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terça-feira, 15 de março de 2016

O campinho, a perua azul e a camisa amarela

por Fabio Venturini*

Lá na Cohab Teotônio Vilela as crianças tinham poucos brinquedos. Alguns carrinhos de plástico, mas no geral tínhamos que fazer nossas brincadeiras. A principal para os meninos era obviamente o futebol. O bairro era relativamente novo (estou falando de algo em torno de 1983 e 1984) e no meio dos prédios havia bastante espaço, vários terrenos disponíveis para montarmos dois times, dois gols de pedras ou chinelos e rolar a bola.

Ao final da tarde as mães nos chamavam para casa. A penumbra facilitava a violência adulta. O terror era aumentado pela possibilidade de sermos levados pela perua do Juizado de Menores. Era uma espécie de polícia para recolher meninos vadios que ficavam na rua sem ter o que fazer. Uma lição para os pais que tinham que resgatar suas crias. Quando dava 18h, a chegada da Kombi azul com um giroflex no teto era suficiente para ver dezenas de meninos correndo desesperadamente pelas escadas dos prédios. Desconfio que em algum momento pelos idos de 1985 a viatura surgia apenas para divertir os agentes com o desespero infantil, não mais para limpar as ruas da vadiagem.

Dentro das áreas cercadas dos prédios os adultos alertavam que se aquela perua nos levasse seriamos feitos de mulherzinha na Febem junto com os trombadinhas.

Uma vez um amigo meu questionou a sua mãe porque não podia brincar na rua à noite e ela respondeu:

- Não se meta com política moleque, você vai se dar mal!

Política e Kombi azul? Mas não é para pegar trombadinhas? No dia seguinte voltávamos ao futebol.

O jogo

Tínhamos de imediato dois problemas: 1) ter os campos e as bolas livres, pois os “meninos grandes” já adolescentes ganhavam o espaço na força e 2) ter pelo menos 12 garotos para jogar com cinco na linha e um no gol. Normalmente isso ocorria em época de pipa, quando muita gente preferia uma brincadeira que dependia de muito vento, algo que ainda era sazonal (não pensávamos em mudança climática). A falta não fazia com que desistíssemos, a partida rolava mesmo assim, mas usávamos de argumentos e persuasão para convencer colegas a jogarem bola para empinar pipa depois. Em geral oferecíamos ao desunido, desgraçado mas bom, de bola a garantia de que não precisaria jogar no gol.

Felizmente isso era raro. Infelizmente conseguíamos três times e alguém deveria esperar. Era necessário sortear qual time ficaria do lado de fora esperando a primeira partida acabar. O método geral era por par ou ímpar, palitinho, dedos iguais e outros jogos do gênero. Tinha uma forma interessante chamada 17-21: uma contagem se iniciava e rodava entre um representante de cada equipe, repetindo em todos até que se contassem as posições 17 e 21, sendo que o excluído esperava. Até hoje quando jogo na loteria uso essas dezenas (não tem dado resultado).

Talvez o momento mais tenso e negociado fosse a formação das equipes. Suponhamos que a partida teria apenas duas equipes. Os dois melhores ou os dois piores com a bola eram destacados pelo grupo, por indicação coletiva. Eles eram tão bons ou tão fracos que juntos desequilibrariam a partida. Depois de um tenso par ou ímpar, iniciavam a formação de seus times (isso que vocês nascidos depois de 1990 chamam de Fantasy, Manager ou Cartola, só que real, o jogo acontecia mesmo). Se na vitrine dos elegíveis houvesse alguém muito melhor do que a média geral, ganhar no par ou ímpar definia a equipe com uma brincadeira mais divertida e os que terminariam o dia meio frustrados por tanto perder.

A escolha ocorria, então, um a um, intercaladamente. Cada vez que um novo membro chegava à equipe, integrava o conclave com o capitão para opinar na formação do time. Às vezes escolher algum bom goleiro ajudava mais do que um habilidoso indolente. Quem não tinha tal sorte, precisaria também realizar um acordo coletivo para revezar quem ficaria naquela posição que nenhum brasileiro valorizou antes de goleiros começarem a bater falta. Era também o castigo: se você entregasse a bola para o adversário e tomasse um gol bobo, o time poderia aplicar a punição de você pegar na vez de outro, para deixar de ser besta e nunca mais brincar perto da própria meta.

Às vezes um time ficava muito mais forte. Nesse momento, os dois times paravam a partida e trocavam um muito bom por um muito ruim e, assim, equilibrar a brincadeira (ganhar fácil de adversário ridículo, como no Campeonato Espanhol, nunca foi algo legal, acredite). O mais impressionante de tudo é que não tínhamos arbitragem, técnico ou professor e a coisa andava naturalmente com base naqueles acordos.

Adorávamos nossos times, a Seleção Brasileira e sonhávamos em um dia vestir uma camisa de um grande clube nacional ou a amarelinha. Quando marcávamos, gritávamos “goooooool do Brasil! Ziiiicoooo!”. Ninguém se importava por ele ser do Flamengo. Todos meninos tinham camisetas amarelas para imaginar que estavam na seleção. No sorteio escolhíamos jogar com ou sem camisa, o lado do campo (ficar na descida para atacar no primeiro ou segundo tempo), combinávamos em quantos gols acabava cada partida. Ninguém interferia, somente quando alguém mais forte acabava com a brincadeira pela força.

