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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O engajamento e a permissão para odiar

O zagueiro Gustavo Marques, autor de falas misóginas ao fim da
partida em que sua equipe foi eliminada no Campeonato Paulista

Na semana que passou, casos de racismo e misoginia ocuparam lugar de destaque no noticiário esportivo, com os lamentáveis acontecimentos nos jogos Benfica x Real Madrid e Red Bull Bragantino x São Paulo. Como ocorre com tudo o que é relevante, os temas dominaram as discussões também nas redes sociais. 

Antes de retomar o tema, cabe uma contextualização: que a forma de comunicar mudou, todos aqui sabem. A inclusão digital, as redes sociais e o acesso à internet de alta velocidade possibilitaram que a opinião e a informação, chamados por aí de "produção de conteúdo", possam ser feitas por qualquer pessoa munida de um aparelho celular com acesso à rede mundial de computadores.

Mais gente gera conteúdo, mais gente engaja, mais gente lucra. O jogo é este e está tudo certo. O problema é ser desonesto em troca de engajamento.

Alguns perfis, ao menos entre os que tentam se passar como sérios, têm uma linha editorial progressista. Dos que eu conheço, a maioria se enquadra aqui. Muitos se posicionaram, o que fez com que uma horda de trolls barulhentos saísse do esgoto para vomitar ódio e preconceito. Coisa de gente covarde, que não mostra a cara e se esconde atrás da tela do celular. Pessoalmente, duvido que tenham coragem para bancar esse monte de merda que o ambiente online os deixa a vontade para ser.  

No entanto, o mesmo perfil que defende as vítimas permite toda sorte de imundícies nos comentários. Deixa todos lá, um por um. Pelo engajamento, dá palco, microfone e amplificador a quem deveria ser combatido. 

Ao menos, que sejam honestos e deixem claro que, por ganharem com isso, não apagam os insultos, tampouco bloqueiam e/ou denunciam seus seguidores que rezam para pneu e, nem é preciso explicar por quê, não deveriam ter esse espaço. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Os criminosos e o idiota

Foto: Instagram/tabataamaral

Por trás do caso do imbecil que fez apologia ao nazismo está o baixíssimo nível de exigência de quem consome esse tipo de produto. Confesso que nunca gastei um segundo da minha existência ouvindo o podcast do energúmeno, então não sei que raio ele faz para que tanta gente de nome aceite participar do programa, mas me assusta o fato de alguém tão despreparado, tão raso, tão burro, ter tanto alcance.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman falou sobre a Modernidade Líquida e sua superficialidade em diversos aspectos e o cultural também se encaixa. Que tipo de conteúdo é procurado? Quem quer entretenimento fugaz busca informação em algum lugar ou tudo é festa e foda-se o resto?

Isso, sob hipótese alguma, exime os dois deputados que estavam à mesa, Kim Kataguiri e Tábata Amaral, da obrigação de terem dado voz de prisão ao pateta que cometeu um crime ali, sob as fuças deles, que prevaricaram e deveriam responder por isso. O entulho de 2013, inclusive, concordou e justificou dizendo que, se não for às escuras, o movimento pode ser combatido e só cresce porque é proibido. Sugiro, pois, que legalizemos o estupro, pois, sob a ótica do parlamentar para se lamentar, a prática irá diminuir ao deixar de ser proibida, tornando-se uma mera questão moral.

Voltando ao tipo de produto que é consumido, o mesmo pode ser observado na programação futebolística na TV, no rádio e na Internet. O tal jornalismo engraçadinho já tomou conta de transmissões esportivas e muita gente prefere o comentarista fanfarrão ao que informa. O conteúdo é o de menos. O importante é divertir, mesmo que para isso muita gente boa esteja fora do mercado para que paspalhos do Pânico falem um monte de merda ou humoristas comentem jogos do handebol feminino na Olimpíada só porque o nome da goleira do Brasil é o mesmo que apelida a genitália feminina.

Se antes tínhamos Jô Soares e seu vasto conhecimento cultural, hoje temos Monark e um monte de bobos gerando conteúdo bobo para outro monte de bobos. E achando que nazismo e racismo são mera questão de liberdade de expressão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sobre a má vontade, o melindre, a imprensa e o Abel Ferreira

Imagem: Conmebol TV


Vamos direto ao ponto: sabem por que Abel Ferreira sofre tanto nas mãos de parte da crítica? Porque ele incomoda. E incomoda porque, vindo de fora, põe o dedo na ferida. Erra? Erra muito, mas em tudo tem método. E parte da imprensa não suporta isso. Principalmente porque ela também é parte do problema.

