeira: Internacional, Bahia, Botafogo, Flamengo e Athlético visitaram a liderança em sete rodadas incompletas. Só mesmo o PVC pra ter dados assim na ponta da língua. Não tenho lembrança de outra temporada com tantas equipas liderando e oscilando de uma rodada pra outra da primeira à quinta ou sexta posição.  

Segunda: alardea-se os "perigos" que correm Fluminense, Vasco e Corinthians na zona de rebaixamento. Novamente teria de consultar PVC. Não tenho lembrança de primeiro quarto de Brasileiro com favoritos para o rebaixamento: Cuiabá, Vitória, Atlético-GO e Criciúma. 

Além desses favoritos, o Juventude corre por fora. Fluminense, Vasco ou Corinthians precisam de boa dose de sorte - não será por falta de merecimento - para que um deles caia.

Claro, água e mais água passa embaixo da ponte. A Copa América vem aí.

N.E: no amontoado de jogos que convencionou-se chamar de Calendário do Futebol Brasileiro, a competição nacional não para para a disputa da Copa América. Poderia usar o velho bordão "durma-se com um barulho desses", mas a malta nem sabe o que seria cochilar em silêncio, quanto mais dormir. Já é costume, pois.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Pílulas amadoras -12

*por Humberto Pereira da Silva

 (Foto: Mateo Villalba / Getty Images)

Real Madrid e Bayern de Munique fizeram uma segunda partida da Champions no Santiago Bernabeu cercada de enorme expectativa. No jargão boleiro, duas das mais pesadas camisas do mundo definindo uma das vagas à final, tendo empatado na Alemanha por 2 a 2 o primeiro jogo. Duelo eletrizante, o Real, como só o Real faz, perdia em casa por 1 a 0, mas virou a partir dos 43 minutos do segundo tempo. Mas, no último lance de um embate em altíssima temperatura, teria havido o gol de empate do Bayern e a consequente prorrogação.

Teria, mas não! O bandeirinha ergueu a bandeira. E antes da conclusão da jogada, o árbitro apitou. A marcação: impedimento do jogador do Bayern. Em casos assim, seguindo o protocolo, o VAR não é, nem pode, ser solicitado. As imagens de TV, de qualquer forma, sem as tais linhas traçadas, deixam todas as dúvidas possíveis. O correto seria deixar a jogada seguir e o VAR depois diria se por "milímetros" houve ou não impedimento.

Alguns até serenos diriam: a arbitragem mais uma vez a favor do Real; outros mais coléricos esbravejariam: o Real sempre ganha roubando. É, mas na mesma partida o VAR anulou um gol do madridista Joselu: o lance seguiu até o fim e foi corrigido com o auxílio da tecnologia. Ora pois.

Mais. Com toda tensão do final, perdendo como perderam, ouvi de Hummels e Müller o lamento pelo "erro de arbitragem". Os dois, ao mesmo tempo, exaltaram o triunfo do Real. Descontentes, claro, que uma partida tão intensa tenha sido decidida num "erro".

A questão para mim é que os bávaros, sem dizer, sabem que tinham a partida nas mãos. Sabem que falharam nos momentos finais. Não transferiram a culpa pela derrota ao "erro de arbitragem". Essa mentalidade é a maneira de lidar com as infindas contingências em uma partida de futebol. Erros, falhas, são lamentados. Mas tão somente lamentados. 

No Brasil, contudo, não há a mais remotíssima possibilidade de um pênalti, marcado ou não, não gerar toda sorte de discussões, acusações, ofensas, agressões.  É como se a marcação, ou não, fosse decidida a bala. Com a imprensa esportiva pondo óleo quente na fervura, praticamente não há partida de futebol no Brasil sem confusão quanto a uma ou outra marcação. 

A coisa não só vai mudar como tende a piorar. Imprensa, torcedores, dirigentes, técnicos e, com menos intensidade, jogadores, atiçam o fogo que queima a lenha. Não vai mudar o resultado, mas gera um clima que faz valer o jargão boleiro: ganhar no grito. Um "investimento para decisões futuras", segundo o editor deste blog, meu aluno Marcos Teixeira.

Paulo Nobre, ex-presidente do Palmeiras, usou a expressão "mão grande" para se referir a favorecimento ao Flamengo. No fim, o Palmeiras acabou campeão brasileiro de 2016. Ano passado, o auxiliar de Abel Ferreira, João Martins, novamente mencionou complô para que o Palmeiras não conquistasse o bi brasileiro. Ao fim...

Ironias da vida e da lembrança. Em partida do segundo turno no ano passado, entre Flamengo e Palmeiras, que terminou empatada, o Flamengo reclamou de pênalti não marcado em Everton Ribeiro. Nesse "jogo de seis pontos" a marcação poderia, poderia, inverter o título. 

Ocorre que esse mesmo Flamengo que hoje nas primeiras rodadas do Brasileiro reclama de arbitragem faz o que o Palmeiras fez: insinuar favorecimento aqui e ali. Esse mesmo Flamengo que foi campeão brasileiro em 2020 "favorecido" pela arbitragem.

Onde quero chegar? O frequente e insensato clima de acusação às arbitragens começam a macular os títulos. O título do Palmeiras no ano passado depois da insinuação de complô para que não ganhasse mostra o quê? Que erros ao meu favor são do jogo e contra mim são premeditados? John Textor, dono do Botafogo, apelou para a inteligência artificial para insinuar que o Palmeiras foi beneficiado, mas não falou nada sobre a campanha de rebaixado que seu time cumpriu no segundo turno.

