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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Pílulas amadoras - 36 - a caça às bruxas e a covardia

*por Humberto Pereira da Silva

Acompanho futebol há muito tempo. Em pouco anos fará seis décadas que vejo ininterruptamente partidas de futebol. Nessas seis décadas que se aproximam, vi de tudo e um pouco mais. Algumas coisas, com certeza, marcantes.

A eliminação do Corinthians na Libertadores para o Estudiantes é um dos acontecimentos mais impressionantes que vi nos anos recentes. Poderia acontecer de tudo na partida. Como em qualquer partida. E aconteceu de tudo e mais que tudo.

Minha expectativa era de que a vaga à semifinal se decidiria no tempo normal de um jogo de futebol. 40 minutos do segundo tempo e se teria a classificação ou eliminação do Corinthians. 

Ocorre que exatamente aos 41 minutos do segundo tempo, depois de um jogo monótono, sem grandes emoções, já esperava pela disputa em pênaltis. Via o jogo então até desatento, quando numa jogada praticamente perdida na linha de fundo, o gol do Estudiantes.

Pronto. Corinthians eliminado? Mas senti que a reação do Corinthians ao gol antecipava grandes emoções. Vi já muita coisa assim em quase sessenta anos, ainda mais em se tratando de Corinthians.

E realmente aconteceu. Um pênalti para o Corinthians aos 51 minutos que, convertido, inverteria a enorme frustração gerada com o gol dos forasteiros. 

O cobrador do pênalti, Memphis Depay, tinha no pé direito o poder dessa decisão. E perdeu.

Poucas vezes, na minha lembrança, vi anticlímax tão acachapante. E, inevitável, a imediata condenação a Depay feita por praticamente todos, incrédulos, com o que estavam vendo.

A reação, mesmo de jornalistas experientes, até certo ponto é previsível. Impossível acreditar que ele perdeu.

Aí o lado B. Para o torcedor, apaixonado, plenamente justificável. Com o que ganha, com as "mordomias" que desfruta, com o que exige e tem à disposição, Depay na hora em que precisaria justificar seus "privilégios" não poderia perder um pênalti nas circunstâncias em que perdeu.

Entendo que há aí um lado humano que revela menos do jogador do que como se pode ser cruel a quem condena, o jornalista experiente e não um simples e apaixonado torcedor, um erro com justificativa extra-campo. Mesmo que Memphis Depay seja um pulha, uma figura abominável, crucificar o rapaz é de uma crueldade tal que quem o faz, tendo o mínimo de caráter, pararia para pensar um pouco se a terrível situação era para tratá-lo como escória. 

Memphis não é o um grande batedor de pênaltis. No Corinthians, seu aproveitamento é de 40%, tendo perdido três e convertido os outros. Rivellino, para ficar com as mesmas cores, detestava bater pênaltis, tanto que o próprio Reizinho do Parque diz que bateu só um - e perdeu. Mas é mais fácil e até óbvio que o cordeiro imolado seria o que mais custa aos cofres já combalidos do clube.

Nos intermináveis e injustificáveis quatro minutos entre o toque no antebraço do zagueiro e a confirmação da penalidade máxima, o neerlandês ficou com a bola, chamou a responsabilidade, mesmo sendo desconfortável. Isso, por si só, deveria ser o suficiente para que o maldito termo "pipocada" não tivesse lugar.

Contexto: na Copa de 1974, os brasileiros Jairzinho e Paulo Cezar Caju foram acusados de, já encaminhados com o Olympique de Marselha, tirarem o pé de divididas, como se fossem pipocas pulando, para evitar eventuais contusões.  

Perder pênalti é situação absurdamente previsível sob forte pressão. Grandes jogadores perderam pênaltis que não poderiam perder. Vi Zico, Platini e Sócrates perderem pênalti numa mesma partida numa Copa do Mundo, na Copa de 86. Vi Maradona perder pênalti na Copa de 90. Vi Baggio, então melhor jogador do Mundo, dar título ao Brasil ao perder pênalti em 94. Vi Messi, Cristiano Ronaldo perdendo pênaltis em momentos decisivos.

Depay não é melhor que eles. E como eles, perdeu. E com a perda, esse o lado que talvez fique difícil admitir, com a enorme frustração pela eliminação, algo que escapa num momento assim. Com a vantagem de um difícil empate na Argentina, para a realidade atual do Corinthians um feito, aqui em Itaquera o time teve todo o tempo da partida para se classificar. 

Mas o Corinthians não teve capacidade para isso. Quis a sorte que um absurdamente imprevisível pênalti aos 51 minutos do segundo tempo trouxesse como tempero um final que ficará na lembrança como numa partida de futebol tudo pode acontecer. E até mais que tudo. A dolorosa eliminação do Corinthians foi verdadeiramente marcante.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O novo jeito de torcer e o velho jeito de distorcer

Assisti, dia desses, a um recorte no canal do Youtube do Trivela em que os jornalistas Allan Simon e Tim Vickery - é importante pontuar que são jornalistas profissionais e deles se espera uma prática condizente ao juramento que fizeram na Colação de Grau - discutiam sobre a prática, comum entre os torcedores mais jovens, de seguir seus ídolos e torcer por eles acima das camisas que vestem ou emblemas que defendem.

Simon, inclusive, usa a CazéTV como exemplo de quem surfou na onda do culto à persona. O (não mais) simpático canal do YouTube "abraçou a defesa do Neymar desde antes" da convocação para a Copa. Suspeitava-se, como foi possível verificar, que o jogador não tinha condições de jogar em alto nível por conta de seu estado físico deplorável - por obra e graça de seu comportamento desde sempre, é bom frisar.  No entanto, para agradar seus seguidores, jamais fez o que se espera de quem detém os direitos de transmissão: informar, com qualidade e isenção.

Comportamentos como chorar por ter feito duas perguntas simplórias ao ídolo não é o que se espera de quem se preparou - ou deveria - para fazer a cobertura jornalística. Sim, é jornalismo e isso requer distância. Não falo aqui de um desastre natural ou uma cobertura de temas delicados, portanto, capazes de causar este tipo de emoção. O ápice é estar no evento, não é fazer uma pergunta a quem quer que seja.

Pode ser duro, mas ser jornalista é isso. Mas como disse o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), o homem é produto do meio em que vive. Aí, não fulanizando a questão, mas entendendo o contexto, fica fácil perceber em que ponto essa distância entre meio e notícia se perdeu. É a formação social, não profissional, o ponto.