Muitos dos jornalistas que trabalham no futebol, em vez de analisar projetos, cobram pelo resultado. E daí que não treina? Boa parte de quem analisa sequer entende o futebol praticado hoje, dentro dos conceitos que, pejorativamente, chamam de "futebol moderno". Aí, quando vem alguém de um lugar "que-nunca-ganhou-nada-quem-são-eles-para-ensinar-o-futebol-pentacampeão-mundial?", é pior que tomar de 7 a 1 da Alemanha em casa. A mesma Alemanha sangrou para ganhar da Argélia no jogo anterior, é bom lembrar.

Abel colabora? Opa! E como! Seu espelho é o José Mourinho, então tudo o que vemos Abel fazer, seja em campo ou fora dele, é inspirado no treinador português mais famoso. É bonito? Isso é relativo. É eficaz? Os números e os troféus mostram que é. Daí, para o debate descambar, "é dois palito". Até a vinda da Família Real Portuguesa em 1808 e seus inquestionáveis danos à cultura e à formação do povo brasileiro são citados, como se Abel tivesse alguma culpa nisso.

A exaltação ao caráter europeu e português em comparação à suposta indolência brasileira citada pelo treinador do Palmeiras na coletiva que desencadeou a última das desinteligências envolvendo seu nome não é mais que a resposta atravessada de quem é visto como inferior por não ter tido a dádiva suprema de ter nascido no país do futebol, abençoado por Deus e bonito por natureza, essa resposta mimada e infantil, comum de quem busca somente desqualificar o outro em vez de trazer pontos válidos para o debate.

Precisava? Não sei. Acho que não. Mas não se condena a reação sem colocar a ação no contexto. No fim, evoca-se a vitoriosa história do futebol brasileiro para sentar-se em cima dela e fazer de conta que nada está errado, quando a realidade é bem diferente disso. Está errado e não é pouco não. Em muitos setores envolvidos com o futebol, aí pode ser na prática, na organização ou na mídia, todos erram muito, mas nem todos estão dispostos a enxergar isso. Aí, Portugal, um país cuja população é 20 vezes menor que a do Brasil, reconhecendo suas limitações naturais, tratou de diminuir o impacto disso através de muito estudo e muito trabalho. O contingente de treinadores portugueses espalhado pelos principais campeonatos do mundo não se deu por geração espontânea ou brotamento, é o fruto deste esforço, que o PVC explica em seu blog no UOL.

Por aqui, escorados nas cinco estrelas, seguimos apostando no conhecimento empírico, no "quem-nunca-chutou-uma-bola-não-tem-que-falar-nada". E assim seguimos. Rejeitamos os ensinamentos de um português só porque é português. Sim, ao pé do Brasil, a história portuguesa no futebol é irrelevante, mas evocar nosso passado glorioso para defender o nosso jeito de pensar o jogo em relação à Europa só aumentará o oceano que nos separa.

Em outras palavras, o técnico pode fazer o time jogar feio, desde que gostemos dele. Do técnico, claro. 

E perdem todos: o futebol brasileiro, que demora para acompanhar a inevitável evolução do esporte; e o próprio Abel, que vive às turras com parte da imprensa e da torcida porque, bem, ele é assim e isso faz parte do pacote. Honestamente, não sei até que ponto compensa para ele insistir em ser esse agente transformador.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Sidão, Rede Globo e a quinta série



Ao entrar em campo para o jogo com o Santos, Sidão era mais que o Sidão. Era o Sidney Aparecido Ramos da Silva, 36 anos, que perdeu a mãe aos 18 e que, naquele Dia das Mães, tinha o nome da dona Vera Lucia na camisa. Ele entrou em campo disposto a dedicar a partida à sua memória e, ao fim do jogo, certamente só tem motivos para esquecer este dia.

Leia também:
Preocupante, mas com melhoras - Portugal 1 x 1 Sérvia

Nem tanto pela atuação ruim. Não foi a primeira, não será a última, tampouco foi o único a passar por isso. Porém, a humilhação à qual foi submetido por causa da desastrosa e desastrada ação da Rede Globo, que deu o direito ao “amigo internauta” decidir o “craque do jogo” e, mesmo diante de uma clara demonstração do quanto o brasileiro é galhofeiro, resolveu ir até o fim de “premiar” o jogador.