Para mim, que é preciso ter princípios morais. Dirigentes e técnicos ao se manifestarem como se manifestam são despidos de qualquer "sentimento moral". Não vejo problema algum em afirmar que não se diferenciam da malta. Dão enorme contribuição para que o futebol brasileiro, além da CBF e outras mumunhas, mais logo se iguale ao mundo da contravenção, do crime, do gangsterismo.

Ah, recentemente na volta para casa, jogadores do Fortaleza foram atacados em emboscada. Não houve mortos. É isso.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sábado, 2 de dezembro de 2023

Pílulas amadoras - 7

*por Humberto Pereira da Silva

A campanha do Botafogo nesse Brasileirão é um dos fatos mais insólitos que vi no futebol. Momentos em uma partida, um jogo ou mesmo uma sequência de jogos, podem apresentar situações inusitadas. A derrota do Brasil na Copa de 2014 para a Alemanha é um bom exemplo.

Mas o que acontece com o Botafogo se refere a uma temporada. Quer dizer, 36 dos 38 jogos previstos. O melhor desempenho na história dos pontos corridos no primeiro turno. No segundo, no entanto, supera apenas o América-MG e o Goiás.

Depois da virada que sofreu do Palmeiras, em especial, a sucessão de resultados é simplesmente inacreditável. O extremo do inacreditável foi o empate contra o rebaixado Coritiba.

Leio e ouço tentativas de explicação para o que acontece com o Botafogo. As explicações são as mais variadas e se multiplicam. Decisões erráticas da cúpula, leia-se Textor/SAF, inexperiência do TIME em momentos decisivos... Enfim, não faltam tentativas de explicação. 

Não tenho nem longuinquamente a pretensão de mais uma. Há uma interrogação, no entanto, que me parece um ponto cego. Como foi possível a campanha do Botafogo no primeiro turno? 

É como se no insólito houvesse abaixo uma camada mais insólita. O gol de empate do Coritiba 42 segundos depois do gol do Botafogo, já marcado para além dos acréscimos, é inacreditável, como ouvi gritar o narrador global. Mas esse evento absolutamente casual se repetiu inúmeras vezes a favor do Botafogo nas 19 rodadas do primeiro turno. 

No primeiro turno, contra o Palmeiras, houve um gol anulado pelo VAR e um pênalti perdido pelo Verdão. Numa jogada casual e até despretensiosa, gol de Tiquinho e vitória do Botafogo.

A campanha do Botafogo no primeiro turno, para mim ao menos, é o insólito do insólito. Algo que me faz pensar na fantasia Alice no país das maravilhas e sua lógica do absurdo. 

***

Palmeiras campeão? Pois é, nesse Brasileirão a palavra "favorito" perdeu o sentido. Num nível bem menor, e sem o foco do Botafogo, o Atlético mineiro é quase o espelho invertido do Fogão. Constante na irregularidade ao longo dos dois turnos, o Palmeiras pode surpreender nas duas rodadas que restam. Eu, no entanto, não me surpreenderia. 

Cravar Palmeiras campeão é tão absurdo quanto esquecer o quanto os resultados desse Brasileirão têm sido absurdos. Num campeonato tão surpreendentemente absurdo, o Fluminense sem qualquer pretensão não é um mero sparring para o Palmeiras cumprir tabela. E o boato em torno de possível saída do Abel para o Catar parece piada pronta a duas rodadas do fim...

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 6

*por Humberto Pereira da Silva

Reprodução - Youtube

Passada a data FIFA, e a seleção... volta o Brasileirão com contas e tabelas finalmente ajustadas. Jogos com atenção para a parte de cima e a de baixo na tábua de classificação. 

Na parte de baixo uma fixação, que mistura crença, superstição, matemática e certa preguiça mental: quem fizer 45 pontos não cai. Seguindo esse "número mágico", o Fortaleza na 12ª posição, com os tais 45 pontos, não mais correria risco de cair... 

Não consigo imaginar todos os cruzamentos nas rodadas finais. Mas nas próximas rodadas se o Bahia perder e, vendo a tabela, o Fortaleza só cai se levar solenes goleadas... E ainda há o Cruzeiro, que complementa a rodada medindo [o que sobrou das] forças com o desesperado Goiás.

"Matematicamente", sim, o Fortaleza pode ser alcançado pelo Bahia. O São Paulo com 46 pontos também...

Cruzando todos os resultados possíveis é o caso de dizer que o Fortaleza ainda corre risco porque não atingiu o "número mágico? Ora, tendo superado o dito cujo, o Tricolor paulista sendo superado por Bahia e/ou Cruzeiro "matematicamente" não corre risco numa combinação maluca de resultados?

É preciso pôr no papel TODAS as combinações possíveis de resultados nas rodadas ainda vindouras para saber se ele, São Paulo, ainda pode cair, pois "matematicamente"... ainda pode ser alcançado por quem está, como dizem em algures e alhures d'além mar, abaixo da linha d'água. 

Quero dizer com isso que quando se fala em "número mágico" é preciso efetivamente fazer contas. Num campeonato com resultados tão surpreendentes, vejamos como foi a rodada 35. A goleada do Bahia sobre o Corinthians, além de Vasco, Santos, Inter e Fortaleza pontuando, e São Paulo x Cuiabá deixou de ser mero cumprimento de tabela. 

A campanha do Botafogo no segundo turno [n.e: 15 de 48 pontos] deve servir de lição para que uma expressão como "número mágico" não seja entendida literalmente: um número... mágico. Por óbvio, onde há mágica, não há matemática.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 5

*por Humberto Pereira da Silva

Foto: Gabriel Machado/AGIF/Folhapress

Como é óbvio, gosto muito de futebol e acho muito legal mesmo escrever, conversar sobre o assinto. mas os acontecimentos desse final de semana me desanimaram um bocado. Coritiba x Cruzeiro no final aquela briga entre torcidas; depois, Grêmio x Corinthians e o Alessandro, ex-jogador e atual ocupante de cargo de diretor do Corinthians, tenta invadir a sala do VAR [nem era onde estava o árbitro auxiliar, mas o equipamento...]

