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segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Pílulas amadoras - 21

 * Por Humberto Pereira da Silva

Cr7 e a inalcançável régua real (Fabrice Coffrini/Getty)

Cristiano Ronaldo chegou, contra a Croácia, aos 900 goles. É o primeiro jogador de futebol a alcançar, oficialmente, essa marca. Claro, "todos" sabem que Pelé fez mais de 1200 goles. E não muitos, que o austríaco Josef Bican teria feito em torno de 1800 goles entre os anos 20 e 50 do século passado. 

Aí, me faz questão de lembrar o editor deste blog, há o "problema" de ignorar goles marcados em partidas amistosas, mas contra grandes equipas do futebol mundial: nestas excursões para fazer um pé de meia que pudesse, além de preencher o calendário, pagar as contas - e manter o próprio Rei -, perdem-se tentos marcados contra Internazionale (8), Barcelona (4), Benfica (4), Juventus (2) e Real Madrid (1), esquadrões repletos de craques e donos de troféus internacionais. Pela América do Sul, 22 goles divididos entre River Plate (7), Boca Juniors (5), Racing (4), Independiente (2), Millonarios-COL (2) e Nacional-URU (2) viram fumaça. 

Isso se não contarmos os grandes brasileiros: Atlético Mineiro (5), Cruzeiro (4), Bahia (2), Botafogo (2), Palmeiras (2), Corinthians (1), Flamengo (1), Grêmio (1) e Portuguesa (1). Eibares, Numancias, Al Qualquer Coisa e quetais, para ficar em termos do editor, não oferecem um átimo das dificuldades impostas pelos times citados neste parágrafo.

Ontem, Cristiano saiu do banco para desenroscar um jogo que exigiu a persistência lusitana até praticamente o último minuto para superar o ferrolho escocês. O gole da vitória do Tugas foi marcado aos 43 minutos do segundo tempo por ele, que já havia atirado duas vezes ao ferro, iniciando a contagem regressiva para o tal milésimo, que deve, se acontecer, sair quando a Terra de Cristiano estiver na 43ª volta em torno do Sol, justamente a idade em que Josef Bican deu seus últimos pontapés. 

A título de comparação, o milésimo do Rei foi marcado aos 29 anos. Dito isso, o que resta? Números são... não mais que... números. Por isso, fico com Fernando Pessoa, para ter a dimensão do feito de CR7: "O mito é o nada que é tudo", primeiro verso do poema "Ulisses".

Números são números, pois não. Mas neles, além da frieza, não se deve ignorar o simbolismo. O mito do milésimo gole de Pelé simboliza um dos feitos do Rei. O que, justamente, oferece ponto de partida para qualquer feito posterior. 

Ao milésimo gole agregam-se três Copas do mundo, 58 goles numa edição do Campeonato Paulista (aos 17 anos), parar uma guerra..., que fazem de Pelé o maior mito da história do futebol. 

O feito de Cristiano Ronaldo, assim, ganha enorme poder simbólico porque tem como ponto de partida para que se ponha a régua à marca Pelé. Agora, entre a frieza dos números e o simbolismo, o futebol também é feito de circunstâncias e circunstâncias de momento. 

Na conta dos quase 1300 goles do Rei, mais de 500 ajustados em jogos que causam constrangimento saber precisariam ser contados. Na frieza dos números, o mito Pelé, para ser Pelé, não precisa do registro de goles na Seleção do Exército (10 em 14 jogos), tampouco de goles contra equipas "amadoras" nas inúmeras excursões do Santos nos anos 60 para exibir a Majestade. 

Certo. Nas circunstâncias e circunstâncias do futebol, o feito dos 900 goles de Cristiano Ronaldo se deve a um oportuno final de carreira no futebol árabe. Sua última passagem pelo Manchester United mostra que ele não atingiria essa marca no futebol europeu. Igualmente, Pelé não teria chegado a essa marca sem as convenientes contas para se ensaiar contra o Vasco da Gama o dia do mítico milésimo gole. 

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

BENFICA - a noite das vergonhas europeias



Prostrado. Humilhado. Vergado. Não faltam adjetivos para descrever a terrível prestação benfiquista nesta edição da Liga dos Campeões, mas poucas vezes se viu em campo uma equipa tão vulgar, indigente. Ainda mais considerando que este espantalho em forma de time de futebol - ou seria o contrário? - carrega no peito três estrelas, cada qual para uma dezena de títulos nacionais, e a reputação histórica de ser bicampeã europeia, além de outras finais disputadas antanho.

Lá se vai muito tempo, sei, desde que a maldição de Béla Guttmann caiu sobre a cabeça dos avaros dirigentes encarnados, mas nada faria supor que depois da magnífica demonstração de como jogar futebol vista na temporada passada, um rascunho formado por 11 jogadores estaria a vestir a mesma camisola.

A noite no Anoeta foi de estarrecer, de petrificar, de fazer corar de vergonha o mais pessimista dos portugueses. E olhe que falo de uma característica praticamente inata ao povo português, ainda mais quando há do outro lado 11 gajos a representar o futebol espanhol e uma bola no meio. 

A Bola, maior jornal da Terrinha dedicado ao chamado desporto rei, fez uma compilação do que os jornais da Espanha disseram. A ver:

As:
"O Benfica, um brilhante bicampeão europeu, ajoelhou-se diante de uma Real Sociedad avassaladora, o que lhe deu uma lição histórica. Um banho frente a um rival que nada disse (...) O volume do seu futebol foi tão grande que rompeu os tímpanos dos lisboetas. Do aquecimento até o último apagão, foi um turbilhão que marca a época"

"Defensivamente, a equipa vermelha nem sabia para onde se virar. O Benfica ficou mumificado, era um fóssil, a agonia levou-o para uma caverna do horror. Para isso contribuiu o seu treinador, que colocou Neves na lateral, algo para o qual não está preparado, e deu a Barrenetxea uma pista para brilhar. Um cervo a dormir a sesta era mais assustador do que essas águias comidas por traças. (…) Neves foi um espectador na primeira fila. O que fazia ali o pobre rapaz?"