Não fosse por isso, seria um jogo que em três ou quatro anos pouca gente se lembraria. Trivial, com um Santos bem treinado e triturando o que sobrou do Vasco da Gama, o desempenho dos times era previsível e, mesmo sem o erro do primeiro gol, o Peixe tinha tudo para vencer com relativa facilidade.

A atuação de gala de Rodrygo e a pavorosa exibição do time da Cruz da Ordem de Cristo ficaram em segundo plano diante do embaraço da repórter Julia Guimarães e da resignação de Sidão. Duas vítimas da falta de tato de quem deu a ordem de entregar a tal honraria.

Já houve quem dissesse que o goleiro errou ao abandonar a entrevista ou que a jornalista deveria se recusar a fazê-lo. É fácil falar quando o julgamento será feito de qualquer maneira. Mas a questão é que quem julga é, na verdade, o grande culpado.

Vivemos uma era de idiotização constante, em que tudo é razão de chacota, mesmo que o preço seja a humilhação. Um dia de trabalho ruim é motivo de riso, como se quem faz troça não estivesse sujeito a isso. É como a assistência que ia às arenas sedenta de ver o polegar apontado para baixo. De um modo geral, quem colaborou com isso não é muito diferente deles, à espera de uma falha para fazer o movimento giratório e virar o dedão para o chão, fazendo dos atletas a nova versão dos cristãos a serem servidos aos leões.

Só que o torcedor - e só o torcedor - pode. Pode e é bom que faça, para o bem do próprio esporte. Não, não estou relativizando. Desde que não haja crime de injúria racial, homofobia ou de qualquer outra espécie, o sujeito que paga o ingresso pode provocar o adversário para tentar desestabilizá-lo. Ora, eu mesmo fui uma das vozes que gritaram que o Junior Baiano tinha afundado a Seleção em um Portuguesa x Palmeiras de 1998, poucos minutos antes de o zagueiro fazer o gol da virada – e da vitória – palmeirense por 3 a 2. É do jogo e acabou ali.

O problema existe quando quem deveria mediar a situação abraça os urros que vêm das redes sociais. Por mais que a Globo tente, o futebol é um produto jornalístico, não do Departamento de Entretenimento da emissora, e deve ser tratado com o mesmo cuidado que é tomado quando uma informação é trabalhada. Quando parte da imprensa dá os braços para o jornalismo engraçadinho, o que se vê é aquele espetáculo deprimente de pós-jogo do Pacaembu, como já havia acontecido com o também goleiro Muralha, outra vítima da perseguição travestida de deboche.

Repito: a troça cabe ao torcedor. Por mais leve que possa ser, o Jornalismo deve primar pela responsabilidade. Assusta saber que o movimento que “elegeu” Sidão ganhou força a partir desses perfis que se dedicam a tirar o sarro de todo mundo, mas que, desgraçadamente, formam opinião o suficiente para reverter a palhaçada em 90% dos votos. Faz parte, ainda mais com o aspecto e o espaço para a diversão existente na rede. Que isso, no entanto, fique restrito a elas. À imprensa, sobretudo à Rede Globo, que o episódio sirva de exemplo para abandonar coisas do tipo Inacreditável Futebol Clube e outras dessas bobagens que vivem da exposição alheia para agradar quem pensa que a verdade do mundo se resume ao YouTube, ao Desimpedidos e aos programas do Danilo Gentili.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O jornalismo na lama

Helicóptero sobrevoa área atingida por avalanche de lama, 
em Bento Rodrigues (Antônio Cruz/Agência Brasil)

Que na última quinta-feira um desastre ambiental praticamente riscou do mapa Bento Rodrigues, distrito que fica (ou ficava) em Mariana (MG), não é novidade para ninguém. O que salta aos olhos é a passividade de parte da imprensa na cobertura do que alguns veículos chamaram de acidente, como se fosse algo inevitável ou mera obra do acaso.

Pior que isso, é a preguiça, para não dizer jornalismo mal intencionado. O jornalismo não aceita a mera reprodução de um release com a versão da empresa como reportagem. Nem é preciso adjetivar como sério, pois o jornalismo que não é sério não pode ser tratado como jornalismo.
  
O jornalista existe para instigar; para intrigar; para investigar; para incomodar. Sempre que vejo a inércia desse "jornalismo" insosso, me lembro do que diz o professor e historiador Fabio Venturini de quem tive a honra de ser aluno e hoje tenho a sorte de ser amigo: os jornalões e emissoras de TV, que são a mídia tradicional, não passam de empresas burguesas, que visam lucro. Elas querem deixar as coisas como estão, pois têm interesse nisso. E o interesse não é o leitor ou espectador.