É desanimador. Ao longo do campeonato outras cenas se somam. De qualquer forma, terminada a rodada e só o Palmeiras (62) se saiu bem. Entre os que estão envolvidos diretamente com o título, foi o único que ganhou. O Atlético Mineiro (57), um pouco abaixo, ganhou e tem chance, mas acho difícil, pois tem só quatro jogos a realizar. O Flamengo (57) se complicou com o empate no Fla-Flu, mas com cinco jogos, virtualmente está a dois pontos do Palmeiras. A diferença de um jogo, uma rodada, e muita coisa muda. E ainda há a Data FIFA à mistura.

Sobre o Palmeiras? Se eu fosse palmeirense, ficaria bem apreensivo. Acho que essa é a temporada mais inconstante da era Abel. Não dá para confiar e deve perder pontos nessa reta final, mas os concorrentes também. Como diz a malta da terra de onde veio parte da família do Marcos Teixeira, editor deste blog e meu ex-aluno na faculdade, ao fim e ao cabo o campeão será... como o Flamengo em 2020, por demérito dos concorrentes. Ou então porque calhou de estar na liderança ao fim da última rodada.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

sábado, 11 de novembro de 2023

Pílulas amadoras - 4

 * por Humberto Pereira da Silva

Foto: Reprodução/Botafogo TV

Com os resultados da rodada, dá para cravar: o Botafogo e um caso (case, para brincar com anglicismo). Caso, bem entendido, que valeria ser SEMPRE lembrado não tanto em razão da derrocada espantosa no segundo turno do Brasileirão, mas sim como foi possível a campanha do primeiro turno. 

Como foi possível a um time que até o início do Brasileirão não revelar qualquer indício de favoritismo num campeonato tão equilibrado ter desequilíbrio como desequilibrou? O que me vem é o notável absurdo de praticamente ninguém ter questionado haver algo fora da ordem na campanha do primeiro turno. 

O caso Botafogo faz pensar duas coisas no calor da hora. Num campeonato longo uma equipe não se monta de uma hora pra outra, do nada, para manter regularidade até o fim. Outra coisa: futebol brasileiro há variáveis e variáveis que não podem ser subestimadas. O interesse no Brasileirão é fortemente condicionado por exemplo pelo envolvimento das equipes da Libertadores, na Copa do Brasil... é só olhar a tabela e vermos o de estão o Flu e o São Paulo. 

Essa é tão só UMA variável. Mas que para mim dá um tanto de sentido para explicar o case Fogão.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética no Jornalismo.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

BOTAFOGO - Sobre meninos mimados

 Reprodução/Premiere

Se o Botafogo conseguir a proeza de perder um campeonato no qual teve 13 pontos e de vantagem para o segundo colocado, John Textor e os líderes do elenco terão muitos o que explicar: Textor, o dono, porque não segurou o técnico Bruno Lage; os líderes, por terem derrubado o treinador e bancado Lúcio Flávio, que teve boa passagem dentro de campo pelo próprio Fogão, mas nem treinador é. 

O trabalho de Lage, se comparado ao do antecessor Luís Castro, era ruim, mas em momento algum o elenco comprou as ideias dele. No Benfica, que ele pegou a duas rodadas da final do turno e sete pontos atrás do líder, terminou campeão e com mais de 100 gols num campeonato com 34 rodadas, e ainda teve que enfrentar os quatro adversários mais bem colocados na tabela fora de casa. E venceu todos eles. Lage poderia não ser o melhor, mas está longe de ser despreparado.

AVASSALADOR Bruno Lage foi campeão português pelo Benfica
(Foto: Jorge Amaral/Global Imagens / Esporte News Mundo).




Textor não quis bancar um treinador interino, Cláudio Caçapa, apesar das quatro vitórias em outros tantos jogos, mas o levou para ser treinador de seu time na Bélgica, o Molenbeek. Buscou outro português, talvez pela grife, mas com experiência para tocar o barco. E este barrou o artilheiro Tiquinho Soares e o mundo caiu.

Tiquinho, craque de última hora no Campeonato Brasileiro, teve uma boa passagem pelo FC Porto, onde era bem quisto pela torcida, mas longe de ser o jogador indiscutível no qual se tornou aqui. Lage o colocou no banco e teve o tapete puxado publicamente pelos líderes do elenco.

E depois? O Botafogo melhorou? Instável, segue derrapando e com seríssimos problemas para lidar com a pressão causada pelo estupendo trabalho de Castro, que se foi, como tantos outros por aí afora para receber o dinheiro árabe e para treinar Cristiano Ronaldo. Foi prejudicado contra o Palmeiras? É discutível e pode ser que sim, mas não há erro de arbitragem que justifique um time que abriu 3x0 ainda no primeiro tempo (e ficou barato) e tinha um pênalti a favor aos 37 do segundo tempo e com 3x1 no placar.

Se o Botafogo conseguir perder o campeonato, será não só a maior pipocada da história do futebol brasileiro, como também será a prova de que elencos mimados podem estragar um grande trabalho. E, neste sentido, Textor e os líderes do elenco terão sido os maiores responsáveis.

Pílulas amadoras - 3

por Humberto Pereira da Silva*


SOBRENATURAL DE ALMEIDA O personagem de Nelson Rodrigues
esteve em campo no Nilton Santos (Foto: Thiago Ribeiro/AGIF)

O jogo também é ganho fora de campo

No final do primeiro turno, um colega crítico de cinema que admiro e botafoguense escreveu no Facebook: "Não quero comemorar antes da hora, mas que loucura é esse Botafogo".