Sport:
"Exibição, banho, 'masterclass' de futebol, inúmeras qualificativos que demoraríamos mais tempo a procurar do que o Real levou para vencer um campeão da Europa e de Portugal como o Benfica. Parecia um jogo de profissionais contra juniores numa meia hora mágica e histórica, daquelas raramente vistas no mundo do futebol."

De certo, o leitor há de perdoar a reprodução do que parte da imprensa espanhola viu e disse, mas peço que notem o respeito para com o distintivo humilhado: 'brilhante campeão europeu", que venceu Barcelona em 1961 e, já com Eusébio, o mítico Real Madrid em 1962. Dois distintivos já enormes. O Barça com Ramallets, Evaristo de Macedo, Luis Suárez e os magiares Czibor, Kocsis e Kubala; o Real Madrid, pentacampeão, com Puskás, Di Stéfano, Santamaria e Gento.

Aquele Benfica, de Germano, Cavém, Simões, Coluna, José Augusto, José Águas e Eusébio, que mantém a reputação encarnada imaculada, nada tem a ver com este apanhado vulgar de jogadores de vermelho que ao cabo de meia hora já perdiam por 0-3, fora os dois gols anulados e o pênalti desperdiçado. O placar foi condescendente demais para a pobreza e absoluta falta de argumentos levada pelos de Schmidt a San Sebastián.

Há muito trabalho pela frente e o primeiro passo é admitir o fracasso do projeto de equipa levado a campo para esta temporada, seja com três centrais e Florentino a ter que varrer tudo sozinho e João Neves como extremo e presa fácil e entregue a Barrenetxea, que fez com ele o que quis, como quis e quando quis; seja com a linha de três médios e um avançado solo que não pressionam e deixam tudo a estoirar nos de trás, ora Florentino, ora Kokçü. Gastou-se quase 60 milhões de euros em reforços até aqui desnecessários e não há um lateral direito de raiz para colmatar as ausências de Bah pelas agruras físicas, tampouco um do outro lado que minimamente mimetize o que fazia Grimaldo, perda já cantada com um ano de antecedência. Seu substituto é Jurásek, o defesa mais caro da história do clube, que perdeu a bola 28 vezes em pouco mais de 60 minutos em campo, segundo dados do Goal Point.

Roger Schmidt, brilhante na sua temporada de estreia, parece não querer ver o naufrágio à sua frente e agarra-se a frases fáceis como "não é que o planejamento foi errado, os lesionados fazem falta" ou "realmente, não merecemos a classificação", como se houvesse viv'alma a pensar o contrário. O capitão do barco se mantém fiel às suas ideias e só não está a tocar o violino enquanto a embarcação afunda porque o que tem, quando muito, é uma tocata com instrumentos desafinados.

Ao lado, mas nem por isso menos importante, registre-se a vergonha causada por imbecis que atiraram tochas nos adeptos locais, o que poderia ter causado uma tragédia como a que aconteceu em 1996, na final da Taça de Portugal, entre Sporting e... Benfica!  O fracasso do projeto desportivo quando se tem tudo à mão é de se lamentar, mas a falência cultural espelhada em indivíduos que viajam, não pelo seu clube, mas por uma realização pessoal tendo os pés fincados na violência, este sim é de se envergonhar.

Que vergonha, Benfica! 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Silêncio e vingança. CBF veta amistosos da Chape na Europa

CBF NÃO DEIXA Clube teve que dizer não ao convite benfiquista
  para participar da festa de abertura da temporada
Em menos de uma semana, a Chapecoense recebeu duas facadas da CBF. O clube, que já havia declinado ao convite do Benfica para participar da Eusébio Cup, terá que abir mão também da disputa do Troféu Joan Gamper, do Barcelona.

A razão alegada pela entidade para impedir que a equipe se mostre no exterior e faça parte das tradicionais partidas em que os gigantes europeus apresentam seus times para a temporada é o calendário, já que há jogos pela Série A do Brasileirão e pela Sul-Americana, competições as quais a equipe catarinense disputa. Os jogos amistosos estavam marcados para os dias 22 de julho, no Estádio da Luz, e 7 ou 8 de agosto, no Camp Nou, com a Chape podendo escolher um dos dois dias.


Pura conversa fiada!

Vamos agora aos compromissos do Verdão do Oeste que gerariam conflitos de datas: no dia 23 de julho, o time catarinense visitará o Vitória, em Salvador; já no dia 6 de agosto, o jogo é com o Coritiba, também na condição de visitante. A solução seria alterar as datas destas partidas, que, é importante frisar, compõem rodadas que ainda não foram desmembradas. Ou seja, faltou boa vontade por parte da cada vez mais antipática CBF, pois datas mesmo é que não faltam. Pela Sul-Americana, há o jogo da volta contra o Defensa y Justicia, aquele timeco que eliminou o São Paulo, dia 25 de julho, dois - preste atenção: DOIS  dias depois do jogo com o Vitória, que deve ser antecipado para a véspera.

Se não, vejamos: há uma semana entre as rodadas 11 e 12. A Chape enfrenta o Fluminense fora no dia 3 de julho e só volta a campo no dia 9, contra o Atlético paranaense. Entre estes jogos, poderia ser encaixada sem problema nenhum a partida contra o rubro-negro baiano, uma vez que nenhuma das equipes têm compromisso agendado entre estes dias.