Um jornalismo engajado e honesto derruba até um presidente de uma nação poderosa (Nixon que o diga), mas aí teria que ser engajado e honesto. Se você, jornalista que me lê, discorda, eu lamento, mas você está fazendo isso errado. E muito. E erra feio, muito feio.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Juan Carlos Osorio e o recheio do bolo

"SINCERICÍDIO"? Osorio deixa claro, após vitória contra o Atlético Paranaense,
que poderia sair do Tricolor. Decisão, que seria anunciada pelo treinador na quinta-feira, 

foi confirmada dois dias antes pelo presidente Aidar (ESPN.com)
Durou menos de cinco meses. Como era de se esperar, Juan Carlos Osorio não é mais o técnico do São Paulo. Protagonista de um incrível "racha" na crônica esportiva brasileira, ele teve seu desligamento anunciado pelo presidente são paulino Carlos Miguel Aidar nesta terça-feira, um dia após o quiproquó que envolveu até a suspeita de que o presidente tricolor chegou às vias de fato (a popular porrada) com seu vice-presidente de futebol - e defensor do treinador colombiano - Ataíde Gil Guerreiro, em um hotel da Zona Sul paulista.

A efêmera passagem de Osorio pelo clube do Jardim Leonor suscitou paixões e ódios. E levantou a velha discussão acerca do trabalho de treinadores estrangeiros no país. O Brasil é um dos países, incluindo aqui os mais tradicionais da modalidade, que mais apresentam resistência ao trabalho de técnicos estrangeiros. Autossuficiente até o tutano, apresenta ressalvas à vinda de know-how do exterior, mesmo tendo visto passagens vitoriosas, mas remotas, do húngaro Bella Guttmann e do paraguaio Fleitas Solich.

Os últimos resultados dos times daqui e da Seleção Brasileira, mais a diferença do nível do futebol apresentado, se comparado com o que fazem as principais equipes do Velho Continente, fizeram a discussão voltar à ordem do dia. O Tricolor cismou que queria porque queria um treinador que não falasse português (ao menos sem sotaque), então foi atrás de nomes com as características mais variadas: Jorge Sampaoli, Marcelo Bielsa, Juan Carlos Osorio. Quer dizer, não há uma linha de trabalho estabelecida, uma característica em comum, a não ser o fato de terem nascido fora do Brasil. 

Veio Osorio, o de currículo menos jubilado, mas de ideias pouco comuns no (pretenso) país do futebol. O que, de partida, fez com que tivesse admiradores na medida em que colecionava críticos pelo seu estilo sincero demais. Bateu de frente com dirigentes do próprio clube, foi criticado abertamente por alguns de seus comandados, embora sempre conseguisse, como o apoio irrestrito do craque-capitão-bandeira Rogério Ceni, contornar a situação dentro do elenco.

Ele, Osorio, desde que foi sondado pela federação de futebol do México, nunca escondeu de ninguém o desejo de participar de uma Copa do Mundo, como deixou bem claro na entrevista coletiva que concedeu após a vitória do São Paulo sobre o Atlético Paranaense, no último sábado. Era uma questão estritamente pessoal, de motivação exclusivamente íntima, que o agora ex-treinador são paulino resolveu externar. Uma situação, portanto, rara, que encontrou, entre os jornalistas, quem considerasse louvável e quem julgasse desrespeitoso com a instituição, que é maior que qualquer treinador, mas que agiu - é bom que se diga - de modo pouco elogiável com o próprio tecnico.

Seja como for, Osorio é apenas um detalhe na discussão. O fato é que o Brasil do imediatismo promovido pelos diretores amadores que tem, e apoiado por considerável parcela da mídia, não está preparado para ter forasteiros no comando. Vivemos exaltando os quase 30 anos de Alex Ferguson à frente do Manchester United ao lembrar que nos primeiros anos ele não ganhou nada com os Red Devils, mas na primeira sequência ruim de qualquer treinador aqui, já falamos em demissão. De um modo geral, não passamos de um bando de hipócritas. 

Não adianta pensar nos Rinus Michels, Pepp Guardiolas, Jurgen Kloppes ou Osorios para deixar a cobertura do bolo mais bonita, se o recheio já perdeu a validade.

sábado, 16 de junho de 2012

Memo e Guilherme

O volante Guilherme está em litígio com a Portuguesa. Quer sair e diz que não tem condições de jogar por não se sentir seguro, uma vez que foi ameaçado por dois (!) torcedores por causa do rebaixamento do time no Paulistão.