Voltando ao trecho do vídeo citado lá no primeiro parágrafo, o culto à persona faz com que a presença dos ídolos seja mais relevante que as camisas que eles vestem, e isso é transferido para as seleções nacionais. Não há outra explicação para o fato de a página da seleção portuguesa no Instagram ter o dobro de seguidores em relação à população do país que a presença de Cristiano Ronaldo na equipe. E essa presença é cobrada pelo séquito como se fosse condição para que se torça, mesmo que isso prejudique o desempenho em campo do time, como aconteceu. Não por acaso, passando para o lado de cá do Atlântico, o pior momento do Brasil no jogo que custou a eliminação da Seleção na Copa, contra a Noruega, foi justamente quando Neymar esteve em campo.

Convenhamos, nem deveria ter sido convocado.

O jornalista, como qualquer outra pessoa em qualquer atividade, não escolhe o que sente, mas tem controle sobre o que e como opina. Então, se molda sua opinião ao interesse de milhares de pessoas que têm um comportamento de seita e exigem que sua vontade seja saciada - e, diretamente, agrade seu empregador, que ganha muito com a atenção e o engajamento que uma polêmica pode causar, mesmo sendo um assunto banal -, passa a ser um problema para a própria atividade jornalística. 

Mais uma vez, a questão não é o choro, e sim o que leva um profissional a ter esta reação. Como é impossível separar a formação do mundo onde o sujeito está inserido, podemos crer que a imparcialidade já foi para o caralho antes mesmo que a experiência seja adquirida. Boa semente não floresce em solo ruim.  

Se puderem, peguem o jogo entre Croácia e Portugal, que terminou com a vitória deste, e reparem no comportamento de todos os que estavam na transmissão. Primeiro, o óbvio exagero após Cristiano ter feito um gol de pênalti. De pênalti! Depois, quando era claro que Portugal era dominado e era preciso reforçar o meio de campo, só faltaram botar um ovo quando Roberto Martinez substituiu o camisa 7. E por quê? Porque não é possível, sob a ótica do engajamento, aceitar que o objeto de adoração da seita seja tirado de campo, por mais óbvia que seja a necessidade de fazê-lo.

Ao cabo, o ruído que emana das redes sociais devidamente abastecidas por um tipo de conteúdo estrategicamente pensado para ativar e atiçar a seita é capaz não só de interferir na formação de um elenco para uma grande competição, como na escalação de equipe que vai ao campo.

Afinal, para o patrão, o cliente sempre tem razão.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pílulas amadoras - 35 - O 'affair' Neymar, Thiago Leifert e a ética**

*por Humberto Pereira da Silva

A tietagem é uma das fronteiras sagradas
 do jornalismo. Foto: ofuxico.com.br

Uma das coisas bem bacanas no futebol é o quanto ele desperta paixões. Uma das primeiras expressões que me lembro de minha infância é a de que fulano é “torcedor fanático”. Torcer por um time, pela seleção, ou só por um jogador e o futebol reserva momentos de fortes emoções. Alegria e tristeza se encontram e se desencontram numa fração de segundo. Êxtase, medo e frustração se entrelaçam sem qualquer aviso. Sem qualquer sentido de racionalidade.

Ponto. Viro a página. Passo do lado poético, romântico, filosófico, psicológico, psiquiátrico - o que quer que seja - e abro a página da ética em jornalismo.

Assunto do momento: Neymar, sempre Neymar, e sua convocação para o Copa. Obviamente, como esperado por qualquer pessoa sensata, convocado ou não, o seu caso (affair) dividiria opiniões.

Afinal, qual é o problema da opinião no jornalismo esportivo?

Não misturar paixões de torcedor que tem um jogador como ídolo e, vejamos o nó, a opinião jornalística. Sutileza: opinião jornalística não é opinião de torcedor. Ao misturar as esferas e falar como torcedor, o jornalista se expõe a um problema de ética. Na atual conjuntura, uma pessoa que saiba falar, domine e detenha a tecnologia necessária pode se arvorar a ser uma pretensa formadora de opinião - ou o famigerado influenciador. Um jornalista, porém, jamais poderá fazer o mesmo, dado que a ética é a fronteira a não ser cruzada.

A convocação de Neymar, sim, como totalmente previsto, dividiu opiniões. E igualmente expôs jornalistas na perigosa fronteira em que basta um passo e não se tem mais o jornalista e sim o detrator ou o fã de Neymar. 

Tudo bem se, com discernimento e lucidez, o jornalista lembrar que fala como torcedor, que tem o diretor de opinião como torcedor e que quem pensa o contrário dele também tem esse direito. Pode não ser fácil num clima de paixões assim se manifestar, mas sabendo se expressar por vezes uma palavra e o jornalista, enquanto jornalista, com um lenço branco acenando se protegeria.

Não foi esse o caso, no turbilhão jornalístico após a convocação de Neymar, com a manifestação de Thiago Leifert. Uma palavrinha, “merda”, e efetivamente Leifert não acenou com um lenço branco.

Já há um bom tempo defendendo (pressionando) a convocação, com esta se realizando, Leifert abandonou o que seria a posição de um jornalista e, para fazer uso de termo repetido diversas vezes por ele, falou “merda”. Não que outros não tenham feito o mesmo, mas ninguém partiu para o ataque como ele.

Falar “merda” aqui é falar como torcedor num boteco, ou seja, fortemente impulsionado pelas paixões, sem qualquer senso de bom senso.

Destaco um ponto em especial na fala dele: “Se fosse em um lugar sério e se o jornalismo esportivo tivesse vivendo uma melhor fase, era papo de demissão” (sic – não é o caso de corrigir o português).

Bem, não entro no mérito de se subentender que Leifert “defende demissão...”. A afirmação é suficientemente clara para se supor que sim.

E, vejamos, sim, em tese, não discordo dele: a um jornalista que se deixa levar pelas paixões e opina como torcedor, esse jornalista deixa de falar efetivamente como jornalista, mas faz uso do poder do púlpito de jornalista.

Então, em tese, concordo com Leifert: num lugar sério, um jornalista que se deixa levar por paixões e emite opinião de torcedor não exerce o que se espera de um jornalista e do jornalismo.

O caso é, e Leifert obviamente sob efeito de paixão não percebe o efeito de sua fala: ele defende a própria demissão. Suponho que ele leve a sério o que disse: se “tivesse” em um lugar sério e se o jornalismo esportivo vivesse uma fase melhor...

Aqui, lembra-me o editor deste blog, a atual fase do jornalismo esportivo deve muito ao próprio Leifert - e não há nada lisonjeiro nisso.