O jogo com o Coxa, no encerramento do primeiro turno, poderia tranquilamente ser antecipado para o sábado, dia 5, já que a rodada seguinte acontece somente uma semana depois e tanto a Chape quanto o Coritiba jogam na quarta, pela rodada de número 18. Daria para jogar pelo Brasileirão, viajar para a Espanha (com todas as despesas pagas, além de uma prometida ajuda financeira por parte da equipe catalã), participar da festa blaugrana como convidada de honra e voltar a tempo da retomada do campeonato nacional. Neste caso, a CBF nem pode alegar que jogar na quarta e no sábado pode ser prejudicial às equipes, pois esta condição deverá ocorrer para que entre o jogo com o Vitória e com o Defensa y Justicia haja um intervalo de três dias (que seria o mesmo, caso ela remanejasse a partida contra os paranaenses).

Engana-se quem pensa que isso já não precisou ser feito. Quando, em 2013, o São Paulo solicitou que seus jogos fossem alterados para participar de torneios amistosos no exterior (inclusive a Eusébio Cup), a CBF não pensou duas vezes em viabilizar a viagem tricolor, quando, exceto pelo jogo contra o Benfica, só passou vergonha. Foram três as partidas, entre as rodadas 10 e 12: contra o Náutico, do dia 1º de agosto, foi adiado para 3 de setembro; em vez de enfrentar o Bahia no dia 4 de agosto, o fez bem antes, em 10 de julho, a exemplo do que acontecera contra o Internacional, antecipado do dia 12 de agosto para 24 do mês anterior.

Mais coincidências que não teriam sido percebidas caso a CBF quisesse: o jogo com o Internacional aconteceu quando houve um hiato de uma semana entre a oitava e a nona rodadas; o mesmo foi observado entre as rodadas 6 e 7, que foi quando o time do Morumbi pegou o Bahia. Para acomodar o jogo com o Náutico, o Tricolor fez três jogos em cinco dias, em 1, 3 e 5 de setembro. Mas aí a tabela não atrapalhou. Talvez por se tratar do São Paulo. Como também fez com o Santos, que teve as datas de duas partidas modificadas para que pudesse apanhar de 8 do Barcelona no mesmo ano.

Em menos de 15 minutos eu arrumei as datas possíveis para viabilizar a participação da equipe. Bastou cruzar datas e tabelas das duas competições com os amistosos, coisa que a CBF sequer cogitou em fazer, pois não há interesse em facilitar a vida da equipe, para quem já não havia movido uma caneta sequer para ajudar na questão da escalação irregular do zagueiro Luiz Otávio, que acabou eliminando o time da Libertadores da América. Vale recordar que Delfim Peixoto, presidente da Federação Catarinense de Futebol e que desapareceu no mesmo acidente aéreo que vitimou a Chape, era desafeto político de Marco Polo Del Nero (que apesar do nome não pode viajar para fora do país), e que só não foi conduzido ao cargo de presidente da CBF quando Del Nero se afastou, no auge das denúncias de corrupção na entidade, porque houve a mutreta que possibilitou que o obscuro e conveniente Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, presidente da Federação Paraense de Futebol, fosse eleito vice-presidente da região Sudeste. Sendo mais velho que Peixoto, Nunes assumiu o cargo durante a vacância deixada pelo capo di tutti capi Del Nero.

Com a inexplicável recusa em mudar as datas dos jogos com a Chapecoense, a CBF deixa claras duas coisas: não está nem aí para o notável trabalho de reconstrução da equipe catarinense, e não me venham apontar o amistoso que o Brasil disputou com a Colômbia; e, principalmente, que trata-se de uma entidade extremamente vingativa.

O fato é que a solidariedade demostrada no lamentável acidente aéreo que vitimou o clube teve prazo de validade, para não dizer que, em muitos casos, foi oportunismo. Os clubes que, no ápice da comoção, ofereceram ajuda, agora se calam. Colocaram distintivo em site, em perfil oficial ou na própria camisa, inseriram trechos do hino no uniforme. Tudo muito bonito, mas é como abraçar árvore e não serviu para porcaria nenhuma. Todos eles, sem exceção, merecem cada esculhambação que parte desde a Barra da Tijuca. 7 a 1, amigos, realmente foi pouco, bem pouco.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Por quem torcerá o brasileiro?


Uma das marcas mais fortes na cultura brasileira é a escolha do time para torcer. É razão de orgulho do pai passar o amor pelo time do coração para o filho. É quase um evento quando a previsão feita no nascimento se confirma e o pai passa a ter no herdeiro seu companheiro de arquibancada.

Existem diversas maneiras de se cativar o novo torcedor, sendo duas as principais: influência da família e sucesso da equipe no período em que o futuro torcedor está decidindo que emblema cobrirá seu peito, além de outras, que são subjetivas, como um determinado jogador no time, a beleza ou as cores da camisa, uma partida histórica ou uma virada épica.

No entanto, um fenômeno recente pode ser observado. Agora existe a concorrência com o futebol da Europa. Colaboram para aumentar a torcida deles aqui a chegada de craques “puxadores de torcida”, além de títulos, muitos títulos, e a exposição da marca.

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Por pura incompetência e falta de visão da CBF, que mal e porcamente dá atenção à Seleção, o Campeonato Brasileiro não é consumido fora do país, também pela falta de qualidade da competição. Quando um campeonato é transmitido e tem uma boa resposta, equipes menores, menos midiáticas ou que poucas vezes levantam taças acabam angariando torcedores longe de suas fronteiras, como acontece com o Tottenham ou o Borussia Dortmund. Assim, e também pelo calendário sufocante que impede que grandes equipes excursionem no exterior, mercados deixam de ser explorados pelos clubes brasileiros, que nunca jogam em pontos estratégicos e com potencial absurdo de serem desbravados, como China e Japão, países onde a Seleção Brasileira ainda é idolatrada. Mauro Cezar Pereira tem um relato interessante sobre isso, que foi publicado em meados de 2013 no seu blog no site da ESPN.