Quase 18h, subindo as escadas com medo novamente do Juizado de Menores, em casa ouvíamos que gente do nosso lugar não podia fazer política durante o telejornal que passava entre uma novela e outra. Gostávamos das novelas.

Pode parecer nostalgia, mas o fim de uma ditadura pareceu doce aos meus olhos de criança.

Um dia crescemos. Caras se pintaram, os clarinhos fizeram faculdade e se mudaram, os escurinhos ficaram presos no bairro. Os terrenos foram invadidos pela especulação imobiliária e nossos primos mais novos não ficaram sem ter onde jogar. O lugar em que batíamos bola virou prédio, igreja, delegacia, qualquer coisa, menos terra batida com dois gols de pedras ou chinelos.

Crianças foram jogar em quadras de condomínios e escolinhas de grama sintética. Lá o professor escolhe os times e os pais querem opinar na escalação porque pagam mensalidade. Nos condomínios é que se decidiam as regras do jogo das crianças nas reuniões de condôminos, até para evitar que os adultos não se entendam mais.

Quando vejo as camisas amarelas da seleção brasileira no século XXI minha cabeça sofre, não entende, não aceita, resiste em acreditar. O manto que eu vestia era orgulho por não ter uma regulação como a do condomínio, um adulto organizando nosso mundo e tecidos especiais com numeração customizada. O futebol era nosso momento de liberdade na determinação imperativa do nosso lugar social espacialmente delimitado por uma perua azul. Sequer usávamos camisa dessa cor no futebol porque ela nos perseguia, seja com o juizado, a Itália de Paolo Rossi ou a França de Platini. Cor agourenta!


A camisa amarela era a melhor, a mais bonita, a mais orgulhosa. Tudo isso lá no campinho de terra batida.

*Fabio Venturini é jornalista

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Teje preso

O dia 27 de maio tem tudo para ser uma data histórica para o futebol mundial. Não por causa de alguma conquista em campo ou algum gol digno de um Pelé, um Moreno, um Lostau ou um Dener. Neste dia, o FBI prendeu, em um hotel de Zurique, às vésperas da eleição da FIFA, que deve prorrogar o reinado de Joseph Blatter, alguns dos figurões do submundo do futebol, entre eles José Maria Marin, o controverso ex-presidente e atual vice de Marco Polo Del Nero na CBF.

O ex-presidente José Maria Marin, detido em Zurique (Foto: Ricardo Stuckert/CBF)
Se nos gramados as potências são países com vasto histórico de craques e conquistas, abaixo deles, às sombras, quem dá as cartas são membros de países minúsculos e insignificantes (mas com direito a voto), como as Ilhas Caiman, do atual presidente da Concacaf Jeffrey Webb (outro que está ameaçado de ver o sol nascer quadrado), e Trinidad e Tobago, do ex-secretário-geral da mesma entidade, Jack Warner, atolado até o pescoço (e com os filhos) nas maracutaias envolvendo venda de ingressos e pacotes promocionais.

No território autônomo da FIFA, esse minúsculo país situado em Zurique, algumas moedas sustentam poder e longevidade: venda de ingressos, de pacotes de hospitalidade (aqueles com diárias de hotéis, translado até os estádios e ingressos) dos direitos de TV, organização de campeonatos de diversas categorias (o que dá acesso irrestrito aos cofres públicos dos países que têm a "felicidade" de gastar aos borbotões, mesmo não tendo dinheiro nem para saneamento básico) e uso das marcas registradas pela entidade.

Pelos direitos de comercialização da transmissão, segundo o jornalista escocês Andrew Jennings (o único jornalista do mundo previamente barrado nos eventos que a FIFA organiza), a dupla Havelange e Teixeira fez fortuna através de propina. Foi o propinoduto que chegava às contas de sogro e genro que, ainda segundo o britânico, levou a ISL, parceira da FIFA e detentora dos tais direitos de TV, à bancarrota. Propina, aliás, que entrava como comissão e não era proibida pelas bondosas leis suíças. Não por acaso, FIFA e COI têm sede naquele país. 

Outra fonte de renda, esta mais democrática, já que está ao alcance de todos os membros votantes do Comitê Executivo, é a venda do voto na eleição do país-sede. A candidatura inglesa para 2018 naufragou graças à BBC, e a Jennings, que pegaram no pulo alguns "vendedores de convicção" que negociavam seus votos com jornalistas que se passaram por intermediários. Esses membros do Comitê Executivo foram severamente punidos, não pelo ato em si, e sim por terem sido descobertos.

Por muito tempo, alguns membros, sobretudo de países como Camarões e Nigéria, foram parceiros de delito dos posseiros de Zurique, nomeadamente Havelange e Blatter. Quando quiseram, em vez das rebarbas, o filé mignon, foram expulsos do clube, sob alegação de corrupção. Viraram bode-expiatório e exemplos do que aconteceria com que se atrevesse a querer um quinhão maior das benesses da bola.

O FBI esperou pela eleição da entidade máxima do futebol para pegar todos de uma só vez, na surdina, na moita. E conseguiu. No entanto, trata-se de gente muito poderosa (e perigosa na mesma proporção). Ainda não seria de se estranhar se conseguirem se livrar. O chefe do bando, mesmo, não está entre os presos. Fosse um órgão minimamente decente, a eleição já estaria cancelada até segunda ordem, mas se minimamente decente fosse, a ação da polícia americana não teria sido necessária.