Quando um jornalista diz e repete que um colega fala “merda”, não posso entender que esse jornalista, não sendo demitido, como ele próprio solicita, esteja num lugar sério. Sem querer... creio... ele diz que onde trabalha não é um lugar sério... (santa ingenuidade, Batman!).

Num lugar sério, como defendido por ele, “seria papo de demissão”. Não imagino a reação dele, nomeando e não se escondendo no coletivo, se alguém dissesse que ELE falou “merda” e justamente por isso pedir que ELE seja demitido.

O impessoal é terrível como tática de proteção e um gesto próprio de covardes: “Eles falaram merda!”. Quem, Thiago Leifert, a não ser você, fez uso da palavra “merda”? Um jornalista sério e um lugar sério não se referiria a um colega com opinião jornalística discordante com o termo que você insistiu em repetir.

Obviamente não creio que Thiago Leifert receba bem ser chamado de covarde. Como entendo bem, com as paixões que envolvem o futebol, a fala dele num... boteco e não no ambiente de trabalho.

**As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião deste veículo.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Pílulas amadoras - 29

*Por Humberto Pereira da Silva


Li com atenção a declaração do técnico Felipe Luís, do Flamengo, sobre arbitragem no jogo com o Palmeiras: "Se tem alguém que não pode reclamar de arbitragem é o Palmeiras".

Li depois, com algum estupor, no UOL que Felipe Luís "ironiza reclamação do Palmeiras". Eu recomendaria fortemente aos editores de imprensa uma atualização do MANUAL DE REDAÇÃO. Se possível, desenhar quando se usa a figura de linguagem "ironia" - neste caso, seria interessante explicar ao jornalista o significado do substantivo utilizado.

Eis a questão: a palavra "ironia" é usada como cacoete, muleta, e perde completamente o sentido. No caso, Felipe Luís fez uso de outra figura de linguagem, a alusão. Ele alude à arbitragem favorável ao Palmeiras em outras partidas. 

Ironia é outra coisa. Imaginemos que ele diga algo assim: "A arbitragem NUNCA erra em jogo do Palmeiras". 

Sinceramente - com sarcasmo e não ironia -, suspeito se poderia entender em sentido literal uma afirmação assim. Mas, sim, talvez essa época seja de uma "lassidão" tal que procurar o significado de lassidão seja um esforço sisífico (aqui uma metáfora, bem entendido).

PS.: Ora muito bem, se não sabem o significado de ironia, não se espera que conheçam o mito de Sísifo. A quem se interessar, porém, é só clicar aqui.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Pílulas amadoras - 28

 *Por Humberto Pereira da Silva


O pênalti perdido pelo Yuri Albert contra o Flamengo foi bizarro? Foi irresponsabilidade? Ele, provavelmente tenso, chutou o chão. A bola mal ganhou altura e ainda, caprichosamente, como se por vingança, literalmente caiu no colo do rubro-negro Rossi. 

Irresponsabilidade, se alguém quiser dar peso às palavras que usa, é muito pesado. Claro, posso me esquivar: foi um desabafo, tipo soltar um palavrão com a "inexplicável" decisão de uma cavadinha na frente de um goleiro herói, pegador de pênalti, que classificou seu time dia desses ao pegar duas cobranças. O pênalti perdido, nas circunstâncias, é realmente pra soltar um "irresponsável" para não falar alguma baixaria. 

Pênalti, no entanto, é um dos mitos no futebol. Erro e acerto, céu e inferno. Herói e vilão. A glória ou a danação. Pênalti perdido com cavadinha é, acho eu, um dos lances mais patéticos do futebol. Expõe o batedor ao ridículo.

Se for gol, contudo, jamais ouvi a acusação de irresponsabilidade, e sim a virtude do sangue frio em um momento tão tenso. Atribui-se ao folclórico treinador e grande frasista Neném Prancha que "o pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente". Os caprichos com o sentido das palavras: irresponsabilidade e frieza se permutam entre o bem e o mal.

Yuri foi irresponsável. Nas circunstâncias do jogo, diz o comentarista com toda paixão, não é hora de gracinha, bate forte. É, já vi dezenas e dezenas de bolas isoladas quando se bate forte, sem gracinha. De boas intenções, o inferno está cheio, inclusive de batedores de pênaltis. 

É, diz o mesmo comentarista, pênalti não é força! Mas, e se o goleiro acertar o canto? É fácil. Pênalti pessimamente cobrado, Yuri teria avisado o canto, ou, como diriam os locutores de antanho, telegrafado a batida.

A decisão do batedor na hora da cobrança envolve uma infinidade de variáveis. E ele sabe perfeitamente que qualquer que seja a escolha estará entre o céu e o inferno. Mas, a acusação de irresponsabilidade de Yuri é pesada porque irresponsável, convenhamos, é uma maneira para mim de irresponsavelmente ofender. Ora, quem decide dar uma cavadinha no pênalti é irresponsável. É isso?

Mas então, mesmo tendo chutado o chão, tivesse a bola, por menor que fosse, outra trajetória e entrasse e... Yuri não seria irresponsável. Talvez sequer se notasse a batida patética e eu então diria que o comentarista em seu silêncio seria irresponsável ao não acusar Yuri de irresponsável, apesar do gol. 

Lembrança: na final da Copa de 2006, 0 a 0 no placar, entre Azzurri e Bleus, e pênalti para a França. Zidane frente a frente com Buffon. Zidane dá a cavadinha. A bola, caprichosamente, bate na trave e entra. Irresponsável, a decisão de Zidane. Só um irresponsável para dar uma cavadinha ao cobrar um pênalti numa decisão de Copa do Mundo.

Entre a cavadinha e a cabeçada em Materazzi, Zidane não será lembrado pela ousadia na frente de Buffon, um dos maiores do seu e todos os tempos. 

Ao cabo, irresponsável ou ousado, quem decidirá o adjetivo, obviamente, é a bola.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo

domingo, 20 de julho de 2025

Pílulas amadoras - 27

*por Humberto Pereira da Silva

O jornalismo, a ética em jornalismo, exibe momentos bem sensíveis, delicados. É o caso no texto de Milly Lacombe sobre Robinho Jr, em início de carreira no Santos. Em primeiro lugar, antes de tudo, "defendo até a morte o direito de ela expressar liberdade de opinião", para aludir a sentença atribuída a Voltaire. 