O marketing esportivo brasileiro está na idade da pedra lascada e, quando muito, limita suas ações a lançamentos de camisas e tours pelos estádios, programas de sócios-torcedores ou alguma ação de cunho social bem esporádica. Nem se compara com o que é feito no Velho Continente, inclusive com excursões para expor a marca, que é ativada constantemente.

Em 2012, o Sportingintelligence.com divulgou uma pesquisa com os 10 maiores vendedores da camisas do planeta. Nenhum, obviamente, era brasileiro, apesar de nenhum dos quatro países apontados no levantamento ter mais habitantes que este país-tropical-abençoado-por-Deus. 

No começo de 2017, o Datafolha fez uma pesquisa e quase 1/4 dos entrevistados se declarou sem time. Daniel Bortoletto, colunista do Terra, escreveu em sua coluna sobre o assunto: "Tenho dois filhos em casa, com 10 e 8 anos. Semanalmente, eles se encontram com os amigos e as amigas do condomínio para o "Futesunday". E maioria esmagadora veste camisas de clubes europeus e não apenas dos gigantes midiáticos. Há espaço para PSG (FRA), Borussia Dortmund (ALE), Roma (ITA), Atlético de Madrid (ESP). Nem sequer a Alemanha, aquela do 7 a 1 sobre o Brasil, passa em branco". 

CORRIQUEIRO Camisas de times europeus disputam espaço
 com as das equipes nacionais (Daniel Bortoletto/Terra)
Os ídolos dos brasileiros na faixa de 15 a 20 anos estão lá fora. O jogador permanece uma ou duas temporadas no clube e sai, não cria uma identificação. Nos anos 1980, os principais jogadores do país saíam após os 25 anos, isso quando saíam. Zico deixou o Flamengo após 13 temporadas; Enéas jogou quase 10 anos na Portuguesa; Careca foi para o Napoli depois de nove temporadas no Brasil; Sócrates já tinha 30 anos quando foi para a Fiorentina. Além do mais, muitos garotos nascidos aqui têm como ídolos os craques de fora porque no Brasil não há este apelo, porque Neymar é o único craque de uma geração inteira que jogou mais de três anos no Brasil, sem contar que, dos maiores jogadores do mundo, apenas um é brasileiro. Isso faz com que vejamos meninos que têm, como ídolos, Cristiano Ronaldo e Messi.

Há quem torcia para o Santos quando Neymar estava lá e depois parou de torcer quando ele saiu porque não houve tempo de maturação, outro fator importante para formar a torcida, principalmente no caso dos times que não conquistam grandes títulos frequentemente. Até clubes estrangeiros que tinham muitos admiradores em terras tupiniquins podem observar a diminuição de suas camisas circulando pelas ruas. O Milan é o maior exemplo deles. Potência mundial quando os euros de Berlusconi recheavam seus elencos de craques, os rossoneri perderam espaço a partir do momento que a torneira secou e a equipe ficar quase uma década longe das grandes conquistas.


CORRIQUEIRO A camisa de Cristiano Ronaldo disputa a preferência
 dos jovens torcedores brasileiros (Arquivo pessoal)
Tenho quase 40 anos. Minha geração decorava as escalações, que eram mantidas por uma ou duas temporadas, e criava-se o vínculo com o ídolo. O baixo nível do futebol praticado por aqui também não favorece a formação de uma nova torcida nos mesmos moldes de como era, ainda mais com facilidade para acompanhar o futebol do exterior, que aumentou demais nos últimos anos com a velocidade da internet e a alta exposição nos canais de TV fechados. Quando garoto, acompanhava o futebol do Velho Mundo pela Revista Placar ou quando algum campeonato era transmitido na TV Bandeirantes, como era o fantástico Campeonato Italiano nos anos 1980, ou a Bundesliga na Cultura, isso já nos anos 1990, mas eram ações isoladas. Campeonatos como o inglês, que engatinhava como liga e era terrivelmente ruim, e o espanhol nem sonhavam em ser transmitidos no Brasil.

Hoje é tão fácil assistir a um jogo do Barcelona quanto a um do Corinthians. A única diferença é que fisicamente o novo torcedor não está no estádio, mas qual é o problema nisso? Ele aprendeu a torcer de um jeito diferente, com internet, pelas redes sociais, em que o gramado concorre pela sua atenção com a tela do celular.

Proporcionalmente, ainda é pequeno o número de adeptos que preferem levar um emblema estrangeiro no peito, mas é uma tendência a ser vista com cuidado, pois daqui a 20 anos pode ser que o menino que escolha torcer pelo time do pai, que é o mais bonito dos mundos, será filho de um torcedor de um Manchester City.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A ampulheta de Cristiano

Há uma espécie de ampulheta imaginária que é virada todos os anos. Ela marca o início do declínio de um dos jogadores mais absurdos, possivelmente o maior atleta do futebol, de todos os tempos. 

Sim, falo de Cristiano Ronaldo.

Após a temporada praticamente perfeita de 2016, quando venceu os dois troféus mais importantes do ano (a Liga dos Campeões pelo Real Madrid e a Eurocopa por Portugal), houve um declínio natural que, normalmente, sucede o ápice.

Este fato, combinado com a virada sobrenatural do Barcelona sobre o pouco respeitável time do PSG, na qual Neymar só não fez chover nos últimos oito minutos, fez os donos da ampulheta, mais uma vez, vaticinarem: é o começo do fim! Mais que isso, finalmente, chegou a vez de Neymar!

Mesmo que tenha sido por um jogo. Ok, um grande jogo, mas ainda assim um jogo, e contra um adversário de grandeza questionável. Estávamos apenas em fevereiro, mas já tínhamos o melhor do ano. Deve ser outra a ampulheta neste caso. 