No pernambucano Santa Cruz, outro volante, um tal de Memo, é um dos destaques do time, que chegou ao inferno da Quarta Divisão do futebol nacional, subiu à Série C e é o atual bi-campeão estadual.

Há muito tempo Guilherme é cobiçado pelo Corinthians, que já fez inúmeras propostas pelo jogador. No entanto, a diretoria lusa não foi seduzida por nenhuma delas, ao contrário do excelente trinco rubro-verde, que não vê a hora de rumar para o Parque São Jorge.

OLHAR DISTANTE Cabeça de volante luso está
longe do Canindé (Divulgação/Portuguesa)

Memo, prata-da-casa, despertou o interesse da Lusa, que procurou os dirigentes do time coral e fez uma proposta por 50 % dos direitos do jogador, considerada baixa pelos diretores e o negócio não saiu. 

Teoricamente, duas negociações parecidas, com o desfecho semelhante. Só na teoria. Guilherme, após o episódio, ficou quase um mês sem aparecer no Canindé. Voltou aos treinos,  mas se recusa a jogar. Memo, por sua vez, se disse chateado pelo negócio não ter sido concretizado, mas continuará defendendo o time da mesma forma.

DEVE FICAR Apesar da vontade de defender a Lusa,
Memo acatou decisão contrária do Santa Cruz
Guilherme tem 21 anos, foi procurado antes do clube e seu empresário, Wagner Ribeiro, é conhecido pelo modus operandi de dar de ombros para os contratos. Memo, de 24, tem um empresário desconhecido e respeitou a decisão do Santa Cruz.

No fim das contas, o clube que agiu de acordo com a ética e a polidez que viraram demagogia numa sociedade que não preza pelos valores ficará sem seu principal jogador, já que as coisas caminham para que o camisa 8 vá para o "co-irmão",  e não conseguirá contratar o volante coral.

As pessoas acham normal. Parte da imprensa condenou a atitude da diretoria da Portuguesa, que faz muita coisa errada, mas, neste caso, defende os interesses de um clube que se recusa a ceder à pressão que partiu do aliciamento do jogador. A tal ameaça, inclusive, se deu de uma forma muito estranha, durante uma reportagem de André Galvão, da TV Bandeirantes.

Sinal de que alguma coisa está errada. No futebol e na sociedade.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Conversa pra boi dormir

Tenho ouvido desde ontem que a briga pelo título de campeão brasileiro ficou restrita a Corínthians e Vasco, dados os resultados da última rodada. Mais que isso, graças às constantes escorregadas, sobretudo, dos cariocas Botafogo, Flamengo e Tricolor do Rio.


Da mesma forma que quando os líderes tropeçam todos os outros voltam à disputa, revigorados, e que o Brasileirão é um sucesso, pois é o único campeonato do mundo no qual cinco ou até seis times têm condições de levantar a taça.




Nem sempre equilíbrio é sinônimo de qualidade, ludopedicamente falando. Mesmo porque o campeonato brasileiro é fraco. Neste campeonato de "pontos parados" ninguém dispara. É nivelado? Sim, é, e muito, mas é nivelado por baixo, bem por baixo. Ninguém é confiável, nem mesmo o Corinthians, que tem o melhor elenco ante os outros postulantes ao título.


Não dá pra conceber, em um campeonato de pontos corridos, que um time fique 10 jogos sem vencer e ainda assim tenha chances enormes de ser campeão. Isso mostra que esse negócio de cada jogo ser uma decisão é balela. é conversa fiada.



O único time que sobraria é o do Santos, caso levasse a sério o campeonato. Assumiu o risco de pensar apenas no Mundial e, se não vencê-lo, ficará com o ônus de ter aberto mão de um Brasileirão que poderia vencer, até com certa tranquilidade, mesmo poupando alguns jogadores.


É evidente que, por ser um produto e este deva ser vendido, boa parte da imprensa exalta este equilíbrio, mas daí a dizer que o campeonato é bom vai uma diferença gigantesca. Como bem diz o grande Mauro Beting, "o campeão será aquele que melhor fugir do rebaixamento".