Justamente por isso, seu texto, sua opinião, se põem no campo de discussão sobre limites éticos na prática jornalística. É enxergar na estrada uma via de mão dupla. De modo bem direto, caso ela - não suponho que escreva movida por impulso desonesto - tenha de fato boas intenções em que acredita, e faça - muito bem - uso do poder da escrita para defender causas justas. Como princípio, não coloco sob suspensão suas razões para escrever o que escreveu. Tampouco que seja falso como ela se sente sobre Robinho, o pai, e o quanto possa estender às mulheres o horror do estupro e, como decorrência, a condenação do ex-jogador.

Mas, justamente por isso, ao não colocar sob suspensão sua honestidade, para um texto tão duro direcionado a Robinho Jr, da parte dela, deveria haver uma ponderação: fazer um exame de consciência, tendo como ponto de partida o duplo movimento da estrada. Um texto como o que escreveu não faria Robinho Jr sofrer por um crime cometido pelo pai? Quer dizer: Robinho Jr também paga pelo crime da pai?

Esse, para mim, é um ponto extremamente complicado porque não parto do princípio de desonestidade nela. Então, entendo, ela poderia examinar a consciência e ponderar se é justo que além do evidente sofrimento, "vergonha" pelo que o pai fez, o jovem Robinho seja marcado definitivamente e lembrado eternamente de que é filho de um estuprador. 

Outro ponto a respeito propriamente da ética jornalística. O poder e, em decorrência, os efeitos daquilo que se escreve. Mais: como aquilo que se escreve é recebido por quem lê. Eu recebi da seguinte forma: para ela, é um erro o filho adotar o nome profissional de Robinho, o que, de algum modo, seria uma defesa do pai. Ela pode, sim, ter razão numa eventual inconveniência. Só que ela, com o poder que tem, joga nas costas do rapaz todo tipo de indisposição que para a malta faz dele um criminoso como o pai. 

Do ponto de vista ético, para mim, Milly Lacombe subestima os efeitos que uma imputação assim possa ter na carreira e na vida pessoal de Robinho Jr. Seu eventual fracasso como jogador não estaria descolado de coisas como as que Milly escreveu. 

Seria só o caso de não adotar o nome Robinho? Nesse ponto, não sendo desonesto nem ingênuo, não há como desvincular a imagem de filho e pai. Daí, para mim, a responsabilidade ética jornalística: o cuidado para separar o joio do trigo (a conveniência, para o jornalista, deve ser vista também como via de mão dupla; mas isso está longe do texto da Milly Lacombe). Como jornalista competente, aconselharia Milly a passar os olhos pela Bíblia em sua prática jornalística.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Pílulas amadoras - 23

*Por Humberto Pereira da Silva


Dia desses, deparei-me com uma notícia em um dos maiores sites dedicados ao esporte, sobretudo ao futebol. Era sobre o formato do novo Mundial de Clubes, que deverá ser realizado em meados de 2025. Sintetizando, com 32 equipes, o modelo de disputa será semelhante ao que vemos nas Copas do Mundo de Seleções desde 1998: 32 participantes divididos em 8 grupos com quatro integrantes, dos quais avançarão os dois melhore classificados para as oitavas de final, em jogo único e eliminatório. 

O que me causou estranheza foram os termos usamos na matéria. "Quantidade de gols"? Na verdade, gols pró ou maior número de gols marcados. Esse o termo usual para quando equipes ficam empatadas em pontos, confronto direto e saldo de gols. 

Play-off? Bem, se entendi direito, é o "mata-mata". De qualquer forma, não se esclarece. O play-off pode ser um "mata-mata", um jogo só eliminatório. Mas também uma melhor de três - ou de cinco. Ou mesmo de sete, como acontece no basquete norte-americano. Só a palavra play-off, e a informação fica incompleta. Suponho, no contexto que se apresentou, que seja nosso usual em bom português "mata-mata". Mas veja, mesmo nosso usual "mata-mata" pode ser em duas partidas. Ou seja, como escrito, parece um hieróglifo egípcio a ser decifrado por quem tem pouca ou nenhuma familiaridade com o tema.

O que se extrai? Primeiro: ninguém assina o texto. É da redação e o portal fica com a responsabilidade. Uma hipótese provável: um ou dois estagiários receberam material de divulgação e ficaram encarregados de rabiscar uma redação pra ontem. A pressa como variável para descuidos numa matéria a ser redigida com mais cuidado. O link sendo aberto o algoritmo é disparado e isso faz felicidade aos anunciantes. Num mundo tão rápido e alucinado, milhares de leitores abrirão o link e passarão os olhos pela "notícia". Isso basta para os interessados. Mais sobre os hipotéticos estagiários. No caso do futebol, provável desconhecimento de palavras usuais utilizadas pela imprensa: gols pró e mata-mata. 

Meu aluno Marcos Teixeira, editor deste blog, acha pouco provável e sua suspeita será abordada aqui logo abaixo.

Segundo ponto a se extrair  - e nisso novamente a pressa como variável. O uso de ferramentas de Inteligência Artificial para a produção de textos. Recebido o material de divulgação em inglês, e o (s) estagiário (s) apenas apertariam algumas teclas do computador e teriam o texto pronto. 

Insinuações levianas? Todo texto, toda redação, se expõe a interrogações sobre como foram concebidos. No caso, há pontos que geram desconfianças quando a leitura vai além de um olhar de relance. Não tenho, nem terei resposta definitiva, mas uma vez que a leitura me causa estranhamento pelo uso de termos incomuns, ponderar sobre o porquê desse uso me parece uma posição justificável no quesito ética em jornalismo. 

Quer dizer: abstraindo-se claro, o caso, o risco de cada vez mais não termos certeza de que o que lemos é uma espécie de Frankenstein feito às pressas para uma massa que lê como composta por sonâmbulos.

*Humberto Pereira da Silva é professor de Ética em Jornalismo 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

PALMEIRAS - A vergonha é de quem fez o calendário, não do Palmeiras


O Palmeiras voltou do Mundial de Clubes com a quarta colocação na bagagem, resultado de uma derrota nas meias-finais para o Tigres-MEX e um novo desaire na disputa pelo terceiro lugar frente aos egípcios do Al Ahly. Em comum, nestes dois jogos, a pouca imaginação e um rendimento bem abaixo do que se viu do representante sul-americano em outras edições do torneio.