Mantivemos uma conversa virtual e destaco aqui um trecho do que escrevi para ele: "Mas, para mim, a imprevisibilidade no futebol, tão previsível, é o que me faz esperar pelas próximas 10 ou 12 rodadas pra ver o que vai acontecer com o Botafogo".

E, na sequência da conversa, fiz essa observação: "Mas, mas... sobressaltos, inconstâncias, irregularidades estão no caminho nas próximas 12 ou 13 rodadas. Isso pra mim o previsível... e, bem,... apenas especulação: jogos de seis pontos e o Bota não pode nem longinquamente pensar em perder para o Palmeiras e Grêmio. Pois teria que contar com a irregularidade deles pra não ver essa diferença diminuir pra seis pontos... ora, ora, caro... seis pontos no futebol brasileiro e toda sorte de VAR entra em campo... rs".

Nada de vã vanglória no vaticínio. Todo vaticínio, por princípio, se expõe ao erro. Senão, não seria vaticínio.  Acertar não é senão probabilidade. Mas, confesso, a expulsão de Adryelson me espantou. 

Até a expulsão, levando em conta a torcida, e não a fria probabilidade, o Fogão era campeão, pois num jogo de seis pontos punha nove na frente do segundo colocado faltando somente 7 rodadas (fora a partida a ser jogada com o Fortaleza). A entrada do VAR em campo decidiu a sorte do jogo. 

E sobre o VAR e arbitragem, só pra completar, gostaria de saber a opinião de Abel Ferreira e seu auxiliar, que no meio do campeonato sustentou: "Sistema quer evitar o bi do Palmeiras no brasileiro". 

Futebol, em todo lugar, é um jogo jogado dentro e fora de campo. "Sistema" não é folclórica teoria da conspiração. Abel, seu auxiliar e o Palmeiras sabem isso. Quem quer que acompanhe o futebol com atenção, para além do coloquial "jogo roubado", sabe isso. 

Impossível afirmar que calculadamente o "Sistema" se intimidou frente ao Palmeiras e... no momento de uma decisão controversa o VAR... Mas, a ação do VAR em momento me faz lembrar a frase de Júlio César: "A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".

A vitória do Palmeiras, 0 a 3 contra e, depois, 1 a 3 tendo o adversário um pênalti par abater já perto do minuto 40 do segundo tempo, foi épica. Mas o Palmeiras também ganhou fora de campo.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Pílulas amadoras - 2

por Humberto Pereira da Silva*


ALERTA LIGADO Derrota em casa para o Cuiabá impede
Fogão de alargar liderança (X- Cuiabá EC)

O Botafogo pôs 13 pontos na frente do segundo colocado, no fim do primeiro turno do Brasileirão. E, vejamos, a diferença então do segundo para o primeiro da zona de rebaixamento era de 12 pontos. 

Chegando no último quarto do campeonato, Fogão está 6 pontos à frente do segundo, o Palmeiras (tendo um jogo a mais a ser disputado). Por sua vez, a turma de Abel Ferreira está 21 pontos na frente do Goiás, primeiro na zona de rebaixamento. 

Há algumas lições que se pode extrair, e que são solenemente desdenhadas. Não há termo de comparação entre o Brasileirão e as principais ligas europeias. O Atlético Mineiro é 6º colocado, ao longo do campeonato chegou a namorar a zona do rebaixamento e na reta final só alguém completamente insano para cravar que teria menos chance de ser campeão que, digamos, Grêmio e Flamengo. Isso é inconcebível nas grandes ligas da Europa. 

Outra lição. No Brasileirão, é tão inconcebível especular que o Atlético não é candidato ao título no último quarto do campeonato quanto inconcebível o Fogão terminar o primeiro turno 13 pontos na frente. Ora, duas temporadas atrás o Fogão estava na Série B. Na temporada passada fez campanha pra se manter na Série A. Esse ano no inexpressivo Carioca não existiu. E de repente, não mais que de repente, é tratado ao fim do primeiro turno do Brasileirão como se fosse o Bayern na Bundesliga, ou o Manchester City, na Premier League.

O futebol jogado no Brasil é sujeito a chuvas e trovoadas. Isso o torna paradoxalmente tão imprevisível quanto previsível. No caso, uma previsibilidade que é até óbvio ululante, para recordar Nelson Rodrigues, brilhante cronista de futebol. Se o Fogão fizesse um segundo turno como o primeiro seria tão estranho quanto supor que o Fluminense, que já esteve entre os primeiros e agora só pensa na Libertadores, esteja na briga pelo título. Ora, na fria projeção dos números, o Flu está apenas 4 pontos atrás do Atlético Mineiro.

Ps: alertou-me o editor deste blog, Marcos Teixeira, que "o ponto de quebra do Botafogo foi a troca do treinador (Claudio Caçapa, interino, ex-ídolo do próprio clube e tampando o buraco deixado pela saída do Luís Castro, seduzido pelo dinheiro árabe e pela possibilidade de treinar Cristiano Ronaldo) por outro outro português, Bruno Lage, somente pela grife. Deu no que deu e Caçapa foi para o futebol belga para trabalhar no Molenbeek, que é do John Textor, dono do clube. Ele saiu depois de quatro vitória seguidas e o título bem encaminhado". Se for campeão, o será tendo tido quatro treinadores durante a campanha, mais um dos inúmeros paradoxos que tornam o Brasileirão previsivelmente imprevisível.

* Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

sábado, 4 de março de 2023

PORTUGUESA - As contas e o rosário

Em cima da minha mesa de trabalho eu tenho um Galo de Barcelos, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e um terço de madeira. No telemóvel ou no micro, posso usar a calculadora, isso se eu não pegar a caneta que ora repousa sobre minha orelha. Papeis, aos montes, espalhados à mesa. O galo, coitado, está todo remendado. A senhorinha da limpeza o derrubou. Mas se em Barcelos o bicho cantou quando estava assado, não será uma queda que o aplacará. 