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Seleção de Dunga

Texto publicado também no sítio Digestivo Cultural

* por Humberto Pereira da Silva

Na Copa do Mundo de 90, na Itália, o técnico foi Sebastião Lazaroni, que um ano antes ganhara a Copa América, competição na qual o Brasil não ia bem (a conquista de 89 quebrou um jejum de quarenta anos nesse torneio, que até então era o preferido de argentinos e de uruguaios). Com a conquista da Copa América, Lazaroni teve carta branca da CBF e levou para a Itália a primeira geração pós Zico, Falcão e Sócrates. Esta geração, como se sabe, perdeu as Copas de 82 e 86. Lazaroni, então, formou uma seleção com alguns egressos de 86, mas fundamentalmente com espírito diverso da geração anterior e que tinha no meio-campista Dunga uma espécie de emblema daquele grupo que foi para a Itália com o peso de conquistar um título que há 20 anos o Brasil perseguia.
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A seleção de 90 não se deu bem, foi eliminada justamente pela Argentina de Maradona, e aquele time passou para o anedotário do futebol como a "Geração Dunga". A história tem seus caprichos e, em 94, Dunga, capitão da seleção contra a vontade de muitos que viam-no de sobrolho, levantou a Copa do Mundo, num feito esperado por 24 anos. Dunga, ainda, em 98, novamente como capitão da seleção, chegou a outra final de Copa do Mundo, contra a França. O Brasil, como todos sabem, perdeu a final, mas não lembro outro capitão de seleção em qualquer país que tenha chegado a duas finais seguidas de Copa do Mundo (quem foi o capitão italiano nas finais de 34 e 38? O jornalista Paulo Vinícius Coelho, do ESPN e jornal Folha de S. Paulo, que se esmera com memória invulgar, responderia de bate pronto?).
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Dunga e sua geração foram estigmatizados em 90, ganhou a Copa de 94, mas, quando a Copa acabou, voltou-se para a imprensa e disse "esse título é para vocês, seus traíras!" Na época, com o título, Dunga tinha um alvo bem fixo: a imprensa esportiva. O tempo passa e, após a controvertida participação na Copa da Alemanha em 2006, Dunga foi chamado pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, para técnico da seleção. No início, desconfiança; depois, títulos, vitórias incontestes sobre a arquirival Argentina, sobre o Uruguai em Montevidéu, classificação antecipada para a Copa Sulafricana de 2010. Mas, após a convocação, a imprensa bate pesado em Dunga, que, quando tem microfones e holofotes, revida com virulência que impressiona.
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Recentemente, em entrevista coletiva, Dunga afirmou, para afrontar os jornalistas, que a seleção era sua. Se perder, será ele e sua seleção que serão derrotados e, portanto, alvos de ira jornalística. Dunga, por isso, foi acusado de levar para o "pessoal" o que é um trabalho jornalístico. O que se pode extrair é que Dunga, como figura do futebol brasileiro, marca como poucos (como jogador ou agora como técnico) sua passagem na seleção. Com seu estilo duro e seco, ele não agrada a gregos e troianos, mas creio que seria o caso de observá-lo com um olhar, digamos, mais pausado: ele tem história, sabe o que é futebol para além das pranchetas dos jornalistas especializados (tenho em vista principalmente Paulo Vinícius Coelho), ganhou, perdeu, foi estigmatizado e convocou uma seleção praticamente pautada pela relação de confiança num grupo que se formou ao longo desses últimos quatro anos.
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Espera-se que uma seleção não agrade a todos. A "seleção de Dunga" não é a que muitos gostariam, mas o que muitos podem não gostar, e isso não tem importância, é que ele dá a incautos e especialistas, com certa generosidade inconsciente, motivos para pensar. Se perder esta Copa, como ele e todos nós sabemos, será execrado; se ganhar, pode até ser desdenhado, como muitos desdenham a conquista de 94, mas a terá ganho e, junto ao coro dos ressentidos, ouvir-se-á: HEXA! O que se pode aprender com Dunga e sua seleção? Revelamo-nos à altura dos acontecimentos quando nos elevamos na vitória e na derrota, não quando choramos e procuramos culpados, como crianças imberbes que não têm a bola só para si.