O excelente jornalista português António Tadeia fez um levantamento bastante esclarecedor em seu site para tentar entender o baixíssimo nível de futebol apresentado e que resultou na pior campanha de um sul-americano desde sempre no torneio: desde que o futebol voltou após a parada por causa da pandemia da Covid-19, que ainda está longe do fim, em 23 de julho último, o Alviverde disputou 58 jogos (uma partida a cada três dias e meio), 10 dos quais no mês que antecedeu o Mundial.

A título de comparação, o Bayern, grande equipe do mundo na temporada e que conquistou o título com um protocolar 1 a 0 sobre os algozes do alviverde, atuou 36 vezes nestes seis meses e meio (5,5 dias entre um jogo e outro), sendo oito nos 30 dias anteriores à competição da FIFA. Isso para ficar somente no campeão de tudo, porque, se a comparação for mais abrangente com outros grandes da Europa, os números serão mais díspares, conforme Tadeia aponta aqui.

Detalhando esta dezena de jogos antes do Mundial, o Palmeiras teve viagens a Buenos Aires (2,5 horas de voo), Recife e Fortaleza (três horas), além de duas viagens ao Rio de Janeiro, que levam 45 minutos de ponte aérea -, incluindo as duas semifinais e a final da Libertadores. Teve também clássicos com o Corinthians e Flamengo, já na fase aguda do Brasileirão, no qual o Palmeiras ainda reunia chances de ser campeão. 

Por sua vez, em jogos fora, os campeões da Europa deslocaram-se a Mönchengladbach, Kiel, Gelsenkirshen (uma hora de voo) e Ausburgo (uma hora de ônibus). Destes, somente o jogo com o Holstein Kiel, do segundo escalão alemão e que causou a eliminação dos bávaros da Copa da Alemanha, tinha caráter decisivo.

Comparando com o Tigres, então, a diferença é ainda maior: o time de Nuevo León jogou apenas quatro vezes em 2021, todas pelo Clausura da Liga MX, o que dá um jogo a cada sete dias e meio. Sendo mais exato, foram 20 dias entre o primeiro duelo (9/1) e o quarto (29/1), sempre com o intervalo mínimo de seis dias entre as partidas. Neste caso, o tempo de viagem para os dois jogos fora de casa torna-se irrelevante.

Se esta overdose de bola não explica o pauperismo futebolístico que se viu no Catar por parte do representante sul-americano, nada mais explica. Caso não, como fazer para incutir aos atletas conceitos e variações táticas, intensidade e equilíbrio físico e psicológico tendo um jogo a doer praticamente de três em três dias?  Neste tempo, há a necessidade de promover a recuperação física, fazer as viagens para os jogos fora em um país de dimensões continentais e treinar. É, portanto, humanamente impossível. O quadro agrava-se quando o treinador é recém-chegado não só ao clube, mas ao país, e tem, naturalmente, conceitos e métodos diferentes daqueles aos quais o elenco está habituado.

Quando o futebol parou, ainda em março, havia a possibilidade de que a fórmula de disputa do Campeonato Brasileiro - para ficar naquele que consome a maior parte do calendário - fosse alterada para que menos datas fossem necessárias. Creio que fisiologistas, fisioterapeutas e preparadores físicos não tenham sido consultados. Se foram, não foram ouvidos. Então, manteve-se o modelo que está vigente desde 2003: todos contra todos em turno e returno em longas 38 rodadas. Agora, soma-se isso aos compromissos pela Libertadores, pela Copa do Brasil e pela reta final do Paulista com o arquirrival Corinthians, e que acabou vencido pelos então comandados de Vanderlei Luxemburgo e teremos este absurdo número de partidas. 

É verdade que o Artigo 8º da Lei 10671/2003, o Estatuto do Torcedor, reza que se "adote, em pelo menos uma competição de âmbito nacional, sistema de disputa em que as equipes participantes conheçam, previamente ao seu início, a quantidade de partidas que disputarão, bem como seus adversários". Os pontos corridos, pois. No entanto, o mesmo Estatuto do Torcedor, em seu Artigo 9º, inciso 5º, assevera que alterações podem ser feitas após a divulgação desde que haja "interrupção das competições por motivo de surtos, epidemias e pandemias que possam comprometer a integridade física e o bem-estar dos atletas, desde que aprovada pela maioria das agremiações partícipes do evento".

Não aconteceu, como é sabido. Poderia ser feito, mas não foi. 

Nenhum dos envolvidos pode reclamar, já que nada fizeram para diminuir a carga de jogos. No entanto, quem é formador de opinião (perfil bobinho de Instagram não conta, é bom dizer) tem a obrigação de levar todos estes pontos em consideração. É raso discutir o desempenho sem levar em conta o contexto. É pobre taxar como vergonha ou vexame a campanha ruim, como se a preparação tivesse sido ao menos próxima do ideal. É covarde imputar ao treinador e à sua suposta inexperiência a performance abaixo da crítica.

Qualquer coisa diferente disso é conversa de boteco. 

Foto: Mahmoud Hefnawy/dpa

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Rogério Ceni, o estofo e o preço de uma fama que nem deveria ter

Muita expectativa para pouco resultado de quem mal começou a carreira (Foto: Alexandre Vidal/Flamengo)

Rogério Ceni sofre a pressão de ter um nome maior que a sua carreira como treinador efetivamente mostra. Isso, além do fato de ter assumido o clube com o maior orçamento do país em uma temporada atípica, faz com que seu trabalho seja decepcionante. Ceni chegou ao Flamengo depois da segunda passagem bem sucedida pelo Fortaleza, onde a pressão nem se compara com a encontrada nos outros dois grandes que treinou sem lá muito – ou nenhum – brilho: São Paulo e Cruzeiro. Não difere muito do percurso do Eduardo Baptista, só para citar um treinador que fez água num grande, mas que nunca contou com a mesma boa vontade de quem ganha a vida opinando sobre o trabalho alheio. 

Ceni tem um discurso novo, uma metodologia que transborda modernidade aos ouvidos de uma parte da imprensa que é bem receptiva a ele. Mas ninguém poderá dizer que ele foi coagido a aceitar os cargos que exerceu desde que debutou na função já comandando o São Paulo. Aí erram todos, se é que podemos classificar assim as escolhas de carreira do maior goleiro-artilheiro da história. Erro mesmo, no caso, quem comete é a mídia. Boa parte da imprensa especializada – nunca é bom generalizar – o analisou pelo que torce para que seja, não pelo realmente é: um técnico promissor. Sim, promissor, mas sem o estofo necessário para ser "o melhor treinador do país", como alguns apressados (e sedentos por novidades no mercado interno) disseram. 