Uma não. Algumas, na verdade. Também por minha culpa, mas ele segue aqui, firme, forte e remendado. 

Sou um profissional híbrido, daqueles que não dispensam papel, caneta e bagunça. E café, já que não posso beber em e no serviço. Se a Portuguesa me obriga a beber, mas eu não posso, ela faz com que eu faça contas e reze. Reze e faça contas. E beba café. E me lembre da última rodada do Campeonato Brasileiro de 1996. 

Após cinco vitórias seguidas, entre as rodadas 16 e 20, a Lusa chegou à última das 23 jornadas com duas derrotas na lomba, uma delas por 4 a 0 para o Coritiba. Como desgraça pouca é bobagem, iria jogar com o Botafogo, então campeão nacional, no Couto Pereira porque havíamos perdido mandos de campo por causa de uma confusão na oitava rodada. Sim, oitava rodada. 

Tinha que vencer e torcer por uma combinação improvável: tendo despencado ao 11º lugar – classificavam oito –, com 33 pontos, tinha que ganhar do Botafogo e secar três dos quatro adversários por uma das duas vagas restantes, pois do Grêmio, o sexto, para cima, todos estavam garantidos: Inter (35), que enfrentaria o rebaixado Bragantino; Sport (35), que visitaria o classificado Palmeiras; Goiás (34), que tinha pela frente um Grêmio nada preocupado com a Hora do Brasil e podendo sacanear o rival; e o São Paulo (34), que jogaria fora de casa contra um Paraná Clube sem nada mais para fazer.

Bom, todos sabem no que deu e nosso pão caiu com a manteiga virada para cima.

Naquele ano, brigamos pela vaga, que veio. Quase 30 anos depois, vencer é uma questão de sobrevivência e a missão, teoricamente, é menos complicada. Com sete pontos, a Lusa pode chegar a dez, mas não alcança a Inter de Limeira, que tem a tal dezena de pontos, mas duas vitórias a mais. Nosso negócio é com São Bento, Ituano e Ferroviária. 

Na ordem: os de Sorocaba, com 10, recebem o Bragantino, que já está classificado, mas precisa pelo menos empatar para terminar em primeiro sua chave. Aqui, a Lusa precisa torcer pela derrota do Bentão e tirar a diferença do saldo de gols (-6 a -3); o Ituano, que tem nove pontos e um saldo de gols de -10, joga em casa com o Santos, que está precisado de fazer ao menos um ponto a mais que o Botafogo; e a Ferroviária, que tem oito pontos, joga com a Inter, que joga pelo empate para se garantir. Aqui, basta os de Araraquara não ganharem.

Os três concorrentes jogam em casa e somente um destes resultados pode ser ruim para nós. Se dois deles fizerem sua parte, um abraço!

Ah, sim. Vem o mais difícil, que é a Portuguesa desfalcada vencer o descompromissado Mirassol no Interior. No inacreditável rebaixamento de 2012, o empate bastava na última rodada, que também foi contra o Mirassol, eliminado como agora. E perdemos por 4 a 2. 

Então, quem tiver fé, a hora é agora. Quem não tiver, que arrume uma. Porque, ora, na zona do rebaixamento não existem ateus.

Texto originalmente publicado no NETLUSA

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

PORTUGUESA - SAF-se quem puder?

Divulgação

Com a aprovação da Lei das SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol), que permite transformar os clubes de futebol em empresas, sancionada recentemente pelo presidente da República, passou a ser o objetivo, ou melhor, o sonho de muitos torcedores de diversos clubes que o seu seja agraciado com a venda para algum multimilionário que estiver dando sopa por aqui e, ao ver que o distintivo está no mercado, atrás de investidores, perguntar a si mesmo “e por que não?” antes de despejar muitos milhões e transformar emblemas combalidos em potências do futebol mundial da noite para o dia.

Querem um "velho da lancha", um sugar daddy.

Essa espécie de loteria, desejo do torcedor, ficou ainda mais forte quando Ronaldo Fenômeno comprou o Cruzeiro e a venda do Botafogo para o investidor americano John Textor está a ponto de ser sacramentada. Textor, vale lembrar, detém 18% das ações do Crystal Palace-ING e andou balançando seu gordo cofre para a SAD do Benfica, que não quis saber de negócio.

Naturalmente, a torcida da Lusa não é diferente - ou ao menos a parte que costuma se manifestar em redes sociais. Quando a Red Bull tornou-se parceira do Bragantino, muito foi falado nas alamedas do Canindé que o negócio poderia ter sido feito com a Lusa. Aí está um ponto importante e pouco agradável de ser tocado: o Bragantino, à época, disputava a Série B do Brasileirão e a Série A1 do Paulista, estando numa posição muito mais interessante para a empresa austríaca, que já tinha seu time aqui, o Red Bull Brasil, que, como não conseguia avançar no cenário nacional ameaçava largar o projeto. Ou seja, a Portuguesa não tinha - e ainda não tem - condição de oferecer o que eles queriam. O que vinha depois, que era a mudança do distintivo, do nome e das cores, é outro ponto de discussão que não cabe aqui, no momento.

É isso o que a malta rubro-verde precisa perceber: o que temos a oferecer hoje, além da nossa tradição e da nossa história? Claro que isso é um cenário que pode mudar em dois ou três anos, mas até lá a Portuguesa ainda luta para voltar à Série D e à A1 do Paulista, e, é bom que se diga, não é algo lá que atraia os investidores mais graúdos para os nossos lados. E é importante também entender que um investidor não é um mecenas. Muito pelo contrário. Relações como a que tínhamos com o saudoso dono dos Armarinhos Fernando são bem diferentes de alguém - ou algum grupo - que queira usar a Portuguesa para ganhar dinheiro, que é, afinal, o resultado esperado em todo investimento.