E daí que Cristiano, com o passar do tempo, começa a mudar o posicionamento em campo? "Mas ele fez pouco mais de 30 gols na temporada".

Realmente, para os padrões de Ronaldo, 30 gols em uma temporada é pouco. Ele é o primeiro - e único, por ora - a romper os 50 gols em seis temporadas consecutivas. 

O prêmio de melhor do mundo tem suas peculiaridades, e desde que surgiram Cristiano e Messi pode ser resumido a Melhor da Dupla, e por mais que a pachecada de plantão esperneie, não haverá espaço para Neymar tão cedo, mesmo porque a Liga dos Campeões tem um peso absurdo (principalmente o mata-mata) e quem chega mais longe entre os dois coloca uma mão e meia na honraria. Para azar do craque brasileiro, se pensarmos na possibilidade de ser eleito, Messi está no seu time e Neymar precisará fazer chover para superar o argentino, o que, honestamente, não vejo ser possível simplesmente porque ele é muito melhor.

Nem deveríamos discutir isso.

Mas discutimos. E a ampulheta que contém a areia lusitana já estava mais cheia da metade para baixo. Neymar despachou o PSG e Cristiano se limitou a dar passes para gol contra o Napoli. Messi, por sua vez, que tinha feito 11 gols na fase de grupos da Liga dos Campeões, passou em branco nas oitavas e nas quartas, mas acabou com El Clasico e voltou a ser o melhor de todos os 
tempos. 

OITO MINUTOS Neymar foi o melhor do mundo
no fim do jogo com o PSG (Getty Images)
Há uma ampulheta relativamente mais apertada para o gênio argentino. De quebra, chegou a 500 gols só com a camisa blaugrana em uma partida que Neymar não jogou por estar suspenso de forma estúpida. Mesmo assim, os oito minutos de fantasia pura ainda lhe mantinham no topo de melhor-do-mundo-de-2017-ainda-estando-em-abril. 

Nos jogos contra a Juventus, Neymar e Messi não jogaram absolutamente nada, mas mantiveram-se intactos. O mesmo tratamento não teve o português pelo desempenho pífio no jogo com o Barcelona, mesmo que este valha menos, embora seja um dos maiores clássicos do mundo. A areia do portuga quase não era vista na parte de cima.

Mas da mesma forma que os 500 gols de Messi pesaram, Cristiano passar de 100 em competições europeias, depois chegar - e passar - a 100 só pela Liga dos Campeões e desandar a fazer gols decisivos (cinco dos seis contra o Bayern nas quartas de final e os três do primeiro jogo das semifinais contra o Atleti) também devolveram ao português o status de semideus (como se isso tivesse sido construído em apenas um jogo ou em uma temporada).

IMPARÁVEL Três gols e atuação de gala na
Liga dos Campeões (Getty Images)
Frases prontas como "o pior momento desde que chegou ao topo", "declínio físico aos 30 e poucos anos chegou" ou "só faz gol de pênalti" (mesmo sendo só 11, dos 103 na Champions, dessa forma) voltam para a gaveta, ou ao menos até a final da competição, quando sua ampulheta poderá ser zerada outra vez e estará acabado ou no topo do mundo.

Como em todos os anos. 
      

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sobre retranca, postura, apito e linha burra

O DONO DA BOLA Neymar só não fez chover na
 histórica goleada sobre o PSG (Getty Images)
Passadas quase 24 horas da hecatombe blaugrana pelo jogo de volta das oitavas de final da Liga dos Campeões, creio que não caibam em uma discussão os aspectos táticos vistos no Camp Nou envolvendo Barcelona e PSG. De notável mesmo, só o fato de o Barça ter abdicado dos laterais e,com três zagueiros e dois meias abertos nos flancos, ter matado um adversário que resolveu jogar com 10 atrás da linha de bola.


Parece maluquice, mas a gigante vantagem de quatro gols fez mal ao Paris Saint Germain. Isso porque Unai Emery armou o time para se defender o tempo todo e achou que seria o suficiente para não tomar impensáveis cinco gols. Tomou seis. A tática funcionou bem até os 42 minutos do segundo tempo, quando a avalanche azul e grená caiu por cima do time de Paris e um encapetado Neymar resolveu que ainda dava.

No entanto, o placar de 6 a 1 esconde tudo o que aconteceu no jogo: um Barcelona pouco inspirado no primeiro tempo, com Suárez isolado e perdido entre os zagueiros, Messi com poucas ideias e Neymar mais preocupado em reclamar do que em jogar bola. O placar de 2 a 0, muito dilatado pelo que o Barça produziu, foi um castigo merecido para quem resolveu não atacar.

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Causa e efeito

O segundo tempo começou e a mão da arbitragem resolveu aparecer. O pênalti marcado em Neymar chega a ser indecente. Meunier caiu e foi o brasileiro que buscou o contato, causou o choque. Ele tropeçou, não foi atingido. Porém, o gol de Cavani, que em condições normais teria dado a classificação aos visitantes, diminui o impacto desse lance, pois o Barcelona poderia ter marcado em outros ataques, uma vez que o gol no fim da primeira etapa foi o combustível para um reinício aceso de jogo. Caso o placar do primeiro tempo fosse a vitória mínima, alcançado logo no segundo minuto de jogo, a ausência do segundo gol no intervalo poderia representar um entrave (mais um) à missão quase impossível de reverter a vantagem da representação parisiense.

A partir daí é que a epopeia se desenha e, qualquer que seja a gravura, terá que levar um apito nela. Di Maria, melhor em campo na ida e que ficou no banco por não estar inteiro fisicamente, entrou no lugar do quase sempre apagado Lucas e teve a chance de matar o jogo, mas foi ele que quase morreu ao ser derrubado por trás por Mascherano (depois do jogo, ele admitiu ter feito pênalti no compatriota), no lance que poderia e deveria definir a partida. Na pior das hipóteses para o PSG, o penal poderia ser desperdiçado, mas haveria um jogador a mais em campo com a evidente expulsão do volante/zagueiro barcelonista, um dos esteios da equipe.