Aí, pegue um elenco estrelado e mimado, que atingiu o topo em pouco tempo; um calendário amalucado pela pandemia, com jogo em cima de jogo e desfalques, ora por lesão, ora pela Covid-19; e a pesada herança deixada por Jorge Jesus. Qual é a chance de dar certo quando não há tempo para treinar? E sem essa de “ele teve uma semana cheia de treinamentos entre os dias x e y”, como se seis ou sete dias fossem suficientes para que os métodos e as ideias do treinador – que o pessoal gosta de chamar de filosofia de trabalho – sejam absorvidos. 


"Ah, mas o Abel Ferreira passou pelo mesmo e veja o Palmeiras na mão dele!". São situações diferentes, principalmente porque um tem o que o outro ainda não tem: estofo. Estofo e formação em Portugal, onde o nível do que é estudado e trabalhado está muito à frente daqui, gostemos ou não. 


E é isso o que falta a Rogério Ceni: estofo. Mas não se compra isso no mercado ou em semanas acompanhando os treinos de grandes caras, como o Ancelotti. É no dia-a-dia. É errando e acertando. É fazendo um monte de bobagens e aprendendo com elas. Da mesma forma que não basta ter sido o dono do vestiário por duas décadas. Muda-se a função, as responsabilidades são outras, as decisões a serem tomadas também, e a história escrita é apenas isso: história. 


E a história dele, Rogério, como treinador ainda está no início. Que tratemos como tal. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

No caso da 'morte' de Gugu Liberato, só quem morreu foi o Jornalismo

Foto: Antonio Chahestian/Record TV
É desastroso o papel desempenhado por alguns jornalistas e veículos de comunicação no caso do acidente do apresentador Gugu Liberato. O diz-que-diz, para não chamar de fofoca, que envolve o trabalho de porco feito por parte da imprensa, é um nojo. É tudo aquilo que um jornalista, de qualquer editoria, quem quer que ele seja, não pode fazer. 

Ninguém pode dar notícia que não existe, por mais que seja de algo iminente. É iminente, ou pode ser, mas não é fato. O trabalho da imprensa é informar, só que isso envolve uma série de observações a serem feitas: é necessária, antes de qualquer coisa, uma apuração cuidadosa, cujo único critério a ser observado é o respeito aos familiares, aos amigos.

E daí que os outros podem dar? É furo? Morte de celebridade não é furo. É uma notícia que deve ser dada quando puder ser dada, com ética, respeito e cuidado. Como qualquer outra. Ou melhor, envolve muito mais cuidado do que algo que somente justifique uma "errata" num cantinho de uma página qualquer.  

Não se usa "suposta morte". Não se pode escrever ou falar "teria tido morte cerebral". Não é o caso de divulgar e depois apurar e, se for o caso, retificar. Jornalismo não é fofoca. Prestação de serviço que não presta é desserviço.

Quando o imenso Ricardo Boechat faleceu, muita gente já sabia, mas não se noticiou antes que a família soubesse, e antes que a Band, onde ele trabalhava, divulgasse. Aí podemos discutir se a prioridade à emissora é válida. Aos familiares, é mais que obrigação profissional, é questão de caráter, de dignidade. Eles nunca devem saber pela imprensa. Nunca, em tempo algum. Não há hipótese ou mas que justifique o contrário. Se houver, reveja. Se ainda assim, você achar que há, levante-se e saia: você não serve para ser jornalista.

Talvez nem para ser gente você preste.

Atualização: Augusto Liberato, 60, teve seu falecimento confirmado algumas horas depois de este texto ser publicado.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Sidão, Rede Globo e a quinta série



Ao entrar em campo para o jogo com o Santos, Sidão era mais que o Sidão. Era o Sidney Aparecido Ramos da Silva, 36 anos, que perdeu a mãe aos 18 e que, naquele Dia das Mães, tinha o nome da dona Vera Lucia na camisa. Ele entrou em campo disposto a dedicar a partida à sua memória e, ao fim do jogo, certamente só tem motivos para esquecer este dia.

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Nem tanto pela atuação ruim. Não foi a primeira, não será a última, tampouco foi o único a passar por isso. Porém, a humilhação à qual foi submetido por causa da desastrosa e desastrada ação da Rede Globo, que deu o direito ao “amigo internauta” decidir o “craque do jogo” e, mesmo diante de uma clara demonstração do quanto o brasileiro é galhofeiro, resolveu ir até o fim de “premiar” o jogador.

Não fosse por isso, seria um jogo que em três ou quatro anos pouca gente se lembraria. Trivial, com um Santos bem treinado e triturando o que sobrou do Vasco da Gama, o desempenho dos times era previsível e, mesmo sem o erro do primeiro gol, o Peixe tinha tudo para vencer com relativa facilidade.

A atuação de gala de Rodrygo e a pavorosa exibição do time da Cruz da Ordem de Cristo ficaram em segundo plano diante do embaraço da repórter Julia Guimarães e da resignação de Sidão. Duas vítimas da falta de tato de quem deu a ordem de entregar a tal honraria.

Já houve quem dissesse que o goleiro errou ao abandonar a entrevista ou que a jornalista deveria se recusar a fazê-lo. É fácil falar quando o julgamento será feito de qualquer maneira. Mas a questão é que quem julga é, na verdade, o grande culpado.

Vivemos uma era de idiotização constante, em que tudo é razão de chacota, mesmo que o preço seja a humilhação. Um dia de trabalho ruim é motivo de riso, como se quem faz troça não estivesse sujeito a isso. É como a assistência que ia às arenas sedenta de ver o polegar apontado para baixo. De um modo geral, quem colaborou com isso não é muito diferente deles, à espera de uma falha para fazer o movimento giratório e virar o dedão para o chão, fazendo dos atletas a nova versão dos cristãos a serem servidos aos leões.

Só que o torcedor - e só o torcedor - pode. Pode e é bom que faça, para o bem do próprio esporte. Não, não estou relativizando. Desde que não haja crime de injúria racial, homofobia ou de qualquer outra espécie, o sujeito que paga o ingresso pode provocar o adversário para tentar desestabilizá-lo. Ora, eu mesmo fui uma das vozes que gritaram que o Junior Baiano tinha afundado a Seleção em um Portuguesa x Palmeiras de 1998, poucos minutos antes de o zagueiro fazer o gol da virada – e da vitória – palmeirense por 3 a 2. É do jogo e acabou ali.