A mudança para que a Lusa se transforme em uma SAF é o caminho natural - e até aconselhável -, mas que isso não faça o torcedor achar que todos os problemas serão solucionados. Não é raro haver uma espécie de fetiche com relação às chamadas gestões empresariais, como se elas significassem boa governança e garantia de sucesso. Empresas quebram todos os dias e por diversos motivos, e a Portuguesa, ou outro clube qualquer, não estão livres disso, mesmo sendo SAF ou não. Vejam casos como o do Desportivo das Aves, e d’Os Belenenses, em Portugal, ou no Chile, onde o Colo-Colo passa por aperto desde que foi comprado. São estes, bem como a Espanha, os países que serviram como modelos para os autores da Lei 14.193/2021. Para tanto, sugiro a leitura do livro “Clube-Empresa - Abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, de diversos autores, organizado pelo jornalista Irlan Simões.

Eventual mudança de modelo de gestão não significa, necessariamente, a solução para os nossos problemas, como mostra o exemplo do Colo-Colo, quase rebaixado no Chile (Getty Images)

Além do mais, a legislação, por obra e desgraça do presidente, não obriga o investidor a ter sua identidade revelada sob o pretexto de que isso poderia espantar eventuais interessados que preferem se manter no anonimato (diferentemente do que era previsto no PL e foi um dos itens vetados pelo presidente. O Senado Federal ainda derrubou alguns vetos, mas este foi mantido), justamente o ponto que garantiria transparência no negócio. Em outras palavras, abre as portas dos clubes para quem quer lavar dinheiro sujo e não quer, obviamente, mostrar a origem da grana.

E é aí que está o negócio - ou o ponto mais importante dele. Devemos ter muito cuidado com quem irá colocar o dinheiro, de onde ele vem, o modelo da gestão e, principalmente, as diferenças no plano de negócios nas ações de curto, médio e longo prazo. É isso ou será mais um capítulo a ser lamentado na nossa história. E, convenhamos, capítulos lamentáveis não nos têm faltado.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Messi ou Ronaldo? Pelé!

(Fotos: Getty Images. Montagem: Placar)

Vira e mexe, aparecem polêmicas que tentam comparar jogadores diferentes, de épocas diferentes, e vaticinam que este é melhor que aquele e pronto. A mais nova é sobre o melhor jogador de todos os tempos – ou GOAT (Greatest Of All Times, de acordo com o estrangeirismo comum das redes sociais): Messi, Cristiano Ronaldo ou Pelé.

O estopim foi a fase de oitavas-de-final da Liga dos Campeões, quando Cristiano passou por cima do Atlético de Madri e fez os três gols que classificaram sua Juventus aos quartos da competição. Um luxo! A resposta de Messi foi uma atuação de gala (mais uma) no passeio sobre o Lyon, completada na soberba partida feita na goleada sobre o Bétis, pelo Campeonato Espanhol. 


Nada de novo, portanto, do que ambos já vêm fazendo há quase uma década e meia.

O duelo entre eles é o que há de mais bonito no futebol mundial e ninguém, atualmente, sequer está próximo do nível dos dois. O português é o maior artilheiro da Liga das Campeões da UEFA, torneio que conquistou em cinco oportunidades, o mesmo número de Bolas de Ouro que possui. Cinco também tem o argentino, que venceu a maior competição de clubes do mundo quatro vezes. Isso fora o que fazem semana após semana, o que não é pouco, ainda mais se considerarmos os seus feitos, com marcas superadas aos montes, hat-tricks empilhados e atuações monumentais nos principais palcos do mundo.

Aí vem a questão: já superaram o Rei? Bom, vamos a alguns fatos: Pelé, na maior competição do futebol, a Copa do Mundo, tem três títulos em quatro disputadas, o mesmo número de copas que tiveram Messi e Cristiano em campo. Messi, finalista em 2014, tem seis gols pelo torneio, todos na primeira fase; Cristiano, semifinalista em 2006, quando foi um jovem coadjuvante do time que tinha Figo e Rui Costa como principais expoentes, tem um a mais, e nenhum a partir das oitavas. Pelé, que fez 12, só na Copa de 58 anotou seis, três deles na semifinal com a França e dois na final, sobre a Suécia, que sediava aquela edição, a primeira vencida por um país de outro continente. Pelé, então coroado Rei, tinha 17 anos. É verdade que ele teve companheiros de seleção bem melhores ao longo da vida, mas ele era o melhor entre eles.

Há quem diga que Pelé enfrentou jogadores menos capazes do que a dupla de antagonistas do Século XXI, que “o Paulistinha nem se compara com com La Liga ou com a Champions”. Ora, entre os anos 1950 e 1960 – que concentram as três primeiras conquistas mundiais pela Seleção, fora o bicampeonato mundial de clubes do Santos, em 62/63 –, os melhores estavam aqui. Todos os campeões das Copas de 58 e 62 disputavam o Rio-S.Paulo, torneio em que Pelé deitava e rolava, como fazia em todos. Nem na Copa de 70 havia um forasteiro sequer (somente cinco dos 22 vestiam camisas de clubes de fora do chamado eixo Rio-São Paulo). Eis as listas:

1958:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Corinthians);
Laterais: De Sordi (São Paulo), Djalma Santos (Portuguesa), Nilton Santos (Botafogo) e Oreco (Corinthians);
Zagueiros: Bellini (Vasco), Mauro (São Paulo), Orlando (Vasco) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Dida (Flamengo), Didi (Botafogo), Dino Sani (São Paulo), Moacir (Flamengo) e Zito (Santos);
Atacantes: Garrincha (Botafogo), Joel (Flamengo), Mazzola (Palmeiras), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Vasco) e Zagallo (Botafogo).  