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Mas o que quer dizer que Dunga leva para o lado "pessoal" o que seria um trabalho jornalístico? Creio que há muito tempo o trabalho da imprensa esportiva em época de Copa do Mundo, principalmente, carece de autocrítica. Para além da ajeitada de meia de Roberto Carlos na jogada que resultou no gol de Thierry Henry na derrota para a França na Copa de 2006, a imprensa tem também grande parcela de culpa pelo insucesso da seleção. O papel da imprensa esportiva é ― todos com bom senso hão de concordar ― cobrir a seleção, manter-se numa posição quase neutra para falar o que acontece, digamos, de "bom" e de "ruim". Mas muitos, muitos jornalistas acabam por ter uma influência que vai além da mera cobertura profissional. Num momento como o de Copa do Mundo, de ânimos exacerbados e de paixões incontidas, muitos jornalistas esquecem o profissional e falam da seleção como se fosse uma coisa "pessoal", de torcida a favor ou contra conforme não tenham a seleção que desejam.
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O que esperar dos jornalistas? Na posição em que eles estão, menos paixão, mais discernimento e cultura futebolística. Dunga tem história e sabe bem mais de futebol do que possa desconfiar nossa vã filosofia. O que esperar de Dunga? Que, se perder, tenha a dignidade e grandeza que tem demonstrado ao longo de sua carreira: uma derrota, como os gregos ficaram sabendo com os trezentos liderados por Leônidas em Termófilas, não é simplesmente uma derrota. Basta, para tanto, ler as belas páginas de Heródoto. As derrotas em 82 e 86 serviram para que não se cometessem erros similares em 94. A derrota em 2006 traz uma experiência a não ser seguida agora em 2010. A presença de Dunga como técnico da seleção afirma que em 2010 não se repetirá o que ocorreu em 2006.
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Dunga leva para o pessoal? Aí os jornalistas precisariam ter grandeza. Em certos momentos, argumentar que alguém leva para o "pessoal" tem algo como falar da bota do soldado antes do desembarque na Normandia. Quem entra em campo de batalha sabe o que pode sofrer, ou pelo menos o que o espera. Imagino no Dia D um soldado a reclamar que a guerra era uma questão pessoal. Estabelecidas as bases para o embate, não posso me esconder sob o manto dos sentimentos pessoais, com o risco de parecer criança sem a bola do jogo. Ao bater, é ingênuo exigir que meu oponente não me bata com força igual ou maior.
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O que parece mais saliente com esta "seleção de Dunga" é que grande parte da imprensa está tendo, como teve no passado, grande dificuldade para reagir com grandeza no caso de uma conquista ou de uma derrota. O que espero dos jornalistas em caso de uma vitória não é outra coisa senão lembrarem sempre que essa é a "seleção de Dunga", que assim se manifestou para lembrar que seu time não satisfaz o desejo de grande parte imprensa. Mas, a essa altura, alguém pode imaginar que creio que segmento expressivo da imprensa esportiva torce contra a seleção.
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Não acredito, sinceramente, que algum jornalista sério, mesmo que espinafre a seleção de Dunga, torça contra ela. Acredito é que o jornalismo esportivo no Brasil, em grande parte, reverbera a voz da galera, ecoa paixões incontidas, se dispersa em dores de jogadores como Kaká, fofocas de corredores e perde o senso de grandeza e de responsabilidade diante do evento. Raras vezes, cito Juca Kfouri (da ESPN e Folha de S. Paulo), vi um jornalista fazer meaculpa. Não é, portanto, que muitos bons jornalistas torcem, digamos, contra, é que perdem o senso do que dizem e de seus efeitos. Se não quero levar meu alvo de crítica a falar e depois, em momento de fraqueza, acusá-lo de levar para o "pessoal", eu teria que ter discernimento e acuidade para acusar a mulher de Cesar sem ofender Cesar.