O problema existe quando quem deveria mediar a situação abraça os urros que vêm das redes sociais. Por mais que a Globo tente, o futebol é um produto jornalístico, não do Departamento de Entretenimento da emissora, e deve ser tratado com o mesmo cuidado que é tomado quando uma informação é trabalhada. Quando parte da imprensa dá os braços para o jornalismo engraçadinho, o que se vê é aquele espetáculo deprimente de pós-jogo do Pacaembu, como já havia acontecido com o também goleiro Muralha, outra vítima da perseguição travestida de deboche.

Repito: a troça cabe ao torcedor. Por mais leve que possa ser, o Jornalismo deve primar pela responsabilidade. Assusta saber que o movimento que “elegeu” Sidão ganhou força a partir desses perfis que se dedicam a tirar o sarro de todo mundo, mas que, desgraçadamente, formam opinião o suficiente para reverter a palhaçada em 90% dos votos. Faz parte, ainda mais com o aspecto e o espaço para a diversão existente na rede. Que isso, no entanto, fique restrito a elas. À imprensa, sobretudo à Rede Globo, que o episódio sirva de exemplo para abandonar coisas do tipo Inacreditável Futebol Clube e outras dessas bobagens que vivem da exposição alheia para agradar quem pensa que a verdade do mundo se resume ao YouTube, ao Desimpedidos e aos programas do Danilo Gentili.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Perdão, Boechat

Perdemos Ricardo Boechat. Mais uma vez, uma desgraça que poderia ser evitada, não fosse a cretina mania tupiniquim do “depois a gente vê”. Segundo reportagem de O Globo, o helicóptero em que estavam o jornalista e o piloto, Ronaldo Quattrucci, que também morreu, não tinha autorização para fazer o serviço de taxi aéreo. Se levantou voo, é porque alguém permitiu. Quattrucci era um piloto experiente e sócio da empresa dona da aeronave.

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Falta fiscalização no Brasil. Falta tudo neste país que foi feito para dar errado desde o início. E é assim porque somos um bando de hipócritas, cuja indignação tem prazo de validade. Mariana, Boate Kiss, enchentes em Nova Friburgo e Niteroy,  ciclovia Tim Maia, Brumadinho, Voo 1907 da Gol (aquele que resvalou em um jatinho Legacy e caiu na floresta) , Voo 3054 da TAM, Morro do Bumba, voo da Chapecoense, Ninho do Urubu, sem contar outros casos que não causam repercussão. Em comum, a todos, o fato de alguém ter deixado, por omissão, incúria, desmazelo, ganância. Deem o nome que quiserem. Prefiro chamar de desprezo à vida alheia.

Por ironia, o último comentário de Ricardo Boechat, na Band News, foi sobre o quanto dura a comoção. A tragédia de Brumadinho já deixou, segundo ele, as capas dos jornais, ocupadas agora pela desgraça que matou dez meninos na base do Flamengo, clube de coração do jornalista, na última sexta-feira.

Ricardo Boechat era um âncora que não perdeu sua essência de repórter, que é, em suma, a parte mais importante, a matéria-prima do Jornalismo. Este jornalismo perdeu um dos seus melhores combatentes. Uma esposa perdeu seu marido, pai de seis filhos. O piloto deixou dois. E o Brasil chora, mais uma vez, um choro que tem hora para começar e terminar, que é a próxima tragédia anunciada. Anunciada e negligenciada, como tudo o que acontece neste país de merda.

Perdão, professor.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sobre ofensa, oportunismo e Jornalismo



"Sou homem pra c...!"

"Suei muito para chegar aqui!"

"Eu estudo. Não cheguei por acaso!"

O que poderia ser uma autoanálise e mais pareceria argumento de quem está se preparando para uma entrevista de emprego, é a prova de que Eduardo Baptista está pressionado. Alguém à vontade, confortável, não teria a reação que ele teve após a épica vitória sobre o Peñarol, no Uruguai, por 3 a 2 de virada.

Fazia mais de 40 anos que o Palmeiras não vencia em terras cisplatinas. É provável, caro leitor, que você ainda não tenha sido dado à luz quando o Verdão venceu no Uruguai pela última vez. Já seria assunto suficiente para o pós jogo.

Seria.

Não foi porque os aurinegros resolveram armar uma tocaia aos palmeirenses ainda no gramado do Campeón del Siglo, porque Felipe Melo foi perseguido e reagiu, porque os 19 seguranças palmeirenses evitaram uma tragédia. E porque Eduardo Baptista resolveu falar.

Logo no início da coletiva de pós jogo, começou a falar com firmeza, que deu lugar à indignação e meia dúzia de socos na mesa enquanto o volume da voz ia aumentando, até que exagerou no tom. Tudo que é exagero sobra, e, neste caso, a sobra é o exagero no argumento que lhe tira a razão.

Sem citar o nome, cobrou do jornalista Juca Kfouri que revelasse a fonte que lhe disse que Baptista tinha sido "convencido" por Alexandre Matos a escalar Róger Guedes contra a Ponte Preta. "Não sou maleável! Exijo respeito! Sou homem pra caralho!" 

A torcida, é claro, adorou. Este é o papel dela. E Eduardo Baptista aproveitou para sair, mesmo momentaneamente, de questionado para assumir uma condição de herói, de quem suportou a pressão com estoicismo e que se insurgiu contra as injustiças causadas por um jornalista malvado que apenas fez seu papel.

Quando o sujeito precisa ficar se explicando muito, é porque algo está errado. Ou, como diz um antigo provérbio português, "Quem se escusa, se acusa". Gosto muito dos provérbios portugueses.


Já disse Willian Randolph Hearst (1863-1951), jornalista americano que serviu de inspiração para o personagem protagonista do filme Cidadão Kane: "Jornalismo é publicar aquilo que alguém quer que não se publique. Todo o resto é publicidade". Juca tinha a informação, passada por uma fonte de sua confiança. Se ele a julga relevante o suficiente para ser notícia e tem confiança em quem a passou, vai segurar por quê? Isso é jornalismo! Todos, principalmente jornalistas, deveriam saber disso.

Como se não bastasse, Baptista exigiu que Juca, de quem - reitero - não falou o nome, falasse quem é sua fonte. Não, professor, o jornalista não revela sua fonte e isso não só é sagrado na profissão como é previsto em lei, e esta é a matéria-prima do jornalismo. Assistam ao filme O Informante e entendam, caso discordem. A reação do treinador é compreensível, mas colocar em dúvida o procedimento do jornalista não tem o menor cabimento.