Quando um até então irritadiço, mas efetivo, Neymar achou o golaço de falta, faltavam três minutos (e três gols) para o fim do jogo. Naquele momento, se fosse um time maior, mais esperto e mais equilibrado emocionalmente, o PSG teria amarrado a partida até os 300 minutos, se fosse necessário. Aí entrou em colapso quando o árbitro inventou outro pênalti, este de Marquinhos em Suárez. O relógio já marcava 46 minutos e ninguém teve a decência de cercar o nefasto árbitro ou segurar a bola no ataque, ou mesmo “cozinhar” o jogo até o fim.

Aí veio linha burra. A um minuto do fim, com todos os jogadores na área, é inadmissível Sergi Roberto ou outro jogador qualquer receber a bola sozinho, ainda mais com uma zaga que custou o que custou.

O Barcelona, que aceitou a eliminação que parecia clara até o quarto gol, passou porque teve ânimo, porque Neymar deixou de frescura e resolveu jogar (muita) bola, mas também porque o árbitro alemão fez uma das piores e mais tendenciosas arbitragens de que se tem notícia em jogos deste tamanho, mas não dá para eximir um time que, em oito minutos, jogou fora por covardia o que construiu durante mais de 170 minutos. E que fez a linha burra mais burra da história do futebol.

MILAGRE de Santo Apito e marcação frouxa possibilitam
 a festa final (Albert Gea / Reuters)

sábado, 28 de maio de 2016

A sede de Cristiano Ronaldo

Terceira vez campeão (Imagem: Instagram do jogador)
Cristiano Ronaldo é campeão pela terceira vez da Liga dos Campeões. De antemão, já aparece como favorito para faturar pela quarta vez o prêmio de melhor do mundo dado em conjunto pela FIFA com a France Football. Pela quarta vez consecutiva, ele foi o artilheiro da competição, atingindo o patamar pela quinta vez (já havia sido na temporada 2007-08), e igualando Messi no quesito. De quebra, com os 16 tentos que anotou nesta temporada, chegou a 93 no total, só pela Champions, onde reina absoluto na artilharia. Como se não bastasse, ele é o primeiro jogador da história do futebol europeu a superar a marca de 50 gols por seis temporadas consecutivas.

Os números não deixam dúvidas: Ronaldo é um obcecado por marcas e gols. Mas até que ponto isso é saudável?  

O português, dividindo as atenções entre a disputa do Espanhol, onde brigou até a última rodada com o Barcelona, e a competição europeia, atingiu o limite do esforço físico. Já havia sido assim em 2014, ano em que foi campeão europeu, artilheiro, recordista de gols na mesma edição e melhor do mundo. E chegou em frangalhos à Copa do Mundo.

Não é coincidência que seu desempenho tenha estado tão abaixo do seu nível habitual no gramado do San Siro nesta decisão. Cristiano, a despeito do estupendo preparo físico, não é de ferro e também já não é nenhum puto de 23 anos. Com mais de 30, precisa dosar melhor as energias, gastas em demasia para manter o ápice do golos anotados em quantas competições disputar. Em La Liga, era o goleador com folga até o uruguaio Suarez desembestar na reta final e, com 14 gols em cinco jogos, superá-lo por quatro.

Quem assistiu às partidas do Real Madrid nesta época pode ver o quanto ele lutou para manter o estatuto de goleador da prova, sobretudo em goleadas já desenhadas, e como ficava irritado quando desperdiçava chances claras ou mesmo quando a bola não lhe era passada. 

Desnecessário. 

Teria sido muito mais útil aos merengues se se poupasse nestes momentos, se deixasse de dar piques de 20 metros aos 47 minutos do segundo tempo quando o placar já anotava quatro, cinco ou seis gols a favor do Real Madrid só para poder ampliar seus gols.

Cristiano tem sua quarta e última Eurocopa no mês que vem, quando disputará, provavelmente, a última competição jogando em alto nível por Portugal. Na Copa de 2018, prova para a qual a Equipa das Quinas está em um grupo fácil nas Eliminatórias, deverá fazer sua despedida pela Selecção. Serão as derradeiras, e dificílimas, oportunidades de levantar um título pelo país e, enfim, figurar de forma indiscutível no panteão dos maiores jogadores de todos os tempos.

Essa é a sua última (e maior) ambição.

NO LIMITE Com status de melhor do mundo mas limitado
 fisicamente, Ronaldo parou na primeira fase na Copa (Reuters)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Já é melhor mesmo?

NO PÓDIO Neymar comemora com Suárez golaço marcado no
Camp Nou contra o Villareal. Craque brasuca aparece pela primeira vez
 entre os três postulantes à Bola de Ouro (Josep Lago/AFP)
“O Neymar é melhor que o Cristiano Ronaldo!” Esta frase já pode ser lida por aí, dita por diversas vozes, especializadas ou não. Não importa se, pela primeira vez, o português teve uma temporada pior que a do brasileiro, mesmo que os números individuais apontem o contrário. Não importa também que muito do desempenho de ambos esteja diretamente ligado ao que fizeram suas equipes no ano, como, aliás, seria em qualquer caso.  

Não precisam ter pressa, senhores! Neymar, que tem 23 anos e está em ascensão, mais cedo ou mais tarde será melhor que Cristiano, já com 30 completados e, portanto, mais perto do declínio físico, embora todas as temporadas anteriores tenham mostrado que não.