*Humberto Pereira da Silva, 47 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de 
cultura de diversos órgãos de imprensa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Hoje não faz sentido

Hoje não faz sentido falar da sensacional vitória do Corínthians no Majestoso;

Hoje não faz sentido pensar sobre mais uma derrota tricolor em clássicos;

Hoje não faz sentido citar o hipnótico Santástico show da Vila Belmiro;

Hoje não faz sentido debruçar-se sobre a crise palestrina;

Hoje não faz sentido lamentar o último amarelaço da Portuguesa de Desportos;

Hoje não faz sentido falar da pança do Ronaldo, dos pileques do Adriano ou das amizades do Vágner Love;

Hoje não faz sentido assistir aos programas ditos esportivos, pois o cronismo esportivo acabou de perder o pouco do sentido que ainda tinha.

Morreu Armando Nogueira.

Hoje nada faz sentido.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

E o mar segue revolto

Que Renê Simões não é mais o técnico da Portuguesa, todo mundo sabe. Que a sua saída, após apenas três jogos, deu-se por causa da entrada de pessoas armadas no balneário rubro-verde após o revés frente ao Vila Nova, também não é novidade alguma. Agora, o que realmente aconteceu é algo que dificilmente será elucidado.




Renê saiu atirando para tudo que é lado, embora não fosse ele o detentor das armas. A mídia, de um modo geral, deu um espaço poucas vezes vistos na história deste país a algo referente às coisas da Lusa - a última vez em que ocupamos tanto espaço foi por obra e (des)graça do argentino Javier Castrilli. O meia Edno garantiu não jogar mais pela Portuguesa, embora tenha feito ainda mais um jogo, contra o Fortaleza, fora de casa.

Como consequência, o STJD interditou, preventivamente, o Canindé, até o julgamento do caso. Ora essa! Como podem tomar uma decisão dessas baseados apenas nas entrevistas do ex-treinador? E a versão da Portuguesa, não deveria ter sido levada em consideração até o julgamento? Parece-me que a decisão foi tomada graças à repercussão.

Parece-me. Apenas isso, pois na Lusa tudo é muito nebuloso. A saída do treinador Estevam Soares, após a estreia no Paulista, até hoje não foi explicada. A ida do meia Athirson para o Cruzeiro também foi estranha. Dias antes, a cúpula lusitana havia acertado a renovação do vínculo do atleta, mas na hora de assinar o que se viu foi um diz-que-diz. Os dirigentes disseram que ele havia pedido mais. Athirson, por outro lado, afirmou que mudaram as condições. Resultado: foi embora e a torcida ficou a ver caravelas.

Voltando ao quiproquó da saída do bigodudo Renê, os jogadores, comandados pelo capitão Cesar Prates, "por livre e espontânea vontade" (da diretiva lusa, presumo) deram sua versão sobre o ocorrido. Ouvido no mesmo dia, Renê desconfiou da atitude. Agora, passados alguns dias, o ex-comandante da nau lusitana admite rever suas palavras e até ajudar o ex-clube no julgamento, ainda sem data marcada.

Tudo muito nebuloso, é claro. Enquanto isso, a incumbência de enxergar o melhor caminho no revolto mar da Série-B fica por conta do Capitão-mór Vagner Benazzi, aquele que não deveria sequer ter saído no ano passado. Que a bonança chegue à nossa nau.

domingo, 21 de junho de 2009

A lógica do saco de batatas

A criação da Brasil Foods (BRF), empresa resultante da fusão entre Perdigão e Sadia, tem tido espaço considerável na mídia, seja ela impressa, digital ou eletrônica. A partir da fusão, o que eram duas empresas concorrentes passou a ser uma das gigantes do mundo no setor de alimentos industrializados.




Mas exatamente no quê esta fusão interfere no cotidiano do consumidor? Pode não parecer, mas é simples: com a dimensão que assumiu, a BRF passou a responder por uma parcela superlativa em todos os segmentos de mercado em que atuar, seja na produção de embutidos, massas ou laticínios. Em outras palavras, podemos estar diante de mais um monopólio, dentre os vários que se formaram através de outras fusões, como a AmBev ou a VPC/Aracruz.

Quem determinará se a união será válida será o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A questão é saber como o órgão irá julgar e quais suas exigências. No caso da mega cervejaria, ela teve que abrir mão de algumas das suas marcas de cerveja, para que não fosse caracterizado o monopólio. O problema, no caso da BRF, é que a generosa fatia de mercado que ela está abocanhando não é formada por marcas, mas por produtos.



Além do mais, um dos principais interessados é o presidente da Sadia, Luís Fernando Furlan, que foi ministro do Desenvolvimento no primeiro mandato do presidente Lula. Pode parecer leviano, mas em se tratando de Brasil... As manobras que antecederam outra fusão, a compra da Brasil Telecom por parte da Oi, com direito a leis concebidas “a toque de caixa”, apenas servem de alerta.

A cobertura da TV é insuficiente para esclarecer satisfatoriamente a população, pois apresenta a notícia fragmentada, e os programas que dão profundidade à discussão não alcançam um número considerável de espectadores devido ao horário em que são transmitidos. Ouve-se pouquíssimo rádio, na mesma proporção em que se procura os jornais, nas bancas, e o número de pessoas que acessam a internet para outros meios que não o lazer é ínfimo. Isso sem contar que a questão acaba pendendo pro lado do ufanismo, como se a empresa fosse “patrimônio nacional”, quando, na verdade, o país é que é solapado pelas multinacionais.

Por causa do pauperismo da cobertura midiática que alcança as massas, se formam opiniões superficiais. É a lógica do saco de batatas, onde as mais bonitas ficam por cima, e as que ficam encobertas mal servem para dar de comer aos porcos. Na briga entre o mar e o rochedo quem leva a pior é o marisco. E o marisco, no caso, pra variar, é o consumidor.