É preciso entender o contexto. Baptista explodiu daquele jeito porque está pressionado. Está pressionado porque seu trabalho é pífio à frente do elenco mais caro da América do Sul. É pífio porque não consegue dar padrão ao time e porque, a cada jogo, o nome de Cuca ecoa na sua. E também porque o Palmeiras ganhou um jogo complicado, mas que só foi assim por causa do desempenho horroroso do primeiro tempo, quando o sistema escolhido por ele não deu certo. Seu mérito foi entender a bobagem que fez e consertar. O lado bom foi admitir o tamanho do erro e não se debruçar em números para justificar uma escolha equivocada.

Foi oportunista.

Eduardo Baptista tem todo o direito de se sentir ofendido e é perfeitamente compreensível que assim seja, mas existe a Justiça para pedir a reparação, em vez de ser numa entrevista coletiva, onde não há replica, onde os comportados repórteres perguntam, mas não questionam, onde Juca Kfouri não estava para responder. Insisto: Juca confia na fonte e por isso deu a informação. É mentira? Que seja interpelado judicialmente e prove.

Só Eduardo sabe onde e o quanto incomoda ter sua competência posta à prova a cada rodada depois de ter se preparado, ter estudado tanto, como ele mesmo disse, como se isso desse a garantia de que o trabalho é bem feito. Já disse isso antes nesta mesma tribuna sobre ele mesmo: defendo que a diretoria deva dar condição e respaldo para que ele trabalhe e possa, com tempo e condição para isso, ter a chance de apresentar seu trabalho da melhor forma, mas não é dando esse tipo de chilique que ele irá conseguir o respeito que julga merecer.

Mesmo porque sua aura de herói, como todas as verdades do futebol, irá durar somente até a próxima partida ruim.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Que horas são?

IMPLACÁVEL Pequeno torcedor lamenta a perda de seus heróis
 na triste arquibancada da Arena Condá (Nelson Almeida/AFP)
 

Acordei com o choro da minha filha, que está com o ouvido inflamado. Fui lavar o rosto antes de pegar o antibiótico. No celular, notificações de mensagens chegaram. Uma, duas, 10, 50. Cinquenta? Depois eu vejo. Tenho que dar o remédio da pequena. Voltei, já eram mais de 150. De várias pessoas e grupos. Todos os de futebol. O que aconteceu?

Abri. Não, deve ser brincadeira. No outro, a mesma coisa. E no outro, no outro, em todos. “Você conhecia os jornalistas?” “Viram o que aconteceu com o avião da Chapecoense?” “Que tragédia!” É um pesadelo. É um engano. Ligo o rádio, a TV, vou ao Twitter. Não, não é um engano. É a equipe da Fox. Deus do céu! O Mario Sérgio estava no voo. Puta que pariu! É verdade mesmo. Procuro por informações. O Danilo também morreu? Não, foi dado como morto, mas está sendo operado. A Teleantioquia deu que ele faleceu. Não, a mãe deu entrevista garantindo que ele está vivo. A Caracol também diz que morreu. Está ou não está? A imprensa, que deveria informar, está perdida. Desinforma. Prestação de serviço que não presta. Desserviço.

Olho para o relógio, mas segundos depois não me lembro de que horas são. Preciso de um café. Está garoando, mas preciso respirar. Saio mesmo assim. O tempo passa lento, o dia passa arrastado, o ar é pesado, denso. Que horas são? Olho para o pulso, mas deixei o relógio em cima da mesa.

Na mente o jogo de domingo. Bruno Rangel, Gil, Ananias, Caio Júnior. Os nomes não param de girar em volta da minha cabeça. Olho o celular e as informações continuam confusas. Danilo. Sobreviveu? Não? E o Follmann? Ah, amputou uma perna. Ele morreu também. Espera! Não, não morreu. Cacete! Jornalismo de merda esse que não informa, que não checa. Que tem pressa. Precisa sair antes do outro. Mas tá errado, chefe! Tanto faz, depois arruma.

Busco outra vez pela tela do celular. Mais mensagens. Muitas. Viu que o Tiaguinho ficou sabendo esses dias que seria pai? Recebo o áudio do Mauro Beting. Mario Sérgio estava decidido a deixar a Fox pela voz embargada do ex-companheiro de tela e de luta. Porra, o Mário! Sinto cortar o coração.

Aparecem os caça-clicks. “Veja as fotos do acidente”. “Veja a galeria de pessoas que fizeram selfies segundos antes da morte”. Malditos! Procuro abstrair, mas não consigo. Olho em volta e tudo se move lentamente. A rua parece um grande cemitério em movimento. Sem cor. O cheiro é de dor. É de morte.

Recebo pelo celular a lista com os nomes dos passageiros. Vejo amigos de amigos. Gente que vi no domingo, pela TV. Que não via há tempos. Com quem não falava há mais de um ano. Resolvo ligar para confortar quem também perdeu amigos, esses mais próximos que eu. Quanta pretensão! É impossível, mas vou mesmo assim. Falo com um, dois, três. Produtores, repórteres, amigos. Não pergunto como estão. Seria estúpido e desnecessário.

Volto para casa e vejo as horas. De novo me esqueço, segundos depois. Viu que o seu Benfica quer emprestar jogadores? Que bacana! Solidariedade sem gesto concreto é como abraçar árvore. O PSG vai doar não sei quantos milhões. Sério? Não, é mentira. Quem será o vagabundo que fica plantando isso?

Homenagens. Tottenham, Real Madrid, De Gea, Messi, Figo, o mundo. Liverpool."You'll Never Walk Alone". O Torino e o Manchester United também. Eles também sabem o que é perder um time de uma vez, o que é ver heróis e sonhos se espatifando após um voo infeliz. Minuto de silêncio nos clubes. Coletivas canceladas. Treinos suspensos. O dia acontece não acontecendo. Não deveria acontecer. O Vasco anuncia o novo técnico. Idiotas!

O distintivo da Chape está em todo lugar. Em todos os clubes. Até o Corinthians veste verde hoje. A Portuguesa, quebrada e falida, oferece ajuda. É bonito. É triste. Vejo o menino sentado, sozinho, na arquibancada da Arena Condá. É triste. O Atlético Nacional abre mão da disputa da final e pede o reconhecimento do adversário campeão. Amigos choram. Busco o relógio outra vez. Mero costume, cacoete. Não sei que horas são, mas não importa. Parece que o mundo está subindo uma ladeira com todo seu peso nas costas. Pesado. Sofrido. Lento. Estúpido.

Percebo que não almocei. Que mal bebi água. Minha filha dorme. Olho pela janela e já está escuro.

Que horas são?