GRITEM MAIS! Três vezes Bola de Ouro, português cumpre rotina. Ninguém fez
mais golos que ele em 2015 (57), apesar da temporada ruim do Real Madrid.
São cinco anos seguidos a superar a casa dos 50 tentos (Getty Images)
É natural. Neymar será melhor que Cristiano e também, se tudo correr bem, que Messi, cinco anos mais senhor que ele. Da mesma forma que aparecerá algum jovem jogador que irá superá-lo, mais dia, menos dia, pelo simples fato de que o tempo é o melhor marcador de todos os tempos. Mas aí alguém aumentará os decibéis para falar do auge caso este seja um argumento válido.


EXTRATERRESTRE Messi é o favorito para levar a quinta
Bola de Ouro para casa (Alberto Estevez/EPA)
Com o português, porém, não é assim. Mesmo ele tendo sido escolhido o melhor do mundo em três temporadas distintas (por enquanto), como Zidane e Ronaldo, outros astros indiscutíveis. E daí que ele se mantém jogando no mais alto nível desde que despontou para o futebol, na Eurocopa de 2004?

Pode ser, e existem grandes chances disso, que Neymar jamais atinja o patamar que nos últimos anos só Messi e Cristiano Ronaldo atingiram. Para isso. terá que jogar o seu melhor e prolongar o ápice, coisa que, além dos dois extrassérie, talvez só Ronaldo e Zidane (por um período de tempo mais curto) fizeram nos últimos 20 anos. Craques como Van Basten, Romário e
 Ronaldinho Gaúcho não foram capazes de permanecer por tanto tempo no topo durante a carreira toda.

Mas e daí? Neymar já é melhor. E ponto.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sobre Neymar, arte e futuro

É DE PLACA Neymar corre para abraçar Suárez
 depois do gol antológico (Josep Lago/AFP/Getty Images)
Por Leandro Marçal*
Quem estiver lendo este texto no ano de 2100 saberá que em 8 de novembro de 2015, há 85 anos, Neymar fez um gol antológico aos 40 minutos do segundo tempo na vitória do Barcelona por 3 a 0 sobre o Villarreal, pelo Campeonato Espanhol.

Agora que ele já se aposentou, vou lhes dizer algo que os livros de histórias sobre o futebol não vão contar: em minha época, quando ele goleava, fazia obras de arte em gramados de futebol, rivalizava com os maiores de sua época e ainda havia os que teimavam em contestá-lo de alguma forma.

Inveja, despeito, raiva, ódio? Não sei. Mas ainda que ele registrasse na história um lance antológico como este que deixou o narrador Paulo Andrade, que transmitia o jogo pela ESPN Brasil (ainda existe a ESPN?), sem palavras para descrevê-lo, sempre havia alguém para desqualificá-lo com comentários do tipo: “Ah, mas não foi um chapéu”.
NOSSA SENHORA! Neymar aplica o chapéu em Jaume Costa
 e vai para a rede (Josep Lago/AFP/Getty Images)
E antes disso ouvíamos coisas como “ele só joga como craque no campeonato paulista”, “dão muita moral para esse moleque”, “ele não é protagonista na seleção”, “ele se acha demais”. Como se fosse necessário ser santo para ser craque. Como se não fosse permitido ter talento. Como se ele tivesse culpa em ser uma ilha de enorme talento num oceano de mediocridade que inunda o futebol brasileiro.

Para vocês deve parecer estranho, pois ele já deve ter ganhado prêmio de melhor do mundo algumas vezes, deve ter vencido mais um caminhão de títulos e uma tonelada de recordes deverão ter sido batidos depois destas linhas.

Mas saibam que, ainda assim, em 2015, arrumavam alguma forma de contestar seu talento dentro de campo. Acreditem!

Não sei se quando lerem essas insignificantes palavras ele terá vencido uma Copa do Mundo para a Seleção Brasileira, tomada de assalto há algum tempo por uma Confederação desnecessária. Também não sei se com o passar dos anos viraremos o jogo do atraso, no qual estamos perdendo de muito tempo com dirigentes e autoridades mancomunados com o que mais de podre existe: roubos, individualismo, interesses espúrios, falta de coletividade.

Só sei que há 85 anos eu pensava há mais de dez anos que há mais de 100 o futebol também era capaz de produzir obras de arte. Que como todas as outras, devem apenas ser apreciadas para que sejamos tocados.

Paulo Andrade tinha razão: ninguém é capaz de descrever o que ele fez. Nem hoje, nem em 2100.

*Leandro Marçal é um jornalista de 24 anos, torce pelo Tricolor Paulista
 e por um mundo menos hipócrita e com mais bom humor.
E, apesar do nome de sambista, é incapaz de tocar um reco-reco.
Ainda assim, é o Rei da Noite de São Vicente.

sábado, 26 de setembro de 2015

A mulher de César

Getty Images
Eram jogados, redondos, 20 minutos do segundo tempo, no Camp Nou, quando Neymar isolou o pênalti que poderia ter transformado em 3 a 0 o 2 a 0 (que depois virou 2 a 1) do Barcelona sobre o Las Palmas, pela sexta rodada do Campeonato Espanhol.

Não é o primeiro desperdiçado pelo atacante e, provavelmente, não será o último. O que o difere dos demais é o momento turbulento que o expoente da geração do futebol nacional vem passando na semana que finda neste sábado.

Dentro de campo, na sapecada de 4 a 1 que o Barcelona levou do Celta de Vigo no Estádio Balaídos, foi dele o solitário gol blaugrana, quando o placar, 3 a 0, já praticamente definia o duelo. Fora dele, porém, é que o negócio está mais feio.

A Receita Federal brasileira bloqueou R$ 189 milhões do jogador, que é suspeito de sonegar cerca de R$ 63 milhões em impostos entre 2011 e 2013. O valor bloqueado corresponde ao que teria sido sonegado, acrescido de uma multa de 150%, que é aplicada quando há suspeita de dolo, fraude ou simulação. Mesmo com um patrimônio avaliado em R$ 242 milhões, o que está no nome do atacante corresponde a R$ 19 milhões. O restante está dividido entre os pais do atleta e três empresas da família.