1962:
Goleiros: Castilho (Fluminense) e Gylmar (Santos);
Laterais: Altair (Fluminense), Djalma Santos (Palmeiras), Jair Marinho (Fluminense) e Nilton Santos (Botafogo);
Zagueiros: Bellini (São Paulo), Jurandir (São Paulo), Mauro (Santos) e Zózimo (Bangu);
Meio-campo: Didi (Botafogo), Mengálvio (Santos), Zequinha (Palmeiras) e Zito (Santos);
Atacantes: Amarildo (Botafogo), Coutinho (Santos), Jair da Costa (Portuguesa), Garrincha (Botafogo), Pelé (Santos), Pepe (Santos), Vavá (Palmeiras) e Zagallo (Botafogo).


1970:
Goleiros: Ado (Corinthians), Felix (Fluminense) e Leão (Palmeiras);
Laterais: Carlos Alberto (Santos), Everaldo (Grêmio), Marco Antonio (Fluminense) e Zé Maria (Portuguesa);
Zagueiros: Baldocchi (Palmeiras), Brito (Flamengo), Fontana (Cruzeiro) e Joel Camargo (Santos);
Meio-campo: Clodoaldo (Santos), Gerson (São Paulo), Rivelino (Corinthians) e Piazza (Cruzeiro);
Atacantes: Edu (Santos), Dario (Atlético Mineiro), Jairzinho (Botafogo), Paulo Cesar Caju (Botafogo), Pelé (Santos), Roberto Miranda (Botafogo) e Tostão (Cruzeiro).


Ou seja, este argumento, que tenta colar que os campeonatos europeus eram mais fortes que o Paulista e o Carioca, não se sustenta.

Há os que dizem que o futebol era muito mais fácil, que os sistemas táticos não eram tão fechados e que o futebol não era tão físico e veloz como é hoje. Não deixa de ser verdade, mas a tal facilidade é discutível: o esporte, como tudo no mundo, evoluiu. Se há menos espaços, e não há folga em campo mesmo, as condições são bem melhores. Pelé pegou gramados ruins, equipamentos rústicos, bola pesada e uma época em que a medicina esportiva era incipiente, além do fato de o jogo ser mais violento, sem tantas câmeras pegando as pancadas que os jogadores trocavam. Messi e Cristiano, por sua vez, têm à disposição uma equipe de profissionais,  tratamentos e aparelhos que atenuam o desgaste físico e aceleram a recuperação entre as partidas, programas de computador que ajudam a analisar o desempenho, bolas que começam e terminam o jogo com o mesmo peso, gramados em perfeitas condições, uniformes que não retêm suor, não terminam o jogo empapados ou, como a pelota, com uma parcela da chuva que eventualmente tenha caído.

Alguns fatores favoreceram o Rei, é bom pontuar. O principal deles é que ele, assim como Messi, vestiu a mesma camisa durante toda a carreira (a passagem pelo Cosmos aconteceu após a despedida oficial pelo Santos), não precisando se adaptar a novas formas de jogo e à vida em outros sítios. Nos dias de hoje, e isso é um ponto a favor do argentino, é praticamente inimaginável que Pelé permanecesse no Santos.

Da mesma forma, não resta dúvida de que o Rei seria um jogador ainda mais completo, uma vez que o talento é nato. Pelé, que media 1,72m (achou que fosse mais alto, né?), provavelmente seria mais alto e mais forte, considerando o resultado da sua aplicação, combinada com a evolução humana e os avanços em todas as áreas, incluindo a esportiva.

Temporada após temporada, Messi e Cristiano se reinventam, tornam-se melhores porque Messi é e Cristiano faz de tudo para ser, e consegue. Um é arte pura. O outro, obstinação. E a pergunta inevitável é a seguinte: como seria um jogador com o talento de Messi e a determinação de Cristiano? 

A resposta é simples: este é Pelé.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Anjos não passam jamais


Caso estivesse vivo, Mané Garrincha faria 82 anos neste dia 28 de outubro. Carlos Drummond de Andrade, craque da pena, escreveu isto sobre o Anjo das Pernas Tortas:

"Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho."

Ele não percebeu sua condição de agente divino e deixou-se ser vilipendiado pelos dirigentes do seu Botafogo, que ganhava mais dinheiro nos amistosos quando tinha à disposição o homem que era a Alegria do Povo. Mané precisava parar para cuidar dos joelhos, arrebentados pela truculência de um monte de Joões que enfileirou pelos gramados.

Mané foi vítima de si mesmo. Posto de lado quando precisava do carinho de quem o explorou por tanto tempo e sua mais valia não valia mais, nem o amor de Elza Soares foi capaz de impedir que partisse tão cedo. Ela era, provavelmente, a única que se preocupou de verdade com ele.

A torcida de sonhos, cantada por outro craque, Moacyr Franco, não aplaude mais. Outros craques não repetem suas jogadas, talvez por não interessar mais, ou porque são incapazes mesmo.

Cadê você, Mané? Não sabemos, mas deve estar em um lugar melhor do que o médico que te liberou para jogar quando não podia.


Não, Moacyr! Mané Garrincha não passou. Gênios - e anjos - não passam jamais.

Crédito da imagem: Blog do Barão lhkz

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Retalhos e rebotalhos

Um nome conhecido voltou à baila recentemente por dois motivos distintos: a eleição de um dos maiores clubes do mundo e uma das maiores sacanagens da história: Carlos Miguel Aidar.