Se o leitor reparou no período, data da época da sua nebulosa e muito mal explicada transferência do Santos para a Catalunha, quando o Peixe ficou com uma quantia módica do montante envolvido na negociação, enquanto a empresa do pai dele teria abiscoitado a bagatela de U$ 40 milhões. Lembre-se que o então presidente do Barcelona, Sandro Rosell,  é  um velho companheiro de Ricardo Teixeira, capo di tutti capi do futebol brasileiro até outro dia e igualmente sujo feito pau de galinheiro. Rosell era o todo-poderoso da Nike quando a empresa fechou o contrato de patrocínio com a CBF. Ou seja, o negócio não é para amadores. 


Final do Mundial de Clubes de 2011, quando o Barcelona já havia
 pago parte da transferência de Neymar (Yuriko Nakao/Reuters)

Obviamente, o que existe é uma suspeita de que existam irregularidades, e deve ser tratada como tal, sem julgamento prévio e com todo espaço para a defesa da parte acusada. Ainda assim, mesmo que o cidadão Neymar não tenha envolvimento direto em alguma eventual tramoia, como alegam seus advogados, é impossível dissociar o atleta, que é admirado e tem milhões de fãs, do CNPJ de suas empresas. 

Ídolo e maior nome do futebol brasileiro, Neymar é espelho para muitos jovens. Tal e qual a mulher de César, não basta a Neymar ser honesto: tem que parecer sê-lo. Ele tem responsabilidades e não pode fugir delas. 

ACIMA DA RIVALIDADE Torcedores de rival cercam
 o ídolo (Wesley Miranda)

sábado, 7 de junho de 2014

A primeira Copa de Neymar Jr.

*por Humberto Pereira da Silva


Para a história, para o bem ou para o mal (Correio do Estado)

Quando Dunga anunciou a convocação para a Copa de 2010, duas ausências foram amplamente discutidas: Paulo Henrique Ganso e Neymar. Quando Felipão anunciou os convocados para a Copa de 2014, havia duas certezas: Neymar estaria na lista, mas Ganso não. Com vinte e dois anos, o jogador do Barça disputará sua primeira Copa. Mais que isso, nesses quatro anos ele se tornou o jogador de futebol mais badalado do país. Ganso, tudo indica, mais alguns anos e mal será lembrado.

Antes da Copa do Mundo de 2006, Ronaldinho Gaúcho havia sido eleito pela FIFA, pela segunda vez consecutiva, melhor jogador do mundo. Era não só o melhor jogador do Brasil, mas em torno dele havia uma desmedida idolatria: o craque Tostão, na época colunista esportivo do jornal Folha de S. Paulo, chegou a dizer que Ronaldinho era inferior a Pelé, mas superior a Maradona. Na Copa, Ronaldinho sucumbiu à pressão e fracassou. Jamais se recuperou do fiasco, e hoje vive um final de carreira melancólico, para quem se esperava ficasse abaixo apenas do Rei.

Neymar não vem para essa Copa com o peso que carregava Ronaldinho em 2006. Os holofotes do mundo hoje apontam para Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Vale dizer, em nível mundial, o craque brasileiro hoje não tem o status de estrela de primeira grandeza, e sim de promessa. Mas no Brasil a grande mídia não tem exatamente essa compreensão e o trata como se ele houvesse adquirido, sem a eleição da FIFA, a condição de estrela de primeira grandeza. Para a mídia brasileira, ele está em posição similar a de Ronaldinho em 2006.

Claro, numa Copa disputada no Brasil, e uma possível conquista, Neymar dificilmente perderia a eleição de melhor do ano pela FIFA. Não só confirmaria a expectativa em torno dele, mas daria resposta num ponto crucial na carreira de um grande jogador: a capacidade de suportar pressão e, para além de malabarismo, provar a condição de craque que merece, de fato, figurar entre os maiores da história. Bem entendido, ninguém duvida que ele não seja protagonista numa eventual conquista.

Ninguém duvida também que ele será o principal responsável por uma eventual perda de título. A esse respeito, no Brasil a história é cruel. Jairzinho, o furacão da Copa de 70, foi execrado pela derrota em 74. Isso para ficar num exemplo de memória. E para ressaltar que Neymar, em sua primeira Copa..., tem diante de si uma cobrança enorme. Sem meio termo, ou se coloca entre os maiores ou fica exposto a, em 2018, ser lembrado como um Ganso hoje.

Não se trata de discutir suas qualidades. Não creio que Ronaldinho Gaúcho depois de 2006 tenha desaprendido, ou que não passasse de produto de mídia. Da mesma maneira, não acredito que Neymar seja apenas uma construção da mídia. Trata-se de ver o que ele simbolicamente representa, na comparação com Ronaldinho em seu auge, na expectativa criada.

Neymar jogará essa Copa para ganhar e sair como herói, se inserir no rol dos maiores. Do contrário, dificilmente passará de um jogador entre tantos, um Jairzinho, um Ronaldinho Gaúcho qualquer... Mas, perguntaria alguém um tanto irritado: Cristiano Ronaldo, melhor do mundo pela FIFA ano passado, não jogaria sob pressão maior, ora pois?

Portugal não disputa Copa do Mundo com responsabilidade de conquista; no melhor cenário, chega às semifinais. E aqui eu ironizo Tostão: se Portugal chegar entre os quatro, Cristiano Ronaldo restará para a história abaixo de Pelé, mas acima de Eusébio. Ninguém duvida que se isso ocorrer ele será o protagonista.

*Humberto Pereira da Silva, 50 anos, é professor 
universítário de Filosofia e Sociologia e crítico de
cultura de diversos órgãos de imprensa.