Aidar é o candidato da situação no pleito do São Paulo. Figura histórica do Tricolor, foi Aidar um dos principais responsáveis pela criação do Clube dos 13, lá nos anos 1980. Graças a Aidar foi criada a Copa União, que deixou como legado o futebol para a Rede Globo, além da primeira prova inconteste da incompetência dos dirigentes brasileiros para gerir um campeonato sem a chancela da CBF ou de outra entidade-mamadora-nas-tetas-dos-clubes, como é a FPF, só para dar um exemplo.

Durante anos, por causa da disputa com o Flamengo (time do coração de Ricardo Teixeira) pela Taça das Bolinhas, o São Paulo viveu às turras com a CBF. Depois que o Don Corleone largou o osso e a cadeira em favor do amigo da medalha alheia, o time da fidalguia paulistana se reaproximou da entidade máxima do ludopédio tupiniquim.


Agora Aidar é o advogado contratado pela CBF para cassar as liminares que a obriga a restituir o resultado aferido dentro de campo no Brasileirão-13. Além de ser o escolhido pela entidade para defender, segundo suas próprias palavras, a decisão do STJD, que é (ou deveria ser) teórica e estatutariamente independente, se presta ao triste e rasteiro serviço de porta-voz das ameaças vindas da Barra da Tijuca.

Mas se engana quem pensa que é recente o histórico de Carlos Miguel Aidar quando o assunto é afrontar a gente do Canindé. Foi Aidar o responsável pela Portuguesa ter sido posta à margem na concepção do Clube dos 13, fato que a alijou da disputa do primeiro campeonato com virada de mesa do país, a Copa União, aquela concebida por Aidar, em 1987 (em 86 o Botafogo não atingiu a pontuação necessária para garantir em campo o seu lugar na elite, coisa que América-RJ, Guarani e Portuguesa fizeram com sobras).

É imoral e promíscua a relação dele com a CBF. Ora, se for o presidente do São Paulo, como poderá opor-se à CBF em alguma contenda? Ah, mas o Marin criou-se no São Paulo, né? Sim, e na ditadura também. E na aristocracia que manteve a ditadura, como assim também foi com a Globo, que tem interesse em ter o Tricolor carioca na Série A. Os retalhos estão aí. É só costurar.

domingo, 2 de setembro de 2012

De segunda mão

* por Douglas Sato

Os clubes brasileiros, há muito, não conseguem segurar seus grandes jogadores, que são levados para os grandes polos do futebol: Europa, Ásia, Oriente Médio, a peso de ouro e, certamente, ganhando rios de dinheiro, além de vários anos de contrato.

Em contrapartida, os grandes do cenários nacional passaram a importar atletas já em final de carreira e de contrato. Por este fator, entramos numa via inversa. Existem atletas que, como se tem visto, já não possuem mais condições de atuar nos dois tempos. Iniciam o jogo e saem no período final, ou vice-versa. São como  aquele celular ou outro eletrônico qualquer que chega no Brasil um ano depois do lançamento, já obsoleto. Esses jogadores, pela idade, já não estavam mais rendendo nos clubes onde atuaram e ganharam prestigio. Neste caso, alguns foram até dispensados para dar lugar aos mais jovens.

Agora, se olharmos no elenco dos grandes clubes, podemos ver que o nosso futebol está importando demais e muitas vezes de forma errada. Vejamos Diego Forlán, do Internacioanl. Filho de Pablo Forlán, ex-lateral do São Paulo, Forlán chegou à Inter de Milão credenciado pela ótima exibição na Copa de 2010, quando não só se destacou pela seleção uruguaia como foi escolhido o melhor jogador da Copa. Apesar da expectativa, o veterano de 33 de anos não conseguiu se estabelecer no clube italiano.




E agora eu pergunto. Se na Inter de Milão, com todos os grandes nomes que possui no elenco, o uruguaio não conseguiu se estabelecer, porque aqui seria diferente? Em 2002, o atacante acertou sua ida para o Manchester United, onde jogou ao lado de grandes craque como Barthez, Giggs, Beckham, Scholes, dentre outros. Mas não conseguiu emplacar nos Red Devils.

Então, deixou a Inglaterra, mas, sem sair da Europa, mudou-se para o Villareal. Sem brilhantismo, mas com números ao seu favor, ascendeu para o Atlético de Madrid, e ai sim, desencantou. Porém, os altos e baixos na carreira do atleta não o qualificam para o investimento do Internacional. Ao todo, foram sete partidas como titular e nenhum gol marcado, fora as grandes chances perdidas pelo uruguaio.

No Botafogo, temos outra situação parecida. A maior contratação de um estrangeiro feita por um clube  brasileiro. Único a conquistar a Liga dos Campeões por três clubes diferentes, bicampeão do mundo, campeão espanhol, holandês e italiano, entre outras inúmeras conquistas coletivas e individuais. Não vingou. Ao contrário, em inúmeras vezes, o atleta acaba atuando só com o nome.

Sei das qualidades de Seerdorf, e não são poucas. Mas creio que o médio deveria ser mais humilde consigo mesmo. Em várias partidas pelo clube de General Severiano o atleta vem precisando de um par de pulmões a mais. Ele ainda está no calendário Europeu, precisa melhorar sua condição física e recuperar seu ritmo de jogo.


Por fim, e infelizmente, só nos resta ver e tentar gostar daquilo que nos oferecem e, paralelamente, torcer pelos ídolos que vão atuar no exterior. Lá, sim, o IPhone é de primeira mão.

* Douglas Sato tem 23 anos, é músico e estudante de Jornalismo 
(nesta ordem) e, nas horas vagas, é imitado pela dupla Cesar Menotti e Fabiano.